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Vocabulário do futebol na mídia impressa: o glossário da bola

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Academic year: 2021

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JOÃO MACHADO DE QUEIROZ

VOCABULÁRIO DO FUTEBOL NA MÍDIA IMPRESSA:

O GLOSSÁRIO DA BOLA

Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista, para a obtenção do Título de Doutor em Letras (Área de Conhecimento: Filologia e Lingüística Portuguesa).

Orientador: Prof. Dr. Odilon Helou Fleury Curado

ASSIS

2005

(2)

FICHA CATALOGRÁFICA

(Catalogação elaborada por Miriam Fenner R. Lucas – CRB/9:268 Biblioteca da UNIOESTE – Campus de Foz do Iguaçu)

Q3 QUEIROZ, João Machado de

Vocabulário do futebol na mídia impressa: o glossário da bola / João Machado de Queiroz. - Assis, SP, 2005.

4 v. (948f.)

Orientador: Odilon Helou Fleury Curado, Dr.

Dissertação (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista.

1. Lingüística. 2. Filologia: Lexicologia . 3. Futebol: Mídia impressa brasileira: Vocabulário. 4. Linguagem do futebol: Neologismos: Glossá-rio. I. Título.

(3)

JOÃO MACHADO DE QUEIROZ

VOCABULÁRIO DO FUTEBOL NA MÍDIA IMPRESSA:

O GLOSSÁRIO DA BOLA

COMISSÃO JULGADORA

TESE PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE DOUTOR

Faculdade de Ciências e Letras - UNESP

Área de Conhecimento: Filologia e Lingüística Portuguesa

Presidente e Orientador

Dr. Odilon Helou Fleury Curado

2º Examinador

Dra. Jeane Mari Sant’Ana Spera

3º Examinador

Dra. Antonieta Laface

4º Examinador

Dra. Marlene Durigan

5º Examinador

Dr. Antonio Luciano Pontes

(4)

A Misue, esposa Por compartilhar as dificuldades e alegrias da vida

A meus filhos Keyla e Fernando Por me incentivarem a lutar

A meus netos Luanna e João Henrique Por me presentearem com momentos de grande alegria

(5)

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Odilon Helou Fleury Curado pela orientação a mim dedicada.

Ao Prof. Pedro Caruso, estimado professor e amigo, que inicialmente me recebeu como orientando, pelo apoio e conselhos inestimáveis, sem os quais não teria concluído este trabalho. Minha gratidão e admiração.

Ao Prof. Mário Torrezan pelas valiosas sugestões.

Aos alunos e ex-alunos do Curso de Letras da Unioeste; Campus de Foz do Iguaçu, pois sem eles não haveria razão para se buscar conhecimento.

(6)

Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.

Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória conquistada sofrerá também uma derrota.

Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.

Sun Tzu (A Arte da Guerra)

(7)

RESUMO

A partir de uma investigação sistemática sobre a mídia impressa contemporânea brasileira, em suas modalidades convencional e sistema on line, com ênfase para o eixo Rio-São Paulo, procedeu-se a um levantamento das constantes lexicais* empregadas, especificamente, na linguagem particular do futebol. O corpus, foco de análise, foi constituído pelo material lingüístico coletado junto à imprensa escrita, em um recorte espacial compreendido no período de 1995 e 2005. Partindo desse acervo lingüístico procurou-se historiar, definir e estudar a prática do futebol, enfocando sua condição de esporte de massa, caracterizando-o, portanto, como um fenômeno social. A forma da escritura, da divulgação de notícias e comentários, envolvendo o universo do futebol, através da imprensa especializada ou não, recebeu uma abordagem investigativa envolvendo itens lexicais da língua comum que integram a linguagem do futebol: elementos autóctones, os vocábulos próprios, pertencentes ao domínio da prática do esporte: os tecnoletos, constituídos por estrangeirismos, decalques, empréstimos e vocábulos de diversas áreas do conhecimento humano que migraram por associação semântica, constituindo-se, por vezes, em uma modalidade de linguagem técnica de caráter banalizado. O processo de criação neológica foi, também, objeto de reflexões e, é exposto, na segunda parte do trabalho, que é constituído por glossário com 3.360 verbetes relativo ao universo do futebol, com notas elucidatórias sobre a gênese dos itens léxicos, constantes das abonações, além de informações gramaticais, etimológicas e enciclopédicas, acerca de cada unidade-entrada.

Palavras-chave: mídia impressa, neologismo, lexicologia, lexicografia.

*

Expressões e vocábulos que se repetem com determinada uniformidade, na imprensa escrita, quando registram assuntos relativos à prática do futebol.

(8)

ABSTRACT

This research aimed at investigating frequent words used to report written news on football. A systematic investigation was conducted in collecting data from Brazilian contemporary printed press and online counterpart, mainly Rio de Janeiro and São Paulo press. The systematized corpus was collected from written press from 1995 to 2005. This corpus was used to research football as a popular sport thus a social practice from a historical perspective. Written texts used to express football news and commentaries by specialized and non-specialized were analyzed and classified: vernacular terms, jargon, common language lexical used in football register, borrowings, literal translation, and words of several human knowledge areas which are integrated by semantics connected. In the second part of the research result, the process of neologism was also analyzed and a glossary 3,360 of football terms was reported with an explanation of each term origin, including grammatical, etymological and encyclopedic information and citation sources.

(9)

SÍMBOLOS E CONVENÇÕES UTILIZADOS

DD - Indica que a unidade lexical ou o item lexical vem registrado no Novo Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda – Séc. XXI com a mesma acepção empregada pelo articulista.

ND - Indica que a unidade lexical não apresenta registro no Novo Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda.

D# - Indica que a unidade lexical apresenta registro com outra acepção daquela empregada no texto.

* - Colocado após a unidade lexical entrada - Indica que se trata de criação neológica. > - Indica evolução diacrônica

( ) - Indica processo de formação léxica e/ou tipologia do neologismo [ ] - Etimologia

ABREVIATURAS DE INFORMAÇÕES GRAMATICAIS E ETIMOLÓGICAS

a) Informações gramaticais art. artigo adj. adjetivo adjt. adv. adjunto adverbial adv. advérbio antrop. antropônimo comp. composição der. derivação empr. empréstimo estrang. estrangeirismo int. interjeição

lex. tex. lexia textual loc. adj. locução adjetiva loc. adv. locução adverbial loc. int. locução interjeitiva num. numeral

neol. fon. neologismo fonológico neol. sem. neologismo semântico onom. onomatopéia pal-val. palavra-valise pron. pronome

(10)

red. reduplicação sadj. sintagma adjetival s.f. substantivo feminino s.m. substantivo masculino

(sn.) sintagma nominal

(sv.) sintagma verbal

s. expand. sintagma verbal expandido trunc. truncação

v.i. verbo intransitivo v.t. verbo transitivo b) Informações etimológicas al. alemão ant. antigo antr. antropônimo ár. árabe cast. castelhano cat. catalão cel. celta cigan. cigano chi. chinês esp. espanhol fr. francês germ. germânico gót. gótico gr. grego it. italiano lat. latim pol. polinésio prov. provençal quíchua. quichua quimb. quimbundo tupi. tupi tno. taino top. topônimo

(11)

SUMÁRIO

VOLUME I 1 PRELIMINARES 14 1.1 Introdução 14 1.2 Justificativa 18 1.3 Objetivos 20 1.4 Procedimentos Metodológicos 21

2 FUTEBOL NO CONTEXTO DOS ESPORTES 26

2.1 Histórico e Evolução 28

2.1.1 O futebol na Ásia 28

2.1.2 O futebol na Europa 28

2.2 A Expansão do Futebol no Mundo 29

2.3 O Futebol no Brasil 31

2.4 Futebol e Marketing Desportivo 35

2.5 A Crise no Futebol Brasileiro 37

2.5.1 Alternativas e soluções para enfrentar a crise 38

3 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS 40

3.1 Variantes lingüísticas 40

3.1.1 Langue e parole 40

3.1.2 Sistema, norma e fala 42

3.2 Língua e Linguagem 45

3.2.1 Linguagem comum e linguagem de especialidade 46

3.2.1.1 Gíria e jargão 48

3.3 Léxico, Cultura e Vocabulário 50

(12)

