GINÁSTICA LABORAL, MÚSICA E ESTADOS DE
ÂNIMO
ELAINE CRISTINA BERGAMASCHI
RIO CLARO
2003
INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS
GINÁSTICA LABORAL, MÚSICA E ESTADOS DE
ÂNIMO
ELAINE CRISTINA BERGAMASCHI
Orientadora: Profa. Dra. SILVIA DEUTSCH
Rio Claro
2002
Rio Claro
2003
Dissertação apresentada ao Instituto de Biociências do Câmpus de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Ciências da Motricidade (Área de Pedagogia da Motricidade Humana).
796.41 Bergamaschi, Elaine Cristina.
B493g Ginástica Laboral, Música e Estados de Ânimo / Elaine Cristina Bergamaschi. – Rio Claro : [s.n.], 2003
168 f. : il.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências
Orientador: Silvia Deutsch
1. Ginástica. 2. Preferência musical. 3. Atividade física. 4. Problemas ocupacionais. 5. Qualidade de vida I. Título.
Ficha Catalográfica elaborada pela STATI – Biblioteca da UNESP Campus de Rio Claro/SP
“MAIS DO QUE MÁQUINAS, PRECISAMOS DE HUMANIDADE.
MAIS DO QUE INTELIGÊNCIA, PRECISAMOS DE AFEIÇÃO E
DOÇURA”
ii
Dedico este momento profissional e esta pesquisa as pessoas que de diversas
maneiras contribuíram seja na aprovação, no desenvolvimento ou na finalização deste
processo tão importante de minha carreira.
À minha mãe Eliane, amiga e sócia, que me dá não só motivação para seguir em
frente como também está sempre ao meu lado me confortando ou comemorando nossas
conquistas.
Ao Thiago, meu companheiro, amor e amigo. Obrigada por estar a cada dia que
passa mais próximo, desfrutando os momentos bons e me apoiando nos momentos
difíceis.
Ao meu pai Edson e a Helena pelo amor, dedicação e pela torcida.
Aos meus irmãos Karen e Raphael pelo carinho, alegria e admiração que
transmitem mesmo de longe, dando-me forças para continuar lutando.
Ao meu avô João que onde estiver continua me olhando e com certeza está cada
dia mais orgulhoso desta neta que herdou de alguma forma um pouquinho de seu dom de
escrever.
A
iii
À minha Mãe pelo caminho
Ao Thi pelo amor
Ao meu Pai pela oportunidade
À Helena pelo carinho
À Karen pela realização pessoal
Ao Raphael pela alegria
A Mércia e ao Sérgio pela família
A Veronica, a Sabrina, a Priscila e a Tatiane pela amizade e
companheirismo
A Silvia e a Catia pela orientação profissional e pessoal
A Lílian, a Paty, a Sandra, a Aninha, a Eliane e a Edvânia
pelo aprendizado
A família e aos amigos pelo momento
A Kyara e a Hanna pela lealdade
Cada um de sua maneira contribuiu para que este sonho se
concretizasse e com certeza, hoje sou feliz pois tenho pessoas a
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Anexo 1 – Ficha de avaliação dos trechos musicais ... 116
Anexo 2 – Seleção das músicas para a determinação das batidas por minuto (bpm)... 117
Anexo 3 – Seleção das músicas para a coleta de preferência musical... 118
Anexo 4 – Carta convite... 119
Anexo 5 – Termo de compromisso... 120
Anexo 6 – Grau de escolaridade dos participantes ... 121
Anexo 7 – Dados brutos das avaliações do Instrumento de Seleção Musical... 122
Anexo 8 – Lista de Estados de Ânimo- Reduzida e Ilustrada (LEA-RI)... 129
Anexo 9 – Dados brutos das avaliações da LEA-RI... 130
Anexo 10 –Mudanças ocorridas nas avaliações do pré para o pós teste ... 147
Anexo 11 – Somatória da freqüência dos casos de aumento, diminuição e permanência das avaliações do pré para o pós teste, em cada adjetivo, nas situações experimentais... 156
Anexo 12 – Freqüência das avaliações de cada adjetivo em função das classes de resultado... 157
Anexo 13 – Relação de valores das mudanças (valor 0) e não mudanças (valor 1) das avaliações dos participantes para cada adjetivo nas situações experimentais... 158
Anexo 14 – Valores resultantes da Prova Binomial para mudança nas sessões de Ginástica Laboral com músicas dance pop, rock nacional, new age e sem música... 167
Anexo 15 – Somatória dos dados brutos dos adjetivos em cada situação experimental... 168
viii
Figura 1 – Equilíbrio entre eustresse e distresse... 17
Figura 2 – Riscos de morte por doenças cardiovasculares segundo o nível de atividade física... 38
Figura 3 – Prevalência de fatores de risco de morte em SP... 38
Figura 4 – Mapa da sala onde foram realizadas as sessões... 63
Figura 5 – Distribuição das médias das notas atribuídas aos trechos musicais do estilo dance pop... 68
Figura 6 - Distribuição das médias das notas atribuídas aos trechos musicais do estilo rock nacional... 69
Figura 7 - Distribuição das médias das notas atribuídas aos trechos musicais do estilo new age... 69
Figura 8 – Ilustração do exercício 1... 76
Figura 9 – Ilustração do exercício 2... 76
Figura 10 – Ilustração do exercício 3... 77
Figura 11 – Ilustração do exercício 4... 77
Figura 12 – Ilustração do exercício 5... 77
Figura 13 – Ilustração do exercício 6... 78
Figura 14 – Ilustração do exercício 7... 78
Figura 15 – Ilustração do exercício 8... 78
Figura 16 – Ilustração do exercício 9... 79
Figura 17 – Ilustração do exercício 10... 79
Figura 18 – Ilustração do exercício 11... 79
Figura 19 – Ilustração do exercício 12... 80
Figura 20 – Ilustrações do exercício 13... 80
Figura 21 – Ilustrações do exercício 14... 80
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Figura 25 – Ilustrações do exercício 18... 82
Figura 26 – Ilustrações do exercício 19... 82
Figura 27 – Ilustrações do exercício 20... 82
Figura 28 – Ilustrações do exercício 21... 83
Figura 29 – Ilustrações do exercício 22... 83
Figura 30 – Ilustrações do exercício 23... 83
Figura 31 – Representação do percentual de contribuições de cada adjetivo, nos eixos 1 e 2, segundo a análise de correspondência ... 90
Figura 32 - Representação do percentual de contribuições de cada sessão, nos eixos 1 e 2, segundo a análise de correspondência ... 91
Figura 33 – Mapa descritivo dos resultados da análise de correspondência entre adjetivos e classes dos eixos 1 e 2... 92
Figura 34 – Mapa descritivo dos resultados destacados pela análise de correspondência entre adjetivos e classes... 93
x
Página
Quadro 1 – Diferenças entre estresse e burnout (Croucher, 2002)... 18 Quadro 2 – Músicas do estilo dance pop selecionadas após as sessões... 70 Quadro 3 – Músicas do estilo rock nacional selecionadas após as sessões... 70 Quadro 4 – Músicas do estilo new age selecionadas após as sessões... 70
xi
Tabela 1 – Estilos musicais de preferência dos participantes para ouvir... 67 Tabela 2 – Valores atribuídos a escala da LEA-RI... 84 Tabela 3 – Valores atribuídos as diferenças do pré para o pós teste nas
respostas para cada adjetivo da LEA-RI... 84 Tabela 4 – Dados brutos dos participantes que apresentaram ou não
alterações nos adjetivos após as sessões experimentais... 86 Tabela 5 – Média da somatória dos dados brutos dos adjetivos em cada
situação experimental... 87 Tabela 6 – Valores das coordenadas e percentuais de contribuições dos
adjetivos nos eixos 1 e 2, segundo a análise de
correspondência... 89 Tabela 7 – Valores das coordenadas e percentuais de contribuições das
sessões nos eixos 1 e 2, segundo a análise de
correspondência... 90 Tabela 8 – Resultados brutos dos estados de ânimo evidenciados pela análise
de correspondência na sessão com músicas dance pop... 93 Tabela 9 - Resultados brutos dos estados de ânimo evidenciados pela análise
de correspondência na sessão sem música... 94 Tabela 10 - Resultados da prova binomial para o fator mudança nas
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Ânimo. Rio Claro, 2003. 168p. Dissertação (Mestrado). Instituto de Biociências,
Unesp.
