• Nenhum resultado encontrado

Papel da Mídia em Processos de Instigação de Conflitos e Construção da Paz no Burundi: Lições e Desafios Para Moçambique

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2020

Share "Papel da Mídia em Processos de Instigação de Conflitos e Construção da Paz no Burundi: Lições e Desafios Para Moçambique"

Copied!
25
0
0

Texto

(1)

Papel da Mídia em Processos de Instigação de Conflitos e

Construção da Paz no Burundi: Lições e Desafios Para

Moçambique

Autor: Aldemiro B.W. Rato Bande Analista de Política Internacional

Email: [email protected]

O presente artigo analisa o papel da mídia enquanto instrumento para instigação de conflito e construção da paz. A partir da experiência do Burundi, procura-se identificar os desafios que se colocam para Moçambique. Para a prossecussão dos objectivos propotstos, empregou-se o método histórico e a pesquisa bibligráfica. No texto, argumenta-se que, muito embora a mídia seja um instrumento bastante usado em processos de instigação de conflitos, ela dispõe de enormes potencialidades para a construção e consolidação da paz, sobretudo, em sociedades marcadas pelo conflito.

Introduçao

N

as sociedades modernas, a m í d i a c o n s t i t u i u m i n s t r u m e n t o d e v e r a s determinante na formação da opinião pública e, por conseguinte, na mobilização política. Nesta senda, vários exemplos ilustram que, em virtude do seu poder em moldar as percepções, ela foi e tem sido usada como um instrumento para instigação de conflitos violentos. Autores como Bratic (2006: 6) Hagos (2011: 1), Jowett e O` Donell (2012: 9), Wolfsfeld (2004: 16) concordam que, dada a influência que exerce sobre os indivíduos, a mídia foi usada, em alguns casos, para a

mobilização das massas à violência. Casos flagrantes como o da Alemanha nazista, onde Hitler se serviu de panfletos, rádios e jornais para propagar mensagens de ódio e i n t o l e r â n c i a c o n t r a j u d e u s , homossexuais e outras minorias, assim como o genocídio de Ruanda, onde a Rádio e Televisão Libre de Milles Collins (RTLM) propagou mensagens de ódio, incitando Hutus contra Tutsis, (Bratic e Schirch, 2007: 7), (Hagos 2011: 1), ilustram, de forma inequívoca, como a mídia pode ser usada para instigar conflitos.

No entanto, se, por um lado, estes autores assumem que o papel da mídia como instigador de conflitos é

(2)

um facto inquestionável, por outro, o inverso é igualmente aceite, ou seja, a mídia, em virtude do seu poder, pode constituir um instrumento para a construção da paz em sociedades em conflito. O conflito étnico-político no Burundi (1993) reflectiu esta dualidade intrínsica à midia. Numa primeira fase, a mídia foi usada como instigador do conflito. Assim, as rádios locais foram usadas como instrumentos de propaganda de ódio, incitando os cidadãos à violência. Numa segunda fase (a partir de 1995), o conflito foi marcado pelo surgimento do Studio

Ijambo, uma estação de rádio que

difundia mensagens de reconciliação entre os dois grupos étnicos, contribuindo, deste modo, para a construção da paz.

Em Moçambique, o conflito político entre o Governo e a Renamo, constitui um dos assuntos que está na ordem do dia, facto que atrai a atenção da mídia. Diariamente a mídia local e internacional difundem informações ligadas as dinâmicas e contornos do conflito. Todavia, a forma como as matérias são construídas e transmitidas podem constituir ou um óbice ou uma oportunidade para a construção de uma paz duradoira entre as partes, facto que enseja a necessidade de uma reflexão em torno dos desafios que a mediatização do conflito coloca ao processo de construção da paz em Moçambique.

1. Mídia e Processos de Instigação de Conflitos

O conflito é concebido por muitos autores como sendo inerente à sociedade. Bobbio (1998: 225) por exemplo, define conflito como uma

forma de interação social entre indivíduos, grupos, organizações, colectividades que implica choques para o acesso a recursos escassos. Ao passo que Miller (2005: 22), por sua vez, concebe conflito como uma confrontação entre duas ou mais partes que aspiram por meios ou fins incompatíveis. Associando-se a este, Galtung (1973: 16), define conflito como uma contradição ou choque entre dois ou mais actores resultante da incompatibilidade dos seus objectivos. Segundo o Manual de Resolução de Conflitos da ONU (2011: 4), o conflito surge quando indivíduos ou grupos de pessoas, com o intuito de satisfazer as suas necessidades e interesses, perseguem objectivos que são percebidos como incompatíveis.

Embora todo o conflito tenha presente a componente contradição ou choque de interesses, nem todo conflito assume um carácter violento, sendo que, para Bratic (2007: 9) e Howard (2004. 6), a violência não é a essência do conflito. Havendo, sobretudo, conflitos não violentos. Todavia, este artigo reserva-se apenas à compreensão do papel da mídia como instrumento para a instigação de conflitos violentos.

Para Brito (2007: 8) o termo mídia designa os veículos de informação, no seu conjunto ou em particular. Buckingham ( 2009: 192), considera Mídia como qualquer meio de transmissão de informacao. O termo refere-se, pois, a várias formas, di spo si ti vo s e si stem as que e s t e b e l e c e m c o m u n i c a ç õ e s , consideradas como um todo, jornais, estações de rádio, canais de televisão e websites. Enquanto que Melo (2010: 801) advoga que os Meios de

(3)

comunicação social ampliam o espectro dos receptores. São fundamentais para a convivência e c o a b i t a ç ã o e m s o c i e d a d e s multiculturais. Entretanto, nas suas diversas formas de manifestação, a mídia afigura-se como uma ferramenta de comunicação moderna que não apenas reporta como também contribui, em alguns casos, para a instigação de conflitos.

O conflito resulta mais da percepção das partes do que de factores realmente objectivos, ou seja, as causas do conflito são percebidas por cada parte e não existem na realidade objectiva (Canary e Lake, 2013: 8). Neste sentido, é normal que, em alguns casos, o conflito permaneça apenas na fase latente, na qual os actores ainda não se aperceberam da existência de objectivos incompatíveis, todavia, em muitos casos, há factores que não apenas despertam mas também fomentam o conflito e contribuem para a escalada do mesmo, mesmo que não estejam directamente associados ao conflito. Estes factores são designados por Canary e Lakey (ibid) como instigadores de conflito. Segundo o Dicionário Oxford de Inglês (2010: 906), instigar significa suscitar ou iniciar aluma coisa, ou mesmo incitar alguém a fazer algo, sobretudo algo ruím. Assim, instigador refere-se a uma pessoa que incita a alguma coisa (ruím). Embora Canary e Lakey (210: ), não coloquem de forma explícita a mídia no leque dos instigadores de conflito ( álcool, humor, emoções, ambiente), induzem nos, de certa forma, a perceber como ocorre o processo de instigação de conflitos através da mídia.

As mensagens e informações da mídia são absorvidas pelo individuo e, dependendo da percepção que aquelas geram, elas podem afectar o humor e as emoções dos indivíduos, direcionando-os a atitudes hostilizantes perante membros de um grupo percebido como rival. Tanto em Ruanda, como em Burundi e na Bósnia, a mídia afigurou-se como instigador de conflito por despertar no seio dos indivíduos de etnias diferentes uma atitude de repulsa hostil para com os membros da etnia rival.

No caso de Ruanda, a estação Radio e Television Libre des Milles Collines levou a cabo esforços de propaganda, transmitindo mensagens inflamatórias, que apelavam para a exterminação da minoria Tutsi (Yanagizawa-Drott, 2014: 2). Já no Burundi, a Rádio Candid, contribuiui para o aumento da violência étnica ao disseminar mensagens hostilizantes contra cidadãos Tutsis. Na Bósnia, por ultimo, durante o conflito etnico que eclodiu em 1992,todos os tres principais grupos etnicos utilizaram a radio e a televisao para avançar suas estratégias e demonizar seus oponentes (Bratic et al, 2008: 8). Conforme se pode notar, tanto em Ruanda como no Burundi e na Bósnia, a mídia foi usada por actores politicos com o propósito de criar uma atmosfera de ódio generalizado entre os membros grupos étnicos rivais, contribuindo, assim, para a instigação dos conflitos.