3.4 Lexicologia 55

3.5 Lexicografia 57

3.6 Processos Lexicogênicos 60

3.6.1 Neologia e neologismo 60

4 TIPOLOGIA DOS NEOLOGISMOS 62

4.1 Neologismos Fonológicos 62

4.2 Neologismos Sintáticos 62

4.2.1 O processo da derivação 63

4.2.1.1 Derivação prefixal 63

4.2.1.2 Derivação sufixal 65

4.2.1.3 Derivação prefixal e sufixal 68

4.2.1.4 Derivação parassintética 69

4.2.1.5 Derivação regressiva 71

4.2.1.6 Derivação imprópria 72

4.2.2 O processo da composição 73

4.2.2.1 Composição por justaposição 76

4.2.2.2 Composição por aglutinação 78

4.2.2.3 Composição sintagmática 79

4.2.2.4 Composição por siglação ou acronímica 86

4.2.3 Neologismos semânticos ou conceptuais 87

4.2.4 Outros processos 91

4.2.4.1 Truncação 91

4.2.4.2 Palavra-valise 92

4.2.4.3 Estrangeirismo e empréstimo 93

4.2.4.3.1 O processo de integração dos neologismos por empréstimo 98

4.2.4.4 Reduplicação ou redobro 99

(13)

5 GLOSSÁRIO: CONCEITO E ORGANIZAÇÃO 102

5.1 Campos macro e microestruturais 103

5.1.1 A macroestruturação 104

5.1.2 A microestruturação 104

6 O FUTEBOL E A LINGUAGEM DA MÍDIA 107

6.1 Economia Verbal e Expressividade 109

6.1.1 A metaforização da linguagem 112

6.1.1.1 Metáforas bélicas 118

6.2 A Divinização dos Símbolos Clubísticos 121

6.3 Menção a Personagens de Destaque do Clube 123

6.4 Superstições: o universo da crença 124

6.4.1 Sorte 126

6.4.2 Azar 129

6.4.3 Falta de sorte 131

6.5 Futebol, Mulher, Sensualidade e Fetiche 132

6.6 Futebol, Cidadania e Identidade Territorial 134

7 ESTRUTURAÇÃO E REGISTRO DO GLOSSÁRIO DA BOLA 139

7.1 Organização Macroestrutural 139 7.2 Organização Microestrutural 140 VOLUME II 8 O GLOSSÁRIO DA BOLA: A - D 149 VOLUME III 8 O GLOSSÁRIO DA BOLA: E - O 408

(14)

VOLUME IV

8 O GLOSSÁRIO DA BOLA: P - Z 659

CONSIDERAÇÕES FINAIS 890

REFERÊNCIAS 897

APÊNDICES 907

Apêndice A - A linguagem das torcidas organizadas 908

Apêndice B - A terminologia do futebol no Brasil e em Portugal 916

ANEXOS 924

Anexo A - Contribuição da mídia: 1995 a 2005 - consulta e registro 925 Anexo B - Sites de torcidas organizadas: consulta e registro 940

(15)

JOÃO MACHADO DE QUEIROZ

VOCABULÁRIO DO FUTEBOL NA MÍDIA IMPRESSA:

O GLOSSÁRIO DA BOLA

VOLUME I

Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP para a obtenção do Título de Doutor em Letras (Área de Concentração Filologia e Lingüística Portuguesa).

Orientador: Prof. Dr. Odilon Helou Fleury Curado

ASSIS

2005

(16)

1 PRELIMINARES

1.1 Introdução

A temática deste trabalho está assentada na investigação da linguagem utilizada por um segmento restrito da mídia, o da imprensa escrita, envolvendo a técnica informacional e o emprego de vocábulos, expressões e empréstimos (autóctones ou não) como forma de criação e expressividade.

Embora o tema focalizado neste trabalho possa, a princípio, parecer corriqueiro, ele se constitui em um inestimável instrumento para o conhecimento de uma significativa parcela da sociedade: os envolvidos com o universo do futebol. Esse envolvimento expõe motivações de ordem histórico-social e cultural. A mídia, ao direcionar a escritura de fatos futebolísticos a um público-alvo particularizado, deixa transparecer a conduta e a ideologia desses leitores, revelando, portanto, um processo de estratificação social e, também, traços distintivos da sua classe social.

A prática globalizada do futebol determinou o surgimento de uma variante lingüística, dotada de vocabulário particular, fascinante e que se incorpora em todas as camadas da população.

O futebol, inegavelmente, ocupa um espaço de destaque no discurso (fala) da vida cotidiana, mesmo para aqueles que não demonstram o menor interesse pela rodada da semana, pela tabela de classificação ou dos eventos esportivos da temporada.

Para o estudo da linguagem veiculada por esse segmento da imprensa, selecionou-se textos relativos ao futebol. Motivou esse critério seletivo a popularidade desse esporte em todo o território brasileiro, propiciando a possibilidade de analisar esse registro numa

(17)

abordagem, também, sociolingüística, levando em conta sua capacidade de ampliar possibilidades de criar recursos expressivos.

Assim sendo, o registro formal da linguagem particular do futebol, no âmbito da mídia impressa, através de seus cronistas e redatores, por sua peculiaridade, constitui uma inesgotável fonte de criações neológicas.

A preferência por um determinado time, transcende ao próprio esporte, representando uma marca de identidade e uma forma de ser.

Esse traço de identidade grupal, assumido pelo torcedor a partir do momento que, publicamente, manifesta sua preferência por uma determinada equipe, é algo muito especial. A partir desse momento sua vida pessoal, social e profissional terá suas relações orientadas pelo desempenho dessa equipe durante um determinado jogo, um torneio ou no transcorrer de uma temporada.

Sentimentos como alegria, tristeza, expectativa, desapontamento, vibração, euforia, surpresa e espanto passam a ser reações que se incorporarão ao dia-a-dia desse torcedor, com profundos reflexos em seu comportamento social e, conseqüentemente, em sua linguagem.

A linguagem do cronista esportivo, ao registrar e informar eventos relativos à prática do futebol, amolda-se ao perfil sócio-profissional de seu leitor/torcedor, adquirindo contornos que vão além do caráter meramente informativo, pois ele também acaba por contaminar-se emocionalmente pela passionalidade que cerca o campo de ação de sua atividade profissional, gerando uma modalidade de linguagem, que, por sua peculiaridade, representa uma importante contribuição para a renovação e ampliação do quadro de variantes lexicais da língua portuguesa.

A linguagem, tomada em seu sentido amplo, apresenta-se, basicamente, sob duas modalidades: oral e escrita. Embora o centro de interesse deste trabalho seja a modalidade escrita (jornais e revistas), cabem alguns comentários, confrontando a linguagem utilizada

(18)

pelos cronistas da mídia impressa (veículos impressos) e comunicadores da mídia eletrônica (rádio e televisão).

O registro jornalístico caracteriza-se pela função referencial1, ou seja, é um veículo que introduz o leitor na realidade do mundo, conciliando a eficiência comunicacional e a aceitabilidade social. Existe, portanto, uma íntima relação entre a linguagem da imprensa e o meio social, haja vista ser possível inferir-se a que segmento da população determinado veículo da mídia se destina. E para tanto, basta observar a relação: linguagem adequada X público visado.

A imprensa falada divulga suas notícias esportivas através de transmissões de jogos, reportagens, entrevistas, mesas-redondas, etc.

Na imprensa falada, incluindo em determinados contextos específicos a televisão, o comunicador, principalmente o narrador do evento esportivo, emprega intencionalmente uma linguagem mais rebuscada, numa busca constante à criatividade. Os motivos que levam esse profissional a proceder dessa maneira são, fundamentalmente, dois; 1) imprimir sua marca pessoal às transmissões, ou seja, ser de pronto reconhecido pelos ouvintes; 2) a luta pela audiência. A necessidade de ser original faz com que esse profissional crie novas terminologias para fugir às transmissões padronizadas.

Sob a forma impressa, a modalidade escrita é encontrada em revistas, jornais e periódicos. Embora todos os grandes jornais circulem diariamente com um suplemento ou caderno2 próprio, com notícias sobre esportes, existem jornais e revistas especializados em esportes em geral, em que o futebol ocupa posição de destaque.

1

Função referencial ou denotativa: terminologia adotada para especificar uma linguagem orientada para o contexto, própria de relatos jornalísticos, textos técnicos e/ou científicos, quando se descreve um objeto ou uma experiência.

