Eduardo Felipe Weinhardt Pires
O “Churrascão” e “Amor Sim, Russomano Não”:
Quando a multidão net-ativista toma as ruas
pela primeira vez no Brasil
MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
O “Churrascão” e “Amor Sim, Russomano Não”:
Quando a multidão net-ativista toma as ruas pela
primeira vez no Brasil
Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção de título de Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP .
Programa de Estudos Pós-graduados em
Comunicação e Semiótica (PEPGCoS)
Orientador: Professor Dr. Rogério da Costa
Banca Examinadora
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Ao meu orientador, Prof. Rogério da Costa, pela generosidade, apoio e direcionamento.
Ao COS/PUC-SP e ao CNPq, pela concessão da bolsa de mestrado e apoio financeiro a este estudo.
Ao Prof. Dr. José Luiz Aidar Prado e à Profa. Dra. Lucia Santaella pela leitura atenta e orientações essenciais durante o processo de qualificação.
À Profa. Lucia Leão e ao Grupo de Pesquisa em Comunicação e Criação nas Mídias (CCM) pelo apoio e pela acolhida.
À amiga Alessandra Barros Marassi pela ajuda constante, abrindo caminhos e compartilhando ideias.
À Cida Bueno, pelas orientações e pelo apoio.
A José Szwako pelas conversas sempre inspiradoras.
A Jarlei Fiamoncini pela companhia ao longo do trajeto deste trabalho.
ativismo no Brasil surgem através de mobilizações nas redes sociais digitais e ganham força a ponto de tomar o espaço urbano, identificando como se dá a produção de sentidos no conteúdo on-line relativo a eles. O estudo foi desenvolvido a partir de dois casos ocorridos na cidade de São Paulo: o “Churrascão de Gente Diferenciada”, organizado em maio de 2011, para se opor à mudança de localização de uma estação de metro no projeto de uma nova linha; e a mobilização “Amor Sim, Russomano Não”, realizada em outubro de 2012, em oposição ao candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomano. Selecionamos estes dois episódios por terem sido os dois primeiros a reunir três características que nos parecem essenciais para o entendimento no net-ativismo no país: ambos surgem num contexto de disputas locais, sem um alinhamento objetivo com pautas globais; são organizados em rede, de forma descentralizada e com intenso uso das redes sociais digitais; e tem como ápice a ocupação do espaço público. Construímos o corpus empírico deste trabalho reunindo o conteúdo postado nas páginas desses eventos no Facebook, juntamente com os posts a eles relacionados identificados através da ferramenta de busca do Twitter. A partir desse material, analisamos esses dois eventos identificando-os como “acontecimentos”, segundo o conceito de Lazzarato, inseridos num contexto de embate entre a força do capitalismo contemporâneo e a potência da “multidão”, conforme o entendimento do termo proposto por Hardt e Negri e Virno. Para realizar a análise dos enunciados que formam o corpus, nos apoiamos no entendimento de plurilingüismo de Lazzarato e também no ensaio “Postulados da Linguística”, de Deleuze e Guattari.
appear through mobilizations based on social digital networks and how they gain strength as to occupy the public urban space. The study was developed based on two cases that took place in the city of São Paulo: the “Churrascão de Gente Diferenciada”, organized in May 2011 as a protest against the location change of a metro station in the project of a new line; and “Amor Sim, Russomano Não”, held in October 2012, in opposition to the candidacy of Celso Russomano as city mayor. We have selected these episodes because they the first two to gather three characteristics we consider essential for understanding the net activism development in the country: both appear within a context of local dispute, with no alignment with global agendas; are organized as decentralized networks with intensive usage of online social networks; and reach its climax occupying the urban public space. The empirical corpus was structured gathering the content posted at the Facebook event page of both cases and the related posts on Twitter identified by the hashtags “#gentediferenciada” and “amorsimrussomanonao”. Based on this material, we have analysed the two cases as “political happenings”, according to Lazzarato’s concept, which integrate a context of shock between the strength of contemporary capitalism and the power of multitude, following the term understanding of Hardt and Negri and Virno. In order to analyse the enunciations that form the corpus, we took as base Lazzarato’s (2006) concept of plurilinguism and also the essay “Linguistic Postulates”, from Deleuze and Guattari.
Lista de Tabelas
Tabela 1: Dados gerais Facebook...70
Tabela 2: Dados gerais Twitter...70
Tabela 3: Crítica à segregação social no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”...…75
Tabela 4: A resistência à figura de Celso Russomano...75
Tabela 5: A importância do humor no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”...78
Tabela 6: Enunciados contra o “Churrascão de Gente Diferenciada”...84
Tabela 7: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não...86
Tabela 8: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não” após a manifestação...97
! ! Lista de Gráficos Gráfico 1: Evolução diária postagens Facebook no "Churrascão de Gente Diferenciada"..92
Gráfico 2: Evolução diária postagens Facebook no "Amor Sim, Russomano Não"...92
Lista de Figuras Figura 1: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...73
Figura 2: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não” produzida por Laerte ...81
Figura 3: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não” ...81
Figura 4: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...83
Figura 5: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...83
Figura 6: Orientações sobre como criar um novo evento...86
Figura 7: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...91
Introdução ... 8
Capítulo I – Multidão e capitalismo ... 13
1.1. O Capitalismo Pós-fordista ... 13
1.2. A Decadência do Estado-nação ... 18
1.3. O Império ... 19
1.4. O conceito de multidão ... 21
1.5. O Plurilingüismo ... 26
1.6. O Antipoder ... 27
1.7. Crise de representatividade ... 28
1.8. Uma nova política ... 30
1.9. O Acontecimento ... 35
1.10. Metodologia de análise de discurso ... 37
Capítulo II – Net-ativismo e casos de estudo ... 42
2.1. Breve panorama histórico do net-ativismo no mundo ... 42
2.2. O net-ativismo no Brasil ... 50
2.3. Algumas considerações sobre o net-ativismo ... 52
2.4. Apresentação dos casos estudados ... 57
2.3. Construção do corpus e sistematização de análises ... 64
Capítulo III – Estudo dos casos ... 69
3.2. Momento 0: A criação da página do evento no Facebook ... 70
3.3. Multidão: Resistência e insurreição ... 73
3.4. O processo de agenciamento de enunciação e a criação de novos possíveis ... 76
3.5. O papel do humor do “Churrascão de Gente Diferenciada” ... 78
3.5. A produção de imagens e o trabalho da multidão ... 80
3.6. A disputa de sentidos na construção do acontecimento ... 83
3.7. O papel da cidade ... 90
3.8. Das redes sociais para as ruas ... 91
3.4. A mobilização que segue nas redes ... 96
Considerações Finais ... 100
Introdução
No dia 15 da março de 2015, mais de dois milhões de pessoas foram às ruas de
diversas cidades do Brasil, vestidas de verde e amarelo, em protesto contra o governo da
presidente Dilma Rousseff e seu partido, o Partido dos Trabalhadores, responsável pelo
poder executivo federal por mais de doze anos. As reivindicações, no entanto, variavam:
enquanto parte dos manifestantes pedia que os casos de corrupção fossem investigados até o
fim e os responsáveis punidos, outros clamavam pelo impeachment da presidente e até
mesmo por uma intervenção militar. Dois anos antes, em junho de 2013, aproximadamente
1,25 milhões1 também saíram de suas casas e por vários dias, em um fenômeno que ficou conhecido como “Jornadas de Junho”. As manifestações, que haviam começado por conta
do aumenta da tarifa do transporte público em diferentes cidades, cresceram na medida em
que os motivos do protesto tornavam-se mais difusos, incluindo indignação com a violência
policial e com a corrupção política.