O presente estudo foi desenvolvido com 112 colaboradores (operários de ambos os sexos) de uma indústria farmacêutica. Em busca de uma melhor adequação metodológica, o presente estudo foi dividido em dois experimentos. O experimento 1 teve como objetivo selecionar de acordo com a preferência dos participantes, 3 músicas de cada estilo musical pré selecionado - rock nacional, dance pop e new age. Esta seleção musical foi utilizada no experimento 2 que teve como objetivo verificar a interferência da Ginástica Laboral (G.L.) acompanhada ou não de diferentes estilos musicais nos estados de ânimo dos colaboradores. Para isto, os operários participaram de 4 sessões experimentais de G.L. com duração de 10 minutos acompanhada ou não dos estilos musicais selecionados. Para verificar os resultados, a LEA - RI (Lista de Estados de Ânimo – Reduzida e Ilustrada) foi aplicada antes e após cada sessão experimental. Através da Análise Qualitativa, da Prova Binomial e da Análise de Correspondência, foi verificado que não ocorreram grandes mudanças nos estados de ânimo após a intervenção. Isto pode ter ocorrido devido a familiaridade dos participantes como o programa e ao patamar de bem estar adquirido por eles após 3 anos de prática. Concluindo, a G.L. acompanhada ou não de diferentes estilos musicais não proporcionou alterações significativas nos estados de ânimo de colaboradores que já haviam atingido um bom nível de intensidade de seus estados de ânimo contribuindo para uma boa qualidade de vida.
Palavras-chave: Ginástica Laboral, Estados de Ânimo, Música, Qualidade de
xiii
BERGAMASCHI, Elaine Cristina. Fitness Employee, Music and Mood. Rio Claro, 2003. 168p. Dissertação (Mestrado). Instituto de Biociências, Unesp.
The present study was developed with 112 participants (workers of both sex) of a pharmaceutical industry. Trying to find the best methodological adjustment, this study was divided in two. Experiment 1 has had as purpose to select accordingly to the participants preference, 3 music of each musical style pre determined – Brazilian rock, dance pop and new age. This music selection was used in experiment 2 that has had purpose to verify the interference of Fitness Employee (G.L.) accompanied or not of different musical styles on collaborator’s mood. In this experiment, workers participated of 4 experimental sessions in which they practiced G.L. during 10 minutes accompanied or not of different styles. To verify the results, the LEA-RI (Lista de Estados de Ânimo – Reduzida e Ilustrada) was applied before and after each experimental session. Through a Qualitative Analyses, a Binomial Analyses and a Correspondence Analyses on data, no significant changes in mood states were found. This may be occurred despite to workers familiarity to the sessions they have been practicing for 3 years. Concluding, the G.L. accompanied or not by different music styles did not promoted significant changes in workers mood that already have got a good intensity level of their moods contributing to a good quality of life.
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Dedicatória... ii
Agradecimentos... iii
LISTA DE ANEXOS... vii
LISTA DE FIGURAS... viii
LISTA DE QUADROS... x
LISTA DE TABELAS... xi
RESUMO... xii
ABSTRACT... xiii
INTRODUÇÃO... 1
CAPÍTULO 1- PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS TRABALHADORES.... 4
O ruído... 5
L.E.R. e D.O.R.T... 7
Causas do D.O.R.T... 9
Para amenizar o D.O.R.T... 12
Estresse... 13 O que é o estresse?... 13 Causas do estresse... 15 Sintomas do estresse... 16 Burnout ... 17 Karoshi ... 20
CAPÍTULO 2 – A GINÁSTICA LABORAL... 22
O que é a Ginástica Laboral? ... 23
Benefícios da Ginástica Laboral... 26
Histórico da Ginástica Laboral ... 28
v
CAPÍTULO 3 – QUALIDADE DE VIDA E SAÚDE NO TRABALHO... 35
CAPÍTULO 4 – A MÚSICA... 40
Os componentes da música... 41
Funções e efeitos da música... 43
Características dos estilos musicais selecionados para a pesquisa: dance music, rock e new age... 46
Dance music... 46
Rock... 47
New Age... 49
A preferência musical... 50
CAPÍTULO 5 – OS ESTADOS DE ÂNIMO... 52
Os estados de ânimo, a música e a atividade física... 54
CAPÍTULO 6 – A PESQUISA... 61
Experimento 1 – Critérios para a seleção musical... 62
Objetivo do estudo... 62
Metodologia... 62
Participantes... 62
Instrumento – ficha de avaliação dos trechos musicais... 63
Ambiente Experimental... 63
Material... 64
Procedimentos... 64
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Escolha das musicas para a gravação da fita... 65 As sessões... 65 A coleta... 66 Análise dos dados... 66 Resultados... 67
Discussão dos Resultados... 71
Experimento 2 – Música, Ginástica Laboral e Estados de Ânimo... 73 Objetivo do estudo... 73 Hipóteses... 73 Metodologia... 73 Participantes... 73 Instrumento... 74 Material... 74 Ambiente Experimental... 74 Procedimentos... 75 As sessões... 75 A coleta... 76 Resultados... 84
Tabulação dos dados... 84
Análise Qualitativa... 86 Análise de Correspondência... 88 Prova Binomial... 94
Discussão dos Resultados... 98
CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES FINAIS... 105 REFERÊNCIAS... 108
INTRODUÇÃO
O avanço tecnológico acarretou diversas mudanças no modo de vida do ser humano. Por um lado, proporcionou conforto e facilidades no dia-a-dia, aproximou distâncias e pessoas, entre outros benefícios. Porém, por outro lado, estas facilidades como a criação do controle remoto, da Internet e das máquinas contribuíram para o aumento do número de sedentários, modificando o estilo de vida do homem tornando-o muitas vezes, menos saudável.
Este novo estilo de vida pode ter conseqüências sérias para a saúde, por isso, nos dias de hoje tem se falado muito em qualidade de vida. Mas afinal, o que é qualidade de vida?
Segundo Berger e McInman (1993) qualidade de vida reflete de modo geral a satisfação harmoniosa dos objetivos e desejos do indivíduo enfatizando a experiência subjetiva mais do que as condições de vida, a abundância de afeto positivo e a ausência de afeto negativo. Reflete também, o grau percebido de quanto o indivíduo é capaz de satisfazer as suas necessidades psicofisiológicas.
Porém, a maior parte da população não desfruta de um bom nível de qualidade de vida. Na indústria, por exemplo, sabe-se que muitos podem ser os problemas enfrentados pelos colaboradores (problemas de audição e cardíacos, Lesão por Esforço Repetitivo – L.E.R. ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho – D.O.R.T., estresse, burnout, karoshi) devido as más condições de trabalho de algumas empresas e também ao nível de exigência para que se produza cada vez mais. Não é somente o colaborador que sofre com esta
má qualidade de vida no trabalho, mas também o empregador, quando alguns destes problemas estão presentes no local de trabalho, há perda de produção e altos gastos com afastamentos médicos.
Para auxiliar tanto o empregado quanto o empregador na redução destes problemas, um dos recursos indicados é a prática da atividade física durante a jornada de trabalho. O movimento é um estímulo para o desenvolvimento osteomuscular, cardio-respiratório e nervoso. Trazendo resultados positivos nos processos fisiológicos e físicos, a atividade física beneficia também os processos emocionais (BARBANTI, 1990).
Dentro dos aspectos emocionais, a atividade física pode influenciar os estados de ânimo. Estes segundo Deutsch (1997)
“são estados de sentimentos, difusos ou
globais, que nos permitem ter uma ação auto-reguladora. Esta ação pode servir tanto para manter os estados de ânimo considerados positivos como para auxiliar na eliminação dos considerados negativos” (p.58).
Esta influência ocorre através da ação auto-reguladora do organismo ao exercício, potencializando as mudanças de sentimentos momentâneos.