Decorre daí que a mídia não é um instigador imediato, no sentido de que ela não afecta directamente a conduta dos indivíduos, mas sim a sua percepção, uma vez que é o domínio psicológico do indivíduo que absorve e

(4)

interpreta as informações da mídia e responde a elas consoante a percepção gerada. Entrtanto, a mídia afigura-se como um instigador de conflitos mediato (indirecto), ou seja, são as perecpções geradas pelas mensagens e informações da mídia que despertam emoções e atitudes que instigam os actores à violência.

Os processos de instigação de conflitos através da mídia podem ser intencionais ou não intencionais. O primeiro caso ocorre quando os actores manipulam de forma deliberada as informações da mídia, visando gerar percepções do conflito que dificultam qualquer possibilidade de resolução pacífica do mesmo. A título de exemplo, Hagos (2011: 6) afirma que rádio RTLM em Ruanda foi usada pelo governo para incitar a violência e promover discriminação com base na etnicidade. O segundo ocorre quando a midiatização do conflito, por si só, gera percepções que incitam as massas à violência. Este tipo de instigação tem a ver com a maneira como as matérias relativas a um determinado conflito são construídas pelos profissionais de mídia.

Segundo Gadi Wolfsfeld (2004: 15), isto assim sucede porque há uma contradição fundamental entre a natureza de um processo de paz e os valores intrínsecos às notícias. Aqueles que dirigem a mídia tendem a privilegiar quatro valores: imediatismo, drama, simplicidade e etnocentrismo. Imedistismo refere-se a ênfase da mídia em acontecimentos e acções eespecíficos, ignorando processos complexos, como, por exemplo, uma negociação de paz. A mídia preoccupa-se com acontecimentos e não com processos. Drama refere-se a

procura obssessiva da mídia por assuntos polêmicos. A ênfase em notícias polêmicas perturba, não raras vezes, a comunicação entre as partes do conflito durante o processo negocial, comprometendo, deste modo, a resolução pacífica do conflito. O etnocentrismo refere-se, pois, ao facto de que, muitas vezes, a mídia fomenta uma visão etnocêntrica do mundo. Tal facto ocorre na medida em que o meio no qual a mídia opera define sua linguagem, crenças, valores, atitudes e preconceitos próprios que são reproduzidos pela mídia gerando uma visão parcial sobre o conflito.

Para Bratic e Schirch (2007: 8), estes valores tornam difícil usar a mídia para a paz. Galtung (2012: 3), por sua vez, associa a forma como a mídia convencional aborda as notícias com aquilo que ele designou de Jornalismo de Guerra, em que a maneira com que o conflito é mediatizado tende mais a agudizá-lo do que a atenuá-lo. Assim, a instigação não intencional de conflitos aatrvés da mídia depende, muitas vezes, da forma como as notícias acerca de um determinado conflito são selecionadas pelos profissionais de mídia, como estes apresentam as partes e as causas do conflito.

A acção da mídia em sociedades marcadas pelo conflito é crucial porque todo o conflito é uma questão de percepção e as mensagens e informações veiculadas pela mídia contribuem ou para formação de novas percepções sobre o conflito ou para manutenção das antigas. Segundo o Mnaual de Resolução de Conflitos da ONU (2011: 11), as percepções não causam o conflito, porém agravam-no e dificultam a sua

(5)

transformação devido a dinâmica específica envolvida na formação e manutenção da percepção.

O papel da mídia em processos de instigação deliberada de conflitos remonta às experiências do seu uso bem sucedido em várias guerras que abalaram o mundo. Desde a Guerra Civil norte-americana no século XIX, passando pelas duas Grandes Guerras do século XX até aos conflitos étnicos em Ruanda, Bosnia e Burundi (este conflito será abordado com mais pormenores na 4 secção) ,a mídia tem sido usada como um incontestável meio ao serviço da guerra, arrastando milhares de indivíduos para a violência. Durante o período da Guerra Civil americana, jornais e telégrafos foram usados para manter o apoio moral dos indivíduos no Norte do país, reportando notícias falsas acerca dos resultados nos campos de batalha. Um exemplo disso foi a batalha de Bull Run, cuja vitória havia sido atribuída ao Norte pela imprensa local, entretanto, a realidade mostrou que o exército do Norte havia sofrido uma derrota devastadora (Jowett e O’Donell, 2006: 124). Estas estratégias de propaganda ( p r o p a g a n d a n e g r a1) e r a m

desenvolvidas pelas elites políticas com o fito de mobilizar as massas à sua causa.

A Primeira Guerra Mundial foi um período crucial no que respeita ao uso organizado da mídia para fins políticos. Pela primeira vez, os governos de várias nações envolvidas na guerra consolidaram seus esforços em busca de técnicas sofisticadas para a persuasão das massas (Bratic, 2006: 4). Neste período, casos como o da Grã Bretanha, Alemanha e EUA são uma referência inquestionável. Neste

contexto, muitos foram induzidos à Guerra pela publicidade que a mídia fazia da necesidade da mesma.

Devido ao fraco apoio popular para a entrada da Grã Bretanha na guerra, o governo britânico serviu-se da imprensa, postais, e documentários para mobilizar o apoio dos outros países para a entrada no conflito armado. Nos EUA o Presidente Wilson criou o Comitê de Informação Pública (dirigido por George Creel) visando alcançar consenso político e coesão social para a entrada dos EUA na Guerra que, na altura, não era favorável aos olhos de vários segmentos da sociedade norte-americana. As actividades do comitê incluíam, entre outras, divulgações na imprensa, panfletos e discursos públicos (Bratic, 2006:6; Jowett e O’Donell (2006: 166). Este comitê foi criado para vender uma mensagem de guerra aos americanos, ou seja, instigar o fervor do conflito.

Tanto na Grã Bretanha como nos EUA, a mídia constituiu um instrumento para fomentar um conflito, despertando no seio dos cidadãos uma nova percepção sobre o mesmo. As campanhas publicitarias para a guerra revelaram-se eficazes por produzir uma nova predisposição no seio dos cidadãos britânicos e norte-americanos para com o conflito.

Na Alemanha, Hitler usou a mídia para criar um ódio generalizado contra judeus, homossexuais e outras minorias. Nos Balcãs, locutores polarizaram as comunidades até o ponto em que a violência foi aceite como uma ferramenta para lidar com a insatisfação (Bratic e Schirch, 2007: 2).

Em Ruanda, os órgaos da mídia de ódio, através dos seus jornalistas,

(6)

locutores e gestores, jogaram um papel instrumental não apenas para preparar o terreno para o genocídio c o m o ta m bém pa r ti c i pa r a m activamente na campanha de extermínio. A rádio RTLM e o jornal Kangura controlados por uma elite extremista da etnia Hutu, disseminaram mensagens inflamatórias que apelavam à violência contra cidadãos Tutsis. Em virtude desta campanha de ódio, professores mataram alunos, vizinhos trucidaram vizinhos e os líderes locais ajudaram a organizar os assassinatos (Thompson, 2007: 2; Yanagizawa-Drott 2014: 4 ).

No caso da Bósnia, vários factores contribuiram para a emergência do conflito étnico. Estes incluem a história de antagonismo intergrupal, o modelo de dominação étnica e desigualdades e a existência de arranjos políticos não adequados à realidade do país (Burg e Shoup: 2015: 4). Não obstante, a mídia foi usada como um instrumento para mobilização das massas à violência pelos diferentes grupos étnicos envolvidos no conflito. De acordo com Bratic et al (2008: 8), durante o conflito étnico que eclodiu em 1992, todos os três principais grupos étnicos utilizaram a rádio e a televisão para avançar suas estratégias e demonizar seus oponentes.

Em todos os casos acima referidos, pode-se observar que as matérias, mensagens e propagandas difundidas pela mídia não são de per si a causa do conflito. não há nenhuma relação de causa directa entre as notícias e mensagens da mídia e o conflito violento, ou seja, a mídia não causa o conflito e nem todo conflito resulta de uma intervenção directa da mídia. O que ocorre é que, em alguns casos, a

mídia tem sido instrumentalizada por alguns actores para a instigar o conflito violento e, noutros, a mídia, ao reportar um determinado conflito, produz percepções acerca do mesmo que legitimam o recurso à violência como forma de resolução do conflito, ou seja, dificulta a resolução pacífica do mesmo.