Os dois casos guardam enormes diferenças: enquanto o mais recente apresentou um
predomínio de discursos conservadores, com um caráter nacionalista bastante acentuado,
nas Jornadas de Junho parecia que um espírito mais libertário permeava as diferentes
demandas (ainda que talvez esse aspecto corresponda mais ao que queríamos ver do que à
realidade). No entanto, eles também apresentam características centrais que os definem
como mobilizações net-ativistas: foram organizados a partir da internet, em especial das
redes sociais digitais, não estão ligados a agentes políticos já institucionalizados, sejam eles
partidos, sindicatos ou ONGs, e desenvolvem-se em uma estrutura em rede, na qual o papel
do líder, enquanto figura investida de poder, e que portanto pode falar em nome de todos,
parece perder força ou, pelo menos, torna-se mais complexo.
Também é marcante que o ápice dessas mobilizações é a tomada do espaço público.
A multidão difusa, sem consenso, ideias ou ideais comuns, une-se na recusa e na revolta ao
tomar as ruas. Assim como em diferentes partes do mundo, como na mobilização dos
Indignados na Espanha, nas revoluções no Norte da África e Oriente Médio,
costumeiramente identificadas pela expressão “Primavera Árabe”, no movimento Occupy
Wall Street, na tomada das praças Taksim na Turquia e Syntagma na Grécia, a multidão
brasileira também mostra sua potência no espaço comum da metrópole.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 1
Números de manifestantes divulgado pelo site da Revista Época. Informação disponível em:
Desde então as ruas nunca mais foram as mesmas. Se elas já eram espaço de
manifestações públicas em geral, as mobilizações net-ativistas que as ocupam agora, por
conta de sua organização em rede, carregam outras características que aquelas observadas
nos movimentos sociais ao longo do século XX. Estamos frente a uma mudança
significativa que tange a subjetividade social, a maneira de pensar dos indivíduos. Criou-se
um novo possível: a multidão agora sabe que pode ocupar o espaço público independente da
articulação de agentes políticos já institucionalizados, tais como partidos políticos,
sindicatos, representações de classe ou ONGs. Um novo tipo de fenômeno impõe-se,
exigindo que pensemos a seu respeito, que pesquisemos como funciona e suas origens, para
que possamos melhor interpretá-lo e compreendê-lo.
Nesse esforço, é essencial olharmos para trás e identificarmos os primeiros casos
nos quais podemos observar essas características. Precisamos entender que esse fenômeno
constitui um processo histórico que, mesmo considerando apenas o cenário brasileiro,
começa antes de junho de 2013. É em tal contexto que se insere este trabalho. Buscamos
aqui investigar como se deram no Brasil os primeiros casos nos quais a potência da
multidão organizada em rede vaza para as ruas.
Uma das primeiras vezes em que podemos observar esse tipo de fenômeno foi em
maio de 2011, quando mais de 50 mil pessoas confirmaram presença pelo Facebook em um
evento batizado de “Churrascão de Gente Diferenciada”. Os usuários da rede social eram
convidados a se encontrar nas ruas de Higienópolis, no dia 14 daquele mês, em protesto pela
mudança da localização de uma estação no planejamento da linha laranja do metrô da
cidade de São Paulo. A alteração seria resultado da pressão dos moradores do bairro, que
acreditavam que a estação aumentaria o fluxo de pessoas na região, desvalorizando-a. Em
uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, uma moradora afirmou que o metrô traria
“pessoas diferenciadas” para o bairro, uso linguístico que contribuiu para aumentar a
repercussão do fato. Na data marcada, cerca de seiscentos manifestantes organizaram uma
passeata pela principal rua do bairro, que acabou em um churrasco simbólico.
Pouco mais de um ano depois, centenas de pessoas vestidas de rosa-choque
compareceram à Praça Roosevelt, em São Paulo, para uma manifestação chamada “Amor
Sim, Russomano Não”. Assim como no caso anterior, a mobilização também foi organizada
por meio das redes sociais digitais, mas desta vez para se posicionar contra a candidatura de
Celso Russomano à prefeitura de São Paulo, que despontava em primeiro lugar na disputa,
e declaradamente apartidário, o evento reuniu aqueles que eram contra a ideologia
conservadora de Russomano, ou que simplesmente achavam que ele não tinha posições
políticas bem definidas.
Selecionamos estes casos por acreditar que eles são os primeiros no país a reunir três
características importantes para começarmos a delinear as características do net-ativismo
brasileiro: ambos surgem num contexto de disputas locais, sem um alinhamento objetivo
com pautas globais; são organizados em rede, de forma descentralizada e com intenso uso
das redes sociais digitais; e tem como ápice a ocupação do espaço público.
Nosso objetivo aqui é investigar como essas duas mobilizações estruturam-se e
ganham força nas redes sociais digitais de forma a levar as pessoas a ocupar as ruas da
metrópole, buscando entender quais elementos promovem a coesão desse grupo de
indivíduos. Iremos pesquisar qual o papel das redes sociais digitais no processo de
organização desses movimentos com base em uma estrutura com formato de rede
descentralizada, sem lideranças capazes de tomar todas as decisões e de representar a todos.
Queremos saber como esses indivíduos interagem e produzem sentido. Para tal, tomaremos
como objeto de estudo as mensagens publicadas por eles nas redes sociais digitais no
contexto dos dois casos estudados.
Mesmo sob diferentes óticas, segue em alta a questão sobre qual o papel do
ciberespaço no jogo democrático. Como a internet está em constante evolução e mutação,
assumindo novas funções e abrindo novas possibilidades para o usuário, o tema manteve
uma produção acadêmica ampla, potencializada ainda mais com o desenvolvimento de
redes sociais digitais, tais como o Twitter e o Facebook. São diversos os referenciais
teóricos possíveis para se analisar esse fenômeno, seja através da ótica da filosofia, da
sociologia ou da política, indo da Esfera Pública de Habermas à literatura clássica sobre
movimentos sociais, tais como os escritos de Tarrow e Tilly.
Aqui tomaremos como base teórica as obras de Hardt e Negri (2005, 2012, 2013,
2014), Virno (2013) e Lazzarato (2005), cujos conceitos detalharemos no primeiro capítulo.
Combinando as perspectivas dos quatro autores, trataremos primeiramente das
características do capitalismo contemporâneo e de seu processo produtivo. Em seguida,
recuperaremos o processo histórico de decadência do Estado-nação e o surgimento de uma
nova força soberana identificada pelo termo “Império”, seguindo os escritos de Hardt e
Negri (2012). Também desses dois autores, iremos assumir como um dos pilares conceituais
(2013) dá ao termo. Analisaremos os dois casos indicados como “acontecimentos políticos”,
conforme o entendimento de Lazzarato (2006), de quem utilizaremos também o conceito de
plurilingüismo. Por último, nos basearemos no ensaio “Postulados da Linguística”, de
Deleuze e Guattari (2011), como base teórica para análise dos enunciados coletados nas
redes sociais digitais.