2

Na linguagem jornalística, denomina-se caderno ao conjunto de páginas dispostas uma sobre a outra, sem grampeamento, que abordam um assunto específico.

(19)

Ao contrário do comunicador, o redator esportivo tem sua criatividade semântico/vocabular delimitada pelos espaços correspondentes às colunas do jornal ou da revista que publica seus textos. Por outro lado, do comunicador, exigem-se a improvisação e a presença de espírito para preencher lacunas ociosas, entre o início e o término de um jogo, ou seja, as reportagens de abertura e de encerramento, as entrevistas realizadas antes, durante e após o encerramento do evento com as personagens que compõem esse universo esportivo.

O comunicador e/ou o narrador televisivo procura manter uma relação de cumplicidade intimista com o ouvinte, de tal maneira que este tem a impressão que a “jornada esportiva” 3 está sendo transmitida exclusivamente para ele. Para criar esse clima de individualidade intimista, durante a transmissão, é comum o uso de expressões como: “Aguarde um instantinho que já voltamos!” – “ Daqui a pouco só para você uma entrevista bomba !” – “ Se eu fosse você eu não sairia da poltrona ...”, etc.

Contudo, convém ressaltar, o uso constante de clichês, de frases feitas e de lugares comuns utilizados pelo comunicador e, com menor freqüência, pelo jornalista, aos invés de indicar uma veia criativa, pode ser um indício de pobreza vocabular.

Na imprensa escrita, depara-se com dois níveis de linguagem:

a) A linguagem encontrada nos editoriais dos jornais de circulação nacional, onde predomina uma forma mais bem cuidada, próxima da literária, portanto de pouco ou quase nenhum interesse para o trabalho ora proposto;

b) A linguagem encontrada nos cadernos ou seções dos diversos jornais, nas revistas especializadas e, ainda, aquela encontrada nos periódicos denominados sensacionalistas, geralmente em formato tablóide. Nestes últimos, observa-se uma clara adequação da linguagem ao público alvo. Desta forma, o registro é menos formal, muito próximo da linguagem oral, pois, em detrimento de noções comunicativo-informacionais, foram

3

(20)

empregadas outras formas mais criativas e expressivas e, também, mais compreensíveis, adaptando-as ao perfil do leitor.

O jornalista esportivo, via de regra, cultiva uma linguagem diferente de outros órgãos da mídia, embora compartilhe inúmeros itens lexicais empregados por suas co-irmãs (rádio e televisão).

Basicamente, a diferença entre a imprensa falada e a escrita está no tratamento que cada uma delas dá à notícia, partindo-se do pressuposto de que noticiar é ajustar enunciados à exposição de uma ocorrência.

O profissional que milita na mídia eletrônica, denominado “comunicador”, emprega intencionalmente uma linguagem mais rebuscada, numa busca constante pela criatividade.

Contudo, convém observar que na mídia eletrônica, sobretudo tratando-se da televisão, quando da cobertura de determinados eventos, esportivos ou não, há uma evidente adequação temporal entre a exposição de um fato e o emprego de uma linguagem fundamentalmente nocional/informativa, em decorrência de uma rígida grade de programação.

1.2 Justificativa

O futebol está incorporado ao cotidiano dos brasileiros, independente de variáveis como faixa etária, classe social e até mesmo sexo, estabelecendo, invariavelmente, uma relação de fascínio, paixão e fanatismo.

Dessa forma, o registro formal dessa linguagem, veiculada pela mídia impressa, através de seus cronistas, por sua peculiaridade propicia e incentiva o surgimento de uma inesgotável fonte de criações neológicas.

(21)

A linguagem dos esportes de massa, especialmente a do futebol, disseminada pela mídia4, constitui-se de uma modalidade idiomática que, há muito, vem despertando o interesse nos meios acadêmicos e, com igual ênfase, em outros segmentos da sociedade.

No Brasil, os mais representativos meios de comunicação em massa da mídia impressa, com exceção do Diário Oficial da União, dedicam diariamente páginas, e até cadernos inteiros ao futebol, principalmente em dias que se sucedem aos jogos, propiciando a redatores e jornalistas amplas oportunidades para criação de terminologias neológicas relativas ao exercício desse esporte.

A prática maciça do futebol, em todas as regiões do Brasil e a sua condição de fenômeno sócio-antropológico, determinaram o surgimento de uma variante lingüística, peculiar à prática do futebol, por si só, suficientemente capaz de influenciar a linguagem dos cronistas que militam na imprensa especializada e, também, do público amante desse esporte. Inúmeros vocábulos e expressões relativos à prática do futebol situam-se numa zona de flutuação entre uma linguagem de cunho técnico, técnico-banalizada e a comum.

Torna-se evidente, mesmo aos não iniciados em estudos léxico-semânticos, a existência de uma influência recíproca, em termos de linguagem, entre o cronista esportivo e o torcedor. Aquele recolhe material da linguagem popular para enriquecer seu vocabulário: “arrumar a cozinha”, “cozinhar o galo”, “desandar a maionese (domínio da culinária); canhão, foguete, míssil, petardo, artilheiro (domínio bélico); bonde, carrinho (domínio do transporte); “abrir as pernas”, “pentear a menina”, “véu da noiva”, “gorduchinha” (carinho e sensualidade), “rabo-de-arraia”, “pernada”, “tesoura” (domínio da capoeira); “animal”, “fera”, “porco” (domínio da fauna); “matar”, “matador”, “cacetada”, “sapatada”, “porrada” (exterminação e violência), etc. E neste, em contrapartida, o torcedor incorpora ao vocabulário de seu dia-a-dia vocábulos e expressões da linguagem particular do futebol:

4

“Mídia: volume socialmente distribuído de veiculação da mensagem. Conjunto de meios de comunicação. Do latim media (plural de medium), através do inglês, que emprestou à palavra sua pronúncia.” (LAGE, 1993, p. 73).

(22)

“jogar no time”, “dar bola”, “encher a bola”, “entrar de sola”, “pisar na bola”, “marcar contra”, “ser regra três”, “tirar o time de campo”, etc.

Mesmo no mundo empresarial e globalizado em que se vive, depara-se inúmeras vezes, no falar dos executivos de grande companhias nacionais e multinacionais, com o costume de agregar a sua fala expressões metafóricas, relativas ao universo do futebol, pois elas são intuídas por esses profissionais, com extrema facilidade, além do aspecto altamente expressivo: “Não se esconda da bola”, “Primeiro é preciso fazer um gol, depois o outro...”, “O objetivo é o gol”, “Jamais deixe o adversário gostar do jogo”, “O contra-ataque é sempre arma mortal”, “Quando atacar seja grande, ao se defender aja como um pequeno”, etc.

Procurou-se, neste observatório, realizar uma incursão na área de Léxico, Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa para investigar, analisar e registrar vocábulos e expressões utilizadas pelos profissionais que militam na imprensa escrita, no amplo universo futebolístico.

1.3 Objetivos

Nos esportes de massa, detentores de adeptos fanáticos, caso específico do futebol, as manchetes, os lances e os comentários de um jogo são abordados, muitas vezes, pelos profissionais da imprensa de uma forma tão entusiasta e passional como a dos próprios leitores.

Considerando esses pressupostos, a meta do trabalho assentou-se, basicamente, em duas etapas com relação ao material lingüístico coletado: primeira etapa: levantamento e análise; segunda etapa: registro de seu léxico específico, partindo de textos produzidos pela imprensa especializada.

(23)

Este trabalho objetiva, também, realizar uma investigação acerca da presença da neologia lexical encontrada na linguagem particular do futebol, a partir de um recorte compreendido entre 1995 e 2005, mediante rastreamento, análise e registro desse acervo vocabular-fraseológico, e, simultaneamente, tecer considerações pertinentes à sua lexicogênese, vindo na medida do possível sugerir-lhes definições coerentizadas.

Um dos motivos desta empreitada é a existência de poucos trabalhos que enfocam a linguagem particular do futebol à luz de concepções teórico-lingüísticas.

O objetivo específico desse trabalho é a compilação de um registro léxico-temático, estruturado sob a forma de glossário, no qual serão registrados os itens lexicais relativos à prática do futebol.