Segundo Bratic et al (2008: 3), ao lidar com o conflito como se fosse uma competição win-lose, na qual um actor (positivo) derrota outro actor (negativo), construíndo matérias ou narrativas que empregam um tom antagonista dentro de uma tensão dramática, a mídia contribui para a instigação do mesmo.

Ao ser usada como um instrumento de instigação de conflitos, a mídia contribui, não raras vezes, para a escalada do conflito, dificultando qualquer possibilidade resolução de conflitos por via pacífica. Escalada refere-se a um estágio do conflito em que a interação violenta entre as partes envolvidas aumenta em q u a n t i d a d e , i n t e n s i d a d e e abrangência. De acordo com o modelo de Glasl (2005: 4) escalada é um aumento de tensão no conflito, este estágio sucede ao da manifestação do conflito, em que as partes já estão cientes do antagonismo existente, aumenta-se a desconfiança mútua, sem se registar, no entanto, um aumento acentuado de qualquer tipo de violência. Após a escalada, os actores não apenas querem ver seus interesses materializados, como também procuram ferir seu oponente.

Nestes contextos, a crescente rotulagem de bons e maus no conflito, concorre, deste modo, não apenas para o extremar das posições como

(7)

também para o exacerbar das tensões entre os actores envolvidos. A forma como a mídia difunde as metérias sobre um determinado conflito, em alguns casos, espelha apenas a narrativa de uma das partes envolvidas, contribuíndo, assim, para o aumento da disconfiança entre as partes. Sendo que a comunicação entre as partes do conflito é um aspecto crucial para a resolução pacífica do conflito por permitir a redução da disconfiança entre ambas, a existência de qualquer ruído que perturbe esta comunicação pode contribuir para o aumento da disconfiança entre as partes. A forma como a mídia lida com o conflito pode constituir por si só um ruído na comunicação entre as partes, sobretudo, quando não há o mesmo tratamento para com as partes do conflito. Esta ausência de equilíbrio na mediatização do conflito tende, muitas vezes, a humanizar apenas uma das partes e a diabolizar a outra(s) parte (s).

2. Mídia e Os Processos de Construção da Paz

Conforme foi visto, se por um lado, a mídia é um instrumento que pode ser usado para a instigação de conflito, despertando um conjunto de percepções latentes e transformando-as em elementos de hostilidade entre as partes em conflito, por outro, ela é um instrumento bastante útil em processos de construção da paz. O relatorio da ONU Uma Agenda Para a

Paz (1992) define construcao da paz

como um processo de medio e longo prazo que consiste na recosntrucao das comunidades afectadas pela

Guerra atraves da identificacao e apoio das estruturas que tenderao a fortalecer e solidificar a paz de modo a evitar o retorno ao conflito (Curtis e Dzinessa, 2012: 5). Para Jenkins (2013: 1), a construção da paz repousa na idéia de que não existe uma paz sustentável, a paz deve ser consciente e continuamente construída e renovada. Entende-se, pois, por construção da paz um conjunto de políticas, programas e esforços associados com vista a restaurar a estabilidade e funcionamento das instituições sociais, politicas e econômicas num contexto de guerra ou outros eventos catastróficas (Miller, 2005: 56).

Segundo Wolfsfeld (2004: 3), muito foi escrito acerca do papel da mídia no conflito e na guerra, e muito pouco acerca do seu papel na construção da paz. Embora haja relativamente poucos estudos relacionados ao impacto dos mídia na construção da paz, vai aumentando o número de casos que ilustram de que forma a intervenção dos mídia em contextos de conflito pode contribuir para a descalada do conflito e para a reconciliação entre as parte. A título de exemplo, o conflito entre Grã - Bretanha e Irlanda do Norte, o conflito entre Israel e Palestina no Médio Oriente e o conflito étnico–político na Bósnia e no Burundi, são apenas alguns casos que demonstram como a mídia pode contribuir para criar mudanças positivas nas sociedades em conflito, ensejando uma atmosfera conducente à construção da paz.

No caso do conflito entre a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, a intervenção da míidia jogou um papel crucial no seio da sociedade ao

(8)

suscitar, no seio da sociedade, um ambiente favorável a assinatura do acordo de paz. O Acordo Good Friday que pôs termo ao conflito, surgiu em virtude da influência que a mídia tive na opinião pública inglesa e irlandesa, uma vez que o acordo dependia de uma aprovação popular através de um referendo. Para que os resultados do referendo fossem favoráveis ao acordo, o governo britânico buscou apoio de McCann Erickson, líder de uma das maiores agências de publicidade do mundo. A solução proposta por McCann foi organizar uma campanha de publicidade através da mídia, enfatizando os benefícios do acordo e, como resultado, um mês depois, o acordo foi assinado e o referendo revelou-se favorável ao mesmo.

Do mesmo modo, o conflito israelo-palestiniano testemunhou o impacto positivo da mídia na transformaçãao de sociedades divididas. O projecto televisivo Rua Sésamo, dirigido às c r i a n ç a s , b us c o u d i ss em i n a r mensagens de tolerância entre as duas comunidades. E como resultado, as crianças que assistiam aos programas dispunham de níveis de tolerância e aceitação mais elevados para com o outro grupo no conflito em relação àquelas de uma geração anterior à criação do Projecto (Bratic e Schirch, 2007: 2).

No caso da Bósnia, após a assinatura do Acordo de Paz de Dayton que pós termo a três anos de conflito violento entre os sérvios, croatas e bosnianos, foi criado um corpo governamental provisório, o

Office of High Representative ( OHR).

Este, em resposta ao papel destrutivo que a mídia desempenhou no conflito,

desenvolveu e promoveu uma mídia imparcial e uma série de projectos foram criados para combater a propaganda persistente. Na mesma senda,um grupo de especialistas internacionais desenvolveu um conceito para uma rede de televisão completamente nova e imparcial. Como resultado, a nova rede de televisão, Open Broadcast Network, foi lançada em 1996 (Bratic et al, 2008: 8). Esta televisão tinha como objectivo último despolarizar a sociedade, restaurar a confiança, promover a reconciliaçúo e o repatriamento. Numa sociedade pós conflito, a existência de uma mídia que seja imparcial e engajada com o propósito da paz constitui uma ferramenta indispensável no processo de cosntrução da paz.

No caso do conflito étnico - político no Burundi, o qual abordaremos mais adiante, a implantação do Studio

Ijambo, uma rádio engajada na

promoção da paz, contribuiu para suplantar os efeitos destruidores da propaganda de ódio disseminada pela imprensa local, facilitando, por conseguinte, o diálogo entre os grupos étnicos rivais.

Muito embora os exemplos acima ilustrem, de forma clarividente, que a mídia tem contribuido para a construção da paz e reconciliação em sociedades marcadas por conflito, nao há nenhuma conclusão acerca da natureza dos efeitos da mídia sobre o comportamento dos indivíduos. Neste sentido, a intervenção da mídia, em contextos de conflito, por si só, pode não suscitar um efeito positivo para a construção da paz. É, pois, o conteúdo das informações e a forma como os profissionais de mídia lidam com o

(9)

conflito que são determinantes no processo de construção da paz.

Por vezes, a complexidade que o próprio processo de construção da paz encerra pode dificultar com que a mídia seja usada de forma eficaz na transformação das sociedades divididas. A mídia pode produzir inúmeros efeitos sobre a audiência, alguns dos quais nocivos à construção da paz Contudo, isto não retira o potencial da mídia na transformação positiva das sociedades em conflito.

De acordo com Malakwen (2014: 101), por causa da influência que tem sobre a sociedade, a mídia pode jogar um papel importante na promoção da paz. As matérias da mídia podem ser usadas em sociedades em conflito para construir confiança, facilitar negociações ou quebrar impasses diplomáticos e criar um clima conducente a negociação.

