Ciências da Comunicação
A Tomada de Decisão do Primeiro Voto
Processos de tomada de decisão e valores dos jovens eleitores portugueses
Marta Maia
Dissertação para a obtenção do grau de mestre
Orientador: Prof. Doutora Ana Côrte-Real
A
GRADECIMENTOSÀ minha família, pela paciência e confiança.
À minha mãe, pelas revisões com olho clínico para letras e vírgulas fora do sítio.
À minha orientadora, por manter a calma mesmo debaixo de uma chuva de dúvidas.
Aos meus colegas, pelas reuniões “terapêuticas” de grupo e partilha, quer de problemas, quer de soluções.
A
BSTRACTTo vote or not to vote? The Portuguese society’s answer to this question is increasingly negative, mainly in the younger age groups – and arises the concern for the risk we are subjecting the democracy itself to. Portuguese youngsters’ poor electoral participation represents one of the biggest challenges that Political Science and Political Marketing face nowadays, and the solution is to understand the motivations that lead to a detachment political attitude. Asking young people what do they think, what kind of politicians would they like to have and why don’t they approve the ones who govern them right now is only possible through dialogue and direct contact. As a result from an interview to a group of students, objetive criticizing and suggestions, added to firmly supported political standings lead to the conclusion that Portuguese youngsters are not as alienated from politics as one might think. They know what they want, how they want it, and what should be corrected in the democracy where they were raised: and leave us here their own electoral profile.
R
ESUMOÍ
NDICEAgradecimentos ... 2
Abstract... 3
Resumo ... 3
Índice ... 4
Introdução... 6
Capítulo I : Revisão da Literatura... 8
Parte A: Enquadramento conceptual do Marketing Político ... 8
1. O voto ... 9
1.1. Tipos de Eleitor ... 12
1.2. Tipos de voto ... 15
2. O conceito de decisão ... 18
2.1. Abordagens ao estudo do processo de decisão... 19
2.2. Fases do processo de decisão ... 21
2.3. Certeza, Incerteza e Risco ... 25
2.4. Modelos de tomada de decisão... 31
2.4.1. Modelo da utilidade esperada/Modelo da utilidade subjetivamente esperada (USE)... 32
2.4.2. Modelo “Satisficing” ... 33
2.4.3. Modelo Afetivo-Referencial... 35
2.4.4. Modelo Compensatório ... 36
2.4.5. Modelo Lexicográfico ... 38
2.4.6. Modelo Conjuntivo... 39
2.4.7. Modelo Disjuntivo... 41
2.4.8. Modelo de Eliminação Sequencial ... 42
2.4.9. Modelo Minimax/Maximax... 43
2.4.10. Modelo Aditivo ... 43
2.4.11.Modelo Aditivo-Diferencial ... 44
2.5. O uso de Heurísticas: “Overfitting”... 44
3. Os fatores que influenciam o voto... 46
3.1. Teorias de Comportamento Eleitoral... 56
4. Os Jovens e a Política ... 58
4.1. O comportamento eleitoral dos jovens ... 65
4.2. Fatores que influenciam o comportamento eleitoral dos jovens ... 68
Parte B: Enquadramento conceptual da Metodologia ... 70
1. A Entrevista ... 70
1.1. Entrevista coletiva ou grupo focal? ... 71
1.2. As limitações de uma entrevista ... 73
1.4. Tipos de entrevista... 74
1.5. O guião ... 75
1.6. O entrevistador ... 77
2. A amostra... 78
Capítulo II – Análise Empírica... 82
1. Metodologia... 82
2. Técnica... 82
3. Amostra ... 83
4. Procedimento... 83
5. Análise de dados e discussão dos resultados ... 85
5.1. De que forma os jovens encaram o recenseamento? ... 86
5.2. O voto, o não voto e o voto em branco... 86
5.3. Um “fazer política” desajustado... 88
5.4. A procura de informação ... 89
5.4.1. As novas Tecnologias da Informação e a relação com os atores políticos... 90
5.5. As influências no processo de decisão do voto ... 92
5.6. Uma nova perspetiva sobre a Política... 93
5.7. O papel dos partidos políticos na escolha do eleitorado jovem... 94
5.8. Os valores do eleitorado jovem ... 96
5.9. O perfil de um candidato ideal ... 97
5.10. Os modelos de tomada de decisão... 101
5.11. A perceção de um voto defraudado ... 105
5.12. Os políticos que os jovens gostariam de ter ... 107
Sugestões Estratégicas... 108
Conclusão ... 110
Bibliografia... 113
Anexo I ... 117
Anexo II... 120
I
NTRODUÇÃOO futuro pertence aos jovens. É uma das frases que mais vezes ouvimos, em diversos contextos, e em Política não é exceção. Os eleitores de hoje, ainda jovens e cheios de ideais, são os eleitores experientes de amanhã, quem sabe até os candidatos aos cargos políticos do futuro. Ser jovem, num contexto político, é ter um valor potencial que interessa aos agentes políticos aproveitar. Além de representarem uma fatia significativa do eleitorado, os jovens são ainda uma matéria por moldar: a definição ainda recente da sua personalidade, os valores pessoais em construção e a volatilidade das suas opiniões transformam-nos em eleitores sem amarras partidárias, com sede de informação e à procura de ideias que os identifiquem e integrem na sociedade adulta. Convém também não ignorar as teorias que encaram o primeiro voto de um eleitor como um ótimo preditor do seu comportamento nos atos eleitorais que se seguem – a serem verdadeiras, conquistar o primeiro voto de um jovem é conquistar um eleitor fiel para as próximas eleições, e as seguintes, e as seguintes. Que candidato ou partido não sonha com este tipo de eleitor? Que quer ser aliciado e que, uma vez conquistado no primeiro ato eleitoral em que toma um papel ativo, pouco ou nada mais exige para permanecer fiel ao seu primeiro voto em todas as eleições seguintes?
Contudo, a participação eleitoral dos jovens portugueses não tem apresentado índices animadores, o que se revela preocupante – principalmente porque se prevê o agravamento da situação no futuro, quando de uma fatia pequena do eleitorado estes jovens passarem a representar a maioria dos votantes. Como manter a democracia num país onde o eleitorado não se interessa por política? E como formar politicamente jovens que nem sequer participam nos atos eleitorais?
precisamente sobre estas questões que se debruça este trabalho. O objetivo é ajudar ao desenvolvimento das estratégias do Marketing Político e das teorias da Ciência Política, trazer um primeiro vislumbre do que é o eleitorado jovem e do que o distingue da restante população eleitoral. Pretende-se compreender o seu voto, a forma como o orienta e a perspetiva que tem sobre ele.
Com o objetivo de responder a todas estas questões, este trabalho começa com uma contextualização teórica, um processo vital deste tipo de investigação. Estudar uma população totalmente desconhecida seria, muito provavelmente, infrutífero, até porque tornaria quase impossível a chegada a conclusões oportunas e úteis aos objetivos do estudo. O que se procura neste capítulo é, então, compreender o conceito de voto e de eleitor, bem como os processos de tomada de decisão humanos, mais especificamente dos jovens – encarados como uma faixa populacional suis generis, com características e formas de raciocínio próprias que podem alterar os padrões tradicionais de tomada de decisão. Para auxiliar esta tarefa, acrescenta-se uma breve análise do comportamento dos jovens e da forma como se integram na sociedade, aliada aos fatores reconhecidos pela Ciência Política como grandes influenciadores da decisão eleitoral.
Contudo, a teoria por si só não basta, e neste caso em especial porque os trabalhos de investigação existentes pecam num de dois aspetos: ou se centram somente numa perspetiva psicológica/científico-política/sociológica, não servindo os propósitos do estudo do primeiro voto em específico; ou têm por base uma população jovem em muitas características diferente da que temos hoje em Portugal – na nacionalidade, na época em que vive, nos contextos sócio-económicos em que se insere.
