Apoio Governamental à Segurança Alimentar na
Índia, Brasil e África do Sul: Elementos de Diálogo
Centro Internacional de Políticas para o Crescimento
Inclusivo (IPC-IG)
Darana Souza e Danuta Chmielewska
Brasília Fevereiro 2011
Apresentação Geral do Trabalho
Contexto:
-IBAS: segurança alimentar na Declaração de Brasília,
Fórum Acadêmico em 2010, potencial para a segurança
alimentar vir a ser discutida;
-Estudo comparativo com o objetivo de apontar áreas
relevantes de possível diálogo.
Elaboração:
-Relatórios nacionais a partir de revisão bibliográfica e
entrevistas: Brasil (pessoal interno), Índia (consultor
local), África do Sul (consultor local);
Breve Situação dos Países
21,4 7,3 49,4 5,2 41,6 26,2 0 10 20 30 40 50Ind ia (a) Brazil (b) South Africa (a)
Popul ati on below $ 1.25 a d ay % 1993-94 2004-05 2005 2007 1995 2000 Survey year:
(a) Expe nditured based; (b) Income based.
10 19 9 21 11 20 17 < 5 6 0 5 10 15 20 25 30 35 40
India Brazil South Africa
Preva lence of u nd ernou ris h ment in to tal populatio n ( % ) 1 990-1992 1 995-1997 2 000-2002 2 005-2007 ver y low moderately low moderately high high v ery high
Breve Situação dos Países
A Índia figura entre os 4 países com maior proporção de baixo peso em crianças com menos de 5 anos no mundo (43.5%), enquanto África do Sul e Brasil apresentam valores de 10.1% e 2.2%, respectivamente. 24,1 7,3 7,2 31,7 < 5 7,3 0 10 20 30 40
India Brazil South Africa
Gl obal Hunger Ind ex ( 20 10) 1990 2010 low moderate serious alarming extremely alarming
Conceitos de Segurança Alimentar
• África do Sul e Índia utilizam o conceito desenvolvido a
partir da Cúpula Mundial de Alimentação (1996): "
Asegurança alimentar existe quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico, social e econômico a
alimentos seguros e nutritivos suficientes para atenderem às suas necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável".
•Brasil utiliza o conceito presente na LOSAN (2006): “
Asegurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o
acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”.
Medidas de Segurança Alimentar
• Pluralidade de indicadores e ausência de consenso
nos 3 casos:
- Índia: linha de pobreza nacional, índice Estadual de
fome, situação nutricional;
- Brasil: percepção de segurança alimentar, situação
nutricional, consumo de alimentos etc.);
- África do Sul: percepção de segurança alimentar,
situação nutricional, consumo de alimentos etc.).
Estratégias de Segurança Alimentar
•
Brasil:
- Fome Zero 2003 (4 eixos: acesso a alimentos, agricultura familiar, geração de renda,
articulação) – implementado / sistema de coordenação em consolidação;
- PNSAN 2010 (temas di versos: saúde, educação, desenvolvimento rural, trabalho e
emprego etc.) – a ser implementado com Plano Nacional 2011.
• África do Sul:
- Estratégia Nacional Integrada de Segurança Alimentar (IFSS) 2002 (7 pilares: produção
familiar de alimentos e mercado; renda; nutrição; redes de proteção; sistemas de
informação; capacitação; articulação);
- Dificuldade de implementação: limites de recursos e de capacidade institucio nal,
rivalidades entre instituições.
• Índia:
- Diversos programas (alimentação escolar, vendas de alimentos subsidiados,
atendimento nutricional a crianças e mulheres etc.);
- Ausência de uma estratégia comum formalizada;
- Proposta de Lei Nacional de Segurança Alimentar (NFSA) focada em compras públicas
de alimentos para distribuição (TPDS) – em discussão (grandes controvérsias: design do
programa e visão da segurança alimentar).
Principais Iniciativas em Segurança Alimentar
(orçamento e alcance)
•
Brasil:- Transferência de renda com condicionalidades (Programa Bolsa Família): maior orçamento no Fome Zero, mais de 8 bilhões de dólares em 2010, 12 milhões de famílias;
- Crédito para a agricultura familiar (PRONAF) e alimentação escolar (PNAE).
• África do Sul:
- Transferência de renda (Esquema Nacional de Segurança Social): orçamento 18 vezes maior que todos os outros principais
programas, 12.4 bilhões de dólares para 2010/2011, 14 milhões de pessoas.