Buscando benefícios não só físicos, mas também, emocionais e sociais para seus colaboradores, empresários estão lançando mão da atividade física nas empresas implantando programas como a Ginástica Laboral (G.L.). Este programa é composto por exercícios realizados no local de trabalho, durante a jornada e visa atuar na prevenção de lesões, normalizar as funções corporais e proporcionar aos funcionários um momento de descontração e sociabilização durante o trabalho (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
A G.L. é uma nova proposta de atividade física que vem se desenvolvendo ao longo de sua utilização. Não há extensa literatura existente sobre o assunto e
nem uma metodologia específica, por isso, ela pode ser desenvolvida de diversas formas, de acordo com a necessidade da empresa alvo e da experiência prática do profissional atuante. Diversos tipos de atividade (alongamento, dinâmicas de grupo, yoga, dança de salão, massagem, entre outros) associados ou não a diferentes estilos musicais são freqüentemente utilizados nas aulas.
A partir desta diversidade, o presente estudo é proposto, pois através da observação de diferentes tipos de programas de G.L. pôde-se perceber que aqueles que utilizam músicas de preferência dos participantes, associadas aos exercícios seja de alongamento, aquecimento ou dinâmicas de grupo, tornam as aulas mais interessantes e segundo relato dos próprios participantes, após as aulas eles sentem-se mais felizes e motivados para o trabalho. Em contrapartida, os programas que não utilizam estímulos musicais ou utilizam músicas relaxantes (como fundo musical) associadas a estes tipos de atividades, promovem a monotonia, sonolência e a falta de concentração para o trabalho, segundo os próprios colaboradores.
Partindo destes diferentes tipos de programas de G.L. e do relato de seus participantes, surge a questão da importância da adequação das músicas utilizadas durante as aulas buscando otimizar os benefícios da atividade física proposta e também interferir positivamente nos estados emocionais favorecendo o desenvolvimento da atividade laboral. Na busca de responder esta questão, presente estudo tem como objetivo principal verificar a interferência da G.L. acompanhada ou não de diferentes estilos musicais nos estados de ânimo de colaboradores das linhas de produção de uma indústria farmacêutica. Para tanto, a pesquisa foi dividida em dois experimentos descritos a seguir.
CAPÍTULO 1 - PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS
TRABALHADORES
Com o objetivo de enfrentar seus desafios, as empresas dedicam-se a encontrar soluções para seus problemas, visando reduzir custos, aumentar a produtividade, sem prejudicar e até contribuindo para melhorar a saúde das pessoas.
Mas, na prática, tal reação por parte das empresas vem acarretando uma intensificação do ritmo de trabalho, na pressão e no nível de exigências quanto a resultados, o aumento da jornada de trabalho e conseqüentemente, a elevação significativa nos índices de doenças ocupacionais. Várias são as conseqüências desta mecanização do trabalho, algumas delas estão descritas a seguir.
O ruído
Com a mecanização do trabalho e as máquinas trabalhando sem cessar, muitas vezes o limite de decibéis recomendado é ultrapassado, ocasionando diversos problemas aos trabalhadores (KRYTER, 1995).
Pesquisas sobre poluição sonora constataram que um indivíduo normal precisa gastar 20% de energia a mais para realizar uma tarefa sob efeito de ruído intenso. Isto ocorre devido a interferência nos processos de memorização, planejamento e concentração (NETO, 2001).
Além de ser uma fonte de estresse, o ruído provoca uma série de reações físicas e psíquicas. Entre os problemas registrados estão: a redução da concentração, o aumento da freqüência cardíaca, a dificuldade para conciliar o sono, o aumento da irritação, a hipertensão, a enxaqueca e a úlcera estomacal (RYLANDER, 1983; KRYTER, 1995; NETO, 2001).
Outra grave conseqüência é o problema na audição que aparece como resultado de um acúmulo de agressões ao aparelho auditivo ao longo do tempo. Com a exposição contínua, a pessoa vai adquirindo lesões muitas vezes irreversíveis. Reações agudas também são encontradas no sistema cardiovascular. Evidências epidemiológicas têm sido produzidas sugerindo o desenvolvimento da hipertensão entre pessoas cronicamente expostas ao ruído (RYLANDER, 1983).
O incomodo geral é um efeito muito comum no critério da exposição ao ruído. Esta reação pode ser indicada por efeitos psiquiátricos particularmente em indivíduos sensíveis o que é causado diretamente pelo ruído ou indiretamente pela irritação (NETO, 2001).
Apesar das graves conseqüências, o som e o ruído fazem parte da vida diária e são necessários para o funcionamento do corpo humano. Pessoas que vivem em absoluto silêncio podem desenvolver sintomas de desordens mentais e a falta de comunicação pode induzir a surdez (RYLANDER, 1983).
Após observar estas conseqüências da exposição prolongada ao barulho, pode-se imaginar o que ocorre com colaboradores que trabalham durante toda a jornada com máquinas em indústrias têxteis, automotivas, alimentícias, farmacêuticas, entre outras.
Johnson e Hanson (apud RYLANDER, 1983) conduziram um estudo com trabalhadores homens, em uma fábrica automotiva que foram expostos ao ruído industrial. Foi notada a presença de danos auditivos indicando um alto nível de pressão por um longo período de exposição ao ruído. A média de pressão sistólica do sangue de uma pessoa com enfraquecimento auditivo foi de 145,2 mm comparado com 132,6 mm do grupo controle. A pressão diastólica do sangue chegou a 88,6 mm no grupo com enfraquecimento auditivo comparado com 80,6 mm do grupo controle. Um significante número de pessoas com hipertensão arterial foram encontradas no grupo com indução ao barulho e perda auditiva (10/44; controle 6/74).
Em um outro estudo, Weston e Adams (apud KRYTER, 1995) realizaram três estudos afim de verificar o efeito do ruído na performance de tecelões. A deformação da oficina onde eles trabalhavam produzia ruídos acima de 96 decibéis. No primeiro estudo, os tecelões utilizaram protetores auriculares em semanas alternadas durante 26 semanas. Os protetores auriculares reduziam a intensidade do ruído em 10 a 15 decibéis. Em um segundo estudo, os pesquisadores dividiram os participantes que tinham um bom rendimento em dois grupos. O primeiro grupo trabalhou 6 meses com o protetor auricular e o segundo grupo sem o protetor. Finalmente, no terceiro estudo, o procedimento acima foi repetido, porém, a duração foi de um ano. Como resultados os pesquisadores encontraram nos três experimentos, 12% a mais na eficiência dos participantes que utilizaram o protetor sobre os que não usaram. Na produtividade final, foi observado um aumento de 1% no material produzido.
Estudos como este mostram a importância da utilização de equipamentos de segurança no local de trabalho, além de prevenir o surgimento de problemas
de saúde, auxiliam no aumento da produção individual e conseqüentemente da produtividade final, que é o objetivo de todo empresário.
L.E.R. e D.O.R.T.
Nestas últimas décadas tem se intensificado o debate em torno das doenças ocupacionais em todo o mundo. Milhares de pessoas estão adquirindo este tipo de problema e têm sido afastadas e muitas vezes impossibilitadas de exercer sua função. Porém, poucas pessoas sabem o que são estas doenças e quais são as suas particularidades.
As lesões inflamatórias causadas por esforços repetitivos já são conhecidas desde a Antigüidade. Os processos inflamatórios foram descritos desde a época de Cícero, no Império Romano, cerca de 50 a.C (FONSECA, 1998).
Segundo o mesmo autor, na Idade Média, havia a "Doença de Escribas", que nada mais era do que uma tenossinovite, praticamente desaparecendo com a invenção da imprensa. De Quervain descrevia, já em 1891, a “Entorse das Lavadeiras" que nada mais era do que o “Cotovelo de Tenista” de hoje.
Antes do surgimento dos processadores de texto, os datilógrafos executavam uma variedade maior de tarefas manuais fazendo correções à mão, colocando papel e tirando-o do carro da máquina, girando-o, trocando fitas. Suas mãos moviam-se em diversas direções e pausas rápidas proporcionavam um descanso para os punhos. Entretanto, nos computadores, estas tarefas são automatizadas. Segundo Anderson (1998) um operador pode digitar 20 mil toques num único período de trabalho, sem nenhuma variação e sem um período de descanso para o punho podendo causar lesões como as descritas abaixo.
