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MÔNICA MARCONDES DE OLIVEIRA SANTOS

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Academic year: 2022

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MÔNICA MARCONDES DE OLIVEIRA SANTOS

LIBERDADE, TORTURA E RELAÇÕES COM O OUTRO: ASPECTOS DA FILOSOFIA DE JEAN-PAUL SARTRE NA PEÇA “MORTOS SEM SEPULTURA”

MESTRADO: FILOSOFIA

PUC - SÃO PAULO 2006

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MÔNICA MARCONDES DE OLIVEIRA SANTOS

LIBERDADE, TORTURA E RELAÇÕES COM O OUTRO: ASPECTOS DA FILOSOFIA DE JEAN-PAUL SARTRE NA PEÇA “MORTOS SEM SEPULTURA”

Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Filosofia à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sob orientação da Professora Doutora Thais Curi Beaini

PUC - SÃO PAULO 2006

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BANCA EXAMINADORA

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À Thais Curi Beaini

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AGRADECIMENTOS

À Profa. Thais Curi Beaini, minha orientadora na vida e na filosofia. Pelo incentivo constante, pela confiança depositada; pela humildade em saber ensinar respeitando seus discípulos; pelo exemplo de vida; e, principalmente, por me devolver a esperança quando tudo parecia perdido.

Ao professor José Alves de Freitas Neto da Unicamp, por sua presença marcante em minha vida no passado, quando de modo magnífico, me conduziu aos caminhos da filosofia em 1999 ainda na graduação, e no presente, compondo a banca examinadora em minha defesa. “Lança teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o encontrarás”. (Ec 11:1). Obrigada por tudo, professor!

Ao professor Benedito Eliseu Cintra, pelas valiosas observações e sugestões apresentadas por ocasião de meu Exame de Qualificação.

Ao Edson, meu marido, pelo incentivo, compreensão e apoio financeiro, fundamentais à realização desta pesquisa.

Ao Herbert, meu filho, que me ensinou os “macetes” da digitação e formatação de textos.

À Pamela e Yasmim, minhas filhas, que souberam compreender tão bem este momento.

À Maria, minha mãe, pelos cuidados dispensados aos meus filhos, desde minha graduação.

Às professoras Cidinha Anversa (minha primeira incentivadora), Mercedes Silva e Patrícia Bioto. Obrigada por acreditarem em mim!

Aos amigos Mesaque Souza Reis (in memorian), Silvana, Pr. Eli e Bete, Cristina Barros, Wilson Luques Costa e Viviane Monteiro.

Aos que não foram citados, mas que foram importantes em algum momento de minha vida acadêmica.

Esta vitória é de todos vocês!

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“Quero fazer a tentativa de alcançar a liberdade, diz de si para si a jovem alma (...) Ninguém poderá construir-te a ponte sobre a qual deverás transpor o rio da vida, ninguém exceto tu própria (...) Há no mundo um único caminho que ninguém pode seguir a não ser tu. Onde conduz ele? Não o perguntes. Segue- o. (...) Os teus verdadeiros educadores, os teus verdadeiros formadores revelam-te o que é a verdadeira essência, o verdadeiro núcleo do teu saber, alguma coisa que não se pode obter nem por educação, nem por disciplina, alguma coisa que é, em todos os casos, de um acesso difícil, dissimulado e paralisado.

Os teus educadores não poderiam ser outra coisa para ti, senão os teus libertadores”

Nietzsche

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RESUMO

Esta pesquisa tem por objetivo analisar alguns aspectos da filosofia de Jean-Paul Sartre encontrados ao longo da peça Mortos sem Sepultura.

Através de suas peças teatrais Sartre conseguiu colocar em cena quase a totalidade de suas teses filosóficas, expressando dessa forma sua concepção de Teatro de Situações, o qual pretende mostrar suas personagens em situações simples e humanas e seu momento de escolha diante dessas situações. A ação se passa na França durante a ocupação alemã, onde seis membros da Resistência são capturados por colaboracionistas. Estes pretendem descobrir o local do esconderijo do chefe dos resistentes que por sua vez são interrogados e torturados um a um, necessitando a cada momento escolher como se comportar diante daquela situação-limite.