-Índia:
- Frentes de trabalho(NREGA): 8.7 bilhões de dólares anuais, 45 milhões de beneficiários;
- distribuição de alimentos por venda subsidiada (TPDS),
Direito à Alimentação
• Reconhecimento:
- Os três países reconhecem oficialmente o direito à alimentação: Brasil (1992) e Índia (1979) ratificaram o ICESCR, África do Sul o assinou (1994);
- Os três países asseguram tal direito em suas constituições: explicitamente (Brasil e África do Sul) ou implicitamente (Índia: direito à vida interpretado pela Suprema Corte).
• Me canismos de exigibilidade:
-Índia: ordem da Suprema Corte (2001) para que os benefícios dos programas de SAN fossem transformados em ´direitos´, com obrigação dos governos em implementá-los; comissários independentes para o monitoramento do direito; Campanha Direito à Alimentação;
-Brasil: corpo legal recentemente desenvolvido (LOSAN, EC, PNSAN) e construção dos mecanismos de exigibilidade (ex. CONSEA, Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Ministério Público, Plataforma Nacional de Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais);
- África do Sul: corpo legal precário, Comissão de Direitos Humanos (SAHRC) monitora o direito mas ausência de instituição atuante na exigência de seu cumprimento.
Intersetorialidade e Participação Social
• Índia:
- Ausência de estrutura permanente intersetorial ou participativa, apesar de sociedade civil organizada; - Grupo de Ministros encarregado de analisar o NFSA;
- Diferentes níveis de governo envolvidos na implementação de programas específicos. • África do Sul:
- Pilares do IFSS organizados em torno de grupos institucionais;
- Estrutura participativa (público-privado-sociedade civil) em todos os níveis. Nível nacional: Fórum Nacional de Segurança Alimentar (NFSF) como corpo consultivo;
- Dificuldades de implementação (NFSF nunca foi constituído): fraca integração entre organizações da sociedade civil, ausência de cultura de participação neste tema, falta de capacidade institucional de instâncias governamentais, pouca articulação no governo e entre os 3 tipos de atores.
• Brasil:
- Constituição do SISAN (estrutura intersetorial e participativa nos 3 níveis de governo formada por câmaras governamentais, conselhos e conferências);
- Funcionamento a nível nacional, existência a nível estadual e construção a nível municipal (600); - Nível nacional: CAISAN (19 ministérios), CONSEA (EC, PAA, PNAE), CNSAN (3 eventos);
- Engajamento do Estado combinado à articulação da sociedade civil, ligação direta com a Presidência da República.
Produção de Alimentos
• Brasil e África do Sul com larga produção nacional
(exportadores), Índia com produção incerta (importador)
• Brasil e África do Sul majoritariamente urbanos (15% e
42% rural), Índia majoritariamente rural (72% rural)
• Contextos fundiários específicos:
-Índia: 99% dos estabelecimentos com até 10ha;
-Brasil: 85% dos estabelecimentos com 18ha em média
/ 15 % com 310ha em média;
-África do Sul: maior parte dos estabelecimentos com
11ha em média / outros com 2.500ha em média.
• 3 países apresentam proporções majoritárias de
pequenos produtores / agricultores familiares segundo
classificações nacionais.
Produção de Alimentos
• Brasil:
- Escolha for apoio à agricultura familiar e categorias relacionadas (FZ e PNSAN);
- Quadro de programas/ações para estes públicos (reforma agrária, ATER, crédito, mercado etc.)
- Destaques: PRONAF (9.5 bilhões de dólares em 2010/2011), PAA e PNAE (cadeias produtivas curtas e reserva de mercado: geração de renda e alimentos variados conforme hábitos locais)
• África do Sul:
- Pilar 1 IFSS (produção familiar de alimentos e mercado);
- Principal iniciativa relacionada: Programa de Apoio à Agricultura (CASP) orientado para pequenos produtores beneficiários da reforma agrária (119 milhões de dólares em 2010/11);
- Foco em crédito e serviços bancários via instituições de micro-finanças (MAFISA): grãos, frango, porcos, avestruz, equipamentos agrícolas (agricultores mais estruturados).
• Índia:
- Destaque para Missão Nacional de Segurança Alimentar: apoio à produção de arroz, trigo e
leguminosas via melhoramento tecnológico e apoio a novas práticas agrícolas (1/3 dos recursos a ser utilizado para mulheres e produtores pequenos/marginais);
- Compras públicas realizadas a nível nacional (FCI), quase 80% oriundos de 3 estados. Esquema de Compras Descentralizadas como alternativa.
Acesso a Alimentos
• O acesso a alimentos é uma questão fundamental para os 3 países: grandes programas são implementados;
• África do Sul e Brasil alocam maiores recursos em
transferência de renda, enquanto a Índia privilegia a distribuição de alimentos e as frentes de trabalho.