1.4 Procedimentos Metodológicos

A fim de alcançar as metas estabelecidas, estabeleceu-se um corpus constituído por dados lexicais coletados a partir de uma investigação sistemática na mídia impressa (convencional e “on line”), em jornais e revistas publicados regularmente e situado num “recorte”, compreendido entre os anos de 1995 e 2005 e, ainda, algumas obras de caráter temático acerca da prática do futebol.

Optou-se por centralizar, cronologicamente, a investigação a partir de 1995 até 2005 em decorrência da conquista pela Seleção Brasileira de Futebol, pela quarta vez, da Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos da América em 1994. Essa Copa foi extremamente significativa porque, embora vitoriosa, a Seleção Brasileira foi criticada por romper com a então, pelo apuro técnico e pela beleza plástica, para praticar um futebol defensivista,

(24)

“europeizado”, objetivando apenas e, tão somente, o resultado. A partir dessa nova postura tática, novos itens lexicais incorporaram-se definitivamente ao vocabulário da mídia especializada e, também, dos torcedores: “futebol de resultado”, “futebol-força”, “futebol solidário”, “futebol-total”, “o gol é apenas um detalhe”, “volante de contenção”, etc.

O resgate histórico do futebol brasileiro, jogado dentro de um bom padrão técnico, aconteceu por ocasião da Copa de 2002, realizada, simultaneamente, no Japão e na Coréia do Sul, quando a Seleção Brasileira, mesmo sem praticar o futebol-arte de 1970, apresentou momentos brilhantes, como na partida final, na qual derrotou a aplicada Seleção da Alemanha por 2 a 0, sagrando-se penta campeã mundial de futebol.

O processo seletivo das fontes de informação foram determinados, fundamentalmente, pela atualidade e abrangência dos representantes da mídia, com destaque para os registros a partir do ano 2000.

Os chamados “grandes jornais” restringem-se a um determinado número de páginas, cadernos ou suplementos ao noticiário esportivo em geral, contudo o material lingüístico, foco desta investigação, é abundante nos jornais e revistas especializados, fato que constatado no decorrer da investigação.

O Caderno de Esportes é uma das diversas seções em que está dividido um jornal, trazendo informações sobre as mais variadas modalidades esportivas praticadas no Brasil e no mundo.

A escolha dos órgãos da mídia impressa, que contribuíram para o levantamento do corpus, objeto de investigação, não foi aleatória, mas decorrente da grande circulação e prestígio que eles detêm5 em nível nacional e regional, fato que lhes assegura, incontestavelmente, uma posição de destaque em relação aos seus congêneres. O caráter

5

Dois jornais deixaram de circular, em sua versão convencional impressa durante a fase de levantamento de dados: Gazeta Esportiva e Notícias Populares.

(25)

quantitativo de consulta, a cada jornal e revista, obedeceu aos seguintes critérios: a) a tiragem do órgão; b) o conteúdo de informações esportivas; c) o público-alvo; d) a especificidade.

As publicações especializadas em atividades desportivas estão representadas no corpus pelo material coletado nos jornais Gazeta Esportiva (atualmente apenas on line), Jornal dos Sports (apenas on line) e Lance; e as revistas Placar e Show de Bola (destinadas a um público bem definido e fiel, os amantes dos esportes em geral, com destaque para o futebol).

Dentre as publicações da imprensa não-especializada, o jornal Notícias Populares (deixou de circular em meados de 2001) foi aquele que até então havia apresentado maior subsídio para a constituição do corpus, em decorrência das características de sua linha editorial, voltada para as camadas “populares” da sociedade, ou seja, aquelas de menor poder aquisitivo e menor nível de escolaridade. A linguagem utilizada pelos articulistas deste jornal, em suas duas edições diárias, adequava-se consoante o domínio léxico-fraseológico de seus leitores. O caráter sensacionalista do jornal, também, fazia com que os redatores direcionassem o noticiário, de forma tal que o vocabulário estivesse basicamente constituído por palavras e expressões facilmente descodificáveis por seus leitores. Tal fato é facilmente constatável em suas manchetes e leads6 altamente chamativos, como também na própria diagramação7 de suas diversas colunas, onde a busca da inventividade e da originalidade se fazem presentes, caracterizando-se, ainda, pelo processo de economia discursiva de seu registro escrito. Este procedimento decorre do reduzido número de páginas que compunham o jornal, limitando o número de colunas e laudas disponíveis ao redator em cada exemplar.

A presente investigação, partindo basicamente de uma pesquisa lexical-descritiva, obedeceu às seguintes orientações metodológicas:

6

Anglicismo que nomeia, na mídia impressa convencional, o primeiro parágrafo relativo ao corpo de uma notícia.

7

(26)

1ª - Levantamento bibliográfico, envolvendo os pontos básicos, para servir de aparato teórico acerca das concepções de língua, linguagem, linguagem comum e especial, neologismo e neologia, teoria lexical, lexicologia e lexicografia, sendo elas a base norteadora da investigação.

2ª - Paralelamente, outro levantamento bibliográfico foi executado sobre o histórico do futebol e as regras que regem a sua prática. Foram consultados, também, glossários, dissertações, teses e obras temáticas que abordaram o assunto, visando a reconstituir os primórdios desse esporte em nosso país, os grandes clubes, os grandes atletas, as grandes conquistas e os cronistas que imortalizaram os grandes momentos do futebol brasileiro.

3ª - O levantamento do corpus: Os itens lexicais constitutivos do corpus foram rastreados nos principais jornais e revistas brasileiros, que traziam em suas páginas notícias futebolísticas do Brasil e de outros países. Cronologicamente, o recorte estabelecido abrangeu o período 1995 a 2005 (mídia convencional e on line). A coleta lexical iniciou-se em 1995 e concluída em maio de 2005.

4ª - Análise lingüística: As unidades lexicais foram analisadas de acordo com os processos lexicogênicos e a tipologia dos neologismos.

5ª - Os itens lexicais, relativos à prática do futebol foi registrado em um glossário, trazendo informações etimológicas, gramaticais, definições parafrásticas ou sinonímicas, além de comentários e abonações acerca de cada unidade-entrada.

Os jornais e revistas que contribuíram para a constituição do corpus encontram-se individualizados, obedecendo às respectivas datas de publicação, ou data do acesso à rede mundial de computadores (Internet), quando se tratou de acesso a registro em mídia eletrônica.

O Novo Dicionário Aurélio – Séc. XXI serviu de referência para se outorgar a rubrica de item lexical neológico ou não-neológico, das unidades lexicais constitutivas do corpus.

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Basicamente, o estatuto de vocábulo pertencente à linguagem do futebol, ou à sua gíria, somente se concretizou após a constatação de seu efetivo emprego pelos diversos órgãos da mídia impressa que trata de esportes em geral e, de maneira particular, o futebol, levando em conta seu conhecimento, domínio, aceitabilidade e freqüência de emprego pelos profissionais de imprensa e leitores.

As abonações e as referências coletadas na mídia, invariavelmente, foram registradas, neste trabalho, com aspas duplas e destaque em itálico, como no exemplo a seguir: “Rafael, goleiro reserva do Santos, é bom de bola, é seguro e tem boa colocação, só lhe falta experiência.” (DSP, /www.diariosp.com.br/, 13-11-2002).

No que concerne a vocábulos adotados de outros sistemas lingüísticos, será empregada a classificação:

a) Estrangeirismo: (cenismo, xenismo): signo importado que conserva sua grafia original; b) Empréstimo: signo importado de outro sistema lingüístico que se integra fonética e

morfologicamente na língua adotante e passa a ser utilizado, pela comunidade lingüística, de maneira generalizada, sem mais ser notado como estrangeirismo.

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2 FUTEBOL NO CONTEXTO DOS ESPORTES

O conceito de esporte, registrado no Novo Dicionário Aurélio – Séc. XXI, p. 821 é o seguinte: “esporte [Do inglês. Sport] s.m. 1. O conjunto dos exercícios físicos praticados com método, individualmente ou em equipes, desporte, desporto.” Este conceito, em linhas gerais, prende-se à noção de exercícios físicos e às diversas modalidades de jogos.

O futebol mantém com a vida relações de semelhanças, pois o objetivo primordial de um e outro é a busca de situações favoráveis, em situações de franca hostilidade. Essa superação, na vida, é o ato de transpor obstáculos; no futebol, a marcação do gol.