No segundo capítulo, primeiramente, traçaremos um sucinto percurso histórico do
net-ativismo no mundo e no Brasil. Adotaremos como guia a classificação em três fases
proposta do Di Felice (2013): a primeira corresponderia a um estágio embrionário, a
segunda já começa a apresentar uma estrutura em rede com múltiplos centros, e a terceira
assume uma organização completamente descentralizada. Com base nesse panorama,
retomaremos algumas considerações sobre as características do net-ativismo, tais como sua
aversão à política institucionalizada (Di Felice, 2013), seu caráter lúdico (Ugarte, 2008) e as
implicações da organização em rede (Ortellado, 2004). Também explicamos a opção em
adotar a expressão “net-ativismo” no lugar de “ciberativismo”, mais comum na literatura
sobre o tema. Assumimos, assim, a perspectiva proposta por Di Felice (2013), que
considera que as últimas manifestação ao redor do globo colocam em cheque a separação
entre o espaço digital on-line e o espaço físico material, uma cisão que o termo
“ciberativismo” ainda carrega. Finalmente, na última seção, detalharemos a metodologia
aplicada na construção do corpus da pesquisa.
No terceiro capítulo, apresentaremos a análise dos dois casos selecionados. Iremos
identificar a criação da página dos eventos correspondentes aos protestos como momento
zero dessas mobilizações, caracterizando-os em seguida como manifestações
multitudinárias, nas quais indivíduos se unem a partir de um sentimento comum de revolta,
indignação e recusa. Em seguida, analisaremos o processo de agenciamento de enunciação e
criação de possíveis, traçando um paralelo entre a criação de imagens como instrumentos de
mobilização e o processo de produção do capitalismo contemporâneo. Buscaremos ainda
apreender a disputa de sentidos que ocorre na construção desse acontecimento e também
apontar o papel central desempenhado pela cidade enquanto espaço físico e simbólico. Por
último, acompanharemos como a mobilização segue ativa nas redes sociais digitais mesmo
depois do protesto nas ruas.
É importante não perder de vista os desafios que nos coloca um objeto do qual não
se pode ainda ter um distanciamento histórico. A cada novo protesto mobilizado
formas e mostra diferentes faces. Enfrentamos essas dificuldades ao longo de todo o
desenvolvimento deste trabalho. A pesquisa teve início nos primeiros meses de 2013, já
tendo que reconsiderar seus objetivos frente aos massivos protestos de junho daquele ano. O
mesmo ocorreu dois anos depois, próximo ao fim do desenvolvimento deste estudo. As
manifestações contra o governo, mais uma vez, levantaram novas questões, forçando
algumas mudanças de perspectiva e exigindo uma nova reflexão sobre os conceitos teóricos
assumidos como base. Ao mesmo tempo, esses últimos episódios reforçam a necessidade de
reflexão sobre o net-ativismo. Como já colocado, é parte essencial dessa reflexão recuperar
Capítulo I – Multidão e capitalismo
Para buscar interpretar as duas manifestações que compõem o objeto desta pesquisa
e, através delas, tentar compreender o fenômeno das mobilizações que começam na internet
e eclodem nas ruas, tomaremos como base três linhas teóricas que partem do mesmo
universo de reflexões, que se cruzam, e às vezes convergem, centradas num mesmo objeto:
a sociedade e o capitalismo contemporâneos. Dos estudos que Michael Hardt e Antonio
Negri desenvolveram juntos, exploraremos os conceitos que deram nome às suas duas
principais obras escritas em parceria, Império (2012) e Multidão (2005), publicados
originalmente em 2000 e 2004 respectivamente. Ainda sobre a noção de multidão,
analisaremos a obra de Paolo Virno, Gramática da multidão (2013), editada pela primeira
vez em 2001. Por último, de Maurizio Lazzarato, tomaremos o entendimento de
“plurilingüismo” e “acontecimento”, conforme descritos no livro As Revoluções do
Capitalismo (2006), lançado originalmente em 2004.
Estas obras compõem linhas teóricas irmãs, desenvolvidas no mesmo período e que
tomam como base Espinoza, Marx e Foucault. Apesar de algumas divergências entre elas,
entendemos aqui que podem ser complementares, para dar conta de um objeto tão
complexo. E todas as três linhas, de maneiras um pouco distintas, apontam para outra
possível realidade política, mais livre do que aquela que temos hoje.
Para situar os conceitos que serão apresentados neste capítulo no devido contexto,
começaremos tratando do desenvolvimento do capitalismo pós-fordista e da decadência do
Estado-nação. Só então, uma vez traçado esse cenário, abordaremos os conceitos
indicados. Por último, detalharemos a teoria metodológica que usaremos como ferramenta
para analisar o corpus indicado na introdução.
1.1. O Capitalismo Pós-fordista !
Logo após a II Guerra Mundial, o capitalismo começou a sofrer uma importante
transformação. Negri (2003) aponta que o trabalho material, que ordenava a lógica
detalhada por Marx, deixa de ser o eixo desse processo. A automação das fábricas e a
“informatização do social” alteraram as relações entre o trabalho e a produção de valor. Se
antes a base do sistema capitalista consistia no dispêndio da força física do operário na
produção de novos artefatos (trabalho material), hoje é mais importante a capacidade
centralidade do trabalho vivo, sempre mais intelectualizado” (Lazzarato e Negri, 2001, p.
25). O chão da fábrica não é mais a força motriz do capitalismo, onde se concentrava a
geração de riqueza, mas sim as áreas burocráticas, administrativas, de gerenciamento, de
desenvolvimento de estratégias e inovações. Assim como o valor simbólico de determinado
artefato é cada vez mais importante que seu valor material. Ou ainda, aqueles produtos
imateriais, tais como a prestação de serviços, passam a ter peso cada vez maior na economia
global. Nessa dinâmica, o caráter social do processo produtivo ganha nova importância, pois
o capital gerado na nova ordem origina-se necessariamente na cooperação cognitiva entre
diferentes pessoas, ou seja, nas relações sociais:
O trabalho material imediatamente produtivo perde sua centralidade no processo de produção, enquanto emerge a nova figura do operário social, que se apresenta como intérprete das funções de cooperação laboral veiculadas pelas redes produtivas sociais. Essas novas figuras de força-trabalho, cooperando em nível social, tornam-se centrais e hegemônicas no processo produtivo (Negri, 2003, p. 66).
Hardt e Negri, na obra Império (2012), observam que estaríamos passando por um
terceiro momento da evolução capitalista: no primeiro, a agricultura e a exploração de
matérias primas dominaram a economia; no segundo, a indústria e a fabricação de bem
duráveis tornaram-se os setores mais importantes; por último, na terceira fase, isto é, na
atual, a oferta de serviços e o manuseio de informações “estão no coração da produção
econômica” (p.301). Este novo paradigma seria caracterizado pela capacidade do
capitalismo em captar as inovações geradas na atividade social generalizada que produzem
valor. Ou, em outras palavras, o trabalho que gera valor advém da atividade criativa e só
pode ser medido ou avaliado a posteriori. Dessa forma, o trabalho complexo não pode mais
ser encarado como uma soma de atividades simples, mas sim como a combinação de
atividades criativas, uma “cooperação produtiva” (Negri, 2003, p. 254). A base desse
trabalho, desse novo sistema de produção, é justamente a linguagem, elemento comum a
todos os homens, essencial para a troca de ideias e para a cooperação. Prado e Cazeloto,
apontam que não se trata simplesmente de “um processo de deslocamento da valorização da
esfera econômica da produção para a esfera da produção de sentidos (isto é, da
comunicação). A própria esfera da produção é reconstruída como esfera da comunicação.”
denominações nomes capitalismo pós-fordista, capitalismo cognitivo ou capitalismo
imaterial.
