Departamento de Sociologia
Classes sociais e voto partidário em Portugal, 1987-2011
Nilton Serras Lopes Caparelli de Godoy
Tese especialmente elaborada para obtenção do grau de Doutor em Sociologia
Orientador:
Doutor Fernando Luís Lopes Machado, Professor Auxiliar, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa
Departamento de Sociologia
Classes sociais e voto partidário em Portugal, 1987-2011
Nilton Serras Lopes Caparelli de Godoy
Tese especialmente elaborada para obtenção do grau de Doutor em Sociologia
Jurí:
Doutor Manuel Carlos Ferreira Silva, Professor Catedrático da Universidade do Minho. Doutor José Virgílio Borges Pereira, Professor Associado da Faculdade de Letras do Porto.
Doutor José Manuel de Oliveira Mendes, Professor Auxiliar da Universidade de Coimbra.
Doutor André Renato Leonardo dos Santos Freire, Professor Auxiliar com agregação do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
Doutor Fernando Luís Lopes Machado, Professor Auxiliar do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
i
Agradecimentos
:ii
Resumo:
No presente estudo investiga-se a relação entre classes sociais e voto partidário em eleições legislativas a nível nacional, distrital e concelhio, em Portugal.
A relação entre classes sociais e voto partidário constitui um núcleo central da sociologia e é um assunto com diversas perspetivas.
Existe uma relação intrínseca entre democracia representativa e o recurso a eleições conduzidas através de linhas partidárias. Investigamos se existe conexão entre as classes sociais e a votação em partidos específicos e por bloco ideológico. Na tipologia de classes que utilizamos atribui-se um papel central aos indicadores sócio-profissionais.
A ligação entre classes e voto partidário encontra-se relacionada com as questões dos realinhamentos eleitorais, que são mudanças nos padrões de voto, e com as questões dos desalinhamentos eleitorais, que são o potencial desaparecimento de padrões de voto. Conseguimos encontrar relações entre classes sociais e voto a nível nacional, distrital e concelhio. A análise distrital e local permite esclarecimentos adicionais na relação entre classes e voto partidário pois é nestes níveis que as classes sociais e o voto se diferenciam mais fortemente e em que se torna mais clara a definição de padrões de voto de classe.
Palavras-chave: classe social, partidos políticos, comportamento eleitoral, política de classe, voto de classe.
iii
Abstract:
In this thesis we research the connection between social classes and party voting in legislative elections and at the national, county and local level. The country we study is Portugal.
This connection constitutes an important part of sociology. This thematic has different perspectives.
There is an intrinsic relationship between democracy and elections conducted according to party lines.
We enquire if there is a relationship between social classes and the vote according to specific political parties and according to the political left and the political right. In the definition of social classes we use a class tipology that uses socio-professional variables.
There are important issues that are connected to our study. Those issues are called the dealignement thesis and the realignement thesis. The dealignement thesis supports the disappearance of relationships between classes and the vote. The realignement thesis supports that this relation is changing in a profound way.
We could find connections between social classes and party voting at the national, county and local level.
The local level is crucial for the understanding of the connection between the variables we use because it shows clearer class voting patterns.
Key-words: social class, political parties, electoral behaviour, class politics, class voting
iv
Glossário de siglas:
CNE – Comissão Nacional de Eleições
INE – Instituto Nacional de Estatística
EDL – Empresários, Dirigentes e Profissionais Liberais
PTE – Profissionais Técnicos e de Enquadramento
TI – Trabalhadores Independentes
AI – Agricultores Independentes
EE – Empregados Executantes
O – Operários
AA – Assalariados Agrícolas
CDS-PP – Centro Democrático Social – Partido Popular
PSD – Partido Social Democrata
PS – Partido Socialista
PCP – Partido Comunista Português
BE – Bloco de Esquerda
v
Índice:
Introdução……….………..1
Capítulo 1: Participação cívica e política nas sociedades contemporâneas………….…7
Capítulo 2: Classes sociais e política.………...…….19
2.1: Que relação entre classes sociais e política?.…...19
2.2: Operariado e campesinato: que relações entre classe e voto?………...…41
2.3: As teorias do fim das classes sociais e a política…………..……….45
Capítulo 3: Política, partidos, voto e classes sociais………...……….……..53
3.1: Partidos políticos e classes sociais………...…...53
3.2: Sociologia eleitoral e classes sociais……….58
Capítulo 4: Estrutura de classes, sistema partidário e comportamento eleitoral em Portugal – características e evolução……….………..…....65
4.1: Evolução da estrutura de classes sociais em Portugal (1960-2011)…………..65
4.2: O sistema partidário em Portugal: transformações e permanências….…….…74
4.3: Conjuntura económica e políticas e comportamentos eleitorais………...83
Capítulo 5: Metodologia………97
Capítulo 6: Classes e voto nas legislativas em Portugal – análise de âmbito nacional.105 Capítulo 7: Diferenciações regionais dos padrões de voto por classe………...121
7.1: A relação dos operários (O) e dos agricultores independentes (AI) com o voto partidário e por bloco ideológico: distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro e Leiria……...121
7.2: A relação dos agricultores independentes (AI) e dos trabalhadores independentes (TI) com o voto partidário e por bloco ideológico nos distritos de Vila Real, Bragança e Viseu…………...133
vi
Índice (continuação)
7.3: A relação entre estrutura de classes e volatilidade eleitoral:
distritos da Guarda, Castelo Branco e Santarém………..………...140
7.4: Valores elevados de profissionais técnicos e de enquadramento (PTE), os empregados executantes (EE) e os empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) na sua relação com o voto: distritos de Coimbra, Lisboa e Setúbal...147
7.5: Os empregados executantes (EE) e os assalariados agrícolas (AA) na sua relação específica com a esquerda partidária: distritos de Portalegre, Évora, Beja e Faro…...………...….……154
7.6: Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores: importância das especificidades locais………...161
Capítulo 8: Especificações locais de classe e voto………...167
8.1: O comportamento eleitoral dos empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) e dos profissionais técnicos e de enquadramento PTE: entre a direita e a oscilação eleitoral.………167
8.2: O comportamento eleitoral dos empregados executantes (EE): entre a esquerda e a alternância eleitoral………..……….176
8.3: O comportamento eleitoral do operariado (O): entre a esquerda e a oscilação eleitoral………..181
8.4: O comportamento eleitoral dos agricultores independentes e dos assalariados agrícolas (AI e AA): entre a direita e a esquerda………....187
8.5: O comportamento eleitoral dos trabalhadores independentes (TI): entre a direita e a esquerda………....192
8.6: Os partidos políticos e os padrões eleitorais…..…………...195
Conclusão………205
Fontes………..211
xi
Índice de Quadros:
4.1: Evolução da estrutura de classes sociais em Portugal (% em coluna)………..67 4.2: Perfis sócio-educacionais em Portugal (%)……….……….69 4.3: Proporção de dirigentes e profissionais liberais entre os EDL e de quadros
intelectuais e científicos entre os PTE (censos de 1991, 2001 e 2011, % em coluna)....70 4.4: Relação de qualificação entre o operariado nos diversos ramos de atividade
(2011)……….……….72 4.5: Votação partidária nas eleições legislativas realizadas no período entre
1987 e 2011 (%)………..83 4.6: Principais protagonistas dos governos constitucionais,
maioria parlamentar e Presidentes da República, de 1987 a 2011………..84 4.7: Voto por bloco ideológico nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..85 4.8: Evolução da abstenção em Portugal em eleições legislativas (%)………...94 6.1: Estrutura de classes sociais em Portugal em 1991 (%)………105 6.2: Votação partidária e por bloco ideológico em Portugal nas eleições legislativas realizadas em 1987, 1991 e 1995 (%)………..………….105 6.3: Estrutura de classes sociais em Portugal em 2001 (%)………..109
6.4: Votação partidária e por bloco ideológico em Portugal nas eleições legislativas realizadas em 1999, 2002 e 2005 (%)………110 6.5: Estrutura de classes sociais em Portugal (censos 2011, %)………112 6.6: Votação partidária e por bloco ideológico em Portugal nas eleições legislativas realizadas em 2009 e 2011 (%)………...113 6.7: Relação entre pequenos-patrões/empresários (número de pequenos-patrôes
por cada empresário) em 1991, 2001 e 2011………114 6.8: Relação entre pequenos-patrões da indústria/pequenos-patrões do comércio
e serviços (número de pequenos-patrões da indústria por cada pequeno-patrão
do comércio e dos serviços) em 1991, 2001 e 2011……….115 6.9: PTE com lógicas de trabalho sócio-culturais entre o total de PTE existentes (%). 115 7.1: Estrutura de classes sociais no distrito de Viana do Castelo em 1991, 2001
xii
7.2: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Viana do Castelo
nas eleições legislativas realizadas no período de 1987 a 2011 (%)………...123 7.3: Estrutura de classes sociais no distrito de Braga em, 1991, 2001
e 2011 (%)………123 7.4: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Braga nas eleições
legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..………….126 7.5: Estrutura de classes sociais no distrito do Porto em 1991, 2001 e 2011 (%)……127 7.6: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito do Porto
nas eleições legislativas realizadas no período de 1987 a 2011 (%)………128 7.7: Estrutura de classes sociais no distrito de Aveiro em 1991, 2001 e 2011 (%)…..130 7.8: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Aveiro nas eleições
legislativas realizadas no período de 1987 a 2011 (%)……….130 7.9: Estrutura de classes sociais no distrito de Leiria em 1991, 2001 e 2011 (%)…..131 7.10: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Leiria nas eleições
legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….132 7.11:Estrutura de classes sociais no distrito de Vila Real em 1991, 2001 e 2011 (%) .134 7.12: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Vila Real
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….134 7.13: Estrutura de classes sociais no distrito de Bragança em 1991, 2001 e 2011 (%).136 7.14: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Bragança
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….137 7.15: Estrutura de classes sociais no distrito de Viseu em, 1991, 2001 e 2011 (%)….138 7.16: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Viseu nas eleições
legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….139 7.17: Estrutura de classes sociais no distrito da Guarda em 1991, 2001 e 2011 (%)…141 7.18: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito da Guarda
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………142 7.19: Estrutura de classes sociais no distrito de Castelo Branco
em 1991, 2001 e 2011 (%)………143 7.20: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Castelo Branco
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e de 2011 (%)………144 7.21: Estrutura de classes sociais no distrito de Santarém em 1991, 2001 e 2011 (%).145
xiii
7.22: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Santarém
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………146 7.23: Estrutura de classes sociais no distrito de Coimbra em 1991, 2001 e 2011 (%).148 7.24: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Coimbra
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..149 7.25: Estrutura de classes sociais no distrito de Lisboa em 1991, 2001 e 2011 (%)…150 7.26: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Lisboa
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….151 7.27: Estrutura de classes sociais no distrito de Setúbal em 1991, 2001 e 2011 (%)…152 7.28: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Setúbal
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….152 7.29: Estrutura de classes sociais no distrito de Portalegre em 1991, 2001 e 2011 (%).154 7.30: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Portalegre
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….155 7.31: Estrutura de classes sociais no distrito de Évora em 1991, 2001 e 2011 (%)…..156 7.32: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Évora nas eleições
legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….156 7.33: Estrutura de classes sociais no distrito de Beja em 1991, 2001 e 2011 (%)……157 7.34: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Beja nas eleições
legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….158 7.35: Estrutura de classes sociais no distrito de Faro em 1991, 2001 e 2011 (%)……159 7.36: Votação partidária e por bloco ideológico no distrito de Faro
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………160 7.37: Estrutura de classes sociais na região administrativa da Madeira
em 1991, 2001 e 2011 (%)………..161 7.38: Votação partidária e por bloco ideológico na região administrativa da Madeira nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………162 7.39: Estrutura de classes sociais na região administrativa dos Açores
em 1991, 2001 e 2011 (%)……….163 7.40: Votação partidária e por bloco ideológico na região administrativa dos Açores e nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………164 8.1: Estrutura de classes sociais no concelho do Porto em 1991, 2001 e 2011 (%)….168
xiv
8.2: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho do Porto nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………168 8.3: Estrutura de classes sociais na freguesia de Nevogilde, concelho do Porto,
em 1991, 2001 e 2011 (%)………169 8.4: Estrutura de classes sociais na freguesia da Campanhã, concelho do Porto, em 1991, 2001 e 2011 (%)………..169 8.5: Votação partidária e por bloco ideológico na freguesia de Nevogilde, concelho do Porto, nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..170 8.6: Votação partidária e por bloco ideológico na freguesia da Campanhã, concelho do Porto nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………...170 8.7: Estrutura de classes sociais no concelho de Coimbra em 1991, 2001 e 2011 (%).172 8.8: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Coimbra
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….173 8.9: Estrutura de classes sociais na freguesia de Cedofeita, concelho do Porto,
em 1991, 2001 e 2011 (%)……….173 8.10: Votação partidária e por bloco ideológico na freguesia da Cedofeita, concelho do Porto, nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….174 8.11: Estrutura de classes sociais no concelho de Gondomar em 1991, 2001
e 2011(%)………176 8.12: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Gondomar
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….177 8.13: Estrutura de classes sociais no concelho de Cascais em 1991, 2001 e 2011 (%).177 8.14: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Cascais
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….178 8.15: Estrutura de classes sociais na freguesia de São Domingos de Rana, concelho de Cascais, em 1991, 2001 e 2011 (%)………....179 8.16: Votação partidária e por bloco ideológico na freguesia de São Domingos de Rana, concelho de Cascais, nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………179
xv
8.17: Estrutura de classes na freguesia de Cascais, concelho de Cascais, em 1991,
2001 e 2011 (%)………...180 8.18: Votação partidária e por bloco ideológico na freguesia de Cascais, concelho de Cascais, nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………180 8.19: Estrutura de classes sociais no concelho de Guimarães em 1991, 2001 e 2011 (%)………..182 8.20: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Guimarães
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….182 8.21: Estrutura de classes sociais no concelho de Santo Tirso em 1991, 2001 e 2011 (%)……….183 8.22: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Santo Tirso
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………...183 8.23: Estrutura de classes sociais em Penafiel em 1991, 2001 e 2011 (%)…………...184 8.24: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Penafiel
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….185 8.25: Estrutura de classes sociais no concelho de Chaves em 1991, 2001 e 2011 (%).187 8.26: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Chaves
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)…………...188 8.27: Estrutura de classes sociais no concelho de Resende em 1991, 2001 e 2011
(%)………..189 8.28: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Resende
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….190 8.29: Estrutura de classes sociais no concelho do Redondo em 1991, 2001 e 2011 (%)………191 8.30: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho do Redondo
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………191 8.31: Estrutura de classes sociais no concelho da Estarreja a em1991, 2001 e 2011 (%)………192
xvi
8.32: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Estarreja
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………193 8.33: Estrutura de classes sociais no concelho de Faro em 1991, 2001 e 2011 (%)…194 8.34: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Faro
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………194 8.35: Níveis máximos de votação no PCP e no BE nos concelhos rurais do distrito de Braga nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..195 8.36: Estrutura de classes sociais no concelho da Marinha Grande em 1991, 2001 e 2011 (%)………196 8.37: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho da Marinha Grande nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)………..197 8.38: Estrutura de classes sociais no concelho de Leiria em 1991, 2001 e 2011 (%)...197 8.39: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Leiria
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….198 8.40: Estrutura de classes sociais no concelho de Almada em 1991, 2001 e 2011
(%)……….199 8.41: Estrutura de classes sociais no concelho da Amadora em 1991, 2001 e 2011, (%)……….200 8.42: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Almada nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….200 8.43: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho da Amadora
nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….201 8.44: Estrutura de classes sociais no concelho de Sines em 1991, 2001 e 2011 (%)…202 8.45: Votação partidária e por bloco ideológico no concelho de Sines nas eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011 (%)……….202
1
INTRODUÇÃO:
Neste trabalho procura-se equacionar a relação entre classes sociais e voto partidário em eleições legislativas, a nível nacional, distrital e concelhio, em Portugal.
