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Rev. adm. empres. vol.45 número3

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Academic year: 2018

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JUL./ SET.2 0 0 5 • ©RAE • 5

Nem sempre o editor consegue controlar a pauta numa revista científica. Isso porque o material que finalmente se torna disponível para ser publicado passa por todo um pro-cesso de avaliação, revisão e editoração, que escapa ao seu controle. Isso faz com que possa haver um desequilíbrio de conteúdo, privilegiando certas áreas e omitindo outras. Acredito que o desejável é ter sempre artigos que cubram várias áreas.

Mas isso não acontece neste número. Por coincidência, ele acaba mais inclinando para a estratégia e, no interior da estratégia, acaba se voltando para metáforas ou referenciais provenientes da biologia evolutiva. Isso porque o artigo de Kimura, Giro Moori e Asakura embarca numa exploração de usar algoritmos genéticos para nos falar de difusão e uso de tecnologias como formas de levar adiante estratégias competitivas. E na seção “RAE-clássicos” publicamos a tra-dução do artigo de Michael Hannan e John Freeman sobre ecologia populacional de organizações. Embora oriundos de caminhos científicos diversos – os brasileiros, sólidos engenheiros, com formação quantitativa, e os dois america-nos, bons sociólogos, com base biológica e conhecimento matemático não desprezível –, acabam explorando o uni-verso da biologia evolutiva como forma de explicar ações organizacionais. O artigo clássico de Hannan e Freeman é um exemplo de como conceitos desenvolvidos há quase dois séculos por Charles Darwin podem auxiliar na teorização e na explicação de ciclos de vida das organizações. Ora, a es-tratégia só conhece o sucesso. O que não for bem-sucedido não merece registro no mundo dos estrategistas. Exatamente como as espécies extintas perdem a relevância para expli-car o que acontece no ambiente biológico.

Temos a Pensata de Armando de Melo Lisboa, em que lida com a questão da autogestão na economia solidária. Propostas de um sistema econômico alternativo surgiram desde a Primeira Revolução Industrial. Basta lembrar o apa-recimento dos socialistas utópicos. As raízes da economia solidária são múltiplas, mas uma delas é certamente o so-cialismo utópico e uma maneira de ler e entender os valo-res do cristianismo. Digo uma maneira porque é difícil sa-ber exatamente o que são valores cristãos. Wesa-ber classica-mente lembrou que o capitalismo foi gerado por valores cristãos no seu famoso ensaio em que relaciona a ética pro-testante e o espírito do capitalismo. Nessa linha de pensa-mento, individualismo, sistemas de mérito e competitivi-dade seriam práticas profundamente influenciadas por va-lores cristãos. Não é o que nos apresenta Lisboa como tra-ços da economia solidária que recusa o individualismo, a competitividade e a busca da acumulação em nome de va-lores também cristãos. Afinal, o entendimento do que

se-EDITORIAL

jam valores cristãos pode originar posições até mesmo an-tagônicas ao se tratar de sistemas econômicos e sociais. Acreditamos que a Pensata sirva como alimento para a re-flexão sobre essas ambivalências.

Ain da n a lin h a de u m n ú mero qu e acabou sen do mais den so em estratégia, ch amo a aten ção para a resen h a de Fábio Mariotto sobre Fran cesco Matarazzo. A au toria do livro é de Ron aldo Costa Cou to. A h istória empresarial tem pou ca tradição en tre n ós. Textos sobre empresas e empresários raramen te têm a objetividade qu e se espera n a h istoriografia. O livro resen h ado escapa da ten tação pu ramen te lau datória e n os permite ver, em diversos as-pectos pela primeira vez, aqu ele imigran te italian o qu e até h oje perman ece solitário como o maior empresário qu e já tivemos.

Entendendo que uma parte de nossos leitores são pro-fessores ou pessoas interessadas na formação de adminis-tradores, fomos levados a publicar o texto de Maria Ester de Freitas no novo formato da seção “RAE-documento”. Se ensinar nunca foi fácil, nos dias que correm parece ter se tornado mais difícil. Já se disse que uma sala de aula onde um professor fala e algumas dezenas de pessoas ouvem é um modelo que vem dos tempos do Antigo Império Egíp-cio, há cerca de 4.000 anos. Atualmente tendemos a rom-per com essa secular tradição, e vários exrom-perimentos são realizados em salas de aula para focar a atenção e os esfor-ços dos alunos, tornando o aprendizado mais dinâmico e relevante. O documento narra uma experiência desse tipo realizada pela autora na FGV-EAESP.

Temos ainda os artigos “Ambiente, estratégia e perfor-mance organizacional no setor industrial e de serviços”, de Janete Lara de Oliveira Bertucci; “Organizações, confiabili-dade e tecnologia”, de Ana Carolina S. Queiroz e Flávio Carvalho de Vasconcelos; “Criação de conhecimento nas redes de cooperação interorganizacional”, dos pesquisado-res Alsones Balestrin, Lilia Maria Vargas e Pierre Fayard.

O fato de me deter sobre alguns dos artigos não significa certamente prejulgamento ou qualquer avaliação do con-teúdo da revista. O leitor se beneficiará com a leitura de tudo o que está sendo apresentado.

Entrego aos nossos leitores mais um número da RAE com votos de uma proveitosa leitura.

Carlos Osmar Bertero

Referências

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