Desta forma, e depois de apresentada a metodologia adotada na investigação, desenvolve-se, num segundo capítulo, uma análise a um grupo de jovens entrevistados e às ideias que expressaram, procurando-se tirar conclusões oportunas e reveladoras sobre as suas perspetivas políticas. A descoberta das suas formas de decisão, bem como das suas motivações, preferências e prioridades políticas conduzem ao traçar não de um, mas de dois perfis – o do eleitor jovem e o do candidato político ideal para esta fatia do eleitorado.
C
APÍTULOI
:
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EVISÃO DAL
ITERATURAPARTE A:ENQUADRAMENTO CONCEPTUAL DO MARKETING POLÍTICO
Estudar o voto e o seu processo de decisão não é uma tarefa simples. O voto, enquanto decisão, é um processo psicológico complexo, não só devido às inúmeras e variadas formas que pode tomar como também devido à grande quantidade de fatores internos e externos ao indivíduo que o influenciam. Decidir algo, por si só, já exige de um indivíduo um esforço psicológico significativo – há que avaliar o problema, as alternativas, as suas vantagens e desvantagens, escolher o mais adequado aos objetivos que o sujeito traçou para si e ao problema que ele enfrenta. Ao longo das últmas décadas, muitos foram os modelos de tomada de decisão aceites pela Psicologia, sem que mesmo assim sejam admitidos como os únicos existentes e definitivos. Diferem entre si no número de alternativas que comportam, na forma de raciocínio que o decisor adota e até na solidez da personalidade que o caracteriza. Todavia, ainda não foi reconhecido um conjunto de modelos mais aplicáveis às decisões tomadas em contexto político, provavelmente por se tratarem de situações complexas e elaboradas (existem muitos contextos políticos possíveis, com processos eleitorais distintos a decorrer no seio de sociedades que diferem entre si).
Os eleitores, antes de serem eleitores, são indivíduos, no conceito psicológico da palavra, e como tal são marcados por uma inegável heterogeneidade. Desta forma, não é possível assumir, logo no ponto de partida de uma investigação como esta, que tendem a recorrer a um ou outro modelo de tomada de decisão. Esta ideia ganha ainda mais importância quando em causa está um público pouco estudado ainda, como é o caso dos eleitores jovens. Qualquer modelo de tomada de decisão está dentro das suas capacidades cognitivas e, como se verificará no quadro elaborado para o guião da entrevista coletiva, todos se podem aplicar ao contexto da decisão de voto.
1. O voto
Numa sociedade em que os números da abstenção eleitoral crescem a cada ano que passa, à análise dos fatores decisivos para a orientação do voto deve preceder a análise da motivação para a participação eleitoral. Votar ou não votar é uma questão que os eleitores se colocam a cada ato eleitoral, e a resposta tem vindo a ser cada vez mais negativa. Basta avaliar os dados estatísticos do caso português: se em 1979 a abstenção pouco ultrapassou os 17%, vinte anos depois, em 2009, mais de 40% dos portugueses não foram sequer às urnas.
Das motivações para o não voto surgem várias teorias. Uma delas, avançada por Carlos (2004), envia um claro aviso às classes que ocupam os lugares de poder em todo o mundo: os cidadãos não confiam nos políticos. Baseado numa análise do comportamento eleitoral norte-americano, o autor observa que “alguns cidadãos questionam-se sobre se algum político vai ou não cumprir as suas promessas. (...) Isso está a contribuir para uma falta de confiança, bem como uma falta de envolvimento na política” (Carlos, 2004). Esta desconfiança que os eleitores ganharam em relação às classes que os governam não nasceu de repente, mas tem vindo a ser alimentada pelos discursos com que se apresentam ao eleitorado. Discursos generalistas e vagos nas propostas, direcionados a todos os cidadãos mas em nenhum setor em particular, impedem cada eleitor de se identificar com o candidato e de se rever nas suas palavras. No fundo, “os eleitores sentem que os candidatos tentam ser todas as coisas para todos os eleitores” (Carlos, 2004), criando personagens que são tudo e nada ao mesmo tempo – estratégia que procura a identificação com um maior número de eleitores em simultâneo mas descaracteriza os candidatos enquanto indivíduos.
sobre os diversos candidatos, para depois ponderar as propostas oferecidas e escolher uma. Tudo isto requer a dispensa de algum tempo – para alguns eleitores mais, para ouros menos – e concentração. A deslocação, em si, até à mesa de voto também é um custo – proporcional à distância que o eleitor terá de percorrer e à dificuldade em fazê-lo (Moro, 2009) – que se traduz em esforço (e, quem sabe, alguns gastos monetários, dependendo da necessidade ou não de meios auxiliares de transporte). No mesmo processo decisório, o benefício obtido com o resultado eleitoral é diretamente proporcional à preferência que o eleitor tem por um candidato em relação aos concorrentes – ou seja, “quanto menos [o eleitor] se preocupa com quem ganha, menor é a sua motivação para votar” (Goldfarb, [et al.], 2010:276).
O desinteresse pela política passa, perante esta perspetiva, a fazer muito mais sentido enquanto fator dissuasor do voto. Se o discurso político não envolve o eleitorado, se este não se sente parte do processo eleitoral, o resultado da avaliação custo-benefício vai ditar que não vale a pena o esforço de participar ativamente nas eleições.
eleições, se apresentam nas mesas de voto em maior número (Carlos, 2004:7) e decidem as eleições. Deste modo, ficam numa situação de quase exclusão os eleitores jovens, que não se identificam com os temas dominantes das campanhas políticas, e cujas preocupações não dizem ainda respeito a cuidados de saúde ou reforma (Carlos, 2004). Entramos, então, num ciclo vicioso – se a motivação do voto advém, em grande parte, da identificação com o discurso político, e se esse discurso não se molda aos interesses dos jovens, temos que este setor do eleitorado não tem interesse nem motivação para votar, contribuindo para o aumento da taxa de abstenção. Ao mesmo tempo, e com base nessa taxa de abstenção, os políticos não adaptam o discurso aos mais novos, porque eles representam uma fatia eleitoral que, além de ser reduzida em número, é quase insignificante em percentagem de participação e impacto no resultado final das eleições. Desta forma, a ideia que fica é a de que o processo de decisão da participação eleitoral é o primeiro passo, precedente do processo de decisão da orientação do voto, e não deve ser esquecido pelos agentes políticos porque pode ditar o fim de um processo eleitoral mesmo antes de este ter começado.
E se a solução imediata parece ser a inclusão da obrigação de voto na lei, a verdade é que os especialistas defendem que não só de obrigação legal se forma a vontade dos eleitores de votar. Na verdade, a lei pode até forçar a ida às urnas, mas não tem meio de forçar o voto responsável, porque pode até “tornar a abstenção ilegal, mas não afeta o caráter dos cidadãos daquele país” (Franklin, 2004). Somos, por isso, obrigados a reconhecer que, mesmo sendo o voto obrigatório, é preciso que o sistema eleitoral seja atrativo para os que nele participam, incentivando a vontade de se expressarem. Franklin (2004) recorre a um exemplo prático que bem ilustra esta realidade: “O voto não é compulsivo em Malta, por isso (a menos que queiramos assumir que os cidadãos malteses são excecionalmente civicamente conscientes) parece claro que tem de haver pelo menos mais um fator característico das eleições que atrai a participação eleitoral – ou talvez uma combinação de fatores” (Franklin, 2004).
1.1. Tipos de Eleitor
Os eleitores não são todos iguais e não processam a informação que recebem da mesma forma. O comportamento eleitoral apresenta divergências entre indivíduos e as explicações encontram-se na raiz de todo o processo eleitoral – o processo de decisão do voto, e a forma que o eleitor encontra de chegar àquela que pensa ser a decisão mais acertada. Baseando-se no trabalho de Kunda, Chung (2007) explica as diferenças no comportamento eleitoral com as motivações dos eleitores, às quais reconhece uma grande influência no modo como estes processam a informação política a que acedem durante o período eleitoral.
