APMT – LIVRO 71, p 14 – 23 e 45
Mensagem apresentada a Assembléia Legislativa lida na abertura da 3ª sessão ordinária da sua 1ª legislatura, pelo Interventor Federal do Estado de Mato Grosso – Cap. Manoel Ary da Silva Pires.
Cuiabá, 13 de junho de 1937
Instrução Pública
Não compreendo. Senhores Deputados, real e fecunda administração, sem a organização de um aparelhamento cultural, que torne o povo cada vez mais apto as condições atuais da vida, e cada vez mais capaz de produzir a valorização das possibilidades espontâneas que o meio oferece.
Facilitar-lhe e ministrar-lhe os processos de adaptação ao progresso da civilização e da cultura, orientar-lhe o envolver mediante a educação e a instrução, tirando assim de cada indivíduo o máximo de aptidões, constitui uma das mais nobres missões do homem de estado, não somente do educador, que a complexidade social colocou em função daquele.
Assim, tenho dedicado e dedicarei o melhor da minha energia e do meu carinho à causa do ensino em Mato Grosso.
Efetivando, na medida do possível e parcialmente, esse ponto do meu programa fiz instalar as Escolas Reunidas de Bela Vista criadas pela Lei n.º 37, de 26 de setembro de 1936, bem como as de Coxim e Aquidauana, cujas instalações foram marcadas para o dia 13 de maio; e ainda no Coxipó da Ponte, que foram instaladas hoje, em comemoração á gloriosa data da retomada de Corumbá.
A verba despendida pelos cofres estaduais com a instrução primária é, no vigente orçamento, de Rs 2.205:372$000, com a qual se mantém as escolas primárias de várias categorias.
Grande folha me parece haver na administração do município da Capital, pela falta da sua colaboração na grande causa da instrução primária.
A exemplo de municípios vanguardeiros, embora distantes, como Lajeado, que acaba de criar e instalar, a expensas dos cofres municipais, uma escola reunida, além de 6 escolas isoladas, urge que a prefeitura de Cuiabá, concorra com a criação e administração de núcleos escolares, causa que o aumento da população e progresso cuiabano estão a pedir.
Conhecedor que me fiz da grande e crescente população infantil de Cuiabá e do número [p 14] eloqüente de matriculas no curso primário não só na Capital, que também nos demais municípios do Estado, fato significativo que deve polarizar para uma visão do futuro a mente do administrador, vejo que não somente se me impõe cuidar da escola primária diretamente em si, senão ainda dos seus antecedentes sociais e pedagógicos , isto é, do instrumento a que o Estado deverá confiar o preparo dessa infância promissora.
Retiro-me ao ensino secundário normal que, em conseqüência da nova mentalidade e das novas exigências culturais, está a exigir uma reorganização e adaptação ao progresso intelectual do País e do Estado, como estabelece a pedagogia administrativa e a sociologia educacional, nos moldes dos institutos congêneres da Capital Federal e de São Paulo e mesmo de outras unidades progressistas da Federação.
Antes que se proceda a uma reforma do ensino, o que se fará brevemente por parte da Diretoria da Instrução Pública, confiada a competência do professor Francisco Mendes, dei efeito, provisoriamente, ao meu objetivo, estabelecendo várias medidas regulamentares atinentes ao curso complementar e as escolas Normais, mediante o Decreto n.º 16, de 8 de maio de 1937.
Ainda providência que se impõe é a criação de escolas isoladas em algumas zonas garimpeiras onde cresce dia a dia a labuta e a atividade produtiva e por conseguinte a população infantil, carente de alfabetização.
Quanto ao Liceu Cuiabano, tive oportunidade de visitar este estabelecimento de ensino secundário, havendo observado a grande necessidade de melhoramentos materiais que acuse o edifício em que funciona.
Ainda uma providência que me cumpre sugerir-vos a criação de um 2º grupo escolar em Capo Grande, no bairro de Amambai, conforme solicitações que me foram dirigidas pelo Sr. Presidente da Câmara daquele município e pelo Sr. Comandante da 9ª região, solicitações essas motivadas pela verificação do constante crescimento da população infantil naquela prospera zona sulina.
Para vos dar mais minuciosas informações sobre a situação e as necessidades da instrução [p15] no Estado, translado para aqui as palavras autorizadas e oportunas que sobre o assunto me dirigir o Sr. Diretor Geral da Instrução Pública, em seu memorial a mim apresentado.