As Lesões por Esforço Repetitivo (L.E.R.) são afecções que podem acometer tendões, sinovias, músculos, nervos, fáscias, ligamentos, isolada ou associadamente com ou sem degeneração de tecidos, atingindo principalmente, porém não somente os membros superiores, regiões escapular e pescoço, de
origem ocupacional decorrentes de forma combinada ou não de: uso repetitivo de grupos musculares, uso forçado de grupos musculares, manutenção de postura inadequada (RIO, 1998). Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (D.O.R.T.), também tem esta definição, porém, esta nomenclatura surgiu para englobar todos os tipos de lesões causadas em qualquer tipo de função (utilização de força, repetição, coordenação) e não como a L.E.R. que ficou conhecida pelos problemas dos digitadores.
Para melhor esclarecimento, será utilizado o termo D.O.R.T. para designar este tipo de doença no decorrer da pesquisa, pois esta é a terminologia mais utilizada recentemente.
Segundo Brás Golden (1999) o D.O.R.T. pode ser classificado pelos seus níveis de evolução:
Ø Nível 1 - sensação de peso e desconforto no membro afetado, dor espontânea localizada nos membros superiores ou cintura escapular, as vezes com pontadas que aparecem esporadicamente durante a jornada de trabalho sem interferência com a produtividade.
Ø Nível 2 - a dor é em geral persistente e intensa e aparece durante as jornadas de trabalho de forma intermitente. É tolerável e permite o desempenho das funções laborais, mas já com reconhecida redução de produtividade. A dor torna-se mais intensa e localizada acompanhada de calor
Ø Nível 3 - a dor torna-se persistente, freqüente perda de força muscular. Sensível queda de produtividade, quando não, impossibilidade de exercer as funções laborais. Ocorrem alterações de sensibilidade e força. O retorno as atividades laborais é problemático.
Ø Nível 4 - a dor é freqüente, intensa e contínua, chega a ser insuportável, levando o paciente a intenso sofrimento. Os movimentos acentuam consideravelmente a dor, que em geral se irradia pelo membro afetado. A perda de força muscular e a perda de movimentos se fazem presentes. A atrofia dos dedos são comuns. A capacidade laboral é anulada e a invalidez
se caracteriza. Neste estágio são comuns alterações psicológicas com quadros de depressão, ansiedade e angústia.
Causas do D.O.R.T.
Durante o trabalho, geralmente as pessoas não se movimentam muito ficando um longo período na mesma postura. Algumas delas são mantidas a maior parte do tempo para a realização de suas funções laborais. Eventualmente, só uma postura é a postura base, como no caso do trabalho com o computador. As variações posturais acabam ficando por conta da utilização do mouse e do teclado, que exigem diferentes posturas de uma das mãos. No caso do trabalho realizado nas máquinas, isto não é diferente. Os colaboradores encontram uma postura que seja “confortável” para a realização da tarefa (nem sempre as posturas confortáveis são ergonomicamente corretas) e permanecem nesta a maior parte do tempo (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
Posturas inadequadas, principalmente as chamadas extremas, que exigem contrações musculares estáticas e levam a sobrecargas gerais e/ou específicas do sistema músculo-esquelético, constituem-se em um dos fatores principais da origem do D.O.R.T. (RIO, 1998).
Diretamente relacionada a postura, encontra-se outra grande preocupação dos colaboradores, a fadiga. Segundo Michelino (apud CANTARINO e PINHEIRO, 1974) ela é determinada no organismo humano pelo esforço dos músculos, a concentração mental, a posição do corpo, a monotonia dos movimentos repetitivos entre outros fatores.
A posição dominante do corpo do operário, durante suas horas de serviço, têm repercussões em sua estrutura anatômica. Durante o trabalho, certos grupos musculares são solicitados para a execução dos movimentos, enquanto outros permanecem completamente sem função, relaxados. Este fato ocasiona um desequilíbrio da tonicidade muscular, aumentando o tônus dos músculos mais exigidos ou mantendo-os no mesmo nível e diminuindo o daqueles que se
encontram sem atividade, surgindo defeitos posturais. Com isso, as articulações vão sofrendo uma diminuição em sua mobilidade, refletindo em pouca flexibilidade do corpo. Estas conseqüências acima citadas podem levar a doenças como o D.O.R.T. (RIO, 1998; POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
As causas desta doença podem ser classificadas em três tipos de fatores: biomecânicos; psicossociais; administrativos:
Ø Os fatores biomecânicos podem ser agrupados em cinco categorias: repetitividade dos movimentos; movimentos manuais com emprego da força; posturas inadequadas de membros superiores; pressão mecânica localizada e uso de ferramentas manuais (MARATONA, 1996; BRAS GOLDEN, 1999;
LIMA e BATISTA, 2000);
Ø Os fatores psicossociais apontados como associados ao D.O.R.T. são: a grande pressão no trabalho; a baixa autonomia (pouco controle sobre seu trabalho), a falta de ajuda ou apoio de colegas de trabalho (porque não podem ou porque não conseguem ajudar em momentos de pressão no trabalho) e pouca variabilidade no conteúdo de atividade (BRÁS GOLDEN, 1999).
Ø Os fatores administrativos, relacionados com a qualidade de vida no trabalho, são: a eficácia da direção de uma empresa em eliminar riscos potenciais, os métodos de trabalho impróprios e uso de ferramentas e equipamentos inadequados; a existência ou não de atmosfera de aceitação das manifestações dos trabalhadores envolvidos com a atividade e o encorajamento do relato de riscos potenciais; a conscientização dos profissionais das áreas internas da empresa de seus papéis na detecção da doença em seus estágios iniciais impedindo que o problema se agrave; a aplicação dos conhecimentos de ergonomia no desenvolvimento de projetos de postos de trabalho; o entendimento, estímulo e apoio para que haja cooperação e real interação das áreas internas da empresa na solução dos
problemas relativos ao D.O.R.T. (MARATONA, 1996; BRÁS GOLDEN, 1999).
Existem vários tipos de tendinite, diversos danos de nervos, problemas causados por segurar o telefone com os ombros elevados durante a digitação, ou nos cotovelos e punhos causados pelo “mouse”, perda de circulação nos dedos e diferentes tipos de artrite agravadas pela tensão cumulativa. Todos são problemas graves e nos casos avançados, podem causar muita dor e incapacidade permanente. Como resultado, não é raro, pessoas serem obrigadas a abandonar profissões que dependam do computador. Deve-se prestar atenção à tensão, ao desconforto, à rigidez ou dor nas mãos, punhos, dedos, antebraços ou cotovelos; à mãos frias, formigando ou dormentes; à falta de habilidade ou perda de força ou coordenação nas mãos; à dor decorrente no pescoço ou ombros; à dor que interrompe o sono, pois estes sintomas podem ocasionar o D.O.R.T. (ANDERSON, 1998).
Quando fala-se em D.O.R.T., há várias contradições na literatura. Dois pontos são focos de discordância: o primeiro é sobre a possibilidade de uma atividade laboral causar doenças; e o segundo é sobre a influência de problemas emocionais ou físicos na ampliação e prolongamento dos sintomas físicos causando de problemas de saúde (Louis apud RIO, 1998). Quando há indícios de que os fatores causadores de doenças são de ordem física e sobrecarga biomecânica sobre determinados segmentos corporais, menos intensos são os debates. Quanto mais considerações envolvem aspectos psicossociais como causa de problemas de saúde, maiores são as discordâncias, principalmente porque as questões se tornam mais abstratas e de difícil comprovação (RIO, 1998).
Para amenizar o D.O.R.T.
No caso de aliviar a dor (níveis 1 e 2), recomenda-se exercícios especiais, podendo ser técnicas de relaxamento para distensionar ou outros exercícios que fortaleçam a musculatura. Recomenda-se ainda, a redução da repetitividade dos movimentos, medidas como o enriquecimento da tarefa, o rodízio dos trabalhadores, a mecanização, a automação e quando as alternativas anteriores não são possíveis, é fundamental que sejam instituídas pausas de 5 a 10 minutos por hora de trabalho, durante as quais os trabalhadores devem fazer exercícios de alongamento, afim de melhorar a nutrição dos músculos (CAÑETE, 1996; MARATONA, 1996; YAMANDA, 1998).
A prevenção desta doença baseia-se na adoção de medidas relativas ao tempo de exposição (pausas e limitações de tempo de trabalho), as alterações no processo, a organização do trabalho e a adequação das máquinas, mobiliários, dispositivos, equipamentos e ferramentas de trabalho às características dos trabalhadores (MARATONA, 1996).
