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MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA SÃO PAULO

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Academic year: 2019

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(1)

Eduardo Felipe Weinhardt Pires

O “Churrascão” e “Amor Sim, Russomano Não”:

Quando a multidão net-ativista toma as ruas

pela primeira vez no Brasil

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

(2)

O “Churrascão” e “Amor Sim, Russomano Não”:

Quando a multidão net-ativista toma as ruas pela

primeira vez no Brasil

Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção de título de Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP .

Programa de Estudos Pós-graduados em

Comunicação e Semiótica (PEPGCoS)

Orientador: Professor Dr. Rogério da Costa

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Banca Examinadora

________________________________

________________________________

(4)

Ao meu orientador, Prof. Rogério da Costa, pela generosidade, apoio e direcionamento.

Ao COS/PUC-SP e ao CNPq, pela concessão da bolsa de mestrado e apoio financeiro a este estudo.

Ao Prof. Dr. José Luiz Aidar Prado e à Profa. Dra. Lucia Santaella pela leitura atenta e orientações essenciais durante o processo de qualificação.

À Profa. Lucia Leão e ao Grupo de Pesquisa em Comunicação e Criação nas Mídias (CCM) pelo apoio e pela acolhida.

À amiga Alessandra Barros Marassi pela ajuda constante, abrindo caminhos e compartilhando ideias.

À Cida Bueno, pelas orientações e pelo apoio.

A José Szwako pelas conversas sempre inspiradoras.

A Jarlei Fiamoncini pela companhia ao longo do trajeto deste trabalho.

(5)

ativismo no Brasil surgem através de mobilizações nas redes sociais digitais e ganham força a ponto de tomar o espaço urbano, identificando como se dá a produção de sentidos no conteúdo on-line relativo a eles. O estudo foi desenvolvido a partir de dois casos ocorridos na cidade de São Paulo: o “Churrascão de Gente Diferenciada”, organizado em maio de 2011, para se opor à mudança de localização de uma estação de metro no projeto de uma nova linha; e a mobilização “Amor Sim, Russomano Não”, realizada em outubro de 2012, em oposição ao candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomano. Selecionamos estes dois episódios por terem sido os dois primeiros a reunir três características que nos parecem essenciais para o entendimento no net-ativismo no país: ambos surgem num contexto de disputas locais, sem um alinhamento objetivo com pautas globais; são organizados em rede, de forma descentralizada e com intenso uso das redes sociais digitais; e tem como ápice a ocupação do espaço público. Construímos o corpus empírico deste trabalho reunindo o conteúdo postado nas páginas desses eventos no Facebook, juntamente com os posts a eles relacionados identificados através da ferramenta de busca do Twitter. A partir desse material, analisamos esses dois eventos identificando-os como “acontecimentos”, segundo o conceito de Lazzarato, inseridos num contexto de embate entre a força do capitalismo contemporâneo e a potência da “multidão”, conforme o entendimento do termo proposto por Hardt e Negri e Virno. Para realizar a análise dos enunciados que formam o corpus, nos apoiamos no entendimento de plurilingüismo de Lazzarato e também no ensaio “Postulados da Linguística”, de Deleuze e Guattari.

(6)

appear through mobilizations based on social digital networks and how they gain strength as to occupy the public urban space. The study was developed based on two cases that took place in the city of São Paulo: the “Churrascão de Gente Diferenciada”, organized in May 2011 as a protest against the location change of a metro station in the project of a new line; and “Amor Sim, Russomano Não”, held in October 2012, in opposition to the candidacy of Celso Russomano as city mayor. We have selected these episodes because they the first two to gather three characteristics we consider essential for understanding the net activism development in the country: both appear within a context of local dispute, with no alignment with global agendas; are organized as decentralized networks with intensive usage of online social networks; and reach its climax occupying the urban public space. The empirical corpus was structured gathering the content posted at the Facebook event page of both cases and the related posts on Twitter identified by the hashtags “#gentediferenciada” and “amorsimrussomanonao”. Based on this material, we have analysed the two cases as “political happenings”, according to Lazzarato’s concept, which integrate a context of shock between the strength of contemporary capitalism and the power of multitude, following the term understanding of Hardt and Negri and Virno. In order to analyse the enunciations that form the corpus, we took as base Lazzarato’s (2006) concept of plurilinguism and also the essay “Linguistic Postulates”, from Deleuze and Guattari.

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Lista de Tabelas

Tabela 1: Dados gerais Facebook...70

Tabela 2: Dados gerais Twitter...70

Tabela 3: Crítica à segregação social no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”...…75

Tabela 4: A resistência à figura de Celso Russomano...75

Tabela 5: A importância do humor no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”...78

Tabela 6: Enunciados contra o “Churrascão de Gente Diferenciada”...84

Tabela 7: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não...86

Tabela 8: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não” após a manifestação...97

! ! Lista de Gráficos Gráfico 1: Evolução diária postagens Facebook no "Churrascão de Gente Diferenciada"..92

Gráfico 2: Evolução diária postagens Facebook no "Amor Sim, Russomano Não"...92

Lista de Figuras Figura 1: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...73

Figura 2: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não” produzida por Laerte ...81

Figura 3: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não” ...81

Figura 4: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...83

Figura 5: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...83

Figura 6: Orientações sobre como criar um novo evento...86

Figura 7: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”...91

(8)

Introdução ... 8

Capítulo I – Multidão e capitalismo ... 13

1.1. O Capitalismo Pós-fordista ... 13

1.2. A Decadência do Estado-nação ... 18

1.3. O Império ... 19

1.4. O conceito de multidão ... 21

1.5. O Plurilingüismo ... 26

1.6. O Antipoder ... 27

1.7. Crise de representatividade ... 28

1.8. Uma nova política ... 30

1.9. O Acontecimento ... 35

1.10. Metodologia de análise de discurso ... 37

Capítulo II – Net-ativismo e casos de estudo ... 42

2.1. Breve panorama histórico do net-ativismo no mundo ... 42

2.2. O net-ativismo no Brasil ... 50

2.3. Algumas considerações sobre o net-ativismo ... 52

2.4. Apresentação dos casos estudados ... 57

2.3. Construção do corpus e sistematização de análises ... 64

Capítulo III – Estudo dos casos ... 69

3.2. Momento 0: A criação da página do evento no Facebook ... 70

3.3. Multidão: Resistência e insurreição ... 73

3.4. O processo de agenciamento de enunciação e a criação de novos possíveis ... 76

3.5. O papel do humor do “Churrascão de Gente Diferenciada” ... 78

3.5. A produção de imagens e o trabalho da multidão ... 80

3.6. A disputa de sentidos na construção do acontecimento ... 83

3.7. O papel da cidade ... 90

3.8. Das redes sociais para as ruas ... 91

3.4. A mobilização que segue nas redes ... 96

Considerações Finais ... 100

(9)

Introdução

No dia 15 da março de 2015, mais de dois milhões de pessoas foram às ruas de

diversas cidades do Brasil, vestidas de verde e amarelo, em protesto contra o governo da

presidente Dilma Rousseff e seu partido, o Partido dos Trabalhadores, responsável pelo

poder executivo federal por mais de doze anos. As reivindicações, no entanto, variavam:

enquanto parte dos manifestantes pedia que os casos de corrupção fossem investigados até o

fim e os responsáveis punidos, outros clamavam pelo impeachment da presidente e até

mesmo por uma intervenção militar. Dois anos antes, em junho de 2013, aproximadamente

1,25 milhões1 também saíram de suas casas e por vários dias, em um fenômeno que ficou conhecido como “Jornadas de Junho”. As manifestações, que haviam começado por conta

do aumenta da tarifa do transporte público em diferentes cidades, cresceram na medida em

que os motivos do protesto tornavam-se mais difusos, incluindo indignação com a violência

policial e com a corrupção política.

