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História Política, Diplomática e Militar

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JOAQUIM VE RÍ SS IM O SERRÃO

Professor catcdrático da Universidade de Lisboa Sócio Efectivo da Academia das Ciências de Lisboa

e da Academia Portuguesa da História

HISTORIA

DE

PORTUGAL

Volume V

A RESTAURAÇÃO E A MONARQUIA ABSOLUTA

(

1640

-

1750

)

2.a edição, revista

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II PARTE

A Monarquia Absoluta

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CAPÍTULO I

HISTÓRIA POLÍTICA, DIPLOMÁTICA E MILITAR

A Monarquia Absoluta

Tem sido costume definir o Absolutismo como o sistema político dos estados nascidos com a Idade Moderna e onde se atribuía à realeza uma autoridade plena e de cariz divino para o bom governo dos povos. Esses regimes tiveram o seu florescimento dos meados do século XVI ao início do século X V III e corresponderam ao quadro político-institucional em que os órgãos da administração central caíam ou estavam na total dependência do poder soberano. Assim teriam nascido os estados autoritários que pas­ saram a simbolizar o Antigo Regime e a que o espírito liberal de 1789 veio pôr termo *.

O Absolutismo mergulhava as raízes na força dos Estados e no inte­ resse destes em aproveitar os benefícios da revolução econômica causada pela expansão ultramarina. A abertura de novos mundos levou à maior busca de matérias-primas e de produtos essenciais à vida corrente. Mas foi também condição para as nações imporem a sua presença noutros continen­ tes, buscando uma hegemonia militar e comercial, quando não religiosa. O espírito do Concilio de Trento animou os países católicos a sedimentarem o poder político, como forma de realizarem objectivos nacionais e de reagi­ rem contra a absorção das forças adversas. O panorama europeu da segunda metade de Quinhentos criou assim condições específicas para os principais estados aceitarem regimes absolutos que tiveram o exemplo mais expressivo na França de Luís XIV.

Não cremos que o conceito unitário de Absolutismo seja de manter, pois esse regime tomou formas distintas consoante os imperativos políticos, a organização social e a robustez econômica dos vários estados. O fortale- 1

1 Para o estudo global da matéria vejam-se, entre outros, K. Kaser, L ’Età

deli'Assolutismo, trad. ital., Florença, 1926; Roland Mousnier, Du Baroque au Classi-

cisme, Paris, 1953; Náf, La ideia dei Estado en la Edad Moderna, Madrid, 1947; Fritz Hartung e Roland Mousnier, Quelques problèmes concernant la Monarchie Absolue,

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cimento do poder real não se operou neles de maneira idêntica. Se a Guerra dos Trinta Anos enfraqueceu as nações católicas (Império, Espanha), não deixou tão-pouco de consolidar a hegemonia francesa. Com o apoio de Richelieu, a Suécia luterana impôs o seu poderio báltico. No meio de uma forte convulsão política, a Inglaterra passou do absolutismo régio de Carlos I para a república absolutista de Cromwell, um e outro procurando a supremacia nos mares. E no caso português foram as condições da Res­ tauração que deram uma expressão própria ao governo estabelecido por D. João IV e depois consubstanciado em D. Pedro I I 2.

A expressão «Absolutismo» equivale, pois, com o devido rigor, a monar­ quias absolutas, bem diferenciadas na sua orgânica e actuação governativas. Os reis portugueses de 1640 a 1750 tiveram sempre o apoio de órgãos de poder para a consulta ou execução da política interna, externa e ultramarina. Assim sucedeu com o Conselho de Estado, que no tempo de D. Pedro II era formado por 10 membros, e com as Secretarias de Estado, cujo número até ao reinado de D. João V variou entre dois e três membros. O voto dos conselheiros era sempre tomado em conta pelo monarca. Sabe-se também que os secretários de D. Pedro II, no dizer de fonte autorizada, «votavam em todos os negócios que hião ao despacho» 3, o que demonstra que a coroa não queria exercer um poder ilimitado. No capítulo III far-se-á menção dos vários conselhos e juntas que ajudavam o monarca na resolução de proble­ mas financeiros, judiciais, militares e econômicos, num sistema que afastava o exercício do poder exclusivo por parte de D. Pedro II e, mais tarde, do seu filho e sucessor.

A monarquia absoluta exigia, deste modo, o concurso de altos fun­ cionários dotados para a administração e conscientes do papel que lhes cabia desempenhar junto dos monarcas. Usando uma linguagem moderna, eram «técnicos» de governo que cumpriam, ao mesmo tempo, a função de «servido­ res» do rei que encarnava o mesmo ideal político. Exceptuando o caso de Castelo Melhor, que teve porventura condições para exercer uma acção directa de governo, não se encontra ao tempo, em Portugal, um exemplo de primeiro- -ministro ou de governante poderoso, como sucedeu noutros países. Até D. João V é tão inconsistente considerar os nossos reis como senhores de vontade ilimitada, como atribuir aos ministros o predomínio de quem go­ verna à revelia da coroa. O que se criou foi um tipo de mentalidade em que o alto funcionário tinha de seguir regras de conduta política:

Deve primeiramente o valido ser leal e fiel a seu Príncipe, procurando quanto em sy for, conseruarlhe a saude, vida, reputação e gosto, mas isto hade ser antepondo sempre Deos ao Príncipe. E por nenhum caso deixara de fazer o que deve a sua consciência, por comprir com os respeitos humanos. Porem quando for tal que por fraqueza, ou outra occazião cometa algum excesso, não seja nunca publico, porque nenhúa couza danna tanto a reputação dos que gouernão, como saberse que não estimão a vertude.

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E pelos validos se julgão os mesmos Príncipes, donde vem a cahir em odio, e aborrecimento do povo [ ...] Finalmente tudo se rezume em proçeder de maneira que não offenda com a valia a Deos, nem faça couza que desdiga de quem he, encaminhando todas as suas acções ao serviço do Rey e da Republica2 3 4.

Invocou-se um texto coevo para demonstrar que a sua doutrina não teve aplicação entre nós, na medida em que D. Pedro II e D. João V gover­ naram sem validos, ou seja, altos dignitários incumbidos, por delegação ou mera confiança, do poder supremo. Os conselheiros, ministros e secretários integravam-se numa orgânica em que o rei tinha o papel fundamental, mas não único na definição da política que melhor servia os interesses da coroa. O argumento tão invocado da ausência de Cortes desde 1698 não basta para provar a existência de Absolutismo em Portugal. Não havendo órgãos fisca- lizadores da acção régia (e nunca os estados do Reino o foram) havia, pelo menos, um sistema em que a vontade do soberano passava por órgãos consul­ tivos que lhe conferiam acabada expressão, retirando-lhe as marcas da auto­ ridade própria dos regimes absolutistas. Destes permaneceu apenas, no tempo de D. João V e de forma mitigada, o culto da pessoa régia que mar­ cou entre nós a monarquia absoluta.

A crise política de 1667

Para compreender os acontecimentos que levaram D. Afonso VI a renunciar ao governo, impõe-se examinar as causas dessa grave crise que abriu um novo rumo à política nacional. O assunto tem constituído tema de interesse de muitos historiadores, situando-o alguns no seu enquadra­ mento temporal, mas outros preferindo as razões de sentimento que o des­ virtuam no domínio histórico. Poucas épocas foram tão marcadas pela

pai-2 Para o caso português vejam-se, entre outros, Paulo Merea, O Poder Real e as

Cortes, Coimbra, 1923; Edgar Prestage, The Royal Power and the Cortes in Portugal, Watford, 1927; Marcello Caetano, «O Governo e a Administração Central após a Res­ tauração», in História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol. III, pp. 189-198; Eduardo de Oliveira França, O Poder Real em Portugal e as Origens do Absolutismo, São Paulo, 1946; Marcello Caetano Constituições Portuguesas, 4.* ed., Verbo, Lisboa, 1978; Jorge Borges de Macedo, «Absolutismo», in Dicionário de História de Portugal, vol. I, pp. 8-14; Domingos Maurício, «Absolutismo em Portugal», in Verbo. Enciclopédia Luso-Brasileira

de Cultura, vol. I, cols. 136-144.