As motivações do eleitorado são divididas por Kruglanski (1996; 1999) em dois grupos distintos: motivações direcionais e motivações não direcionais. As motivações direcionais derivam de uma preferência por um candidato pré-existente no eleitor, que o conduz a uma “conclusão particular” (Chung, 2007). As motivações não direcionais, por seu turno, estão presentes em eleitores que valorizam o ato eleitoral em si e a importância que ele encerra, mais do que a preferência por um candidato específico. Neste caso, o eleitor “não procura chegar a uma conclusão específica, mas [a motivação] antes induz ao delinear de uma decisão precisa e à relutância em se fazer uma decisão prematura” (Chung, 2007). Sobre estas motivações pode ainda salientar-se uma característica importante – quanto maior for a importância do assunto percebida pelo eleitor, mais extremo se torna o efeito da motivação que o move.
Em termos práticos, pode considerar-se, então, que a preferência por um candidato aquando do início de uma campanha eleitoral é uma motivação direcional: esta preferência, que é resultado, na maioria das vezes, de uma forte identificação partidária (que leva o eleitor a preferir o candidato, não pelo indivíduo em si, mas pelo partido que o suporta), vai conduzir o eleitor a uma avaliação do candidato que é favorável logo à partida. Do mesmo modo pode admitir-se que uma forte identificação partidária por parte do eleitor pode deixar adivinhar uma motivação direcionada para o candidato que esse partido apoia – permitindo a identificação do tipo de eleitor que está em causa (Chung, 2007).
papel da política na vida quotidiana, não demonstrando preferências por candidatos ou partidos e assumindo a decisão do voto como um processo que tem de ser executado desde o início e sem saltar etapas.
No entanto, a divisão entre motivação direcional e motivação não direcional não é estanque. Os diferentes tipos de motivação podem coexistir no mesmo indivíduo, interagem e podem até atenuar-se mutuamente. Por exemplo, quando, no início de uma campanha, um eleitor já tem preferência por um candidato, é de esperar – pois apresenta uma motivação direcional – que o modo como processa a informação que lhe chega seja enviesado. No entanto, se no mesmo indivíduo existir uma motivação não-direcional – como a valorização do ato eleitoral em si e a consciência da sua importância – esta pode diminuir o grau de enviesamento com que a informação vai ser processada, uma vez que para um ato tão importante o eleitor vai procurar tomar uma decisão mais acertada e avaliar os candidatos com maior equidade (Redlawsk, 2002).
É também importante salientar que a motivação, direcional ou não, não nasce com o eleitor. Pode surgir ao longo do processo eleitoral, sendo que o início da campanha é considerado mais propenso ao nascimento de novas motivações. Como já foi referido, a identificação partidária pode desempenhar um papel fulcral no estabelecimento de preferências em relação aos candidatos, e é no período inicial das campanhas que são tornadas públicas as informações mais básicas de todos eles – incluindo o partido que os apoia. Assim, um eleitor que parte para o processo eleitoral sem motivações direcionais pode adquiri-las logo nos primeiros momentos da campanha, ao conhecer os valores básicos de cada candidato e a sua filiação partidária (Chung, 2007).
Com base nesta categorização das motivações, e medindo a sua força como sendo “alta” ou “baixa”, chegamos então à definição de quatro tipos de eleitores, devidamente caracterizados (Chung, 2007):
• (1) os que apresentam baixa identificação partidária e interesse pela política;
• (2) os de baixa identificação partidária mas alto interesse pela política;
• (3) os de forte identificação partidária mas baixo interesse pela política;
• (4) os que apresentam, simultaneamente, elevada identificação partidária e interesse pela política.
processamento da informação que lhe chega. Sem identificação partidária que oriente o seu voto, este tipo de eleitor também não vai dispender de muito tempo no processo de tomada de decisão do voto.
Do segundo tipo de eleitor, por outro lado, podemos esperar grande esforço e preocupação na procura e análise da informação política que lhe chega – consequência do seu elevado interesse pela política e pelo processo eleitoral. Esta será, no entanto, uma análise mais marcada pela imparcialidade e equidade, visto que o grande interesse pelas questões políticas se alia a uma baixa identificação partidária. Temos neste indivíduo, portanto, um eleitor cujo voto não está definido ainda quando parte para o processo eleitoral, mas que também não será fácil de cativar – porque se move mais pela racionalidade do que pela afetividade.
Quando em causa está o terceiro tipo de eleitor, o voto estará, em grande parte, decidido quando começa a campanha eleitoral. A forte identificação partidária leva-o a estar politicamente orientado por natureza, causando um forte enviesamento no tratamento da informação política. Ao mesmo tempo, o desinteresse pela política leva a que não haja uma motivação não direcional que compense a preferência partidária nem interesse em que ela exista – o eleitor não se interessa pelo processo político, não quer dispender de muito tempo a decidir em quem vota, e por isso torna muito difícil a tarefa de o fazer alterar as suas preferências, porque não estará disposto a avaliar outras alternativas além daquela que já tinha escolhido antes de começarem as eleições.
ser muito elevado. Desta forma, não só o voto estará decidido à partida, como esta decisão será tão mais reforçada quanto mais informação chegar ao eleitor.
A esta lista pode acrescentar-se ainda um último tipo de eleitor: o eleitor intuitivo. Este tipo de eleitor age baseado nas suas simpatias e nas conclusões que tira de interações dignas da sua confiança, como a experiência pessoal. Vota num candidato ou partido “porque gosta” ou porque acha que “é o melhor”, sem no entanto ir adiante na argumentação. Todavia, é o tipo de eleitor que mais se caracteriza pela independência e até alguma rebeldia face ao sistema de campanha e às mensagens transmitidas. Das suas características básicas constam, por exemplo, a independência face a partidos e candidatos; a recusa de venda do voto; a exigência em participar sempre no ato eleitoral; a recusa em delegar o voto a terceiros; a abominação do voto nulo ou em branco e a infidelidade a candidatos ou partidos (Silveira, 1994, apud Moro, 2009). Concluindo, é um eleitor de comportamento extremamente versátil e instável, quase impossível de prever, mas muito importante porque representa um segmento do eleitorado possível de conquistar.
Contudo, os eleitores não se distinguem apenas pelas motivações eleitorais, mas ainda pela forma como encaram o voto enquanto elemento de troca num mercado político. E esta visão, apesar de aparentemente simplista, pode assumir muitas perspetivas...
1.2. Tipos de voto
indivíduo de negociar atributos valorizados para determinar qual atributo alternativo traz o maior benefício individual” (Levine, 2005).
No entanto, nem todos os eleitores se guiam unicamente pelo benefício individual. Os valores éticos também têm um papel preponderante na orientação do voto (Levine, 2005). Nestes casos, o eleitor estabelece um tema prioritário cuja resolução considera imprescindível. O seu voto terá, depois, de estar em harmonia com a sua posição ética perante esse assunto ou problema.
Dentro dos eleitores que votam por ética, várias tipologias foram sendo definidas. Das primeiras duas – relativismo e idealismo –, reconhecidas por Schlenker e Forsyth (1977), derivou toda uma taxonomia que enquadra os eleitores em quatro grupos principais. Comecemos por definir os dois tipos de ética que estão na base deste esquema. O relativismo diz respeito às regras universais. De um eleitor com altos níveis de relativismo podemos esperar um “ceticismo ético” e uma “descrença nas regras universais” (Levine, 2005). O idealismo, por seu turno, é marcado por uma forte crença na generosidade das ações políticas, que só procuram chegar ao bem-estar geral. Um eleitor assumidamente idealista “baseará os seus julgamentos e ações nas suas relações interpessoais e grupais” (Levine, 2005).
