ADRIANO CLAYTON DA SILVA
REPENSANDO A IMAGEM:
O VISUAL E O VERBAL EM TRADUÇÃO
CAMPINAS
2019
ADRIANO CLAYTON DA SILVA
REPENSANDO A IMAGEM:
O VISUAL E O VERBAL EM TRADUÇÃO
Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Estudos
da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas
para obtenção do título de Doutor em Linguística
Aplicada, na Área de Linguagem e Sociedade.
Orientadora: Profa. Dra. Maria Viviane do Amaral Veras
Este exemplar corresponde à versão final da tese defendida pelo aluno Adriano Clayton da Silva e orienta- da pela Profa. Dra. Maria Viviane do Amaral Veras.
CAMPINAS
2019
BANCA EXAMINADORA:
Maria Viviane do Amaral Veras
Érica Luciene Alves de Lima
Lauro Maia Amorim
Lenita Maria Rimoli Esteves
Vanessa Chiconeli Liporaci de Castro
IEL/UNICAMP 2019
Ata da defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria de Pós-Graduação do IEL.
AGRADECIMENTOS
Foi somente graças ao apoio e ao trabalho de diversas outras pessoas que eu pude chegar até o momento em que escrevo estas páginas de agradecimento. Antes mesmo de eu entrar no programa de doutorado da Unicamp, muitas dessas pessoas já estavam presentes, me auxiliando nas tomadas de decisão e na construção do conhecimento que agora apresento. Outras vieram ao longo dos quatro anos de trabalho acadêmico, mas foram igualmente importantes. O mínimo que posso fazer é demostrar minha gratidão.
Agradeço primeiramente e especialmente à Professora Viviane, amiga e orientadora
arretada, com quem aprendi não apenas sobre tradução, mas também sobre a importância do trabalho da academia na transformação da sociedade. Sempre me lembrarei de nossas conversas comendo tapioca e tomando açaí.
Agradeço à minha esposa Vania e à minha filhota Heloísa, pelo apoio e amor incondicionais, e pela paciência e compreensão sempre que eu precisei me dedicar mais aos livros do que a elas. Obrigado por sempre me fazerem buscar o melhor em mim.
Agradeço à Instituição CNPq, pelo subsídio financeiro, sem o qual os quatro anos de dedicação acadêmica seriam inviáveis.
Agradeço à professora Érica Luciene Alves de Lima, ao professor Lauro Maia Amorim, à professora Lenita Maria Rimoli Esteves e à professora Vanessa Chiconeli Liporaci de Castro, por fazerem parte de minha banca de defesa e pelas sugestões e críticas valiosas em minha tese.
Agradeço à professora Cynthia Agra de Brito Neves, a Thaís Ribeiro Bueno, e novamente às professoras Érica Lima e Lenita Esteves, pelas críticas e sugestões igualmente valiosas nas bancas de qualificação de projeto e de tese.
Agradeço aos funcionários e demais professores do IEL, pelo apoio e aprendizado, dentro e fora das salas de aula. Especial agradecimento à equipe da secretaria de Pós-Graduação do IEL, pela constante disponibilidade e gentileza. E à professora Inês Signorini, pelo trabalho com o ProFIS e com a escrita acadêmica.
Agradeço à quadrinista Susan Camilleri Konar, pela apreciação de minha tentativa de tradução de seu trabalho.
Agradeço, por fim, às amigas e amigos que me acompanharam nesta jornada, pelas conversas acadêmicas e banais e pela companhia para um café ou bandejão. Um
agradecimento especial a Rita Elena, pelo carinho e pelas longas conversas. E a Denise, pelo incentivo e pelas risadas.
RESUMO
Atualmente é muito fácil perceber o valor que um desenho, um gráfico, um emoji ou um meme têm na comunicação humana. Graças ao uso e reuso constante desses signos, nos habituamos a lê-los como quem lê uma carta. Mas a carta também tem seus elementos imagéticos, as posições estratégicas de palavras, datas, assinatura, etc. E tanto as imagens quanto as cartas têm suas formas de leitura determinadas não apenas por questões socioculturais, mas também pelo próprio suporte em que estão apresentadas, bem como pelos sistemas semióticos que utilizam em cada sociedade para fazerem sentido. Este trabalho busca refletir sobre algumas teorias contemporâneas de tradução, relacionando-as com as imagens em especial, mas observando também os elementos verbais e suas características imagéticas subjacentes. As imagens aqui pesquisadas são essencialmente as estáticas, que dependem de uma superfície plana para serem transmitidas, como uma folha de papel ou uma tela de computador. Também este trabalho busca rever o status dessas imagens na comunicação humana e nas traduções, mostrando que elas já vêm sendo usadas para isso há muito tempo, mas somente nas últimas décadas tivemos consciência plena desse fenômeno. Pensar uma teoria de língua subjacente às imagens também é necessário de forma a mostrar que, assim como as línguas verbais faladas ou escritas, as línguas visuais também variam de uma cultura/sociedade para outra, e é isso que torna as imagens passíveis de tradução. Mas as imagens podem também ser traduzidas em palavras e entre si, dependendo unicamente do sistema semiótico a que estão ligadas no momento da escolha do tradutor. Ao longo da tese são apresentados muitos exemplos de como palavras e imagens interagem e se traduzem, com algum destaque para as histórias em quadrinhos na parte final, haja vista a facilidade em se enxergar suas línguas visuais subjacentes. O que se busca demonstrar ao final é que a ideia de tradução deve ser também repensada, englobando outros fenômenos semióticos além das palavras.
Palavras-chave: Tradução intersemiótica; multimodalidade; imagens; história em
ABSTRACT
It is currently very easy to understand the value that a drawing, a graphic, an emoji or a meme has in human communication. Thanks to the constant use and reuse of these signs, we get used to reading them as if reading a letter. But the letter also has its imagery elements, the strategic positions of words, dates, signature ... And both images and letters have their forms of reading determined not only by socio-cultural issues, but also by the very medium in which they are presented, as well as by the semiotic systems they use in each society to make sense. This work seeks to reflect on some contemporary theories of translation, relating them to the images in particular, but also observing the verbal elements and their underlying imagery. The images searched here are essentially static, which depend on a flat surface to be transmitted, such as a sheet of paper or a computer screen. This work also seeks to review the status of these images in human communication and in translation, showing that they have been used in it for a long time, but only in the last decades we have been fully aware of this phenomenon. Thinking about a language theory underlying images is also necessary, to show that, just like spoken or written verbal languages, visual languages also vary from one culture / society to another, and that is what makes the images translatable. But the images also can be translated into words and between them, depending solely on the semiotic system to which they are linked at the moment of translator’s choice. Throughout the thesis several examples about how words and images interact and translate are presented, with some emphasis on the comics in the final part, given the ease of seeing their underlying visual languages. What is sought to demonstrate in the end is that the idea of translation must also be rethought, encompassing other semiotic phenomena beyond words.
