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Saúde bucal e fragilidade em idosos de diferentes contextos sociodemográficos

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE ODONTOLOGIA DE PIRACICABA

CLARICE SANTANA MILAGRES

SAÚDE BUCAL E FRAGILIDADE EM IDOSOS DE DIFERENTES

CONTEXTOS SOCIODEMOGRÁFICOS

Piracicaba 2017

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SAÚDE BUCAL E FRAGILIDADE EM IDOSOS DE DIFERENTES

CONTEXTOS SOCIODEMOGRÁFICOS

Tese apresentada à Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas como parte de requisitos exigidos para obtenção do título de Doutora em Odontologia, na área de Saúde Coletiva

Orientadora: Profª. Drª Maria da Luz Rosário de Sousa

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA PELA ALUNA CLARICE SANTANA MILAGRES ORIENTADA PELA PROFª. DRª MARIA DA LUZ ROSÁRIO DE SOUSA

Piracicaba 2017

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A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, em sessão pública realizada em 07 de março de 2017, considerou a candidata Clarice Santana Milagres aprovada.

Profa. Dra. Maria da Luz Rosário de Sousa

Profa. Dra. Jaira Lopes Brandão Crepschi

Profa. Dra. Marília Jesus Batista

Profa. Dra. Edna Alves Silva

Profa. Dra. Jaqueline Vilela Bulgareli

A Ata da Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.

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Dedico este trabalho à minha mãe BERNADETE FERNANDES SANTANA, pelo exemplo de mulher para a vida toda: lutadora e capaz de vencer qualquer obstáculo.

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Sinceros agradecimentos:

À DEUS que estando sempre ao meu lado pode me proporcionar o caminho, a luz e o conhecimento para chegar ao final de mais uma etapa da minha vida e sonhando com tantos outros!

À minha mãe BERNADETE, que esteve ao meu lado, me fortalecendo e apoiando nos momentos de carência, crises, desânimo, cansaço e solidão. Por sempre se expressar com palavras de carinho e incentivar, afirmando sempre, que no final tudo daria certo!

Às minhas irmãs, MARIA ALICE e RAQUEL, pelo carinho, apoio e incentivo em minha caminhada acadêmica.

À minha orientadora, PROFA. DRA. MARIA DA LUZ ROSÁRIO DE SOUSA, que me auxiliou nesta etapa e tanto me “puxou a orelha”, pedindo-me para escrever de forma clara e objetiva. Obrigada pela orientação, incentivo e principalmente, pela paciência. Obrigada por me ajudar a ver a importância dos detalhes, da releitura, do conselho dado em quaisquer momentos. Obrigada por compreender cada momento diferente que vivenciei no decorrer desta etapa em busca da conclusão do doutorado. Obrigada pelas aulas maravilhosas de epidemiologia!

À Faculdade de Odontologia de Piracicaba, na pessoa do seu Diretor PROF. DR. GUILHERME ELIAS PESSANHA HENRIQUES, instituição que tive a oportunidade de realizar um sonho: fazer doutorado.

Ao Programa de Pós-Graduação em Odontologia da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas pela contribuição em minha formação.

À PROFA. DRA. ANITA NERI, que prontamente aceitou fazer parte deste projeto de doutorado, nos concedendo informações sobre o FIBRA, através do seu banco de dados.

Ao PROF. DR. RENATO PEREIRA, pelo incentivo à docência, pela amizade sincera e incentivo para realizar este doutorado. Obrigada pelos momentos de trabalho em nossas férias acadêmicas, pelos ricos ensinamentos e pelas contínuas ideias a serem colocadas em prática após mais esta etapa.

À DRA. LUISA TORRÊS, por me ensinar cada particularidade deste banco de dados. Por ser paciente e estar junto em cada momento da escrita e finalização desta etapa.

À JUCILENE, que deixou de ser uma conhecida para se tornar uma verdadeira amiga! À PROF. DRA. MARÍLIA, minha orientadora da especialização, pela delicadeza como conduziu meus estudos sobre autopercepção de saúde bucal em idosos.

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À ELIANA, uma secretária inestimável e competente!

Aos colegas de doutorado, aos membros do CEPAE, aos funcionários da Secretaria da Pós-Graduação em Odontologia e aos demais professores da FOP, muito obrigada por estarem presentes, pelo convívio e troca de experiências.

Aos meus amigos “Chegadíssimos”, por me fazerem rir nas poucas visitas que fiz à Viçosa nestes últimos três anos. Obrigada pelo incentivo sempre demonstrado em nossas reuniões e pelo carinho durante mais essa jornada.

Obrigada à CRISTIANE, minha psicóloga! Profissional maravilhosa e pessoa fundamental não só por me auxiliar nas dúvidas e medos proporcionados na vida acadêmica e em especial no doutorado, mas por ter me ajudado nas mais diversas situações.

À UNIARARAS, por me proporcionar um espaço de aplicação da docência e por mais uma vez me trazer a certeza de estar no caminho certo.

Aos meus colegas de trabalho e alunos (crianças), tão estimados e presentes!

Aos idealizadores do Projeto FIBRA e a todos que de alguma forma contribuíram para a realização este trabalho.

Por fim, agradeço àqueles que me mostraram o lado sombrio do ser humano. Talvez tenha sido por essas pessoas que aprendi sobre o real significado da palavra resiliência, assim como o valor daquelas que amamos.

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autopercebida e fragilidade em idosos participantes do estudo FIBRA em contextos sociodemográficos diversificados. O Projeto FIBRA (Fragilidade em Idosos Brasileiros) é um estudo multicêntrico e multidisciplinar, no qual foram coletadas informações sociodemográficas, comportamentais, de saúde geral e bucal; e fragilidade de idosos com 65 anos ou mais, residentes em zonas urbanas de 7 cidades brasileiras, totalizando 3.478 idosos. No capítulo 1, o objetivo foi avaliar a saúde bucal e a capacidade mastigatória autopercebida dos idosos longevos em relação aos idosos mais jovens em seis municípios brasileiros do Estudo FIBRA, enquanto no capítulo 2, o objetivo foi verificar a relação entre capacidade mastigatória autoreferida de saúde bucal e fragilidade em diferentes níveis contextuais e individuais. No capítulo 1, 11,7% dos idosos eram longevos (n=273) e destes, 15,8% eram frágeis. A conclusão encontrada foi de que os achados de saúde bucal deste primeiro estudo sugeriram que ausência de dentes naturais e dificuldade ou dor para mastigar comida dura estiveram relacionados à idade mais avançada, sendo mais prevalente nos idosos longevos que nos idosos jovens. No capítulo 2, 7% dos idosos eram frágeis. No modelo final, verificou-se que houve maior chance de serem frágeis os idosos com maior idade, os que não trabalhavam, os deprimidos e os que auto avaliaram como pior sua saúde geral quando comparada aos demais da mesma idade. Em relação à saúde bucal, 26% da amostra apresentou 3 ou mais problemas funcionais negativos da mastigação e se associou com maior chance de ser frágil, mesmo após realizado o ajuste pela idade, trabalho, depressão e avaliação de saúde bucal. Como conclusão, foi observada que a autopercepção de saúde geral destes idosos, quando comparada a outros da mesma idade, foi pior. Em relação aos aspectos funcionais da mastigação, foi verificado que a capacidade mastigatória mostrou ter sido uma variável importante a ser considerada em futuros estudos com longevidade e fragilidade, assim como a autopercepção do idoso.