A mídia dispõe de potencialidades que podem ser usadas para aproximar as partes envolvidas no conflito. Porém, isto não é suficiente para que haja a transformação do conflito na sociedade, sobretudo quando este se reveste de certa complexidade. A mídia é uma “matéria-prima” que deve ser explorada, visto que, por si só, pode servir a diversos fins. Em virtude desta realidade, surge um debate aceso sobre a natureza dos efeitos das notícias e informações da mídia no comportamento da audiência. Até que ponto a mídia pode contribuir para criar mudanças positivas numa sociedade em conflito?

O debate sobre os efeitos da mídia é ainda inacabado. Abordagens diferentes e, não raras vezes, contrastantes acerca dos efeitos da mídia permeiam o campo das ciências

sociais. Academicos de diversas areas como a Comunicacao, Psicologia, Sociologia, a Ciencia Politica, entre outras, buscam compreender a natureza dos efeitos da mídia sobre os indivíduos. Entretanto, uma das abordagem mais predominantes é a teoria da aprendizagem social desenvolvida por Bandura. Nesta, Bandura postula que observando o comportamento dos outros, o indivíduo pode desenvolver princípios que geram seu próprio comportamento. A aprendizgem observacional é governada pelo processo da atenção, retenção, produção e motivação. Comportamentos observados podem ser reproduzidos apenas se retidos na memória, um processo influenciado pela codificação simbólica.

De acordo com esta perspectiva, a mídia teria um efeito catalisador na formação do comportamento do indivíduo. Assim, a ênfase em atitudes positivas como o diálogo, a tolerância, o respeito pelas diferenças, através da mídia pode levar os indivíduos a adoptarem estas atitudes, replicando-as no seu comportamento. A exploração apropriada da mídia para a o propósito da construção da paz implica, pois, que investiguemos as suas potencialidades. Conforme advoga Nyama (2003: 9), dado o poder da mídia enquanto agente e ferramenta da sociedade civil que pode suscitar uma mudança positiva na construção da paz, é um imperativo investir na mídia e usar o seu potencial.

Uma das sistematizações em torno do potencial da mídia na prevenção do conflito e na consolidação da paz foi feita por Bratic e Schirch (2007: 10). Estes advogam que a mídia desempenha sete principais funções

(10)

na prevenção do conflito e na consolidação da paz, quais sejam: a) provedor e interpretador de informação; b) cão-de-vigia; c) sentinela; d) decisor político; e) diplomata; f) promotor de paz e g) construtor de ponte2. Destas

potencialidades, importa, neste trabalho, referir apenas as seguintes:

1 – Provedor e Interpretador de Informação: os mídia não somente disseminam um leque de informações para um público vasto acerca de determinados conflitos como também fazem uma interpretação própria destes conflitos e vendem para a sociedade, moldando, assim, a maneira como nós olhamos para o conflito; 2 – Decisor Político: os mídia exercem influência sobre os decisores políticos, sobretudo, no que se refere as formas de prevenção e resposta a um determinado conflito. Eles podem forçar os políticos a agir em prol da paz como podem também impedi -los de agir em prol da guerra; 3 – Promotor da Paz: as matérias dos mídia podem ser usadas no começo das negociações para construir confiança entre as partes, facilitar as negociações e quebrar impasses diplomáticos para criar uma atmosfera conducente a negociação; 3 – Construtor de Ponte: os mídia podem promover relações positivas entre as partes conflitantes, sobretudo, em conflitos nacionais, étnicos e religiosos.

A concatenação das funções acima arroladas fazem da mídia um poderoso instrumento para a promoção do diálogo e construção da paz, sobretudo, em contextos caracterizados por conflitos identitários. Todavia, a expl oração das potencialidades da mídia para a promoção da paz implica conhecer as

dinâmicas de marketing social. De acordo com Gallopel-Morvan (2008: 3), marketing social é um processo que aplica os princípios, ferramentas e técnicas do marketing para criar, comunicar e transmitir valores visando influenciar o comportamento de um público-alvo, de forma a beneficiar a sociedade. A abordagem do marketing social revela-se necessária na atuação da mídia para a promoção da paz porque o mundo da mídia apresenta-se como um negócio e os profissionais de midia pretendem seduzir a audiência produzindo programas e mensagens atrativos.

Os profissionais de mídia concebem as matérias e informações como um produto a ser vendido a uma vasta audiência. Neste sentido, para que a promoção da paz se reflicta nas atitudes e comportamentos dos indivíduos, devemos concebê-la como um “produto” a ser vendido a um público-alvo. Entretanto, a paz nao é um produto qualquer, a paz é um produto intangível, um valor, uma atitude que se deseja que se reflicta no comportamento de um público-alvo. Se o negócio é criar uma atmosfera de harmonia entre os diferentes grupos em conflito, é necessário fazer da paz um produto “comercializável”, enfatizando o quanto ela é necessária para a sociedade. Deve-se aplicar as tecnicas do Marketing Social para promover uma sede pelos dividendos da paz e um desinteresse para com os dividendos da guerra.

De acordo com Bratic e Schirch (2007: 12), o novo comportamento (relações positivas entre os grupos) que se pretende que as pessoas adoptem é um produto na campanha do m a r k e t i n g s o c i a l . O n o v o

(11)

comportamento precisa de ser algo atractivo e do interesse do consumidor de um público-alvo. Em, outras palavras, os profissionais de mida devem usar as tecnicas do marketing social para o propósito da paz.

O marketing social para paz consiste, pois, em empregar as técnicas do marketing social com vista a despertar, no seio das sociedades em conflito, o interesse por valores conducentes a paz, contribuindo, por conseguinte, para a construção da paz e reconciliação. Os marketers da paz devem, em primeiro lugar, identificar o público-alvo (focos de conflito, sociedade em conflito) e, em segundo, fazer com que os indivíduos sintam a necessidade da paz, ou seja, despertar neles a consciência de que os dividendos da paz são melhores que os dividendos da guerra. Para que um empreendeimento como este, que coloca a mídia ao serviço da paz, seja exequível é necessário que haja engajamento e boa vontade por parte dos profissionais de mídia.

Contudo, relegar a tarefa do

Marketing Social Para Paz nos

processos de construção da paz apenas aos profissionais de mídia parece uma tarefa que se destina, logo à partida, ao fracasso. Tal sucede por duas razões: a natureza do processo de construção da paz e a natureza do jornalismo. A construção da paz é um processo, à vez, complexo e sensível. A complexidade refere-se às inumeras dimensoes que ela envolve: cessação das hostilidades, reconstrução das infra-estruturas, protecçãao dos direitos humanos, restituição das identidades dos indivíduos, reforço das relações nas comunidades, etc (Curtis e Dzinessa,

2012: 5). Deste modo, para que a açãao dos jornalistas na campanha do

Marketing Social Para Paz seja frutífera

não basta apenas que eles dominem as técnicas do marketing social, é necessário, outrossim, que eles conheçam a natureza de um processo de paz, sob pena de despertarem percepções que podem fazer ressurgir o conflito.

Ciente desta realidade Hoawrd (2004: 15), advoga a necessidade de um Jornalismo Sensível ao Conflito, no qual se aplicam as analises do conflito e procura-se novas vozes e novas ideias acerca do conflito. Um jornalismo sensivel ao conflito seleciona cudadosamente cada palavra a ser usada na abordagem do conflito para evitar que se despertem percepcoes erradas sobre o conflito. Do mesmo modo que as percepcoes sao importantes durante o conflito, elas tambem sao determinantes no processo da construcao da paz. . Qualquer erro ao mediatizar o conflito pode ser crucial para expandi-lo ou desperta-lo. Na verdade, os conflitos

não desaparecem, mas são

positivamente transformados através das iniciativas e programas da construção da pz.

Quanto a natureza do jornalismo, dois aspectos sao dignos de menção. Por um lado, os jornalistas pautam sua conduta segundo os princípios da objectividade, neutralidade e não engajamento e, por outro, os gestores de mídia são guiados pela necessidade de obtenção de lucro.