3 Carta do marquês de Angeja a Marco Antônio de Azevedo Coutinho, Lisboa, 2 de Outubro de 1724, pub. Pedro de Azevedo, in Boletim de Segunda Classe, Academia das Ciências de Lisboa, vol. X I, Coimbra, 1918, pp. 1036-1037.

4 Biblioteca da Marquesa de Cadaval, Muge, códice 1090 (K .V III.la), fóls. 21- -22 v.°: «Conselho prático para hum Menistro Supperior se conservar na graça do Prin-

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xão, devido ao clima emocional em que o longo período das guerras da Restauração mergulhou os espíritos. Haverá, pois, que proceder a uma serena revisão do problema, tendo em conta as forças políticas e sociais que se de­ frontaram na crise. Quatro foram os momentos desta: o casamento de D. Afonso VI, a queda de Castelo Melhor, a renúncia do monarca e, por fim, a anulação do consórcio régio5.

Não se torna hoje possível, como o fez a historiografia liberal, ver ape­ nas em D. Afonso VI o rei infeliz que, por obra de um golpe palaciano dirigido pelo irmão, ficou sem a esposa e sem o trono6. Já se referiu a inca­ pacidade física do monarca, devido à meningite que aos três anos o ata­ cou 7 e lhe diminuiu faculdades activas e do entendimento *. Se não fora a prematura morte de D. Teodósio, jamais o irmão segundo teria ascendido ao trono, cumprindo-se a sua vida terrena sem história. Mas a esperança de que viesse a recuperar com a idade, a que se seguiu a pausa resultante do governo de D. Luísa de Gusmão, fizeram adiar o grave problema de ser o monarca um incapaz para o exercício do poder supremo. Se em 1662, graças ao talento de Castelo Melhor, a maioridade de D. Afonso VI outorgava a este o pleno direito de receber a coroa, mais difícil seria conservá-la quando chegasse a hora de assegurar a necessária descendência.

Para o escrivão da Puridade havia, pois, que desbloquear a situação com o casamento do rei, maneira única de evitar a crise em gestação. Em 1652 falhara o projecto com a filha do príncipe de Parma, o mesmo sucedendo pouco depois com Mademoiselle Montpensier, que o ministro francês Turenne queria sentar no trono português. Não resultou, em seguida, o plano de consórcio com a filha mais velha do duque de Orleães, o que esteve na origem da missão de D. Francisco Manuel de Melo ao estrangeiro9. Naquela altura corria na corte francesa que «el Rei era assaz bem parecido, louro, e seria bem feito de sua pessoa se não tivesse vindo ao mundo com certa paralisia de metade do corpo, a qual fazia tivesse aquella parte mais fraca que a outra, mas que aquelle defeito se não via, em ele estando vestido e somente arrastava um pouco a perna e com alguma dificuldade se servia do braço ...» I0. Não era, pois, um segredo a doença do rei, mas sem com isso se provar que ele fosse inábil para o casamento.

Entretanto, Castelo Melhor incumbira D. Francisco de Melo, marquês de Sande, de orientar as negociações com vista ao consórcio com a filha do falecido duque de Nemours, D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, mais conhecida por Mademoiselle d’Aumale, que Luís XIV desejava sentar num trono europeu u. A França não comprometia uma das suas princesas a ga­ nhava no xadrez político com tal união. As negociações vieram a traduzir-se no contrato matrimonial que o marquês de Sande assinou em Paris a 24 de Fevereiro de 1666, celebrando-se o casamento por procuração em La Ro- chelle, a 27 de Junho, onde a nova rainha embarcou para Lisboa, aqui che­ gando a 2 de Agosto seguinte 12. Mas a união estava destinada ao insucesso 196

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por razões que a história procura explicar em face do ambiente de intriga que fervilhava na corte portuguesa.

A corrente favorável ao infante D. Pedro sustenta que o matrimônio nunca se consumou por incapacidade de D. Afonso VI, o qual não coabitava com a rainha e apenas a saudava em actos públicos13. Foi-se mesmo ao ponto de defender que o rei escondia as carências físicas em manifestações de afro- disia que os seus íntimos lhe reservavam M. Mas aquela acusação não resiste ao informe de que D. Maria Francisca alimentou esperanças de gravidez, como o afirmou ao embaixador francês Saint-Romain 15. O pouco zelo que D. Afonso VI consagrava à esposa, mesmo somado à sua doença crônica,

5 Vejam-se conde da Ericeira, História do Portugal Restaurado, t. IV, pp. 357 e segs.; Leandro Dorea Caceres e Faria, Catastrophe de Portugal na deposição d’El Rei

D. Affonso o Sexto & Subrogação do Príncipe D. Pedro o Vnico, justificada nas cala­

midades publicas. Escrita para justificação dos Portugueses, Lisboa, 1669; Monstruosi­ dades do Tempo e da Fortuna (1662-1680), nova ed. pub. Damião Peres, vols. I-IV,

Porto, 1938-1939; A Anti-Catastrophe. Historia d’Elrei D. Affonso 6 ° de Portugal, pub. Camilo Aureliano da Silva e Sousa, Porto, 1945; Fortunato de Almeida, História

de Portugal, t. IV, Coimbra, 1926, pp. 224 e segs.; Gastão de Melo de Matos, «O sen­ tido da crise política de 1667», in Anais da Academia Portuguesa da História, I série, vol. V III, Lisboa, 1944, pp. 337-440.

6 Vida d'ElRei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684, com um prefácio de Camilo Castelo Branco, Porto-Braga, 1873.

7 Na carta de D. João IV ao seu embaixador em França, de 9 de Novembro de 1647, vem esta frase sintomática: «Com grande cuidado se passou aquy estes dias pella doença do Iffante Dom Affonso, meu muito amado e prezado filho, que parecendo leue nos princípios, se veio a rezoluer em húa febre malina, com todos os roins acçiden- tes que esta doença, quando dá com mais forsa, costuma trazer consigo...». Cartas de

El-Rei D. João TV ao Conde da Vidigueira, vol. II, p. 180. 8 Veja-se supra, parte I, cap. I, p. 46.

9 Visconde de Santarém, Quadro Elementar das Relações Políticas e Diplomá­

ticas de Portugal, t. IV, parte II, Paris, 1844, pp. 525-526.

10 Memórias de Mademoiselle de Montpensier, sum. id., ibid., p. 517.

11 É obra fundamental para o estudo da matéria Antônio Álvaro Dória, A Rai­

nha Maria Francisca Isabel de Sabóia, Biblioteca Histórica, Porto, 1944. Para as relações

luso-francesas do tempo, veja-se o Recueil des Instructions donnêes aux Ambassadeurs

de France depuis les Traitês de Westphalie jusqu’à la Révolution Française, tomo III,

Portugal, por Visconde de Saint-Aymour, Paris, 1886, pp. 90 e segs.

12 D. Antônio Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portu­

guesa, 2 * ed., t. V II, pp. 218-220. Foram então soltos os presos das cadeias de Lisboa

e em 5 léguas ao redor, desde que os seus crimes não fossem de «graveza», tais como blasfemar de Deus e dos santos, fazer moeda falsa, dar peçonha, atear fogos e outros. J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica ... (1658-1674), p. 121.

13 Conde da Ericeira, História do Portugal Restaurado, t. IV, pp. 420-425. 14 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. I, pp. 24-26.

15 Edgar Prestage, Castelmelhor e a Rainha D. Maria Francisca, Coimbra, 1930,

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não era argumento bastante, como mais tarde se invocou, para considerar o consórcio desfeito por não ter sido consumado 16. O que não basta para afirmar que a descendência, em tais condições, estava assegurada.