Dessa forma, nos três primeiros capítulos desta pesquisa pretendemos tecer uma breve análise de alguns aspectos da filosofia de Sartre relevantes para a nossa pesquisa, no que concerne a questões como: Liberdade-Escolha, Relações Concretas com o Outro e seus conflitos e a Relação Tortura-Violência- Morte. Partindo dessa temática, pretendemos no quarto e último capítulo estabelecer relações destes conceitos com as situações vivenciadas pelas personagens de Mortos sem Sepultura. No decorrer de todo o enredo, verificamos através dos próprios diálogos das personagens, um mergulho aprofundado no comportamento dos indivíduos perante a tortura e como se dão as relações entre torturados e torturadores, além de suas eventuais mudanças de postura diante da guerra e da violência, o que fará com que em muitos momentos estas personagens tomem atitudes inusitadas.

Ao confrontar os aspectos da filosofia de Sartre com as situações-limite experimentadas pelas personagens na peça, procuraremos comprovar que as situações-limite levam o homem a fazer escolhas o tempo todo, o que implica no pleno exercício de sua liberdade. Estas escolhas por sua vez, levam o homem a suportar as conseqüências da ação, o que implica uma moral e toda uma vida.

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ABSTRACT

This research hás the objective of analyzing some aspects of Jean-Paul Sartre’s philosophy in the play “Dead without grave”.Thorough of her plays Sartre get to put in scene almost the total of thesis of philosophy expressing his conception of play’s situation what intending to seen his characters in situations simple and humans and his moment of choice in front of this situations. The action happens in France during the German occupancy, where six members of Resistance are captured by colaborationists. They intend to find out the resistant chief, and for this reason, they torture the prisioners one by one, and each moment these prisioners have to choose how to behave facing that cutting-edge situation they were passing thorough.

Thus, in the first, second and third chapters of this dissertation we intend to trace a short analysis of some aspects of Jean-Paul Sartre’s philosophy, wich are relevant to our research named: Freedon-Choice, Concrete Relations with the Neighbor and its conflicts, and the relation Torture-Violence-Death.

Starting from this theme, in the fourth and last chapter we will establis the relation of these concepts with the situation lived by characters of the play.

Throughout the play, we can notice by the dialogues what is deep inside the behavior of individuals who face torture and how the relationship between tortured people and tourterers and developed.

Also the eventual profile changes front to war and violence, wich will cause, in many times, sudden change of attitude in the characters.

By confronting Sartre’s philosophy aspects with the cutting-edge situations lived by characters in the play, we want to prove that those situations lead mem to make choics every moments, wich implies in the full exercise of their freedon.

And the choices lead mem to stand against the consequences of action, wich implies in the essence of moral and a whole life.

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SUMÁRIO

1 – APRESENTAÇÃO _________________________________________1 2 – SARTRE E O TEATRO DE SITUAÇÕES________________________4

CAPÍTULO I -A LIBERDADE SARTRIANA E AS ESCOLHAS DO HOMEM 1.1 - A concepção sartriana de Liberdade_________________________13 1.2 - A Responsabilidade do homem pelas suas escolhas____________37 1.3 - A Relação da Liberdade com a Moral e os Valores______________42 1.4 - Sartre e o caráter absurdo da morte_________________________47

CAPÍTULO II – A RELAÇÃO EU-OUTRO SEGUNDO SARTRE

2.1 - Considerações acerca da existência do Outro__________________52 2.2 - O Outro: um mal necessário________________________________62 2.3 - O Olhar x O conflito de Liberdades___________________________69

CAPÍTULO III – TORTURA, VIOLÊNCIA E SITUAÇÕES-LIMITE

3.1 - O problema da violência e o animal humano relatado em três momentos da obra de Sartre________________________________________75