O ensino é dos serviços públicos o mais importante do Estado.
Sob o ponto de vista da aplicação dos métodos pedagógicos nas escolas os resultados foram sempre animadores e eficientes. Entretanto, e lastimável dize-lo, encontra-se presentemente num estado desolador, asfixiado pelas dificuldades de toda ordem que profundamente comprometem a boa fama do magistério.
A visita que V. Ex. Se dignou fazer aos estabelecimentos de educação na capital e do Estado deve ter-lhe causado impressão pouco satisfatória.
Não me refiro nesta modesta exposição a parte didática, entregue a competência e dedicação de conhecidos e eruditos pedagogos patrícios, que demonstram estranhado zelo e grande capacidade no desempenho da sua árdua e nobilitante missão, mas, ás instalações internas sem exceção, a começar pelo edifício do palácio da Instrução, situada na parte mais central do perímetro urbano, oferecem aos olhos do visitante impressão pouco lisonjeira. Com exceção das Escolas Normais e Modelo Anexa, e do Grupo Escolar Senador Azeredo, que se acham instaladas em prédios apropriados e de condições mais ou menos higiênicas compatíveis com as exigências da pedagogia moderna, mas urge de reparos e de material escolar, todas as demais escolas se encontram instaladas em prédios adaptados mas inadequados os quais, salvo honrosa exclusão, não satisfazem absolutamente os requisitos necessários para o bom desempenho da dignificante missão a que se destinam.
Estas observações verificadas no coração da cidade perto das vistas do Governo, induziram-me a convicção dolorosa pelo contraste e vexatória pela certeza de que de certo tempo a esta parte, os órgãos da administração se descuraram por completo da instrução no Estado, concorrendo diretamente para o aniquilamento do seu nível cuja elevação moral, di-lo eloqüente o [p16] passado histórico deste povo laborioso, esteve sempre na altura ao lado dos outros Estados mais adiantados da Federação.
Diante destas considerações a reforma se patenteia urgente e inadiável.
Fiscalização do Ensino
Constitui matéria de necessidade moral inadiável, na vigência da legislação do ensino atual a reforma com aplicações do aparelho fiscalizador do ensino público.
Espalhadas pelas vastas extensão territorial desta gigantesca porção de terra brasileira, há um total de 227 escolas; 55 urbanas; 20 distritais; 152 rurais.
Para a fiscalização dessas escolas foram criadas pelo Decreto n.º 759, de 22 de abril de 1927, que reorganizou o ensino primário no Estado, duas Inspetorias Regionais do Ensino, órgãos técnicos, remunerados, a que estão entregues toda a responsabilidade moral na
fiscalização e eficiência pedagógica do ensino, mantendo ainda os cargos honoríficos de Inspetores Inspetores Escolares, também encarregados da fiscalização do ensino primário nos municípios, termos e distritos.
Acontece, porém, que a escolha dos Inspetores Escolares, por conveniência dos partidos situacionistas, no interior sempre recaíram na pessoa dos chefes políticos locais, muitos dos quais sem nenhuma competência é, e penosa dize-lo ás vezes analfabetos, verdadeiros figurões decorativos investidos da autoridade escolar e dela servindo-se para satisfação dos instintos de perseguição a serviço da política sem ideal.
Os próprios inspetores regionais salvo talvez, exceção muito honrosa, não têm sido escolhidos entre pessoas de reconhecida capacidade técnica e cultural, de sorte que, não obstante boa vontade patenteada, não revelaram mais do que “esforçados”, o que para o ensino, no mister em preço, não basta e não resolve o caso da verdadeira fiscalização exigida pela moderna pedagogia.
Assim, o favoritismo tem prevalecido, podendo afirma-se sem receio de erro ou exagero,/p.17 que era escolas cuja freqüência e idoneidade só aparecem nos mapas subsidiários dos atestados de exercício, passados pelos inspetores escolares receiosos de prejuízos escolares.