Por não acreditar que esta divisão ética dos indivíduos fosse exclusiva, Forsyth (1980) criou uma nova taxonomia, mais ampla, para classificar o eleitorado no que diz respeito à sua tipologia ética. Assim, aos indivíduos cuja ética se revela, simultaneamente, idealista e relativista, foi atribuída a designação de situacionistas: estes serão caracterizados, genericamente, pela rejeição das regras morais tidas como universais e pela defesa de que cada situação deve ser analisada de forma particular, contextualizada e específica. No extremo oposto desta taxonomia temos os excepcionistas – os indivíduos cujos níveis de relativismo e idealismo são ambos baixos. Nestes casos, a crença nos valores morais que regem o mundo de forma universal e definida é muito forte, mas também são admitidas situações excecionais em que estes valores não têm de ser seguidos cegamente nem são verdades absolutas, permitindo uma análise e interpretação mais livre dos factos.
encontramos os absolutistas, que acreditam que o bem comum só é atingido se todos os indivíduos analisarem as situações com base nos valores morais universais e decidirem de acordo com eles.
A estas características do voto por ética importa ainda acrescentar o valor das crenças pessoais. O voto por ética não diz respeito apenas aos valores morais universais da sociedade em que o indivíduo se insere, mas também às crenças que ele próprio carrega. Não se espera que um eleitor vote contra aquilo em que sempre acreditou ou num candidato que contradiga os seus valores pessoais, pelo que o conjunto de crenças que o caracteriza é um bom predictor do seu comportamento (Kim & Hunter, 1993; Sheppard, Hartwick & Warshaw, 1988; Kelman, 1961; Festinger, 1957, apud Levine, 2005). Outro tipo de voto é aquele que deriva da identificação com o candidato. O voto por identificação é, de forma simples, um voto numa pessoa, num individuo, e não no que ele representa politicamente. Nestes casos há uma forte identificação pessoal entre o eleitor e o candidato, aliada muitas vezes a uma filiação partidária. Afinal, “a filiação partidária é uma parte da identidade do eleitor, e por isso desempenha um papel importante na decisão de voto final” (Levine, 2005). Esta atitude é reforçada pelo facto de o eleitor se sentir recompensado quando o seu candidato vence as eleições (logo, quanto maior a probabilidade de isso acontecer, maior tendência o eleitor terá de votar naquele candidato), e alia-se, muitas vezes, a questões de personalidade do próprio eleitor – que pode ter maior necessidade de reconhecimento social. Em situações como esta, encontramos muitas vezes um terceiro tipo de voto: o voto por atitude associada à filiação. Nestes casos, o eleitor analisa os partidos/candidatos segundo os atributos que lhe são reconhecidos pelos seus pares sociais – atributos que podem ser positivos ou negativos. Depois, como consequência da sua necessidade de aceitação social e integração grupal, o indivíduo vota apenas num partido/candidato que tenha atribuições positivas aos olhos dos pares por quem ele quer ser reconhecido.
O voto compensatório é outro de importância relevante. Nestes casos, o voto não é o espelho dos valores éticos do indivíduo ou da sua personalidade, mas o fruto de uma análise que este fez de todos os candidatos para escolher o menos mau. Nesta análise, “a informação positiva e a negativa têm o efeito de se equilibrar ou anular mutuamente” (Levine, 2005).
(Levine, 2005): a dimensão dos valores, ética e moral; a dimensão do futuro que o eleitor prevê que advenha da sua decisão; e a dimensão estratégica, com a qual o eleitor pretende atingir os seus objetivos pessoais. No final, o voto resulta da soma destas três dimensões – sendo que Levine destaca a primeira dimensão como sendo a mais decisiva num contexto de decisão de voto eleitoral.
Resumo
A forte abstenção em Portugal é explicada, em grande parte, por uma desconfiança crónica dos portugueses sobre a classe política que os governa. Os eleitores estão desmotivados e descrentes da sua eficácia política, e é desde cedo que deve ser trabalhado o seu envolvimento político. Assim se formam eleitores responsáveis e conscientes da importância do voto enquanto moeda de troca para uma sociedade melhor.
2. O conceito de decisão
Tendo sido analisadas as motivações para a abstenção, os tipos de eleitor e os tipos de voto, está preparado o início da análise do processo de decisão. Mas o que é uma decisão? Em primeiro lugar, uma decisão implica uma escolha. Um indivíduo só pode decidir entre duas situações se lhe for garantida a possibilidade de escolher. Em termos mais científicos, uma escolha é uma situação em que “o indivíduo ou o grupo tem pelo menos um grau mínimo de liberdade na seleção ou interpretação de objetivos e estratégias” (Lasswell, 1955).
No campo político, o conceito de decisão pode assumir uma dimensão lata e uma restrita. Do ponto de vista mais restrito, o termo “decisão” diz respeito a tomadas de posição específicas, ao confronto de assuntos complexos e paradoxais que implicam uma análise exaustiva por parte dos intervenientes. São, a bem dizer, casos excecionais na vida política, que se faz coletivamente e não indivíduo a indivíduo.
Lasswell (1955) reserva ainda um outro contexto para o termo “decisão” dentro do processo político – aquele em que decidir implica sanções como resultados possíveis (Lasswell, 1955).
Regressando, então, à definição de decisão, temos que o contexto é semelhante ao de uma arena, onde os participantes têm objetivos definidos e procuram atingi-los influenciando os resultados das ações tomadas (ou seja, decidindo entre ações possíveis) através do uso estratégico de valores básicos (Lasswell, 1955). A partir desta definição-base, encontramos na literatura formas bem distintas de interpretação do processo decisório.
2.1. Abordagens ao estudo do processo de decisão
A tomada de decisão é um processo psicológico do ser humano e, como todos os processos que o nosso cérebro opera, é complexa. A análise do comportamento do indivíduo pode partir de princípios diferentes e ter enfoques distintos. Vamos, aqui, considerar os dois estilos principais utilizados na análise do processo de decisão nos humanos: o que se centra nos resultados da decisão e o que se centra no processo que leva o indivíduo até à decisão final (Zeleny, 1982).
A perspetiva de análise centrada no resultado das decisões surge da crença de que se os investigadores conseguirem aprender a prever corretamente os resultados de uma decisão antes de ela ser tomada, então chegaram à compreensão do processo de tomada de decisão (Zeleny, 1982). Geralmente esta perspetiva leva a estudos que incluem fórmulas matemáticas, estatísticas e modelos de análise complexos. O objetivo é traçar padrões de comportamento e associá-los a situações diversas, por forma a criar possibilidades de previsão baseadas nos resultados obtidos. Como exemplos de teorias de análise que se enquadram nesta tipologia, Zeleny (1982) aponta as análises de decisão normativa e as teorias utilitárias de atributos únicos ou múltiplos.
eleitorais, como também uma mais eficaz adaptação das mensagens eleitorais e de campanha aos tipos de eleitor e aos processos de decisão que ele atravessa – aumentando a capacidade de influência dos agentes políticos sobre as decisões finais do eleitorado. A estas vantagens, Zeleny (1982) acrescenta a maior capacidade de os indivíduos tomarem decisões mais acertadas e executarem processos decisivos mais adaptados e adequados à situação e contexto em que se encontram, melhorando a sua eficácia, não só como eleitorado, mas também nas pequenas decisões do dia a dia. Como explica o autor, “Saber como são feitas as decisões pode ensinar-nos sobre como elas devem ser feitas” (Zeleny, 1982).
2.2. Fases do processo de decisão
Independentemente do modelo de escolha utilizado pelo indivíduo, um processo de decisão atravessa algumas etapas universais e comuns em todos os contextos. De uma forma genérica e simplificada, num processo de decisão podem identificar-se quatro grandes etapas (Milburn et al., 1976, Wright et al., 1975): na primeira, o indivíduo reconhece a existência de um problema e coloca a sua resolução na sua “agenda pessoal”, ou lista de prioridades. É o primeiro passo a tomar para que o processo de decisão se inicie, visto que a procura de informações/alternativas é voluntária – o indivíduo só procura soluções quando reconhece que há, de facto, um problema ou uma situação desconfortável que é preciso alterar.
Numa segunda fase, o indivíduo inicia a procura de alternativas possíveis à situação em que se encontra atualmente. Depois de definido o grupo de alternativas possíveis e viáveis, dá-se início a uma avaliação das suas características e das consequências que advirão da sua escolha/aplicação. Esta é a etapa mais crítica num processo de decisão, uma vez que ela definirá quais as alternativas consideradas no processo de escolha – uma alternativa que não seja considerada nesta etapa será definitivamente excluída daquele processo decisório. É ainda nesta etapa que o indivíduo decide o modelo de escolha a utilizar para a sua decisão – que varia conforme os contextos e os tipos de escolha.