Concretamente, pretende-se estudar duas variáveis, classes sociais e voto partidário, que poderão encontrar-se relacionadas de diversos modos, numa relação em que existirão influências mútuas e que se pretende ter em conta no modo como se distribuem os votos nas eleições mais importantes para a condução do país.
Esta tema foi investigado de diversas formas, mas constitui um núcleo central da sociologia, preocupada em explicar os comportamentos dos diversos setores da sociedade.
É um tema com variadas perspetivas, com variadas articulações entre teoria e pesquisa e com importantes conjuntos de indicadores e procedimentos que permitem o desdobramento de unidades de análise.
O estudo das classes sociais “é das maneiras que a sociologia tem de investigar as relações entre estrutura e ação, introduzindo os protagonistas sociais no cerne da procura de intelegibilidade sociológica” (Costa, 1999, p: 209).
O estudo da relação das classes sociais com o voto partidário é importante para a procura de conhecimento sobre como os protagonistas sociais se comportam em relação a uma variável de crucial importância nas sociedades contemporâneas.
Existem, em termos teóricos, diversas formas de abordar as classes sociais. Podemos ver estas diversas abordagens como complementares.
Os autores que refletem sobre as classes sociais enfatizam diversas questões, que passam pelo lugar reservado, na estrutura de classes, aos quadros médios e superiores, aos dirigentes de empresas e do estado ou aos trabalhadores de base.
Existem, assim, variadas tipologias de classe que procuram solucionar onde se inserem as classes médias, os dirigentes do estado e das empresas ou que diferenciam os trabalhadores menos qualificados do setor industrial e dos serviços.
O estudo sobre classes sociais é um estudo, como já referido, com diversos prismas. Estes prismas atribuem diversas importâncias à estrutura de classes nas sociedades contemporâneas e escolhem diversas configurações que a estrutura de classes pode adquirir. As abordagens mais recentes tendem a articular esses diversos prismas.
2
Importa referir, ainda, que existe mobilidade entre lugares de classe. Os diferentes pesos das diferentes classes transformam-se ao longo do tempo.
As abordagens aos partidos e ao sistema partidário são, igualmente, diversas, mas enfatizam, de modo geral, o modo como os partidos surgiram, como se desenvolveram, as suas relações entre eles e as relações internas a cada um deles.
As estruturas de competição partidária transformam-se ao longo do tempo, mas podem ser consideravelmente estáveis por longos períodos. Os partidos apresentam, assim, consideráveis diferenças no modo como surgiram e como evoluíram, sendo importante notar essas diferenças.
Existe uma relação intrínseca entre democracia representativa e o recurso a eleições conduzidas através de linhas partidárias. A existência de partidos que sigam uma lógica competitiva por eleitorados é um requisito para a existência de um governo representativo. O lado político-partidário da nossa equação em estudo focaliza-se, assim, no estudo dos partidos portugueses.
Anteriormente à apresentação dos capítulos, que constituem esta tese, convém dizer, igualmente, que a equação entre classes sociais e voto partidário encontra subjacente questões relacionadas com os realinhamentos eleitorais, que são mudanças nos padrões de voto e questões relacionadas com os desalinhamentos eleitorais, que são o potencial desaparecimento de padrões de voto.
O tema do estudo é enquadrável num campo mais vasto que reflete sobre a participação cívica e política nas sociedades contemporâneas. Campo em que é importante, para além do voto partidário, a análise dos movimentos sociais.
Este campo de estudo, referido no primeiro capítulo, aborda a emergência e desenvolvimento dos movimentos sociais. A relação entre o Estado e as possíveis oportunidades políticas para a emergência de movimentos sociais são salientadas.
Atribui-se, importância, igualmente, neste capítulo, aos autores que elaboram reflexões sobre classes sociais e voto partidário e que refletem sobre possíveis conexões entre classes sociais, movimentos sociais e partidos políticos.
Esta relação existe em variados graus e modos, sendo mais saliente e importante em determinadas teorias, como as de Beck (2001) ou de Kriesi (1996).
A relação entre classes sociais e voto partidário pode ser equacionada de diversos prismas. Um prisma é o da relação entre classes sociais e voto partidário do ponto de vista da sociologia das classes.
3
No segundo capítulo, equacionam-se, assim, autores reconhecidamente importantes para este debate. Assinala-se, igualmente, debates entre autores que defendem o fim da relação entre classes sociais e política e os que se opõem a esta visão.
Neste momento de análise explanam-se os contributos de autores importantes da sociologia das classes, tais como Wright (1994; 2010), Goldthorpe (2004), Bourdieu (1979; 1996), Inglehart (1997). O destaque é dado, igualmente, a autores que se inspiram nestas teorias para elaborarem as suas proposições, tais como Atkinson (2007), Schwartz (2008) e Guveli (2008).
São abordagens complementares que partem, no entanto, de enquadramentos teóricos diferentes. Essas perspetivas procuram refletir sobre as dimensões que deverão ser pertinentes na análise de classes, na análise das classes médias nas sociedades contemporâenas e no estudo das diferenças entre classes na sua relação com a política.