3.2 - A Tortura na visão de Sartre_______________________________81 3.3 - O termo Situações-Limite como parte integrante do Teatro de Situações de Sartre________________________________________________87

CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES SOBRE A PEÇA “MORTOS SEM SEPULTURA DE JEAN-PAUL SARTRE”

4.1 – Mortos sem Sepultura____________________________________92 4.2 – As personagens em meio a situações de Liberdade e Escolha_____96 4.3 – Tortura, violência e Situações-Limite no contexto da peça_______109 4.4 – O conflito expresso nas Relações com o Outro________________122 4.5 – Outros aspectos da Filosofia de Sartre encontrados na peça_____125 CONCLUSÃO______________________________________________130

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APRESENTAÇÃO

A análise de alguns aspectos da filosofia de Jean-Paul Sartre encontrados ao longo da peça Mortos sem Sepultura constitui o tema deste trabalho.

No talento de muitas facetas de Sartre, o teatro talvez seja o seu lado mais forte, posto que através de suas peças ele conseguiu colocar em cena quase a totalidade de seus temas filosóficos e políticos. A maioria das peças de Sartre possui forte tendência política1.

Nossa escolha recaiu sobre este tema pelo fato de a peça abordar vários aspectos da filosofia de Sartre, entre eles a Liberdade, Tortura e os conflitos existentes nas Relações com o Outro.

Escrita por Sartre em 1945 e encenada em Paris em 1946 logo após o término da Segunda Guerra Mundial numa época em que os fatos reais ainda estavam recentes na memória de todos, a peça chocou platéias com as cenas de tortura e os gritos lancinantes dos maquis. Mas o propósito principal de Sartre era mostrar as personagens em seus momentos de livre escolha diante das situações a elas impostas.

Sartre definiu este gênero teatral como um Teatro de Situações, sendo este considerado por ele, como o único adequado a nossa época. Assim, nessa modalidade de teatro, o enfoque principal passa a ser a ação das personagens, no sentido de que a ação não é determinada pelo seu caráter, mas seu caráter é determinado pela ação. Este ato de escolha das personagens em determinadas situações lança por sua vez o expectador acima do plano psicológico para colocá- lo no plano moral do ato.A situação é o conjunto de condições, barreiras e de circunstâncias sempre ”situadas” e coagidas. Entretanto, por mais obstáculos que

1 Sartre iniciou sua trajetória teatral com a peça “As Moscas” em 1943, cujo texto atenta para a força crítica implícita na lenda de Orestes, um dos mais famosos personagens da mitologia grega, que volta do exílio para vingar a morte do pai (Agamêmnon) assassinado, matando a própria mãe, Clitemnestra e o amante dela, Egisto, usurpador do trono de Argos. Com a peça, Sartre pretendia chamar a atenção para o problema da invasão alemã na França na Segunda Guerra Mundial. Havia um simbolismo evidente na peça, que demonstrava uma relação nítida da cidade de Argos com a França ocupada pelos nazistas e governada por Vichy. Egisto representa o usurpador alemão e Clitemnestra, o colaboracionista francês. Assim, a peça era na verdade um apelo à liberdade dos franceses, para que como Orestes, a comprometessem na destruição do Egisto alemão e da Clitemnestra colaboracionista, por mais caro que fosse o preço a ser pago.

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a situação represente, ela nunca chega a anular nossa condição essencialmente livre. Muito pelo contrário: “nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã”, afirmou Sartre certa vez. Ainda de acordo com ele, cabe ao dramaturgo inserir em sua peça conflitos que estejam engajados 2 em uma vida real. E dada à diversidade do público, ele deve escolher situações tão gerais que digam respeito a todos.

Dessa forma, Sartre comparou o Teatro de Situações a um Teatro da Liberdade, uma vez que em sua obra, não é possível falar em liberdade sem se referir à situação. A liberdade se concretiza na ação, mas para se afirmar, precisa de um campo de resistência no mundo.A situação é o obstáculo que se deve transpor para se realizar os fins escolhidos. Sem a situação, a liberdade acabaria por se dissipar.