Lista de figuras:
Figura 1: Encontre as semelhanças... 26
Figura 2: Haroldo de Campos viu além da narrativa... 33
Figura 3: Mondrian viu além do corpo humano. ... ... 34
Figura 4: Nem as crianças fogem da tradução. ... ... 35
Figura 5: Páginas de explicações traduzidas numa imagem. ... 36
Figura 6: E com vocês o templo. ... ... ... 41
Figura 7: Ainda bem que não choveu... ... ... ... 43
Figura 8: Nem as crianças fogem das gêneros textuais. ... 45
Figura 9: Não importa a língua, sabemos que isto é um cartão postal. ... 47
Figura 10: Aprendemos a fazer compras usando ícones. ... 48
Figura 11: Já podemos parar. ... ... ... 49
Figura 12: Tradução de brócolis por pimentão. ... ... 56
Figura 13: É quase como fazer parte da trama. ... ... 57
Figura 14: Alice no país das traduções e adaptações. ... ... 61
Figura 15: O não santo idolatrado. ... ... ... 66
Figura 16: Adão, Eva a serpente e participação especial de Deus. ... 69
Figura 17: A Igreja católica e seus pecados. ... ... 70
Figura 18: A América segundo os primeiros livreiros. ... ... 72
Figura 19: Xilogravuras coloridas adornam os relatos de viagens no séc. XVI... 74
Figura 20: Max e Moritz, ou Juca e Chico. ... ... 75
Figura 21: Símbolos astrológicos. ... ... ... 76
Figura 22: O telégrafo visual francês. ... ... ... 79
Figura 23: Ceci n’est pas une signe saussurien. ... ... 80
Figura 24: Onde está o tradutor? ... ... ... 82
Figura 25: Não passarão! ... ... ... 90
Figura 26: ... mas passaram. ... ... ... ... 91
Figura 27: Dom Quixote é um meme? ... ... ... 92
Figura 28: Um meme bem traduzido... mas o que foi traduzido? ... 94
Figura 29: Ele determina como você pensa. ... ... 96
Figura 30: Ciência traduzida em imagens. ... ... 108
Figura 31: Aprender com quadrinhos: pesadelo dos pais? ... 109
Figura 32: O banho turco... ... ... ... 111
Figura 33: A banhista de Valpinçon. ... ... ... 111
Figura 34: Índios e europeus iguais (só no corpo). ... ... 112
Figura 35: O quipu de Collata. ... ... ... 121
Figura 36: Carroça e cavalos para quem? ... ... 123
Figura 37: Somos nós que vemos um sujeito aí. ... ... 123
Figura 38: Signos também evoluem. ... ... ... 124
Figura 39: E pur si muove! ... 126
Figura 41: ... e coesão. ... ... ... ... 127
Figura 42: Linhas de movimento nos mangás. ... ... 131
Figura 43: Uma nova e personalizada escrita. ... ... 135
Figura 44: Emojis certos, caras erradas. ... ... ... 137
Figura 45: O tamanho afeta a tradução mais do que as palavras. ... 141
Figura 46: A antítese também pode aparecer nos quadrinhos. ... 143
Figura 47: Letreiramento que deu certo. ... ... ... 153
Figuras 48 e 49: O cochicho que não foi traduzido. ... ... 154
Figura 50: Muitos negritos e italicos... ... ... ... 156
Figura 51: Com menos negritos e itálicos, a leitura fica mais fluída. ... 158
Figura 52: Charlie Brown e a bola de futebol americano. ... ... 161
Figura 53: A maldade de Lucy. ... ... ... 161
Figura 54: A tradução da bola. ... ... ... 162
Figura 55: O tabuleiro de dardos francês. ... ... ... 163
Figura 56: Tradução da cor. ... ... ... 164
Figura 57: Deus e seu amante. ... ... ... 165
Figura 58: Tradução de um penteado. ... ... ... 166
Figura 59: Coelhos e pintinhos são questões culturais. ... ... 167
Figura 60: Agora a imagem fica mais clara... ... ... 169
Figura 61: Mangás e seus balões verticais. ... ... ... 170
Figura 62: As palavras brasileiras não cabem ali... ... ... 171
Figura 63: Horizontalizando os balões. ... ... ... 173
Figura 64: A grande Vanatólia. ... ... ... 174
Figura 65: Pessoas despreocupadas andam pela cidade. ... ... 175
Figura 66: A antena de telefonia móvel. ... ... 177
Figura 67: Traduzindo uma realidade: o telefone celular. ... 178
Figura 68: Por trás do humor, uma crítica. ... ... 180
Figura 69: Traduzindo objetos. ... ... ... 182
Figura 70: Listras do mal. ... ... 183
Figura 71: Forma e expressão se tornam um. ... ... 185
SUMÁRIO
Introdução ... 14
1. Reflexões sobre teorias relacionadas à tradução de imagens ... 20
1.1. O problema nem é novo – o caso dos gestos e cores na China ... 21
1.2. A tradução intersemiótica de Jakobson e a multimodalidade ... 27
1.3. A folha de papel e sua mancha visual – gênero, contexto e Paratradução. ... 39
1.4. Localização, TAV, intermidialidade e adaptação ... 53
2. Revendo o papel da imagem nas comunicações humanas ... 63
2.1. Presente de grego... e judeu: imagens na História ... 63
2.2. Da Reforma ao século XIX ... 67
2.3. A comunicação de massa ... 78
2.4. Os memes e o excesso de uso das imagens ... 86
3. Aspectos linguísticos, literários e tradutológicos das imagens ... 100
3.1. Palavras escritas e poder ... 100
3.2. Como nasce uma língua? ... 110
3.3. A língua dos quadrinhos ... 122
3.4. Emojis e tradução ... 134
4. Análises de traduções de quadrinhos ... 140
4.1. A adaptação é a verdadeira tradução intersemiótica? ... 143
4.2. Letreiramento ... 151
4.3. Traduzindo imagens ... 158
5. Chegamos às conclusões ... 184
Introdução
Didier Conrad e Jean-Yves Ferri
A paz reinava na aldeia dos irredutíveis gauleses, até que uma notícia pesarosa chegou aos ouvidos de Obelix: seu horóscopo lhe ordenava evitar conflitos e fazer dieta. Ou seja, deveria parar de bater em romanos e parar de comer javalis (essa foi a interpretação dele...). Nada mais deprimente para o gaulês grandalhão. O comentário seguinte do druida Paronamix mostra bem um aspecto das sociedades ocidentais, dos quais os personagens gauleses são sátiras perfeitas: acreditamos nas palavras escritas. Temos profundo apreço por elas, pois fomos condicionados desde pequenos a enxergá-las como o ápice da evolução cognitiva humana. Mesmo quando se trata de horóscopos. Até os mais céticos já sentiram, depois de ver “por acaso” o que os astros lhes diziam numa folha de jornal, aquela vontadezinha de que o que estivesse escrito ali fosse verdade pelo menos daquela vez. Ou mentira, dependendo da previsão.
Mas quem está dialogando são personagens de quadrinhos, são desenhos. Desenhos falando de escritas. Que autoridade tem um desenho para questionar uma única palavra que seja? Ora, os personagens “falam” por palavras escritas. Eles usam o mesmo recurso que nós, gente de carne e osso, para fazer suas observações, o mesmo poder de falar que nós acreditamos ter quando usamos as palavras escritas. E da mesma forma devemos nos lembrar de que as palavras nada mais são que desenhos também, desenhos de cujas formas nos esquecemos, ficando apenas com seus simbolismos. Mas de tempo em tempo somos relembrados desse 'pequeno detalhe', quando vemos os desenhos das palavras na poesia, na tipografia, nos quadrinhos, etc.
Por outro lado, ser desenho não impede que nossos personagens gauleses sejam reconhecidos e sentidos como entidades humanas. É preciso acreditar que eles são humanos para que suas histórias façam sentido, mesmo que às vezes eles apelem para poderes mágicos. Mas nós também apelamos para horóscopos, então estamos quites. Por conseguirem nos fazer acreditar que existem, cumprem, igual às palavras, a tarefa de nos fazer entender o mundo por símbolos. Apenas mudaram os símbolos, de letras para imagens, mas a construção do conhecimento da história será a mesma... Será que será?
Obviamente não lemos as imagens da aventura de Asterix da mesma forma que leríamos um romance feito de palavras. Mas conseguimos igualmente extrair o enredo, os personagens, o tempo, o espaço e um narrador. O que muda então? Muda a forma como construímos esses elementos narrativos. Ao invés de seguir uma lenta trilha de letras, vamos pela história aos saltos, apreendendo pedaços de história a cada vez. O personagem não se faz da combinação sequencial de palavras como homem, guerreiro, baixinho. Ela vem de uma vez, num gole só, aos nossos olhos. Mas isso não diminui a construção da história, e nem do conhecimento.
Mais uma coisa: quem escreveu essa história de horóscopos e dietas nem foram os pais de Asterix. Não foram René Goscinny e Albert Uderzo, mas sim seus pupilos, Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Ora, será que aqui houve uma prática de imitação de estilo ou o aprendizado de uma língua? Conrad e Ferri já trabalhavam com quadrinhos antes de mergulharem no mundo de Asterix. Eles aprenderam não apenas a reconhecer humanos nos desenhos, mas também a reproduzi-los. Aprenderam quais sinais precisam juntar e fazer para que seus personagens-humanos olhem para um lado, andem, abram a boca, etc. Aprenderam uma sintaxe dos desenhos. Assim como se aprende uma sintaxe das línguas escritas. E depois, só depois, aprenderam o estilo dos pais de Asterix. Afinal, escrever e desenhar não são tão diferentes assim, só precisam igualmente de prática.