•Transferências de renda:
África do Sul: IFSS pilar 4 (redes de proteção). Principal iniciativa: Esquema Nacional de Segurança Social. Principal linha: Transferência de Apoio à Criança (66% dos beneficiários). Foi demonstrado que tais ações contribuem para a melhoria da segurança alimentar das famílias;
Brasil: Bolsa Família (FZ e PNSAN). O programa assegura maior estabilidade no acesso a alimentos, melhoria na
qualidade e variedade destes, aumento do acompanhamento pré-natal e melhora do status nutricional de crianças até 6 anos.
Acesso a Alimentos
•
Distribuição de alimentos:
- Alimentação escolar: 3 países (1 refeição/dia). Índia (MDM) : maior programa do mundo
(110 milhões de crianças escola primária). Brasil (PNAE): inovação com 30% da AF (47
milhões de alunos - educação básica). África do Sul (NSNP) : inovação com 6.000 hortas
escolares (7 milhões de alunos - escola primária e secundária);
- Índia (TPDS): compra pública para venda subsidiada de arroz, trigo, açúcar e querosene
para 160 milhões de famílias abaixo da linha da pobreza em lojas específicas. Grandes
desafios: desvio de produtos, baixa qualidade de grãos, erros de focalização etc.
•Frentes de trabalho:
-Índia (NREGA): direito ao trabalho - 100 dias por ano de trabalho (45 milhões de
famílias/ano);
-África do Sul (EPWP): 100 dias por ano de trabalho (4.5 milhões de oportunidades até
2014).
• Brasil
-Redução: malnutrição (baixo peso em crianças até 5 anos de 4.2% em 1996 a 1.8% em 2006),
percepção de insegurança alimentar (de 35% em 2004 a 30% em 2009), pobreza (menos de 1.25$/dia de 25.6% em 1990 a 4.8% em 2008), desigualdade (índice Gini de 0.594 em 2001 a 0.544 em 2008). ODM 1 atingido;
-Aumento: sobrepeso e obesidade (sobrepeso em crianças até 5 anos de 6.4% em 2003 a 9.7% em 2009);
-Outros desafios: disparidades internas (regionais, rural/urbano, raça e etnia). • África do Sul
- Redução: percepção de fome (de 20% em 2002 a 10% em 2007), pobreza (linha nacional de 38% em 2000 a 22% em 2008);
- Manutenção: desigualdade (índice Gini variável entre 0.665 e 0.688 de 1993 a 2008), malnutrição (baixo peso em crianças até 5 anos estável em 10% por 2 décadas);
-Outros desafios: disparidades internas (regionais, rural/urbano, raça e etnia), HIV (12% infectados). • Índia
- Redução: pobreza (linha nacional de 45% em 1993/94 a 37% em 2004/05);
- Manutenção: malnutrição (baixo peso em crianças até 3 anos por volta de 40%);
- Aumento: desigualdade (índice Gini de 0.303 em 1993/94 a 0.325 em 2004/05), fome crônica (de 17% em 1995-7 a 21% em 2005-07)
- Outros desafios: disparidades internas (regionais, rural/urbano, castas).
• Índia (situação mais alarmante em diferentes questões da segurança alimentar):
- Possibilidade de explorar as experiências do Brasil e África do Sul em estratégias ampla de SAN (IFSS, FZ e PNSAN) e mecanismos intersetoriais e participativos. Destaque para o Brasil: maiores avanços na implementação;
-Oferecer experiência em mecanismos de exigibilidade do direito à alimentação (Suprema Corte, comissários e Campanha Direito à Alimentação);
• Os 3 países precisam consolidar o acesso a alimentos (pobreza na Índia e África do Sul, insegurança alimentar no Brasil e África do Sul):
- Potencial de diálogo entre NREGA e EPWP. Destaque para a experiência Indiana mais vasta e pautada na perspectiva dos direitos;
- Possibilidade de explorar as experiências de transferência de renda do Brasil e África do Sul e seus impactos sobre a SAN;
- Potencial de trocas entre as iniciativas de alimentação escolar. Destaque para o Brasil (30% do PNAE) e África do Sul (hortas escolares) como apoio a variedade de alimentos;
- Potencial de diálogo entre TPDS e PAA/PNAE e m termos de apoio a produtores e alimentos locais.
• Os 3 países enfrentam outros desafios comuns (desigualdade e disparidades internas) cujo enfrentamento pode ser discutido em oportunidades de intercâmbio de conhecimentos.