A queda de Castelo Melhor

Não é fácil para o historiador mover-se em tal domínio. Mas que houve grupos palacianos que se aproveitaram da situação, parece indiscutível. Uns por reconhecerem que o monarca não tinha dons para o governo, outros por­ que odiavam Castelo Melhor e pretendiam a sua queda, outros ainda porque sentiam o pulso do grande ministro e receavam que, sem ele, a paz com a Espanha ficasse letra-morta. O grupo favorável ao infante D. Pedro, de que faziam parte o 1.” duque de Cadaval, o embaixador francês e outros conselheiros da rainha, aguardava a sua hora. Já entrado o ano de 1667, o infante saiu da corte e foi para Queluz, malquistado com o irmão. E logo a seguir deu-se um incidente que foi o rastilho para a explosão da crise: o doutor Antônio de Sousa de Macedo respondeu com menos deferência à rai­ nha, pelo que esta se queixou ao marido e exigiu de imediato a demis­ são do secretário de Estado. Mas Castelo Melhor pôs o rei de sobreaviso contra o partido francês e defendeu o seu colega^ de governo que, após uns dias de afastamento, foi mantido em funções 17.

Esta decisão causou «escândalo universal», no dizer do conde da Eri- ceira, tendo-se reunido vários nobres para tentarem afastar Castelo Melhor. Eram eles o marquês de Marialva, os condes de Sarzedas e Vila Flor, Luís de Mendonça Furtado, D. João da Silva, D. Luís de Meneses e outros, incluindo o duque de Cadaval, que voltara do desterro em Almeida. Todos guardaram contacto com D. Pedro, buscando o meio prático de «acabar com o risco a que estava exposta a conservação do Reino» 18. O infante fez pro­ palar que corria o risco de ser preso ou envenenado, a fim de granjear maior apoio entre os três estados. O conde de Castelo Melhor teve notícia deste movimento, pelo que determinou que os alcaides e meirinhos da corte andas­ sem mais bem guardados e com oito homens de escopeta, ficando também a cavalaria em estado de prevenção 19. Tal ensejo permitiu a D. Pedro amea­ çar o monarca: ou o escrivão da Puridade saía do Paço ou o infante aban­ donava o Reino, o que significava «na balança da justiça um peso desi­ gual» 20. Já então, a 27 de Outubro, a Câmara de Lisboa pedira a D. Afonso VI a imediata convocação de cortes para tratar do governo do Reino21.

Intentou Castelo Melhor um golpe de surpresa para alterar a situação? Supõe-se que o fez, procurando atrair ao Paço o duque de Cadaval22; mas era demasiado tarde, pois D. Afonso VI cedera à pressão da nobreza que exigia o afastamento do valido, deixando a solução do caso a uma junta de 198 letrados afectos a D. Pedro. As tropas ao serviço da corte aguardavam o

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sinal de abrir fogo, muitos com «empenhos de guerra civil», em apoio à posi­ ção de D. Pedro. Os castelhanos presos no castelo de Lisboa e em outras cadeias reacendiam o clima de hostilidade para aumentar a dissenção da nobreza: «fundavam na guerra civil não só a sua liberdade, senão o novo cativeiro de Portugal a Castela» 2\ A rainha também interveio para exigir a exoneração de Castelo Melhor, o que correspondia à política do embaixador francês em Portugal16 17 18 19 20 21 22 23 24. O rei ainda conseguiu uma carta de segurança para o antigo servidor, prometendo D. Pedro guardar «a pessoa e honra do conde e de não intentar contra ela coisa que as ofenda».

Ainda no Paço, a 3 de Setembro, Castelo Melhor enviou a D. Afonso VI uma carta que é um documento de grande nobreza moral. Elevando os ser­ viços que em quase dez anos prestara à coroa, fora seu lema «em todas as conjecturas do tempo» servir a pessoa do rei e a honra do Reino. Defen­ dia-se da atoarda de haver contribuído para a morte de D. Luísa de Gus­ mão, reconhecendo que «às vezes as calumnias e as desgraças quasi sempre se parecem com as tormentas, donde ha maior força e o maes fero inimigo para quanto padece». E invocando os serviços prestados como escrivão da Puridade, relembrava ao monarca: «em tantas batalhas vencidas, tantos rencontros julgados pella fortuna e forças de V. Magestade a favor deste Reyno, tantas praças ganhadas ao inimigo, tantas armadas feytas, tudo passando por estas mãos, achandose o Reyno com duas vezes maes cauallaria e Infantaria do que tinha naquelle ano em que V. Magestade tomou o gouerno delle ...» 25. E afirmava que o próximo tratado de paz, «tam ventajozo para este Reyno», foi por ele trabalhado, que tudo fizera para o rei casar, e que,

ser-16 Veja-se infra pp. 207-208, o que se refere à nulidade do casamento régio. 17 História do Portugal Restaurado, t. IV, pp. 446-447, e as notas de A. A. Dória,

ibid., pp. 556-557.

18 Id., ibid., t. IV, pp. 444445.

19 Alvará de 4 de Julho de 1667. J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica

de Legislação Portugueza (1675-1680), sup., p. 279. 20 História do Portugal Restaurado, t. IV, p. 446.

21 Ed. Freire de Oliveira, Elementos para a História do Município de Lisboa, t. VI, Lisboa, 1893, p. 621.

22 Na Biblioteca da Marquesa de Cadaval, Muge, 869a (K.V.10), fól. 98, con- serva-se uma carta inédita de Castelo Melhor ao mesmo duque, do seguinte teor: «S. Mag., que Deos goarde, ordena que V. Ex * venha logo ao Paço por hüm negocio de grande importançia. Deos goarde a V. Ex.‘ , do Paço a 2 de Setembro de 1667. S. Mag. espera por V. Ex.* esta noite a quaisquer oras que seja. Ho Cõde de Castello mélhor.»

23 História do Portugal Restaurado, t. IV, p. 459.

24 Edgar Prestage, As Relações Diplomáticas de Portugal com a França, Ingla­

terra e Holanda, de 1640 a 1668, Coimbra, 1928, pp. 96-97, atribui ao embaixador

Saint-Romain, de conivência com D. Maria Francisca, o golpe destinado a afastar Castelo Melhor e a depor o monarca.

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A renúncia

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vindo dia e noite, o tempo fora sempre pouco para cumprir as suas obri­ gações. Podia ele ter obtido títulos, comendas e outras mercês, mas apenas quisera servir a pessoa régia. Desejava agora salvar a honra dos seus feitos que via «em sumo abatimento»; e pedia licença a D. Afonso VI para se retirar a «hüa quinta minha», onde passasse o resto da vida sem vergonha de seu nome. Como testamento político, esta carta de Castelo Melhor pode considerar-se uma peça notável.

Uma semana depois, Castelo Melhor saía do Paço para se acolher a um mosteiro de arrábidos, perto de Torres Vedras, de onde passou a Alen- quer. Já esquecido da sua promessa, o infante D. Pedro ordenou-lhe a insta­ lação em Pombal. Em Janeiro de 1668 esteve em riscos de ser preso, talvez mesmo executado, quando as tropas reais o perseguiam no Buçaco; mas graças à protecção dos frades, conseguiu salvar a vida. A mudança política, tra­ zendo ao de cima profundos ódios e ambições incontroladas, fizera esquecer os eminentes serviços que prestara ao Reino, tanto na administração pública como nas guerras da Restauração. Esperava-o o começo de um longo exílio nas cortes da Sabóia, de França e da Inglaterra, onde sem espírito ressentido nunca se furtou a diligências e pareceres que considerava úteis para os inte­ resses de Portugal26.

Só depois da morte da rainha, em 1683, se desanuviou o ambiente da corte que permitiu acabar com a injusta expatriação. Para isso contribuíram Carlos II de Inglaterra e a duquesa de Sabóia, que escreveram a D. Pedro II a encomiar os dons do estadista exilado. Não se duvida que D. Maria Francisca foi a grande opositora do conde, pelo sentimento da honra ofendida que nenhuma espécie de perdão alcançava suscitar, sendo bem mais generoso o marido em 1685, quando permitiu o regresso de Castelo Melhor. Não acei­ tou este residir na ilha da Madeira, pelo que foi consentido instalar-se na casa de Pombal, onde se consagrou à administração dos seus bens. Por algumas vezes esteve em Lisboa e em 1707 recuperou o antigo valimento, quando D. João V lhe deu o título honorário de conselheiro de Estado. O conde teve ainda sentença favorável no pleito que durante 30 anos o opôs à coroa, acerca da questão das saboarias que lhe passavam a render 5000 a 6000 cruzados de juro e herdade27. Viria a falecer em 1720, deixando o rastro de uma sólida inteligência política que garantiu o triunfo militar da Restauração e abriu ao País, embora sem continuidade, um novo estilo de governo.