Como o trabalho nessa nova lógica passa então a concentrar-se na criação conjunta,
que se dá no contato social, uma conclusão possível é que, quando despertos, nunca
deixamos de trabalhar, uma vez que estamos sempre imersos no contato social,
potencializado como nunca pelas tecnologias digitais de comunicação. Ainda que, na
maioria das vezes, o tempo continue sendo a principal medida de remuneração ao
trabalhador (horas-homem), a verdade é que a divisão entre período de trabalho e período de
não-trabalho caiu por terra, “o trabalho ocupou toda a vida” (Negri, 2003 p.102), ou, nas
palavras de outro autor, “[P]ode-se afirmar, com bons motivos, tanto que nunca se deixa de
trabalhar como que se trabalha cada vez menos” (Virno, 2013, p.81).
Nesse movimento no qual a linha de montagem é substituída pela rede como modelo
de organização de produção, o trabalho tende a desterritorializar-se. Se, na época moderna,
a posição geográfica da fábrica, perto da matéria prima, do mercado e dos operários, era
estratégica, hoje ela perde importância em boa parte dos casos. Os processos laborais
passam a ser flexíveis e móveis, o que acaba deixando a potência negociadora do
trabalhador enfraquecida. O capital sempre buscará a mão de obra mais barata: “Quanto
mais desregulado for o regime de exploração, mais trabalho haverá” (Hardt e Negri, 2012,
p.359).
Uma questão central dos efeitos do capitalismo contemporâneo para Virno (2013) é
que as fronteiras entre trabalho, ação (política) e intelecto começam a ruir. Seguindo uma
reflexão começada por Aristóteles sobre a experiência humana, até pouco tempo atrás
entendíamos trabalho como a transformação da natureza e produção de novos objetos, num
processo repetitivo e previsível; intelecto seria o esforço reflexivo do pensador solitário,
invisível aos outros; e por ação política tomávamos aquilo de ordem pública, que intervém
nas relações sociais, modificando o contexto das outras duas práticas. Mesmo que
tivéssemos em mente as mais variadas intersecções entre os três itens, a separação entre eles
seguia clara. Hoje, contudo, esses limites se dissolveram: se o lucro agora não está mais no
produto, mas nas ideias geradas em cooperação, o intelecto não só passa a ser força
produtiva, como deixa de ser uma experiência solitária. Ao mesmo tempo, o trabalho
começa a assemelhar-se cada vez mais com a atividade política. Para Hardt e Negri, “a
Para explicar esse processo de politização do trabalho, Virno retoma o conceito de
virtuosismo, de Aristóteles. Em resumo, uma atividade virtuosa é aquela que tem um fim
em si mesma enquanto performance, sem ter como razão principal a geração de uma obra
ou produto, e depende da presença de outros para ter uma razão de ser. Para Aristóteles o
trabalho, poiesis, corresponde ao processo no qual o fim é a geração de um objeto, um
produto, enquanto a ação política, práxis, corresponde à atividade virtuosa. Analisando o
trabalho hoje, conclui-se que, ao basear-se na cooperação, ele prescinde de um “espaço de
estrutura pública” no qual a comunicação verbal é a principal ferramenta e, na maioria dos
casos, terá como resultado não um produto, mas uma ideia, um enunciado. Assim, a
produção contemporânea torna-se ela mesma “virtuosística” e, portanto, política.
É possível apreender essa transformação ao observar algumas das características
mais valorizadas num profissional no mercado atual. As aptidões mais buscadas costumam
ser: facilidade de trabalhar em equipe, espírito colaborativo, criatividade, visão global,
flexibilidade, adaptabilidade e pró-atividade. Todas elas competências que não dizem
respeito ao disciplinamento do capitalismo fordista, mas têm origem fora do espaço
originalmente determinado pelo trabalho: nas experiências sociais. Mais do que isso, é
como se a empresa pós-fordista demandasse justamente aquelas características adquiridas
num período pré-laboral ou de trabalho precário, que consiste, em suma, na instabilidade,
em não ter hábitos fixos. A esse habituar-se à falta hábitos, Virno associa o conceito de
niilismo, e afirma que ele “entra na produção, faz-se requisito profissional, e é posto a
trabalhar” (2013, p. 66).
Um resultado importante desse processo é que o trabalho, a posição do indivíduo no
processo produtivo, deixa de desempenhar um papel central na formação da identidade do
sujeito. Mais do que antes, essa identidade passa a ser construída nas experiências do
indivíduo e nas suas competências linguísticas. Ou seja, há um rompimento com uma das
características do sujeito moderno, que era a identificação com sua classe.
Negri e Hardt (2012) retomam Foucault e indicam que essa transição do capitalismo,
do fordismo ao pós-fordismo, corresponde também à passagem da sociedade disciplinar à
sociedade de controle. Na atual fase pós-fordista, a disciplina imposta nas fábricas (ou nas
escolas, hospitais, empresas, etc.) perde espaço para o controle exercido pela televisão
através da criação/imposição de um imaginário comum a todos. Trilhando o mesmo
o capitalismo industrial exigiu e se beneficiou da formação das instituições disciplinares. O capitalismo informacional não consegue se ampliar simplesmente com a introdução do medo que a permanente vigilância acarreta. O capitalismo baseado nas tecnologias da comunicação e informação precisa de outro tipo de liberdade além da vigiada, ele busca uma liberdade modulada (Silveira, 2014, p. 15/14,).
Em oposição então ao adestramento direto dos indivíduos e dos corpos
(anatomopolítica), Foucault indica o fortalecimento da biopolítica, na qual o controle
baseia-se numa tecnologia de poder e “regula a vida social por dentro, acompanhando-a,
interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando” (Hardt e Negri, 2012, p. 43).
Foucault, no entanto, já indica também que as forças que resistem ao poder também
se apoiam exatamente naquilo sobre o que esse poder investe:
na vida e no homem enquanto ser vivo .(...) o que é reivindicado e serve de objetivo é a vida, entendida com as necessidades fundamentais, a essência concreta do homem, a realização de suas virtualidades, a plenitude do possível (2010, p. 157/158).
Em outras palavras, a vida torna-se um objeto político, em disputa pelo poder do
controle, e aquilo que faz frente a ele busca libertar-se, com base no direito à vida, ao
próprio corpo, a manter-se saudável, a buscar a felicidade. “[O] direito, acima de todas as
opressões ou ‘alienações’, de encontrar o que se é e tudo o que de pode ser” (2010, p. 158)
Tomando essa reflexão como ponto de partida, uma série de estudiosos do autor
francês revisam o termo “biopolítica”, considerando não só o poder de controle do Estado,
mas também que a própria vida carrega uma carga de poder através de seus corpos, afetos e
desejos, ou seja, carrega uma possibilidade de antipoder frente àquele que a subjuga. Esses
novos autores propõem então a distinção entre biopoder e biopolítica. O primeiro
corresponderia ao controle exercido pelo Estado sobre a vida das populações, e o segundo
diria respeito à resistência imposta pelos corpos a essa subjugação. Tal perspectiva é
adotada por Negri e Hardt (2012) e também por Antoun e Malini, que definem biopolítica
como
1.2. A Decadência do Estado-nação
Essa transformação do capitalismo sobre a qual falamos integra um fenômeno de
ruptura mais amplo na perspectiva típica do mundo moderno. Adotando o conceito de
Pós-modernidade para contrapor ao período moderno, Negri e Hardt (2012, 2005) analisam o
impacto dessa mudança primeiramente no papel do Estado-nação.