Os dois casos guardam enormes diferenças: enquanto o mais recente apresentou um

predomínio de discursos conservadores, com um caráter nacionalista bastante acentuado,

nas Jornadas de Junho parecia que um espírito mais libertário permeava as diferentes

demandas (ainda que talvez esse aspecto corresponda mais ao que queríamos ver do que à

realidade). No entanto, eles também apresentam características centrais que os definem

como mobilizações net-ativistas: foram organizados a partir da internet, em especial das

redes sociais digitais, não estão ligados a agentes políticos já institucionalizados, sejam eles

partidos, sindicatos ou ONGs, e desenvolvem-se em uma estrutura em rede, na qual o papel

do líder, enquanto figura investida de poder, e que portanto pode falar em nome de todos,

parece perder força ou, pelo menos, torna-se mais complexo.

Também é marcante que o ápice dessas mobilizações é a tomada do espaço público.

A multidão difusa, sem consenso, ideias ou ideais comuns, une-se na recusa e na revolta ao

tomar as ruas. Assim como em diferentes partes do mundo, como na mobilização dos

Indignados na Espanha, nas revoluções no Norte da África e Oriente Médio,

costumeiramente identificadas pela expressão “Primavera Árabe”, no movimento Occupy

Wall Street, na tomada das praças Taksim na Turquia e Syntagma na Grécia, a multidão

brasileira também mostra sua potência no espaço comum da metrópole.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 1

Números de manifestantes divulgado pelo site da Revista Época. Informação disponível em:

(10)

Desde então as ruas nunca mais foram as mesmas. Se elas já eram espaço de

manifestações públicas em geral, as mobilizações net-ativistas que as ocupam agora, por

conta de sua organização em rede, carregam outras características que aquelas observadas

nos movimentos sociais ao longo do século XX. Estamos frente a uma mudança

significativa que tange a subjetividade social, a maneira de pensar dos indivíduos. Criou-se

um novo possível: a multidão agora sabe que pode ocupar o espaço público independente da

articulação de agentes políticos já institucionalizados, tais como partidos políticos,

sindicatos, representações de classe ou ONGs. Um novo tipo de fenômeno impõe-se,

exigindo que pensemos a seu respeito, que pesquisemos como funciona e suas origens, para

que possamos melhor interpretá-lo e compreendê-lo.

Nesse esforço, é essencial olharmos para trás e identificarmos os primeiros casos

nos quais podemos observar essas características. Precisamos entender que esse fenômeno

constitui um processo histórico que, mesmo considerando apenas o cenário brasileiro,

começa antes de junho de 2013. É em tal contexto que se insere este trabalho. Buscamos

aqui investigar como se deram no Brasil os primeiros casos nos quais a potência da

multidão organizada em rede vaza para as ruas.

Uma das primeiras vezes em que podemos observar esse tipo de fenômeno foi em

maio de 2011, quando mais de 50 mil pessoas confirmaram presença pelo Facebook em um

evento batizado de “Churrascão de Gente Diferenciada”. Os usuários da rede social eram

convidados a se encontrar nas ruas de Higienópolis, no dia 14 daquele mês, em protesto pela

mudança da localização de uma estação no planejamento da linha laranja do metrô da

cidade de São Paulo. A alteração seria resultado da pressão dos moradores do bairro, que

acreditavam que a estação aumentaria o fluxo de pessoas na região, desvalorizando-a. Em

uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, uma moradora afirmou que o metrô traria

“pessoas diferenciadas” para o bairro, uso linguístico que contribuiu para aumentar a

repercussão do fato. Na data marcada, cerca de seiscentos manifestantes organizaram uma

passeata pela principal rua do bairro, que acabou em um churrasco simbólico.

Pouco mais de um ano depois, centenas de pessoas vestidas de rosa-choque

compareceram à Praça Roosevelt, em São Paulo, para uma manifestação chamada “Amor

Sim, Russomano Não”. Assim como no caso anterior, a mobilização também foi organizada

por meio das redes sociais digitais, mas desta vez para se posicionar contra a candidatura de

Celso Russomano à prefeitura de São Paulo, que despontava em primeiro lugar na disputa,

(11)

e declaradamente apartidário, o evento reuniu aqueles que eram contra a ideologia

conservadora de Russomano, ou que simplesmente achavam que ele não tinha posições

políticas bem definidas.

Selecionamos estes casos por acreditar que eles são os primeiros no país a reunir três

características importantes para começarmos a delinear as características do net-ativismo

brasileiro: ambos surgem num contexto de disputas locais, sem um alinhamento objetivo

com pautas globais; são organizados em rede, de forma descentralizada e com intenso uso

das redes sociais digitais; e tem como ápice a ocupação do espaço público.

Nosso objetivo aqui é investigar como essas duas mobilizações estruturam-se e

ganham força nas redes sociais digitais de forma a levar as pessoas a ocupar as ruas da

metrópole, buscando entender quais elementos promovem a coesão desse grupo de

indivíduos. Iremos pesquisar qual o papel das redes sociais digitais no processo de

organização desses movimentos com base em uma estrutura com formato de rede

descentralizada, sem lideranças capazes de tomar todas as decisões e de representar a todos.

Queremos saber como esses indivíduos interagem e produzem sentido. Para tal, tomaremos

como objeto de estudo as mensagens publicadas por eles nas redes sociais digitais no

contexto dos dois casos estudados.

Mesmo sob diferentes óticas, segue em alta a questão sobre qual o papel do

ciberespaço no jogo democrático. Como a internet está em constante evolução e mutação,

assumindo novas funções e abrindo novas possibilidades para o usuário, o tema manteve

uma produção acadêmica ampla, potencializada ainda mais com o desenvolvimento de

redes sociais digitais, tais como o Twitter e o Facebook. São diversos os referenciais

teóricos possíveis para se analisar esse fenômeno, seja através da ótica da filosofia, da

sociologia ou da política, indo da Esfera Pública de Habermas à literatura clássica sobre

movimentos sociais, tais como os escritos de Tarrow e Tilly.

Aqui tomaremos como base teórica as obras de Hardt e Negri (2005, 2012, 2013,

2014), Virno (2013) e Lazzarato (2005), cujos conceitos detalharemos no primeiro capítulo.

Combinando as perspectivas dos quatro autores, trataremos primeiramente das

características do capitalismo contemporâneo e de seu processo produtivo. Em seguida,

recuperaremos o processo histórico de decadência do Estado-nação e o surgimento de uma

nova força soberana identificada pelo termo “Império”, seguindo os escritos de Hardt e

Negri (2012). Também desses dois autores, iremos assumir como um dos pilares conceituais

(12)

(2013) dá ao termo. Analisaremos os dois casos indicados como “acontecimentos políticos”,

conforme o entendimento de Lazzarato (2006), de quem utilizaremos também o conceito de

plurilingüismo. Por último, nos basearemos no ensaio “Postulados da Linguística”, de

Deleuze e Guattari (2011), como base teórica para análise dos enunciados coletados nas

redes sociais digitais.