D. Afonso V I

A demissão de Castelo Melhor retirava a D. Afonso VI o seu grande esteio, pelo que a crise em gestação ia conhecer uma nova e mais aguda fase. Por um lado, não podia manter-se a ambígua situação do casal régio,

Universidade Grande d° ^ Centro de C lè R t.a s H um ar.as. Letrar- e Artes

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tanto mais que D. Maria Francisca estava sujeita a pressões do embaixador de França para impor os seus direitos; por outro lado, o grupo palaciano do infante D. Pedro não iria consentir que a máquina do governo conti­ nuasse nas mãos de protegidos de Castelo Melhor. Foi assim que o secre­ tário Antônio de Sousa de Macedo e o moço de câmara Manuel Antunes foram obrigados a deixar o Paço, com grande zanga do monarca. A pro­ posta do marquês de Sande para se entregar o governo à rainha e ao infante, ficando D. Afonso apenas com a «autoridade real», não foi aceite por este20 * * * * * * 27 28. Interveio depois a força municipal, quando a Câmara e os mes- teres de Lisboa, em 15 de Novembro de 1667, insistiram no pedido de cortes para tratarem de matéria urgente «ao bem e defensa do reino». Ace­ deu D. Afonso VI, marcando o dia 1 de Janeiro para início da assembléia29. A decisão camarária tem sido encarada como uma imposição a que o rei não se podia furtar, tanto mais que ao infante convinha a reunião de cortes onde os três estados mostrassem o seu desagrado pela crise política. Perante o bloqueamento da situação, D. Pedro seria a única alternativa de governo. O golpe de misericórdia a D. Afonso foi vibrado pela rainha que, no dia 21 de Novembro, resolveu deixar o Paço e acolhef-se ao Convento da Esperança, deixando uma carta ao marido a justificar o seu acto:

Rey e Senhor: Deixei minha Patria, vendi minha fazenda por vir buscar a V. Magestade e seruillo: Não se agradou V. Magestade de mim, não he meo Marido, como V. Magestade bem sabe: por justiça, por rezão, por obrigação me deve deffirir, dando-me licença para me hir para França, por justiça, dandome o meu dote, por obrigação deixandome hir, por rezão fauorecerme que sou estrangeira. Lisboa 22 de Novembro de 1667. Donna Maria Francisca Isabel de Saboia30.

20 Vejam-se, entre outros estudos, Fernando Palha, O Conde de Castelo Melhor

no Exílio, Lisboa, 1883; Edgar Prestage, «O Conde de Castelmelhor e a retrocessão de Tânger a Portugal», in Boletim de Segunda Classe, Academia das Ciências de Lisboa, vol. X I, 1917, pp. 77-101; id., «Correspondência do Conde de Castelmelhor com o Padre Manuel Fernandes e outros (1668 a 1678)», in O Instituto, vol. LXIV, Coimbra, 1917, pp. 387471-558-645, ibid., vol. LXV, 1918, pp. 89-151-197; D. Francisco de Sousa e Holstein, «O Conde de Castel Melhor em Londres», in Revista de História, vol. V, Lisboa, 1916, pp. 193-232.

27 Remete-se o leitor para o penetrante estudo de Jorge Borges de Macedo, já citado supra, p. 49. José Soares da Silva, Gazeta em Forma de Carta, t. I, pp. 134-135.

28 História do Portugal Restaurado, t. IV, pp. 475476.

x Ed. Freire de Oliveira, Elementos para a História do Município de Lisboa, t. VI, pp. 623-624.

30 O texto corre em diversas versões, como a da História do Portugal Restaurado, t. IV, p. 478, e as Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. I, p. 43. Por menos conhecida, seguimos a da Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Manuscritos

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Verdadeiro escândalo, porque a rainha se fez acompanhar das suas damas e oficiais e mal chegou ao convento logo se pôs em clausura, não permitindo que ninguém ali entrasse. Não chegaram as ameaças de D. Afonso VI para a demover do seu gesto. No dia seguinte entrava no Cabido de Lisboa o seu pedido a requerer a anulação do matrimônio, decla­ rando que o não fizera antes por escrúpulos de consciência e que, logo que obtivesse justiça, voltaria a França: «E rogo ao Cabido da Santa Sé desta cidade, a quem por seus ministros toca ser juiz desta causa, a queiram mandar abreviar quanto foi possível, favorecendo em tudo o que for justo a uma estrangeira magoada da desgraça de não poder viver na terra que veio buscar com tanto gosto» 31.

Como o exigia matéria tão grave, o Cabido não deu imediata satisfa­ ção ao requerimento de D. Maria Francisca, limitando-se a pedir-lhe que não deixasse o Reino e informando que fazia «encomendar o negócio a Deus». Mesmo que a conduta da rainha esconda uma profunda ambição política, na teia armada pelos seus conselheiros para a afastar do monarca, nenhuma dúvida pode subsistir de que D. Afonso VI não foi capaz, como esposo e como rei, de encarar o problema com determinação. Se lhe faltou então o apoio da principal nobreza, não é de aceitar que isso se deveu apenas a manobras do grupo afecto a D. Pedro. Os cortesãos reconheciam tratar-se de um doente que, sob a tutela de Castelo Melhor, pudera esconder a sua fraqueza, mas agora mostrava todas as carências de homem e de governante, sem dú­ vida um infeliz que não estava à altura da grave situação.

A diligência do conde de Santa Cruz para D. Afonso VI deixar o go­ verno, logo seguida de uma conversa do marquês de Cascais com o soberano, abriu o desejado caminho para a renúncia. Caso ele não deixasse o poder, os conselheiros privá-lo-iam do seu exercício. Foi assim que o rei se curvou aos argumentos expressos no Conselho de Estado e ainda no dia 22 de No­ vembro houve por bem

fazer desistência destes seus Reinos, assi e da maneira que os possue, de hoje em diante, para todo sempre, em a pessoa do Senhor Infante D. Pedro, seu irmão, e em seus filhos ligitimos descendentes, com declaração que do melhor parado dos rendimentos delles reservacem mil cruzados de renda em cada um ano, quaes poderá testar por sua morte, pelo tempo de dez anos e outrosim reserva a Casa de Bragança com todas as suas per­ tenças 32.

No mesmo dia 24, o infante D. Pedro assinava um decreto, em forma de proclamação, a justificar a mudança de governo. Mostrava os erros e fra­ quezas do irmão, que se deixara conduzir pela ambição de certos validos — clara referência a Castelo Melhor e Sousa de Macedo — e «por homens de má vida», indo ao ponto de desterrar os nobres que se opunham aos seus 202 desvarios33. O Reino encontrava-se «sem justiça e sem fazenda», sem que

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D. Afonso VI ouvisse as justas queixas do Conselho de Estado e das Câma­ ras de Lisboa e de outras terras, pois acabara por desmarcar a assembléia convocada no início de 1668. O infante justificava a tomada do governo pela exigência do Senado lisboeta, assim como «do melhor povo» e da nobreza da capital: «que me veio buscar e obrigar, quasi com demonstrações de violência, a tomar o governo destes Reinos». Era perfeita a forma jurí­ dica encontrada: o Rei não deixava de o ser, perdendo apenas a cabeça do poder executivo, e isto enquanto as Cortes não tomassem o «assento» que a situação requeria31 32 33 34.

Tal se depreende da posição do infante, ao declarar que não queria tomar a coroa, pois respeitava o direito que pertencia ao irmão:

. . . e protesto huma e muitas vezes que estou e estarei sempre, em quanto a vida me durar, aos Reaes pés de S. Magestade com a lealdade que lhe devo, como a meu Rey e Senhor, e com o muito grande amor que lhe tenho, como a Irmão, e a Pai que nesta conta o tenho, e tive sempre despois que me faltou ElRey meu Senhor que Deos tem e com rezolução muito firme, de defender em sua Real pessoa, e nas de seus descendentes as regalias que lhes pertencem, jurando diante da Magestade de Deos a vassalagem e omenajem que lhe devo, asim e da maneira que lha jurão os que mais perfeitamente a jurão em suas Reais mãos.