A primeira mudança significativa nesse âmbito é que, nos anos que se seguiram a
1968, é possível mapear eventos que indicam que o Estado-nação não dá mais conta de
garantir o desenvolvimento do capitalismo de forma independente, dispondo somente dos
instrumentos de regulação internos dos quais tem controle. Em paralelo, a fase imperialista
do capitalismo, que havia começado com o mercantilismo nos séculos anteriores, chega ao
fim com o movimento de independência das colônias na África e na Ásia. Este processo
desequilibra as relações de domínio entre os Estados-nação centrais e leva aos novos países
da periferia a tarefa de reproduzir os instrumentos de desenvolvimento do capitalismo, sem
que estivessem necessariamente preparados para fazê-lo. Por último, poucos anos depois,
tem fim também a possibilidade do socialismo real com a queda da União Soviética e do
Muro de Berlim, que ruíram, em parte, devido a um desejo de liberdade das populações do
então segundo mundo.
Esses três fatores apontam para a decadência da soberania do Estado-nação. As
nações centrais veem-se afetadas como nunca antes por eventos externos ao seu domínio e
não dão mais conta de garantir o bem-estar das suas economias. Novos estados surgem em
busca de soberania, mas se encontram frente a esses mesmos eventos externos antes mesmo
de terem conseguido replicar o modelo até então bem-sucedido dos Estados-nação centrais.
Por último, a queda do comunismo não só marca o fim de uma outra possibilidade de
sistema econômico, mas também exemplifica o poder da pressão que a população dos
próprios estados exerce sobre sua estrutura, nesse caso, em busca de liberdade.
Podemos entender que sempre houve uma tensão entre o capital e o Estado-nação,
uma vez que este último se baseava na existência de fronteiras que bloqueavam o livre fluxo
financeiro, de trabalho e de bens, que eram de interesse do primeiro. Ao mesmo tempo, no
entanto, o imperialismo do estado-nação serviu para que o capital penetrasse novos espaços,
difundindo o modelo capitalista de produção. Em outras palavras, a estrutura imperialista
moderna foi interessante até o ponto que permitiu ao capitalismo tornar-se global, no
entanto, agora atrapalha a “plena realização do mercado mundial” (Hardt e Negri, 2012, p.
Assim, é reduzido o “espaço de controle do Estado-nação” (Negri, 2003, p. 215),
abrindo caminho para a constituição de uma nova dinâmica global de poderes. No entanto, é
importante ressaltar aqui a preocupação de Negri (2003) em evitar extremismos. Fala-se da
decadência do Estado Nação, mas isso não quer dizer que ele deixe de existir, ou de ser
importante. A globalização não acabou com os Estados, eles mantiveram suas “funções
primárias”, como a regulação do fluxo de pessoas, dos fluxos monetários e das normas
legais, mas houve uma mudança “qualitativa” com relação à soberania. Eles passam a estar
subjugados a uma força maior, sem fronteiras, ilimitada e única, que é capaz de garantir a
evolução do capitalismo global. A essa força, essa nova forma de soberania, os autores dão
o nome de “Império” (Hardt e Negri, 2012). O conceito corresponde a uma nova ordem de
funcionamento do capitalismo e da sociedade. Uma perspectiva inédita de entendimento de
mundo que deixa obsoleto muito do legado teórico deixado pela Modernidade, e nos coloca
o desafio de identificar quais são os novos paradigmas em funcionamento.
1.3. O Império
Hardt e Negri retomam a ideia de Império conforme a concepção europeia do termo,
que remonta à Roma antiga, onde uniu-se categorias jurídicas e valores éticos universais de
maneira que operassem juntos como “um todo orgânico” (2005, p. 28). O Império,
conforme esse entendimento, corresponde a um poder único responsável por manter a paz
social e disseminar seus valores pelo território, podendo, para ambos os objetivos, usar a
força, seja contra aqueles que ameaçam suas fronteiras ou contra rebeldes internos que
perturbem a ordem.
A nova lógica de dominação do capitalismo assume então esse poder único de lógica
imperial. No entanto, recoloca a posição da soberania, pois, uma vez único, não possui
exterior nem fronteiras, é global. Está constantemente buscando atrair novos súditos que,
por alguma razão, possam ter escapado do seu domínio. Nessa empreitada, não só respeita,
como incentiva a diferenciação e a multiplicidade, na medida em que isso serve de base
para a lógica de produção do capitalismo e também para a lógica de mercado, para a qual
quanto maior o número de nichos a serem explorados, melhor. No entanto, em paralelo,
modula essa mesma multiplicidade para que ela não se transforme numa força que ameace
sua soberania, ou seja, empenha-se em ampliar o “domínio de consensos que dão apoio ao
Negri (2003) aponta na própria Guerra Fria o surgimento dessa nova soberania, pois
esta não era apenas um conflito entre duas potências soberanas nacionais, mas continha um
caráter simbólico supranacional. Essa mudança pode ser observada na imagem do inimigo
que surge nos Estados Unidos durante o período: “o inimigo comunista era indefinido,
evanescente e espectral”, em outras palavras, “não era um sujeito soberano constante, mas
uma rede elusiva e amorfa, dificilmente suscetível de limitações, um vírus transmissível
mais do que uma entidade autônoma e compacta” (2003, p.77).
Como é global, não faz mais sentido, na lógica do Império, o conflito com o
elemento externo, mas existe uma tensão com elementos internos, que mantém essa
soberania sob constante pressão, através de uma dinâmica que é caracterizada como
“molecular” por Negri (2003, p.79). Frente a essa tensão, que corresponde à força
biopolítica da qual já tratamos, a soberania do Império mantém-se por um estado de guerra
constante, ironicamente num período considerado de paz. Uma guerra civil, tendo em vista
que a ideia de enfrentamento entre dois estados soberanos já não faz mais sentido, mantida
pela constante militarização da polícia. É também uma guerra justa na medida em que é
vista como caminho para garantir a paz.
Ao contrário das guerras de até então, o conflito na perspectiva do Império se dá sem
um inimigo definido, em múltiplas frentes em movimento (2003, p.82). Um embate
dispersivo, no qual o poder soberano sempre irá se frustrar quando tentar identificar um
único oponente. Assim, a instabilidade do poder é parte da própria definição de Império,
sendo nele uma constante.
O conflito, dessa forma, não é apenas destruição, mas tem um papel de ordenamento,
ele também atribui sentido. “A guerra já não é um instrumento à disposição dos poderes
políticos para ser usado em casos limitados, mas tende ela própria a definir as bases do
sistema político“ (Hardt e Negri, 2005, p. 427). Constitui a forma do biopoder imperial e
traz consigo instrumentos tanto de controle quanto de disciplina.
Hardt e Negri (2005) nos lembram que, nessa perspectiva de embate, é essencial
considerar a linguagem, na sociedade de produção pós-fordista, como não submissa a
qualquer poder absoluto ou unilateral, embora constitua força produtiva. Seu caráter criativo
corrói qualquer possibilidade de controle. Esse cenário torna-se ainda mais complexo com
a internet, espaço em que novos significados provenientes da força biopolítica dos sujeitos
ganham força. Se antes os meios de comunicação em massa comunicavam de um para
reproduzindo o controle do Império, hoje eles dividem espaço com a internet, que traz a
possibilidade de comunicar de muitos para muitos. É nesse contexto que estão inseridos os
objetos que analisaremos aqui.
1.4. O conceito de multidão
A gênese da ideia de multidão como a entenderemos aqui se encontra em uma
controvérsia teórico-filosófica do século XVIII, quando concorreu com o conceito de povo,
conceito este que prevaleceu e hoje nos é mais familiar. Nesse debate, central para as
fundações da modernidade, Hobbes tratava da noção de povo e Espinosa a de multidão, que
representa “uma pluralidade que persiste como tal na cena pública, na ação coletiva, na
atenção dos assuntos comuns, sem convergir no Uno”, é “a forma de existência política e
social dos muitos enquanto muitos” (Virno, 2013, p. 9, grifos do autor).