O terceiro passo na decisão é a parte mais visível do processo – a tomada efetiva de decisão. Por esta altura o indivíduo faz uma escolha, seleciona a alternativa que mais lhe agrada ou convém. No entanto, o processo decisório não termina por aqui, uma vez que existe ainda uma quarta etapa de avaliação dos resultados. Nesta etapa o indivíduo dedica algum tempo e atenção à avaliação das consequências que sofreu por causa da sua escolha e do desempenho da alternativa que escolheu. O objetivo é perceber se o problema inicial, que desencadeou todo o processo decisório, foi resolvido – se a resposta for positiva, o processo de decisão é dado por terminado; se a resposta for negativa, inicia-se um novo processo de decisão desde o início. Este processo repetir-se-á continuamente até o indivíduo considerar como resolvido o problema/desconforto inicial.
primeiro estágio do processo de decisão inclui-se a primeira etapa referida acima: o indivíduo reconhece a existência de um problema, de uma situação desconfortável que lhe causa stress e desencadeia a vontade de mudar – sensação que Zeleny denomina de “tensão motivadora de decisão”.
Ainda neste primeiro estágio da decisão, verifica-se o início da procura de alternativas – segunda etapa no modelo acima referido –, sendo que, desta vez, este processo é subdividido em duas fases: na primeira, o indivíduo considera todas as alternativas disponíveis e alcançáveis; na segunda, filtra as alternativas e considera apenas aquelas que mais se aproximam da situação que, para si, seria a ideal. Nesta fase pode dar-se o fim do processo de decisão, porque se, entre as alternativas consideradas, existir uma que encaixa perfeitamente nos parâmetros que o indivíduo definiu como ideais, a escolha é imediatamente feita e todos os passos que se seguiriam a este estágio tornam-se desnecessários, tornam-sendo eliminados (Zeleny, 1982).
Concluído o primeiro estágio do processo de decisão, estão criadas as condições para ser feita uma decisão parcial (Zeleny, 1982). Numa decisão parcial, há um “ajuste direcional da situação da decisão” (Zeleny, 1982), ou seja, o indivíduo adapta as necessidades que procura resolver às alternativas possíveis – por verificar que é impossível satisfazer por completo todas as exigências que tinha determinado à partida. Durante este processo, podem ser alterados os critérios de escolha das alternativas aceitáveis, alterando assim o grupo de possibilidades consideradas. Dessa alteração pode constar, por exemplo, a eliminação da lista de alternativas consideráveis aquela que tinha sido de início definida como a que mais se aproximaria do ideal – alterando todo o processo comparativo que se seguirá e mesmo a ordem de preferências do indivíduo (Zeleny, 1982). Em termos mais práticos, se o indivíduo constata que a alternativa mais próxima do ideal definido no início do processo não é tão satisfatória no que toca ao cumprimento de objetivos secundários, pode ser eliminada – porque, apesar de cumprir plenamente a principal exigência do decisor, não cumpre as outras, criando um cenário geral menos satisfatório do que as outras alternativas, que, não sendo as ideais, são as mais positivas em termos gerais e satisfazem um maior número de exigências, mesmo que secundárias.
decisão não é muito complexa, uma vez que basta escolher aquelas que mais se aproximam do que é tido como ideal. No entanto, quando o grupo se reduz, as alternativas nele presentes já são fruto de uma seleção cada vez mais cuidada, e portanto convergem cada vez mais nas características e atratividade. Este é o estágio mais difícil para o indivíduo, e quando se conclui verifica-se que a alternativa inicialmente tida como a ideal acaba por ser substituída pela aternativa escolhida (Zeleny, 1982). Estão criadas, então, as condições para o início de um terceiro e final estágio do processo de decisão, definido por Zeleny (1982) como estágio de dissonância pós-decisão.
O estágio da dissonância pós-decisão é um elemento novo nestas divisões do processo de decisão. Resumidamente, Zeleny considera que o processo de tomada de decisão não termina com a escolha efetiva, mas antes se estende para além dela e se prolonga no tempo. Segundo o autor, depois de feita a escolha final (e quando, segundo a teoria decisória referida acima, o indivíduo entra na última etapa do processo de decisão), é chegada a altura de se avaliarem os resultados dessa escolha. Neste processo, o indivíduo retoma a pesquisa de alternativas para o problema inicial, mas desta vez a procura e avaliação são direcionadas e tendenciosas, bem como a exposição voluntária à informação que circula. O objetivo é aumentar a atratividade percebida na alternativa escolhida e diminuir a atratividade das alternativas que foram recusadas, reforçando a decisão tomada e criando conforto e confiança em relação a ela, eliminando o desconforto mental resultante da escolha de uma alternativa em detrimento de outras que também podiam ser vantajosas (Levine, 2005, Zeleny, 1982). No fundo o que o indivíduo procura é a certeza de que tomou a decisão correta, a confirmação de todas as vantagens da alternativa que escolheu.
vantagens das que foram recusadas. O indivíduo atravessa, nestes casos, uma situação de arrependimento pós-decisão (Zeleny, 1982). Em termos imediatos, este arrependimento pode ser resolvido através da alteração da escolha feita, substituindo a alternativa eleita por aquela que, agora, parece a mais adequada. Assim, e retomando o estágio de decisão final, pode “refazer-se” o processo de decisão de forma a obter um fim diferente, de dissonância e não de arrependimento.
No entanto, Zeleny (1982) acredita que, quando terminam estes estágios do processo decisório, não se pode considerar que foi resolvido o conflito inicial, mas antes que este foi reduzido: uma vez atravessado o segundo estágio, de decisão parcial, as exigências do indivíduo são adaptadas às situações que lhe são possíveis obter, verificando-se uma mudança da situação que, inicialmente, considerava ideal. Ora, se o conceito de ideal mudou, o conflito em si muda também (uma vez que por conflito se entende a discrepância entre a situação em que o indivíduo se encontra e aquela que considera ideal), tornando-se mais reduzido. Temos, assim, que afinal o processo de decisão não eliminou a tensão pré-decisão, apenas a reduziu, através da diminuição das aspirações do indivíduo (Zeleny, 1982).
Das características do processo de decisão, Zeleny (1982) salienta ainda o facto de que, quanto mais diferentes e simultaneamente próximas do ideal forem as últimas alternativas restantes no estágio de decisão final, maior será a dificuldade da escolha mas maior também será a dissonância pós-decisão. Obviamente, maior será também o arrependimento pós-decisão – mas este será mais fácil de resolver (se aquela não era, afinal, a alternativa melhor, então é só escolher a outra), retomando-se uma dissonância pós decisão muito forte (Zeleny, 1982). Isto deve-se ao facto de as características destas alternativas serem muito distintas, reduzindo-se a probabilidade de parecerem igualmente vantajosas durante um processo de reavaliação que, ainda por cima, será tendencioso.
2.3. Certeza, Incerteza e Risco
Todas as decisões que tomamos são inseridas num contexto de maior ou menor certeza. O grau de certeza de uma decisão diz respeito à extactidão com que conseguimos prever as consequências de cada alternativa possível, para melhor fazermos a comparação e consequente escolha. No modelo clássico da tomada de decisão, existem três principais tipos de decisão: a decisão de certeza, a decisão de risco e a decisão de incerteza.
Uma decisão de certeza é tomada quando o indivíduo “tem conhecimento completo e exato das consequências que advêm de cada alternativa” (Milburn, [et al.], 1976). Este tipo de decisões é feito de forma clara, o indivíduo sabe perfeitamente que resultados vai obter com cada escolha possível e decide pelo que mais lhe agrada ou convém. É um processo simples e com uma base estável.