Assim, envolver os jornalistas nas campanhas do Marketing Social para Paz não apenas comprometeria o principio do não engajamento, como também a sobrevivência dos proprios

(12)

jornalistas como profissionais. Daí que, concebe-se o Marketing Social para Paz como um empreendimento que pode ser levado a cabo com sucesso por ONG`s, organizações da Sociedade Civil, Igrejas, Rádios e Tvs Comunitárias (sem fins lucrativos) e por um grupo de especialistas em Estudos de Paz e Resolução de Conflitos.

Aos jornalistas caberia, portanto, o

jornalismo para paz. o JPP3 é um

modelo de jornalismo que se desenvolveu a partir dos Estudos de Paz sob a égide de Johan Galtung. Este modelo assenta na ideia de que as escolhas feitas pelos jornalistas ao reportar o conflito tendem ou para expandir ou contrair o espaço disponível para a sociedade no seu todo imaginar e trabalhar em prol da paz (Lynch e McGoldrick, 2000 : 21). O JPP consiste numa nova atitude da classe jornalistica perante a mediatizaçãao do conflito. Ao contrário do Marketing Social Para a Paz, não se trata de uma publicidade da paz, mas uma forma diferente de olhar e abordar um determinado conflito. Segundo Galtung e Fischer (2013: 99), o JPP proucura despolarizar, mostrando o lado bom e mau de todas as partes envolvidas no conflito e tenta contribuir para a de-escalada do mesmo, sublinhando a paz e a resolução de conflitos.

Dado o poder da midia na transformacao das sociedades, acredita-se que ela constitui um instrumento indispensável no processo de construção da paz. Todavia, em virtude da natureza complexa e sensível que este processo encerra, revela-se impriscindível associar a implantação do Marketing Social para Paz e do JPP às abordagens e téncinas

da Gestão e Resolução de Conflitos.

3. Mídia e o Conflito no Burundi (1993-2002)

O conflito étnico político burundês resultou de desigualdades políticas e económicas entre os principais grupos étnicos, Hutu, a maioria e Tutsi, a m i n o r i a . N o p e r í o d o d a independência, a minoria Tutsi continuou a dominar todas facetas do poder, criando ressentimento no seio dos Hutus. Em 1990, o Presidente Pierre Buyoya e o partido no poder (Partido da União para o Progresso Nacional) e m p r e e n d e r a m r e f o r m a s constitucionais que conduziram a eleições multipartidárias em Junho de 1993. Melchior Ndadaye e seu partido predominantemente Hutu venceram as eleições presidenciais e a Frente Para Democracia em Burundi, partido de maioria Tutsi, venceu as eleições parlamentares. Após assumir o poder, Ndadaye buscou reformar o sector militar e económico com vista a corrigir as desiguldades que permeavam estes sectores, mas o exército efectuou um Golpe de Estado, em Outubro de 1993 que culminou com seu assassinato. Este evento marcou o ressurgir de uma violência étnica brutal que resultou em 50,000 mortos e mais de 150, 000 deslocados (Khadiagala, 2008: 51).

Collier e Sambanis (1989: 36), advogam que a elite Hutus em Burundi sentia que a maioria numérica do seu grupo poderia garantir-lhes o controlo efectivo das instituições do Estado. Mas, pelo contrário, a elite Tutsis procurou evitar de todas as formas que isto acontecesse. Para alcançar os seus objectivos, a elite Tutsi assegurou boa parte das instituições do Estado,

(13)

sobretudo as instituições de segurança. Esta visão polarizada sobre como governar o Burundi criou uma a t m o s f e r a d e s u s p e i ç ã o e desconfiança entre os lideres políticos de ambos grupos, fazendo com que a tensão fizesse parte da interação quotidiana entre os diferentes grupos.

De acordo com o Relatório da Comissão de Inquérito da ONU no Burundi (1995), desde 1993 a confrontação entre Tutsis e Hutus aumentou em intensidade. Membros de cada de cada grupo étnico sentia que eles estão colectivamente engajados numa luta mortal contra a exterminação e subjeição.

Neste conflito, os meios de comunicação social, a rádio e o jornal, em especial, desempenharam um papel crucial tanto para a instigação como para a escalada do conflito. Replicando um exemplo muito comum durante o genocídio em Ruanda, onde a Rádio e Televisão Libre de Milles Collins (RTLM), disseminou mensagens inflamatórias incitando as massas à v i ol ênci a , al g um a s estaç õ es radiofónicas dirigidas por cidadãos Hutus incitavam os ouvintes, promovendo campanhas violentas contra Tutsis, como uma forma de vingança pela morte do Presidente Ndadaye, de origem Hutu. Os programas da Rádio Rutomoramgingo e Candid ilustram, de forma clarividente, como os apelos da mídia contribuíram para o aumento da quantidade e da intensidade da violência.

De acordo com Hagos (2011 : 7), a campanha de ódio registou um spill

over na mídia ruandesa, se fez sentir

também através dos media em Burundi. Baseada na República

Democrática do Congo, a rádio Rutomoramgingo trasmitiu mensagens anti-tustis em 1994, outra estação de mídia que envenenou a região dos Grandes Lagos foi a rádio Candid que disseminou mensagens virulentas contra Tutsis no mesmo período.

Numa sociedade onde a maior parte da população é analfabeta e onde as estações de TV não são de acesso da maioria da população , a rádio afigura-se como uma fonte primordial de informação e a censura dificilmente ocorre devido a ausência de narrativas diferentes. No caso de Burundi, a propaganda de ódio disseminada pelas rádios teve muitos adeptos entre os cidadãos Hutus que se sentiam excluídos e marginalizados do cenário político devido as desigualdades criadas durante o mandato do presidente Buyoya, de origem Tutsi.

Conforme se evidencia, o papel da radio Rutomorangingo e Candid no conflito consistiu em despertar no seio dos dois grupos étnicos percepções e sentimentos assaz determinantes tanto para e eclosão do conflito como para a dinâmica que o mesmo tomou. As informações e mensagens difundidas por estas rádios não foram a causa do conflito, mas contribuíram para despertar e fomentar rivalidades latentes entre os dois grupos étnicos.

Para além da rádio, os jornais não apenas reflectiam a divisão que permeiava a sociedade como também ajudaram a promovê-la. Segundo Hagos (2011:7), a imprensa local foi acusada de contribuir para a campanha de ódio, agravando as tensões étnicas num período crucial da história do país. O Crossroads, do lado dos Tutsis, e o Witness, do lado dos

(14)

Hutus, ambos escritos na língua vernácula local (Kirundi), jogaram um papel destrutivo na sociedade.

Neste contexto, a mídia não apenas transmitia mensagens que reflectiam um conteúdo violento como também promoviam a própria violência, ao mobilizar indivíduos a desencadear acções violentas entre eles. Se, por um lado, algumas abordagens do campo da psicologia (comportamento por aprendizagem)4

advogam que a exposição da violência através da mídia pode incentivar a prática da violência pelo indivíduo, por outro, é lógico que a promoção de violência pela mídia em contextos multiétnicos, onde a diversidade dá azo a conflitos, contribui para que a violência esteja presente na interação entre os diferentes grupos étnicos.

Para Vershney (2003:85), os conflitos étnicos muitas vezes resultam de uma estratégia de acção racional-instrumental empreendida pelas lideranças com vista a obtenção de fins políticos ou económicos. Assim, a acção da mídia durante o conflito espelha, em parte, esta estratégia racional-instrumental das elites politicas visando a conquista ou manutenção do poder político. Com a instrumentalização da mídia para a i n s t i g a ç ã o d o c o n f l i t o , a imparcialidade e o equilíbrio da mídia desaparecem e, por conseguinte, abre -se um espaço para sensacionalismo e propaganda negra. Observa-se aqui que a instigação do conflito através da mídia surge como uma estratégia empreendida pelas lideranças politicas dos diferentes grupos étnicos com vista a obtenção de um fim politico.

De acordo com Jowett e O’Donell

(2006: 13) , quando o conflito existe e a segurança é exigida, é comum aos propagandistas tentar controlar a informação e respostas para uma área específica. Receptores das mensagens de propaganda são desencorajados de questionar acerca de qualquer outra informação fora da área controlada. Conforme se depreende, em contextos de conflito, onde a informação é escassa, os profissionais da mídia buscam controlar, ao máximo possível, o acesso a informações de fontes que refutam a posição que “deve” ser difundida, de modo a construir consenso acerca de uma determinada realidade.