As situações-limite são definidas por Sartre como situações extremas nas quais a liberdade está sujeita a maiores pressões, e é neste dado momento que ela se afirma mais claramente, através das escolhas feitas pelo indivíduo.

Dessa forma, ao fazermos a leitura da peça em questão, procuramos identificar alguns aspectos da filosofia de Sartre nela contidos. Inicialmente, analisaremos a questão da Liberdade, cerne da filosofia sartriana, estando esta diretamente envolvida com a escolha. Em “Mortos sem Sepultura”, os resistentes se encontravam presos num sótão aguardando o interrogatório que culminaria em uma sessão de tortura, e tinham de fazer suas escolhas a cada momento. Eles deveriam escolher como se comportariam perante a tortura, decidindo até que momento a dor se tornaria insuportável, resistindo bravamente ou se acovardando e delatando seu chefe. A escolha recairia também sobre o modo como viriam a se comportar perante seus companheiros. Alguns se revelariam covardes, outros

2 Alguns tradutores de Sartre explicam que a palavra francesa “engagement” tem duas implicações: em primeiro lugar, a de que estamos mergulhados na política, de bom ou mal grado, ou seja, o indivíduo toma consciência de sua responsabilidade total, diante de sua situação histórica e social e decide agir para modificá- la ou denunciá-la. Em segundo lugar, a de que temos de aceitar voluntariamente as conseqüências de uma determinada posição política em virtude das circunstâncias desagradáveis que a cercam. De acordo com Bentley, todos os artistas sérios são engajados politicamente.Nesse caso, não se trata apenas de saber se o artista tem um ponto de vista político formado, trata-se de saber se o seu ponto de vista político faz parte integrante de sua obra. Para saber mais, consultar: BENTLEY, E. O Teatro Engajado.Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969.

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demonstrariam coragem, e haveria ainda, aqueles que mudariam de postura diante do desenrolar dos fatos.

Partindo dessa perspectiva, pretendemos no primeiro capítulo de nosso trabalho tecer breves considerações sobre a concepção sartriana de Liberdade.

Para tanto, utilizamos como referencial teórico a obra magna de Sartre O ser e o nada, na qual encontramos os elementos necessários para compor uma idéia central sobre o significado da liberdade para Sartre.

No segundo capítulo, discorreremos sobre As Relações Concretas com o Outro”, nos atendo principalmente no eterno conflito existente nessas relações.

Em uma leitura mais atenta da peça, pudemos identificar vários exemplos destes conflitos, tanto nas relações entre os torturadores, como entre os resistentes, que por várias ocasiões agiram de má-fé, deixando de assumir suas culpas diante dos fatos, lançando-as sobre seus companheiros.

Não obstante, no terceiro capítulo, há um novo problema a se investigado: a relação tortura-violência-morte. O tema da tortura aparece com uma insistência quase obsessiva na obra de Sartre. Talvez esse fato se deva a alguma indignação que ele possuía em relação à espécie humana, ou até mesmo ao fato de ter vivido num período que abrangeu a duas guerras mundiais, e ter participado de uma delas. A violência também parece ter sido algo preocupante para Sartre, conforme podemos notar através de seu envolvimento com questões políticas que envolviam repressão, como a Guerra da Argélia, a questão judaica; o racismo, etc.

A violência e a tortura nos remetem a uma outra questão: a morte. Para discorrer sobre este assunto, Sartre reservou cerca de vinte páginas de O ser e o nada, demonstrando dessa forma, ver a morte como “um fato contingente”, e afirmando que “é absurdo que tenhamos nascido; é absurdo que tenhamos de morrer”.

No quarto e último capítulo, pretendemos fazer as devidas relações dos aspectos da filosofia de Sartre analisados nos capítulos anteriores, com a peça, procurando dessa forma, obter um olhar mais aprofundado sobre Mortos sem Sepultura.