Referem-se, igualmente, contributos específicos em torno dos operários e dos camponeses e assalariados agrícolas. Estes são objeto específico de estudo por terem apresentado ou apresentarem importantes pesos na estrutura de classes sociais, historicamente.
A evolução estrutural destes setores sociais e a respetiva relação com os comportamentos políticos serão, assim, importantes para o nosso estudo.
Por fim, ainda no capítulo 2, desenvolvem-se os contributos de Bauman (2000; 2004) e de Pakuslki (2001), que entendem que a importância das classes sociais como variável definidora dos comportamentos políticos não é crucial. Fez-se, igualmente, um debate que refuta estes argumentos, referidos em Costa (1999, 2012) e Ferreira de Almeida (2012).
O capítulo 3 aborda a relação entre classes sociais e voto partidário pelo prisma da sociologia política e eleitoral. O capítulo é dividido em dois subcapítulos, o referente aos partidos políticos e o referente à sociologia eleitoral.
No primeiro subcapítulo refere-se o lado partidário da nossa equação. Especificamente abordam-se as ligações organizacionais do eleitorado aos partidos, as estratégias de atração do eleitorado, as diversas possibilidades para a emergência de novos partidos políticos e as diversas estruturas organizacionais dos partidos.
Os contributos em torno da sociologia eleitoral e classes sociais abordam, mais especificamente, algumas teorizações sobre o alinhamento dos eleitores num sistema partidário. Vários modelos de sociologia eleitoral são apresentados.
4
É importante, após este enquadramento, contextualizar as nossas variáveis em estudo, procurando responder às questões a seguir referidas: que características tem a estrutura de classes em Portugal e como evoluiu a sua estrutura? Que características e evolução apresenta o sistema partidário? Como evoluiu o comportamento eleitoral?
A esta contextualização corresponde o capítulo 4.
A evolução da estrutura de classes sociais em Portugal é, em termos gerais, um processo de declínio de trabalhadores na agricultura tradicional e de aumento da população que trabalha na indústria, aumento registado até aos censos de 1981, e nos serviços. Nos censos posteriores a 1981 a população que trabalha na indústria começa o seu próprio declínio. O país assistiu, assim, a uma intensa transformação na estrutura de classes sociais.
O sistema partidário em Portugal apresenta características próprias que o singularizam em contexto europeu. O sistema partidário é um sistema representativo composto por vários partidos, partidos que emergem, extinguem-se ou associam-se.
Por fim, reflete-se, neste capítulo, sobre as conjunturas económicas e políticas e sobre a relação destas com os comportamentos eleitorais das várias eleições em presença. A nível das conjunturas económicas abordam-se os indicadores de crescimento da economia, os indicadores de desemprego e de financiamento da economia. A nível das conjunturas políticas salientam-se as relações entre os diversos partidos políticos, as maiorias parlamentares, os protagonistas e os governos.
Abordam-se, igualmente, as possibilidades de escolha eleitoral na sua relação com a competitividade das eleições e assinalam-se os níveis e os tipos de volatilidade e de abstenção eleitorais.
No capítulo seguinte, o 5, explanamos a metodologia.
Partimos da hipótese principal de Boudieu (1979) que refere que a propensão para votar à direita aumenta com o volume de capital possuído e, também, com o peso relativo do capital económico na composição de capitais.
Queremos investigar se existe relação entre as classes sociais e a distribuição do voto entre esquerda e direita. Faremos esta análise a nível nacional, mas também a nível distrital e concelhio. A análise é de natureza estatística, com dados censitários, por um lado, que permitem identificar as estruturas de classes, e, por outro lado, com os resultados das eleições legislativas realizadas entre 1987 e 2011.
A análise concelhia permite um grau de maior profundidade na análise, ao focar um nível de organização local.
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A escolha da unidade de análise é influenciada pelo que pretendemos estudar. No caso das atitudes e comportamentos ligados à produção convém, segundo Erikson e Goldthorpe (1993), considerar a posição no trabalho em termos individuais.
Na definição operatória de classes sociais seguimos a tipologia A/C/M (Almeida, Costa, Machado, 1988), em que os indicadores sócio-profissionais têm um papel central.
Relativamente às eleições analisadas escolhemos, como se disse, o período de eleições legislativas realizadas no período entre 1987 e 2011.
Escolheu-se a data de 1987 seguindo a proposta de Diamandouros e Gunther (2001), que referem fases na consolidação do sistema partidário. A partir de 1987 entra-se numa nova fase, com um período de maior estabilidade governativa.
Para analisarmos a distribuição do voto no país e nos distritos e concelhos respetivos importa, para além de aferir o peso eleitoral relativo de cada partido, contabilizar a relação de forças entre os blocos da esquerda e da direita.
Analisamos, assim, um vasto leque de eleições com várias conjunturas económicas, políticas e sociais específicas e padrões variados de votação à esquerda ou à direita.
Para além da hipótese principal atrás enunciada formularam-se, igualmente, outras hipóteses adicionais, nomeadamente hipóteses relacionadas com a relação entre classes sociais específicas e o voto partidário.
Os capítulos 6, 7 e 8 correspondem à análise aprofundada da relação entre classes e voto com base nos dados empíricos.
O capítulo 6 faz a análise desta relação à escala nacional. É uma primeira abordagem da relação entre as estruturas de classes nacionais captadas nos momentos censitários de 1991, 2001 e 2011 e as eleições legislativas mais próximas desaes momentos censitários.
Analisamos, em termos de votação, partidos específicos e, igualmente, o voto por bloco ideológico. Neste último caso agrupam-se percentagens de voto de partidos específicos. O segundo momento, no capítulo 6, corresponde à análise de sub-setores de classe que poderiam gerar, segundo as nossas hipóteses, possíveis implicações no voto.
O terceiro momento corresponde à análise da evolução da estrutura de classes ao longo do período em análise e a existência, ou não, de relação com a evolução da distribuição do voto a nível partidário e por bloco ideológico.
Nota-se, a nível nacional, que subsistem várias interrogações e conclui-se que. só a um nível mais desagregado, em que as classes sociais e o voto se diferenciam mais fortemente, pode responder-se com maior acuidade a essas interrogações.
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No nível de análise distrital, correspondente ao capítulo 7, conseguimos encontrar maiores relações entre classes sociais e voto, tendo-se procurado agrupar os distritos com maiores semelhanças na estrutura de classes e na distribuição do voto.
O nível concelhio de análise, correspondente ao capítulo 8, permite esclarecimentos adicionais em relação ao nível de agregação anterior. Permite, igualmente, a definição mais sólida dos padrões de voto de classe já consubstanciados, em parte, no capítulo da análise distrital.
Conseguimos notar diferenciações de voto segundo as diversas classes sociais em presença. A importância de um entendimento abrangente, que inclua o estudo de distintas classes sociais e das relações entre classes sociais e o voto é crucial.
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CAPÍTULO 1:PARTICIPAÇÃO CÍVICA E POLÍTICA NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS
Importa, primeiramente, enquadrar o debate sobre a relação entre classes sociais e voto partidário num debate mais geral que o relacione com diversos tipos de mobilização cívica, nomeadamente o campo distinto de estudos em torno dos movimentos sociais.