Houve «perfídia» em D. Pedro, com a ajuda dos seus conselheiros, para se apoderar do governo? 35. Cremos que o problema, sendo de fundo polí­ tico, não pode explicar-se por razões de sentimento, como o fizeram os his­ toriadores do século X IX 36. O Reino desejou aquela solução, para se acabar com o conflito de palácio que era de molde a comprometer o tratado de paz. Não oferece dúvida que a Câmara de Lisboa pediu ao infante que se procla­ masse rei — e isso implicava, em termos de direito, o destronamento do irmão — , o que ele não quis satisfazer, guardando apenas o título de curador

31 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, t. I, p. 44.

32 D. Antônio Caetano de Sousa, Provas da História G e n e a l ó g i c a 2.* ed., t. I, parte I, Coimbra, 1952, p. 21.

33 Decreto que o infante D. Pedro mandou aos tribunais, id., ibid., pp. 61-65. Alude-se ao 1 * duque de Cadaval: «e a desterrar desta Corte tão grandes pessoas, por tanto tempo, e para tão ruins lugares, em que receberam os danos que são notorios». Veja-se supra, parte I, cap. IV, pp. 135-136. Sousa de Macedo manteve o lugar de desembargador, que ainda exercia em 1673. Veja-se Ed. Freire de Oliveira, Elementos ... t. VII. pp. 451-452.

34 D. Antônio Caetano de Sousa, Provas da História, pp. 64-65.

35 Ed. Freire de Oliveira, Elementos para a História do Município de Lisboa, t. V III, p. 5.

36 Nomeadamente Camilo Castelo Branco no prefácio à Vida d'El-Rei D. Afonso VI,

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e governador do Reino. Mas alargou-se nos dias seguintes o fundamento do seu governo, declarando que o tomara «pelo desejo que tinha de ver a Jus­ tiça restituída à inteireza, liberdade e autoridade que teve em tempo dos Senhores Reis seus predecessores»37.

Desde 26 de Novembro de 1667 que os documentos régios vêm assi­ nados pelo «Infante» e só depois das Cortes do ano seguinte o passaram a ser pelo «Príncipe». Logo voltaram ao tablado os nobres que se tinham oposto a Castelo Melhor, como D. Nuno Álvares Pereira de Melo, l.° du­ que de Cadaval, e D. Vasco Luís da Gama, marquês de Nisa, feitos membros do Conselho de Estado. Para presidente da Mesa do Desembargo foi escolhido D. João da Silva, marquês de Gouveia, e para vedor da Fazenda o velho general D. Antônio Luís de Meneses, marquês de Marialva. O cargo de governador da Relação do Porto foi entregue a Henrique de Sousa Tavares da Silva, conde de Miranda, confiando-se a secretaria de Estado a um velho funcionário, o doutor Pedro Vieira da Silva, que caíra em desgraça no tempo do rei afastado. Todos elementos ligados ao partido «francês», como defendeu Gastão de Matos, o que permite compreender a vitória alcançada sobre a facção «inglesa» de Castelo Melhor, que abandonara a cena política M.

Para que se avalie o grau de hostilidade que separava as duas correntes, refira-se que a 7 de Dezembro, numa cerimônia efectuada na presença do infante na capela real, alguns nobres criticaram a entrega de Tânger e Bom­ baim à Inglaterra, por ser feita a «hereges, em ofensa de Deus» e não haver mandato das Cortes para a cedência; mas o marquês de Sande defendeu o ponto de vista contrário, alegando as razões de casamento de D. Catarina que permitiram, na hora de maior perigo, salvar a Restauração. Ripostaram os do partido «francês» que Deus havia de castigar todos os que consentiram em tal entrega. Algumas horas depois, quando a liteira do marquês de Sande passou no Largo de S. Domingos, não resistiu este nobre a um ataque de sicários da facção adversa. Ainda que o regente houvesse denunciado o crime como «grande delicto», mandando abrir devassa contra os responsáveis, o ocorrido na pessoa de um nobre que se notabilizara como militar e diplo­ mata diz bem do ambiente de ódio que crescera no Paço R eal39.

As Cortes de Lisboa de 1668

Desde 26 de Novembro que o infante convocara os estados para o dia 1 de Janeiro, na capital, a fim de confirmarem a renúncia do governo feita em D. Pedro e jurarem este como príncipe e governador do Reino w. Os procuradores teriam ainda de «compor e ajustar alguas cousas conve­ nientes à defensa destes Reinos e bem commum de meus Povos, e Vassalos». À corte devem ter chegado dúvidas quanto à natureza dos procuradores a eleger, pelo que o Desembargo do Paço esclareceu não o poderem ser os ofi-204

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ciais de justiça e da fazenda, assim como os cristãos-novos. Mas devido ao tempo limitado que houve para convocar todos os procuradores, a sessão de abertura apenas veio a ter lugar no dia 27 de Janeiro, no Paço da Ribeira37 38 39 40 41.

Couberam os discursos da praxe a D. Manuel de Noronha, prior-mor do Convento de Palmela, e ao doutor Pedro Fernandes Monteiro, em nome dos três estados, em especial do povo. Mas nenhum deles proferiu as costumadas orações de encómio, por ser grave a matéria das Cortes, limi­ tando-se um e outro a apresentar as razões que tinham levado o infante a tomar conta do governo, «obrigado das instâncias de seus vassalos». Não se punha em dúvida a realeza de D. Afonso VI, que não exercia o governo por falta de capacidade; e só no caso de ele vir a morrer sem herdeiros, D. Pedro podia ser reconhecido por monarca. Era uma solução de executivo, mas sem as marcas de deposição régia que os autores costumam apontar, embora a prerrogativa de D. Afonso VI fosse meramente nominal.

Prestado o juramento, dividiram-se os procuradores por três «congres­ sos»: o clero na Igreja de S. Domingos, os nobres na Igreja de S. Roque, da Companhia de Jesus, e os povos no Mosteiro de S. Francisco 42. As Cor­ tes prolongaram-se até ao mês de Agosto, tratando como assunto essencial da paz com a Espanha e do casamento do príncipe com sua cunhada D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. Os povos votaram a contribuição por parte das câmaras do Reino e ilhas, durante três anos, de 400 Ò00 cruzados para a manutenção de «presídios» nas fronteiras do Reino, assim como de 100 000 cruzados para os «assentistas» do referido encargo 43. Não se podiam desguarnecer de pronto os castelos da raia, a fim de garantir o termo das hostilidades, como se impunha. O esforço militar devia assim prosseguir.

37 J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica de Legislação Portugueza (1657-1674), p. 134.

38 Veja-se o bem fundado estudo de Gastão de Melo de Matos, «Um processo político do século X V II», in Congresso do Mundo Português, vol. V II, Lisboa, 1940, pp. 633-667, depois completado em O Sentido da Crise Política de 1667, est. e lugar citados, pp. 337-440.

39 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. I, p. 52.

40 Veja-se a carta à Câmara de Ponte de Lima, in Bibloteca da Academia das Ciências de Lisboa, Legislação Portugueza, 9 (1657-1682), n.° 10.

41 Conde da Ericeira, História do Portugal Restaurado, vol. IV, pp. 481 e segs.

Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. I, pp. 59 e segs. J. J. Andrade e Silva,

Collecção Chronologica... (1657-1674), p. 134.