No futebol, como na vida, a reversão de situações desfavoráveis somente pode ser obtida através de luta, de esforço e de persistência, o que traça, então, um paralelo entre ambos. A unidade lexical – virada – ato de reverter um placar desfavorável, empregada como forma de exaltar a capacidade, coragem e a energia de um jogador, diante das dificuldades impostas aos atletas durante uma competição esportiva, também representa uma analogia com os percalços que o indivíduo encontra em sua luta pela sobrevivência.

Da mesma forma, existe também uma correlação entre o universo futebolístico, mais especificamente o time, sob a forma de entidade coletiva, e o homem como ser social. O futebol, como jogo coletivo, pode ser comparado a uma comunidade social, com regras, tensões, vitórias, derrotas e a constante busca de seus integrantes por uma autovaloração e o reconhecimento das potencialidades de cada um de seus membros comunitários em relação aos demais.

Uma equipe de futebol pode ser comparada a uma comunidade, pois em ambas existem relações participativas, de caráter individual e coletivo, onde a integração de cada um está diretamente relacionada à sua capacidade de ajustamento ao grupo, aos preceitos hierárquicos e adaptabilidade às regras de convivência social.

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Partindo da comparação entre uma equipe e uma mini-sociedade, o jogador de futebol passa a ser avaliado, num contexto mais amplo: a) em sua equipe, onde desempenha suas atividades profissionais ou não; b) no interior de sua comunidade, como ser social. Esses atributos valorativos passam a ser arbitrados por algumas qualidades que transitam tanto em seu desempenho, vivenciados na qualidade de atleta, como em convívio diário, com os demais integrantes de sua comunidade. Nesse contexto, são qualidades fundamentais: iniciativa, espírito de equipe, capacidade de compartilhar seu sucesso com os outros integrantes do grupo, lealdade, coragem, condição de resolver situações-problema, etc.

Fernandéz (1974, p. 17) realça alguns pontos de similaridade existentes entre o futebol e a vida:

- o mundo = campo (delimitado, finito) - o homem = o jogador

- a sociedade = a equipe

- a luta para vencer na vida = a luta pelo gol (vitória)

- o código da vida = as regras do jogo, suas variações e possibilidades criativas

- jogadas = atitudes de ataque, defesa e outras

- árbitros = juízes (outros ou nós) das ações (nossas ou de terceiros)

E, logo a seguir, enfatiza essa relação, tecendo comentários a ela relativos: “E, há ainda uma ampla gama de punições, onde as faltas técnicas correspondem a falhas e erros que cometemos (ou que os outros acham que cometemos).”

Nesse conjunto, observa a autora, mais adiante, que o uso exclusivo de pés e cabeça corresponde à limitação dos meios a serem empregados para conseguir o fim desejado. “Talvez esta lição de vida seja responsável pelo prestígio universal do futebol junto às massas.”

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2.1 Histórico e Evolução

Foi rápido o progresso do futebol e, hoje, pode-se afirmar, com alto grau de aceitabilidade, que o futebol é, atualmente, o esporte de maior preferência e popularidade em todo o mundo. Embora seja quase impossível precisar sua origem, é inegável o fascínio que jogos com bola exercem sobre o homem desde os primórdios da humanidade.

2.1.1 O futebol na Ásia

Registro de jogos com bola, datando mais de trinta séculos, que apresentavam alguma semelhança com o futebol, foi encontrado no Egito durante realização de pesquisas arqueológicas

Contudo, é na China, em 2.600 a.C., que se constatou a prática de um jogo com bola chamado “tsu-chu” (bater com os pés em uma bola).

Entre os japoneses, no mesmo período, encontramos registro de um jogo de bola denominado “kaman” – aplicado no treinamento militar. O objetivo de cada um dos oito jogadores que compunham cada equipe era ultrapassar, com a bola, sem que ela tocasse no solo, uma linha demarcatória situada entre duas estacas de madeira fincadas no solo.

2.1.2 O futebol na Europa

Grécia: No período da Antigüidade Clássica, por volta do Século XX a.C., os gregos tinham um jogo de bola denominado “espyskiros”, disputado, simultaneamente, com os pés e

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as mãos. O campo, de formato retangular, tinha em cada uma de suas linhas de fundo uma região denominada “cidadela”, que deveria ser ultrapassada.

Roma: O “epyskiros” praticado pelos gregos foi copiado e aprimorado pelos romanos e recebeu o nome de “harpastum”, de étimo grego.

O “harpastum” era praticado em um campo retangular, com espaços que determinavam as três regiões em que se dividia o campo de jogo e a respectiva ocupação, pelos jogadores, de cada uma dessas regiões (FERNANDÉZ, 1974, p. 19).

Primeira região: linha de defesa – formada por jogadores mais lentos, correspondendo nos dias de hoje aos zagueiros, atuava próxima à linha-de-meta e era denominada “locus stantium”.

Segunda região: linha média – localizada logo após a linha-de-defesa, nas proximidades da linha que divide o meio de campo, onde atuavam os jogadores denominados “mediocurrens“, cuja função era estabelecer a ligação entre os defensores e os atacantes. No futebol moderno, esses jogadores exerciam uma função semelhante aos meias-armadores.

Terceira região: linha ofensiva – grupo que atuava mais à frente, nas proximidades da linha-de-meta adversária, e era formado por jogadores ágeis e velozes. Essa região do campo de jogo corresponderia, em nossos dias, à grande área adversária; portanto, esses jogadores, igualmente, corresponderiam aos atacantes do futebol atual.

Esses jogos, de acordo com registros da época, eram extremamente violentos, verdadeiras batalhas campais, com socos, pontapés, rasteiras e, por vezes, casos de morte.

2.2 A Expansão do Futebol no Mundo

Provavelmente o futebol chegou às Ilhas Britânicas no período de expansão do Império Romano, que levou o “harpastum” às regiões da Gália e da Bretanha. O jogo popularizou-se principalmente na Gália e foi muito praticado durante a Idade Média.

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Na Idade Média o futebol já concorria com esportes individuais, principalmente aqueles de motivação bélica: arco e flecha, arremesso de dardo e lança, etc.

Durante a Idade Média, segundo Fernandéz (1974, p. 19), surge na Itália, sob o nome de “gioco del calcio”, uma modalidade de futebol jogada por duas equipes, cada uma com 27 jogadores, geralmente nobres, praticado obrigatoriamente em uma praça de Florença, e cujo objetivo era conduzir uma bola recoberta com couro até dois postes de madeira, localizados na extremidade da praça. Há registro de grande violência na prática desse esporte.

Ainda na Idade Média, na Bretanha, mais precisamente na Inglaterra, o futebol começa a tomar a forma como hoje é conhecido. Em razão de sua prática excessiva, o futebol foi proibido, em Londres, pelo rei Eduardo II, através do Decreto nº 1.3148, por se tratar de um esporte considerado extremamente violento, ocasionando inúmeras mortes de seus praticantes durante as competições, e, ainda, por provocar a falta de interesse de seus soldados pelos treinamentos físicos e práticas militares (arco, flecha, esgrima, dardo, lança, etc.).

A partir de 1660, após sofrer inúmeras transformações com o objetivo de diminuir sua violência, embora, ainda, com ressalvas, as autoridades inglesas tornam-se mais flexíveis no que concerne à aceitabilidade da prática do futebol na cidade de Londres e no território britânico. Ainda nesse ano, a proibição foi anulada por um decreto do Rei Carlos II. O jogo de futebol era realizado em um terreno que media 120 por 180 metros, com dois postes de madeira em suas extremidades e a bola já era confeccionada em couro e cheia de ar.

A perfeita integração do futebol no cenário esportivo da Inglaterra foi consolidada com a sua inclusão entre as modalidades esportivas oficiais, passando a ser parte do conservador currículo universitário inglês, no início do séc. XIX, como disciplina regular.

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“Porque se produzem grandes ruídos na cidade ocasionados por escaramuças, em volta de pelotas de grande tamanho, do que resultam grandes males, o que Deus não permite, em nome do Rei, ordenamos e proibimos sob pena de prisão que se pratique tal jogo na cidade.” (HISTÓRIA..., 2002).

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A popularidade entre os universitários ingleses, no século XIX, era tão grande, que o primeiro clube a ser criado, sem estar formalmente vinculado à esfera acadêmica, foi o “Guy’s Hospital Football Club”, idealizado por estudantes do curso de medicina.