No caso do Burundi, a informação transmitida, tanto pela RTLM como pela Rádio Candid, visava diabolizar os Tutsis e gerar respostas específícas a nível das crenças, atitudes e comportamentos dos Hutus para com os Tutsis. A nível das crenças a influência ocorria através do uso de lendas que diabolizavam o grupo étnico rival, construindo, assim, um consenso entre as crenças dos hutus e os interesses de uma elite política que almejava o poder. A nível das atitudes expandia-se uma aversão contra os Tutsis. A nível comportamental as respostas consistiam em campanhas de violência contra os Tutsis.

Um olhar mais atento às dinâmicas deste conflito, traduz a ideia de que, muito embora, a existência das diferenças (culturais, politicas, etnicas) sejam uma pré-condição para o conflito, elas por si só não constituem condição suficiente para a eclosão do c o n f l i t o , s a l v o q u a n d o instrumentalizadas e politizadas pelas lideranças políticas. Associado a isto, a mídia desempenhou um papel crucial

(15)

como instigadora do conflito ao servir de eco aos interesses políticos dos líderes.

Não raras vezes a mídia burundesa tentou legitimar a prática da violência, aumentando a polarização étnica e ilegitimar qualquer possibilidade de diálogo e reconciliação entre as partes. Quanto mais se intensificava a propaganda de ódio pela rádio e pela imprensa escrita, mais difícil se tornava qualquer tentativa de pacificação no Burundi, sendo que, para Ameir (2008: 12), as negociações entre as partes começaram em 1998, apôs esforços de ONG’s e da Sociedade Civil visando o estabelecimento do “Jornalismo para a Paz” no Burundi. Portando, deste modo, com base nas evidências apresentadas, sustenta-se que os processos instigação de conflitos pela mídia dificultam qualquer possibilidade de resolução pacifica do conflito.

4.1. Experiência do Studio Ijambo: Arauto da Coexistência Pacífica no Burundi

A percepção de que a presença de uma imprensa extremamente vio-lenta no Burundi poderia constituir um óbice ao diálogo e reconciliação entre as partes envolvidas no conflito e, por isso, intensificaria a onda de violência, por um lado, e o desejo de se evitar que se replicasse no Burundi o mesmo cenário de matanças que se verificou no genocídio de Ruanda, por outro, compeliu a Sociedade Civil e Organi-zações Não Governamentais a desen-volverem canais de comunicação e reconciliação entre as partes. Era imperioso criar alternativas para conter a propaganda de ódio que permeava os mídia locais e, em resposta a este imperativo, surge o Studio Ijambo.

Segundo Hagos (2011: 8), o Studio Ijambo resultou das iniciativas da

Search For Common Ground5, uma

organi zação vo l untári a não -governamental, com vista a criar mecanismos para reconciliação e dimi-nuir os níveis de desconfiança e violên-cia no Burundi, constituindo-se, assim, na primeira produção de rádio sedia-da no Burundi que buscou disseminar mensagens de reconciliação e promo-ver a coexistência pacífica. Bratic e Schirch (2007: 10), por sua vez, obser-vam que o Studio Ijambo, contrastan-do o teor violento reproduzicontrastan-do pelos mídia locais, tentou usar o poder da rádio para propósitos construtivos.

Conforme se evidencia, esta rádio nasce do desiderato de criar, no seio da sociedade burundesa, infestada pelo ódio generalizado entre Hutus e Tutsis, uma atmosfera conducente não apenas ao fim da violência como tam-bém à coexistência pacífica. Para Berns (2007: 3), o termo coexistência descreve sociedades nas quais a diver-sidade é assumida pelo seu potencial positivo, onde a igualdade é activa-mente prosseguida, a interdependên-cia entre os diferentes grupos é reco-nhecida e a possibilidade de se recor-rer a armas para resolução de conflitos é marcadamente remota.

Assente no pressuposto segundo o qual os conflitos étnicos ocorrem em virtude da instrumentalização das dife-renças étnicas para o alcance de fins políticos e no facto de que os media locais prestavam subserviência a inte-resses de certos grupos, mobilizando, deste modo, as massas à violência, observa-se que, com a criação do Stu-dio Ijambo ocorre o reverso da moeda, ou seja, a acção desta rádio contribuiu para suplantar a racionalidade

(16)

mental subjacente na propaganda de ódio amiúde disseminada. Se por um lado, as mensagens incendiárias pro-pagadas pela rádio Rutomoramgingo e rádio Candid contribuíram para a escalada do conflito desde 1993 a 1995, por outro, as iniciativas inovado-ras do Studio Ijambo contribuíram para a de-escalada do mesmo, ou seja, des-de que surgiu em 1995, os programas voltados para a paz e reconciliação ajudaram a aproximar os diferentes grupos étnicos. Conforme assevera Hagos (2011: 10), o programa Our

Neighbors, Ourselves, que visava

res-taurar esperança e reconciliação entre famílias vizinhas de origem Hutu e Tutsi, constituiu uma atmosfera de matérias envolventes viradas para as famílias, tentando criar um modelo de coexis-tência em tempos difíceis.

Outra evidência que ilustra, de for-ma clarividente, o quanto o papel do Studio Ijambo foi determinante para a resolução do conflito e promoção da coexistência pacífica, é o facto de, nos anos imediatamente subsequentes à sua implantação, registar-se a primeira tentativa de negociação entre as par-tes em 1998. O Studio Ijambo ajudou, assim, a abrir novos canais de comuni-cação para aqueles que não tinham acesso a imprensa oficial e, como resultado, criou um fórum confiável para aquilo que foi conhecido como diálogo indirecto entre as partes.

3.2. Desconstruindo a Violência com Palavras no Burundi

Do mesmo modo que a onda de violência étno-política que permeou a sociedade burundesa foi resultado da manipulação de símbolos e palavras, a desconstrução da mesma implicaria o

uso destes recursos para a construção da paz. O apelo das elites étnicas e políticas à violência através da instru-mentalização das diferenças étnicas, só podia ser abafado através de um empreendimento que fosse, ao mesmo tempo, simbólico e dialogante de modo a inculcar no mais profundo da consciência dos grupos étnicos rivais a necessidade da reconciliação e da coexistência pacífica. Este empreendi-mento só seria possível por meio de uma entidade social que se mantivesse equidistante da polarização étnica que vegetava na sociedade burunde-sa. Esta tarefa foi assumida pelo Studio Ijambo desde a sua fundação em 1995.

Constituída por locutores tanto de origem Hutu como de origem Tutsi, esta rádio apresentava talk shows em que indivíduos das duas etnias dialogavam num tom de harmonia acerca dos pro-blemas que afligiam a sociedade, den-tre os quais o próprio conflito e a ques-tão dos refugiados decorrentes do mesmo.

O programa Our Heroes (nossos heróis) foi um dos talk shows que muito contribuiu para que se desenvolvesse uma cultura de paz, tolerância e coe-xistência entre Hutus e Tutsis. A missão central do talk show consistia em des-pertar no seio da sociedade a impor-tância da convivência pacífica. De acordo com Hagos (2011: 12), este pro-grama reportava casos daqueles que salvaram a vida de membros de outro grupo étnico, colocando em risco a sua própria vida durante a onda de matanças. Devido ao seu teor educati-vo e ao facto de que o programa era transmitido em Kirundi, a línga nacio-nal, o programa atraiu a atenção tan-to de Hutus assim como de Tutsis.

(17)

O impacto que o programa teve foi enorme. Dada a repercussão e o peso educativo das mensagens, o Our

Heroes, assim como outros programas

com teor pacificador não apenas aju-daram a desmobilizar a violência entre Hutus e Tutsis quanto também prepara-ram os caminhos para a assinatura dos Acordos de Arusha a 28 de Agosto de 2000 entre os partidos políticos, repre-sentando os diferentes grupos étnicos.

5. Mídia e Guerra Civil em Moçambique

A Guerra Civil Moçambicana foi marcada pela complexidade quer do ponto de vista do contexto na qual emergiu, quer do ponto de vista das suas causas e dos actores envolvidos. Quanto ao contexto, a Guerra inscreve -se em três principais conjunturas: doméstica, regional e global.