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perceived oral health and frailty in elderly participants of the FIBRA Study in diverse sociodemographic contexts. FIBRA Project (Fragility in Brazilian Elderly) is a multi-center and multidisciplinary study, which sociodemographic, behavioral, general and oral health information was collected; and frailty of the elderly with 65 years or more, living in urban areas of 7 Brazilian cities, totaling 3.478 elderly. In chapter 1, the aim was to evaluate the oral health and self-perceived masticatory capacity of the elderly in relation to the younger adults in six Brazilian municipalities of the FIBRA Study, while in chapter 2, the aim was to verify the relation between masticatory self-reported health capacity and fragility at different contextual and individual levels. In Chapter 1, 11,7% of the elderly were long-lived (n = 273) and of these 15,8% were fragile. The conclusion was that the oral health findings of this first study suggested that the absence of natural teeth and difficulty or pain to chew hard food were related to the older age, being more prevalent in the elderly than in the elderly. In chapter 2, 7% of the elderly were frailty. In the final model, there was a greater chance of being frailty older adults, those who did not work, the depressed, and those who self-rated their overall health worse than the others of the same age. Regarding oral health, 26% of the sample had 3 or more negative functional problems of chewing and was associated with a greater chance of being frailty, even after adjusting for age, work, depression and oral health assessment. In conclusion, it was observed that the general health self-perception of these elderly people, when compared to others of the same age, was worse. Regarding the functional aspects of chewing, it was verified that masticatory capacity showed to be an important variable to be considered in future studies with longevity and frailty, as well as self-perception of the elderly.

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Figura 1 - Esquema dos Aspectos Funcionais da Mastigação e da Saúde Bucal em idosos fragilizados, adaptado de Castrejón-Pérez et al, em 2012, identificando as

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Capítulo 1

Tabela 1 – Distribuição e frequência das características sociodemográficas, indicadores de saúde geral, presença de fragilidade, indicadores comportamentais/hábitos de vida e uso de medicamentos segundo o desfecho,

longevidade. Estudo FIBRA, 2008-2009 25

Tabela 2 – Distribuição e frequência das características segundo indicadores de acesso a serviços odontológicos, autopercepção de saúde bucal e condições funcionais da alimentação, segundo o desfecho, longevidade. Estudo FIBRA,

2008-2009 27

Tabela 3 – Resultado final da análise multivariada bruta e ajustada das variáveis associadas à longevidade (≥80 anos) e respectivo intervalo de confiança a 95%.

Estudo FIBRA, 2008-2009 29

Capítulo 2

Tabela 1: Característica da amostra (n=2.343). FIBRA, 2008 e 2009 46 Tabela 2 – Distribuição quanto aos aspectos funcionais da mastigação e fragilidade,

FIBRA, Brasil, 2008 e 2009 48

Tabela 3 – Análise não ajustada (bruta) e razão de chances da presença de fragilidade em idosos de acordo com variáveis sociodemográficas, comportamentais, de saúde geral e saúde bucal. FIBRA, Brasil, 2008 e 2009 49 Tabela 4 – Regressão logística multivariada dos fatores individuais associados à fragilidade em idosos de 6 municípios do Brasil. FIBRA, 2008 e 2009 51

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AVE – Acidente Vascular Encefálico

IBGE – Instituto Nacional de Geografia e Estatística DP – Desvio-Padrão

EDG – Escala de Depressão Geriátrica FIBRA – Fragilidade em Idosos Brasileiros IC – Intervalo de Confiança

MEEM – Mini Exame do Estado Mental MG – Minas Gerais

PA – Pará PB – Paraíba PI – Piauí

RS – Rio Grande do Sul SB – Saúde Bucal SP – São Paulo OR – Odds Ratio

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1 INTRODUÇÃO 14 2 ARTIGOS

2.1 Artigo 1: Condição de Saúde Bucal Autopercebida, Capacidade Mastigatória e

Longevidade em Idosos 17

2.2 Artigo 2: Aspectos Funcionais da Mastigação e Fragilidade em Idosos de

Diferentes Contextos Sociodemográficos 37

3 DISCUSSÃO 60

4 CONCLUSÃO 62

REFERÊNCIAS 63

ANEXOS

Anexo 1 – Certificado de Aprovação do Comitê em Ética em Pesquisa 66

Anexo 2 – Pedido do Banco do Projeto Rede FIBRA 67

Anexo 3 – Declaração de Autorização para uso de Arquivos, Registros e Similares 68 Anexo 4 – Informações e Comentários Ético sobre o Projeto FIBRA 69 Anexo 5 – Dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 70

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1 INTRODUÇÃO

A população brasileira apresenta nas últimas cinco décadas, transições decorrentes de mudanças nos níveis de mortalidade e fecundidade. Assim, a transição demográfica com consequente aumento da expectativa de vida e diminuição da fecundidade levou a um envelhecimento da população. Acompanhada da mesma, a transição epidemiológica apresentou redução da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias e aumento das doenças crônico-degenerativas (Schaan, 2007; Duarte e Barreto, 2012). Desde as décadas de 50/60, no Brasil, o crescimento do contingente idoso é maior, podendo atingir em 2015/2025 um aumento de cinco vezes o da população total (Lebrão, 2007).

O processo do envelhecimento pode ser afetado por diversos fatores, como sociodemográficos exemplificados pela escolaridade e renda, o que contribui para que os idosos constituam um grupo heterogêneo, com alguns idosos sendo robustos e alguns frágeis (Bales e Ritchie, 2002). Segundo Fried e colaboradores (2001), fragilidade é um conjunto de sinais e sintomas originados do declínio das funções normais do corpo, podendo apresentar aumento da vulnerabilidade a doenças, caracterizada pela diminuição das reservas de energia, desregulação neuroendócrina, declínio da função imune e redução da resistência a estressores (Fried et al., 2001). Logo, a fragilidade acarreta dificuldades na execução de atividades da vida diária (Metzelthin et al., 2010), representando, portanto, um problema de saúde pública, principalmente pela dependência na execução destas atividades, sejam estas básicas, instrumentais ou avançadas, no qual este idoso passa a estar submetido ao auxílio de terceiros. Atualmente, o efeito das transformações demográficas e epidemiológicas decorrentes do envelhecimento é constantemente foco de estudos, e a fragilidade é importante ser reconhecida diante deste contexto (OMS, 2005; Mello et al., 2014).

Observa-se na literatura o desenvolvimento de instrumentos baseados em diferentes definições para identificar a fragilidade sendo o termo idoso frágil utilizado pela primeira vez em 1970, sendo referenciado somente em 1990 (Metzelthin et al., 2010; Andrade et al., 2012). Hoje, dois grupos de pesquisa têm se destacado na busca de consenso sobre a definição de fragilidade em idosos: um nos Estados Unidos, que utiliza o conceito de fragilidade como uma síndrome geriátrica capaz de ser identificada por meio de um fenótipo que inclui cinco componentes mensuráveis; e outro no Canadá, que utiliza um construto multidimensional definindo a fragilidade utilizando uma abordagem holística, em que sua etiologia possui natureza multifatorial e dinâmica, relacionando-a com a história ou trajetória de vida do idoso, podendo esta, ser determinada ou modificada por fatores biológicos, psicológicos e sociais,

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cujas interações resultam em recursos e/ou déficits individuais em determinado contexto e sendo mensurada por nove domínios (Andrade et al., 2012). O critério de Fried e colaboradores (2001), que utiliza o conceito proposto pela escola americana, é o método mais utilizado (Lustosa et al., 2013; Mello et al., 2014;) no qual considera o frágil o idoso aquele que, dentre 5 indicadores apresenta três ou mais, sendo: autorrelato de perda de peso não intencional, fadiga/exaustão, diminuição da força de preensão manual, do nível de atividade física e da velocidade da marcha. A presença desses indicadores também possibilita classificar o idoso em pré-frágil (quando apresenta até dois indicadores de fragilidade) e não frágil ou robusto (na ausência dos indicadores citados).