Bem, já que concordamos que é possível falar com imagens, vamos nos afastar um pouco e olhar o que esse texto nos conta. Como dito antes, trata-se de uma sátira de nossa sociedade, e os criadores de Asterix, sejam eles quem forem, são ótimos com sátiras. Mas não é nossa sociedade. Não a brasileira. A crítica e a história que se constroem ali são para outro público. E, no entanto, conseguimos ver como nossa. Que poção mágica permite a desenhos de outra parte do mundo falarem e serem entendidos aqui? Neste caso não é mágica e nem horóscopo, mas o poder de um grupo de irredutíveis tradutores, que desde muito tempo fazem a ponte entre as línguas, sejam estas escritas ou desenhadas. Ponte não seria uma boa palavra,
já que, assim como os gauleses vivem ao sabor de suas aventuras, os tradutores são levados ao sabor das línguas e culturas em que navegam. Eventualmente acabam colocando um pedaço de uma língua na outra.
Mas estamos falando da tradução de uma história em quadrinhos. Não se pode pensar que basta traduzir o que está dentro do balão e a tradução está posta. O próprio balão tem seus mistérios, não tem aquele formato à toa. Ele foi feito pra conter certinho as palavras francesas. E já que foi feito nesse formato, os outros pedaços da história tiveram de se conformar – em mais de um sentido – ao espaço que sobrou. Pois então, ao traduzir, não cometemos o risco de desfazer esse equilíbrio entre as formas? Certamente que sim. É bem possível que as palavras portuguesas, ocupando espaços que não foram feitos pra elas, vão receber mais ou menos atenção em cada momento, afetando a quantidade de atenção que os outros elementos originalmente recebiam. E eis que o velho adágio, traduttore traditore, ganha um novo sentido. A tarefa não pode ser renunciada, contudo. Os tradutores devem confiar que o equilíbrio entre os diversos elementos, tal qual num móbile, será alcançado.
Mas esse (des)equilíbrio não acontece apenas nos quadrinhos. Outras combinações de palavras e imagens sofrem com a tradução/alteração de apenas um de seus componentes. A folha de papel, nossa velha conhecida, afeta os sentidos das palavras que ela contém, e se traduzimos a folha, se trocamos seu tamanho ou sua textura, trocamos a leitura que teremos das palavras. A forma da folha, sua imagem, afeta nossa percepção.
Assim, minha proposta neste trabalho é refletir sobre como as imagens são traduzidas, quais mecanismos subjazem ao funcionamento das imagens para que possam se traduzidas. Para se chegar a esse objetivo é preciso antes rever o status das imagens na comunicação humana, bem como entender como elas comunicam dentro de uma língua/cultura. Por imagens vou deixar desde já definido que se trata de todas as possibilidades gráficas criadas pelas mãos humanas (ou outras partes do corpo, ou máquinas criadas por seres humanos): palavras, desenhos, gráficos, símbolos, gestos, animações, etc. E como estudo nesta tese, meu foco será sobre as imagens estáticas, que podem ser reproduzidas em superfícies tais como folhas e telas de computador, excluindo assim vídeos, animações e as diversas outras formas de comunicação por imagens dinâmicas. Só reforçando que, nesse sentido, a letra e suas combinações também são possibilidades gráficas. Mas outras formas de imagens poderão evocadas para mostrar que as ideias de língua e de tradução podem ser muito ampliadas.
Para se atingir os objetivos expressos no parágrafo anterior, e a título de metodologia, um levantamento bibliográfico será o primeiro passo, de modo a mostrar como as imagens têm servido à comunicação humana desde sempre, bem como para mostrar como podem comunicar. Seguindo o levantamento bibliográfico, análises qualitativas e interpretativas serão apresentadas para exemplificar o exposto em cada momento. Diversos serão os exemplos ao longo dos capítulos para mostrar como é possível pensar a tradução de imagens sem necessariamente passar pelas palavras: desde quadros transformados em poesia concreta, passando por traduções de cores e gestos, diagramações e layouts de folhas de papel, gêneros discursivos, paratextos, imagens históricas, multimodalidade, memes virtuais, etc., até os quadrinhos, que terão mais atenção na parte final desta tese, tendo em vista a facilidade de se perceber suas línguas visuais subjacentes. Esclarecendo que não necessariamente precisa haver uma língua visual subjacente a uma imagem, mas é somente ao se pensar as imagens como pertencentes a um sistema semiótico capaz de ser comunicado é que elas se tornam traduzíveis, pois recebem um sentido simbólico além das linhas, pontos e traços que as compõem.
O caminho para cumprir meus objetivos vai passar por diversos campos das ciências. Linguística e Linguística Aplicada, Semiótica, Artes e História são algumas delas. A começar pelo entendimento da comunicação por imagens, o pensador das artes plásticas Ernst Gombrich (1999), por exemplo, compara o aprendizado da pintura com o aprendizado de uma língua. No campo da Linguística, Neil Cohn (2013) mostra como os quadrinhos – e por quadrinhos ele quer dizer todos os elementos de um quadro ou vinheta, e não apenas os escritos verbais – comportam-se como língua, Ainda, Vilém Flusser (2007), na Filosofia, fala de como as pessoas conseguem ler as imagens.
A seguir, aliando a pesquisa bibliográfica e as análises qualitativas, vem o trabalho de pensar a tradução dessas imagens para outras línguas/culturas. Inclusive é preciso ter em mente, como nos lembra José Yuste Frías (2013, p. 83), que as imagens não são universais e que dependem inteiramente da experiência de quem as lê: “Resulta ingênuo, pueril e muito contraproducente seguir acreditando que qualquer imagem seja transferível, tal qual se apresenta, de um país a outro, de uma cultura a outra, de um mercado a outro.”1 Mas esse entendimento da não universalidade da imagem é realmente algo muito recente, percebido graças à nossa interação com o também recente mundo imagético e globalizado em
1 “Resulta ingenuo, pueril y muy contraproducente seguir creyendo que cualquier imagen es transferible, tal cual,
de un país a otro, de una cultura a otra, de un mercado a outro." Todas as traduções não referenciadas são de minha autoria.
que estamos mergulhados, cheio de ícones, memes, emojis, quadrinhos e outras imagens que transitam entre livros, computadores e celulares de todo o mundo. É esse mesmo admirável e imagético mundo novo que nos cobra a necessidade de se pensar melhor a tradução das imagens. Para isso, teorias clássicas podem ser revisitadas, como a tradução intersemiótica de Roman Jakobson (2003), mas também possibilidades novas e/ou pouco exploradas podem ser sugeridas, como a Paratradução, desenvolvida pelo grupo de pesquisas Tradução & Paratradução da Universidade de Vigo, encabeçado por Yuste Frias. Mas outras teorias e/ou sugestões também poderão ser apresentadas por mim durante o desenvolvimento deste trabalho.
O capítulo um apresenta reflexões e desenvolvimentos de teorias relacionadas à tradução das imagens. Começando com um exemplo de como a tradução de imagens religiosas, cores e gestos poderia ter feito a diferença no passado. Depois, conceitos como tradução intersemiótica, multimodalidade e gênero discursivo são revisitados, de modo a se demonstrar que a escrita verbal nunca esteve separada de outros modos de transmissão de sentidos não verbais, ela está irremediavelmente atrelada a eles. E isso obriga a reconstruir também a ideia de tradução, já que a tradução de apenas um modo de transmissão de sentidos pode fazer a diferença. Também a poesia concreta e suas traduções são revistas. Outras teorias, como a Paratradução e a Localização são aprofundadas, para mostrar como a tradução de imagens acontece dentro e fora dos ambientes digitais.