A conjuntura doméstica está intrin-secamente associada à insatisfação de alguns segmentos portugueses com a independência nacional, ao descon-tentamento de alguns moçambicanos (alguns dos quais membros da Frelimo) com algumas políticas implementadas pela Frelimo no período pós indepen-dência e a percepção de exclusão por parte de alguns moçambicanos. A conjuntura regional, por sua vez, mergulha na postura anti-imperialista e anti apartheid adoptada pelo então Governo de Moçambique e o seu apoio declarado e operacional aos movimentos nacionalistas na região, nomeadamente ZANU e ANC, facto que constituiu uma forte ameaça para os regimes de minoria branca: a Rodesia do Sul e o Apartheid. E, por último, a bipolarização das relações internacionais jogou um papel importante no palco da Guerra civil

moçambicana. (Robinson, 2006: 73; Vines, 1996: 10).

O debate em torno das causas da Guerra civil moçambicana é domina-do por um subdebate ligadomina-do às origens da RENAMO. Segundo Collier e Samba-nis (2005: 157), desde a sua fundação pelos serviços de contrainteligência da Rodesia ate ao momento em que seu apoio financeiro e militar passaram a ser fornecidos pela Africa do Sul, a Renamo era considerada uma mario-neta externa sem qualquer base social interna. Esta narrativa era propagada pelo governo através dos seus jornais e da radio em Maputo. Esta narrativa começa a ser criticada a partir da década 80 quando um grupo de acadêmicos começou a apontar para as causas internas da Guerra, como sejam o fracasso das políticas agrícolas implementadas pela Frelimo, alto nível de repressão politica, a percepção da dominação do Sul no xagrez politico nacional, etc.

Assim, segundo a narrativa tradicio-nal ou oficial as causas da Guerra em Mocambique seriam externas e, por-tanto, não se tratava de uma Guerra Civil mas de uma agressão dos regimes de minoria branca que utilizavam a Renamo como instrumento de desesta-bilização contra Mocambique. Ao pas-so que, para a narrativa revisionista (defendida pela Renamo), as raízes da Guerra eram internas e, por conseguin-te, a Guerra em Mocambique era uma Guerra movida pelo descontentamen-to de muidescontentamen-tos moçambicanos para com as políticas sociais e económicas imple-mentadas pela Frelimo (uma Guerra pela Democracia, segundo a narrativa da Renamo).

Muito embora pouco tenha sido documentado acerca do papel da

(18)

mídia durante o conflito em Moçambi-que, ela desempenhou um papel importante tanto no decorrer da Guer-ra como apó a AssinatuGuer-ra do Acordo Geral de Paz. Os principais actores do conflito (a Frelimo e a Renamo) usaram a míia para o propósito da Guerra. Durante a Guerra a a Renamo se servia da emissora Voz da África Livre para a mobilização política e comunicação com seus apoiantes. A Frelimo, por sua vez, usou a Rádio Moçambique como instrumento de Propaganda e contrainsurgência.

Segundo Vines (1996: 16), a rádio Voz da África Livre era controlada pelos mentores da Renamo com vista a recrutar mais nativos moçambicanos para os campos de treinamento dos rebeldes. Foi igualmente através da Voz da África Livre que a Renamo publicou o seu primeiro programa político em 1981. Ademais, um ano após o Acordo de Nkomati, a comunicação entre a Renamo e seus mentores era feita essencialmente através de uma eficiente rede de rádio. Em alguns casos a rádio era um meio imprescindível para a Renamo lançar um charme de legitimidade através da propaganda, divulgando-se, sobretudo no período pós Nkomati,

como uma força autonóma,

independente da África do Sul.

Fortemente controlada pela Freli-mo, a mídia local, sobretudo a Rádio Moçambique, não apenas reproduzia a narrativa oficial do conflito como também agia como um meio de contrainsurgência, apelando, não raras vezes, para ilegitimidade da Renamo, tratando-a da mesma forma como bandidos armados. Segundo Mário (2011: 16), no período da guerra civil o controlo da mídia tornou-se mais rígido

em nome da segurança nacional. Em 1982, Carlos Cardoso, na qualidade de director da Agencia de Informacao de Mocambique, foi preso durante seis dias depois de escrever um artigo sobre a Guerra Civil chamamndo os rebeldes de Renamo numa altura em que a mídia era obrigada a designar os rebeldes de bandidos armados. Bergh (2009: 167), por sua vez, afirma que entre 1986 a 1987, o governo através da rádio levou a cabo uma campanha encorajando as pessoas a abandonarem a Renamo e se apresentarem as autoridades em troca de perdão e apoio.

A as conversações para a paz em Moçambique foram um processo mar-cadamente complexo, envolvendo diversos actores, quer nacionais como a própria Frelimo, o Conselho Cristão de Mocambique, a Igreja Católica e algumas individualidades singulares, quer nacionais, quer internacionais, na busca de uma plataforma de diálogo que culminasse com um acordo favorável para ambas partes. Segundo nota Mazula (1996: 256), a mídia tambem esteve envolvida no quadro

das negociacoes de Roma,

transmitindo os diferentes assuntos que ai eram levantados. Todavia, algumas personagens entrevistadas por Mazula (1996), como o jornalista Fernando Lima Salomão Moyana assumem que numa primeira fase, a mediatização das negociações em Roma pela Rádio Moçam bi que (RM) não era equilibrada, uma vez que esta raramente mencionava e sequer entrevistava os interlocutores da parte da Renamo e transmitia uma visão parcial dos acontecimentos. Na óptica destes, a situação melhorou quando um jornal privado local, o Mediafax,

(19)

que se fizera tardiamente presente em Roma, passou a transmitir as notícias acerca do conflito.

Os entrevistados partilham da per-cepção de que a mediatização das negociações pelo Mediafax era mais equilibrada por permitir que tatnto os respresentantes da Renamo e da Freli-mo tivessem voz e expressasem, na pri-meira pessoa, as dificuldades que ambas as partes tinham de avançar para o acordo. A presença do Media-fax contribuiu para que se desconstruís-se a percepção que era gerada pela Rádio Moçambique de que eram os representantes da Renamo quem tor-pedeavam os caminhos para o acordo de Paz.

Das negociações que tiveram lugar em Roma em 1990 resultou o Acordo Geral de Paz (Chan e Venâncio, 1998: 19). Este acordo era constituído de sete protocolos que versam sobre diferentes aspectos, como sejam, a preparação das eleições, a constituição das Forças

Armadas de Moçambique, a

desmobilização e integração social dos guerrilheiros, entre outros.

Com o fim do conflito e a emergência de uma estrutura econômica, social e política assaz diferentes do período anterior a Guerra, registou-se uma viragem no papel da mídia local. Por um lado, com o Acordo de Nkomati e as primeiras tentativas de negociação entre a Frelimo e a Renamo, a rádio Voz da Africa Livre foi perdendo sua razão de ser. Por outro, ao negociar com a Renamo a Frelimo deu sinais claros de legitimidade da Renamo enquanto actor político. Portanto, o discurso oficial com relação aos guerrilheiros mudou e, por conseguinte, a rádio local deixou de rotular a

Renamo de bandidos armados e passou a adoptar uma designação apropriada para um actor político. Esta evolução, embora a primeira vista pareça insignificante, constituiu uma etapa importante no processo de reconciliação.

Portanto, esta viragem do papel da rádio após o Acordo Geral de Paz foi bastante importante por permitir desconstruir algumas visões tanto sobre a Renamo como sobre a Frelimo que, a princípio, minariam o processo de reconciliação e construção da paz, caso continuassem a ser difundidas.