No segundo capítulo, primeiramente, traçaremos um sucinto percurso histórico do

net-ativismo no mundo e no Brasil. Adotaremos como guia a classificação em três fases

proposta do Di Felice (2013): a primeira corresponderia a um estágio embrionário, a

segunda já começa a apresentar uma estrutura em rede com múltiplos centros, e a terceira

assume uma organização completamente descentralizada. Com base nesse panorama,

retomaremos algumas considerações sobre as características do net-ativismo, tais como sua

aversão à política institucionalizada (Di Felice, 2013), seu caráter lúdico (Ugarte, 2008) e as

implicações da organização em rede (Ortellado, 2004). Também explicamos a opção em

adotar a expressão “net-ativismo” no lugar de “ciberativismo”, mais comum na literatura

sobre o tema. Assumimos, assim, a perspectiva proposta por Di Felice (2013), que

considera que as últimas manifestação ao redor do globo colocam em cheque a separação

entre o espaço digital on-line e o espaço físico material, uma cisão que o termo

“ciberativismo” ainda carrega. Finalmente, na última seção, detalharemos a metodologia

aplicada na construção do corpus da pesquisa.

No terceiro capítulo, apresentaremos a análise dos dois casos selecionados. Iremos

identificar a criação da página dos eventos correspondentes aos protestos como momento

zero dessas mobilizações, caracterizando-os em seguida como manifestações

multitudinárias, nas quais indivíduos se unem a partir de um sentimento comum de revolta,

indignação e recusa. Em seguida, analisaremos o processo de agenciamento de enunciação e

criação de possíveis, traçando um paralelo entre a criação de imagens como instrumentos de

mobilização e o processo de produção do capitalismo contemporâneo. Buscaremos ainda

apreender a disputa de sentidos que ocorre na construção desse acontecimento e também

apontar o papel central desempenhado pela cidade enquanto espaço físico e simbólico. Por

último, acompanharemos como a mobilização segue ativa nas redes sociais digitais mesmo

depois do protesto nas ruas.

É importante não perder de vista os desafios que nos coloca um objeto do qual não

se pode ainda ter um distanciamento histórico. A cada novo protesto mobilizado

(13)

formas e mostra diferentes faces. Enfrentamos essas dificuldades ao longo de todo o

desenvolvimento deste trabalho. A pesquisa teve início nos primeiros meses de 2013, já

tendo que reconsiderar seus objetivos frente aos massivos protestos de junho daquele ano. O

mesmo ocorreu dois anos depois, próximo ao fim do desenvolvimento deste estudo. As

manifestações contra o governo, mais uma vez, levantaram novas questões, forçando

algumas mudanças de perspectiva e exigindo uma nova reflexão sobre os conceitos teóricos

assumidos como base. Ao mesmo tempo, esses últimos episódios reforçam a necessidade de

reflexão sobre o net-ativismo. Como já colocado, é parte essencial dessa reflexão recuperar

(14)

Capítulo I – Multidão e capitalismo

Para buscar interpretar as duas manifestações que compõem o objeto desta pesquisa

e, através delas, tentar compreender o fenômeno das mobilizações que começam na internet

e eclodem nas ruas, tomaremos como base três linhas teóricas que partem do mesmo

universo de reflexões, que se cruzam, e às vezes convergem, centradas num mesmo objeto:

a sociedade e o capitalismo contemporâneos. Dos estudos que Michael Hardt e Antonio

Negri desenvolveram juntos, exploraremos os conceitos que deram nome às suas duas

principais obras escritas em parceria, Império (2012) e Multidão (2005), publicados

originalmente em 2000 e 2004 respectivamente. Ainda sobre a noção de multidão,

analisaremos a obra de Paolo Virno, Gramática da multidão (2013), editada pela primeira

vez em 2001. Por último, de Maurizio Lazzarato, tomaremos o entendimento de

“plurilingüismo” e “acontecimento”, conforme descritos no livro As Revoluções do

Capitalismo (2006), lançado originalmente em 2004.

Estas obras compõem linhas teóricas irmãs, desenvolvidas no mesmo período e que

tomam como base Espinoza, Marx e Foucault. Apesar de algumas divergências entre elas,

entendemos aqui que podem ser complementares, para dar conta de um objeto tão

complexo. E todas as três linhas, de maneiras um pouco distintas, apontam para outra

possível realidade política, mais livre do que aquela que temos hoje.

Para situar os conceitos que serão apresentados neste capítulo no devido contexto,

começaremos tratando do desenvolvimento do capitalismo pós-fordista e da decadência do

Estado-nação. Só então, uma vez traçado esse cenário, abordaremos os conceitos

indicados. Por último, detalharemos a teoria metodológica que usaremos como ferramenta

para analisar o corpus indicado na introdução.

1.1. O Capitalismo Pós-fordista !

Logo após a II Guerra Mundial, o capitalismo começou a sofrer uma importante

transformação. Negri (2003) aponta que o trabalho material, que ordenava a lógica

detalhada por Marx, deixa de ser o eixo desse processo. A automação das fábricas e a

“informatização do social” alteraram as relações entre o trabalho e a produção de valor. Se

antes a base do sistema capitalista consistia no dispêndio da força física do operário na

produção de novos artefatos (trabalho material), hoje é mais importante a capacidade

(15)

centralidade do trabalho vivo, sempre mais intelectualizado” (Lazzarato e Negri, 2001, p.

25). O chão da fábrica não é mais a força motriz do capitalismo, onde se concentrava a

geração de riqueza, mas sim as áreas burocráticas, administrativas, de gerenciamento, de

desenvolvimento de estratégias e inovações. Assim como o valor simbólico de determinado

artefato é cada vez mais importante que seu valor material. Ou ainda, aqueles produtos

imateriais, tais como a prestação de serviços, passam a ter peso cada vez maior na economia

global. Nessa dinâmica, o caráter social do processo produtivo ganha nova importância, pois

o capital gerado na nova ordem origina-se necessariamente na cooperação cognitiva entre

diferentes pessoas, ou seja, nas relações sociais:

O trabalho material imediatamente produtivo perde sua centralidade no processo de produção, enquanto emerge a nova figura do operário social, que se apresenta como intérprete das funções de cooperação laboral veiculadas pelas redes produtivas sociais. Essas novas figuras de força-trabalho, cooperando em nível social, tornam-se centrais e hegemônicas no processo produtivo (Negri, 2003, p. 66).

Hardt e Negri, na obra Império (2012), observam que estaríamos passando por um

terceiro momento da evolução capitalista: no primeiro, a agricultura e a exploração de

matérias primas dominaram a economia; no segundo, a indústria e a fabricação de bem

duráveis tornaram-se os setores mais importantes; por último, na terceira fase, isto é, na

atual, a oferta de serviços e o manuseio de informações “estão no coração da produção

econômica” (p.301). Este novo paradigma seria caracterizado pela capacidade do

capitalismo em captar as inovações geradas na atividade social generalizada que produzem

valor. Ou, em outras palavras, o trabalho que gera valor advém da atividade criativa e só

pode ser medido ou avaliado a posteriori. Dessa forma, o trabalho complexo não pode mais

ser encarado como uma soma de atividades simples, mas sim como a combinação de

atividades criativas, uma “cooperação produtiva” (Negri, 2003, p. 254). A base desse

trabalho, desse novo sistema de produção, é justamente a linguagem, elemento comum a

todos os homens, essencial para a troca de ideias e para a cooperação. Prado e Cazeloto,

apontam que não se trata simplesmente de “um processo de deslocamento da valorização da

esfera econômica da produção para a esfera da produção de sentidos (isto é, da

comunicação). A própria esfera da produção é reconstruída como esfera da comunicação.

(16)

denominações nomes capitalismo pós-fordista, capitalismo cognitivo ou capitalismo

imaterial.