Utilizando este critério de fragilidade, o Projeto FIBRA (Fragilidade em Idosos Brasileiros), foi a primeira investigação multicêntrica e multidisciplinar brasileira dedicada a estudar as condições de fragilidade em indivíduos de 65 anos ou mais. Para tal, buscou-se a identificação das condições de fragilidade em relação a variáveis sociodemográficas de saúde, autopercepção de saúde bucal, cognição, funcionalidade e psicossociais em idosos que vivem na comunidade. Neri et al. (2013) verificaram que 9,1% de idosos avaliados foram classificados como frágeis e 51,8% de idosos como pré-frágeis. (NERI et al., 2013).

A fragilidade está associada a grande prevalência de doenças crônicas. Destacam-se doenças bucais como a cárie dentária e a periodontite, que quando não tratadas podem levar a perda dentária (Andrade et al., 2013; Thomson, 2014). Em idosos mesmo devido à carga cumulativa das doenças bucais resultando em significativa perda dentária, o efeito da saúde bucal na saúde geral é ainda pouco estudado, apresentando, portanto, poucos estudos sobre essa temática (Andrade et al., 2013). Parte dos estudos até o momento mostram que a relação entre saúde bucal e fragilidade depende da relação entre saúde bucal e nutrição, sendo a presença de dentes um importante fator no percurso que resulta na fragilidade (Andrade et al., 2013; Neri et al., 2015).

Observa-se na literatura que há poucos estudos nacionais e internacionais sobre a saúde bucal autorrelada relacionada à fragilidade (Ahmed et al., 2007; Rihs e Sousa, 2009; Rihs et al., 2013). Também, verifica-se que pesquisas com esta temática parecem estar relacionadas com a combinação de fatores comportamentais, de atitudes, culturais e de experiências do idoso frente à condição questionada (Andrade et al., 2013), o que auxiliam na compreensão desta relação com a saúde bucal autopercebida. Um trabalho, realizado com idosos frágeis no município de Campinas verificou que os aspectos negativos da saúde bucal foram associados à dificuldade de acesso ao tratamento odontológico, o excesso de demandas

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de saúde e os problemas alimentares, auto avaliando assim uma pior qualidade de vida (Silva et al., 2011).

Castrejón-Pérez e colaboradores (2012) propuseram um modelo conceitual da saúde bucal, o qual utiliza informações acerca da autopercepção de saúde bucal de idosos como problemas na mastigação e mudança na escolha dos alimentos. A associação proposta pelos autores demonstra a relação entre os diversos fatores da saúde bucal precária e sua contribuição para a fragilidade, levando a um quadro de deterioração da saúde bucal. Este modelo, aliado a busca por estudos que investiguem a relação existente entre a saúde bucal e a fragilidade, em geral são escassos, o que aponta para a necessidade de mais estudos com essa relação (Castrejón-Pérez et al., 2012).

A necessidade de estudar as condições de saúde bucal autopercebidas dos idosos, associadas à fragilidade em diferentes contextos sociodemográficos poderá contribuir para reconhecer como os idosos estão envelhecendo no Brasil e, assim, permitir que haja planejamento dos serviços de saúde nos diversos níveis de atenção direcionadas a esse grupo etário (Ahmed et al., 2007).

O objetivo geral deste estudo foi verificar os aspectos da saúde bucal auto percebidos de idosos nos municípios de Campinas (SP), Belém (PA), Parnaíba (PI), Campina Grande (PB), Poços de Caldas (MG), subdistrito de Ermelino Matarazzo (SP) e Ivotí (RS), e avaliar sua relação com fragilidade, nos níveis individuais e contextuais. Os objetivos específicos serão apresentados na forma de artigos que correspondem aos capítulos 1 e 2, sendo o objetivo do primeiro avaliar a saúde bucal e a capacidade mastigatória autopercebida em idosos longevos em relação aos idosos mais jovens nos municípios brasileiros do Estudo FIBRA, e do segundo, verificar a relação entre a capacidade mastigatória autoreferida de saúde bucal e fragilidade em diferentes níveis contextuais e individuais destes idosos

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2 ARTIGOS

2.1 CONDIÇÃO DE SAÚDE BUCAL AUTOPERCEBIDA, CAPACIDADE MASTIGATÓRIA E LONGEVIDADE EM IDOSOS

Artigo aceito para publicação na Revista Ciência e Saúde Coletiva – 22/jul/2016 (Anexo 6) – Título inicial cadastrado no sistema da Revista: Autopercepção de Saúde Bucal em Idosos Longevos (Anexo 6).

Clarice Santana Milagres1, Luísa Helena do Nascimento Tôrres2, Anita Liberalesso Neri3, Maria da Luz Rosário de Sousa4

¹Doutoranda em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas. Departamento de Odontologia Social. Av. Limeira, 901 - Caixa Postal 52 - CEP 13414-903 - Piracicaba - SP – Brasil. E-mail: [email protected]. Tel.: (19) 98372-4454/ Tel.: (19) 2106-5200.

2Doutora em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas. Departamento de Odontologia Social.

3Professora Titular na Faculdade de Educação da UNICAMP. Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Departamento de Psicologia Educacional.

4Professora Titular da FOP/UNICAMP. Doutora em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas. Departamento de Odontologia Social.

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RESUMO

Objetivo: Verificar a condição bucal e a capacidade mastigatória autopercebidas em idosos longevos (≥80 anos). Métodos: Foram utilizados dados do estudo multicêntrico FIBRA. A amostra foi composta por 2.341 indivíduos com ausência de déficit cognitivo, com idade ≥65 anos, no período entre 2008 e 2009, onde os idosos foram submetidos à coleta de dados. Quanto ao desfecho, a idade foi dicotomizada em 65-79 e 80 anos ou mais. A associação entre longevidade e as variáveis sociodemográficas, comportamentais, de saúde geral e bucal e a capacidade mastigatória autopercebida foram avaliadas pela regressão de Poisson. Resultados: Dados completos disponíveis para 2.126 idosos. A idade média foi 70,91 (DP=±4,11) anos entre os idosos jovens e 82,70 (DP=±2,61) entre os idosos longevos. A amostra de idosos com idade ≥80 anos foi de 11,7%. Baixa escolaridade, estado civil solteiro e ausência de trabalho estiveram associados à longevidade, assim como autorrelato de não possuir dentes naturais e dificuldade ou dor ao mastigar alimentos duros. Conclusões: Os resultados sugerem a associação entre longevidade com características sociodemográficas e de saúde bucal.

Palavras-Chaves: idosos, idosos longevos, saúde bucal, autoavaliação.