Começarei por referir os temas gerais de discussão e, posteriormente, alguns contributos específicos de diversos autores. O modo como este campo de estudos se inter-relaciona com as classes sociais e o voto partidário será, assim, um ponto crucial.
Katz, no seu artigo intitulado Party Government and its Alternatives (1996), começa por elaborar sobre a relação intrínseca entre democracia representativa e o recurso a eleições conduzidas através de linhas partidárias. Ao nível principal, que considera como o nacional, a existência de partidos que sigam uma lógica competitiva por eleitorados é um requisito para a existência de um governo representativo.
Katz vai abordar, especificamente, o problema da legitimidade democrática e da possibilidade de controlo dos órgãos eleitos.
De um modo ideal estas duas questões seriam conseguidas através da possibilidade do eleitorado determinar a direção da política governamental. Esta determinação seria feita através da escolha de líderes com poder suficiente para implementar os programas políticos.
A responsabilização tem, neste sistema representativo, que ser clara e funcional. Existiria, no entanto, uma visão mais liberal que se preocuparia principalmente com os contrapoderes às deliberações de um governo e com o estabelecimento de limites em relação aos poderes do mesmo. Os líderes eleitos, neste sistema, assumem, muitas das vezes, posições independentes da plataforma partidária do seu partido.
Importa referir a importância do estudo da “partidarização da sociedade”, ou seja, o grau em que os partidos influenciam organizações não-governamentais, os meios de comunicação social ou os sindicatos. Os partidos teriam que ser analisados, assim, segundo a capacidade de solucionarem variadas questões, como a capacidade de implementar políticas, de enquadrá-las e de escolhê-las.
A relação entre o que poderíamos designar de “protesto” e de efetiva responsabilização é, igualmente, abordada por Katz. Segundo este, um partido (o mesmo raciocínio faz-se, por vezes, em relação aos movimentos sociais, como veremos mais à frente
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no capítulo) tem que estar disposto ao escrutínio da implementação e à responsabilização que advirá da implementação de políticas.
No entanto, a eficácia do partido, que no fundo é o que se estará a medir, não é garantia de continuação do sistema representativo. O sistema representativo poderá ser parcialmente substituído por outras formas de governo, em que podem ter um papel importante a “democracia participativa”, os movimentos sociais em torno da participação cidadã.
Katz refere que as explicações sociológicas para um sistema de partidos ou outras formas de organização política dividir-se-iam, principalmente, entre duas variantes. Assumindo que a estrutura da sociedade estaria relacionada com a sua estrutura de interesses, o facto de existir um limitado número de partidos coesos e com plataformas políticas bem definidas estaria relacionado com uma sociedade composta por um número limitado de classes sociais. Uma segunda variante veria a sociedade como caracterizada por vários tipos de clivagens sociais, que podem justapor--se em determinados momentos, juntando, assim, diversos indivíduos com diversos capitais sociais, económicos, culturais. À medida que as sociedades europeias se tornam mais diferenciadas, as clivagens tradicionais enfraqueceriam igualmente, enfraquecendo, concomitantemente, o sistema partidário tradicional referido anteriormente.
Este debate, não na sua visão dicotómica mas na sua interrelação, será tido em consideração, aliás, ao longo do presente estudo. Estes dois vetores referidos por Katz são considerados pontos de partida importantes para a discussão em torno dos movimentos sociais, sem desprimor de outras conceções que diversos autores apresentam.
Meyer e Tarrow vão, em Movement Society (1998), desenvolver questões sobre os movimentos sociais. Seria necessário analisar a frequência, a difusão, a profissionalização e a institucionalização dos movimentos sociais.
O potencial de frequência destes movimentos, argumentam os autores, tem vindo a aumentar devido, principalmente, à capacidade dos cidadãos mobilizarem recursos e competências para a ação. As redes potenciais de ativismo tornaram-se frequentes com as inovações nas formas de comunicação e as melhorias na mobilidade dos cidadãos.
Para além da frequência atrás referida, existe uma maior difusão destes movimentos. Este tipo de participação seria cumulativo com outros tipos de participação, tais como o voto.
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A amplitude desta difusão estaria relacionada com os tipos de mudança institucional prevalecentes e as tradições nacionais. Estes fatores influenciam a forma e a frequência da ação coletiva. Os autores enfatizam, assim, importantes diferenças nacionais no desenvolvimento destes movimentos (algo que veremos, igualmente, em Castells, 2003).
O aumento generalizado na frequência destes movimentos não implica que não existam diferenças nacionais e políticas para a compreensão destes. As orientações mais à esquerda estariam, assim, mais relacionadas com formas de protesto social em que o nível de conflito social é elevado, como no caso de França. Noutros países existiram diversas combinações entre particularidades nacionais e diferentes posições ideológicas.
Por outro lado pode-se enfatizar as propostas de Inglehart (1997), que veria uma relação entre o aumento nos níveis de educação, de disseminação do estudo nas Universidades, de disseminação de informação e meios de comunicação e o aumento de formas de participação não convencionais a nível não apenas nacional.
Os movimentos sociais contemporâneos são organizados, segundo Meyer e Tarrow (1998) por pessoas crescentemente especializadas, constituindo pequenos grupos nucleares, que são suportados por um número maior cujo ativismo é esporádico. Os recursos mobilizáveis podem ser concentrados, reproduzidos e profissionalizados. A organização destes movimentos pode ser, assim, mais efetiva, se se constituir a partir de núcleos e não de uma “massa” que seria espontaneamente participativa.
A questão da “evolução” destes movimentos em direção a grupos extraparlamentares e, posteriormente, partidos políticos, é, igualmente, polémica a nível do debate teórico sobre estes movimentos. Coloca-se a questão da rotinização, da inclusão ou marginalização do movimento. A rotinização da ação coletiva significa que existem padrões que podem ser identificados claramente e que permitem uma análise mais clara dos movimentos, para os organizadores e os atores envolvidos neste; a inclusão dos movimentos significa o grau e o modo de existência de um processo de negociação (a existência de canais de comunicação para as reivindicações políticas dentro das instituições vigentes em determinados momento). Em termos fatuais existem variados exemplos deste tipo de desenvolvimentos (tais como os Verdes na Alemanha) e outros exemplos de movimentos que desvanecem ou que mantêm o seu caráter organizativo.
Os autores referem, igualmente, a existência de movimentos sociais que não precisam de organizações burocráticas e em que a decentralização pode obter igualmente bons resultados em termos de financiamento e de logística. Para além destas questões, existem
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situações em que os protestos sociais e as táticas usadas pelos movimentos sociais podem ser próximas das usadas pelos partidos políticos. Os movimentos recorrem crescentemente ao uso da lei e das regulamentações e os partidos políticos recorrem crescentemente a performances públicas tradicionalmente utilizadas pelos movimentos sociais. As atividades disruptivas e convencionais justapõem-se crescentemente. O estudo da centralidade dos mecanismos de protesto é, assim, importante.