Uma decisão de risco, por outro lado, é aquela em que o indivíduo “tem conhecimento exato da igualdade de distribuição de probabilidades das consequências das alternativas” (Milburn, [et al.], 1976:112), ou seja, aquela em que além de conhecer os resultados que podem advir de cada alternativa, o indivíduo sabe que não há maior probabilidade de uma alternativa produzir os resultados previstos do que outra (admitindo que as consequências das alternativas não são certas, i.e., a alternativa escolhida por vezes acaba por nem produzir as consequências previstas e desejadas). Uma decisão fundada na incerteza é aquela em que o indivíduo “não consegue atribuir nenhumas probabilidades definidas”, ou seja, aquela em que não é garantido, de todo, ao indivíduo que a sua escolha produzirá os efeitos que se preveem.
de decisão política”, até porque a estas categorias de incerteza somam-se ainda incertezas vindas de outras dimensões da realidade em que o indivíduo se desloca, como sendo as incertezas produzidas pelo ambiente que o rodeia (salientadas pelos teóricos organizacionais e as incertezas referentes às decisões tomadas no passado perante problemas semelhantes ao atual (Skjei, 1973, e Kirkpatrick [et al.], 1976, apud Milburn,
[et al.], 1976). Assim, o autor defende que é preciso categorizar os níveis e as
dimensões da incerteza em que se enquadra o processo de decisão, porque eles vão influenciar o desenrolar desse processo e os modelos de escolha utilizados pelo indivíduo que o atravessa.
No entanto, é o risco que merece mais atenção quando se estuda um processo de tomada de decisão. Se uma decisão baseada na incerteza é uma decisão incompleta (porque não se consideraram todas as alternativas possíveis nem todos os resultados que delas poderiam advir), uma decisão baseada no risco é mais caracterizada pela complexidade – porque o indivíduo conhece as alternativas e os resultados que delas se esperam, mas não conhece a probabilidade de esses resultados se verificarem de facto. Mais do que isso, situações de risco são aquelas onde as alternativas possíveis, quando não produzem os resultados desejados, produzem outros, prejudiciais ao sujeito, ou seja, quando da escolha de uma alternativa advém obrigatoriamente um resultado – ou bom, ou mau –, mas cujas probabilidades o indivíduo desconhece.
Por risco entende-se que é “uma situação em que as ações conduzem a consequências com algumas probabilidades conhecidas que são abaixo de 1.0” (Milburn, [et al.], 1976), ou seja, são as decisões em que a única coisa que o indivíduo sabe é que não é garantido que cada alternativa produza os resultados previstos, ficando sem saber, então, qual é a probabilidade de tal acontecer. Desta forma toma a decisão assumindo riscos elevados, tendo consciência de que pode não obter os resultados procurados mesmo tendo escolhido a alternativa que lhes correspondia. Pode considerar-se, ao mesmo tempo, que o risco é subjetivo, porque depende da perceção que o indivíduo tem dele – “uma decisão só é arriscada se o indivíduo envolvido acredita que o é” (Milburn, [et
al.], 1976). O risco é visto, então, como sendo uma dimensão de cada alternativa, ou da
tomar uma decisão inútil (em que afinal a alternativa escolhida não produz os efeitos desejados) só vale a pena se os resultados previstos compensarem muito e trouxerem grandes benefícios ao indivíduo.
Com base nestas considerações, o risco pode então ser esquematizado num modelo que contempla três grandes categorias (Milburn, [et al.], 1976): as probabilidades alternativa/consequência; as utilidades (preferência pelas consequências); e a combinação destas duas categorias, num modelo de utilidade subjetivamente esperada. No risco relacionado com as probabilidades, é percebido pelo indivíduo em grau diretamente proporcional àquele em que aumentam as probabilidades de as alternativas trazerem consequências negativas e diminuem as probabilidades de as alternativas trazerem consequências positivas (Milburn, [et al.], 1976). Numa decisão em que a probabilidade de uma alternativa causar consequências negativas é maior ou, pelo menos, próxima à probabilidade de essa mesma alternativa produzir efeitos indesejados, o sujeito percebe um risco de decisão muito maior, da mesma forma que o risco é percebido como sendo de um grau muito elevado quando mais extremas forem estas consequências – se uma alternativa pode ter uma consequência extremamente positiva mas, ao mesmo tempo, pode produzir consequências desastrosas para o indivíduo, mesmo que a probabilidade de ocorrência do segundo caso não seja muito alta o risco percebido é muito elevado, visto que o sujeito tem muito a perder.
Entramos, aqui, no campo do risco relacionado com as consequências. De forma simplificada, o risco percebido pelo sujeito é tanto maior quanto mais negativas são as consequências que uma alternativa pode ter (Milburn, [et al.], 1976). Da mesma forma, este risco está associado à distribuição das consequências pelas alternativas (Milburn,
[et al.], 1976): uma alternativa que inclui como resultados possíveis cinco
consequências negativas é vista como mais arriscada do que a alternativa que apresenta apenas uma consequência negativa, mesmo que as consequências positivas possíveis da primeira sejam muito mais vantajosas do que as da segunda.
negativa, do mesmo modo que tenderá a escolher a alternativa da qual espera maior utilidade. Também é verdade que, ao longo do processo de avaliação das alternativas disponíveis, o sujeito acabe por abdicar de alguma USE em favor da redução do risco da decisão, dando origem a decisões que se situam em níveis abaixo do ideal (Milburn, [et
al.], 1976). Por exemplo, perante uma alternativa cuja utilidade é extremamente
positiva, mas que ao mesmo tempo apresenta como possíveis consequências extremamente negativas, e outra alternativa cuja utilidade é menor mas também não apresenta tantas nem tão graves consequências negativas, é previsível que o indivíduo opte pela segunda opção, reduzindo a influência da USE no resultado final do processo de decisão. Nestes casos, a prioridade é a redução do risco percebido para níveis aceitáveis e confortantes, e não a utilidade esperada. Outra situação em que o nível de risco exerce um impacto sobre o processo de decisão maior do que a USE é aquela em que o sujeito tem apenas uma chance de decidir. Da mesma forma, se o indivíudo tem a liberdade de cessar e retomar o processo decisório quando quiser, a USE assume o papel mais preponderante (Milburn, [et al.], 1976).
A perceção que o indivíduo tem do risco pode ter início em qualquer ponto do processo de tomada de decisão (Milburn, [et al.], 1976), até mesmo no reconhecimento do problema a resolver. Sendo que um problema é um conflito ou situação de incerteza e desconforto que o sujeito quer alterar, por vezes o desconhecimento das alternativas possíveis (a situação de incerteza) faz com que o indivíduo identifique a existência do problema mas não consiga encontrar maneiras de o resolver (Milburn, [et al.], 1976). Da mesma forma, o dia a dia do indivíduo é composto por oportunidades, e é da sua responsabilidade assumir o risco de identificar de imediato o problema e procurar a sua solução ou abdicar dessa oportunidade (para não correr os riscos inerentes ao reconhecimento do problema) – oportunidade essa que pode nunca mais voltar a surgir. Tome-se como exemplo prático o de um investigador: pode elaborar um estudo segundo as regras convencionais e as estruturas mais comuns e universalmente aceites como válidas (não correndo riscos), ou pode criar um novo modelo de investigação com métodos inovadores e diferentes – correndo o risco de ser aplaudido e elogiado, mas também de ser criticado e recusado pela comunidade em que se insere.