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SARTRE E O TEATRO DE SITUAÇÕES

1 – JEAN-PAUL SARTRE: NOSSO FILÓSOFO EM QUESTÃO

Jean-Paul Charles Aymard Sartre nasceu em Paris a 21 de junho de 1905, filho de Jean-Baptiste Sartre, um oficial da marinha, e Anne-Marie Schweitzer, única filha mulher e caçula da família. O pai de Sartre morreu quando o menino tinha apenas dois anos, vitimado por uma febre intestinal contraída na Cochinchina. Assim, Anne-Marie com apenas vinte anos, foi morar com o pequeno Sartre na casa de seus pais. Charles Schweitzer, avô de Sartre, era visto como a pessoa mais importante naquela casa e criou seu neto com um misto de carinho, mimos e extremo rigor. Futuramente ele seria visto por Sartre como a pessoa que exerceu maior influência em sua formação e sua subseqüente carreira. A posição de Anne-Marie dentro da nova casa era de subordinação completa.

Schweitzer, avô de Sartre, era um velho e austero professor de línguas de severos costumes calvinistas que ensinou a seu neto a disciplina, o rigor e o amor pelas palavras. Entretanto, Sartre cresceu presenciando o conflito de crenças religiosas em sua família que se dividia em protestantes de um lado e católicos de outro. Isso fez com que ele adquirisse grande aversão pela fé religiosa, vindo futuramente a optar pelo ateísmo.

Até os doze anos Sartre não manteve contato com outras crianças de sua idade por ordem de seu avô, que contratou professores particulares para ensinar seu neto em casa. Isso fez com que Sartre se refugiasse num mundo imaginário, alimentado pelos livros.

A mãe de Sartre tornou a se casar, quando ele possuía a idade de doze anos e o menino foi levado pelo padrasto para La Rochelle, onde este trabalhava no porto. Após dois anos Sartre é enviado de volta a Paris para prosseguir seus estudos. Mas o projeto original de Sartre já estava elaborado na infância: o de escrever.

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Em 1924 aos dezenove anos, Sartre ingressa na Escola Normal, no curso de filosofia, onde conheceu Simone de Beauvoir que seria sua companheira por toda a vida. Terminado o curso de filosofia, Sartre teve de prestar o serviço militar, e o fez em Tours, na função de meteorologista. Ao estourar a Segunda Guerra Mundial Sartre foi convocado para servir nesta mesma função. Em junho de 1940, caiu prisioneiro e foi encerrado no campo de concentração em Trier, na Alemanha, do qual conseguiu escapar após um ano, portando um falso atestado médico que conseguira.

De volta a Paris, fundou o grupo Socialismo e Liberdade, a fim de colaborar com a Resistência3 francesa, produzindo panfletos clandestinos contra a ocupação alemã e contra os colaboracionistas4 franceses. Mas a guerra ainda continuaria por mais três anos.

2 - O PANORAMA DA FRANÇA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O SURGIMENTO DO TEATRO DE SITUAÇÕES

Com a crescente escalada nazista na Europa, a partir de 10 de maio de 1940, Hitler começou a ofensiva contra a França. Os alemães invadiram a Bélgica e a Holanda. A queda da resistência belga tornou crítica a situação: 270 mil ingleses e 100 mil franceses aguardavam a retirada de barcos ingleses protegidos

3 Resistência - Organização que, num país ocupado por forças militares estrangeiras, reúne civis e militares empenhados em combater o inimigo com ações de sabotagem, guerrilha, etc. Na Segunda Guerra Mundial, a França possuía importantes movimentos de Resistência, cujos esforços eram coordenados por um conselho nacional formado em maio de 1943, através do qual organizaram-se os maquis (resistentes), que uma vez armados, desenvolveram suas atividades particularmente em Glières (fevereiro de 1944) e Vercors (março- abril). Mas os alemães aumentaram a repressão, conduzida pela Gestapo, ocasionando prisões de resistentes e de judeus, e deportando estes para campos de concentração.

