3. CHEGADA DA LITERATURA DE CORDEL NO BRASIL
4.2 AS SEXTILHAS
Entre os poetas brasileiros da primeira geração as estrofes mais utilizadas foram as sextilhas e as décimas. A setilha foi pouco usada por aqueles poetas, vindo a se popularizar nas gerações seguintes. Leandro Gomes de Barros foi o mestre das sextilhas. Ele escreveu diversos romances (poemas rimados) com mais de 150 sextilhas. Era comum ele escrever textos, como João da Cruz com mais de 250 estrofes.
Cancão de Fogo é um personagem criado por Leandro Gomes. Trata-se de um pícaro que engana todo mundo: juiz, padre, fazendeiro etc. é um dos muitos folhetos de gracejo que o bardo paraibano criou. Nas estrofes a seguir veremos como Leandro desenvolveu uma personagem tão perspicaz:
Cancão chegou adiante, Voltou por dentro do mato, Dizendo com seus botões:
"Quem morre de fome é pato.
Quem trabalha Deus ajuda, O pão é muito barato. [...]
- Pai e mãe é muito bom, Barriga cheia é melhor;
A moléstia é muito ruim, Porém a morte é pior;
O poder de Deus é grande, Porém o mato é maior. [...]
O frade saiu dali
Se benzendo amedrontado, Dizendo: - Aquilo é o cão Em um ente transformado!
Me valha o rosário bento E o madeiro sagrado!251
251 BARROS, A Vida e testamento de Cancão de Fogo II, 2016 p. 9, 10, 18.
111 Leandro Gomes também escreveu muitas pelejas, algumas delas fictícia como a famosíssima Peleja de Manoel Riachão com o diabo. Trata-se de um folheto todo escrito em sextilha aberta. Tem uma simples introdução da peleja, não tão bem elaborada como Firmino Teixeira do Amaral usou na Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho. O estilo é próprio das cantorias de Portugal e do Brasil, com estrofes alternadas para cada um dos interlocutores, vejamos algumas dessas estrofes:
R - Você nega porque quer Está conhecido demais Você anda aqui fugido Me diga que tempo faz?
Se você não for cativo Obras desmentem sinais.
N - Seja livre ou seja escravo Eu quero cantar martelo Alinhe sua viola
Vamos entrar em duelo Só com a minha presença O senhor está amarelo.
R - Vejo um vulto tão pequeno Que nem o posso enxergar Julgo que nem é preciso Nem a viola afinar Pela ramagem da árvore Ver-se o fruto que ela dá.
N - Riachão, isto é frase De homem muito atrasado Porque são vistos fenômenos Que na terra tem se dado Uma cobra tão pequena Mata um boi agigantado.252
Pela referência que a personagem Manoel Riachão faz do diabo, desconfiando que ele seja um negro fujão, podemos deduzir que Leandro escrevera esse cordel ainda na época da escravidão ou logo após a abolição da escravidão no Brasil em 1888. Esse estilo de compor versos é típico da poesia oral de Portugal, bem como da poesia oral brasileira, em especial a nordestina.
Assim como no Brasil os poetas escreviam suas pelejas e as publicavam em folhetos no final do século XIX, bem antes, também faziam seus irmãos de rima os portugueses. Como
252 BARROS, Leandro Gomes de. A peleja de Manoel Riachão com o diabo. [19 --], p 2.
112 já analisamos o folheto Poesia dedicada a uma orphã de pae e mãe que tendo sido criado com seu avô da idade de dois annos, aos doze, lhe declarou que queria se casar, e o avo lhe desviava-a dando-lhe conselhos nas seguintes conversas, como adiante explico, o qual foi escrito em sextilhas abertas no ano de 1873.253
Nesse ano de 1873, Leandro Gomes de Barros tinha 8 anos de idade. Silvino Pirauá, que não nascera em 1848 e sim em 1860 estava com 13 anos de idade. Logo podemos deduzir que tanto leandro como Silvino encontraram um estilo pronto de fazer poesia. Estilo esse que já estava espalhado pelos sertões do Brasil. Vejamos outro folheto portugues escrito em 1896 escrito no mesmo estilo de duelo poético.
ARGUMENTOS
Pae
Oh filha porque suspiras Diz-me o que te aconteceu, Vejo-te hoje tão triste Que soffrimento é o teu?
Faço-te essa pergunta, Como pae, é dever meu.
Filha
Meu pae não posso contar-lhe Os segredos do meu peito, Se lhe disseste o que sinto Não ficava satisfeito;
Não lhe quero dar desgostos Sempre o tratei com respeito.254
Esse poema de cordel tem por título “Duas bonitas cantigas com respeito á secca deste anno”. Ele foi escrito em Portugal no ano de 1896. Uma peculiaridade nessa poesia de duelo em Portugal é que os desafios são feitos para ser cantados ou declamados por um homem e uma mulher; as vezes pai e filha, avô e neta, marido e mulher etc. Outro folheto português do século XIX, porém sem data também tem essa característica é O namoro de Micas. Vejamos:
ELLE
O´ Micas, tu d´onde vinhas Este domingo passado Andas sempre a negar Que não tinhas conversado.