Partindo destas medidas, Brás Golden (1999) apresenta uma lista de procedimentos que pode ser empregada como medida corretiva:
Ø introdução de pausas para descanso; Ø introdução de treinamento de prevenção;
Ø adoção de equipamento de proteção individual;
Ø redução da jornada de trabalho na atividade geradora de D.O.R.T.;
Ø modificações no processo e na organização do trabalho visando a diminuição da sobrecarga muscular gerada por gestos e esforços repetitivos, mecanizando ou automatizando o processo reduzindo o ritmo de trabalho e as exigências de tempo e diversificação das tarefas;
Ø adequação do mobiliário, máquinas, dispositivos, equipamentos e ferramentas as características fisiológicas do trabalhador;
Associadas a estas medidas, a G.L. pode ser uma ferramenta muito útil na prevenção do D.O.R.T. Ela pode exercitar a musculatura exigida na função laboral, alongando-a e fortalecendo-a reduzindo a possibilidade de instalação de uma lesão. Através da ampliação da consciência corporal obtida com os exercícios, pode-se despertar a necessidade do cuidado com o corpo e assim estabelecer limites, reduzindo horas extras proporcionando o descanso ideal para o corpo e para a mente.
Estresse
O estresse é um problema muito comum nos dias de hoje, pois quem é que consegue passear sem pressa, conversar sem hora marcada e comer sentindo o gosto dos alimentos. Estes hábitos são cada vez mais raros em nossos dias. Todos nós, com raríssimas exceções, corremos de algumas coisas ou atrás de outras, pouco atentos às nossas necessidades e limitações (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
A necessidade de agradar, a competitividade presente na maioria das empresas e os padrões familiares que exigem muito das pessoas, tem conduzido ao processo do estresse, resultando em tensões acumuladas que não encontrando canal prático por onde extravasar, acabam se voltando contra o próprio organismo (BASSO, 1989).
O que é o estresse?
Estresse, segundo a definição de Ferreira (1977) é o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase.
A palavra estresse vem do latim, e significa adversidade ou aflição. Ele é basicamente definido, como a resposta fisiológica ou emocional a um estímulo
externo, que origina uma ansiedade e tensão que são percebidos como pressões e que exigem a ação de mecanismos adaptativos, com capacidade de se ajustar a essas pressões, propiciando meios adequados a reação e preservação da integridade, e do equilíbrio (CAÑETE, 1996; RIO, 1998).
Para Battinson (1998) é uma combinação de sensações físicas, mentais e emocionais que resultam das pressões e da ansiedade. É um termo muito utilizado para descrever os sintomas produzidos pelo organismo, em resposta a tensão crescente. Um certo nível de estresse é normal para ajudar a enfrentar os desafios da vida.
À medida que estas pressões vão se acumulando, o organismo vai recebendo a sobrecarga secretando altos níveis de adrenalina para preparar seu corpo para a ação (BATTINSON, 1998).
Pode ser classificado segundo a Maratona (1996) em vários aspectos: físico;
psíquico; bioquímico; dentro dos quais em vários níveis: leve (nervosismo,
irritabilidade e ansiedade); moderado (sintomas leves, acrescido de dores nos músculos do pescoço e ombros, fadiga à tarde e dificuldades para dormir); intenso (mesmos sintomas do moderado, porém com mais intensidade e freqüência); muito
intenso (crise de depressão, dor no estômago, palpitações cardíacas, sono
interrompido, prejuízos na memória, falta de concentração e comprometimento do trabalho); estafa (indivíduo incapaz de produzir com freqüentes crises emocionais, choros compulsivos e ataques de depressão e demora de 6 a 12 meses para se recuperar).
A tensão emocional e física sentida constantemente, leva ao estado de estresse. Quando nos sentimos ameaçados, uma série de reações orgânicas são desencadeadas ao mesmo tempo. Qualquer pessoa pode desencadear o estresse, porém os trabalhadores das indústrias, independente de sua função, estão mais vulneráveis a doença. A pressão sofrida em decorrência de programas e de prazos cada vez menores para o cumprimento das tarefas, as exigências do mercado, a competição interna das organizações e as variações econômico-financeiras, levam a maioria das pessoas a um estado de enrijecimento muscular e de exaustão
mental que, ocorrendo repetidas vezes, esgota as reservas físicas e emocionais dos indivíduos.
O estresse representa um alto custo para as empresas. Alguns exemplos disso podem ser observados devido às conseqüências do estresse para as indústrias: a queda de produtividade, refletida nas horas de trabalho perdidas, as faltas constantes, o desperdício de materiais de trabalho e custos elevados com assistência médica (DELBONI, 1997). Em alguns casos, a própria imagem da empresa é prejudicada. Milhões de dias de trabalho são perdidos por ano devido a doenças e incapacidades.
Causas do estresse
O estresse pode ser causado por fatores de dois tipos: positivos e negativos. França e Rodrigues (1997) afirmam que há situações estressantes que são muito agradáveis, para o ser humano, por exemplo: a sensação de ser aprovado no vestibular, formatura na faculdade, casamento, nascimento de filhos e outros. Porém, há situações estressantes que não são nada agradáveis, como a morte de um ente querido, perder o emprego, pressão no trabalho, brigas, entre outras. A partir disto, pode-se ressaltar dois aspectos essenciais: de um lado, temos situações que podem desencadear o estresse o que é chamado de estímulo estressor e de outro lado, a resposta do indivíduo frente a estes estímulos. Se a resposta é negativa, desencadeia uma resposta adaptativa inadequada podendo gerar doença, a chamado distresse (estresse negativo). No entanto, se a pessoa reage bem a demanda, surge o eustresse (estresse positivo). Segundo Delboni (1997) os agentes estressores podem ser de três formas: do meio externo, como o frio, o calor, a insalubridade; do ambiente social: como o trabalho; e do meio interno: aquele vasto mundo de pensamentos, emoções e sentimentos (angústia, medo, alegria, tristeza).
A situação estressante no trabalho pode ser detectada tanto no funcionamento dos grupos como nas organizações. No ambiente de trabalho são detectadas: competições não saudáveis, politicagem, comportamentos hostis com as pessoas, perda de tempo com discussões inúteis, pouca contribuição no trabalho, membros que trabalham isoladamente; problemas comuns não compartilhados, alto nível de insegurança, e grande dependência do líder. Na organização são detectadas: greves, atrasos constantes nos prazos, ociosidade, sabotagem, absenteísmo, alta rotatividade de funcionários, altas taxas de doenças, baixo nível de esforço, vínculos empobrecidos, e relacionamento entre funcionários caracterizados por: rivalidade, desconfiança, desrespeito, desqualificação (BATTINSON, 1998).
Todos estes fatores freqüentemente presentes no dia a dia dos trabalhadores são os principais responsáveis associados ao estilo de vida em causar sérias doenças. Por isso deve-se buscar formas de amenizar estes agentes para que sejam reduzidos os altos índices de doenças ocupacionais. Para iniciar a mudança para um ambiente de trabalho e um estilo de vida mais saudável deve-se inicialmente listar os sintomas de algumas doenças para mais adiante implantar a forma mais adequada para combatê-las.
Sintomas do estresse
Após a interferência de um ou vários agentes estressores, os primeiros sintomas do estresse são: alterações na respiração, enrijecimento da musculatura, tensão principalmente no pescoço, ombros e maxilares, dor nas costas, cabeça e peito, mãos e pés frios e suados, irritação, fadiga crônica, dificuldade para dormir, fraqueza, prisão de ventre, diarréia, vômito, muito ou pouco apetite, dificuldade de concentração e aumento no consumo de cigarros e bebidas alcoólicas (CAÑETE, 1996; BATTINSON, 1998).
Caso estes sintomas se prolonguem, podem desencadear: perda da capacidade de concentração durante qualquer intervalo de tempo; sensação de isolamento; baixa aptidão para tomar decisões; hábitos vagos e descuidados; depressão e sentimentos de desolação e desespero; conversa negativa consigo mesmo e inutilidade (BATTINSON, 1998).
Estudos mostram que os efeitos do estresse a longo prazo provocarão uma tensão maior do que o organismo tolera e as conseqüências serão dramáticas, aumentando muito o risco de ataque cardíaco, derrame, hipertensão, insônia, úlcera, depressão, ansiedade e enxaqueca (CAÑETE, 1996).