No capítulo dois mostro como as imagens já acompanham a comunicação humana desde muito tempo: desde desenhos simples, passando por símbolos matemáticos, o corpo humano e até códigos e fotografias, tudo pode ser usado, e de fato já o é, para transmitir e evocar sentidos de forma tão ou mais eficiente do que apenas as palavras escritas. Contudo, e sempre focando no mundo ocidental, a valorização das imagens somente ocorreu no último século, e isso por questões político-ideológicas, em que se buscavam novas formas de fazer o ser humano enxergar o mundo. O capítulo é uma viagem pelo tempo, desde os antigos gregos até nossa atualidade. No final, apresento algumas reflexões sobre o uso excessivo de memes visuais e como isso afeta a comunicação, a sociedade e o pensamento humano.
O terceiro capítulo busca expandir a ideia de língua. A intenção é mostrar que a língua é algo muito maior do que aquilo que transparece no famoso Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure (2006). Algumas discussões sobre a escrita verbal mostram como esta afetou a valorização das imagens na comunicação. São apresentados exemplos de
línguas que usam suportes gráficos para comunicação, mas sem recorrer à escrita segmental e fonética da maioria das línguas ocidentais, com destaque para as línguas de sinais e a língua escrita inca. A seguir, mostro como as línguas visuais trabalham nos quadrinhos. Esclarecendo desde já que histórias em quadrinhos não são línguas visuais, assim como Dom Casmurro não é a língua portuguesa. Também mostro o funcionamento da língua visual subjacente aos quadrinhos em geral, com foco nos quadrinhos europeus e japoneses. Também os emojis e suas potencialidades comunicativas são exploradas.
No quarto e último capítulo apresento algumas possibilidades de tradução de quadrinhos. Primeiramente é revisitada a ideia de adaptação. Depois, a questão do letreiramento em sua relação com a tradução é apresentado. Por fim, são apresentados sete casos de tradução de quadrinhos feitos por mim, em que busquei fugir à tradicional ideia de tradução de apenas as letras dentro dos balões.
Este trabalho nasceu justamente da minha inquietação ao ver que outros pesquisadores da tradução não viam as imagens como elementos igualmente legíveis e traduzíveis, ou melhor, por perceber que há uma tentativa constante de separar as palavras e letras do restante, quando na verdade não há separação: a leitura só é possível quando se considera o conjunto, e a tradução também deve ser assim. Todo texto, mesmo os considerados exclusivamente verbais – que não trazem figuras, desenhos, etc. – é na verdade imagético em princípio, e essa língua imagética deve ser considerada com cuidado pelo tradutor durante seu trabalho. Em outras palavras, imagens, palavras e outras formas de comunicação gráfica são igualmente legíveis e igualmente traduzíveis. Por igualmente traduzível não quero dizer em absoluto que não tenham características específicas que exigem certo conhecimento e prática do tradutor. Cada forma é um modo e tem características específicas para ser transmitida e recebida.
1. Reflexões sobre teorias relacionadas à tradução de imagens
Neste capítulo apresento algumas reflexões sobre tradução de imagens. A ideia é mostrar que toda a comunicação humana entre línguas e culturas – ou seja, toda tradução, inclusive a verbal escrita – vai muito além das palavras numa folha de papel. O próprio papel é traduzível. Apresento o caso dos frades dominicanos na China do séc. XVI, época em que a ideia de imagens traduzíveis muito teria ajudado em seu trabalho de evangelização e, evidentemente, de colonização, e depois o caso da poesia concreta, com sua intuição da folha de papel enquanto modo de transmissão de sentidos que impulsionou sua realização. Uma revisão da tradução intersemiótica de Jakobson é apresentada e relacionada com a Multimodalidade, além de serem apresentadas a paratradução, a localização, a tradução audiovisual, a adaptação e a intermidialidade, sempre relacionadas às imagens, mas com menos profundidade nesta tese, haja vista a grande quantidade de outros trabalhos sendo desenvolvidos na atualidade.
A tradução de imagens acompanha a humanidade desde sempre. Por imagens, quero dizer toda forma de expressão humana, inclusive a verbal: gestos, desenhos, letras e palavras, fotografias, memes... Mas meu foco maior aqui será sobre as imagens não verbais que podem ser colocadas em superfícies planas, ou seja, desenhos, diagramas, fotografias, cores. Mas letras, gestos e outras formas de expressão também poderão ser evocadas e analisadas, se for o caso. Acredito que as letras, ou melhor, as línguas verbais escritas, já têm recebido bastante atenção nos estudos sobre tradução em geral. Então é preciso rever e repensar as imagens na tradução, bem como, e principalmente, suas capacidades comunicativas nas diversas esferas socioculturais, tanto em textos como isoladamente. Por texto, me refiro a uma ideia bem ampla: uma história em quadrinhos, um cartaz, um romance literário, uma pintura num quadro, todos são textos passíveis de comunicação e evocação de sentidos. E todos os componentes desse texto são passíveis de tradução e merecem a atenção das pessoas que traduzem.
1.1. O problema nem é novo – o caso dos gestos e cores na China
Apresento a seguir um estudo de caso que fiz, em que mostro como a tradução de imagens, mais especificamente de gestos e cores, poderia ter feito a diferença séculos atrás na China, e quiçá em todo o mundo atual.2
Os frades da Ordem dos Pregadores, ou Ordem Dominicana, foram uma importante ferramenta da Igreja Católica no trabalho de evangelização dos povos do Novo Mundo e na China. Fundada no começo do séc. XIII por Domingos de Gusmão, seu objetivo principal sempre foi a evangelização, especialmente das pessoas consideradas mais pobres. F. Ficarra (2005) explica que o trabalho de Domingos surgiu num momento em que as cidades cresciam na Europa e a Igreja já não alcançava os fiéis, devido à sua ostentação material diante do povo simples e de outros grupos que ainda não conheciam a religião cristã. O que Domingos fez foi despir-se dos sinais de ostentação e utilizar linguagens mais simples, o que logo resultou na arregimentação de mais fiéis. Percebendo o potencial desse tipo de trabalho, a Igreja autorizou Domingos a constituir sua Ordem. Três séculos depois, os frades dominicanos já se espalhavam por todo o globo terrestre.
Uma importante característica da vida dos dominicanos é sua dedicação aos estudos, inclusive das línguas e culturas dos povos que conhecem. Antonio Bueno Garcia (2016) aponta que eles estão entre os primeiros europeus a pisarem nas Américas e no leste asiático, e é patente a relação deles com as criações de gramáticas para as línguas de muitos desses povos. Outra característica importante é o uso de simbolismos e rituais próprios, os quais distinguem a Ordem Dominicana de outras ordens católicas.
A gestualidade ao rezar é um desses simbolismos, que advém do próprio fundador: segundo consta dos Cadernos Vocacionais dos Dominicanos (S/D, p. 7), o santo tinha nove maneiras de rezar, cujas posições podiam ser prostrado, sentado, em pé, ajoelhado, andando e até deitado de bruços, com algumas variações, e os dominicanos mantiveram essas formas de rezar até os nossos dias.3 Como veremos mais à frente, algumas dessas posições podem ter sido vistas de forma diferente pelos povos orientais a quem os frades foram evangelizar, e da mesma forma determinaram o modo como os frades viram a gestualidade desses povos. Outro simbolismo especial dos dominicanos são as cores de seus hábitos, que Ficarra (2005) explica serem compostos de túnica e capuz brancos, escapulário com as cores
2 O estudo completo está em Silva (2018).
3 Até hoje é possível ver os dominicanos entrando numa igreja e, diante do crucifixo, deitarem-se de bruços no
branco e preto e capa preta, além de um cinto de couro e um rosário. Essas cores também foram impostas por Domingos desde o início da Ordem. Willian Hinnebusch (2014. p. 153) explica o que as cores do hábito devem representar para os frades: “A benção do escapulário fala especificamente de inocência e humildade. As cores do hábito exemplificam essas virtudes: o branco indica a inocência de Cristo; o preto indica a humildade dele: ‘Carreguem a
minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração...’ (Mt 11, 29)”.4
Voltaremos à gestualidade e às cores daqui a pouco.