42 As sessões do estado eclesiástico estão pub. em J. J. Andrade e Silva, ibid., (1657-1680), pp. 99-139.

43 Veja-se J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica... (1657-1674), pp. 153-154. Veja-se infra, parte II, cap. III, pp. 345-346, as implicações que extraímos

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Não se torna possível enumerar todos os capítulos apresentados nas Cortes44. Refira-se apenas que os três estados solicitaram o termo da «grande demasia e excessos» que se notavam nos trajes, vestidos e guarnições, em mani­ festa violação das pragmáticas anteriores que haviam sido decretadas por D. João IV 45. A Câmara do Porto viu atendidos três capítulos sobre o ofí­ cio de escrivão, as provisões e o privilégio do vinho de cutelo46. O interesse das Cortes estava no reconhecimento do fim do longo estado de guerra, ao mesmo tempo que marcaram o início de facto e de direito de uma regência com todos os atributos de realeza. Mas para mostrar que não lhe cabia o título, mas apenas o de «Regente e Governador dos reinos de Portugual e dos Algarves», D. Pedro somente aceitou o tratamento de príncipe, se bem que em documentos venha referido por Sua Alteza. Daí para o futuro tor­ nou-se possível aplicar em Portugal o figurino da monarquia absoluta que, desde 1640, estava mais ou menos implícito nas estruturas do governo.

O casamento do regente D. Pedro

Muito se tem escrito sobre os factos que conduziram à anulação do matrimônio de D. Afonso VI e ao imediato casamento de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia com o cunhado e regente. Como para os res­ tantes aspectos da crise de 1667-1668, o primado do sentimento tem largamente coberto o juízo da história, cabendo à historiografia liberal uma pesada culpa na desvirtuação do real sentido dos acontecimentos. Embora se aceite para a conduta humana, em qualquer tempo, uma subja- cência de princípios éticos, o exame dos comportamentos sociais tem de se encarar por ângulos diferentes, sobretudo quando traduziram complexas razões de Estado.

Como parecem hoje levianos os juízos de escritores de nome feito e que quiseram esclarecer a história com dons apenas literários! Seja o caso do apreciado cronista de Lisboa, ao escrever: «Dotados do mesmo cinismo, da mesma impudência, da mesma depravação de sentimentos e da mais requintada velhacaria, D. Pedro e D. Maria Francisca, auxiliados por astutos e pérfidos conselheiros, souberam conduzir os acontecimentos à medida da sua vontade até ao ponto de contraírem casamento a instâncias dos três estados e, segundo consta, também, do Senado da Câmara de Lisboa.»47 É ainda mais expressivo o protesto de Camilo Castelo Branco, que com­ pôs em belo português uma página típica de como não se faz história48. Ao investigador cabe apreciar duas peças distintas da trama histórica: o processo de anulação do matrimônio de D. Afonso VI e as razões que levaram ao segundo consórcio da rainha. Não o fazendo, arrisca-se a emitir um juízo unânime para factos de diferente significado. Desde os fins de 206 1667 que o juízo eclesiástico deu seguimento ao pedido de D. Maria

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Fran-cisca para o matrimônio ser considerado nulo. Cortesãos, médicos, servi­ dores do Paço e gente vulgar foram ouvidos sobre a conduta do monarca, narrando factos de extrema gravidade para este, incluindo práticas aberrantes que afectavam a dignidade da esposa. O próprio D. Afonso VI reconhecia não ter jamais consumado o matrimônio; e D. Maria Francisca achar-se «no mesmo estado em que viera de França, como se não fora casada». Os juizes não podiam ter outra decisão que declarar a nulidade, como fizeram por acórdão de 24 de Março de 1668 44 45 46 47 48 49.

O processo constitui uma página lamentável da nossa história do século X V II, pois, como escreveu com justa apreciação o padre Domingos Maurício, «o sectarismo político e religioso tem-se valido dela para sem conhe­ cimento objectivo dos factos ou carência de senso crítico, desafogar os seus rancores»50. Mesmo que a tese da não consumação possa suscitar reservas, o processo contém matéria abundante para provar a incapacidade do monarca em assegurar a sucessão do Reino. Daí que o mesmo historiador tenha criticado o grupo de Castelo Melhor por levar a efeito um casamento votado ao fracasso. Nada mais natural que a rainha quisesse defender a honra agra­ vada e que D. Pedro buscasse evitar o regresso da cunhada a França pelo opróbrio que isso representava para o nosso País.

Não resiste à menor crítica a versão posta a correr de os dois cunha­ dos terem amores incestuosos. Antes da anulação ser declarada, já as Cortes de 1668 tinham sentido o grave problema, sugerindo ao infante o casamento com a rainha, «para quietação do Reino e segurança de sua real sucessão»; e idêntico pedido se fez a D. Maria Francisca51. Mas o processo estava em curso, pelo que se impunha aguardar a decisão judicial. Efectuaram-se diligências em Roma para obter a necessária dispensa, no impedimento

44 Vejam-se Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Cortes, códice 62;

Cortes do Reino de Portugal, pub. Joaquim Leitão, Lisboa, 1940. pp. 26-32-45, passim. 45 Decreto de 8 de Junho de 1668, in J. J. Andrade e Silva, Collecção

Chronologica... (1657-1674), pp. 147-149.

46 Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Legislação Portugueza, 9 (1657-1682), n.°‘ 19-20-22.

47 Ed. Freire de Oliveira, Elementos para a História do Município de Lisboa, vol. V II, p. 38.

48 Vida d'El-Rei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684, Porto-Braga, 1875, pp. VI-VIII.

49 Correm diferentes versões do processo, sendo a mais recente de Antônio Baião,

Causa de nulidade de matrimônio entre a Rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia e o Rei D. Afonso VI, com muitos depoimentos e pareceres inéditos, Coimbra, 1925. 50 «Afonso VI (D .), Rei», in Verbo. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. I, cols. 537-542.

51 Auto das Cortes de 1668, in J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica

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publicae honestatis que pudesse haver entre os nubentes, tendo a bula de autorização chegado a Lisboa a 27 de Março52. Sem qualquer solenidade, que não a permitia o ambiente da corte e do Reino, no mesmo dia fez-se o contrato matrimonial que o príncipe logo anunciou às Cortes: «Meu rece­ bimento o celebrei, e me vou passar alguns dias (que serão os menos que puder) na quinta de Alcântara.»53

Uma forte razão de Estado esteve, pois, na origem da decisão de D. Pedro. Como teria reagido a corte francesa à afronta do regresso de D. Maria Francisca, que não a seria menos para a corte portuguesa? Quais as implicações desse facto na paz havia pouco assinada com a Espanha? Onde estavam os recursos do País para restituir a D. Maria Francisca o dote que já fora consumido na voragem financeira da Restauração? Desde que se reconheçam as carências de D. Afonso VI como rei e como esposo, o problema clareia-se historicamente e sem necessidade de recurso ao con­ dimento sentimental próprio de uma tragédia antiga. O Conselho de Estado agiu com perfeita consciência política, obrando as Cortes de igual maneira, pois não havia outra solução para a crise que, no quadro europeu, amea­ çava comprometer a Restauração. Se não houvesse então um outro colateral disponível para a manutenção do trono, Portugal teria decerto conhecido a triste experiência de ser teatro de uma grande conflagração, como a Espanha o veio a ser 30 anos depois. Tudo isso fundamenta como única solução a escolha do infante D. Pedro para assumir o governo.

Mas a crise fizera lavrar uma inquietação nos espíritos e dela com­ partilhava o próprio regente. No dia 7 de Janeiro do ano seguinte nascia em Lisboa a única filha do casal, a infanta D. Isabel Luísa, sendo o facto celebrado com «luminárias» e com o encerramento do despacho por trê« dias54. Para que não houvesse dúvidas quanto à legitimação da infanta e de outros filhos, D. Pedro quis obter uma sentença da autoridade eclesiás­ tica a confirmar que o matrimônio dos pais se efectuara com plena obser­ vância da dispensa papal que tornava nulos os efeitos que incidiam sobre o anterior consórcio55. E só depois, a 2 de Março, se efectuou o baptizado da jovem infanta, nascida precisamente nove meses e uma semana depois da união dos progenitores M.