Nesse período, ainda persistiam regras vacilantes, prevendo a utilização dos pés e das mãos, indistintamente, por todos os jogadores das equipes. Era prática comum utilizar-se, em 1843, das mãos para interceptar as bolas altas; contudo, após tê-la dominado, o jogador deveria colocá-la no solo e conduzi-la com os pés.

Em 8 de dezembro de 1853, nascia, oficialmente regulamentada, a Football Association, resultante de uma reunião, onde representantes de diversos clubes ingleses, em comum acordo, formularam um código com 13 regras, regulamentando e uniformizando a prática do futebol. Este documento serviu de base para as dezessete regras que hoje normatizam oficialmente a prática do futebol (FERNANDÉZ, 1974, p. 20).

A questão da arbitragem foi normatizada em 1890, com a legalização das atribuições do árbitro e de seus auxiliares. A penalidade máxima – o “penalty” – somente foi criada em 1891 por uma sugestão da Liga Irlandesa.

A FIFA (Federação Internacional de Football Association), órgão máximo, que controla o futebol no mundo, foi fundada em 1904 em Paris, sem a participação da Inglaterra, que somente se filiou em 1905.

2.3

O Futebol no Brasil

Registra-se o ano de 1894 como marco introdutório do futebol, em território brasileiro. Contudo, há evidências de que o futebol já era conhecido e praticado anteriormente em nosso país, trazido por marinheiros ingleses, que realizaram uma partida de bola, na Praia da Glória, no Rio de Janeiro, em 1874, portanto, antes de sua introdução por Charles Miller.

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Charles Miller, responsável pela introdução do futebol no Brasil, era paulista, filho de ingleses, que retornara da Inglaterra, onde fora estudar, trazendo em sua bagagem duas bolas de futebol, livros de regras dessa nova modalidade esportiva e, também, sua experiência como jogador da equipe inglesa do Shoutampton, além de haver participado de vários jogos pela seleção do condado de Hampshire.

Em 1895, acontece o primeiro jogo de futebol realizado em solo brasileiro, impulsionando e disseminando a popularização desse esporte em todo o território nacional. A partida foi disputada na Várzea do Carmo, na cidade de São Paulo, entre duas equipes formadas por ingleses radicados na capital Paulista: a São Paulo Railway (empregados da companhia de transportes rodoviários) e a Companhia de Gás (empregados da companhia de gás). O resultado da partida foi a vitória do São Paulo Railway por 4 X 2.

O entusiasmo de Charles Miller pelo futebol levou-o a incentivar a formação de outras equipes e criação de ligas, no moldes ingleses, despertando em toda a população o interesse pelo esporte bretão.

A Associação Atlética Mackenzie, fundada em 1898, por estudantes do Mackenzie College, foi o primeiro clube brasileiro formado para a prática específica de futebol.

Alguns clubes, como o São Paulo Athletic, o Sport Club Internacional e o Germânia (hoje o Pinheiros) começaram a organizar seu departamento de futebol, exemplo seguido por outras agremiações em diversos estados brasileiros.

Em 1900, em Campinas (SP), é fundada a Associação Atlética Ponte Preta, o mais antigo clube de futebol no Brasil e, em 1901, acontecem os primeiros jogos entre as seleções de São Paulo e Rio de Janeiro, com dois empates (1 a 1 e 2 a 2).

O primeiro Campeonato Paulista de Futebol foi disputado em 1902, título conquistado pelo São Paulo Athletic Club, ano em foi fundado no Rio de Janeiro o Fluminense F. C.

O primeiro jogo internacional oficial da Seleção Paulista de futebol foi realizado em 1906, em São Paulo, contra a Seleção Sul-Africana. Apesar da derrota pelo elástico placar de 6 a 0, o futebol já despertava grande interesse em todas as regiões do país.

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Um fato importante ocorre em 1910. Naquele ano o Fluminense consegue trazer , em excursão, um time inglês, o Corinthian Team (que mais tarde motivou, em sua homenagem, a fundação de uma das maiores e mais tradicionais equipes brasileiras: o Sport Club Corinthians Paulista)9, que alcançou grande sucesso em campos brasileiros, com vitórias memoráveis para a época.

Em 1911, no Rio de Janeiro, registra-se um fato marcante para o futebol brasileiro: a criação do clube que, atualmente, detém o maior número de torcedores, espalhados por todo o território nacional – o Club de Regatas Flamengo.

Até 1915, o futebol no Brasil era um esporte basicamente amador, praticado por estudantes universitários originários da classe média alta10, ou por empregados de companhias, geralmente inglesas, aqui radicadas. A partir de 1917, surgiram denúncias, no Rio de Janeiro, de “estímulos”11 financeiros concedidos a alguns jogadores que se destacavam tecnicamente em suas equipes.

Embora mal visto pelos defensores do amadorismo, iniciava-se, timidamente, o processo de profissionalização do futebol no Brasil, como ocorria na Inglaterra e na Itália, onde os jogadores já eram bem remunerados.

A Federação Brasileira de Sports, órgão que se propunha a controlar a prática esportiva no Brasil, é fundada em 1914, mas em 1916 passa a chamar-se Confederação Brasileira de Desportos – CBD, que, então, reconhece o futebol não somente como uma modalidade esportiva, mas também como meio de vida, abrindo assim caminho para a

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O Corinthians Paulista tirou seu nome do “Corinthian Team”, time inglês que excursionou pelo Brasil no início do século passado. Nos anos 30, a equipe passou a se chamar “Corinthian Casuals Football Club”. Já a origem do nome “Corinthian” é controversa. Pode ser a tradução da palavra coríntios, moradores da região de Corinto, na Grécia. Há quem cite ainda o famoso escritor inglês Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, como o primeiro a utilizar a palavra “corinthians” para referir-se a nobres que praticavam esportes. (DSP - /www.diariosp.com.br/ - 07-11-2003).

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“O futebol começou a ser praticado pela elite. O primeiro campo em São Paulo ficava na Chácara Dulley, no então bucólico bairro do Bom Retiro. As traves do campo da família Dulley eram feitas de imbúia! O interesse cresceu rapidamente e disseminou-se em dois estratos sociais: na elite, com “matchs” disputados nos clubes, e nas classes populares, como as “peladas” nos campos naturais formados nas várzeas dos rios Tietê e Tamanduateí.” (O início da Paixão nacional - /www.historiadofutebol.ig.com.br/ - 12-07-2002).

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profissionalização do jogador de futebol. A CBD, em 1923, recebe o reconhecimento oficial da FIFA.

O primeiro clube brasileiro a excursionar pela Europa, onde realizou excelentes apresentações, em diversos países do Velho Continente, foi a equipe do Paulistano, em 1925, que disputou dez partidas, obtendo nove vitórias.

A implantação do profissionalismo no futebol brasileiro concretiza-se em 1933, quando duas equipes – Santos Futebol Club e São Paulo Futebol Club – protagonizam a primeira partida entre clubes profissionais no Brasil.

Como reflexo do advento do profissionalismo, e a conseqüente disseminação da prática do futebol em todas as regiões do país, com o surgimento de um número cada vez maior de torcedores entusiastas, surge a necessidade da construção de bons estádios, para acomodar esse crescente público. Em São Paulo, é inaugurado no dia 27 de abril 1940 o Estádio Municipal do Pacaembu, que em 1961 recebeu o nome de Estádio Paulo Machado de Carvalho. Na época, com capacidade para 70.000 pessoas e com linhas arquitetônicas que lembravam os antigos estádios ingleses, foi, um dia após sua inauguração oficial, palco de um jogo entre o Palestra Itália (atualmente Sociedade Esportiva Palmeiras) e o Coritiba, com vitória da equipe paulista por 6 a 212. Em 1948 é lançada a pedra fundamental do Maracanã.

O primeiro grande feito do futebol brasileiro foi a conquista da Taça Jules Rimet (Copa do Mundo) em 1958, na Suécia, pela Seleção Brasileira de Futebol. A seleção conquistou, a seguir, os seguintes títulos mundiais: 1962 no Chile, 1970 no México, 1994 nos Estados Unidos da América e, em 2002, tendo como sede Japão e Coréia do Sul.