Quando os missionários viajaram para fora da Europa a fim de evangelizarem, no começo do séc. XVI, levaram consigo suas cores e gestualidades. Devemos lembrar que outras ordens fizeram o mesmo, como os franciscanos e os jesuítas. Então, é de se esperar que tenham sofrido em alguma medida para entenderem os sistemas de cores e gestos das novas culturas a que tiveram acesso. Mas não sofreram apenas por isso: Bueno Garcia (2016) explica que para os dominicanos a China foi desde o começo um grande desafio, por manter-se fiel às próprias ideias e por não admitir ingerências estrangeiras. A China já tinha civilização e cultura muito desenvolvidas, de modo que seus habitantes não aceitaram com facilidade a nova religião. Por outro lado, as ordens já não aplicavam as conversões forçadas que ocorreram décadas antes nas Américas, pois tais métodos mostraram-se ineficazes.5 Restava aos frades pensar novas estratégias para a evangelização na China, estas baseadas no conhecimento profundo da língua e dos fundamentos teológicos das religiões asiáticas preexistentes, e com isso buscariam formas mais eficientes de inserir a mentalidade cristã nos chineses (Idem).
A ideia de compreender o outro como forma de evangelizá-lo veio dos jesuítas, e é conhecida atualmente como inculturação. Juan Albaladejo-Martinez (2016) explica tratar-se de uma via de mão dupla: por um lado os missionários deveriam tornar as ideias cristãs e o mundo europeu compreensíveis para os nativos de outras partes do mundo. Por outro lado, também os missionários deveriam conseguir entender a forma de vida e a espiritualidade desses povos. Tanto a primeira quanto a segunda situação obrigavam os frades a respeitarem e a se adaptarem a certos aspectos das culturas em que estavam imersos. Percebemos aí um processo de tradução de ideias e valores mediado pelos missionários: eles deveriam ser capazes de encontrar equivalentes culturais e espirituais entre as duas realidades. Somente
4 “The blessing of the scapular speaks specifically of innocence and humility. The colors of the habit exemplify
these virtues: its white signifies Christ's innocence; its black indicates Christ's humility: ‘Learn from me, for I am meek and humble of heart’ (Matt. 11:29)”. Especificamente neste caso, o versículo bíblico mencionado foi transcrito da tradução brasileira da Edição Pastoral da Bíblica Sagrada (ed. 1991).
assim conseguiriam encontrar um consenso com os nativos, e a partir daí poderiam pensar as melhores estratégias de evangelização.
Mas a inculturação não é um procedimento inócuo. No momento em que aceitaram receber a alteridade, seja dos ameríndios ou dos chineses, e mesmo que apenas simulada, já que no fundo queriam apenas destruir essa alteridade em proveito da Igreja, os frades foram afetados. Eles absorveram as ideias estranhas e foram transformados por elas, conscientemente ou não. Cristian Cámara Outes (2016) explica esse fenômeno com precisão ao afirmar que os missionários eram, antes de tudo, homens, imprevisíveis e capazes de transgredir até as leis divinas que tanto veneravam. Tais homens foram forçados a viverem em situações de desapego extremo, não apenas material, mas também de referenciais culturais que os fizessem se lembrar de suas culturas e fé, já que milhares de quilômetros os separavam da Europa. Além de que suas vidas estavam expostas aos perigos e provações desses novos mundos, o que os obrigou desde cedo a renegociarem suas identidades a fim de evitarem conflitos.
Assim também trabalham os tradutores, embora numa escala bem menos violenta. Ao manejar as culturas/línguas de partida e de chegada, a pessoa que traduz se vê entre constantes negociações de valores e sentidos. Sua própria identidade é posta à prova ao ter de aceitar as escolhas que faz a fim de cumprir seu trabalho, mesmo não gostando delas. E o tradutor, assim como o missionário, acaba não conseguindo separar as duas ou mais culturas/línguas a que está exposto. Dentro dele uma terceira língua/cultura/identidade prevalece e transparece no trabalho. Alexis Nouss (2012b, p. 19) fala desse esforço do tradutor: “Confrontado com a estranheza do original, ele deve encontrar um espaço em que não sucumbirá à alteridade, cuidando também para não lhe impor o cabresto de suas idiossincrasias linguísticas e culturais.”
A interiorização das ontologias e epistemologias chinesas rendeu importantes avanços no sentido de suas compreensões e fusões com as ideias europeias. Um dos melhores exemplos disso é o livro Bian Zhengjiao Zhenchuan Shilu (辨正教真傳實錄), do frade Juan Cobo, escrito em chinês no fim do século XVI, em que se busca pela primeira vez um sincretismo das ideias filosóficas, religiosas e científicas europeias e chinesas. José Cervera Jimenez (2016) apresenta o Shilu como uma tentativa explícita de conciliar as cosmogonias chinesa e europeias. Cobo faz diversas comparações e analogias entre a filosofia aristotélica e o confucionismo, e tenta explicar o Deus católico para os chineses, o qual foi nomeado por ele
demonstra o grande problema tradutório com o qual Cobo lidou durante a confecção de sua obra, pois nenhum estudioso chinês conseguiria intuir a ideia de um deus onipresente e imortal a partir de Wuji.6 Descendo para as questões cotidianas, Cobo usou alguns termos chineses já consagrados para traduzir elementos da religião cristã. Por exemplo, ele traduziu igreja (o prédio) por Miao (廟), cuja tradução literal seria templo. Também, continua o autor, ele traduziu sacerdote por Heshang (和尚) ou Seng (僧), que significaria monge. As escolhas dessas traduções podem ter ajudado na evangelização, já que assim os chineses entendiam que os padres, dentro das igrejas, cumpririam as mesmas funções dos monges nos templos. Mas o equívoco terminaria no momento em que a pessoa percebesse que as filosofias, e hierarquias, de padres católicos e monges budistas eram bem diferentes.
Contudo, apesar da grandiosidade da obra de Cobo, ela pouco ajudou de fato na evangelização (e colonização). A começar pelo fato de que o acesso à obra era bem limitado. Em segundo lugar porque pouco depois da conclusão da obra, a Igreja católica modificaria sua política de tolerância e inculturação, por causa dos próprios dominicanos.7 E em terceiro lugar, porque apesar da inculturação, provavelmente faltou aos frades a percepção de que suas cores e gestos, entre outros elementos não verbais, também afetavam suas relações com os chineses no dia a dia.
Os chineses são extremamente zelosos de seus hábitos e costumes. Algumas práticas e ideias, religiosas ou não, atravessam os séculos inalteradas. Uma dessas práticas é o gesto do kowtow, que consiste em ajoelhar-se e bater a testa no chão, de forma bem semelhante ao modo como os muçulmanos fazem suas preces. Muitos chineses ainda o fazem hoje em dia quando querem agradecer ou pedir benção aos antepassados, em muitas das religiões locais, mas o gesto também teve outra função secular. James Hevia (2009) explica que o kowtow foi usado até o séc. XIX na administração do império chinês. Eventuais emissários de outros países que quisessem ter suas questões apreciadas pelo imperador deveriam fazer o kowtow antes. O gesto, porém, não era feito na frente do imperador, mas numa sala reservada, longe da vista das pessoas, e fazia parte dos trâmites burocráticos chineses, uma forma de demonstração de respeito e boa fé do emissário para com a China, representada na figura do imperador. Na verdade, o emissário raramente encontrava o
6 De fato, nenhuma das principais religiões chinesas possui deuses imortais.
7 Em meados do séc. XVII, dominicanos e franciscanos não concordavam com a forma como os jesuítas
aplicavam a inculturação, vestindo os trajes das classes letradas chinesas e até adotando algumas superstições locais como forma de se aproximar do imperador, e foram reclamar ao Papa Bento XIV, que por sua vez determinou que todas as ordens seguissem mais rigidamente os códigos e condutas da Igreja. Das três ordens, porém, a dos jesuítas foi a mais bem sucedida em seus trabalhos de evangelização.
imperador pessoalmente. Além disso, era um gesto pertinente com a linguagem corporal chinesa, muito mais afeita a gestos que realmente envolvem o corpo todo. O kowtow burocrático era um pouco diferente do religioso: a pessoa deveria se ajoelhar três vezes, e a cada vez deveria bater a cabeça no chão três vezes. Mas enquanto para os chineses o gesto não passava de mais uma etapa na grande máquina burocrática do império, máquina esta que efetivamente mantinha o país unido como nação, desde o começo os ocidentais não o viram com bons olhos, encarando-o mais como uma forma de humilhação diante de outra pessoa. Hevia ainda conta que quando finalmente a Europa subjugou a China e submeteu-a ao seu colonialismo, uma das primeiras coisas a serem abolidas foi o kowtow.
