Capítulo II – Net-ativismo e casos de estudo
2.3. Algumas considerações sobre o net-ativismo
!
Esse panorama histórico nos permite identificar algumas características que atravessam a evolução do net-ativismo. Uma delas é uma aversão ao poder político institucionalizado ou a qualquer forma de centralização de poder, aspecto no qual se reflete o caráter libertário da internet, que foi “deliberadamente programada por cientistas e hackers como uma rede descentralizada de comunicação por computadores capaz de resistir ao controle de qualquer centro de comando” (Castells, 2013, p. 168). Essa desconfiança com relação às autoridades resulta em um progressivo afastamento da política tradicional.
Di Felice identifica uma “recusa da institucionalização, expressa seja na comum aversão aos partidos políticos, seja na recusa, também generalizada, de se tornar uma força política institucional” (2013, p. 59). Uma característica que, como aponta Castells, decorre diretamente das especificidades comunicacionais da internet enquanto espaço discursivo, que ele caracteriza como “autocomunicação de massa”: “A autocomunicação de massa fornece a plataforma tecnológica para a construção da autonomia do ator social, seja ele individual ou coletivo, em relação às instituições da sociedade”(2013, p. 12). Observamos, assim, que podemos começar a traçar paralelos entre características do net-ativismo e alguns dos elementos que caracterizam a multidão, apontadas no primeiro capítulo deste trabalho.
Outro aspecto importante é o caráter lúdico que os movimento net-ativistas herdam da contracultura dos anos 1960. Ortellado (2004) aponta que esta é uma característica marcante já nas manifestações antiglobalização no início dos anos 2000. Segundo Ugarte, as revoltas net-ativistas são carregadas por um caráter de resistência civil não violenta, perpassada por um sentimento de humor subversivo:
Substituindo as graves assembleias por blogs, agregadores, e links, mudando as reuniões e as bandeiras por concertos de rock e cartazes de impressão caseira, com
frases provocativas, a revolução é vivenciada na primeira pessoa, como algo alegre, criativo, divertido e pleno, prefigurando o modo de vida pelo qual se luta, e a liberdade que se almeja, no estilo de vida que se descreve. As pessoas aderem a uma forma de viver, a uma aposta pela vida. Como dizia, ao fazer sua análise, o grande Srdjia Popovics: Ganhamos porque amávamos mais a vida. Decidimos amar a vida e isso você não pode nos tirar. E isso é justamente o que Otpor fez. Éramos um grupo de fãs da vida e por isso ganhamos (2008, p. 53).
Um último elemento de extrema importância, recorrente em todo esse percurso histórico, que se torna uma das principais marcas definidoras do conceito de net-ativismo, é a estrutura organizativa em forma de rede. Relacionada com a aversão à política institucionalizada, essa estrutura não costuma permitir o surgimento de figuras de liderança. Segundo Castells, não se trata de “uma falta de líderes em potencial”, mas sim de uma “profunda e espontânea desconfiança da maioria dos participantes do movimento em relação a qualquer forma de delegação de poder” (2013, p. 162), resultado do sentimento de traição que carregam de suas experiências com a política tradicional.
Ugarte descreve essa estrutura organizativa como uma multiplicidade de agentes que atuam de forma autônoma, coordenando-se espontaneamente, operando num conflito “multicanal” em diferentes frentes. Desse “aparente caos, emerge uma ordem espontânea” (2008, p. 56). Ortellado, ao tratar das manifestações antiglobalização no Brasil, caracteriza as redes como estruturas flexíveis, fluidas, plurais e descentralizadas, uma vez que “não são organismos com uma estrutura organizacional definida ou com posições uniformes” (2004, s/p). Nessa rede, diferentes agentes, sejam eles indivíduos, organizações ou ainda outras redes, se agrupam com base apenas em princípios gerais. O autor fala em “objetivos específicos” e “princípios gerais acordados”, mas a evolução desses acontecimentos nos mostra que esse acordo, vez ou outra, ocorre de forma implícita e difusa, como se observa em algumas das revoltas na Europa e Estados Unidos em 2011. O elemento que une esses agentes parece ser mais um sentimento comum de recusa.
Ortellado (2004) aponta ainda que a estrutura em rede carrega alguns aspectos particulares no que diz respeito à ação organizativa dos agentes que a integram, uma vez que propicia a convivência e o trabalho de grupos e indivíduos sem que estes tenham que abrir mão de suas diferenças para atuarem em conjunto. Ao contrário das organizações institucionalizadas, que demandam uma afinidade política que resulte em posições unitárias, “a construção de redes é baseada em alianças totalmente ‘ad hoc’, que duram o tempo da
campanha” (2004, s/p). Dessa forma, tem-se uma estrutura na qual não há espaço para práticas hegemônicas. Aspecto que complementa a crise na figura da liderança, entendendo o líder como aquele capaz de ser porta-voz das ideias de uma determinada organização, uma vez que na rede são poucas as posições comuns que podem ser tornadas públicas. Da mesma maneira, uma vez que é constituído por redes abertas, o movimento maximiza as chances de participação de novos indivíduos e coletivos. Ele também reduz sua vulnerabilidade à ameaça de repressão, “já que há poucos alvos específicos a reprimir, exceto nos lugares ocupados”. Além disso, “a rede pode se reconstituir enquanto houver um número suficiente de participantes, frouxamente conectados por seus objetivos e valores comuns” (Castells, 2013, p. 160).