5.1. “Jornalismo para a Paz”: Desafios Para Moçambique

O termo Jornalismo para Paz foi cunhado em 1970 por Johan Galtung, um dos pioneiros dos Estudos de Paz. O jornalismo para Paz herdou um cunho normativo dos Estudos de Paz e prioriza a paz como seu valor central e ponto de partida (Hanitzsch, 2007: 2). O JPP assenta na ideia de que a forma como os conflitos têm sido reportados pela mídia convencional gera percepções distorcidas sobre a realidade e, por conseguinte, aumenta a polarização entre as partes envolvidas no conflito. Assim, o jornalismo de paz consiste numa prática jornalística que integra conhecimentos de Estudos de Paz e Resolução de conflitos para transfor-mar as sociedades em conflito através dos efeitos positivos da mídia. Segundo Lynch e McGoldrick (2000: 21), o Jorna-lismo para Paz é baseado na proposi-ção de que as escolhas feitas pelos jor-nalistas ao reportar o conflito tendem ou para expandir ou contrair o espaço disponível para a sociedade, no seu todo, imaginar e trabalhar em prol da

(20)

paz. Galtung e Fischer (2013: 99), por sua vez, advogam que o JPP proucara despolarizar, mostrando o lado bom e mau de todas as partes envolvidas no conflito e tenta contribuir para a de-escalada do mesmo, sublinhando a paz e a resolução de conflitos.

O jornalismo para Paz é um jornalis-mo engajado com uma causa: a paz. É nesta perspectiva que os defensores deste movimento, Vladmir Bratic (2007), Galtung e Fischer (2013), Howard (2004), Wolfsfeld, entre outros, assumem que os profissionais de mídia devem ser capazes de reportar o o conflito dentro de um contexto mais amplo, identifi-cando várias causas possíveis do mes-mo, humanizando-o e envolvendo dife-rentes actores na compreensão do mesmo com vista a contribuir para sua resolução pacífica. Segundo Howard (2004: 8), a comunicação é crucial no conflito. Para que as duas partes pau-tem por uma resolução não violenta do conflito, é necessério dialogar. É precisamente a promoção do diálogo e um resolução pacífica do conflito pelas partes que constituem o fim últi-mo do jornalisúlti-mo para paz, ou seja, mediatizar para a construção da paz.

Não obstante, o Jornalismo para paz ter atraído muitos adeptos tanto na área dos Estudos de Paz e Resolu-ção de conflitos como na área da comunicação, alguns académicos, sobretudo os da área da comunica-ção, têm-se revelado bastante cépti-cos quanto a ambição deste movi-mento: colocar o jornalismo ao serviço da paz. A título de exemplo, Kempf (2007: 2) advoga que o termo jornalis-mo para paz combina dois elementos que são difíceis de harmonizar: paz e jornalismo. O jornalismo é uma forma de comunicação pública que está

sujeita a normas profissionais: credibili-dade, objectivicredibili-dade, neutralidade e não engajamento. A paz é um objecti-vo externo e não intrínseco ao jornalis-mo. Assim, uma vez que a promoção da paz pela mídia implica engajamen-to dos jornalistas com a causa da paz, o JPP contrasta com o princípio do não engajamento que norteia a conduta dos jornalistas. Esta visão traduz a ideia de que o mundo do jornalismo dispõe de leis naturais que não são compatí-veis com o propósito do jornalismo para a paz. Hackett (2006), por sua vez, afirma que para os oponentes Deste movimento, o JPP é um ponto de saída do dominío da objectividade para o do engajamento.

Muito embora estas críticas tenham sua razão de ser, elas reflectem apenas as idéias e interesses de uma classe de profissionais e não transcende esta dimensão meramente paroquial. Na verdade, vão se multiplicando casos que ilustram como os jornalistas podem estar engajados com a causa da paz sem comprometer a objectividade. O jornalismo para paz não apela para uma mediatização romântica do flito, antes pelo contrário, procura, con-forme postula Galtung, reportar o lado bom e mau de todas as partes envolv-das no conflito, humanizando as partes no conflito, centra-se no sofrimento das vítimas com o objectivo de contribuir para a aproximação das partes. Como se vê, para os defensores do jornalismo para paz, a objectividade não fica comprometida, mas é reforçada e revestida de um compromisso maior: a construção da paz.

Moçambique se encontra mergu-lhado numa crise política de pequena intensidade desde finais de 2014. Antes das eleições gerais de Outubro de

(21)

2014, já havia certa instabilidade política que culminou com a assinatura de um acordo de cessação de hostilidades entre o presidente da República, Armando Guebuza e o presidente da Renamo, Afonso Dlhakama. Este acordo permitiu que as eleições de 2014 ocorressem num clima de relativa ordem. Após o anúncio dos resultados das eleições gerais, uma nova crise políitica se instalou no seio do país. Esta crise deriva de causas imediatas e profundas. As imediatas prendem-se directamente com a não-aceitação dos resultados das eleições por parte do líder da Renamo, Afonso Dlhakama e sua reivindicaçã pela governação das seis províncias nas quais a Renamo teria, supostamente, vencidas as eleições. As causas profundas estão associadas a uma percepção de exclusão por parte dos membros da Renamo dos processos económicos do país e a existência de forças residuais da Renamo que continuam armadas desde a assinatura do Acordo Geral de Paz.

Nos anos que se seguiram ao Acordo Geral de Paz, a rádio e a TV públicas participaram activamente nas campanhas de educação cívica e na preparação das primeiras eleições multipartidárias. Segundo Bergh (2009: 75) a mídia foi sempre convidada a tomar parte nos programas de educação cívica. Os rádio-jornalistas ficavam na maior parte dos três dias, especialmente nas províncias, transmitindo grandes trechos das discussões. Para Mazula et al (1996: 159), nas vésperas das eleições multipartidárias em Moçambique os m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o desempenharam um papel crucial nas

camapanhas de educação cívica. Quer unidades móveis, quer estações de Rádio, Televisões e panfletos foram mobilizados para consciencializar os cidadãos, em todo o país, acerca da importancia das eleições e dos procedimentos a observar no dia das mesmas.

Conforme se vê, embora nos anos imediatamente posteriores a assinatura do Acordo Geral de Paz, houvesse um número relativamente reduzido tanto a nível de estações de rádio e televisão, como a nível da imprensa escrita em todo o país, a mídia local envolveu-se activamente nos diferentes programas em prol da reconciliação e educação cívica. Actualmente o número de rádios e tevs aumentou consideravelmente. Porém, o contributo da midia no processo da construção da paz num contexto marcado pelo ressurgimento do conflito revela-se pouco significante, ou seja, não há jornalismo para a paz em Moçambique.

Nota - se, por exemplo, algumas manchetes de jornais referentes ao conflito nos meses imediatamente posteriores a sua eclosão, expressões tais como: A Orquestra de uma Paz Podre6; Governo e Renamo

Encalhados; Cessar- Fogo? É complicado!7; Diálogo Sim, mas com

Fogo!8 Preparação para a Guerra9.

Este cenário traduz a ideia de uma instigação de conflitos não intencional devido, precisamente, a forma como as informações são construídas e difundidas para a audiência. Isto periga o processo de construção da paz, visto que muitas destas geram uma má percepção sobre o conflito que contribue, muitas vezes, para a escalada do mesmo

Referências

Documentos relacionados

Para al´ em disso, quando se analisa a rentabilidade l´ıquida acumulada, ´ e preciso consid- erar adicionalmente o efeito das falˆ encias. Ou seja, quando o banco concede cr´ editos

MELO NETO e FROES (1999, p.81) transcreveram a opinião de um empresário sobre responsabilidade social: “Há algumas décadas, na Europa, expandiu-se seu uso para fins.. sociais,

Em que pese ausência de perícia médica judicial, cabe frisar que o julgador não está adstrito apenas à prova técnica para formar a sua convicção, podendo

the human rights legislated at an international level in the Brazilian national legal system and in others. Furthermore, considering the damaging events already

São eles, Alexandrino Garcia (futuro empreendedor do Grupo Algar – nome dado em sua homenagem) com sete anos, Palmira com cinco anos, Georgina com três e José Maria com três meses.

Este trabalho tem como objetivo contribuir para o estudo de espécies de Myrtaceae, com dados de anatomia e desenvolvimento floral, para fins taxonômicos, filogenéticos e

Considerando esses pressupostos, este artigo intenta analisar o modo de circulação e apropriação do Movimento da Matemática Moderna (MMM) no âmbito do ensino

Os resultados são apresentados de acordo com as categorias que compõem cada um dos questionários utilizados para o estudo. Constatou-se que dos oito estudantes, seis