Imaginemos agora os dominicanos, encarando o kowtow. Como representantes da Igreja na China, tiveram de se apresentar ao imperador. Mas acostumados que estavam a baterem suas cabeças no chão apenas para Deus, devem ter achado muito complicado fazer o mesmo para uma pessoa de carne e osso. Além da semelhança do gesto com as práticas muçulmanas, já bastante conhecidas da Igreja Católica. É possível imaginar os tipos de sentimentos que passaram pelas cabeças dos frades. Por outro lado, igual estranheza devem ter sentido os chineses ao verem os frades batendo suas cabeças, e com muito mais frequência, para uma entidade que não existia. Quantos chineses desistiram de tentar entender o cristianismo por simplesmente verem os dominicanos se jogando no chão sem qualquer motivo plausível.
Da mesma forma que as práticas corporais, os chineses têm uma longa e complexa relação com as cores. Hui-Chih Yu (2014) e Tien-Hein Lee (2012) explicam que a teoria dos cinco elementos, que tem origem no Taoísmo8 é estudada e aplicada até hoje nos diversos ramos do conhecimento teórico e prático, assim como as cores a eles associadas: vermelho para o fogo, azul/verde para a madeira, branco para o metal, preto para a água e amarelo para terra. Ainda, o preto se relaciona com os gemidos, o frio e o medo; o branco se relaciona com o outono e a velha idade, a melancolia, a fraqueza, mas também simboliza algo de pureza; e o amarelo se relaciona com a terra, a simpatia, a humildade e Buda. Desde que foi instituído como religião, o Budismo adotou o amarelo como sua cor, e essa é a cor que aparece nos hábitos dos monges.9 Por outro lado, Michel Pastoureau (2004) explica que na Europa da Idade Média, o amarelo era a cor dos marginais: judeus e outros grupos minoritários deveriam ter um pedaço de pano amarelo costurado nas roupas, de modo a serem facilmente identificáveis...
8 Cujas raízes datariam de cerca de 1600 a.C.
Comparando agora as ideias diferentes de cores que chineses e dominicanos tinham na época, é bem possível imaginar os preconceitos surgidos nas cabeças de ambos – preconceitos pelo fato de tais ideias estarem num nível não consciente da cognição humana, já que as cores fazem evocar sentidos sem que a pessoas necessariamente percebam isso. De um lado, os dominicanos devem ter estranhado os seus “colegas de profissão” vestindo amarelo: igual ao kowtow, deve ter sido outra provação aos frades se comparar a judeus e marginais. Por outro lado os chineses igualmente devem ter estranhado aquela combinação incomum de cores – preto e branco – nas vestes dos missionários (Fig. 1): certamente deviam ser pessoas melancólicas e covardes.
Como aceitar que a religião cristã era boa se seus monges tinham más qualidades, e ainda veneravam coisas que não existiam? Sem falar na cor vermelha, que até o Renascimento era de uso quase exclusivo dos nobres e do alto clero da Igreja, mas que os chineses usavam como símbolo de alegria em qualquer casamento ou em inaugurações de lojas. Quem sabe quantos tipo de associações, e preconceitos, surgiram de ambos os lados e que foram os responsáveis pela pouca evangelização e por desestimular qualquer tentativa de contato com os dominicanos.
Na atualidade, é fácil deduzir que se deve dar valor ao que gestos e cores transmitem para além de eventuais palavras que os acompanhem, especialmente quando se tratam de culturas diferentes. Quando o assunto é tradução, é imperativo o conhecimento dos simbolismos existentes tanto na língua/cultura de partida quanto na de chegada,
Figura 1: Encontre as semelhanças.
independentemente do caminho que o tradutor escolha para dar o tom de seu trabalho. Nos séculos XVI, porém, talvez tais ideias não fossem tão óbvias, mesmo entre os mais letrados. Faltou aos frades a ideia de traduzir, mesmo que em palavras, os significados de seus gestos e cores de forma mais clara para o povo chinês. Assim como boa parte das pessoas que viveram nesses séculos, os dominicanos podem não ter percebido a força da comunicação não verbal. Consequentemente, não puderam nem suspeitar do porquê de suas tentativas de evangelização não funcionarem. Talvez tenha faltado aos dominicanos a sensibilidade que impulsionou Domingos quando este resolveu despir-se da ostentação católica de sua época. É claro que a situação do fundador da Ordem era bem mais confortável que a de seus sucessores, já que ele conseguia falar a mesma língua de seus potenciais fieis e tinha os mesmos referenciais socioculturais.
1.2. A tradução intersemiótica de Jakobson e a multimodalidade
Sendo a tradução de imagens e outros signos não verbais uma necessidade tão antiga, é hora de rever uma das primeiras teorias (não tão) elaboradas a respeito.10 O termo tradução intersemiótica foi primeiramente apresentado por Roman Jakobson em seu famoso texto “Aspectos linguísticos da Tradução” (2003b). Jakobson foi um linguista importantíssimo, tendo desenvolvido teorias e discussões em vários campos da área. Elmar Holenstein (1975) conta que o pensador russo também dialogava com grandes autores de outras áreas do conhecimento, como o antropólogo Claude Lévi-Strauss e o psicanalista Jacques Lacan, e graças ao seu constante interesse pelo que se desenvolvia em outros campos das ciências ele pôde trazer grandes inovações para muitas das linhas de pesquisa dentro da Linguística de sua época. Suas contribuições vão desde a inauguração e participação no círculo dos formalistas russos no começo do Século XX, que veio a contribuir consideravelmente para a criação de uma teoria própria da linguagem poética e literária, passando pela reformulação das bases da Fonética e da Fonologia, até a apresentação de sua Teoria da Comunicação, juntamente com a ideia das funções da linguagem, no fim da década de 1960.
Uma dessas inovações foi a adoção do signo peirceano no lugar do signo suassureano. Charles Sanders Peirce foi um semiólogo norte-americano, que desenvolveu uma teoria semiótica extremamente abrangente, capaz de ser aplicada aos estudos de qualquer
signo, humano ou não, sendo transmitido ou recebido por qualquer tipo de entidade. A Fenomenologia de Peirce também adotava um signo triádico, diferente do signo dual de Saussure. Para Peirce (2005, p. 45):
228. Um signo, ou representámen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de ideia que eu, por vezes, denominei fundamento do representámen.
Podemos depreender três coisas desta passagem clássica dos textos de Peirce: 1) o signo peirceano é composto de três partes: representamen, objeto e interpretante; 2) o objeto mencionado por Peirce pode ser um objeto do mundo, mas pode ser outro signo interno do pensamento do ser; 3) o signo representa algo para alguém sempre em relação a algum aspecto ou prisma. Jakobson adotou o signo peirceano nas teorias linguísticas que desenvolveu, chegando inclusive a citar Peirce explicitamente em seu texto sobre a tradução (2003b, p. 64), quando fala que “o significado de um signo lingüístico não é mais que sua tradução por um outro signo que lhe pode ser substituído, especialmente um signo "no qual ele se ache desenvolvido de modo mais completo", como insistentemente afirmou Peirce, o mais profundo investigador da essência dos signos.”
Não apenas o signo, mas a ideia de tríade acompanhou Jakobson ao propor a sua famosa classificação dos tipos de tradução:
1) Tradução Intralingual, “ou reformulação (rewording) consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua." (p. 64) Esse tipo de tradução engloba dicionários, reformulações, paráfrases, etc.