A partir dessa reflexão, pode-se começar a desenhar quais são os elementos definidores da mobilização net-ativista. Silveira, por exemplo, caracteriza “ciberativismo” como “um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na internet” (2010, p. 31). Já Ugarte define “ciberativista” como
alguém que utiliza a internet [...] para difundir um discurso e colocar à disposição pública ferramentas que devolvam às pessoas o poder e a visibilidade que hoje são monopolizados pelas instituições. Um ciberativista é uma enzima do processo pelo qual a sociedade deixa de se organizar em redes hierárquicas descentralizadas e passa a constituir-se em redes distribuídas basicamente igualitárias (2008, p. 58).
O autor espanhol indica três pilares como base para a ação ciberativista. O primeiro corresponde ao discurso, enquanto conjunto de enunciados de indivíduos ou pequenos grupos que buscam transformar a realidade, como uma forma de “hacking social” (2008, p. 56), ponto que nos remete à linguagem como campo de intensa disputa entre palavras de ordem, tal como levantado no primeiro capítulo.
O segundo pilar diz respeito às ferramentas desenvolvidas ou já existentes utilizadas para disseminar esses enunciados. Sobre tal aspecto, destaca que “as ferramentas não são neutras, desde arquivos descarregáveis para fazer modelos, volantes de camisetas até software livre para fazer e federar blogs, passando por manuais de resistência civil não- violenta” (2008, p. 57 e 58). Mais um paralelo surge aqui, desta vez com as estratégias que a multidão adota contra o Império, indicadas por Hardt e Negri (2005). Se Ugarte aponta a importância das ferramentas, a dupla de autores trata justamente da importância de
apropriação de dispositivos, da inversão de nossas relações com estes e com as tecnologias de poder.
Essa apropriação e inversão nas relações com os dispositivos aparecem também no último pilar de Ugarte, que indica a visibilidade como um fator chave para potencializar qualquer ação ativista. Ela é essencial para “alcançar tipping points, momentos nos quais se alcança o umbral de rebeldia e informação, e as ideias propagam-se por meio de um número de pessoas que cresce exponencialmente” (2008, p. 58).
Refletindo um pouco mais sobre esse último pilar, é inevitável problematizar o termo “ciberativismo”. Di Felice (2013) também reforça a importância da visibilidade e afirma que a manifestação “acontece, de fato, somente se é filmada, fotografada e postada na rede” (2013, p. 65). Dessa perspectiva, surge uma questão relativa ao ambiente no qual se dá o ativismo, uma vez que a ação na rua torna-se novamente digital para que seja compartilhada e distribuída. Assim,
resulta inadequado pensar na distinção entre espaços físicos e espaços informativos. A qualidade da ação conectada digitaliza as ruas e as cidades para ganhar indefinível localidade e se reproduzir aquém dos espaços urbano e político (2013, p. 65).
O autor identifica o surgimento de um novo tipo de “carne informatizada”, que congrega uma experiência de duas dimensões igualmente reais, uma digital e conectada, outra física e material. A fronteira entre o espaço digital da internet e o espaço físico onde habitam os corpos biológicos, que já começa a ruir com o zapatismo, segue perdendo força nos eventos seguintes e cai completamente por terra a partir das revoltas de 2011. Os movimentos não só têm origem nas redes sociais digitais, mas segue conectado a elas quando nas ruas, estabelecendo uma troca de interações contínua e multidimensional, tanto no ambiente físico, quanto no digital. Para Castells, “esse híbrido de cibernética e espaço urbano constitui um terceiro espaço”, ao qual ele denomina de “espaço de autonomia” (2013, p. 161). Espaço este que assume suma importância uma vez que, por conta das redes sociais digitais, “temos agora um mundo permanentemente em rede em cada dimensão da experiência humana” (2013, p. 169)
movimentos deve ser
sua especificidade atópica, determinada pelas contínuas interações de trocas de fluxos informativos entre indivíduos, dispositivos de conectividade, banco de dados, circuitos informativos e territorialidades. Como relato em outros contextos, os manifestantes que participaram dos protestos e passeatas, em diversas latitudes e contextos, nos últimos anos, habitam espaços estendidos alcançados pelo poder da conexão de seus dispositivos móveis (2013, p. 65).
O termo “ciberativismo”, no entanto, não dá conta dessa complexidade. O prefixo “ciber” remete a um tipo de ativismo que se dá unicamente no “ciberespaço”. Di Felice (2013) propõe, então, a reapropriação do termo “net-ativismo”, que havia sido cunhado por Ed Schwartz em 1996 e que adotamos neste trabalho. Dessa forma, assume-se a estrutura em rede como característica definidora desses movimentos, considerando que ela é formada não só por agentes humanos (indivíduos, grupos ou coletivos), mas que as plataformas tecnológicas informacionais também desempenham um papel central nessas dinâmicas.
Neste ponto, é importante evitar um possível equívoco: ainda que atores essenciais, não se pode perder de vista que a internet e qualquer outra tecnologia não podem ser consideradas “fontes de causação”, como aponta Castells (2013, p. 166). As relações que se desenrolaram nessa rede são mais complexas. Para o pesquisador espanhol, “os movimentos sociais surgem da contradição e dos conflitos de sociedades específicas”, no entanto, a comunicação e os instrumentos adotados com fins comunicativos são essenciais uma vez que “as pessoas só podem desafiar a dominação conectando-se entre si, compartilhando sua indignação, sentido companheirismo”. Assim, as redes de comunicação determinam algumas características estruturais e as possibilidades de um movimento. Em outras palavras, no contexto atual, as redes sociais digitais não só são ferramentas decisivas no que diz respeito a mobilização e organização, “mas o papel da internet ultrapassa a instrumentalidade: ela cria condições para um forma de prática comum que permite a um movimento sem liderança sobreviver, deliberar, coordenar e expandir-se” (Castells, 2013, p. 166).