Hobbes via na multidão um perigo para o Estado justamente por negar a unidade,
afastando-se da obediência e de acordos de longo prazo. Encarava-a como incapaz de
transferir seus direitos para outra força soberana por conta da pluralidade que a constitui. A
multidão seria justamente aquilo que “não aceitou fazer-se povo” (Virno, p.11),
considerando que a unidade do povo é justamente a condição constituinte do Estado.
Como mencionado, a ideia de povo atravessou a modernidade como um de seus
principais eixos, a começar com os teóricos do Estado Absolutista, passando por Rousseau,
pela tradição liberal e mesmo pelo movimento socialista. O termo multidão, muitas vezes
tomado como sinônimo de massas, foi ainda retomado por diferentes autores no fim do
século XIX e início do XX, como Le Bon (1895), Tarde (1901) e Canetti (1930), mas visto
como uma potência muitas vezes irracional, quase animalesca, a ser dominada e controlada
para manutenção da ordem.
Com o fim da modernidade, a polarização volta à baila. Se povo e Estado são
conceitos interdependentes, como defendia Hobbes, o que acontece com o povo quando o
estado entra em crise, como apontado anteriormente? Mais além, o conceito de multidão
parece extremamente útil para apoiar a análise desse novo processo de produção que se
instala, baseado nas relações sociais de indivíduos com capacidades distintas, sujeitos que
produzem (e portanto tem força) quando juntos, mas que só estão aptos a fazê-lo quando
mantém suas características individuais. Ou seja, não podemos entendê-los como parte de
pois “a força-trabalho moderna ocorre na forma de multidão”. Ou seja, ela étambém um
“indicador material, ontológico, de uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo, da
sociedade e - o que mais importa – da subjetividade”. (Negri, 2003, p. 145, grifos do autor).
O conceito de multidão ressurge no mesmo período nas obras de Negri e Hardt, e de
Paolo Virno, tomando Espinosa como ponto de partida, mas seguindo linhas argumentativas
distintas, com conceitos próximos, mas com algumas diferenças relevantes que iremos
abordar em seguida.
Negri e Hardt (2005) veem na multidão a força biopolítica que faz frente ao Império.
Ou seja, Império e multidão tem “mecanismos de formação de alguma forma análogos, em
sua absoluta diferença e em sua absoluta oposição” (Negri, 2003, p. 153). Segundo Silveira,
os dois autores “lançam o conceito de multidão como substituto da classe operária como
sujeito revolucionário” (2014, p. 22). Para eles, a noção de multidão se sustenta sobre três
pilares. Primeiro, ela é o nome de uma imanência, de um conjunto de singularidades não
representáveis. O conceito aqui se opõe à noção de povo, que se fundava na ideia de
formação de um uno homogêneo que, através da abstração da multiplicidade de
singularidades, permitia a transcendência soberana. Também é distinta às massas e à plebe
porque consiste em algo organizado (ou auto-organizado), ou seja, não é uma força
irracional (por isso facilmente manipulável), perigosa e violenta. Negri considera que
uma enorme vantagem do conceito de multidão é que ele afasta todos os argumentos modernos baseados no ‘medo das massas’ e também aqueles relativos à ‘tirania da maioria’, argumentos que com frequência serviram como uma espécie de chantagem para obrigar-nos a aceitar (e muitas vezes inclusive a pedir) nossa própria escravidão (2003, p. 166).
Segundo pilar: devemos assumir a multidão como um conceito de classe, pois é
sempre produtiva e está sempre em movimento. Este aspecto nos aproxima da lógica do
capitalismo cognitivo, ou pós-fordista. A multidão é explorada na produção a partir do
momento em que o trabalho imaterial, realizado por meio da criação em rede entre os
indivíduos, gera valor. O conceito de exploração refere-se, assim, à exploração da
cooperação. É possível complementar este ponto da argumentação dos dois autores
retomando a análise de Virno (2013), que observa que a lógica da multidão no trabalho
pós-fordista rompe com a divisão do trabalho no sentido que não corresponde mais a critérios
técnicos e torna-se arbitrária e dinâmica, organizando-se de forma a garantir agilidade de
Por último, a multidão corresponde a uma potência, ou seja, é uma força, que nasce
no mesmo processo de cooperação que é explorado pelo capital. Consiste de uma substância
viva, que funde corpo e intelecto, à qual os autores denominam carne.
No entanto, se queremos crer na potência política da multidão, a despeito da
multiplicidade que a forma, é essencial buscar quais elementos mantém essas
individualidades unidas. O que dá coesão à multidão, colocando-a em movimento em busca
de determinado objetivo? Nesse sentido, Negri afirma que
a multidão não é nem o encontro da identidade, nem pura exaltação das diferenças, pode existir “algo comum”, isto é, “um comum”, sempre que ele seja
entendido como proliferação de atividades criativas, relações ou formas
associativas diferentes (2003, p. 148, grifos do autor).
Virno (2013) também fala de “comum”, e começa a buscá-lo na definição
aristotélica de “lugar comum”, que corresponde às estruturas mais básicas e gerais das
formulações lógicas e linguísticas, partilhadas por todos os seres humanos. Ou seja, é a
estrutura óssea invisível no nível do discurso que serve de base para o desenvolvimento de
ideias mais complexas, as metáforas, as sutilezas, as alusões, as quais Aristóteles denomina
“lugares especiais”, estes sim visíveis na superfície dos nossos enunciados. Assim, os
“lugares especiais” são aqueles típicos dos espaços comunitários específicos, como a igreja,
um clube ou um grupo partidário.
Contudo, as diversas transformações pelas quais temos passado inverteram a posição
desses lugares: dissolveram e decompuseram os lugares especiais, fazendo aflorar
diretamente no discurso os “lugares comuns”, tornando-os visíveis. Em outras palavras, não
podemos mais contar com o conforto das formas de discurso complexas e particulares. Nas
palavras do autor:
Dessa forma, no entendimento de Virno, diferentemente de Hardt e Negri (2005), a
multidão não é avessa ao uno, mas o re-determina. Enquanto o povo corresponde a um
movimento centrípeto, no qual se forma um uno político que pode transferir sua soberania
ao Estado; na multidão o movimento é centrífugo: a partir do uno partilhado dos lugares
comuns, distribuem-se os muitos. Para renomear esse repertório de faculdades
linguístico-cognitivas comum à espécie, o autor retoma o termo general intellect, utilizado por Marx.
Para o autor, faz parte desse universo comum da multidão contemporânea a própria história
do capitalismo assim como as “vicissitudes da classe trabalhadora”. É neste ponto,
provavelmente, que a teoria de Virno mais se afasta do pensamento de Hardt e Negri, pois
estes veem no capitalismo apenas algo a ser combatido.
Ao falar de “lugares comuns”, o autor adiciona uma pequena observação, uma
perspectiva em aberto, entre parêntesis e seguida de reticências, extremamente valiosa para
a reflexão que aqui nos propomos: “pensar na web...” (2013, p.27). Sugere que a internet
consiste em um importante ambiente comunicativo da multidão, no qual se reproduzem os
lugares comuns e, assim, forma a rede que dá coesão aos muitos. É exatamente esse
fenômeno que pretendemos observar aqui, ao avaliar as manifestações, inicialmente
organizadas no ambiente virtual e que depois vazam para as ruas.