E portanto, uma das faces mais importantes da questão proposta e que merece o mais apurado zelo e estudos cuidadosos para a próxima reforma do ensino primário, que deveria prever, para eficiência da sua fiscalização, a divisão em zonas e sub - zonas da carta geográfica – escolar, estabelecendo métodos cuja eficiência seja concreta, aumentando o número dos auxiliares no controle do ensino, reconstruindo moralmente o aparelho fiscalizador de modo a produzir os efeitos salutares almejados. Concorrendo assim para a formação de nova mentalidade sadia. Capaz de corresponder as esperanças e os anseios da grandeza da pátria futura.
Assistência Escolar
Nula, tem sido, podemos afirmar sem receio e exageros a ação dos poderes sobre a infância das escolas, no tocante a higiene e fiscalização médico – escolar. E esta assistência médica escola, é uma medida que se impõe pela necessidade cada vez mais crescente nos tempos atuais.
Desprotegidas, abandonadas por completa dos sistemas educacionais que o Estado lhes deveria proporcionar, com a criação do serviço de proteção á infância nas escolas, mal alimentadas sem noções dos mais rudimentares preceitos de higiene, a crença das nossas escolas, na sua maioria são pálidas, retardadas no crescimento, sujeitas a contaminação das endemias que anualmente assolam, e que não sabem evitar por ignorância.
Outros fatores de ordem mesologica, concorrem singularmente para esse estado depreciativo. Neste tocante urge a ação conjunta do professor e do médico nas escolas; um corrigindo os caracteres incipientes, alimentando a alma, a moral da infância, o outro avigorando-lhe o cérebro, concorrendo assim para a maior das obras humanas a salvação/p.18 da crença, o saneamento da raça, a elevação da sociedade, a grandeza da pátria.
Urge, pois, a montagem do consultório médico escolar sob a direção do Dr. Diretor da Saúde Pública, iniciando-se dessa forma o serviço de proteção a infância e sanando, dessa maneira umas das mais sensíveis lacunas existentes no ensino primário e secundário do Estado.
Ensino
O superior – Faculdade de Direito em Cuiabá, no seu 4º ano de funcionamento; Escola de Odontologia e Farmácia em Campo Grande, sob inspeção Federal.
O secundário – Liceu Cuiabano equiparado ao Ginásio Pedro 2º; Liceu Salesiano São Gonçalo, sob inspeção preliminar e Escola Normal “Pedro Celestino” nesta Capital; Ginásio “Maria Leite”, equiparado ao Ginásio Pedro 2º; Escola Normal “Joaquim Murtinho”; Estadual e Escola Normal “Dom Bosco” das filhas de Maria Auxiliadora, da congregação Salesiana, sob fiscalização estadual, na cidade de Campo Grande.
O profissional – Escola de Aprendizes Artificies e Colégio “São Gonçalo”, nesta capital, abrangendo os curso de marcenaria, ferraria, alfaiataria, sapataria, selaria, tipografia e encadernação, com regular freqüência e bom aproveitamento, correspondendo as necessidades do meio.
A instrução e ministrada nas seguintes escolas:
Na capital, curso complementar, anexo á escola normal “Pedro Celestino”, grupo escolar modelo “Barão de Melgaço”; grupo escolar “Senador Azeredo”; escolas reunidas “José Magno”; ‘Pedro Gardés”, e “Leowelgido de Melo”; escola noturna “Pedro Gardés”, esta instalada a 1º de maio do ano corrente, destinada a ministrar instrução primária aos operários e filhos de operários; grupo escolar “Leonidas de Matos”, em Santo Antonio do Rio Abaixo; grupo escolar da cidade de Poconé; grupo escolar “Presidente Marques”, de Rosário Oeste; grupo escolar “Luís de Albuquerque”, da cidade de Corumbá; Grupo escolar “Esperidião Marque”, da cidade de/p.19 São Luís Caceres; grupo escolar “Antonio Corrêa”, da cidade de Aquidauana; curso complementar e grupo escolar “Joaquim Murtinho” da cidade de Campo Grande; grupo escolar “Afonso Pena”, da cidade de Três Lagoas, grupo escolar “Mendes Gonçalves”, da cidade de Ponta Porã; escolas reunidas da Vila do Livramento; escolas reunidas de Ladário, Corumbá; escolas reunidas de Santana do Paranaiba; escolas reunidas do bairro de Amambai em Campo Grande; escolas reunidas da cidade de Miranda; escolas reunidas de Guajará-Mirim. Por ato da atual interventoria Federal no Estado, foram criadas e instaladas, na data de 13 de maio do ano corrente as escolas reunidas da cidade de Coxim, da margem esquerda do rio aquidauana, e do coxipó da ponte, esta a ser instalada em comemoração á memorável data mato-grossense, 13 de junho, no corrente ano. Além das cidades, há ainda no Estado 227 escolas públicas estaduais assim discriminadas:
55 urbanas 20 distritais 152 rurais total 227
Compõe-se de 38, o número das escolas municipais, causando estranheza e lastima, anão existência de uma só escola sequer, deste gênero no município da Capital, sendo:
7 urbanas 9 distritais 22 rurais total 38
Ascende ao número de 97, as escolas particulares de instrução primária e secundária em todo o Estado:
64 urbanas 6 distritais 27 rurais total 97/p.20
Matrícula
De acordo com os últimos dados estatísticos, atingiu á soma de 26.490 o número dos alunos matriculados nas escolas existentes no Estado, no ano próximo passado.