Como o trabalho nessa nova lógica passa então a concentrar-se na criação conjunta,

que se dá no contato social, uma conclusão possível é que, quando despertos, nunca

deixamos de trabalhar, uma vez que estamos sempre imersos no contato social,

potencializado como nunca pelas tecnologias digitais de comunicação. Ainda que, na

maioria das vezes, o tempo continue sendo a principal medida de remuneração ao

trabalhador (horas-homem), a verdade é que a divisão entre período de trabalho e período de

não-trabalho caiu por terra, “o trabalho ocupou toda a vida” (Negri, 2003 p.102), ou, nas

palavras de outro autor, “[P]ode-se afirmar, com bons motivos, tanto que nunca se deixa de

trabalhar como que se trabalha cada vez menos” (Virno, 2013, p.81).

Nesse movimento no qual a linha de montagem é substituída pela rede como modelo

de organização de produção, o trabalho tende a desterritorializar-se. Se, na época moderna,

a posição geográfica da fábrica, perto da matéria prima, do mercado e dos operários, era

estratégica, hoje ela perde importância em boa parte dos casos. Os processos laborais

passam a ser flexíveis e móveis, o que acaba deixando a potência negociadora do

trabalhador enfraquecida. O capital sempre buscará a mão de obra mais barata: “Quanto

mais desregulado for o regime de exploração, mais trabalho haverá” (Hardt e Negri, 2012,

p.359).

Uma questão central dos efeitos do capitalismo contemporâneo para Virno (2013) é

que as fronteiras entre trabalho, ação (política) e intelecto começam a ruir. Seguindo uma

reflexão começada por Aristóteles sobre a experiência humana, até pouco tempo atrás

entendíamos trabalho como a transformação da natureza e produção de novos objetos, num

processo repetitivo e previsível; intelecto seria o esforço reflexivo do pensador solitário,

invisível aos outros; e por ação política tomávamos aquilo de ordem pública, que intervém

nas relações sociais, modificando o contexto das outras duas práticas. Mesmo que

tivéssemos em mente as mais variadas intersecções entre os três itens, a separação entre eles

seguia clara. Hoje, contudo, esses limites se dissolveram: se o lucro agora não está mais no

produto, mas nas ideias geradas em cooperação, o intelecto não só passa a ser força

produtiva, como deixa de ser uma experiência solitária. Ao mesmo tempo, o trabalho

começa a assemelhar-se cada vez mais com a atividade política. Para Hardt e Negri, “a

(17)

Para explicar esse processo de politização do trabalho, Virno retoma o conceito de

virtuosismo, de Aristóteles. Em resumo, uma atividade virtuosa é aquela que tem um fim

em si mesma enquanto performance, sem ter como razão principal a geração de uma obra

ou produto, e depende da presença de outros para ter uma razão de ser. Para Aristóteles o

trabalho, poiesis, corresponde ao processo no qual o fim é a geração de um objeto, um

produto, enquanto a ação política, práxis, corresponde à atividade virtuosa. Analisando o

trabalho hoje, conclui-se que, ao basear-se na cooperação, ele prescinde de um “espaço de

estrutura pública” no qual a comunicação verbal é a principal ferramenta e, na maioria dos

casos, terá como resultado não um produto, mas uma ideia, um enunciado. Assim, a

produção contemporânea torna-se ela mesma “virtuosística” e, portanto, política.

É possível apreender essa transformação ao observar algumas das características

mais valorizadas num profissional no mercado atual. As aptidões mais buscadas costumam

ser: facilidade de trabalhar em equipe, espírito colaborativo, criatividade, visão global,

flexibilidade, adaptabilidade e pró-atividade. Todas elas competências que não dizem

respeito ao disciplinamento do capitalismo fordista, mas têm origem fora do espaço

originalmente determinado pelo trabalho: nas experiências sociais. Mais do que isso, é

como se a empresa pós-fordista demandasse justamente aquelas características adquiridas

num período pré-laboral ou de trabalho precário, que consiste, em suma, na instabilidade,

em não ter hábitos fixos. A esse habituar-se à falta hábitos, Virno associa o conceito de

niilismo, e afirma que ele “entra na produção, faz-se requisito profissional, e é posto a

trabalhar(2013, p. 66).

Um resultado importante desse processo é que o trabalho, a posição do indivíduo no

processo produtivo, deixa de desempenhar um papel central na formação da identidade do

sujeito. Mais do que antes, essa identidade passa a ser construída nas experiências do

indivíduo e nas suas competências linguísticas. Ou seja, há um rompimento com uma das

características do sujeito moderno, que era a identificação com sua classe.

Negri e Hardt (2012) retomam Foucault e indicam que essa transição do capitalismo,

do fordismo ao pós-fordismo, corresponde também à passagem da sociedade disciplinar à

sociedade de controle. Na atual fase pós-fordista, a disciplina imposta nas fábricas (ou nas

escolas, hospitais, empresas, etc.) perde espaço para o controle exercido pela televisão

através da criação/imposição de um imaginário comum a todos. Trilhando o mesmo

(18)

o capitalismo industrial exigiu e se beneficiou da formação das instituições disciplinares. O capitalismo informacional não consegue se ampliar simplesmente com a introdução do medo que a permanente vigilância acarreta. O capitalismo baseado nas tecnologias da comunicação e informação precisa de outro tipo de liberdade além da vigiada, ele busca uma liberdade modulada (Silveira, 2014, p. 15/14,).

Em oposição então ao adestramento direto dos indivíduos e dos corpos

(anatomopolítica), Foucault indica o fortalecimento da biopolítica, na qual o controle

baseia-se numa tecnologia de poder e “regula a vida social por dentro, acompanhando-a,

interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando” (Hardt e Negri, 2012, p. 43).

Foucault, no entanto, já indica também que as forças que resistem ao poder também

se apoiam exatamente naquilo sobre o que esse poder investe:

na vida e no homem enquanto ser vivo .(...) o que é reivindicado e serve de objetivo é a vida, entendida com as necessidades fundamentais, a essência concreta do homem, a realização de suas virtualidades, a plenitude do possível (2010, p. 157/158).

Em outras palavras, a vida torna-se um objeto político, em disputa pelo poder do

controle, e aquilo que faz frente a ele busca libertar-se, com base no direito à vida, ao

próprio corpo, a manter-se saudável, a buscar a felicidade. “[O] direito, acima de todas as

opressões ou ‘alienações’, de encontrar o que se é e tudo o que de pode ser” (2010, p. 158)

Tomando essa reflexão como ponto de partida, uma série de estudiosos do autor

francês revisam o termo “biopolítica”, considerando não só o poder de controle do Estado,

mas também que a própria vida carrega uma carga de poder através de seus corpos, afetos e

desejos, ou seja, carrega uma possibilidade de antipoder frente àquele que a subjuga. Esses

novos autores propõem então a distinção entre biopoder e biopolítica. O primeiro

corresponderia ao controle exercido pelo Estado sobre a vida das populações, e o segundo

diria respeito à resistência imposta pelos corpos a essa subjugação. Tal perspectiva é

adotada por Negri e Hardt (2012) e também por Antoun e Malini, que definem biopolítica

como

(19)

1.2. A Decadência do Estado-nação

Essa transformação do capitalismo sobre a qual falamos integra um fenômeno de

ruptura mais amplo na perspectiva típica do mundo moderno. Adotando o conceito de

Pós-modernidade para contrapor ao período moderno, Negri e Hardt (2012, 2005) analisam o

impacto dessa mudança primeiramente no papel do Estado-nação.