Outro elemento que, segundo Virno, daria coesão à multidão seria aquilo que o ser
humano tem de “pré-individual” (2013, p. 56). Muito próximo ao próprio conceito de
general intellect, o pré-individual consistiria em todas aquelas características comuns aos
seres humanos que servem de ponto de partida para a individuação. Seria formado pelo
fundo biológico da espécie humana, a língua histórico-cultural da comunidade à qual
determinado indivíduo pertence, e, por último, a relação de produção dominante, o conjunto
histórico de forças produtivas, ou seja, mais uma vez, o próprio capitalismo.
O aspecto que parece mais relevante com relação ao processo de individuação é que,
ao contrário do que pareceria natural, o universo do coletivo, da vivência social, não é onde
se moderam os traços de individuação em prol do coletivo, pelo contrário, é justamente o
espaço de um processo de individuação ainda mais radical. Baseado nas teorias de
Simondon, o autor argumenta que é só em contato com os outros que aquilo comum a todos,
individualidade. Essa perspectiva nos ajuda a entender a visão de multidão de Virno (2013)
enquanto entidade centrípeta, que parte de algo em comum para uma pluralidade de seres.
Negri e Hardt (2005) apontam ainda outro caminho que nos pode ser útil na busca
daquilo que dá coesão ao coletivo da multidão. Segundo os autores, devemos entender a
multidão enquanto potência positiva frente a um obstáculo, considerando o obstáculo como
um elemento externo que nos impede de ir além. Assim, aquilo que une a multidão
disforme, transformando-a num coletivo de individualidades, é justamente o obstáculo.
Talvez essa coesão só seja possível graças ao general intellect e ao pré-individual como
indicado por Virno (2013), graças a esse pano de fundo comum que permite uma
compreensão mútua (e por compreensão não necessariamente queremos dizer
entendimento), mas o gatilho formador de uma determinada coletividade é um actante
externo, o obstáculo. Uma vez que o obstáculo esteja vencido, essa coletividade se
desmancha, a não ser que encontre uma nova barreira logo em seguida, pois perde o
elemento que unia as individualidades de maneira a formarem uma força positiva.
Virno traz também outra perspectiva sobre o conceito de multidão não abordada por
Negri e Hardt, que focados na promessa revolucionária, não consideram seu potencial
perigo. Ele destaca que a multidão “não tem nada de idílico” (2013, p.98), ambivalente,
caracteriza as relações contemporâneas, tanto para o bem quanto para o mal, tanto como
uma potência insurgente, quanto como parte de um dispositivo de servilismo e controle. A
multidão, quando não assume um papel na esfera política, se vê subjugada ao processo
produtivo do capitalismo pós-fordista. Nesse sentido, não traz emancipação alguma, apenas
propicia a “proliferação descontrolada de hierarquias” (p.25).
Para concluir a busca pelo entendimento do conceito de multidão, Virno apresenta
uma observação bastante importante sobre a dificuldade de encontrar uma definição:
“Encontramo-nos perante um problema complexo: procuramos um conceito sem história,
sem léxico, enquanto que o conceito ‘povo’ está completamente codificado, com palavras
concretas e matizes de todo tipo” (2013, p. 27). Assim, é essencial ter em mente que
estamos frente a um desafio e não de um conceito fechado. Com certeza ainda restam
muitos questionamentos a serem realizados e diferentes variáveis a serem verificadas.
De qualquer maneira, a despeito dessa porosidade do termo, a ideia de multidão
consiste em uma importante referência para a compreensão das diferentes manifestações
ocorridas nos últimos anos. Tanto aquelas que iremos analisar mais a fundo aqui, como as
nessa noção e nos ajudam a ilustrá-la. Lá está a carne, esse conjunto de corpos que se unem,
apesar de suas diferenças, de suas singularidades. O que nem sempre fica claro, no entanto,
é para onde se direciona essa potência. Entendemos sua origem, contra que ela se coloca,
mas nem sempre está claro o rumo que irá tomar.
1.5. O Plurilingüismo !
Embora não utilize os termos multidão ou Império, Lazzarato (2006) fala dessa
mesma disputa de poder entre a multiplicidade e o capitalismo dominante, mas coloca-a
numa perspectiva diferente. Considerando que, no contexto da sociedade de controle, esse
embate se dá principalmente entre os enunciados, isto é, no ambiente discursivo, o autor
contextualiza a disputa no território da comunicação, retomando a visão de Bakhtin de que o
espaço das expressões é um campo de batalha constante constituído e organizado em
função do confronto entre forças sociais e políticas (p.157). Campo de batalha este formado
principalmente pelas tecnologias de comunicação, pelos dispositivos de expressão que agem
à distância, potencializam a troca de enunciados e estão no próprio cerne da sociedade de
controle.
Assim, é possível entender essa disputa identificando dois grandes tipos de discurso
nela envolvidos. O primeiro, marcado pelo “plurilingüismo”, corresponde àquelas forças
que visam a polifonia, a diversidade, a criação de novas possibilidades e, portanto, de novas
formas de poder. O outro, dito “monolingüismo”, direciona-se no sentido oposto, busca a
unidade, a centralização, o consenso.2 Dessa maneira, podemos entender que o primeiro corresponde justamente à força da multidão nessa disputa, buscando colocar sua diversidade
através da qual surgem novos devires, criando um território de possibilidades
imprevisíveis. No outro extremo, o capitalismo, numa estratégia de dominação, briga pela
manutenção da ordem tal qual instalada.
Aqui se poderia indicar uma contradição, pois falamos anteriormente que o Império
não só abrigava, como incentivava a diversidade, pois esta seria a base do funcionamento do
capitalismo pós-fordista, tanto no âmbito da produção, quanto para a multiplicação de
nichos de consumo. No entanto, não se pode perder de vista que a força do capitalismo
busca modular a multiplicidade, controlá-la de maneira que não ofereça riscos à soberania
imperial. Ou seja, ela mantém a diferença no limite da garantia de sua dominação.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 2
Lazzarato chama atenção para um elemento já tratado por Tarde, mas que, de tão
corriqueiro, muitas vezes não recebe o devido destaque: a conversa. Ela é a condição
primeira para a existência do plurilingüismo. Só através do outro é que um enunciado ganha
sentido, e só na interação entre dois ou mais sujeitos que o novo pode emergir, tornar-se
forte e ganhar corpo. “Com a conversa forjam-se os desejos e as crenças que constituem as
condições necessárias à formação dos valores” (2006, p. 162).
Essa criação do sensível típica da conversa, no entanto, também pode ser
manipulada pelas mídias, na forma da opinião pública, esvaziando sua potência enquanto
multiplicidade, transformando-se em mais um instrumento do monolingüismo. Essa função
neutralizante cabe aos jornalistas, militares, políticos, e toda sorte de especialistas que
vemos circular nos jornais, rádios e, especialmente, na televisão.
Não há dúvidas de que a televisão é o principal instrumento para formação de
maiorias, de “padrões de subjetividade que neutralizam todo o devir” (Lazzarato, 2006,
p.169) e modelam o homem médio, aquele indiferente à possível multiplicidade de
enunciados. Com seu alcance e apelo massificadores, ela opera como um emissor unilateral
de imagens que ignora a individualidade dos receptores, transformando-os a todos em
sujeitos “anônimos e indiferenciados”, e por muito tempo foi extremamente eficiente em
reduzir ao mínimo os espaços possíveis para o plurilingüismo.
A internet, por outro lado, permite um rompimento desse padrão. Com ela, a
multidão tem um novo espaço para semear seus enunciados diversificados, um território de
conversa onde o novo pode ser construído. O usuário deixa de ser uma massa anômala e
torna-se uma singularidade, um indivíduo, livre para conectar-se com outros indivíduos. E
é este movimento que iremos verificar na análise do corpus dessa dissertação.