ABSTRACT

Aim: To verify the oral health conditions and self perceived chewing ability in the oldest old (≥80 years). Methods: A multicenter FIBRA study data were used. The sample consisted of 2.341 individuals with no cognitive impairment, aged ≥65 years, between 2008 and 2009, where the elderly were subjected to data collection. Regarding the outcome, age was dichotomized into 65-79 and 80 and over. The association between longevity and the sociodemographic and behavioral variables, general and oral health and self-perceived chewing ability was assessed by Poisson regression. Results: Complete data available for 2.126 seniors. The mean age was 70,91 (SD=±4.11) years among the young elderly and 82,70 (SD=±2.61) among the oldest old. The sample of individuals aged ≥80 years was 11,7%. Low education, single marital status and lack of work were associated with longevity, as well as self-report has no natural teeth and difficulty or pain when chewing hard foods. Conclusions: The results suggest an association between longevity with sociodemographic characteristics and oral health.

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INTRODUÇÃO

Mundialmente, estima-se que um em cada dez habitantes seja idoso1. No Brasil, os dados do Censo Demográfico 2010 revelaram um aumento da população com 65 anos ou mais de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 20102. Além do envelhecimento da população total, a proporção da população idosa longeva, ou seja, idosos com 80 anos ou mais, está crescendo, correspondendo atualmente por 1,6% do total de idosos brasileiros2. Com isso, a alteração da composição etária entre os idosos também se encontra em processo de envelhecimento1,3.

Estima-se que a população longeva apresente características socioeconômicas, psicológicas e morfofisiológicas diferenciadas em relação aos idosos mais jovens, apresentando maior número de doenças crônicas, uso de medicamentos e busca por serviços de saúde, com gastos elevados em saúde e riscos para o desenvolvimento de incapacidades diversas4,5.

Alguns autores têm utilizado o termo “quarta idade” para ressaltar a condição longeva do idoso, assim como uma categoria complementar à “terceira idade”6,7. Sendo assim, os idosos não formariam uma população uniforme, uma vez que apresentam importantes diferenças entre aqueles mais jovens e os longevos7. De acordo com a literatura, idosos acima de 80 anos apresentam uma tendência ao isolamento social, maior frequência de doenças crônicas não transmissíveis, além de outros fatores de ordem social, que tornam esse grupo etário mais vulnerável, como por exemplo, devido à menor renda e arranjo de moradia fragmentado4,5,8.

O envelhecimento bem-sucedido e saudável surge em contextos variados, gerando preocupações em relação a como manter a saúde geral e a saúde bucal dos idosos. Um aspecto relevante é a autopercepção da saúde bucal, que muitas vezes se relaciona à condição clínica desses indivíduos9,10. Em estudo com idosos, verificou-se que o edentulismo e o uso de próteses estiveram associados ao impacto psicossocial e funcional relacionados às dificuldades de mastigação. Apesar desses dados apresentados, não foi possível observar autopercepção de incômodo na condição bucal. Uma das explicações seria a capacidade de resiliência dos idosos, por considerarem tais condições como inerentes ao processo natural do envelhecimento, avaliando como natural as extrações dentárias, o uso de próteses e até mesmo algumas dificuldades relacionadas à mastigação10. Além disso, a autopercepção de saúde bucal parece estar relacionada com a combinação de comportamentos, atitudes, cultura e experiências do idoso frente à condição questionada11.

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Em relação às doenças bucais, verifica-se que as mesmas causam agravos e sequelas como as perdas dentárias, principalmente na população idosa. Esse fenômeno traz consigo uma nova preocupação com o cuidado à saúde do idoso. Na odontologia, os problemas de saúde bucal que mais acometem esta população são declínio da presença de dentes hígidos, alta prevalência de edentulismo, cáries radiculares, alterações nos tecidos moles, doenças periodontais e ausência de utilização de serviços odontológicos2-5,12. Cardos e Bujes (2010), em uma revisão sistemática verificaram que as inter-relações entre a saúde bucal com as funções da mastigação e da deglutição se dão pela ausência de dentes no idoso e este fato interfere em uma deglutição eficiente, prejudicando o estado nutricional do idoso12. O estudo realizado por Medeiros, Pontes e Magalhães Jr. (2014), verificou que os idosos referiram possuir maiores dificuldades na mastigação com os alimentos sólidos mais duros, como carnes, frutas e verduras cruas, e cereais, além de sentirem a necessidade de ingerir líquidos durante a refeição para facilitar a deglutição13.

Quanto à percepção de saúde bucal entre os idosos, encontram-se variáveis envolvidas não só em relação à capacidade mastigatória autopercebida, mas as condições funcionais de alimentação, a facilidade de ingestão e digestão dos alimentos, a ausência de dores orofaciais e a ligação com os atos de falar e sorrir14. Vasconcelos et al (2012), observaram que a autopercepção de saúde bucal dos idosos estudados estava associada a fatores subjetivos ao invés dos objetivos, ou seja, a avaliação da saúde bucal apresentou-se positiva, divergindo da condição clínica encontrada15. Resultado semelhante foi encontrado no trabalho de Costa, Saintrain e Vieira (2010)14.

O presente estudo objetivou avaliar a saúde bucal e a capacidade mastigatória autopercebida dos idosos longevos em relação aos idosos mais jovens em seis municípios brasileiros. Este trabalho justifica-se por considerar que a maioria dos estudos que verifica o estado de saúde bucal de idosos baseia-se em indicadores clínicos odontológicos9, existindo poucas avaliações sobre a saúde e o bem-estar a partir da percepção do idoso9,10, em especial, do idoso longevo9. Logo, as informações geradas no presente estudo poderão contribuir para o estabelecimento de ações específicas em saúde bucal que contribuam para o envelhecimento saudável desta população considerando o próprio ponto de vista sobre seu estado bucal e sua condição mastigatória.

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MATERIAIS E MÉTODOS

Estudo seccional, que utilizou dados do Projeto FIBRA, que investiga a fragilidade e variáveis associadas em idosos de 65 anos ou mais residentes em zonas urbanas de diferentes cidades brasileiras, no período 2008 a 2009.

O Projeto FIBRA foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (protocolo nº 208/2007) e este projeto também foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, protocolo n° 068/2015.

População Alvo

A população deste estudo foi constituída por idosos, de 65 anos ou mais, residentes em seis municípios do país: Campinas (SP), Belém (PA), Parnaíba (PI), Poços de Caldas (MG), subdistrito de Ermelino Matarazzo, na cidade de São Paulo (SP) e Ivotí (RS). Foram totalizados 3.478 idosos, recrutados em domicílio e submetidos à sessão única de coleta de dados. Dessa amostra, 2.341 indivíduos não apresentaram déficit cognitivo em ambos os sexos, dos quais 273 (11,7%) apresentaram idade igual ou superior a 80 anos.

Plano Amostral

As seis localidades brasileiras, escolhidas por conveniência, selecionaram amostras probabilísticas de setores censitários, cujos domicílios recrutaram idosos compreendendo cotas de homens e mulheres de 65 a 69 anos, 70 a 74, 75 a 79 e 80 e mais, sendo estas, proporcionalmente ao tamanho da população de idosos de cada município.

O plano amostral estabeleceu que o tamanho mínimo da amostra estimada para Campinas e Belém (localidades com mais de 1 milhão de habitantes) deveria ser 601 idosos, para erro amostral de 4%. Para as demais, com menos de 1 milhão de habitantes, a estimativa foi de um mínimo de 384 idosos, para um erro amostral de 5%. O município de Ivoti que possuía uma população menor foi contabilizado todos os idosos, num total de 646 indivíduos. Nesse caso, o cálculo amostral utilizado foi de estimativa de uma proporção numa população finita com α=5%, erro amostral de 5% e estimativa de 50% para a distribuição da variável em estudo. Por esses parâmetros, a amostra de Ivoti foi estimada em 235 idosos14. Informações detalhadas sobre a seleção dos participantes, a coleta e o protocolo encontram-se descritos no estudo de Neri e colaboradores16.