A primeira mudança significativa nesse âmbito é que, nos anos que se seguiram a

1968, é possível mapear eventos que indicam que o Estado-nação não dá mais conta de

garantir o desenvolvimento do capitalismo de forma independente, dispondo somente dos

instrumentos de regulação internos dos quais tem controle. Em paralelo, a fase imperialista

do capitalismo, que havia começado com o mercantilismo nos séculos anteriores, chega ao

fim com o movimento de independência das colônias na África e na Ásia. Este processo

desequilibra as relações de domínio entre os Estados-nação centrais e leva aos novos países

da periferia a tarefa de reproduzir os instrumentos de desenvolvimento do capitalismo, sem

que estivessem necessariamente preparados para fazê-lo. Por último, poucos anos depois,

tem fim também a possibilidade do socialismo real com a queda da União Soviética e do

Muro de Berlim, que ruíram, em parte, devido a um desejo de liberdade das populações do

então segundo mundo.

Esses três fatores apontam para a decadência da soberania do Estado-nação. As

nações centrais veem-se afetadas como nunca antes por eventos externos ao seu domínio e

não dão mais conta de garantir o bem-estar das suas economias. Novos estados surgem em

busca de soberania, mas se encontram frente a esses mesmos eventos externos antes mesmo

de terem conseguido replicar o modelo até então bem-sucedido dos Estados-nação centrais.

Por último, a queda do comunismo não só marca o fim de uma outra possibilidade de

sistema econômico, mas também exemplifica o poder da pressão que a população dos

próprios estados exerce sobre sua estrutura, nesse caso, em busca de liberdade.

Podemos entender que sempre houve uma tensão entre o capital e o Estado-nação,

uma vez que este último se baseava na existência de fronteiras que bloqueavam o livre fluxo

financeiro, de trabalho e de bens, que eram de interesse do primeiro. Ao mesmo tempo, no

entanto, o imperialismo do estado-nação serviu para que o capital penetrasse novos espaços,

difundindo o modelo capitalista de produção. Em outras palavras, a estrutura imperialista

moderna foi interessante até o ponto que permitiu ao capitalismo tornar-se global, no

entanto, agora atrapalha a “plena realização do mercado mundial” (Hardt e Negri, 2012, p.

(20)

Assim, é reduzido o “espaço de controle do Estado-nação” (Negri, 2003, p. 215),

abrindo caminho para a constituição de uma nova dinâmica global de poderes. No entanto, é

importante ressaltar aqui a preocupação de Negri (2003) em evitar extremismos. Fala-se da

decadência do Estado Nação, mas isso não quer dizer que ele deixe de existir, ou de ser

importante. A globalização não acabou com os Estados, eles mantiveram suas “funções

primárias”, como a regulação do fluxo de pessoas, dos fluxos monetários e das normas

legais, mas houve uma mudança “qualitativa” com relação à soberania. Eles passam a estar

subjugados a uma força maior, sem fronteiras, ilimitada e única, que é capaz de garantir a

evolução do capitalismo global. A essa força, essa nova forma de soberania, os autores dão

o nome de “Império” (Hardt e Negri, 2012). O conceito corresponde a uma nova ordem de

funcionamento do capitalismo e da sociedade. Uma perspectiva inédita de entendimento de

mundo que deixa obsoleto muito do legado teórico deixado pela Modernidade, e nos coloca

o desafio de identificar quais são os novos paradigmas em funcionamento.

1.3. O Império

Hardt e Negri retomam a ideia de Império conforme a concepção europeia do termo,

que remonta à Roma antiga, onde uniu-se categorias jurídicas e valores éticos universais de

maneira que operassem juntos como “um todo orgânico” (2005, p. 28). O Império,

conforme esse entendimento, corresponde a um poder único responsável por manter a paz

social e disseminar seus valores pelo território, podendo, para ambos os objetivos, usar a

força, seja contra aqueles que ameaçam suas fronteiras ou contra rebeldes internos que

perturbem a ordem.

A nova lógica de dominação do capitalismo assume então esse poder único de lógica

imperial. No entanto, recoloca a posição da soberania, pois, uma vez único, não possui

exterior nem fronteiras, é global. Está constantemente buscando atrair novos súditos que,

por alguma razão, possam ter escapado do seu domínio. Nessa empreitada, não só respeita,

como incentiva a diferenciação e a multiplicidade, na medida em que isso serve de base

para a lógica de produção do capitalismo e também para a lógica de mercado, para a qual

quanto maior o número de nichos a serem explorados, melhor. No entanto, em paralelo,

modula essa mesma multiplicidade para que ela não se transforme numa força que ameace

sua soberania, ou seja, empenha-se em ampliar o “domínio de consensos que dão apoio ao

(21)

Negri (2003) aponta na própria Guerra Fria o surgimento dessa nova soberania, pois

esta não era apenas um conflito entre duas potências soberanas nacionais, mas continha um

caráter simbólico supranacional. Essa mudança pode ser observada na imagem do inimigo

que surge nos Estados Unidos durante o período: “o inimigo comunista era indefinido,

evanescente e espectral”, em outras palavras, “não era um sujeito soberano constante, mas

uma rede elusiva e amorfa, dificilmente suscetível de limitações, um vírus transmissível

mais do que uma entidade autônoma e compacta” (2003, p.77).

Como é global, não faz mais sentido, na lógica do Império, o conflito com o

elemento externo, mas existe uma tensão com elementos internos, que mantém essa

soberania sob constante pressão, através de uma dinâmica que é caracterizada como

“molecular” por Negri (2003, p.79). Frente a essa tensão, que corresponde à força

biopolítica da qual já tratamos, a soberania do Império mantém-se por um estado de guerra

constante, ironicamente num período considerado de paz. Uma guerra civil, tendo em vista

que a ideia de enfrentamento entre dois estados soberanos já não faz mais sentido, mantida

pela constante militarização da polícia. É também uma guerra justa na medida em que é

vista como caminho para garantir a paz.

Ao contrário das guerras de até então, o conflito na perspectiva do Império se dá sem

um inimigo definido, em múltiplas frentes em movimento (2003, p.82). Um embate

dispersivo, no qual o poder soberano sempre irá se frustrar quando tentar identificar um

único oponente. Assim, a instabilidade do poder é parte da própria definição de Império,

sendo nele uma constante.

O conflito, dessa forma, não é apenas destruição, mas tem um papel de ordenamento,

ele também atribui sentido. “A guerra já não é um instrumento à disposição dos poderes

políticos para ser usado em casos limitados, mas tende ela própria a definir as bases do

sistema político“ (Hardt e Negri, 2005, p. 427). Constitui a forma do biopoder imperial e

traz consigo instrumentos tanto de controle quanto de disciplina.

Hardt e Negri (2005) nos lembram que, nessa perspectiva de embate, é essencial

considerar a linguagem, na sociedade de produção pós-fordista, como não submissa a

qualquer poder absoluto ou unilateral, embora constitua força produtiva. Seu caráter criativo

corrói qualquer possibilidade de controle. Esse cenário torna-se ainda mais complexo com

a internet, espaço em que novos significados provenientes da força biopolítica dos sujeitos

ganham força. Se antes os meios de comunicação em massa comunicavam de um para

(22)

reproduzindo o controle do Império, hoje eles dividem espaço com a internet, que traz a

possibilidade de comunicar de muitos para muitos. É nesse contexto que estão inseridos os

objetos que analisaremos aqui.

1.4. O conceito de multidão

A gênese da ideia de multidão como a entenderemos aqui se encontra em uma

controvérsia teórico-filosófica do século XVIII, quando concorreu com o conceito de povo,

conceito este que prevaleceu e hoje nos é mais familiar. Nesse debate, central para as

fundações da modernidade, Hobbes tratava da noção de povo e Espinosa a de multidão, que

representa “uma pluralidade que persiste como tal na cena pública, na ação coletiva, na

atenção dos assuntos comuns, sem convergir no Uno”, é “a forma de existência política e

social dos muitos enquanto muitos” (Virno, 2013, p. 9, grifos do autor).