A emergência e desenvolvimento dos movimentos sociais são estudados, igualmente, em profundidade por Macadam, MacCarthy e Zald (1996). Os três vetores principais de análise serão: a estrutura das oportunidades políticas e constrangimentos com que o movimento se confronta; os modos de organização disponíveis em determinado momento; os processos de interpretação e de construção social que medeiam entre o campo das possibilidades e a ação. Seguem, assim, em parte, os questionamentos de Tarrow, mas enfatizando as oportunidades políticas e não a rotinização da ação coletiva.
Os autores começam por este último ponto. Nesta mediação o enquadramento teórico dos indivíduos participantes do movimento é crucial. As fontes e funções dos significantes e da construção da identidade dos movimentos foi particularmente posta em evidência no estudo dos “novos movimentos sociais”, como em Inglehart (1990) e Touraine (1984).
A questão das oportunidades políticas com que o movimento se confronta está relacionada com questões sobre a emergência dos movimentos sociais. As perspetivas sobre a emergência dos movimentos sociais podem enfatizar as contradições sócio-económicas existentes na modernidade, os recursos mobilizáveis numa sociedade ou a importância do processo político e da sua estrutura de oportunidades. Os autores deste artigo partilham, principalmente, deste último paradigma.
Este paradigma considera que os movimentos tenderão a surgir devido a mudanças sociais que tornam o sistema económico vulnerável a novas óticas de análise.
A relação entre as possibilidades de emergência de novos movimentos sociais, os modos de organização e os processos de interpretação tenderão a reforçar-se mutuamente. Os processos de abertura estarão, assim, relacionados com novas possibilidades de definição, de enquadramento ideológico e com novos modelos de organização. As dimensões específicas para a análise da emergência dos movimentos serão: a relativa abertura ou fechamento do sistema político institucionalizado; a estabilidade de determinados alinhamentos de diversos tipos de elites; a presença de aliados nas elites; a capacidade e vontade do Estado para utilizar repressão.
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O modo e o momento em que se estruturará o movimento pode, assim, estar dependente do grau e do modo como estas dimensões se articulam. O comportamento da maioria dos atores envolvidos no surgimento do novo movimento social tenderá a procurar maximizar as oportunidades que surgem. O surgimento de movimentos reformadores tenderá a estar relacionado, principalmente, com a possibilidade de acesso a canais institucionais e com uma tendência repressiva menor por parte do Estado.
No entanto, como já referido, as caraterísticas dos movimentos no seu surgimento podem ser diferentes das características destes movimentos no seu desenvolvimento (como referem, aliás, Tarrow e Macadam). As formas de organização e as definições ideológicas terão, nessa fase, uma influência considerável no evoluir do movimento.
A estrutura organizacional pode comportar um elemento disruptivo, isto é, pode comportar táticas inovadoras e provocadoras. Os objetivos declarados do movimento condicionarão, igualmente, a perceção dos partidos políticos no que respeita às possibilidades de concretização das reivindicações e dos riscos inerentes a estas.
Ao longo do evoluir do movimento, os objetivos tenderão a ser mais ou menos estratégicos e tenderão a ser considerados mais ou menos relevantes consoante a sua força de concretização efetiva.
A atenção mediática ao movimento dependerá da efetividade das suas soluções e das táticas utilizadas. Por sua vez, estas estratégias e táticas serão influenciadas, igualmente, pela perceção mediática do movimento.
Após esta introdução sobre a relação entre movimentos sociais, classes sociais e partidos políticos, importa referir, mais especificamente, as questões relacionadas com os estados nacionais.
Tarrow, no seu artigo States and Opportunities (1996), vai advogar uma perspetiva que trata os movimentos sociais e os partidos políticos como variáveis mutuamente influenciáveis. Vai advogar, em termos metodológicos, a necessidade de se fazerem estudos internacionais de comparação entre movimentos sociais.
Vai desenvolver a questão do fechamento ou abertura dos Estados e a sua correlação com a emergência de movimentos sociais.
Começa por referir Toqueville (1999. [1866]) quando este assinala a sua posição de que um Estado consideravelmente centralizado tenderá a tornar a sociedade civil mais enfraquecida e tenderá a recorrer mais rapidamente à repressão dos movimentos emergentes. Noutros casos o Estado seria menos centralizado, permitindo a emergência de sociedades
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civis fortes. Neste último caso, haveria uma maior propensão a movimentos reformadores. No primeiro caso as transformações revolucionárias seriam mais frequentes. No entanto, existem nuances a este modelo, argumenta Tarrow, pois podem existir Estados com considerável poder central e com recetividade a movimentos sociais, tal como seria o caso da Suécia. O argumento de Toqueville é interessante para a discussão presente. Segundo Tarrow, exageraria, no entanto, o caráter “fraco” do governo federal dos E.U.A. e forte do governo francês.
Os estados criaram mecanismos importantes que permitem a mobilização, igualmente. Foi o caso da criação de meios de comunicação modernos, de parâmetros legais para as associações civis. Os procedimentos estandardizados e objetivos centralizados permitiram novas mobilizações.
Tarrow refere, no entanto, que estes elementos têm que ser conjugados com uma abordagem diferente da análise das estruturas institucionais presentes num partido político ou grupos de interesse. As estruturas de oportunidade dos movimentos serão, igualmente, consideravelmente diferentes dentro dos próprios espaços nacionais e existem, ao mesmo tempo, movimentos que ultrapassam as fronteiras destes espaços.
O ponto de maior conjugação com o tema específico em estudo será a análise à recetividade que os movimentos sociais terão nas diferentes classes sociais em presença num espaço nacional e a análise ao próprio tipo de classes sociais em presença nos movimentos. No entanto, a inter-relação mais evidente com o tema específico em estudo será a elaborada por Katz, referida anteriormente.
Tarrow vai desenvolver a discussão em torno das oportunidades políticas dos movimentos sociais. Este refere que não existe correlação entre sistemas muito abertos e muito fechados e níveis elevados de criação de movimentos sociais. A instabilidade, por exemplo, das coligações eleitorais poderá criar novos aliados para os movimentos sociais. Será, assim, em sistemas mais heterogéneos que os movimentos sociais conseguirão obter melhores perspetivas de desenvolvimento.
De outra forma existem oportunidades que os próprios movimentos sociais criam para a renovação ou criação de novos partidos políticos. Estas oportunidades serão maiores se a sociedade civil criar movimentos reformadores que não se autoexcluam ou sejam facilmente marginalizados no processo político.
Esta discussão sobre a importância das oportunidades políticas para a constituição e desenvolvimentos dos movimentos sociais está relacionada com a necessidade destes
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movimentos mobilizarem frequentemente os seus aderentes para ações com objetivos políticos. Os movimentos não têm, assim, frequentes oportunidades de acesso institucional, de autoridade para poderem excluir parcialmente a frequente mobilização dos seus participantes.
Avançamos, agora, para a reflexão em torno de movimentos sociais específicos e os seus tipos.
O tipo de movimentos sociais está relacionado com o tipo específico de organização dos movimentos, como já vimos. Kriesi (1996) propõe uma distinção entre três tipos de movimentos sociais: movimentos instrumentais direcionados a objetivos específicos; movimentos de “subcultura” mais preocupados com a formação de identidades coletivas e com ação direcionada aos órgãos legitimados; movimentos contracultura, que constituem a sua identidade em interação com outros tipos de organizações. Os movimentos instrumentais poderão apresentar maior tendência de institucionalização; os movimentos subculturais poderão desagregar-se; os movimentos contraculturais podem radicalizar-se.