Prisão e morte de D. Afonso V I

Logo que desistiu do governo, D. Afonso Vl viu-se compelido a per­ manecer no Paço, recolhido nos seus aposentos. Estava praticamente recluso, o que o levou a atitudes de fúria para com os guardas que, às horas de comida, entravam na câmara. Se lhe fosse concedido sair, havia justamente a recear motins de que o rei fosse declarado ou encoberto mentor, o que era de molde a perturbar a acção do governo. Tal situação durou um ano 208

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Anaximandro descrevendo a Terra, desenho de Marçal de Faria em

Mnemosynon Famae

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e meio, obrigando D. Pedro a propor ao irmão a mudança para Vila Viçosa, o que este pareceu aceitar. Em determinado momento optou-se por Almei- rim, terra de boas coutadas, embora demasiado próxima de Lisboa. Mas considerando o isolamento de Angra, onde o Castelo de S. João Baptista tinha condições para aposento de uma pequena corte, o regente decidiu-se a instalar o rei na ilha Terceira57.

Para governador da casa de D. Afonso VI foi escolhido Francisco de Brito Freire, do Conselho de Guerra e almirante da Armada Real, que jurou proteger e vigiar a pessoa do monarca, não admitindo que ele tivesse «trato nem comunicaçam de nenhum Princepe estrangeiro», em tudo cum­ prindo as ordens da corte58. Homem conceituado nas armas e que se cobrira de louros na reconquista de Pernambuco, era um antigo partidário de Cas­ telo Melhor e que assim mantinha a lealdade para com o monarca deposto. Mas na véspera da partida, Brito Freire foi refugiar-se no convento dos padres da Cotovia, com o intento de vestir a roupeta da Companhia; e como tal não lhe foi autorizado, acabou por ser preso por ordem de D. Pedro.

Para o substituir como provedor da casa de D. Afonso VI, foi então escolhido Manuel Nunes Leitão, também homem de armas. Acompanharam o rei os seguintes oficiais e servidores: Luís de Sá, Fernão Barbosa Bezerra, Estêvão Augusto de Castilho, Diogo Soares Pereira, dois capelães e um moço da capela, três homens de guarda-roupa, o médico Antônio Alves e o cirurgião João do Prado, sete moços de câmara, seis reposteiros, seis oficiais e ajudantes de cozinha, dois moços de prata e dois varredores, um trombeta, quatro estribeiros, dois cocheiros, um liteireiro, um azemel, um ferrador e seis moços artesãos 59. Tal a comitiva que se instalou no monte Brasil, a adoçar o exílio do infeliz monarca em terra angrense.

O capelão de S. João Baptista deixou minucioso relato da existência que D. Afonso VI, ao longo de cinco anos, cumpriu na capital da Terceira. A doença fizera-o ainda mais caprichoso no ambiente insular,

52 Id., ibid. (1657-1674), p. 143.

53 Tratado de casamento do príncipe D. Pedro com a princesa D. Maria Fran- cisca, id., ibid., pp. 143-145. Informação de D. Pedro, de 31 de Março de 1668, id., ibid., pp. 145-146.

54 Id., ibid., p. 168. 55 Id., ibid., pp. 168-169. 56 Id., ibid., p. 170.

57 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. I., pp. 129-135.

58 Biblioteca Pública de Évora, códice CV/1-7, fóls. 151-152 v.°: «Preito e Omenagem que Francisco de Brito Freire fez a pessoa delRey D. Afonso VI quando se lhe entregou para o levar à Ilha Terceira. Lisboa, 24 de Maio de 1669.»

59 Biblioteca da Marquesa de Cadaval, Muge, códice (M.V.10), fóls. 12v.°-15: «Memória das pessoas que foram para a Ilha Terceira por ordem de S. A. seruir a

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vivendo numa turbulência constante, e com a sua violência física, nem sequer poupando os criados. De tempos a tempos recobrava a lucidez e o seu com­ portamento era diferente. Mas logo voltava a agitação mental, proferindo os maiores impropérios e agredindo os seus próximos. Foram bem cumpridas as ordens para o monarca não deixar jamais o castelo e não se aproximar da gente da ilha, a fim de evitar escândalos que seriam em desabono da realeza60.

Mas nos fins de 1673 descobriu-se em Lisboa uma conspiração desti­ nada a obter o regresso do monarca. Inspirou-a o conde de Humanes, embaixador de Espanha. Com a conivência de alguns nobres portugueses tinha por fim a morte da família real e o casamento de D. Afonso VI com a rainha-viúva do reino vizinho. Um Francisco de Mendonça iria a Angra matar o provedor Nunes Leitão e buscar o rei, enquanto outros, em Lisboa, tratariam de levantar a população. Do grupo faziam parte vários «tredores» que sofreram a pena máxima no Rossio: D. Gaspar Maldonado, escrivão da chancelaria, e seu filho João, João Melo da Silva e José Peçanha, da Lourinhã, o advogado Diogo de Lemos e um castelhano, todos enfor­ cados. Escaparam Jerónimo de Mendonça, por ter fugido, e Antônio de Cavide, antigo secretário da Casa de Bragança. O rei foi mandado vir de Angra, chegando a Lisboa a 14 de Setembro de 1674 e sendo logo conduzido para o Palácio de Sintra61.

Durante nove anos foi este o último local da sua abalada existência. Fechado nos seus aposentos, não lhe faltaram jamais os cuidados médicos, mas tendo junto dele servidores da inteira confiança do duque de Cadaval, que lhe vigiavam os contactos e a correspondência. O seu isolamento tra- duziu-se em marchas infindas dentro do quarto, ao ponto de gastar o pavi­ mento. A saúde ia-se tornando com os anos mais precária, com ataques disentéricos que se traduziam em síncopes. A correspondência de João Barros de Sousa com o duque de Cadaval permite referir alguns passos da sua doença. No início de Fevereiro de 1683 foi sangrado e tomou três purgas62. Em 30 de Maio sobrevieram «hüs agastamentos», com dores no quadril direito e nas costas, não passando bem a noite e tendo de manhã um grande vomito. Estava próximo o fim, pois na manhã de 12 de Setem­ bro teve um acidente apoplético e ficou sem fala: «em meu entender fica morto», acrescentando Barros de Sousa: «não he ja necessário nada para a vida se não aviso e ordem do que se ade fazer nesta disgraça» 63. Mas o pobre monarca deixara de viver em 1667, quando renunciou ao trono64.

As Cortes de Lisboa de 1674

Tinha 4 anos a infanta D. Isabel Luísa e o regente não conseguira ainda um filho varão, pelo que decidiu marcar Cortes para jurarem a filha como 210 herdeira presuntiva do trono. A reunião teve início em 20 de Janeiro,

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no' Paço da Ribeira, mas foi afectada por questões de cerimonial, pois D. Antônio de Mendonça, arcebispo de Lisboa, não aceitou a precedência do arcebispo primaz D. Lourenço de Lencastre, e ausentou-se das Cortes. O mesmo sucedeu com D. Diogo de Sousa, arcebispo de Évora, que não pôde sentar-se no primeiro banco do clero, como o exigia a correspon­ dência devida aos procuradores do terceiro estado. Por outros motivos faltaram os bispos de Miranda e do Algarve, o que mostra ter havido alterações no protocolo que causaram agravo a certos dignitários45.

No início das cortes usaram da palavra D. Luís de Sousa, bispo de Lamego, e o doutor José Pinheiro, conselheiro da Fazenda e um dos procuradores de Lisboa. A aprovar o juramento fez o primeiro uma fala cheia de alusões clássicas, mostrando a identidade que unia a coroa e os vassalos, condição básica para «perpetuar a liberdade portuguesa». O segundo orador traçou um quadro de filosofia política, com o exemplo da história nacional em que jamais, como naquele momento, se realizara uma tão perfeita osmose das classes sociais: «Unidos em hum so corpo os corações dos tres Estados deste Reyno, conformes em hüa so vontade os affectos de toda esta Monarchia. » 60 61 62 63 64 65 66

Estando ainda vivo D. Afonso VI, impunha-se criar doutrina jurídica para fundamento da homenagem prestada a D. Isabel67. A incerteza política

60 Veja-se o relato do padre Manuel Luís Maldonado, «El-Rei D. Afonso VI no castelo de Angra», in Revista Michalense, vol. I, Ponta Delgada, 1918, pp. 187 e segs. Citado também por Fortunato de Almeida, História de Portugal, t. IV, Coimbra, 1926, pp. 240-241.