Hobbes via na multidão um perigo para o Estado justamente por negar a unidade,

afastando-se da obediência e de acordos de longo prazo. Encarava-a como incapaz de

transferir seus direitos para outra força soberana por conta da pluralidade que a constitui. A

multidão seria justamente aquilo que “não aceitou fazer-se povo” (Virno, p.11),

considerando que a unidade do povo é justamente a condição constituinte do Estado.

Como mencionado, a ideia de povo atravessou a modernidade como um de seus

principais eixos, a começar com os teóricos do Estado Absolutista, passando por Rousseau,

pela tradição liberal e mesmo pelo movimento socialista. O termo multidão, muitas vezes

tomado como sinônimo de massas, foi ainda retomado por diferentes autores no fim do

século XIX e início do XX, como Le Bon (1895), Tarde (1901) e Canetti (1930), mas visto

como uma potência muitas vezes irracional, quase animalesca, a ser dominada e controlada

para manutenção da ordem.

Com o fim da modernidade, a polarização volta à baila. Se povo e Estado são

conceitos interdependentes, como defendia Hobbes, o que acontece com o povo quando o

estado entra em crise, como apontado anteriormente? Mais além, o conceito de multidão

parece extremamente útil para apoiar a análise desse novo processo de produção que se

instala, baseado nas relações sociais de indivíduos com capacidades distintas, sujeitos que

produzem (e portanto tem força) quando juntos, mas que só estão aptos a fazê-lo quando

mantém suas características individuais. Ou seja, não podemos entendê-los como parte de

(23)

pois “a força-trabalho moderna ocorre na forma de multidão”. Ou seja, ela étambém um

“indicador material, ontológico, de uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo, da

sociedade e - o que mais importa – da subjetividade”. (Negri, 2003, p. 145, grifos do autor).

O conceito de multidão ressurge no mesmo período nas obras de Negri e Hardt, e de

Paolo Virno, tomando Espinosa como ponto de partida, mas seguindo linhas argumentativas

distintas, com conceitos próximos, mas com algumas diferenças relevantes que iremos

abordar em seguida.

Negri e Hardt (2005) veem na multidão a força biopolítica que faz frente ao Império.

Ou seja, Império e multidão tem “mecanismos de formação de alguma forma análogos, em

sua absoluta diferença e em sua absoluta oposição” (Negri, 2003, p. 153). Segundo Silveira,

os dois autores “lançam o conceito de multidão como substituto da classe operária como

sujeito revolucionário” (2014, p. 22). Para eles, a noção de multidão se sustenta sobre três

pilares. Primeiro, ela é o nome de uma imanência, de um conjunto de singularidades não

representáveis. O conceito aqui se opõe à noção de povo, que se fundava na ideia de

formação de um uno homogêneo que, através da abstração da multiplicidade de

singularidades, permitia a transcendência soberana. Também é distinta às massas e à plebe

porque consiste em algo organizado (ou auto-organizado), ou seja, não é uma força

irracional (por isso facilmente manipulável), perigosa e violenta. Negri considera que

uma enorme vantagem do conceito de multidão é que ele afasta todos os argumentos modernos baseados no ‘medo das massas’ e também aqueles relativos à ‘tirania da maioria’, argumentos que com frequência serviram como uma espécie de chantagem para obrigar-nos a aceitar (e muitas vezes inclusive a pedir) nossa própria escravidão (2003, p. 166).

Segundo pilar: devemos assumir a multidão como um conceito de classe, pois é

sempre produtiva e está sempre em movimento. Este aspecto nos aproxima da lógica do

capitalismo cognitivo, ou pós-fordista. A multidão é explorada na produção a partir do

momento em que o trabalho imaterial, realizado por meio da criação em rede entre os

indivíduos, gera valor. O conceito de exploração refere-se, assim, à exploração da

cooperação. É possível complementar este ponto da argumentação dos dois autores

retomando a análise de Virno (2013), que observa que a lógica da multidão no trabalho

pós-fordista rompe com a divisão do trabalho no sentido que não corresponde mais a critérios

técnicos e torna-se arbitrária e dinâmica, organizando-se de forma a garantir agilidade de

(24)

Por último, a multidão corresponde a uma potência, ou seja, é uma força, que nasce

no mesmo processo de cooperação que é explorado pelo capital. Consiste de uma substância

viva, que funde corpo e intelecto, à qual os autores denominam carne.

No entanto, se queremos crer na potência política da multidão, a despeito da

multiplicidade que a forma, é essencial buscar quais elementos mantém essas

individualidades unidas. O que dá coesão à multidão, colocando-a em movimento em busca

de determinado objetivo? Nesse sentido, Negri afirma que

a multidão não é nem o encontro da identidade, nem pura exaltação das diferenças, pode existir “algo comum”, isto é, “um comum”, sempre que ele seja

entendido como proliferação de atividades criativas, relações ou formas

associativas diferentes (2003, p. 148, grifos do autor).

Virno (2013) também fala de “comum”, e começa a buscá-lo na definição

aristotélica de “lugar comum”, que corresponde às estruturas mais básicas e gerais das

formulações lógicas e linguísticas, partilhadas por todos os seres humanos. Ou seja, é a

estrutura óssea invisível no nível do discurso que serve de base para o desenvolvimento de

ideias mais complexas, as metáforas, as sutilezas, as alusões, as quais Aristóteles denomina

“lugares especiais”, estes sim visíveis na superfície dos nossos enunciados. Assim, os

“lugares especiais” são aqueles típicos dos espaços comunitários específicos, como a igreja,

um clube ou um grupo partidário.

Contudo, as diversas transformações pelas quais temos passado inverteram a posição

desses lugares: dissolveram e decompuseram os lugares especiais, fazendo aflorar

diretamente no discurso os “lugares comuns”, tornando-os visíveis. Em outras palavras, não

podemos mais contar com o conforto das formas de discurso complexas e particulares. Nas

palavras do autor:

(25)

Dessa forma, no entendimento de Virno, diferentemente de Hardt e Negri (2005), a

multidão não é avessa ao uno, mas o re-determina. Enquanto o povo corresponde a um

movimento centrípeto, no qual se forma um uno político que pode transferir sua soberania

ao Estado; na multidão o movimento é centrífugo: a partir do uno partilhado dos lugares

comuns, distribuem-se os muitos. Para renomear esse repertório de faculdades

linguístico-cognitivas comum à espécie, o autor retoma o termo general intellect, utilizado por Marx.

Para o autor, faz parte desse universo comum da multidão contemporânea a própria história

do capitalismo assim como as “vicissitudes da classe trabalhadora”. É neste ponto,

provavelmente, que a teoria de Virno mais se afasta do pensamento de Hardt e Negri, pois

estes veem no capitalismo apenas algo a ser combatido.

Ao falar de “lugares comuns”, o autor adiciona uma pequena observação, uma

perspectiva em aberto, entre parêntesis e seguida de reticências, extremamente valiosa para

a reflexão que aqui nos propomos: “pensar na web...” (2013, p.27). Sugere que a internet

consiste em um importante ambiente comunicativo da multidão, no qual se reproduzem os

lugares comuns e, assim, forma a rede que dá coesão aos muitos. É exatamente esse

fenômeno que pretendemos observar aqui, ao avaliar as manifestações, inicialmente

organizadas no ambiente virtual e que depois vazam para as ruas.

Outro elemento que, segundo Virno, daria coesão à multidão seria aquilo que o ser

humano tem de “pré-individual” (2013, p. 56). Muito próximo ao próprio conceito de

general intellect, o pré-individual consistiria em todas aquelas características comuns aos

seres humanos que servem de ponto de partida para a individuação. Seria formado pelo

fundo biológico da espécie humana, a língua histórico-cultural da comunidade à qual

determinado indivíduo pertence, e, por último, a relação de produção dominante, o conjunto

histórico de forças produtivas, ou seja, mais uma vez, o próprio capitalismo.