Baseado no estudo de Fried et al (2001)17, fragilidade é uma condição clínica geriátrica que envolve o declínio das reservas de energia, a desregulação neuroendócrina, a

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diminuição da função imune e também da resistência a estressores, sendo resultante da interação dos riscos atuais e acumulados em relação à saúde e a sua funcionalidade. Como consequência, estes indivíduos apresentam uma maior vulnerabilidade a desfechos clínicos adversos17. A mensuração da fragilidade é composta por 5 itens de avaliação: perda de peso não intencional, exaustão/fadiga, força de preensão manual (fraqueza muscular), nível de atividade física e velocidade da marcha. O idoso considerado frágil foi aquele que pontuou três ou mais destes critérios, pré-frágil quando apresentou pontuação de um a dois critérios e não-frágil (ou robusto) quando não pontuou em nenhum dos cinco critérios estabelecidos17. Esta definição foi usada pelo Estudo FIBRA, no qual foram adotados os seguintes critérios de exclusão: presença de problemas de memória, atenção, orientação e comunicação sugestiva de déficit cognitivo (utilização do MEEM – Mini Exame do Estado Mental, com notas de corte baseados nos critérios sugeridos pela Academia Brasileira de Neurologia, com base em Brucki et al (2003) menos um desvio padrão)18, incapacidade permanente ou temporária para andar, perda localizada de força e afasia decorrente de acidente vascular encefálico (AVE), comprometimento da fala, da motricidade ou da afetividade decorrente de doença de Parkinson avançada, déficit auditivo ou visual grave e presença de estágio terminal. Em relação aos critérios de inclusão, foram selecionados idosos com 65 anos ou mais, residentes permanentes no domicílio e no setor censitário, capazes de se comunicar, entender instruções e que concordassem em participar, portanto, idosos que não apresentassem déficit cognitivo. Os informantes podiam ser os próprios idosos ou um familiar residente no domicílio.

Em relação às notas de corte utilizadas para exclusão pelo MEEM utilizou-se 17 pontos para os analfabetos; 22 para idosos com escolaridade entre 1 e 4 anos; 24 para os com escolaridade entre 5 e 8 anos e 26 para os que tinham 9 anos ou mais anos de escolaridade. A opção por tais notas de corte, também adotada por Fried et al (2001)17, Ferrucci et al (2004)19 e Bandeen-Roche et al (2006)20, foi feita porque déficits cognitivos poderiam prejudicar a confiabilidade das respostas de autorrelato.

Coleta de Dados

A coleta de dados ocorreu de setembro de 2008 a junho de 2009, em uma sessão única com 40 a 120 minutos de duração, a partir da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Seguiam-se os questionários de identificação, de dados sociodemográficos e o MEEM e verificação dos demais critérios de exclusão. Assim, coletavam-se as demais medidas, como saúde geral, acesso a serviços odontológicos,

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comportamentos/hábitos de vida, saúde bucal e condições funcionais da alimentação autopercebidas dos idosos incluídos neste estudo.

Variáveis do estudo

A variável idade foi coletada através da questão “qual a sua idade” de forma contínua e posteriormente foi dicotomizada em 65-79 anos e 80 anos ou mais, sendo o desfecho deste estudo.

As variáveis independentes foram representadas pelos dados sociodemográficos, indicadores de saúde geral; presença de fragilidade, indicadores comportamentais/hábitos de vida e uso de medicamentos, indicadores de acesso a serviços odontológicos, de autopercepção de saúde bucal e condições funcionais da alimentação.

- Dados sociodemográficos: sexo (masculino e feminino), grupo étnico (branco e outros), escolaridade em anos (4 anos ou mais e até 3 anos), estado civil (casado/casado com companheiro e solteiro/viúvo/separado/divorciado), arranjo de moradia (outros e mora sozinho), trabalha atualmente (sim e não).

- Indicadores de saúde geral pelo: número de doenças médicas autorrelatadas (até uma e duas ou mais) que, segundo o idoso, foram diagnosticadas por médico no último ano anterior à entrevista, avaliação da saúde geral (muito boa/boa, muito ruim/ruim e regular), autopercepção da saúde comparada com outros da mesma idade (pior, igual e melhor).

- Fragilidade: pré-frágil e/ou não frágil; frágil.

- Indicadores comportamentais/hábitos de vida e uso de medicamentos: se é fumante atualmente (sim e não), consumo de bebidas alcoólicas (nunca e outros) e quantidade de medicamentos que faz uso nos últimos 3 meses (até um e dois ou mais).

Em relação às variáveis sociodemográficas do estudo, estas foram dicotomizadas de acordo com sua distribuição, onde o grupo étnico como caucasiano e outros, segundo autorrelatado dos idosos no qual foi coletado considerando a classificação: branco, preto, pardo, indígena, amarelo e outros. A escolaridade também foi dicotomizada em anos (4 anos ou mais e até 3 anos), onde foi obtida a partir dos seguintes itens: sem escolaridade formal, 1 a 3, 4 a 8, 9 a 11 e 12 e mais. O arranjo da moradia obteve quatro itens dos quais foram dicotomizados em: mora sozinho e não mora sozinho [com companheiro (a), filho (s) e outros].

Os indicadores de saúde geral e presença de fragilidade utilizaram a variável número de doenças médicas autorrelatadas, no qual foi coletada com os seguintes itens: até uma e

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duas ou mais doenças. A avaliação da saúde geral foi verificada através das seguintes categorizações: muito boa/boa, ruim/muito ruim e regular.

- Indicadores de acesso a serviços odontológicos (nos últimos 12 meses anteriores à entrevista): rede de serviços de saúde odontológico (SUS e particular/convênio), frequência no dentista nos últimos doze meses (uma vez ou mais e nunca) e motivo de não ir ao dentista último ano (não precisou, não quis ir/dificuldade para conseguir a consulta ou para ir).

- Indicadores de autopercepção de saúde bucal e capacidade mastigatória: presença de dentes naturais, uso de dentaduras (próteses), a dentadura machuca ou cai, alimenta-se com dentadura, dor de dente (nos últimos seis meses), sensação de boca seca (nas últimas quatro semanas), presença de ferida na língua, bochecha, céu da boca ou lábio (há mais de um mês), dificuldade para mastigar e engolir alimentos, dificuldade ou dor para mastigar comida dura e avaliação da saúde bucal (ótima, boa, regular e ruim).

Para o presente estudo, foram avaliadas 2 questões referentes à capacidade mastigatória autopercebida (dificuldade para mastigar e engolir alimentos e dificuldade ou dor para mastigar comida dura), as quais foram dicotômicas (sim e não)21.

Análise dos Dados

Para análise de dados foi utilizado os softwares SPSS 18.0. A distribuição das variáveis do estudo foi verificada. As análises bivariadas incluíram o teste do Qui-quadrado para variáveis categóricas. Considerou-se, para todos os testes estatísticos, um nível de significância de p<0,05.

Foram realizadas análises bivariadas entre as variáveis que foram comparadas, obtendo-se como medida de associação a razão de prevalência (RP) e os respectivos intervalos de confiança a 95% por meio da regressão de Poisson com variância robusta. Foram incorporadas na análise multivariada as variáveis que se associaram com o desfecho, na análise bivariada, com valor de p<0,25 e mantidas no modelo final aquelas com associação significante no nível de p<0,05.