Importa, então, tentar determinar que dimensões do risco são percebidas pelo indivíduo em cada situação de tomada de decisão. Milburn (1976) esclarece que esta não é uma tarefa fácil, não só porque o risco é subjetivo (logo, cada indivíduo usará critérios diferentes para avaliar o grau de risco), mas também porque este varia com o tipo de decisão a ser tomada e as exigências que ela faz ao sujeito (pode ser uma decisão que lhe exige capacidades específicas para ser tomada corretamente, ou ser apenas o fruto de uma oportunidade). Cada indivíduo tem a sua própria lista de prioridades, e é coforme ela que se estabelece uma maior ou menor perceção de risco em cada contexto de decisão. Deste modo, o risco percebido pode variar conforme a prioridade seja a segurança física do sujeito, a manutenção do seu status quo, a permanência num cargo político, a integração num grupo, a minimização de perdas financeiras ou a preservação da autoestima (Milburn, [et al.], 1976). A situação e o contexto em que a decisão é tomada também podem definir a lista de prioridades do sujeito, que percebe o risco conforme a situação em que se encontra é mais ou menos frágil. O indivíduo tende a ser mais sensível ao risco de uma decisão (e mais criterioso na medição do grau desse risco) quando se encontra numa posição fragilizada, e menos atento ou exigente com o grau de risco percebido quando tem ainda margem de manobra para errar. Ou seja, “quanto menores forem os recursos de base, mais provável é a maior perda possível se tornar importante na perceção [e avaliação] do risco” (Milburn, [et al.], 1976).
o comportamento dos indivíduos e os leva a repetir a mesma atitude consecutivamente – mesmo que esta implique, a longo prazo, consequências negativas. Estes casos explicam-se, precisamente, pelo facto de a visão dos resultados negativos a longo prazo ser quase inexistente, e praticamente deixar de existir quando “ofuscada” pelos resultados positivos obtidos no imediato.
Não tão associado ao tempo, mas mais à oportunidade, há ainda a chance. Há decisões que só podem ser tomadas uma vez, que são de caráter definitivo e as suas consequências permanentes. Este tipo de decisões provoca um elevado stress no indivíduo, que sabe que, uma vez tendo tomado e aplicado a decisão, não poderá voltar atrás. Em situações destas, o risco percebido tende a aumentar em grande escala, mesmo quando não é grande o risco percebido em relação à utilidade ou às alternativas/consequências. Na verdade o risco nestes casos só se sente no estádio de pós-decisão, durante o processo de dissonância, porque se, durante a reavaliação das alternativas, o sujeito chega à conclusão de que a sua decisão não foi a mais acertada, já não pode voltar atrás e refazer todo o processo de forma a eliminar o desconforto do arrependimento pós-decisão e entrar em dissonância/reforço da sua ação.
Ainda sobre o risco das decisões que um indivíduo pode tomar, Milburn (1976) alerta para o facto de este não ser um fator isolado que termina com o fim de cada processo de decisão. Na verdade, o risco, a sua perceção e a tolerância que o indivíduo lhe tem vão variando e influenciando-se transversalmente nas diferentes áreas da vida do sujeito, completando a maior tolerância numa área com uma maior exigência na outra. Desta forma, “o risco e a incerteza que existem num segmento da vida de uma pessoa vão afetar a quantidade de risco que ela vai aceitar assumir numa decisão separada e aparentemente diferente” (Milburn, [et al.], 1976).
No entanto, há formas de se lidar com o risco e de o manipular para diminuir o desconforto nos processos de tomada de decisão. Milburn (1976) defende que as ações de um indivíduo podem alterar o contexto em que ele se encontra e a situação mais ou menos frágil de onde parte para o processo decisório, eliminando necessidades e criando margens de manobra. Por exemplo, quando adquire um bem reduz a sua utilidade (e, quiçá, a utilidade de outros bens que este possa substituir), e quando subscreve serviços de garantia (seguros, poupanças, investimentos), reduz os custos de futuras decisões. Claro que, em ambos os casos, também reduz as vantagens das alternativas escolhidas (quando subscreve um seguro de saúde, por exemplo, reduz os custos que terá no futuro com tratamentos, mas também reduz as vantagens de encontrar um médico que lho faça mais barato – o preço do seguro não depende do preço do médico). Mesmo assim, são formas de controlar o risco e de o manter a níveis constantes e toleráveis, diminuindo o stress e permitindo uma avaliação das alternativas mais ponderada, para uma decisão final melhor pensada e passível de ser reforçada, evitando o arrependimento pós-decisão.
De uma forma semelhante, o maior ou menor risco percebido de uma decisão, aliado a outros fatores, permite ao decisor adotar um modelo de tomada de decisão mais ou menos exigente, satisfazendo as suas necessidades sem desperdício de recursos. E não é preciso pesquisar muito para perceber que há vários modelos possíveis.
2.4. Modelos de tomada de decisão
torna evidentes alguns processos de tomada de decisão universalmente reconhecidos, embora descritos de formas que podem variar e com nomenclaturas que foram sendo mudadas e adaptadas pelos diferentes autores na área. Numa tentativa de melhor estruturar a compreensão do processo de tomada de decisão, vão aqui ser descritos individualmente cada um desses processos, numa junção das características salientadas por diversos autores e que se complementam mutuamente.
2.4.1. Modelo da utilidade esperada/Modelo da utilidade subjetivamente esperada (USE)
Acima já referido, este modelo é bastante simples e tem por base o conceito de utilidade das alternativas. A cada alternativa possível numa tomada de decisão corresponde uma consequência esperada, que tem mais ou menos utilidade para o agente decisor. Num modelo simplista de utilidade esperada, o decisor aceita a alternativa cuja consequência lhe for mais útil/favorável, de uma forma perfeitamente racional e matemática. Numa perspetiva um pouco mais completa da mesma teoria, são consideradas várias utilidades para uma mesma alternativa, e ainda o facto de as probabilidades de essa utilidade se verificar de facto serem menores do que 1.0. Nesse caso, “o decisor racional seleciona a alternativa cujo resultado da soma das probabilidades vezes as utilidades é mais alto” (Milburn, [et al.], 1976).
previsão dos resultados de um processo de decisão, visto que as crenças pessoais de cada indivíduo se tornam incontornavelmente importantes ao longo de todo o processo de tomada de decisão.
Mas da mesma forma que a utilidade subjetivamente esperada de uma alternativa pode ditar a sua seleção na decisão final do indivíduo, uma utilidade subjetiva esperada negativa também pode ditar a eliminação daquela alternativa da lista de possibilidades, mesmo que afinal essa utilidade nem seja real. Este facto vem salientar a importância das crenças pessoais durante o processo de tomada de decisão, bem como da perceção pessoal que cada sujeito tem das alternativas propostas. Aplicado à prática, e tomando como exemplo uma decisão de voto, uma USE negativa pode ditar que um eleitor não considere sequer votar num candidato porque já traz consigo associações e expectativas negativas – mesmo que estas sejam infundadas.
2.4.2. Modelo “Satisficing”
A denominação deste modelo deriva da junção de dois conceitos: o de “satisfying” (satisfatório) e do de “sufficient” (suficiente). A razão reside no facto de este modelo se aplicar aos processos de decisão mais rápidos e curtos, caracterizados pelo pouco esforço e tempo dedicados à pesquisa de alternativas e à sua comparação.
Uma das razões apontadas para a utilização deste modelo de “Satisficing” prende-se com as reduzidas capacidades de pesquisa e análise da informação que caracteriza o decisor, que assim opta por “selecionar a primeira alternativa que cumpre alguns critérios mínimos em vez de continuar a procurar até ser encontrada uma solução ótima” (Milburn, [et al.], 1976). A este fator podemos acrescentar a pressão do tempo, que tanto marca a vida quotidiana dos indivíduos do nosso século. Quando a decisão tem de ser imediata ou tomada num curto espaço de tempo, o decisor vê-se obrigado a otimizar recursos e optar por aquela que lhe parece ser a alternativa minimamente aceitável – porque prefere ficar com uma alternativa que não é ótima, mas foi ele que a escolheu, do que deixar a decisão nas mãos de outro. O acesso à informação também pode ser um ponto passível de ser acrescentado a esta teoria de Milburn, uma vez que é possível, mesmo no mundo atual, criar obstáculos ao acesso à informação por parte dos cidadãos. Assim, perante um conjunto de alternativas que já lhe chega previamente filtrado, o indivíduo opta por decidir logo em vez de continuar numa luta inglória pela pesquisa de novas e melhores alternativas para resolver o seu problema – porque assim não prolonga o desconforto que o conflito lhe provoca.
também ser utilizada quando o decisor não procura efetuar uma grande mudança na situação atual, mas apenas algumas melhorias. Não se justifica, assim, uma procura exaustiva de todas as alternativas possíveis, uma vez que qualquer uma que represente uma melhoria em relação à situação atual já é aceitável, pois cumpre o único requisito estabelecido. Se necessário, pode continuar-se o processo de pesquisa de novas alternativas mesmo depois de tomada a decisão, uma vez que podem surgir alternativas que melhorem ainda mais o cenário em que o decisor se encontra (Bybee, 1981). No entanto, a análise das alternativas faz-se individualmente e à vez, nunca em conjuntos numerosos.