O aspecto que parece mais relevante com relação ao processo de individuação é que,

ao contrário do que pareceria natural, o universo do coletivo, da vivência social, não é onde

se moderam os traços de individuação em prol do coletivo, pelo contrário, é justamente o

espaço de um processo de individuação ainda mais radical. Baseado nas teorias de

Simondon, o autor argumenta que é só em contato com os outros que aquilo comum a todos,

(26)

individualidade. Essa perspectiva nos ajuda a entender a visão de multidão de Virno (2013)

enquanto entidade centrípeta, que parte de algo em comum para uma pluralidade de seres.

Negri e Hardt (2005) apontam ainda outro caminho que nos pode ser útil na busca

daquilo que dá coesão ao coletivo da multidão. Segundo os autores, devemos entender a

multidão enquanto potência positiva frente a um obstáculo, considerando o obstáculo como

um elemento externo que nos impede de ir além. Assim, aquilo que une a multidão

disforme, transformando-a num coletivo de individualidades, é justamente o obstáculo.

Talvez essa coesão só seja possível graças ao general intellect e ao pré-individual como

indicado por Virno (2013), graças a esse pano de fundo comum que permite uma

compreensão mútua (e por compreensão não necessariamente queremos dizer

entendimento), mas o gatilho formador de uma determinada coletividade é um actante

externo, o obstáculo. Uma vez que o obstáculo esteja vencido, essa coletividade se

desmancha, a não ser que encontre uma nova barreira logo em seguida, pois perde o

elemento que unia as individualidades de maneira a formarem uma força positiva.

Virno traz também outra perspectiva sobre o conceito de multidão não abordada por

Negri e Hardt, que focados na promessa revolucionária, não consideram seu potencial

perigo. Ele destaca que a multidão “não tem nada de idílico” (2013, p.98), ambivalente,

caracteriza as relações contemporâneas, tanto para o bem quanto para o mal, tanto como

uma potência insurgente, quanto como parte de um dispositivo de servilismo e controle. A

multidão, quando não assume um papel na esfera política, se vê subjugada ao processo

produtivo do capitalismo pós-fordista. Nesse sentido, não traz emancipação alguma, apenas

propicia a “proliferação descontrolada de hierarquias” (p.25).

Para concluir a busca pelo entendimento do conceito de multidão, Virno apresenta

uma observação bastante importante sobre a dificuldade de encontrar uma definição:

“Encontramo-nos perante um problema complexo: procuramos um conceito sem história,

sem léxico, enquanto que o conceito ‘povo’ está completamente codificado, com palavras

concretas e matizes de todo tipo” (2013, p. 27). Assim, é essencial ter em mente que

estamos frente a um desafio e não de um conceito fechado. Com certeza ainda restam

muitos questionamentos a serem realizados e diferentes variáveis a serem verificadas.

De qualquer maneira, a despeito dessa porosidade do termo, a ideia de multidão

consiste em uma importante referência para a compreensão das diferentes manifestações

ocorridas nos últimos anos. Tanto aquelas que iremos analisar mais a fundo aqui, como as

(27)

nessa noção e nos ajudam a ilustrá-la. Lá está a carne, esse conjunto de corpos que se unem,

apesar de suas diferenças, de suas singularidades. O que nem sempre fica claro, no entanto,

é para onde se direciona essa potência. Entendemos sua origem, contra que ela se coloca,

mas nem sempre está claro o rumo que irá tomar.

1.5. O Plurilingüismo !

Embora não utilize os termos multidão ou Império, Lazzarato (2006) fala dessa

mesma disputa de poder entre a multiplicidade e o capitalismo dominante, mas coloca-a

numa perspectiva diferente. Considerando que, no contexto da sociedade de controle, esse

embate se dá principalmente entre os enunciados, isto é, no ambiente discursivo, o autor

contextualiza a disputa no território da comunicação, retomando a visão de Bakhtin de que o

espaço das expressões é um campo de batalha constante constituído e organizado em

função do confronto entre forças sociais e políticas (p.157). Campo de batalha este formado

principalmente pelas tecnologias de comunicação, pelos dispositivos de expressão que agem

à distância, potencializam a troca de enunciados e estão no próprio cerne da sociedade de

controle.

Assim, é possível entender essa disputa identificando dois grandes tipos de discurso

nela envolvidos. O primeiro, marcado pelo “plurilingüismo”, corresponde àquelas forças

que visam a polifonia, a diversidade, a criação de novas possibilidades e, portanto, de novas

formas de poder. O outro, dito “monolingüismo”, direciona-se no sentido oposto, busca a

unidade, a centralização, o consenso.2 Dessa maneira, podemos entender que o primeiro corresponde justamente à força da multidão nessa disputa, buscando colocar sua diversidade

através da qual surgem novos devires, criando um território de possibilidades

imprevisíveis. No outro extremo, o capitalismo, numa estratégia de dominação, briga pela

manutenção da ordem tal qual instalada.

Aqui se poderia indicar uma contradição, pois falamos anteriormente que o Império

não só abrigava, como incentivava a diversidade, pois esta seria a base do funcionamento do

capitalismo pós-fordista, tanto no âmbito da produção, quanto para a multiplicação de

nichos de consumo. No entanto, não se pode perder de vista que a força do capitalismo

busca modular a multiplicidade, controlá-la de maneira que não ofereça riscos à soberania

imperial. Ou seja, ela mantém a diferença no limite da garantia de sua dominação.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 2

(28)

Lazzarato chama atenção para um elemento já tratado por Tarde, mas que, de tão

corriqueiro, muitas vezes não recebe o devido destaque: a conversa. Ela é a condição

primeira para a existência do plurilingüismo. Só através do outro é que um enunciado ganha

sentido, e só na interação entre dois ou mais sujeitos que o novo pode emergir, tornar-se

forte e ganhar corpo. “Com a conversa forjam-se os desejos e as crenças que constituem as

condições necessárias à formação dos valores” (2006, p. 162).

Essa criação do sensível típica da conversa, no entanto, também pode ser

manipulada pelas mídias, na forma da opinião pública, esvaziando sua potência enquanto

multiplicidade, transformando-se em mais um instrumento do monolingüismo. Essa função

neutralizante cabe aos jornalistas, militares, políticos, e toda sorte de especialistas que

vemos circular nos jornais, rádios e, especialmente, na televisão.

Não há dúvidas de que a televisão é o principal instrumento para formação de

maiorias, de “padrões de subjetividade que neutralizam todo o devir” (Lazzarato, 2006,

p.169) e modelam o homem médio, aquele indiferente à possível multiplicidade de

enunciados. Com seu alcance e apelo massificadores, ela opera como um emissor unilateral

de imagens que ignora a individualidade dos receptores, transformando-os a todos em

sujeitos “anônimos e indiferenciados”, e por muito tempo foi extremamente eficiente em

reduzir ao mínimo os espaços possíveis para o plurilingüismo.

A internet, por outro lado, permite um rompimento desse padrão. Com ela, a

multidão tem um novo espaço para semear seus enunciados diversificados, um território de

conversa onde o novo pode ser construído. O usuário deixa de ser uma massa anômala e

torna-se uma singularidade, um indivíduo, livre para conectar-se com outros indivíduos. E

é este movimento que iremos verificar na análise do corpus dessa dissertação.