RESULTADOS

O estudo contou com 3073 idosos que participaram do primeiro bloco do protocolo, sendo que 2.341 destes participaram nas duas fases. Entretanto, devido a alguns missings, por questões não respondidas, a análise final contou com dados completos para 2.126 idosos, sendo que as variáveis motivo de não ir ao dentista, alimenta-se com dentadura (prótese),

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dentadura machuca ou cai e quantidade de medicamentos que faz uso foram respectivamente aquelas que apresentaram maior quantidade de não respostas (missings). Destes com informações completas, foi verificado que 11,7% são idosos longevos (n=273). De acordo com a tabela 1, na amostra total de idosos pesquisados, havia maior proporção de mulheres (65,6%). Observou-se predomínio da faixa etária de idosos jovens (88,3%), onde a média da idade verificada entre eles foi de 70,91 anos (DP=±4,11), enquanto entre os idosos longevos a idade média foi 82,70 anos (DP=±2,61). Da amostra total, declararam-se casados ou vivendo com companheiro (a), 50,5% dos idosos, sendo a categoria “solteiros” formada por 33,9% de viúvos, 8,3% de solteiros e 7,3% de divorciados/separados/desquitados. Apenas 13,8% relataram morar sozinho, enquanto aproximadamente 83% relatou não mais trabalhar.

Quanto aos idosos longevos, houve maior proporção de mulheres (59,7%), caucasianos (61,3%) e estado civil solteiro (64,1%). Apenas 20,2% relataram morar sozinhos, enquanto 88,9% relataram não mais trabalhar (tabela 1).

Na amostra pesquisada, foi encontrada maior proporção da presença de duas ou mais doenças médicas autorrelatadas tanto entre os idosos mais jovens quanto entre os longevos. Ambos apresentaram maior proporção de avaliação da saúde geral regular e melhor autopercepção da saúde comparada com outros da mesma idade. A fragilidade foi identificada em 5,9% dos idosos mais jovens, enquanto nos idosos longevos foi representada por 15,8% destes indivíduos (tabela 1).

Tabela 1 – Distribuição e frequência das características sociodemográficas, indicadores de saúde geral, presença de fragilidade, indicadores comportamentais/hábitos de vida e uso de medicamentos segundo o desfecho, longevidade. Estudo FIBRA, 2008-2009.

Variáveis/Categorias N total = 2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p Sexo Masculino 805 (34,4) 695 (33,6) 110 (40,3) Feminino 1536 (65,6) 1373 (66,4) 163 (59,7) 0,02 Grupo étnico Branco 1310 (56,5) 1145 (55,9) 165 (61,3) Outros 1007 (43,5) 903 (44,1) 104 (38,7) 0,09

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Variáveis/Categorias N total = 2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p

Escolaridade (em anos)

4 anos ou mais 1374 (58,7) 1240 (60,0) 134 (49,1)

Até 3 anos 965 (41,3) 826 (40,0) 139 (50,9) 0,001

Estado civil

Casado 1181 (50,5) 1083 (52,5) 98 (35,9)

Solteiro (viúvo, divorciado, solteiro)

1156 (49,5) 981 (47,5) 175 (64,1) < 0,001

Arranjo da moradia

Não mora sozinho 2011 (86,2) 1794 (87,0) 217 (79,8)

Sozinho 323 (13,8) 268 (13,0) 55 (20,2) 0,001

Trabalha atualmente

Sim 386 (16,6) 356 (17,3) 30 (11,1)

Não 1941 (83,4) 1701 (82,7) 240 (88,9) 0,01

Número de doenças médicas autorrelatadas

Até 1 790 (34,1) 685 (33,4) 105 (39,0)

Duas ou mais 1529 (65,9) 1365 (66,6) 164 (61,0) 0,07

Avaliação da saúde geral

Muito boa e boa 853 (36,9) 746 (36,5) 107 (39,9)

Muito ruim e ruim 542 (23,4) 493 (24,1) 49 (18,3)

Regular 917 (39,7) 805 (39,4) 112 (41,8) 0,10

Autopercepção da saúde comparada com outros da mesma idade

Pior 152 (4,6) 141 (7,0) 11 (4,2)

Igual 524 (16,0) 475 (23,6) 49 (18,9)

Melhor 1594 (79,4) 1395 (69,4) 199 (76,8) 0,04

Presença de fragilidade

Pré-frágil e não frágil 2177 (93,0) 1947 (94,1) 230 (84,2)

Frágil 164 (7,0) 121 (5,9) 43 (15,8) < 0,001

Fumante atualmente

Não 2109 (85,8) 1855 (90,7) 254 (94,4)

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Variáveis/Categorias N total = 2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p

Já consumiu bebidas alcoólicas

Nunca 1579 (69,1) 1385 (68,6) 194 (72,7)

Outros 707 (30,9) 634 (31,4) 73 (27,3) 0,18

Quantidade de medicamentos que faz uso

Até 1 546 (27,6) 478 (27,4) 68 (28,9)

2 ou mais 1432 (72,4) 1265 (72,6) 167 (71,1) 0,63

Verificou-se que nos dois grupos, a maioria dos indivíduos da amostra procurou o serviço odontológico privado ou possuía algum tipo de convênio (72,4%). Entre idosos mais jovens e idosos longevos, foi observado que 62,6% e 67,7%, não frequentaram o dentista no último ano pesquisado, respectivamente (tabela 2). Quanto à autopercepção de saúde bucal, verificou-se que nos 2 grupos de idosos aproximadamente 70% dos mesmos considerou a saúde bucal como boa ou ótima. Problemas relacionados à capacidade mastigatória autopercebida entre idosos longevos, como dificuldade para mastigar e engolir alimentos; e dificuldade ou dor para mastigar comida dura foram relatados por 20,2% e 43,1% dessa amostra respectivamente (tabela 2).

Tabela 2 – Distribuição e frequência das características segundo indicadores de acesso a serviços odontológicos, autopercepção de saúde bucal e condições funcionais da alimentação, segundo o desfecho, longevidade. Estudo FIBRA, 2008-2009.

Variáveis/Categorias N total =2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p

Rede de serviços de saúde odontológico

SUS 834 (27,6) 748 (38,7) 86 (35,0)

Particular/Convênio 2181 (72,4) 1187 (61,3) 160 (65,0) 0,26 Frequência no dentista (últimos 12 meses)

Uma vez ou mais 840 (36,8) 755 (37,4) 85 (32,3)

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Variáveis/Categorias N total =2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p

Motivo de não ir ao dentista

Não precisou 713 (58,7) 618 (58,2) 95 (62,1)

Não quis ir/dificuldade para conseguir a consulta ou para ir

502 (41,3) 444 (41,8) 58 (37,9) 0,36

Presença de dente natural

Sim 1234 (53,5) 1123 (55,1) 111 (41,4)

Não 1071 (46,5) 914 (44,9) 157 (58,6) < 0,001

Uso de dentadura (prótese)

Sim 1717 (75,3) 1505 (75,0) 212 (80,9)

Não 562 (24,7) 502 (25,0) 60 (19,1) 0,03

Dentadura machuca ou cai

Não 1298 (73,9) 1139 (74,0) 159 (73,3)