Porém, não se pode viver sem qualquer tipo de estresse, por isso, é necessário que se saiba equilibrar o estresse diário como mostra a figura:
Figura 1- Equilíbrio entre eustresse e distresse
A atividade física é um bom caminho para se atingir este equilíbrio. Seus benefícios a curto prazo estão associados a mudanças nos estados de ânimo. Porém, não é qualquer atividade que proporciona resultados positivos. A atividade deve ser prazerosa para o participante e de intensidade moderada (BERGER, 1996).
Burnout
Além do estresse, uma outra síndrome especial de esgotamento profissional foi denominada pelos psicólogos sociais norte-americanos de “burnout”. Chanlat (apud CAÑETE, 1996) define este quadro como uma síndrome de esgotamento
Eustresse Distresse
físico e emocional, que compreende o desenvolvimento de imagens negativas sobre si mesmo, de atitudes desfavoráveis em relação ao trabalho e de uma perda de interesse em relação aos clientes. Conforme este mesmo autor, as pesquisas sobre “burnout” aproximam-se muito do modelo do estresse. Porém, não são a mesma coisa. Croucher (2002) identificou as principais diferenças entre estresse e burnout:
Quadro 1- Diferenças entre estresse e burnout (CROUCHER, 2002)
ESTRESSE BURNOUT
Excesso de engajamento com o trabalho Falta de engajamento com o trabalho
Emoções exageradas Perda de emoções
Primeiro sintoma é físico Primeiro sintoma é emocional Afeta a energia física Afeta a motivação e direção
Perda de energia Perda de ideal e esperança
Depressão por proteção ao corpo e
conservação de energia Depressão por falta de ideais Pânico, fobia e desordens da ansiedade Paranóia e despersonalização
Pode matar prematuramente Pode nunca matar, mas viver assim para sempre
Observando o quadro pode-se identificar que a diferença principal entre estas doenças são as conseqüências que tendem a ser principalmente físicas no estresse e emocionais no burnout.
Para Weinberg e Gould (2001) e Maslach (apud CROUCHER, 2002), o burnout é um estado físico, emocional e mental de exaustão, marcado pela depleção física e fadiga crônica, sentimentos de falta de esperança e desenvolvimento de auto conceito negativo e atitudes negativas relacionados ao trabalho, a vida e outros.
Segundo Battinson (1998) e Melamed et al (1999) o burnout é caracterizado por:
Ø exaustão emocional - ocorre quando a pessoa percebe nela mesma a impressão de que não dispõe de recursos suficientes para atender as expectativas dos outros. Psicologicamente surgem também sintomas de cansaço, irritabilidade, propensão a acidentes, sinais de depressão e/ou ansiedade, uso abusivo de álcool, cigarros ou outras drogas, surgimento ou retorno de doenças;
Ø despersonalização - corresponde ao desenvolvimento por parte dos profissionais de atitudes negativas e insensíveis em relação as pessoas com as quais trabalha;
Ø diminuição da realização e produtividade profissional - conduz a uma avaliação negativa e baixa de si mesmo;
Ø depressão - sensação de uma ausência de prazer de viver, de tristeza que afeta os pensamentos, os sentimentos e o comportamento social. Algumas vezes, canaliza-se a vida para uma única coisa como trabalhar ou o esporte e ocorre desequilíbrio no relacionamento familiar e social.
Battinson (1998), sugere alguns agentes causadores desta doença: Ø a liderança autoritária;
Ø a execução de tarefas sob pressão;
Ø a falta de conhecimento no processo de avaliação de desempenho e promoção;
Ø a carência de autoridade e de orientação; Ø o excesso de trabalho;
Ø o grau de interferência na vida particular dos trabalhadores.
Poucos são os estudos publicados a respeito do burnout. Um destes foi realizado por Melamed et al (1999) com o objetivo de explorar as “marcas” somáticas (tensão, irritabilidade e insônia) e as fisiológicas (nível do hormônio cortisol). Participaram do estudo 111 trabalhadores operadores de máquinas. Estes passaram por um checkup e foi retirado 20 ml de saliva. Além do exame,
cada participante respondeu ao Shirom Melamed Burnout Questionaire. Os participantes apresentaram como resultados 3 sintomas: exaustão emocional, fadiga e desgaste cognitivo. Os fatores somáticos encontrados foram: tensão durante o dia, irritação após o trabalho e insônia. Como fator fisiológico foi encontrado alto índice de cortisol. Estes resultados indicaram a presença da doença nos participantes.
Ainda se desconhece estudos publicados sobre os efeitos da atividade física no burnout, porém, pelo que já se sabe dos benefícios de sua prática regular, pode-se especular que ela terá efeitos benéficos no controle e prevenção desta doença.
Karoshi
Além do burnout, há um sério problema que vem preocupando trabalhadores e empresários no Japão, o Karoshi. Esta é uma palavra que simboliza os problemas cardiovasculares pelas excessivas horas de trabalho e estresse. Uehata (apud KATO, 1994) o define como um permanente problema causador de doença ou morte por pressão alta ou arteriosclerose resultando em hemorragia cerebral ou infarto do miocárdio.
Atualmente 10.000 pessoas morrem por ano de Karoshi no Japão. Segundo a Karoshi Hotline Network (apud KATO, 1994) as funções profissionais que mais sofreram com a doença no período de 1988 à 1993 foram:
Ø trabalhadores braçais – 25,2% Ø trabalhadores de escritório – 21,7% Ø técnicos – 20% Ø motoristas – 9,7% Ø diretores – 8,4% Ø gerentes – 7,9% Ø trabalhadores públicos – 7,1%
Este tipo de problema não ocorre somente no Japão, ele acontece no mundo todo, porém naquele país o índice é muito grande devido ao número de horas de trabalho semanais cumpridas. Os japoneses devem cumprir 40 horas semanais como em diversos países, mas devido a cultura, eles fazem muitas horas extras para que o objetivo de produção seja atingido. Este número excessivo de horas trabalhadas, associados a falta de descanso e compensação adequada, podem levar o trabalhador a fadiga e ao estresse que, como já foi explicado anteriormente, pode levar a doenças mais sérias e até a morte.
Talvez uma forma de intervenção neste problema seja a prática de atividade física no local de trabalho, principalmente nas horas extra onde o cansaço mental e físico é aparente. Um tipo de atividade que pode auxiliar neste contexto está descrita a seguir.
CAPÍTULO 2 - A GINÁSTICA LABORAL
Em busca de reduzir as conseqüências dos problemas anteriormente citados, empresários têm tomado diversas providências como por exemplo: a modificação das máquinas adequando-as aos colaboradores, a realização de palestras sobre qualidade de vida e hábitos saudáveis e também têm implantado programas de Ginástica Laboral (G.L.).
A G.L. pode ser conceituada de acordo com a visão de diversos pesquisadores. A seguir, encontram-se algumas destas definições:
A G.L. é composta por exercícios realizados no local de trabalho, atuando de forma preventiva e terapêutica no caso do D.O.R.T., sem levar o trabalhador ao cansaço, por ser de curta duração e enfatizar o alongamento e a compensação das estruturas musculares envolvidas nas tarefas ocupacionais diárias (CAÑETE, 1996; LABOR PHYSICAL, 1999; MARATONA, 1999; MGM, 1999). Guerra (1997) acrescenta a esta definição, a preocupação com o automatismo dos movimentos e a prevenção do estresse obtendo como conseqüência uma boa resistência muscular localizada;
Para Kolling (1980), a G.L. é um repouso ativo que aproveita as pausas regulares durante a jornada de trabalho, para exercitar os músculos correspondentes e relaxar os grupos musculares que estão em contração durante o trabalho tendo como objetivo a prevenção da fadiga;
Schimitz (1981) e Basso (1989) entendem esta atividade como a criação de um espaço onde as pessoas possam, por livre e espontânea vontade, exercer várias atividades e exercícios que estimulem o auto conhecimento e levem a ampliação da auto-estima e conseqüentemente proporcionem um melhor relacionamento consigo, com os outros e com o meio.
O que é a Ginástica Laboral?