Escolas Estaduais:
Seção feminina 7.845 alunos
Seção masculina 8.354 alunos
Total 16.199/p.21
Biblioteca e Arquivo Público
Entregue, desde o mês de outubro de 1932 a esforçada direção do Coronel Alexandre Magno Addôr, vem esta repartição funcionando diariamente com toda a regularidade, em dois turnos: pela manhã, das 9 ás 12 horas, e a noite, das 18 ás 21 horas, conforme estabelece o regulamento em vigor.
Não me furtarei ao dever de deixar aqui consignado o apreciável concurso que a nossa biblioteca pública, embora modesta ainda, vem prestando a mocidade estudiosa desta terra, a freqüentadora principal dessa casa de estudos.
Entretanto salienta o seu diretor em seu minucioso relatório, que a casa em que funciona esta repartição de propriedade particular e alugada pela importância de 400$000 mensais, se vai tornando já exígua para o funcionamento da mesma, achando-se além disso, bastante estragada, principalmente nos compartimentos dos fundos, que apresenta, até algumas paredes fendidas.
Encarece, ainda o Sr, Diretor, a necessidade da aquisição de alguns móveis e utensílios para uso dessa repartição, necessidade essa que não pôde ainda prover ante a exigüidade das verbas consignadas para esse mister nos últimos orçamentos.
No relatório deste ano acusa o Sr. Diretor, possui a Biblioteca Pública 3.767 obras em 5.084 volumes.
Estatística de Consultas/p.22
Registrou-se durante o ano último, o movimento de 5.030 consultas feitas por 2.722 pessoas. Estas consultas vão mencionadas por matérias e línguas.
Quadro estatístico do movimento de consultas de maio a dezembro de 1936:
Maio 548 Junho 532 Julho 722 Agosto 806 Setembro 833 Outubro 783 Novembro 599 Dezembro 207 Soma 5.030 Por assunto: Literatura 1.326 Matemática 244 Miscelânea 323 Filologia 523 História natural 170
História do Brasil 359 História Universal 90 Física 107 Química 123 Geografia 68 Cosmografia 3
Jurisprudência, legislação e direito 213
Revistas 729 Jornais 752 Soma 5.030 Por idiomas Português 4.801 Francês 96 Inglês 51 Latim 48 Alemão 11 Espanhol 4 Italiano 19 Soma 5. 030/p.23 Consulentes Maio 288 Junho 296 Julho 367 Agosto 442 Setembro 455 Outubro 446 Novembro 323 Dezembro 105 Soma 2.722 Ensino Agrícola [p 45]
A disseminação das escolas agrícolas pelos Estados, sem a eficiência técnica que se devesse esperar de assunto tão magno para o Brasil fez com que se pensasse em reduzir o número das escolas desse gênero no país, de modo a mente-las em pequeno número, porém em elevado grau de eficiência, pautadas pelo mesmo programa e dotados de aparelhagem necessárias e cursos especializados, principalmente, os de Botânica, de Entomologia, de Fitopatologia, Genética, solos e Economia rural.
Estes cursos serão mantidos pela União e os Estados concorrerão anualmente, com as quantias que forem incluídas nos seus orçamentos.
Para Mato Grosso a quota será de 5.000$000. Em compensação á renúncia do Estado a criar Escola Estadual de Agronomia, a União se obrigará a ter em cada uma das escolas oficiais um determinado número de matrículas, a disposição de filhos do Estado.