Uma situação especial de utilização da estratégia de “satisficing”, contudo, pode verificar-se num cenário político eleitoral. Quando tem de votar, um eleitor pode misturar vários processos de decisão diferentes, nomeadamente quando considera um conjunto com várias alternativas (vários candidatos concorrentes) mas mesmo assim escolhe o primeiro que o satisfizer. Nestas situações, verifica-se que o eleitor “converte [o conjunto de alternativas] numa escolha com uma só opção se analisar [os candidatos] seguindo um princípio de «escolhe o primeiro que for aceitável»” (Wright, [et al.], 1975) – partindo da consideração de um conjunto de alternativas para a análise de cada uma em particular, com a condição de cessar este processo e dar a decisão como tomada assim que encontrar a primeira alternativa que cumpra os requisitos mínimos previamente estabelecidos.
2.4.3. Modelo Afetivo-Referencial
decisão desde o primeiro momento. Assim, o princípio base do modelo afetivo-referencial é o de que “o decisor é, pelo menos, parcialmente familiar com as opções que vai analisar” (Wright, [et al.], 1975), e essa familiaridade é muito importante como ponto de partida para a avaliação que o decisor faz de cada uma das hipóteses em particular.
Este modelo aplica-se, então, mais a uma fase inicial do processo de tomada de decisão do que a toda a sua extensão. A simpatia ou preferência por uma hipótese vem com o próprio sujeito, logo tem efeito desde o primeiro momento do processo decisório. Mas e se esta simpatia for a causa de um fim prematuro do processo de decisão? A verdade é que, em casos de simpatia significativamente positiva e forte, o sujeito pode dispensar do esforço necessário noutras ocasiões semelhantes e deixar-se guiar pelas suas emoções. Pode escolher, à partida, a hipótese com a qual tem uma ligação afetiva-referencial mais forte, e ignorar todos os outros critérios que seriam esperados no processo de seleção. Teríamos, neste caso, uma decisão tomada inteiramente com base em afetos (fundados ou não), porque perante um decisor afetivo-referencial “o processo chave desta operação é a comparação direta dos indexantes globais; um decisor que usa o [modelo] afetivo-referencial não avaliaria, durante este episódio, mais nenhuma crença sobre as propriedades de uma opção” (Wright, [et al.], 1975).
Conclui-se, portanto, que neste modelo de decisão a análise das hipóteses é tendencialmente geral, marcada por uma fraca atenção aos pormenores e uma ainda mais fraca procura de detalhes e características individuais de cada hipótese.
2.4.4. Modelo Compensatório
Como produto deste processo, o indivíduo obtém uma lista de opções ordenada por utilidade, facilitando a sua tomada de decisão. A partir daí, basta-lhe “comparar [as opções] umas com as outras ou com um padrão mínimo” (Wright, [et al.], 1975). Se a comparação for feita apenas entre opções, é lógico que seja selecionada aquela que atingiu uma avaliação geral mais alta – justificada por uma maior quantidade de aspetos positivos ou por um fator compensatório mais alto –; se, por outro lado, a comparação for feita com um padrão mínimo previamente estabelecido, adivinha-se que algumas opções, por muito alta que seja a sua capacidade compensatória, sejam eliminadas muito cedo, por não cumprirem algum objetivo definido nesse padrão. Deste modo pode concluir-se que, no modelo de decisão compensatório, a capacidade das alternativas compensarem os seus atributos negativos nem sempre é o fator definitivamente decisivo.
No entanto, dentro do modelo compensatório existem duas variantes distintas (Coombs, 1964, apud Bybee, 1981): num modelo compensatório linear moderado, as características de cada alternativa, antes ainda de serem medidas ou avaliadas, são ordenadas por grau de importância. Este grau de importância não só aumenta a avaliação que lhes é dada quando são positivas como também torna maior ou menor o peso que esses atributos têm quando chega a altura de compensar atributos negativos. Desta forma, os indexantes gerais de cada alternativa num processo de decisão são complexos e variam muito em função da subectividade do decisor. Num modelo compensatório linear não ponderado, por outro lado, as características de cada alternativa têm todas o mesmo valor ponderado, ou seja, têm a mesma capacidade compensatória face aos atributos negativos da mesma alternativa. Nestas situações, os indexantes gerais são mais simples, e prevê-se que variem menos com a subjetividade do decisor.
2.4.5. Modelo Lexicográfico
Neste modelo de tomada de decisão a subjetividade é um ponto essencial. De um conjunto de alternativas, o sujeito procura a melhor característica de cada uma, e é com base nela que toma a decisão final. Claro que, como se verifica, o processo de avaliação geral das alternativas fica um pouco reduzido, porque só a característica mais importante é levada em consideração – sendo ignoradas não só as restantes características importantes, como também os atributos negativos de cada alternativa. De acordo com o modelo lexicográfico, as características de cada alternativa podem ser ordenadas de acordo com a sua relevância para o sujeito. No entanto, esta não é uma regra que se aplique à primeira tentativa, porque de um conjunto largo de alternativas podem revelar-se salientes várias alternativas. Quando enfrenta uma situação em que várias alternativas se equilibram na sua característica mais importante, o sujeito passa a avaliar, também, a sua segunda melhor característica, como elemento de “desempate”. Se, ainda assim, não chegar a uma conclusão definitiva, passa a considerar a terceira melhor característica – e este processo prolongar-se-á até que reste apenas uma alternativa para escolher (Bybee, 1981, Takemura, 1988, Wright, [et al.], 1975).
Os resultados deste modelo de tomada de decisão não são universais, mesmo em contextos semelhantes, uma vez que a subjetividade neles presente é bastante significativa. Na verdade, os resultados de um processo de tomada de decisão baseado neste modelo variam, não só conforme o grupo de alternativas que é tido em consideração, mas também consoante a ordem de importância que o sujeito atribui às características de cada alternativa (Wright, [et al.], 1975).
Há ainda autores que defendem que este modelo lexicográfico é melhor aplicado em situações de escolha entre duas alternativas apenas – o sujeito avalia-as de acordo com a ordem de importância que atribui às suas características, até encontrar uma característica que uma cumpra e a outra não (Dieckmann et al., 2009), chegando a uma decisão final. Esta estratégia, neste contexto, pode também ser denominada de “Take the Best” (Gigerenzer & Goldstein, 1996, apud Dieckmann, [et al.], 2009), uma vez que de duas alternativas positivas possíveis o sujeito opta por aquela que se revela indiscutivelmente melhor.
com um conjunto de características menos positivas de outra alternativa, mesmo que sejam em número relevante (Dieckmann, [et al.], 2009).
2.4.6. Modelo Conjuntivo
Muito voltado para os processos de tomada de decisão em que o sujeito enfrenta várias alternativas possíveis, o modelo conjuntivo assenta sobre o pressuposto de que, quando parte para a análise do conjunto de alternativas viáveis, o indivíduo já traz consigo uma lista de limites mínimos que pretende exigir. Desta forma, ainda antes de se dar início à análise de alternativas, pode acrescentar-se um novo passo ao processo de tomada de decisão: depois de avaliar o problema, o indivíduo estabelece uma série de objetivos e limites mínimos, cujo cumprimento/satisfação considera obrigatórios para que uma alternativa seja escolhida. Cada um destes limites mínimos diz respeito a um atributo, o que significa que cada alternativa terá de cumprir várias exigências em simultâneo, caso contrário será imediatamente excluída do processo de tomada de decisão (Bybee, 1981, Takemura, 1988, Wright, [et al.], 1975).