Tendo como base os aspectos físicos, psicológicos e sociais do homem, a G.L. é composta por séries de exercícios diários realizados no local de trabalho, durante a jornada, e visa atuar na prevenção das lesões ocasionadas pelo trabalho, normalizar as funções corporais e proporcionar aos funcionários um momento de descontração e sociabilização durante a jornada (POLITO e BERGAMASCHI, 2002). Esta é desenvolvida em sessões de curta duração e pode ser de três formas (Dias apud CAÑETE, 1996) e períodos distintos: a G.L. Preparatória, a G.L. de Pausa e a G.L. Compensatória.
A G.L. Preparatória é composta por seqüências de exercícios realizadas no início do turno de trabalho, com o intuito de preparar o indivíduo para sua exigência laboral.
Outro tipo de G.L. é a de Pausa, também composta por seqüências de exercícios realizadas durante a jornada de trabalho, geralmente nos períodos onde há maior incidência de acidentes ou queda na produtividade devido ao cansaço. A G.L. de Pausa pode também ser realizada nas pausas obrigatórias (pausa para café, almoço e jantar). Este tipo de aula visa a quebra de rotina, a mudança do foco de atenção para uma atividade prazerosa e a saída da postura base compensando e corrigindo vícios posturais.
No final do expediente, é realizada a G.L. Compensatória, composta por exercícios que busquem a promoção do relaxamento da musculatura e da mente. É realizada para exercer a função de “volta à calma”.
Estes diversos estilos de G.L. podem ser implantados simultânea ou separadamente de acordo com a necessidade das pessoas, o objetivo e o tempo disponível da empresa alvo (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
Quando não há a possibilidade de implantar as três modalidades, algumas características da função exercida pelos colaboradores como exigência física (força muscular, repetição de movimentos, coordenação motora) ou mental (raciocínio, concentração) podem dar subsídios para a implantação da forma de G.L. mais adequada. Apesar dos indícios dados pelo tipo de atividade laboral, nada impede que outros tipos de G.L. sejam aplicados, pois não há estudos que provem resultados negativos com esta mudança.
Partindo destes conceitos, a G.L. tem objetivos gerais e específicos devido a sua forma de atuação. Os objetivos gerais são aqueles que independente do tipo de aula executada buscam ser alcançados. Segundo a Equipe Técnica do Sesc (1980), Faria Jr. (1984) a professora Mônica Feliciano Casagrande (apud GUERRA, 1997) e a Labor Physical (1999) os objetivos gerais da G.L. são: a redução do absenteísmo e da procura ambulatorial por dores e lesões; a promoção de saúde e da consciência corporal; a melhora na condição física geral; o aumento do ânimo e da disposição para o trabalho; a melhora no relacionamento interpessoal; a correção de vícios posturais; a prevenção da fadiga muscular e do D.O.R.T. Porém, ela não faz milagres, esta deve estar associada a um bom ambiente de trabalho, máquinas ergonomicamente corretas e a uma jornada de trabalho ideal (8 horas) para que possa obter maior eficácia em seus resultados.
Pena Marinho (apud CANTARINO e PINHEIRO, 1974), afirma que a G.L. busca desenvolver e aprimorar as qualidades físicas do colaborador, estimulando o funcionamento de seus órgãos. Tem como principal objetivo desenvolver qualidades (coordenação motora, força, atenção, concentração, agilidade, entre outras) que a natureza da profissão escolhida exige, para melhor rendimento no trabalho.
Quanto aos objetivos específicos pode-se afirmar segundo Polito e Bergamaschi (2002) que:
Ø A G.L. Preparatória busca preparar o indivíduo para sua atividade laboral através: da elevação de sua temperatura corpórea, do alongamento muscular, de exercícios para a melhora na coordenação motora, do condicionamento muscular visando a redução de dores e lesões, e através de dinâmicas de grupo visando aumentar a motivação e a integração para o trabalho.
Ø A G.L. de Pausa tem como objetivo a quebra de rotina, a mudança do foco de atenção e a correção postural. Para isto são utilizados exercícios de alongamento, exercícios corretivos e atividades para a descontração.
Ø A G.L. Compensatória visa alongar e relaxar a musculatura envolvida direta ou indiretamente no exercício do trabalho e relaxar a mente proporcionando uma sensação de bem estar.
A G.L. foi introduzida nas empresas, como meio para promover tanto aumento na produtividade, como a melhora da saúde. Várias empresas adotam este tipo de atividade física para estes fins, denominando-a de “Programa 5S” de qualidade de vida. Os cinco S significam: Superávit (aumento de produtividade),
Saúde (melhoria do bem-estar físico e mental), Segurança (diminuição dos
acidentes de trabalho), Sociabilização (melhoria do relacionamento interpessoal) e
Satisfação (colaboradores mais motivados, dispostos e valorizados) (MGM, 1999).
Porém, nem todas as empresas têm esta visão da promoção de saúde, diversas empresas implantam um programa de G.L. para tentar amenizar os efeitos dos problemas encontrados em seu local de trabalho, como máquinas ergonomicamente incorretas, problemas de relacionamento interpessoal, excesso de horas extras acarretando em problemas sérios de saúde em seus funcionários.
Benefícios da Ginástica Laboral
A Ginástica Laboral busca promover muitos benefícios, tanto para o colaborador quanto para a empresa. Segundo Cantarino e Pinheiro (1974) e Mgm (1999), a G.L. além de prevenir lesões como o D.O.R.T., promove a eficiência e saúde músculo-esquelética, a redução dos riscos ambientais e a redução do estresse.
Para Bulsing (1998) este tipo de atividade proporciona a liberação de movimentos bloqueados por tensões emocionais, obtendo a sensação de um corpo mais relaxado, a melhora na coordenação motora dos colaboradores reduzindo assim, o gasto de energia para a execução de suas tarefas diárias, o aumento da flexibilidade, a ativação do aparelho circulatório, a preparação do corpo para a atividade muscular e o desenvolvimento da consciência corporal proporcionando o bem estar físico e mental.
Porém, para o empregador é difícil colocar no papel os benefícios da G.L., principalmente no que diz respeito ao aumento na produtividade, pois vários fatores podem influenciá-la como: as máquinas, a velocidade de produção, o número de colaboradores, entre outros. Por este motivo, há dificuldade em implantar o programa na maioria das empresas, onde o empresário tende a raciocinar apenas com base em dados numéricos. O professor Paffemberger (apud PAIXÃO, 1999) é autor de um estudo que calcula o valor aproximado do lucro com a implantação do programa. Ele concluiu que para cada dólar investido em G.L., retornam para a empresa dois dólares.
Para tentar atingir estes benefícios a G.L. lança mão de diversos tipos de estratégias. As aulas são programadas de acordo com o período da jornada de trabalho em que será aplicada. Por exemplo: quando as aulas são aplicadas no início da jornada, são desenvolvidos exercícios de alongamento afim de preparar o indivíduo para as funções que irá executar durante a jornada. Estes são muito importantes principalmente na prevenção das lesões. A sensação sutil e
revigorante dos alongamentos permitem a entrada em sintonia com os músculos, e na medida em que relaxam a mente, regulam o corpo (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
Algumas pessoas levam seu dia-a-dia com um ritmo muito acelerado e automatizado devido a sobrecarga de atividades, responsabilidades e pressões. Estas condições podem acentuar possíveis desajustes biomecânicos. A prática regular de exercícios de alongamento pode ser um método simples de alto valor para reduzir estes desajustes e para manter a percepção corporal dentro de padrões mínimos de qualidade.
Os exercícios de alongamento reduzem as tensões musculares deixando o corpo mais relaxado e beneficiam a coordenação motora, porque os movimentos se tornam mais “soltos” e fáceis. Com isto, reduzem os gastos de energia e aumentam a amplitude dos movimentos, “desamarrando os nós” musculares, prevenindo lesões (ANDERSON, 1998; RIO, 1998).
Associados ao alongamento, estão exercícios de mobilização articular (aquecimento), que buscam proporcionar um aumento na freqüência cardíaca despertando o corpo para o trabalho. Além disso, este tipo de atividade visa aumentar a resistência para esforços físicos, diminuir a fadiga e aumentar a disposição para as atividades diárias, além de aumentar o bem-estar físico e psíquico. Isto deve-se, dentre outros fatores, à liberação da endorfina na circulação sangüínea que reduz a atividade do sistema nervoso simpático relacionada com o estresse e aumenta a atividade do sistema nervoso pára-simpático relacionada com o relaxamento (RIO, 1998).