Kriesi vai dar importância específica, igualmente, aos Estados no estudo dos tipos específicos de movimentos sociais. O autor relaciona a estratégia dominante (inclusiva ou de exclusão) dos movimentos com o tipo de estrutura institucional (Estado “fraco” ou Estado “forte”). No caso de estratégias inclusivas conjugadas com um Estado “fraco” existirá uma “integração total procedimental”, que é caracterizada por fraca repressão e possibilidades de acesso a canais institucionais. No caso de estratégias inclusivas com Estado “forte” dar-se-ia a “cooptação informal”. Esta apresenta fraca repressão, fortes possibilidades de acesso a canais institucionais (neste caso principalmente informais), mas não permite hipóteses de veto a decisões políticas do governo como será o caso anterior. Quando existem estratégias exclusivas e um Estado “fraco” existe uma “inclusão formal”. O que implica possibilidades importantes de acesso a canais formais de relação com o governo, alta repressão e nível baixo de concessões. No caso de uma estratégia de exclusão e Estado “forte” existiria uma “exclusão seletiva dos movimentos sociais”. Neste caso, não existem canais que facilitem o acesso aos governos e as concessões dependerão da configuração particular de poder no governo do país.
Kriesi contribui, igualmente, para a análise da relação concreta entre partidos políticos e movimentos sociais. A configuração particular dos partidos na esquerda é considerada a mais importante porque estes partidos tenderão a defender, mais
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frequentemente, as posições da maioria dos movimentos sociais. Neste âmbito em particular Kriesi advoga uma relação maior entre partidos de esquerda e movimentos sociais.
Os dois principais temas que permitem a análise desta relação são o nível de divisão dentro dos partidos de esquerda e o nível de participação da esquerda no governo.
No caso de uma esquerda dividida, como é o caso de Portugal, as correntes políticas tenderão a procurar instrumentalizar estes movimentos para os seus objetivos. Os objetivos eleitorais serão de ganhar ascendência na esquerda e de ganhar a competição eleitoral com a direita.
Parece surgir, deste estudo, que existem diversas configurações para um movimento social. A sua relação com os espetros ideológicos não é direta.
Tilly (2004) contribui, igualmente, para o estudo dos movimentos sociais. Um movimento social, segundo a sua perspetiva, é caracterizado por um esforço público organizado tendo em vista causas coletivas, reuniões públicas, demonstrações, comunicados à imprensa, representações públicas da validade das causas defendidas.
Os movimentos sociais são campanhas interativas e possuem uma combinação variável de proposições: programáticas, identitárias e de posicionamento. As primeiras envolvem suporte ou oposição a ações dos objetos das propostas. As propostas identitárias tentam afirmar uma identidade de grupo. As propostas de posicionamento confluem, por vezes, com determinados atores políticos, tais como minorias excluídas ou grupos de cidadãos.
Tilly refere, como crucial na abordagem aos movimentos sociais, a relação destes com o desenvolvimento da democracia. Existe, assim, uma inter-relação entre democracia representativa e a proteção de liberdades civis, tais como a liberdade de associação ou de expressão. Os movimentos sociais promovem, igualmente, a soberania popular, no sentido de que os assuntos públicos devem depender do consentimento dos governados.
As formas e propostas dos movimentos sociais evoluem, igualmente, ao longo do tempo. As configurações políticas gerais afetam o caráter destes. No contínuo processo de troca entre autoridades do estado e contestatários ocorre um constante processo de negociação, conflito e inovação que irá ter impacto nas formas de organização cívica e política.
Donatella della Porta (1999, 2005), vai, igualmente, contribuir para a discussão dos tipos de movimentos sociais e a sua relação com outras formas de participação política.
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Della Porta refere, dirigindo-se ao debate sobre a emergência dos movimentos sociais e dado um determinado nível de desenvolvimento democrático, que as várias estruturas de oportunidade política não apresentam uma importante correlação com a emergência destes. De sublinhar que a autora refere-se a sociedades com um nível de desenvolvimento democrático importante. A abertura do sistema político pode, igualmente, apresentar efeitos ambivalentes, pois atribui oportunidades de contrabalançar o peso dos movimentos sociais, nomeadamente através dos tribunais ou de organismos intermédios na administração pública. Uma burocracia fraca pode, igualmente, ser influenciada por partidos políticos e por vários grupos de pressão política.
As variáveis institucionais podem, assim, apresentar um maior poder explicativo na relação com o tipo de estratégias adotadas pelos movimentos sociais.
Em relação ao confronto com a repressão dos movimentos, a autora refere que as estratégias de repressão afetam, sobretudo, as estratégias de protesto. No que se refere à emergência destes, a repressão estatal não é um fator condicionador importante. As alianças com partidos políticos, sobretudo à esquerda, são importantes para a consolidação dos movimentos sociais, sobretudo a nível da sua capacidade de sucesso.
Della Porta, em relação à conexão entre democracia e movimentos sociais, vai, igualmente, referir que existem situações de protesto social que podem levar à queda de regimes democráticos. Estes são, principalmente, os casos históricos da emergência de ditaduras na Europa. A frequência desta possibilidade será, no entanto, menor do que a relação mais importante entre canais de comunicação abertos e a frequência e emergência de movimentos sociais.
Beck (2001, 2005) contribui, também, para a discussão em torno do protesto social e os seus enquadramentos sociais mais amplos. O autor tem, igualmente, contributos específicos no que se refere à relação entre classes sociais e voto partidário, que serão abordados com maior desenvolvimento no capítulo seguinte.
No plano geral, teria havido um enfraquecimento das ligações de classe e um aumento do uso de recursos individuais. A tendência para estilos de vida individualizados conduz a que os indivíduos se tornem o centro do seu plano de vida. O caráter estandardizado da maioria destas situações individuais seria uma contradição que poderia ser resolvida com ações de protesto. As novas “redes sociais” têm que ser, assim, individualmente escolhidas. As ligações sociais têm que ser estabelecidas, mantidas e constantemente renovadas pelos indivíduos. Tais proposições podem ser relacionadas com
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novas formas de mobilização social, que são, de facto, constantemente renovadas e escolhidas. Os indivíduos veem-se, portanto, como organizadores dos seus próprios círculos de contactos. Novas formações sociais são moldadas para além de uma sociedade de classes. Em resumo, Beck afirma que a motivação principal para a criação de novos movimentos sociais é a ameaça aos espaços de ação e de decisão individuais.
Segundo Beck (2001), os indivíduos continuam a procurar alianças sociais e políticas. Mas estas não seguem um padrão como o das classes sociais: “o isolamento das vidas privadas pode ser quebrado por eventos políticos e sociais e por desenvolvimentos de variados tipos”; “portanto, são formadas e dissolvidas coligações temporárias entre diferentes grupos e diferentes campos, dependendo de situações particulares e diferentes assuntos”. O indivíduo pode, assim, “associar-se a residentes locais para combater a poluição sonora, integrar-se no sindicato dos metalúrgicos e votar conservadoramente” (Beck, 2001, pp. 45). Beck segue, assim, uma linha consideravelmente diferente da interligação em variados moldes que Tarrow e Kriesi fizeram entre classes sociais, movimentos sociais e partidos políticos.