61 «Volta El-Rei D. Afonso 6.° da Ilha Terceira e vai para o palácio de Gntra em 1674», in O Panorama, vol. V, Lisboa, 1841, pp. 228-230. Carta do príncipe D. Pedro à Câmara de Lisboa de 7 de Outubro de 1673, pub. Ed. Freire de Oliveira,

Elementos para a História do Município de Lisboa, t. V II, Lisboa, 1894, pp. 465-467. Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Manuscritos Vermelhos, 504, fól. 8 v.°

62 Biblioteca da Marquesa de Cadaval, Muge, códice 1064 (K.VII.18), fóls. 10-18: «H a cura de S. Mag. se vai continuando, oje sangrado só de menhã, de tarde se lhe não aplicou o remedio que os que lhe fazem he so pera purgar, não obriga a nezizidades maes que o atalhar o que pode suceder.»

63 Id., id., fóls. 20-26, passim. J. T. Montalvão Machado, na sua valiosa inves­ tigação sobre Causas de Morte dos Reis Portugueses, Lisboa, 1974, pp. 156-161, defende que a morte de D. Afonso VI foi devida a tuberculose pulmonar, doença que atingiu outros filhos de D. João IV e D. Luísa de Gusmão.

64 A Anti-Catastropbe. Historia d’El-Rei D. Affonso 6 .* de Portugal, pub. Camilo Aureliano da Silva e Sousa, Porto, 1845, pp. 687 e segs.

65 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. IV, pp. 112-113.

66 Biblioteca Pública de Évora, códice CIX/1-13, n.° 8: «Do juramento, preito e menagem que os três Estados destes Reynos fízerão... 1674», fóls. 68-83.

67 Lei de 23 de Novembro de 1674. J. J. Andrade e Silva, Collecção Chronologica

de Legislação Portugueza (1657-1674), pp. 377-379. Id., Biblioteca da Academia das

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lançava a monarquia «no perigo de huma total ruina». Nesse sentido, o estado da nobreza propôs que se fizesse a coroação de D. Pedro, o que este recusou alegando a existência do seu irmão. Além de uma lei sobre o governo do Reino, o infante pediu ajuda material para as despesas da corte e para o sustento das guarnições das fronteiras, o que só em parte foi atendido68. Requereu-se também ao regente para não proteger mais os cristãos-novos, em especial para não dar andamento aos contratos deles com a coroa, por se lhes opor o estado eclesiástico. Coincidente era a posição do Santo Ofício, mas não a de muitos procuradores dos conselhos. Endu­ recera no Reino o ambiente religioso, o que deu motivo a que as Cortes decorressem de forma exaltada, levando o monarca, por decreto de 16 de Junho, a pôr-lhes termo69.

Terminou a assembléia, como pretendem fontes coevas, num estado de quase geral sublevação? Não é de crer, porque seria empanar a autoridade do regente. O que pode afirmar-se é que a Câmara de Lisboa viveu horas aflitas para prover no abastecimento de «pão» à cidade, pois nas vilas do Ribatejo, no Porto e em Setúbal, tinha-se proibido o envio de trigo, cevada e milho para a capital, por faltarem os cereais naquelas comarcas70; por isso havia receio de a corte cair «em hum apertado sitio, perecendo à fome por falta de trigo que he o mantimento comum de todas as creaturas». Chegou a pensar-se em mandar vir cereais de Castela, o que apenas se tor­ nava possível se o regente permitisse o levantamento das taxas de alfân­ dega 71. Grave problema era alimentar umas centenas de bocas a mais, o que certamente pesou na decisão régia para suspender as Cortes.

militar do Reino

No ano de 1674 foi preocupação de D. Pedro melhorar as defesas do Reino. Daí resultou o pedido de contribuição dos três estados para sustento das guarnições da fronteira, seu apetrecho em homens, cavalos e material de guerra, além de obras julgadas indispensáveis para os vários castelos e fortes marítimos. Foi assim que o regente pediu as seguintes verbas com destino a:

Província do Alentejo ... 174 984$840 Província da Beira ... 81 354J396 Província de Trás-os-Montes ... 55 354$396 Província do Minho ... 95 554$440 Reino do Algarve ... 27 125J796 Praça de Setúbal ... 14 182J800 Peniche e Berlengas ... 5 556$000 Praça de Cascais ... 21 834$024 72

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As Cortes não atenderam a totalidade do pedido, por considerarem que não eram precisas guarnições de cavalaria em Entre Douro e Minho e no Algarve, onde as mesmas podiam comprometer a observância do tratado, pelo que bastava colocar mais gente de infantaria na raia. O grande receio da coroa estava, porém, na defesa do litoral desde o cabo de São Vicente às Berlengas, onde se fazia sentir a acção dos corsários mouros contra a navegação portuguesa. Foram em grande número os barcos capturados e as pessoas levadas cativas para Argel. Os navios da índia e do Brasil eram o principal objectivo de cobiça, indo os corsários ao ponto de ameaçar os lugares da costa e de infligir grave prejuízo aos pescadores. Era também notório o prejuízo das alfândegas pelo risco imposto aos navios de comércio68 69 70 71 72 73, já não referindo as perdas que advinham para os homens de negócio.

A coroa viu-se na obrigação de armar uma frota de 11 barcos para vigilância da costa durante o Verão. Mas não dispondo o tesouro de meios, foi a Junta dos Três Estados que entregou 13 contos de réis, con­ tribuindo a Câmara de Lisboa com metade74. A esquadra saiu do Tejo em 31 de Julho de 1675, sob o comando de Pedro Jacques de Magalhães, levando à testa das naus alguns marinheiros adestrados na guerra. Fez volta pelo cabo de São Vicente, fundeou em Lagos, seguiu para o estreito de Gibraltar e, sem dúvida para amedrontar os mouros, passou em frente de Ceuta e pela costa de Argel. Mas não se viram os resultados de tão custosa empresa, não tardando que uma frota moura tomasse dois navios que vinham do Brasil e continuasse a enfestar a nossa costa75.

Estas razões levaram D. Pedro a encarar medidas de conjunto para acabar com a grave ameaça. Os navios de comércio deviam trazer peças de artilharia, marinheiros adestrados na guerra e pedreiros para o fabrico de

68 Veja-se a referência ao assunto infra, parte II, cap. III, p. 347.

69 Esta matéria vem desenvolvida na Dedução Chronologica, 1 * parte, 708 e 716, onde se mostra a «confuzão e desordem» com que as Cortes encerraram.

70 Consulta da Câmara de Lisboa, 4 de Maio de 1674, in Ed. Freire de Oliveira,

Elementos para a H istória..., vol. V III, pp. 24-26.

71 Id., 7 de Maio de 1674, id., ibid., vol. V III, pp. 26-27. Mas D. Pedro não deu andamento às queixas, o que levou o Senado a dizer-lhe que, a continuar a crise, «era preciso repetir segunda vez a S. A.» para tomar as providências que se impunham. Consulta de 6 de Agosto de 1674, id, ibid., pp. 37-38.

72 Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, vol. III, pp. 118-123.

73 Ibid., vol. IV, pp. 16-21-22, passim. No ano de 1689 era grande o número dos cativos em Argel e Mequinez, pelo que D. Pedro mandou proceder a um resgate geral. Carta régia de 18 de Janeiro de 1689, in Ed. Freire de Oliveira, Elementos para a

História do Município de Lisboa, t. IX, pp. 91-92.

74 Decreto de 11 de Maio de 1675, id., ibid., t. V III, pp. 108-109.

75 O trajecto da frota vem largamente referido em Monstruosidades do Tempo

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Quadro militar do Reino em 1680

munições, assim como velas e demais material sobressalente. No caso dos navios da frota do Brasil, teriam de navegar em conserva no regresso a Lisboa, para melhor defesa dos inimigos; e no caso de se dirigirem ao Porto ou a Viana, seriam também fiscalizados antes da viagem, para que «constem partir com tudo aquilo que são obrigados a trazer» 16. Um regimento da

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