2) Tradução Interlingual, “ou tradução propriamente dita consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua.” (p. 65) Nesta categoria está o tipo de tradução mais conhecido pelo senso comum (entre línguas), mas também aí podem ser incluídos os dicionários bilíngues, trilíngues etc.
3) Tradução Intersemiótica (TI), “ou transmutação consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais.” (p.65) Nesta categoria enquadra-se todo tipo de tradução de uma obra (um livro, um filme, um jogo de videogame) para outra forma de textualidade ou plataforma midiática, que pode ser um filme traduzido em livro, um livro traduzido em história em quadrinhos, um videogame traduzido em série de TV, entre diversas outras possibilidades e seus respectivos vice-versas.
Mas o autor russo não chega a desenvolver o que seria essa TI e nem como ela ocorreria. Nem mesmo ele dá algum exemplo concreto.11 Por causa disso, a grande maioria das pessoas que citam Jakobson em seus trabalhos o faz apenas para descarta-lo a seguir e adotar outra teoria ou texto que reflita mais sobre a TI (como a adaptação ou as teorias semióticas). Existem outros trabalhos de Jakobson sobre outras línguas e linguagens, como o cinema em “Decadência do Cinema?” (2007), mas novamente não há uma retomada específica sobre a tradução intersemiótica. O porquê desse “descaso” de Jakobson pode ter relação com o papel que as imagens desempenhavam na comunicação humana até a década de 1960: apesar de haver revistas e jornais com muitas ilustrações, e apesar de já haver uma intenção dessas revistas de fazer o ser humano ler o mundo pelas imagens, ainda pouco se pensava dentro da Linguística sobre suas possibilidades comunicativas. Havia alguns trabalhos nas artes e nas teorias de comunicação, como a Semiótica, mas nem se pensava na ideia, comum atualmente, de que as imagens não tivessem sentidos universais, ou seja, que também dependessem de fatores socioculturais locais para fazerem sentido. Então talvez Jakobson tenha deixado deliberadamente que outros campos e pensadores cuidassem do tema. Mas ninguém cuidou efetivamente, ou pelo menos não encontrei outros estudos desenvolvendo a TI de Jakobson. Buscando mais a fundo, encontrei em outro texto seu, “A linguagem comum dos linguistas e dos antropólogos” (2003a) uma menção à TI quando ele diz que a palavra porco poderia ser substituída por um signo pictórico. Bom, já temos algumas pistas sobre o que seria a TI para Jakobson: ela pode ocorrer entre obras completas (livro em filme) e entre signos isolados (palavra porco em desenho do porco). Vou tentar então desenvolver um pouco mais essas ideias.
Já que o signo peirceano é o que rege as traduções de Jakobson, podemos recorrer à Semiótica de Peirce para tentar explicar a TI. De fato, encontramos trabalhos que já fizeram isso, como os de Júlio Jeha (1996) e de Daniella Aguiar e João Queiroz (2009). E embora efetivamente não se trate da tradução intersemiótica de Jakobson,12 podemos extrair algumas balizas deles.
Jeha (1996, p. 84) considera que a experiência deve ser levada em conta na TI: “um indivíduo experimenta um signo (um texto) que representa, ou se refere a, um fenômeno
11 Existe apenas uma menção à transposição criativa (ele não chama de tradução) da forma poética para a
música, a dança, o cinema ou a pintura, mas sem apresentar algum caso ou exemplo.
12 De fato, o primeiro sequer fala de Jakobson, e o segundo apenas menciona o autor russo para dizer que foi ele
do mundo e isso cria algum sentido (o interpretante) em sua mente.” 13 Mas a representação advinda dessa experiência, o signo criado, é que dá início à longa sequência de outros signos que poderão culminar num texto, numa paráfrase ou num filme. Para esse encadeamento acontecer é preciso lembrar que a TI ocorre em outras dimensões que não a linguística. Isso faz todo o sentido quando consideramos que o pensamento é feito de signos, conforme Peirce mesmo apontou. É graças à capacidade de abstrair um signo, através da percepção de certos aspectos dele, e através da associação com outros signos, que alguém pode imaginar uma cena de filme ao ler certa passagem de um livro.14
Aguiar e Queiroz (2009, p. 205) trazem a ideia de tradução como um processo em camadas: “TI pode ser descrita como um processo multi-hierárquico de relações entre camadas de representações semi-independentes. As camadas estruturadas não atuam independentemente, mas são autônomas em termos funcional e descritivo.” 15 Retomando a ideia de que o signo representa algo para alguém sempre sob certo prisma, podemos inferir que um único signo pode traduzir-se em diversos outros, dependendo do modo, das relações sígnicas, que se utilize para interpretá-lo. Mas não necessariamente a hierarquia de sentidos num texto fonte será reproduzida num texto alvo, conforme os autores continuam explicando (p. 205): “Se a tradução de uma obra literária para uma coreografia de dança resulta em materiais e estruturas totalmente diferentes, como é possível comparar ‘a fonte e o alvo semióticos’?”16
Existe outra forma de se entender essa ideia de camadas de sentidos num texto: a multimodalidade, que estuda a comunicação humana através dos diversos modos ou sistemas semióticos possíveis. Gunther Kress (2009, p. 54) resume a multimodalidade como “um recurso socialmente formado e culturalmente aceito para fazer algum sentido.”17 Outra definição do autor está em Kress & Van Leeuwen (2001, p. 21): “modos são recursos semióticos que permitem a realização simultânea de discursos e tipos de (inter)ações.”18 Ou seja, os estudos multimodais buscam entender quais estratégias são usadas para transmitir e para evocar sentidos num discurso ou texto, sejam estes quais forem. Pensar a comunicação
13 “an individual experience a sign (a text) that stands for, or refers to, a phenomenon in the world and that
creates some sense (the interpretant) in his mind.”.
14 Mas não necessariamente concordar com traduções prontas de livros em filmes, como veremos daqui a pouco. 15 “IT can be described as a multi-hierarchical process of relation between semi-independent layers of
descriptions. The layers of organization do not act independently but they are autonomous in functional and descriptive terms.”
16 “If a translation from a literary work into a dance choreography results in very different materials and
structures, how is it possible to compare ‘semiotics source and target’?”
17 Mode is a socially shaped and culturally given resource, for making meaning.
18 Modes are semiotic resources which allow the simultaneous realisation of discourses and types of (inter)
multimodal obriga a pensar em todas as formas possíveis pelas quais uma pessoa, um texto ou qualquer coisa pode transmitir seus sentidos. Cada uma dessas formas possíveis é um modo de transmissão, e daí o termo multimodalidade. Gestos, cores e até mesmo cheiros podem ser modos, cada um evocando no receptor/leitor um certo conhecimento de mundo adquirido socialmente para que possa conseguir captar o que aquele modo quer dizer. E inclusive um texto pode transmitir sentidos por modos que nem sejam percebidos conscientemente.19
A multimodalidade nasceu também da Semiótica, como contraparte ao crescimento dos estudos de Linguística sistêmico-funcional. Estes últimos buscavam demonstrar como os textos expressavam seus significados dentro dos contextos e utilizando todas as potencialidades da língua. Tais estudos, porém, focavam quase sempre na língua falada e escrita, deixando de lado outras possibilidades comunicativas dentro de uma sociedade. Percebendo isso, outros pensadores passaram a considerar as possibilidades comunicativas dos elementos não verbais.
Sendo os modos dependentes das relações socioculturais, também são um problema para quem traduz. Como vimos algumas páginas atrás, a representatividade de uma cor numa sociedade pode não ser a mesma em outra, e por causa de seu sistema semiótico próprio, seu simbolismo, as cores são um modo possível de transmissão de sentidos. Nossa sociedade ocidental já instituiu a cor preta como representativa do luto. Mas na China e na Índia outra cor cumpre esse papel. A cor mais usada em velórios por lá é a branca. Da mesma forma, os cheiros transmitem sentidos construídos socialmente. Alguns queijos, que para nós exalam cheiros que são qualquer coisa entre estranho e asqueroso, podem ser considerados verdadeiras iguarias na França. É preciso ficar de olho nesses detalhes também ao se traduzir, embora nem sempre a tradução possa acontecer trocando-se um elemento de um modo por outro correspondente em outra cultura, como uma cor por outra.