A organização social é direcionada para a ação e não apenas para o voto partidário. A participação é entendida como centrada nas atividades dos próprios cidadãos e não apenas no mandato representativo da democracia parlamentar. É uma questão de mobilização para “todos os assuntos”. O poder da resistência da sociedade civil seria expressa, assim, por novos movimentos sociais que abordam e criam novos tópicos e formas de expressão.
Tal como Giddens (1996), Beck refere os variados tópicos de decisão e de mobilização que se tornam prementes - as questões privadas da vida quotidiana. A oposição entre um Estado forte e que promova determinados movimentos sociais e uma sociedade civil forte é importante.
Beck assume a presença do dissenso como importante e pressupõe-se a igualdade de direitos, que seria incompatível com papéis pré-estabelecidos. A importância da liberdade política, de uma sociedade civil ativa é, assim, enaltecida. Seriam, em conclusão, necessárias importantes reformas institucionais que permitam formas diferentes de comunicação política que passem por uma resistência ao formalismo e às hierarquias e por uma participação selecionada, que não comporta os mecanismos habituais de organização dos partidos políticos.
Beck opõe, assim, o que chama de “despotismo da democracia maioritária” nacional ao “cosmopolitismo republicano”.
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Castells (2003, 2007a, 2007b) contribui, igualmente, para o debate sobre movimentos sociais. O autor parte do pressuposto de que os movimentos sociais devem ser analisados segundo a sua autodefinição, as suas práticas. Castells procura analisar estas dinâmicas e, tal como os autores anteriores, relaciona-as com processos mais globais. Castells socorre-se de teorizações sobre movimentos sociais de Touraine (1981). Este propõe a análise particular da identidade do movimento (em termos da sua autodefinição), do seu adversário e dos seus objetivos (tipo de organização social pretendido).
Castells (2003) designa, em termos específicos, vários tipos de movimentos sociais. Os movimentos sociais que designa como de guerrilha informacional tendem a opôr-se a uma nova ordem global, que conduziria à exclusão e à legitimação universal do capitalismo. Estes movimentos não serão subversivos, mas tenderão a procurar mecanismos de legitimação. A internet permite, crescentemente, a divulgação dos movimentos e das suas causas a nível global. Esta utilização permite pressionar os governos a utilizar canais não violentos para a comunicação. Ao mesmo tempo que pressionam por estes meios e por meios muitas vezes armados, tenderão a procurar canais institucionais de pressão. No entanto, estes movimentos sociais são essencialmente reativos e defensivos e não lutam por um projeto social.
A análise do contexto social, dos processos históricos e do grau de consciencialização política são fundamentais na explanação das diferenças entre diversos movimentos.
Os movimentos ambientalistas, pelo contrário, apresentam importantes diferenças no enfoque global ou local, na estratégia ofensiva ou defensiva, na luta por questões ou por valores. Diferem de movimentos identitários, pois enfatizam o enfoque ecológico da vida, da economia e das instituições. A dissensão entre a capacidade produtiva e a organização social, que Castells chama de primitiva, torna-se evidente na análise destes movimentos. Os movimentos ambientais serão, assim, movimentos que podem apresentar projetos alternativos, para lá das divisões de classe, género, etnia, territorialidade.
Beck (2001) refere, igualmente, o poder dos movimentos ecologistas na mobilização de uma opinião pública global e refere, também, os movimentos de consumidores, feministas e de direitos humanos como podendo mobilizar essa opinião. No entanto, evidencia o caráter mais provisório e mutável, não lhes dando a importância que Castells refere.
Os movimentos de consumidores, por exemplo, segundo Castells, possuem o poder global de recusar determinado produto e de escolher um outro. Estes movimentos podem usar, igualmente, como os movimentos de guerrilha informacional, os meios de comunicação
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e podem ter uma influência global. Estes movimentos sociais podem existir em qualquer momento e em qualquer lugar, podendo contrapor-se ao poder do capital económico e financeiro globalizado. Têm o poder de alterar a própria conceptualização dos problemas, o que será dificilmente o caso de movimentos sociais a nível nacional ou com caráter identitário. A credibilidade deste tipo de movimento global passa, assim, igualmente, pela disponibilização de informação credível a uma opinião pública global.
Como analisamos ao longo do capítulo, existem diversos enfoques que podem ser enfatizados na discussão em torno da participação cívica e política nas sociedades contemporâneas. Procurou-se dar atenção à inter-relação entre movimentos sociais, estado, partidos políticos e classes sociais e deu-se exemplos de características singulares destes, dos seus modos organizativos, bem como dos seus potenciais de criação de variados tipos de dinâmicas sociais.
Embora a questão da participação política nas sociedades contemporâneas tenha contornos mais amplos, como vimos, a questão da relação entre classes sociais e política e, em particular, voto partidário, continua a ser fundamental e é dela que nos ocuparemos nos capítulos seguintes.
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CAPÍTULO 2:CLASSES SOCIAIS E POLÍTICA
Neste capítulo pretende-se equacionar a relação entre classes sociais e mobilização política em torno do voto partidário, tomando a perspetiva da sociologia das classes sociais. Começamos por referir autores que contribuíram especificamente para a análise do tema nessa perspetiva. Abordamos, primeiramente, teorias reconhecidamente importantes para este debate. Veremos, depois, no ponto 2.2, a situação específica do operariado e do campesinato no que se refere à relação entre classe e voto. Estas duas classes sociais apresentam importantes níveis históricos na Europa e serão, assim, objeto de tratamento específico. Já o ponto 2.3 refere-se ao debate sobre o fim das classes sociais e a relação com a política.
2.1: Que relação entre classes sociais e política?
Importa começar por referir os principais contributos para esta tese, que decorrem da formulação teórica sobre classes sociais de Erik Olin Wright, um autor de referência neste campo.
O papel causal da classe social na política é pensado por Wright analisando uma tipologia tripartida de níveis de poder: o poder situacional refere-se a relações de poder de comando direto entre atores; o poder institucional refere-se às características de diferentes padrões institucionais que formam a agenda de decisão política; e o poder sistémico está ligado à estrutura geral de um sistema social. Estes modelos de análise levam Wright a referir que: “quanto mais abstrato é o objeto de investigação, mais fatores, como a estrutura de classes ou as dinâmicas do capitalismo, têm um papel preponderante” (Wright, 1994: 106). Se estudarmos objetos mais específicos, determinados processos causais adquirem maior poder explicativo.
Wright, em termos mais gerais, conserva a ideia marxista de exploração e a ideia de relações antagónicas entre trabalhadores e proprietários (podendo estas ser de conflito). Wright distingue, no entanto, “opressão económica não-exploradora” de “exploração”, sendo que a primeira se refere à não transferência dos frutos do trabalho do oprimido para o opressor, não existindo uma dependência mútua como no caso da exploração. Neste último caso, os detentores dos meios de produção necessitam do trabalho dos trabalhadores. Os