Dignas de registro são as conquistas dos clubes brasileiros, principalmente nos anos 80: O Grêmio – Taça Libertadores da América e Copa Toyota: O Flamengo em 1981 – Taça Libertadores da América e Copa Toyota; o São Paulo – Bicampeão da Libertadores da

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O primeiro gol feito no Estádio Municipal do Pacaembu foi marcado aos 2 minutos do primeiro tempo, por Zequinha, atacante do Coritiba.

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América e da Copa Toyota e, mais recentemente, a conquista da Taça Libertadores da América pelo Grêmio Foot-ball Porto-Alegrense em 1996, Cruzeiro em 1997, Vasco em 1998 e Palmeiras em 1999, além do Corinthians, atual campeão mundial interclubes, no primeiro campeonato mundial interclubes, oficialmente organizado pela FIFA.

2.4 Futebol e Marketing Desportivo

O futebol movimenta, em todo o mundo, algo em torno de US$ 250 bilhões anualmente, sendo que no Brasil, o país pentacampeão mundial, que produziu virtuoses da bola como Pelé (o atleta do século, eleito pela crônica esportiva mundial como o maior jogador de futebol de todos os tempos), Garrincha, Didi, Gérson, Romário, Ronaldinho (o Fenômeno) e tantos outros, o montante responde por apenas 1% deste volume, ou seja US$ 2,5 bilhões, uma importância insignificante se comparada a de outros países como Inglaterra, Espanha, Itália, França e Alemanha.

Analisando esses números, verifica-se que o futebol, em todo o mundo, exceto no Brasil, é um negócio extremamente rentável. A inadimplência das equipes brasileiras de futebol, atualmente, segundo os entendidos, é um fato e o motivo dessa situação falimentar, certamente, está nas bases consideradas obsoletas, além de servir de abrigo para dirigentes tidos como desonestos que há muito infiltraram-se nos clubes, nas federações e, até mesmo, na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A Lei Zico, oficializada em 06 de julho de 1993, apontada como a última esperança do futebol brasileiro, serviu de base para a futura Lei Pelé, que se tornou um divisor de águas na estrutura do futebol no Brasil.

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Essa lei instituiu, compulsoriamente, a profissionalização dos dirigentes de clubes exploradores de atividades esportivas de caráter profissional, ou seja, o que se convencionou denominar “futebol-empresa”, outorgando o maior poder aos clubes que atuam na primeira divisão de suas federações e, também, maior representatividade na CBF, por meio do voto qualitativo e a extinção da Lei do Passe.

No entanto, a Lei do Passe Livre, por pressão de um grupo de congressistas, integrantes da chamada “Bancada da Bola”13, não foi aprovada em sua redação original. Ela foi alvo de críticas de dirigentes que alegavam ser ela prejudicial aos interesses dos clubes, porquanto estes tinham um alto investimento na formação de seus jogadores nas categorias de base (juniores e juvenis), e o retorno desse investimento seria a venda do passe de tais atletas.

Sem a aprovação da Lei do Passe Livre, inviabilizou-se a tentativa de modernizar o futebol brasileiro, que poderia ser alcançada com a profissionalização de seus dirigentes.

Em 24 de maio de 1998, o Congresso Nacional aprova a Lei Pelé, Lei 9.615, instituindo código de conduta para os clubes brasileiros em seus onze capítulos, definindo a extinção da Lei do Passe; desvinculando o Tribunal de Justiça Esportiva da CBF; obrigando os clubes a se tornarem empresas e, assim, serem responsabilizados, bem como seus dirigentes, por má gestão financeira e improbidade administrativa, de acordo com as normas regimentais do Código Comercial e as Leis das S/A. A nova lei passa a fiscalizar e normatizar todas as atividades esportivas, de caráter profissional e/ou amadora, no país.

Em 30 de março de 2001, dois anos após sua regulamentação, a Lei Pelé recebeu emendas, propostas pela “Bancada da Bola”, que acabaram por descaracterizá-la de seu projeto inicial. Entre elas, uma recebeu o nome de seu autor: “Lei Maguito” (referência ao senador Maguito Vilela, integrante do lobby dos clubes, conduzido pela CBF no Congresso). A alteração básica, em relação à lei original, foi tornar facultativa a transformação dos clubes em empresas.

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2.5 A Crise no Futebol Brasileiro

O futebol brasileiro, pela sua seleção, alcançou seu apogeu técnico na década de sessenta, com a conquista de dois títulos mundiais em 1958, na Suécia, e em 1962 no Chile. Em 1970, no México, outra Copa do Mundo foi conquistada, com uma equipe formada por “grandes craques”, e apontada por muitos como a melhor Seleção Brasileira de todos os tempos, contudo caracterizou-se por marcar o fim da era Pelé. Édson Arantes do Nascimento, nome de batismo do maior jogador de todos os tempos, considerado o símbolo do poderio futebol brasileiro despedia-se definitivamente da Seleção Brasileira e do Santos Futebol Clube, equipe onde iniciou sua carreira profissional, em meados de 1950, cujas cores defendeu por mais de duas décadas, transferindo-se para a equipe do “Cosmos” de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.

De 1970 até 1990, a Seleção Brasileira vive, segundo a visão dos jornalistas da época, uma fase de declínio, não conquistando nenhuma Copa do Mundo, embora em 1982, na Copa realizada na Espanha, sob o comando de Telê Santana, tenha surpreendido o mundo com um futebol refinado e de soberbas apresentações, mesmo pressionada pelos desmandos administrativos dos dirigentes de clubes, federações e da própria CBF.

Esse período envolveu, para os analistas, a maior crise financeira do futebol brasileiro, e foi caracterizado pela desorganização das competições internas, pelo calendário esdrúxulo, pela gestão amadorística dos dirigentes14, pela interferência de interesses políticos, fatos que vieram determinar a estagnação da estrutura futebolística brasileira, em oposição ao crescente desenvolvimento que ocorria (e ocorre) na Europa.

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“Esse aspecto é resultado da contradição de um sistema que se sustenta na relação entre dirigentes amadores e jogadores profissionais, ou melhor dizendo, de amadores administrando uma atividade cada vez mais profissional.” (HELAL, 1997, p. 77).

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Os clubes, afetados em suas finanças, para honrar seus compromissos são obrigados a se desfazer de seus principais jogadores, vendendo-os para o futebol europeu ou para o emergente mercado asiático, principalmente Japão e China.

A partir daí, o futebol brasileiro passa a viver uma situação inusitada, embora produzindo os melhores jogadores de futebol do planeta, ao invés de vender a arte desses atletas, foram vendidos os próprios artistas (seria como, em analogia, no lugar de vender os ovos, vendesse a galinha dos ovos de ouro), fragilizando não somente os times, como também, as competições internas, ocasionando a desvalorização das receitas de transmissão (pagas pela mídia eletrônica), a fuga das receitas publicitárias e das verbas de patrocinadores.

Basicamente, segundo Helal (1997, p. 77), são dois os motivos que levam os jogadores brasileiros a se transferirem, ainda muito jovens, para os clubes europeus: “Na situação contemporânea, os jogadores deixam o país por dois motivos: a) é a oportunidade de tornarem-se financeiramente independentes; b) é o meio pelo qual os clubes aliviam seus problemas econômicos”.

2.5.1 Alternativas e soluções para enfrentar a crise

A possibilidade de formar jogadores de alto nível torna-se mais viável dentro de grandes equipes. Mesmo que estes atletas sejam oriundos de equipes de menor prestígio, é nos grandes times que eles se consagram, alcançam o estrelato, passam a fazer parte da elite que congrega os grandes astros do esporte, aqueles regiamente pagos, alguns com possibilidades de alcançar o ápice da carreira de um jogador profissional, que é vestir a camisa da Seleção Brasileira. Portanto, todo grande time é formado por “grandes craques”, e a qualidade de uma equipe está diretamente relacionada ao número de jogadores de alto nível que compõe seu elenco.

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Estudos comprovam que, a curto prazo, é impossível, para o futebol brasileiro, nivelar-se, ou tentar competir, em termos organizacionais, com o forte mercado europeu. A médio prazo, isso somente poderá ocorrer com a criação de projetos que alterem a obsoleta e amadorística estrutura do futebol brasileiro, com a adoção de modernas estratégias de “marketing” esportivo, com a total desvinculação política do futebol, com a descentralização do ilimitado poder da CBF e, também das federações; a elaboração de calendário racional, como já há muito é adotado no futebol europeu, com a profissionalização dos dirigentes e a transformação dos clubes em empresas, regidas pelo Código Comercial e pela Lei das S.A.