Para contornar isso, podemos pensar em compensações. Primeiro precisamos retomar outra ideia peirceana relacionada ao signo: Peirce (1966) nos diz que o signo tem potencialidades comunicativas relacionadas ao nível em que opera: num primeiro momento, o signo evoca nada mais do que uma sensação no receptor. Este é o nível de primeiridade do signo. Num segundo momento, o signo entra em conflito com outros signos já existentes no pensamento do ser e evoca indícios de outros signos mais desenvolvidos. Esta é a secundidade. No terceiro momento, o signo é então interpretado pelo receptor e incorporado a seus processos cognitivos e mentais. Esta é a terceiridade do signo. Imaginemos uma pessoa
gesticulando, girando seu dedo indicador em torno da própria têmpora, mas sem tocá-la. Qualquer pessoa perceberia, num primeiro instante, nada mais do que algumas figuras: uma alongada e posicionada na horizontal, mas movimentando-se na vertical, outra arredondada, meio ovalada, e parada (operação de primeiridade). Esse primeiro instante, que não duraria mais que um átimo, seria sobrepujado por um segundo instante, em que as duas figuras seriam reconhecidas como um dedo humano e um rosto humano. Apenas a visão do dedo e do rosto bastariam para se saber que são de um corpo humano (operação de secundidade). Num terceiro momento, porém, a interpretação desse gesto vai depender em grande parte do conhecimento sociocultural do receptor. Se a pessoa for brasileira e conhecer o gesto, saberá que alguém está sendo chamado de maluco (operação de terceiridade).
Ora, o gesto, que pertence a um sistema semiótico e se transmite por um canal visual, foi traduzido numa palavra, pertencente a outro sistema semiótico e que pode ser transmitido oralmente ou novamente traduzido e transmitido numa superfície, através da escrita. Uma forma de perceber ou de sentir uma palavra pode ser traduzida através de outro
modo possível, mas relacionado àquela palavra num outro nível. Além disso, mais de um tipo de tradução pode ocorrer ao mesmo tempo, já que um texto pode ser multimodal e seus signos podem ser interpretados de mais de uma forma simultaneamente.
Para deixar mais claro o que quero dizer, apresento agora um exemplo da poesia concreta em que dois modos concorreram para uma efetiva tradução de pinturas em poesia. Segundo Audrei de Carvalho (2007), o concretismo brasileiro tem suas origens na década de 1940, com Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, que não concordavam com o modernismo de Oswald e Mário de Andrade, além de se inspirarem nas obras dos artistas plásticos concretistas Max Bill, suíço, e Piet Mondrian, holandês, bem como na poesia do literato russo Vladimir Maiakovski e do norte-americano Ezra Pound. A maior marca do concretismo brasileiro foi a valorização da organização visual das letras e palavras na superfície, em detrimento da sintaxe e da narrativa, e o que se buscava era refazer a relação que até então havia entre forma e conteúdo na literatura. Os irmãos Campos e Pignatari organizaram um grupo, o Ruptura, e ao longo das décadas seguintes outros artistas, como pintores e compositores, uniram-se ao movimento concretista. Dentre as atividades do grupo, está a publicação da revista Noigandres, cuja primeira edição é de 1952.
Figura 2: Haroldo de Campos viu além da narrativa.
Fonte: Revista Noigandres 4
Na revista Noigandres 420 está o poema “Branco”, de Haroldo de Campos, que pode ser visto na Fig. 3. O poema joga com os signos-palavras relacionados às cores branca e vermelha: tais signos evocam, em leitores habituados com a língua portuguesa, essas cores, bem como os
sentidos que há nas palavras “estanco” e espelho”. Mas há outro modo de transmissão de sentidos: os espaços em branco. As palavras estão organizadas em linhas e colunas, de modo que os espaços se tornam barreiras entre elas, como caixas de textos, mas sem as linhas demarcatórias. Conseguimos mesmo imaginar as linhas atravessando os grupos de palavras.21 Assim, a relação dos dois modos traz a ideia de uma organização geométrica, com lugares brancos, outros vermelhos, outros repetindo padrões e ainda outros com ausência de cores (estanco) ou repetições.
Mas na verdade o poema de Haroldo de Campos é uma tradução da forma de composição artística de Piet Mondrian.22 Todos os quadros do artista holandês eram feitos pela composição de formas geométricas retangulares, separadas por traços pretos, e cada forma pintada por alguma cor básica ou por preto ou branco. Também os nomes de seus quadros quase sempre eram “Composição com ___, ___ e ___”, com as lacunas sendo preenchidas com os nomes das cores usadas em cada quadro. Procurando na internet, foi fácil encontrar um quadro de Mondrian com o nome Composition with white and red, de 1942, conforme a Figura 3. O quadro pertence ao Saint Louis Art Museum, em Louisiana, Estados Unidos.
Analisando agora o quadro de Mondrian, podemos perceber as zonas de branco e vermelho separadas pelos traços pretos, conforme descrito anteriormente. Mas este quadro especificamente tem uma curiosidade: há duas formas vermelhas adjacentes, separadas por uma linha preta que atravessa o quadro. A linha se sobressai em relação às outras justamente
20 As obras da revista Noigandres 4 podem ser acessadas em <https://www.fondazionebonotto.org/en/
collection/poetry/collective/4111.html. Acesso em 10/03/2019.
21 O efeito é ilusório, advindo da capacidade humana de encontrar padrões que não existem em qualquer lugar ou
objeto – o nome desse fenômeno psicológico é Pareidolia, e é o mesmo que nos faz ver rostos e formas humanoides em nuvens, formas abstratas, objetos, etc.
22 Claus Clüver (2006) confirma a ideia de que alguns dos poemas de Haroldo de Campos na revista Noigandes
Figura 3: Mondrian viu além do corpo humano.
Fonte: https://www.slam.org/collection/ objects/6886/
por sua continuidade. Seria uma forma de parar, de estancar a composição? Ao mesmo tempo, as duas formas vermelhas podem ser o espelho uma da outra apesar dos tamanhos diferentes?
De qualquer forma, Haroldo de Campos traduziu com uma palavra cada uma das formas geométricas de Mondrian, ao mesmo tempo em que traduziu com espaços em brancos as faixas pretas do quadro. Houve a tradução intersemiótica de uma unidade de forma para uma unidade de palavra. E também houve um outro tipo de tradução, que não se encaixa em nenhum dos três tipos propostos por Jakobson: o preto delimitante concreto no quadro numa obra tornou-se o branco delimitante subjetivo no poema. Esta última tradução é um tipo de compensação também, já que foi a forma encontrada por Campos para evocar as linhas pretas.
Revendo então a classificação triádica de Jakobson, podemos pensar numa quarta categoria, a tradução intrassemiótica, já que é possível pensar na tradução de objetos com certa utilidade ou representação numa cultura por objetos com a “mesma” utilidade ou representação em outra cultura, como a tradução de rostos de crianças em caixas de chocolates através de diferentes culturas, a fim de atrair mais os públicos locais, conforme vemos no exemplo na Fig. 4, trazido por Yuste Frías (2011a).23 Foi essa tradução intrassemiótica que ocorreu entre o quadro de Mondrian e o poema de Campos – quando a diagramação, os traços pretos do quadro, se tornou traços imaginários no poema – paralelamente a uma tradução intersemiótica – quando as cores do quadro tornaram-se palavras. Essa tradução intrassemiótica pode ser, então, um quarto tipo dentro da classificação
23 Também existe o caso do desenho animado japonês (animê) Doraemon para a cultura norte-americana: há uma
cena em que os hashis segurados pelos personagens durante uma refeição são substituídos por garfos na versão traduzida. Outra cena substitui as notas de dinheiro japonesas por dólares. Muitas outras domesticações ocorrem, a fim de deixar o anime mais “palatável” para o novo público. Mais detalhes em: http://www.deculture.es/2014/05/13/doraemon-absurda-censura-occidentalizacion-estados-unidos/. Acesso em: 09 jul. 2017.