1.6. O Antipoder
Negri e Hardt identificam a potência da multidão, já apresentada, enquanto
biopolítica ou como antipoder frente ao controle soberano exercido pelo Império. Essa força
seria composta por três elementos: resistência, insurreição e poder constituinte. A
resistência é exercida no dia-a-dia, nas ações realizadas contra a dominação, contra o poder
ou contra a autoridade, nas suas diferentes estruturas, seja no trabalho ou na família, por
exemplo. Ela consiste na interação constante com a força dominante, interação esta que
Já insurreição ocorre em intervalos maiores de tempo, quando a multidão ganha corpo
enquanto coletivo e se torna ativa na luta por objetivos comuns. “A insurreição aperta as
diversas formas de resistência em um único nó, as homologa...”(Negri, 2003, p. 197).
Constitui eventos, ou, como veremos a seguir, acontecimentos. O poder constituinte é a
potência de concretizar as mudanças criadas pela resistência e pela insurreição, ou seja,
dar-lhes forma para que assim possam sobreviver para além de um determinado acontecimento.
Organiza e consolida novas estruturas.
Essa insurreição, no entanto, não pode seguir os mesmos modelos daquelas
modernas, uma vez que não faz mais sentido revoltar-se contra um Estado-nação em
declínio. Assim como o Império não tem fronteiras, a insurreição só poderia ser
bem-sucedida se armada de maneira a ocupar todo o globo. Revoluções locais logo teriam as
novas estruturas cooptadas pela soberania imperial.
Nessa guerra, é essencial inverter as relações, os dispositivos e as tecnologias de
poder soberano de forma a utilizá-las em favor da insurreição. Questão esta que será
especialmente importante para analisarmos o papel desempenhado pelas tecnologias de
comunicação em rede na organização das manifestações aqui analisadas.
1.7. Crise de representatividade
Ao escreverem o segundo livro da trilogia, Multidão (2005), Hardt e Negri trataram
das manifestações antiglobalização, mas pode-se dizer que havia uma antecipação das
diversas revoltas populares que se observou (e se segue observando) após a crise econômica
de 2008: “Por trás dos projetos de hoje não existe uma racionalidade enciclopédica, a
maioria deles visa, pelo menos em parte, a falta de representação” (p. 341).
Na obra seguinte, Commonwealth (2009), os autores traçam um longo panorama
histórico, passando pelas diversas revoluções burguesas, para mostrar como o próprio
conceito de “república”, difundido pelo mundo através do colonialismo europeu, já
representava, na verdade, a república da propriedade. Em outras palavras, a própria forma
do nosso sistema representativo carrega uma essência não democrática, uma vez que é
baseado na inviolabilidade do direito à propriedade privada, excluindo e subordinando
aqueles sem posses. Assim, não é a toa que a falsa e distorcida representatividade dos
agravando-se. “O ato de votar frequentemente parece não passar de uma obrigação em
escolher um candidato indesejado, o menor dos males, para nos representar mal por dois,
quatro ou seis anos” (Hardt e Negri, 2005, p. 342).
Há de se considerar ainda que as formas não-eleitorais de representação carregam
um grau ainda menor de legitimidade. Os autores identificam, por exemplo, que muitas
vezes encaramos as grandes corporações como representantes dos interesses nacionais na
medida em que acreditamos que aquilo que é melhor para elas é o melhor para o país (ou
cidade, ou estado). Nesse contexto, o máximo que podemos fazer é endossar determinada
representação corporativa preferindo comprar seus produtos aos da concorrente. No entanto,
“tais alegações de representação revelam-se, afinal, tão insultuosas quanto a velha noção
que o senhor feudal representa os camponeses de sua propriedade e o dono de escravos os
seres humanos que ele escraviza” (Hardt e Negri, 2005, p.342-343). Tampouco podemos
dizer que os organismos internacionais, tais como o Banco Mundial ou o FMI, compensam
ou corrigem essa falta de representatividade, pelo contrário, eles aprofundam a crise. Até
mesmo na ONU, qualquer processo de votação é extremamente desigual.
Segundo os autores, a “representação é, em si mesma, por definição, um mecanismo
que separa a população do poder” (2011, p. 43) e o indivíduo representado reconhece esse
problema, mas não vê alternativas, acabando paralisado pelo medo. Desse medo, “surgem
formas populistas ou carismáticas de uma política esvaziada até mesmo do fingimento da
representação” (2011, p. 42). Chegamos assim a um momento limite:
Ao deixar de ser um participante ativo da vida política, o representado se descobre o pobre entre os pobres, lutando sozinho na selva dessa vida social. Se não estimular seus sentidos vitais e despertar seu apetite pela democracia, o representado se tornará um produto puro do poder, a casca vazia de um mecanismo de governança que não faz mais referência ao cidadão- trabalhador (Hardt e Negri, 2014, p. 45).
Uma vez considerando a democracia como uma forma de poder soberano que emana
do povo, na era do Império ela é inalcançável. Mais que isso, a representação democrática
nunca passou de “mistificação monstruosa” (Negri, 2003, p.238). E se até agora ela parecia
ser o melhor sistema possível, apesar de suas deformações, talvez a multidão pós-fordista
esteja começando a apontar seu esgotamento, sem alinhar-se com o anarquismo já
Devemos então repensar o conceito de democracia tendo em vista os novos desafios
e possibilidades da nossa realidade, embora pareça existir um consenso que atravessa a
tradição da teoria política de que não há política sem soberania e que somente o uno pode
alcançá-la, portanto só ele poderia governar. Dessa maneira, acusam os autores, “a
democracia, assim como a aristocracia, é apenas uma fachada, pois na realidade o poder é
monárquico” (Hardt e Negri, 2005, p. 411). Ou seja, não se está falando na construção de
um novo Estado que detenha o “monopólio da decisão”, mas justamente de encontrar
maneiras de rearticular a relação “saber/poder”, que hoje ainda encontra-se “congelada no
aparato administrativo do Estado” (Virno, 2013, p. 27). Teríamos que, assim, romper com o
atual entendimento do conceito de soberania, pois a multidão nunca será soberana nesse
sentido estrito, e nos aproximaríamos da noção de democracia que Espinosa chama de
absoluta. Nas palavras de Negri e Hardt, “o poder da multidão de criar relações sociais em
comum coloca-se entre a soberania e a anarquia, com isto apresentando uma nova
possibilidade de fazer política” (2005, p.421).
Os partidos, por exemplo, já perderam o sentido, “morreram e estão sepultados”.
Foram os movimentos sociais que assumiram o papel de colocar os problemas em debate e
sugerir soluções. Impõe-se assim a necessidade de buscar outras formas de democracia,
organizadas de outra maneira. No entanto, não se trata mais de tomar o poder, mas criar
outro tipo de poder. “Se todos sabem que esta é uma perspectiva utópica, sabem também
que ela se torna necessária e realista pela vertigem da passagem de época que estamos
vivendo” (Negri, 2003, p. 239).
1.8. Uma nova política !
É nesse ponto que os autores, tanto Hardt e Negri (2005, 2012) quanto Virno (2013),
assumem seu caráter mais engajado ao defender a necessidade de uma democracia baseada
na multidão. Encontrar o formato dessa democracia, no entanto, não é tarefa fácil. Como
armar uma estrutura representativa se a multidão é justamente a multiplicidade, o não
mensurável? Aparentemente, então, essa nova forma de democracia não poderá seguir o
modelo representativo firmado na modernidade. Para Virno, haveria de instituir-se uma
“forma radicalmente nova de democracia”, baseada numa “esfera pública não estatal”, que