Sim 458 26,1) 400 (26,0) 58 (26,7) 0,82

Alimenta-se com dentadura (prótese)

Sim 1587 (91,5) 1394 (91,7) 193 (90,2)

Não 147 (8,5) 126 (8,3) 21 (9,8) 0,45

Dor de dente (últimos 6 meses)

Nenhuma e pouca 2043 (93,8) 1804 (93,4) 239 (96,0)

Moderada e muita 134 (6,2) 124 (6,4) 10 (4,0) 0,14

Sensação de boca seca (últimas 4 semanas)

Não 1349 (58,7) 1186 (58,5) 163 (60,8)

Sim 947 (41,3) 842 (41,5) 105 (39,2) 0,46

Presença de ferida na língua, bochecha, céu da boca ou lábio (há mais de 1 mês)

Não 2138 (93,1) 1894 (93,3) 244 (91,4)

Sim 158 (6,9) 135 (6,7) 23 (8,6) 0,23

Dificuldade para mastigar e engolir alimentos

Não 1811 (80,2) 1601 (80,2) 210 (79,8)

(29)

Variáveis/Categorias N total =2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p

Dificuldade ou dor para mastigar comida dura

Não 1456 (63,2) 1304 (64,0) 152 (56,9)

Sim 847 (36,8) 732 (36,0) 115 (43,1) 0,02

Avaliação da saúde bucal

Boa/ótima 1616 (70,4) 1429 (70,5) 187 (70,3)

Regular/ruim 678 (29,6) 599 (29,5) 79 (29,7) 0,96

A análise multivariada (tabela 3) apresentou menor prevalência de indivíduos longevos entre as mulheres (RP=0,48, IC95% 0,37-0,62), os que não se autorrelataram brancos (RP= 0,73, IC95% 0,57-0,95), os com 2 ou mais doenças (RP= 0,76, IC95% 0,59-0,98) e os que fumam (RP=0,56, IC95% 0,32-0,97); e maior prevalência de idosos longevos entre os com menor escolaridade (RP=1,47, IC95% 1,15-1,88), os solteiros (RP=2,27, IC95% 1,76-2,92) e os que não trabalham (RP=1,55, IC95% 1,06-2,28). As variáveis de saúde bucal associadas com maior prevalência de longevidade foram o autorrelato de não possuir dentes naturais (RP= 1,46, IC95% 1,14-1,87) e de dificuldade ou dor ao mastigar comida dura (RP= 1,34, IC95% 1,05-1,70).

Tabela 3 – Resultado final da análise multivariada bruta e ajustada das variáveis associadas à longevidade (≥80 anos) e respectivo intervalo de confiança a 95%. Estudo FIBRA, 2008-2009.

Variáveis/Categorias RP Bruta (IC 95%) p RP Ajustada (IC 95%) p Sexo Masculino 1,0 1,0 Feminino 0,78 (0,62 – 0,97) 0,03 0,48 (0,37 – 0,62) <0,001 Grupo étnico Branco 1,0 1,0 Outros 0,82 (0,65 – 1,03) 0,09 0,73 (0,57 – 0,95) 0,017

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Variáveis/Categorias N total =2341 n (%) Idosos jovens n (%) Idosos longevos n (%) p Escolaridade (anos) 4 anos ou mais 1,0 1,0 Até 3 anos 1,00 (1,18 – 1,84) <0,001 1,47 (1,15 – 1,88) <0,002 Estado civil Casado 1,0 1,0

Solteiro (viúvo, divorciado, solteiro)

1,82 (1,44 – 2,30) <0,001 2,27 (1,76 – 2,92) <0,001

Trabalha atualmente

Sim 1,0 1,0

Não 1,59 (1,11 – 2,29) 0,01 1,55 (1,06 – 2,28) 0,025 Número de doenças médicas autorrelatadas

Até 1 1,0 1,0

2 ou mais 0,81 (0,64 – 1,01) 0,06 0,76 (0,59 – 0,98) 0,036 Fumante atualmente

Não 1,0 1,0

Sim 0,61 (0,37 – 1,00) 0,05 0,56 (0,32 – 0,97) 0,039 Presença de dente natural

Sim 1,0 1,0

Não 1,63 (1,30 – 2,05) <0,001 1,46 (1,14 – 1,87) 0,003 Dificuldade ou dor ao mastigar comida dura

Não 1,0 1,0

Sim 1,30 (1,04 – 1,63) 0,02 1,34 (1,05 – 1,70) 0,017 Referência do desfecho: idosos mais jovens (65-79 anos)

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo sugerem que ausência de dentes naturais e dificuldade ou dor para mastigar comida dura estão relacionados à idade mais avançada, sendo mais prevalente nos idosos longevos que nos idosos jovens. O fato dos idosos mais velhos apresentarem maior prevalência de perda dentária possivelmente está relacionado com a exposição dos dentes por mais tempo na cavidade bucal, já que a sequela das doenças bucais tem caráter cumulativo, e

(31)

apresenta como desfecho final a perda dentária. Ainda estudos brasileiros têm demonstrado que a situação epidemiológica da população idosa em relação ao edentulismo e ao reduzido número de dentes naturais afeta, em especial, a qualidade de vida nesta faixa etária, podendo refletir em uma desfavorável expectativa de vida e longevidade22-26.

Niesten, Mourik e Sanden (2012) em trabalho qualitativo caracterizando uma amostra de 38 idosos e média de idade de 80 anos, verificaram que possuir dentes naturais esteve associado com possuir boa saúde geral e bucal, além da obtenção de um melhor senso de controle, conforto, aparência e funções orais27. No entanto, em nosso estudo, apesar de haver menor número de dentes naturais em idosos longevos em relação aos idosos jovens, não foi encontrada diferença significante na avaliação de saúde bucal entre os grupos, possivelmente porque a ausência de dentes não interferiu na autopercepção de saúde bucal predominantemente positiva em ambos os grupos.

A perda dentária foi ainda avaliada por Savoca e colaboradores (2010) em idosos como um indicador de comprometimento da qualidade da dieta e no qual 35,5% da amostra foi composta por idosos com 75 anos ou mais e representados por diferentes etnias. Segundo os autores, o desconforto percebido pela perda de dentes pode alterar a percepção de saúde bucal dos idosos, ao avaliarem que a mastigação não é realizada com naturalidade e conforto, e que há necessidade de selecionar o tipo de alimento ou a forma de consumi-lo, por meio de estratégias que facilitem a ingestão28.

Quanto à mastigação, poder-se-ia pensar na relação entre maior tempo de exposição com maior número de perdas afetando a mastigação. Entretanto, o resultado sugere que a dificuldade de mastigação de alimentos duros pode estar associada às alterações que ocorrem na função do sistema estomatogmático com o envelhecimento29, pela perda de tônus e de força muscular orofacial, dificultando o controle do bolo alimentar12. No presente estudo, idosos relataram dificuldade ou dor ao mastigar comida dura. A mudança no padrão alimentar também pode acarretar uma atrofia da musculatura mastigatória, repercutindo na estética facial e autoestima do idoso, além de comprometer a própria longevidade30.