1.6. O Antipoder

Negri e Hardt identificam a potência da multidão, já apresentada, enquanto

biopolítica ou como antipoder frente ao controle soberano exercido pelo Império. Essa força

seria composta por três elementos: resistência, insurreição e poder constituinte. A

resistência é exercida no dia-a-dia, nas ações realizadas contra a dominação, contra o poder

ou contra a autoridade, nas suas diferentes estruturas, seja no trabalho ou na família, por

exemplo. Ela consiste na interação constante com a força dominante, interação esta que

(29)

Já insurreição ocorre em intervalos maiores de tempo, quando a multidão ganha corpo

enquanto coletivo e se torna ativa na luta por objetivos comuns. “A insurreição aperta as

diversas formas de resistência em um único nó, as homologa...”(Negri, 2003, p. 197).

Constitui eventos, ou, como veremos a seguir, acontecimentos. O poder constituinte é a

potência de concretizar as mudanças criadas pela resistência e pela insurreição, ou seja,

dar-lhes forma para que assim possam sobreviver para além de um determinado acontecimento.

Organiza e consolida novas estruturas.

Essa insurreição, no entanto, não pode seguir os mesmos modelos daquelas

modernas, uma vez que não faz mais sentido revoltar-se contra um Estado-nação em

declínio. Assim como o Império não tem fronteiras, a insurreição só poderia ser

bem-sucedida se armada de maneira a ocupar todo o globo. Revoluções locais logo teriam as

novas estruturas cooptadas pela soberania imperial.

Nessa guerra, é essencial inverter as relações, os dispositivos e as tecnologias de

poder soberano de forma a utilizá-las em favor da insurreição. Questão esta que será

especialmente importante para analisarmos o papel desempenhado pelas tecnologias de

comunicação em rede na organização das manifestações aqui analisadas.

1.7. Crise de representatividade

Ao escreverem o segundo livro da trilogia, Multidão (2005), Hardt e Negri trataram

das manifestações antiglobalização, mas pode-se dizer que havia uma antecipação das

diversas revoltas populares que se observou (e se segue observando) após a crise econômica

de 2008: “Por trás dos projetos de hoje não existe uma racionalidade enciclopédica, a

maioria deles visa, pelo menos em parte, a falta de representação” (p. 341).

Na obra seguinte, Commonwealth (2009), os autores traçam um longo panorama

histórico, passando pelas diversas revoluções burguesas, para mostrar como o próprio

conceito de “república”, difundido pelo mundo através do colonialismo europeu, já

representava, na verdade, a república da propriedade. Em outras palavras, a própria forma

do nosso sistema representativo carrega uma essência não democrática, uma vez que é

baseado na inviolabilidade do direito à propriedade privada, excluindo e subordinando

aqueles sem posses. Assim, não é a toa que a falsa e distorcida representatividade dos

(30)

agravando-se. “O ato de votar frequentemente parece não passar de uma obrigação em

escolher um candidato indesejado, o menor dos males, para nos representar mal por dois,

quatro ou seis anos” (Hardt e Negri, 2005, p. 342).

Há de se considerar ainda que as formas não-eleitorais de representação carregam

um grau ainda menor de legitimidade. Os autores identificam, por exemplo, que muitas

vezes encaramos as grandes corporações como representantes dos interesses nacionais na

medida em que acreditamos que aquilo que é melhor para elas é o melhor para o país (ou

cidade, ou estado). Nesse contexto, o máximo que podemos fazer é endossar determinada

representação corporativa preferindo comprar seus produtos aos da concorrente. No entanto,

“tais alegações de representação revelam-se, afinal, tão insultuosas quanto a velha noção

que o senhor feudal representa os camponeses de sua propriedade e o dono de escravos os

seres humanos que ele escraviza” (Hardt e Negri, 2005, p.342-343). Tampouco podemos

dizer que os organismos internacionais, tais como o Banco Mundial ou o FMI, compensam

ou corrigem essa falta de representatividade, pelo contrário, eles aprofundam a crise. Até

mesmo na ONU, qualquer processo de votação é extremamente desigual.

Segundo os autores, a “representação é, em si mesma, por definição, um mecanismo

que separa a população do poder” (2011, p. 43) e o indivíduo representado reconhece esse

problema, mas não vê alternativas, acabando paralisado pelo medo. Desse medo, “surgem

formas populistas ou carismáticas de uma política esvaziada até mesmo do fingimento da

representação” (2011, p. 42). Chegamos assim a um momento limite:

Ao deixar de ser um participante ativo da vida política, o representado se descobre o pobre entre os pobres, lutando sozinho na selva dessa vida social. Se não estimular seus sentidos vitais e despertar seu apetite pela democracia, o representado se tornará um produto puro do poder, a casca vazia de um mecanismo de governança que não faz mais referência ao cidadão- trabalhador (Hardt e Negri, 2014, p. 45).

Uma vez considerando a democracia como uma forma de poder soberano que emana

do povo, na era do Império ela é inalcançável. Mais que isso, a representação democrática

nunca passou de “mistificação monstruosa” (Negri, 2003, p.238). E se até agora ela parecia

ser o melhor sistema possível, apesar de suas deformações, talvez a multidão pós-fordista

esteja começando a apontar seu esgotamento, sem alinhar-se com o anarquismo já

(31)

Devemos então repensar o conceito de democracia tendo em vista os novos desafios

e possibilidades da nossa realidade, embora pareça existir um consenso que atravessa a

tradição da teoria política de que não há política sem soberania e que somente o uno pode

alcançá-la, portanto só ele poderia governar. Dessa maneira, acusam os autores, “a

democracia, assim como a aristocracia, é apenas uma fachada, pois na realidade o poder é

monárquico” (Hardt e Negri, 2005, p. 411). Ou seja, não se está falando na construção de

um novo Estado que detenha o “monopólio da decisão”, mas justamente de encontrar

maneiras de rearticular a relação “saber/poder”, que hoje ainda encontra-se “congelada no

aparato administrativo do Estado” (Virno, 2013, p. 27). Teríamos que, assim, romper com o

atual entendimento do conceito de soberania, pois a multidão nunca será soberana nesse

sentido estrito, e nos aproximaríamos da noção de democracia que Espinosa chama de

absoluta. Nas palavras de Negri e Hardt, “o poder da multidão de criar relações sociais em

comum coloca-se entre a soberania e a anarquia, com isto apresentando uma nova

possibilidade de fazer política” (2005, p.421).

Os partidos, por exemplo, já perderam o sentido, “morreram e estão sepultados”.

Foram os movimentos sociais que assumiram o papel de colocar os problemas em debate e

sugerir soluções. Impõe-se assim a necessidade de buscar outras formas de democracia,

organizadas de outra maneira. No entanto, não se trata mais de tomar o poder, mas criar

outro tipo de poder. “Se todos sabem que esta é uma perspectiva utópica, sabem também

que ela se torna necessária e realista pela vertigem da passagem de época que estamos

vivendo” (Negri, 2003, p. 239).

1.8. Uma nova política !

É nesse ponto que os autores, tanto Hardt e Negri (2005, 2012) quanto Virno (2013),

assumem seu caráter mais engajado ao defender a necessidade de uma democracia baseada

na multidão. Encontrar o formato dessa democracia, no entanto, não é tarefa fácil. Como

armar uma estrutura representativa se a multidão é justamente a multiplicidade, o não

mensurável? Aparentemente, então, essa nova forma de democracia não poderá seguir o

modelo representativo firmado na modernidade. Para Virno, haveria de instituir-se uma

“forma radicalmente nova de democracia”, baseada numa “esfera pública não estatal”, que

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Tabela 1: Dados gerais Facebook
Figura 1: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Fonte:
Tabela 3: Crítica à segregação social no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”.26
Tabela 5: A importância do humor no caso “Churrascão de Gente Diferenciada”.
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