Quem era então esse typo Que trazias ao teu lado?
253 (PIMENTEL, Antonio 1873)
254 SANTOS, Duas bonitas cantigas com respeito á secca deste anno. 1896
113 ELLA
E´ um rapaz da minha terra E que ainda é meu parente Posso passeiar com ele Que é um rapaz muito decente Se é d´esses que desconfias Escusas de estar mal contente.255
O poema prossegue nessa desconfiança do namorado de Micas. Sempre num tom engraçado a porfia. No final o casal faz as pazes e o homem que estava desconfiado, aceita a situação embaraçada em que o relacionamento deles se encontra. Nessa mesmo toada temos ainda outros poemas como O militar e a sopeira, Namoro de Candidinha, Namoro da jardineira entre outros.256 Todos esses publicados em folhetos na virada dos séculos XIX/XX nas terras de Portugal.
A sextilha corrida (que tem esquema de rimas: AABCCB), foi outro estilo muito usado pelos poetas populares de Portugal. Leandro Gomes de Barros não fez longos textos com esse estilo poético. Apenas pode-se observar algumas poucas estrofes dele sempre em fins de folhetos, isso para completar o número ideal de páginas. O poema “Uns olhos” mostra que o poeta também conhecia esse estilo, vejamos:
Tem o perfume da flor E´s fina como o amor Tão firme quanta amizade O inventor da existencia De belleza e inocencia Te fez desta qualidade.
Teu hálito é um odor Que exalou de uma flor Que tinha no paraíso Teu rosto da cor de um véo Provoca os anjos do céo Virem beber teu sorriso.257
Esse mesmo estilo poético (sextilha corrida) Leandro também utilizou no poema de oito estrofes por nome Recordações que foi publicado no final folheto Cachorro dos mortos de 1919.258 Porém no poema Recordações o texto não obedece à métrica convencional do cordel.
Esse tipo de sextilha também aparece nos folhetos de cordel da Escola de Poesia Popular no
255 Chegada dos soldados portugueses, Grande castigo e um grande prodígio, Namoro de Micas. [S.L.: s.n.] [1914?]
256 Disponível para consulta presencial na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia, sob o título de Literatura de cordel, localização: LC/JLV/Cx. 11 (BMNARQ) - 8365
257 BARROS. Affonso Penna. p.15, Recife: [s.n]1907?
258 BARROS. O cachorro dos mortos,1919, p 46, 47
114 Norte do Brasil. Quem desenvolveu com mais frequência cordéis em sextilha corrida foram os poetas da segunda geração residentes em Belém-PA.259 Em Portugal também se via, raramente folhetos com esse tipo de sextilha como o folheto “O que as meninas todas teem” de 1916.
Vejamos a primeira estrofe do poema:
O que teem as meninas, Que na rua mui ladinas, Nos provocam a ... paixão?
Queres saber, leitor amigo, Escuta lá, eu te digo, Presta, portanto atenção.260
Eu não encontrei outros folhetos contendo esse tipo de sextilha na literatura de cordel de Portugal. Porém a poesia oral portuguesa sempre foi cheia desse tipo de estrofe e de outras sextilhas. Michel Giacometti catalogou nos anos de 1970 centenas de poemas narrativos de Portugal, a maioria no norte do país. Ele registrou em dois volumes essa coletânea de poemas.
Nesses livros têm algumas narrativas em sextilha corrida e em sextilha aberta. Vejamos duas estrofes em sextilha corrida do poema Amor e Sacrífico:
Há dois anos namoravam, Os dois jovens se amavam Com amor e lealdade;
Entre António e Maria, Os dois corações havia Uma sincera amizade.
No dia da despedida, Pouco antes da partida, Foram os dois ajoelhar Num amor puro e sincero Uma jura então fizeram Sobre as escadas do altar.261
O texto tem erro de concordância e uma rima aparente (sincero/fizeram) na segunda estrofe, algo comum na poesia popular. O poema é um pequeno romance em dezenove estrofes, o qual fala do amor entre esses dois jovens, mas que os pais da moça atrapalharam tal namoro tudo. O poema foi recolhido da oralidade em 1975. Talvez existisse o folheto contendo essa história. A poesia foi citada para Michel Giacometti por uma pessoa analfabeta de 69 anos de idade.
259 Para uma análise mais detalhada dos cordéis produzidos no Norte do país, vide os folhetos disponíveis para consulta presencial no Museu da UFPA em Belém-PA.
260 O que as meninas todas teem. 1916, p. 2
261 (GIACOMETTI. 2009 p. 159)
115 Podemos perceber as similaridades entres as sextilhas da poesia popular portuguesa com as sextilhas da poesia popular brasileira nesses exemplos. No Brasil as sextilhas são a mola-mestra da poesia popular impressa. Os romances, gracejos, histórias de valentia, pelejas, histórias de cangaceiros etc são na maioria desenvolvidos em sextilhas abertas.
Na poesia popular portuguesa, parece, que a sextilha aberta ficou restrita aos duelos entre um homem e uma mulher. As narrativas em quadras foram as preferidas do povo português. A narrativa em décima também foi utilizada pelos poetas populares de Portugal como veremos no próximo capítulo.