No caso das aulas realizadas durante as pausas no trabalho, são utilizados exercícios que tem como objetivo reforçar o tônus muscular, assim como compensar os músculos exigidos no trabalho. Os exercícios de reforço de tônus muscular têm a função básica de manter os músculos em níveis que possibilitem a manutenção de posturas e movimentos adequados (RIO, 1998).
As aulas desenvolvidas no final do turno de trabalho têm como principal objetivo o relaxamento muscular e mental, para isso são utilizados exercícios de relaxamento como massagem, alongamento em duplas, dinâmicas de grupo, atividades recreativas, motivando-os para enfrentar as atividades extra jornada e esquecer o estresse psicológico causado pela pressão do trabalho diário (POLITO e BERGAMASCHI, 2002).
Os benefícios da G.L. assim como seus métodos de trabalho foram criados a partir de experiências de seus profissionais em outros tipos de atividade física. Porém, alguns benefícios atribuídos a ela são questionáveis pois não há pesquisas científicas que os comprovam, por exemplo, os benefícios fisiológicos: apenas 10 minutos são suficientes para promover melhoras cardiovasculares?
Outros benefícios são atribuídos a prática da G.L. devido a observação e ao relato de seus participantes, como a melhora da consciência corporal, auxiliando na percepção das mudanças e necessidades de seu corpo, contribuindo muitas vezes para a adesão a programas de atividade física fora do local de trabalho favorecendo sua qualidade de vida; redução de sintomas de estresse e a motivação para o trabalho (BERGAMASCHI, 2000; TANAKA, 2002).
Este novo tipo de atividade física vem conquistando novos adeptos a cada dia, por isso, atualmente ela vem sendo muito discutida em relação a seus objetivos e benefícios, pois em pouco tempo de prática diária ela se propõe a muitas modificações não só no homem mas também no ambiente de trabalho. Para que a G.L. tenha maior credibilidade e conquiste um mercado de trabalho ainda maior é necessário que se desenvolvam estudos que comprovem seus benefícios.
Histórico da Ginástica Laboral
Não é de hoje que a G.L. vêm sendo praticada em todo o mundo. Ela desenvolveu-se principalmente no Japão onde a partir de 1928, os funcionários dos correios freqüentavam sessões diárias de ginástica visando a saúde. Apesar
de ter sido desenvolvida neste país, o primeiro relato da existência da G.L. é na Polônia em 1925, onde era chamada de Ginástica de Pausa. Este tipo de ginástica era adaptada a cada função laboral (cargo exercido pelos colaboradores). Neste mesmo período, na Rússia, 150 empresas envolvendo 5 milhões de colaboradores praticavam este tipo de atividade (CAÑETE, 1996).
No Japão ainda hoje, um terço dos colaboradores exercitam-se diariamente. Este hábito teve início após a Segunda Guerra Mundial. Em 1960, foram obtidos como resultados: a diminuição dos acidentes de trabalho, o aumento da produtividade e a melhoria do bem-estar geral dos trabalhadores (CAÑETE, 1996). Mas não só os trabalhadores em ambiente fabril praticam a G.L., pessoas nas ruas e em casa também participam devido a criação da Rádio Taissô. Esta rádio consiste em um tipo de ginástica rítmica, com exercícios específicos, acompanhados por música própria.
A difusão da G.L. no Brasil deu-se também por influência japonesa. Executivos nipônicos dos estaleiros Ishiksvajima praticam este tipo de atividade desde 1969, sejam eles diretores ou apenas colaboradores, visando primordialmente a prevenção de lesões no trabalho (KOLLING, 1980; CAÑETE, 1996).
Em 1973, houve uma experiência pioneira no país, com base na seguinte proposta elaborada pela Federação de Estabelecimentos de Ensino Superior em Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul (FEEVALE): a elaboração de exercícios, baseados em uma análise biomecânica, para relaxar os músculos agônicos pela contração dos antagônicos, em face da exigência funcional unilateral (KOLLING, 1980).
Porém, somente em 1978, a FEEVALE e a Associação Pró-ensino Superior em Novo Hamburgo (ASPEUR), juntamente com o SESI, implantaram este projeto, denominando-o “Ginástica Laboral Compensatória”. Seu início data 23 de novembro de 1978, envolvendo cinco empresas do Vale dos Sinos. O projeto tinha caráter experimental e visava aprofundar estudos nesta área, conforme informou a diretora de uma das empresas (SCHIMITZ, 1981).
Este tipo de projeto visava também, combater uma doença que no princípio era chamada de tenossinovite, popularmente chamada de “Doença dos Digitadores” e foi a primeira patologia causada por esforços repetitivos no trabalho a ser reconhecida legalmente como doença profissional. Isto ocorreu em 1987, através da portaria nº 4602 do Ministério da Previdência e Assistência Social (Sato apud Monteiro, 1999). Este período foi um marco na luta para o reconhecimento das demais doenças causadas pelo esforço repetitivo, hoje chamadas de L.E.R. (Lesões por Esforço Repetitivo) ou D.O.R.T. (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). Esta pesquisa demonstrou que o medo da perda na produção é infundada, porém, os autores não explicam com clareza este fato.
Após a experiência no Vale dos Sinos, a G.L. caiu no esquecimento por um longo período. Conforme pôde-se concluir, ela não evoluiu naquele período, devido aos objetivos da pesquisa realizada pela FEEVALE e SESI terem sido apenas de estudo e de não ter naquela época mentalidade empresarial que favorecesse a implantação deste tipo de trabalho e também resultados que funcionassem como base para a implantação do programa em outras empresas.
Na década de 80, a G.L. começou a ser retomada, ressurgindo com força total na década de 90. A partir deste período, foi enfatizada a qualidade de vida e no trabalho, condenando o estresse e as lesões causadas pelo trabalho repetitivo como o D.O.R.T.
Resultados obtidos por programas de Ginástica Laboral no Brasil e no mundo
Apesar da G.L. não ser tão atual, as pesquisas em torno de seus resultados começaram a ser publicadas recentemente. Porém, muito ainda necessita ser estudado a respeito, pois não há ainda clareza em seus instrumentos e métodos
devido as suas diversas formas de atuação. Algumas pesquisas foram publicadas nas últimas décadas.
A Johnson & Johnson realizou um estudo com o objetivo de verificar os custos médicos dos colaboradores de sua empresa. Para tanto, foram selecionados 11 mil trabalhadores divididos em três grupos. O primeiro grupo participou do programa de G.L. durante 30 meses, o segundo participou por um período de 18 a 30 meses e o terceiro grupo não participou do programa de Ginástica Laboral. Como resultados foram encontradas reduções significativas dos gastos com saúde nos dois grupos que participaram das aulas de G.L. (GEBHARDT e CRUMP, 1990). Outro estudo semelhante também citado pelos autores foi realizado na Prudential seguros do Canadá. Um programa de G.L. foi desenvolvido por educadores físicos para diretores sedentários e aplicado por um período de cinco anos. Os resultados obtidos foram positivos: houve melhora na aptidão física de todos os participantes, houve redução dos dias perdidos por faltas e afastamentos de 20,1% mostrando que a G.L. desenvolvida com seriedade e profissionalismo é uma ótima ferramenta para melhorar a qualidade de vida.
SCOTT (1999) realizou um estudo com operários de um depósito na África do Sul. Este teve como objetivo investigar os efeitos de 10 meses de um programa de condicionamento físico no trabalho. Como exercícios de condicionamento foram utilizadas corridas e atividades de endurance muscular para estensores da coluna. As sessões foram realizadas três vezes por semana no horário do jantar dos participantes. Após o programa, os operários sentiram-se mais fortes e menos cansados. Foi verificada melhora significativa da força dos músculos estensores da coluna. Estes resultados mostram a importância de programas como este para a adaptação do homem ao trabalho, melhorando sua capacidade física e conseqüentemente reduzindo os riscos de lesões ocupacionais como o D.O.R.T.
Estas doenças têm preocupado empregados e empregadores nesta última década. Os empregadores se preocupam além do estado de saúde de seu funcionário, com os gastos médicos que a eles são oferecidos. O empregado por sua vez, que tem seu corpo como principal ferramenta de trabalho, preocupa-se