Em outro estudo, a perda de dentes foi associada à diminuição da capacidade de mastigar e deglutir adequadamente o alimento, tendo como consequência o comprometimento da saúde geral e o bem-estar do indivíduo, verificado pela mudança de uma dieta saudável para uma dieta com predominância de carboidratos e alimentos menos consistentes, que não possuem os nutrientes adequados às necessidades dos idosos30. No entanto, no presente estudo, os idosos longevos apresentaram menor prevalência de duas ou mais doenças médicas autorrelatadas em relação aos idosos jovens, com resultado estatisticamente significante. Este

(32)

comprometimento da saúde geral devido às comorbidades, relatadas pelo número de doenças médicas autorreferidas pode ocorrer por diversos fatores, e a ausência de dentes e ou a dificuldade para mastigar deve ser avaliada neste contexto.

O estudo entre longevos japoneses verificou que a dentição inadequada devido à perda dos dentes pode afetar o comportamento alimentar, incluindo mastigação e escolha dos alimentos, fazendo com que os indivíduos reduzissem substancialmente o consumo de frutas, verduras e outros nutrientes essenciais31. Esses achados também puderam ser vistos por Chen et al, (2013), onde idosos longevos e aqueles no final da vida, apresentaram menor capacidade de mastigação dos alimentos, fazendo-a por partes32. Tanto a perda de dentes quanto a dificuldade para mastigar foram relatados por idosos longevos.

Wiener et al, (2010), verificaram que na amostra composta por idosos com média de 78 anos, 11,1% apresentavam dificuldade para mastigar comida dura dentre aqueles que apresentavam hiposalivação, enquanto aqueles que possuíam xerostomia, esse percentual era de aproximadamente 17%30. O presente estudo não encontrou associação entre a xerostomia e a longevidade, no entanto, pode constatar que entre idosos mais jovens a sensação de boca seca foi representada por aproximadamente 42%, enquanto nos idosos longevos foi 40%.

Os achados sociodemográficos, deste estudo caracterizaram a amostra de idosos longevos, apresentando maiores prevalências entre caucasianos22,28-32, solteiros, com baixa escolaridade25,26,28-32, ausência de trabalho29-32, reproduzindo o padrão dos idosos em geral dos estudos na literatura, porém no presente estudo foram características significantes no grupo dos idosos longevos. Este perfil sócio demográfico pode subsidiar programas de promoção de saúde direcionados a grupos de idosos longevos.

O presente estudo apresenta limitações. Ao considerar a metodologia do FIBRA em que foi almejada a variável fragilidade, foram analisados somente os idosos que não apresentavam déficit cognitivo. Com relação aos indicadores de saúde geral uma característica encontrada em relação aos idosos participantes deste estudo foi maior número de doenças médicas autorrelatadas. Estes dados podem ser acompanhados como viés amostral já que o estudo utiliza uma população específica em estudo seccional e em idosos. Além disso, a literatura ainda possui reduzido número de trabalhos que abordem a saúde bucal em idosos longevos, portanto, a discussão é pautada em trabalhos que abordaram a população idosa de uma forma geral, porém alguns dos estudos apresentaram amostra com idade média elevada. Quanto ao delineamento seccional do presente estudo, este não permite estabelecer relações temporais de causa e efeito entre a saúde bucal dos idosos longevos e a capacidade mastigatória consideradas. Apesar de ser um resultado esperado pelo efeito cumulativo das

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doenças bucais, este estudo tem mérito por estudar a saúde bucal, a nível populacional, em um país em desenvolvimento, abordando um grande número de idosos de diferentes localidades. No mais, a literatura, em sua grande maioria, verifica a saúde bucal através de dados clínicos e não de autopercepção, demonstrando assim uma inconsistência entre achados que como a redução do número de dentes naturais e a real condição de saúde bucal dos idosos.

CONCLUSÃO

Este estudo sugere que ausência de dentes naturais e dificuldade ou dor para mastigar comida dura podem estar relacionados com longevidade. É importante salientar que os dados obtidos foram de autorrelatos dos idosos participantes da pesquisa. Medidas que visem proporcionar melhores condições de saúde bucal e que atendam às necessidades específicas da população idosa, devem estar presentes para que as condições de saúde necessárias contribuam para um envelhecimento ativo.

REFERÊNCIAS

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2.2 ASPECTOS FUNCIONAIS DA MASTIGAÇÃO E FRAGILIDADE EM IDOSOS DE DIFERENTES CONTEXTOS SOCIODEMOGRÁFICOS

Clarice Santana Milagres1, Luísa Helena do Nascimento Tôrres2, Anita Liberalesso Neri3, José Leopoldo Ferreira Antunes4, Maria da Luz Rosário de Sousa5

¹Doutoranda em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Departamento de Odontologia Social.

2Doutora em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Departamento de Odontologia Social.

3Professora Titular na Faculdade de Educação da UNICAMP. Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Brasil. Departamento de Psicologia Educacional.

4 Professor Titular da Faculdade de Saúde Pública da USP. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Brasil. Departamento de Epidemiologia.

5Professora Titular da FOP/UNICAMP. Doutora em Odontologia (Saúde Coletiva). Faculdade de Odontologia de Piracicaba/Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Departamento de Odontologia Social.

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RESUMO

Objetivo: investigar a associação de aspectos funcionais da mastigação e fragilidade em idosos brasileiros Métodos: Participaram 2.341 idosos com 65 anos e mais, recrutados na comunidade pelo Estudo Fragilidade em Idosos Brasileiros (FIBRA), sem déficit cognitivo e integrantes de amostras probabilísticas de 6 cidades brasileiras selecionadas. O desfecho fragilidade foi verificado através de 5 critérios (autorrelato de perda de peso não intencional, fadiga/exaustão, diminuição da força de preensão manual, do nível de atividade física e da velocidade da marcha) e dicotomizado entre frágil e não-frágil. A variável aspectos funcionais da mastigação foi formada por um conjunto de dez questões obtidas por meio de autorrelato, e após dicotomizada segundo o número de problemas encontrados até 2 e 3 ou mais. Para análise estatística, foi utilizada a medida de ajuste entre os fatores contextuais; e o desfecho fragilidade foi apresentada junto a razão de chances (OR) com seu respectivo intervalo de confiança de 95%. A regressão logística multinível considerou seis modelos onde os dados foram organizados hierarquicamente e todas as associações foram ajustadas sendo removidas em sequência aquelas com menor significância estatística (p≥0,05). Resultados: Idosos que apresentaram idade igual ou superior a 76 anos (OR=2,88), não trabalhavam (OR=2,31), com depressão (OR=2,31), que avaliaram pior sua condição de saúde comparada aos demais de mesma idade (OR=3,91) e possuíam três ou mais aspectos funcionais negativos da mastigação mostraram maiores chances de apresentar fragilidade (OR=2,06; IC 95% 1,25-3,41). Conclusão: os aspectos funcionais da mastigação foram associados à fragilidade.

ABSTRACT

Aim: to investigate the association of functional aspects of mastication and frailty in Brazilian elderly. Methods: A total of 2.341 elderly individuals aged 65 years and over, recruited in the community by the Fragilidade em Idosos Brasileiros Study (FIBRA), without cognitive deficit and members of probabilistic samples from 6 cities selected countries. The frailty outcome was verified through 5 criteria (self-report of unintentional weight loss, fatigue/exhaustion, decrease in manual grip strength, physical activity level and walking speed) and dichotomized between frailty and non-frailty. The variable functional aspects of mastication was formed by a set of ten questions obtained through self report, and after dichotomized according to the number of problems found up to 2 and 3 or more. For statistical analysis, the adjustment measure between the contextual factors was used; And the endpoint fragility was presented along odds ratio (OR) with its respective 95% confidence interval. The multilevel logistic regression considered six models where the data were organized hierarchically and all

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