Visando à moralização do futebol brasileiro, em seu segundo mandato na época, Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, remeteu ao Congresso Nacional a Medida Provisória nº 2.193/6 de 23 de agosto de 2001.

A medida que deverá ser votada em regime de urgência, determina que os clubes, federações e confederações passem de imediato a se constituir em sociedades-empresas comerciais, tornando seu registro contábil e a prestação de suas contas obrigatórias, prevendo que os clubes que não se enquadrarem nas mudanças previstas estarão sujeitos a punições, como a perda de benefícios fiscais.

A partir de sua promulgação, os dirigentes que impunemente usaram os clubes para realizar negócios nebulosos e fraudar contas serão responsabilizados, na esfera fiscal, pelos seus atos administrativos, o que poderá determinar a perda de seu cargo, o bloqueio de seus bens pessoais, e processo criminal.

Todas as demonstrações financeiras como contas, balancetes e balanços dos clubes deverão ser divulgadas e analisadas por auditagens de empresas sem vínculos com os clubes ou com seu diretores.

Os conselhos deliberativos dos clubes, que eram órgãos sempre controlados pela facção que detinha o poder, perdem o poder absoluto, já que a Medida Provisória outorga direito aos associados do clube de apresentarem denúncias de má gestão administrativa ao Ministério Público.

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3 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

O português falado em Portugal, no Brasil, na Ilha da Madeira, no arquipélago dos Açores, nas antigas e atuais colônias portuguesas da África e da Ásia, é uma língua românica que conserva indeléveis vestígios de sua filiação ao Latim no seu léxico, na morfologia e na sintaxe. A língua portuguesa tem suas raízes no Latim Vulgar, introduzido pelos conquistadores romanos na antiga Lusitânia, região situada na porção ocidental da Península Ibérica, tornando-se, posteriormente, idioma oficial de Portugal, país que, por muitos séculos, através de suas conquistas marítimas, disseminou sua língua por todas as regiões do globo.

Ao ser transportado para terras distantes, o português, que se caracterizava por sua rigidez formal e uniformidade morfossintática, modificou-se, fracionando-se em inúmeros dialetos, em razão direta de influências relativas à línguas com as quais mantinha contato direto.

3.1 Variantes Lingüísticas

Brandão (1991, p. 82) conceitua variante lingüística como: “Unidade lingüística diferente de outra ou outras quanto à forma, mas não quanto ao valor”.

3.1.1 Langue e parole

É claramente perceptível a relação entre a língua e a sociedade, sendo aquela o elemento de interação entre o falante e o meio social e, por isso, exposta às contínuas alterações que ocorrem no interior da sociedade.

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O reflexo dessas alterações é sentido na língua que, por sua vez, se amolda para acompanhar o ritmo frenético do progresso nas diversas áreas do conhecimento humano e, nesse processo de acomodação, uma acaba por se tornar o reflexo da outra.

Pode-se verificar que numa comunidade não existe homogeneidade lingüística, mas que existem variações no plano estrutural (fonético, morfossintático e léxico) e também no plano extra-lingüístico (contexto geográfico e social), embora seja possível detectar-se na língua um cerne comum, imune a variações, através do qual os falantes realizam a intercomunicação.

Sobre a existência das variedades lingüísticas Lemle (1978, p. 113) observa:

A heterogeneidade lingüística dentro de uma comunidade vasta e diversificada nação como a brasileira é um fator natural e por isso mesmo inevitável, decorrente da própria heterogeneidade social, pelos diferentes graus de coesão interna e contato inter grupal das diversas sub-comunidades total.

As variedades são sentidas no interior de uma comunidade lingüística extensa, não apenas em relação ao espaço geográfico, onde se localizam grupos sociais distintos (gerando os dialetos), mas, também, em conformidade com exigências vocabulares e discursivas de cada sub-comunidade que integra a comunidade extensa (gerando os socioletos).

Coseriu (1980, p. 113) adverte que uma língua não é apenas um sistema lingüístico, mas um diassistema, implicando um conjunto de subsistemas subordinados a um sistema geral, de cuja compleição participam dialetos, níveis e estilos de língua.

O fenômeno que hoje conhecido por linguagem recebeu de Saussure, em seu Curso de Lingüística Geral (1975) uma distinção em dois aspectos fundamentais: langue e parole.

Nessa visão dicotômica, o mestre genebrino distingue a langue como um modelo geral e constante, pré-existente na consciência de todos os membros de uma determinada comunidade lingüística, um sistema supra-individual, uma abstração que determina o processo da comunicação humana, enquanto a parole corresponde à materialização desse modelo, em determinado momento e lugar, pelos membros dessa comunidade.

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Para definir a langue (ou língua) Saussure reportou-se a três concepções básicas: a) a langue é constiuída por um acervo lingüístico que permite ao falante compreender e se fazer entender; b) a langue é uma instituição social, portanto não é a realização de apenas um falante, mas de toda uma comunidade lingüística; c) a langue é um sistema funcional de signos15 através dos quais se exprimem idéias.

Conclui-se, portanto, que a langue é um fenômeno social, em oposição à parole, que é individual.

Embora Saussure (1975) não tenha feito referências explícitas às variações lingüísticas, sua percepção desse fenômeno é, claramente, sentida ao conceituar a langue, enfatizando seu caráter geral, em oposição ao caráter particular da parole.

A partir desses pressupostos torna-se possível justificar a existência das variedades existentes em um sistema lingüístico.

O plano da langue (fatos de língua) e o plano da parole (atos de fala), ainda que distintos, supõem-se reciprocamente. Sem os atos concretos da parole seria impossível conceber os fatos de língua. Contudo, os atos concretos da parole não se constituiriam em veículos da comunicação humana sem a existência da langue, responsável pelo estabelecimento de normas16, através das quais são regidos os atos de fala.

3.1.2 Sistema, norma e fala

A dicotomia langue e parole, proposta por Saussure, embora teórica e metodologicamente fértil foi, posteriormente, objeto de críticas, pois no entender de inúmeros lingüistas, tal divisão, por ser demasiadamente simplista, pecava por sua excessiva rigidez,

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Saussure (1975) considerava o signo lingüístico uma entidade psíquica dotada de duas faces que associava um conceito a uma imagem acústica.

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tornando-se insuficiente e mesmo ineficiente quando enfocada à análise das variedades lingüísticas. Daí a necessidade de se fazer intervir um terceiro elemento que se situasse em um plano intermediário entre a língua (langue) e a fala (parole).

A lacuna foi mais tarde preenchida pelo lingüista romeno Eugenio Coseriu em Teoria da linguagem e lingüística geral (1970), reformulando a dicotomia saussuriana langue/parole, a partir de sua visão tripartida da linguagem: sistema/norma/fala.

Coseriu propõe que o sistema parta do mais concreto (parole) para o mais abstrato (langue), passando pelo intermediário (norma).

Em linhas gerais, o sistema equivale à langue; a fala equivale à parole e a norma (o novo componente), elemento intermédio entre os dois anteriores, corresponde ao conjunto de preceitos sociais da fala de uma comunidade lingüística.

A norma, que representa um primeiro grau de abstração, engloba a fala sem as variantes individuais (idioletos). O sistema correspondendo ao segundo grau de abstração, é o elemento que traz, em seu bojo, as regras indispensáveis e as oposições funcionais, eliminando tudo que se tratar de simples tradições não distintivas.

De acordo com Coseriu (1970), o sistema não corresponde a um conjunto de restrições e imposições, como a princípio poderia parecer, mas a um conjunto de liberdades, admitindo realizações múltiplas, exigindo tão somente que as condições funcionais da língua não fossem afetadas. Por outro lado, a norma equivale ao elemento prescritivo, com realizações pré-estabelecidas, determinadas por imposições socioculturais, variando de uma comunidade lingüística para outra.

Pretti (1975, p. 30) expõe, com muita clareza, o papel desempenhado na comunicação lingüística pela norma coseriana: “A norma é o ponto de chegada do processo de uniformização e nivelamento da língua de uma comunidade. É o momento em que o uso é fixado pela lei lingüística”.

Referências

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