4Colaboracionismo – Estabelecida por ocasião da entrevista do Marechal Pétain com Hitler em Montoire (outubro de 1940), a política de colaboração era no princípio livremente consentida pelo governo de Vichy, que inicialmente acreditava que ela poderia trazer benefícios à França.Ela se traduziria na prática, por uma exploração intensiva das riquezas do país (fornecimento de produtos agrícolas e industriais), pela transferência da mão de obra para a Alemanha, mas também por um apoio militar efetivo, com a criação da Legião de voluntários franceses (LFV) em 1941 e unidades francesas de Waffen SS ( fevereiro de 1943), ou ainda a milícia francesa criada por J.Darnard em janeiro de 1943. Impopular e minoritária, a colaboração tornou-se eco da propaganda nazista, anti-semita e anticomunista, cujos temas eram desenvolvidos no rádio bem como na imprensa colaboracionista.Com a libertação, os chefes da colaboração foram julgados e a seguir executados.

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pela frota aliada, constantemente bombardeada pela aviação alemã: todo o material bélico desses exércitos caiu nas mãos dos alemães, e cerca de 40 mil franceses foram aprisionados. Avançando para o sul o exército alemão venceu os franceses, obrigando o governo a fugir para Tours, e depois para Bordeaux. No dia 14 de junho de 1940, Paris caiu em poder dos nazistas. Em todos os países ocupados pelos nazi-fascistas organizavam-se movimentos de resistência.

Associações clandestinas e nacionalistas procuravam paralisar o inimigo por meio de sabotagem e ataques de surpresa, dificultando dessa forma, a ação dos alemães. Esses movimentos tiveram grande importância especialmente na França, Iugoslávia, Polônia e Grécia.

Somente após quatro anos na guerra, a França conseguiu sair vitoriosa juntamente com os exércitos aliados, após estes se utilizarem uma determinada estratégia, na qual cercaram a Alemanha por todos os lados, resultando na rendição daquele país.

Todo esse contexto demonstrado nas linhas anteriores formou um ambiente propício para o surgimento do Teatro de Situações5 sobre o qual iremos discorrer a partir de agora.

O teatro do século XX é tido como teatro político6, por ter havido vasta conscientização7 por parte dos dramaturgos no que concerne aos problemas

5 Alguns estudiosos defendem a idéia de que Sartre não foi o primeiro a fazer Teatro de Situações. As tragédias gregas já eram consideradas como pertencentes a essa categoria teatral. No século II antes de nossa era, a sociedade grega já se encontrava bastante abalada por contradições internas, com as crescentes revoltas de escravos e a intervenção dos romanos nos assuntos helênicos. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes são exemplos de dramaturgos que definiram muito bem a tragédia grega no século V a.C. Numa estrutura rígida, o coro desempenha o papel central, representando principalmente, a “polis”.É a sociedade para os gregos, uma espécie de ordem universal que se faz presente julgando, comentando, criticando, e mesmo interferindo no conflito dos homens. As ações trágicas nas peças desses dramaturgos resumem-se em certo sentido, na desesperada e inútil luta dos homens contra o destino que lhes é imposto de forma inapelável, pelos deuses. Já a comédia clássica grega teve seu mais legítimo representante em Aristófanes, crítico implacável da ordem social. Seu teatro foi marcado pelo vigor sensorial, pela capacidade de incorporar em suas sátiras, elementos de uma obscenidade. (cf. PEIXOTO, F. O que é teatro, pp. 69-70).

6Teatro político – Tomando-se política no sentido etimológico do termo, concordar-se-á que todo teatro é necessariamente político, visto que ele insere protagonistas na cidade ou no grupo. A expressão designa de maneira mais precisa o teatro popular, o teatro épico, o teatro documentário e o teatro de massa.Estes gêneros têm por características comuns uma vontade de fazer com que triunfe uma teoria, uma crença social, um projeto filosófico.A estética é então subordinada ao combate político até o ponto de dissolver a forma teatral no debate de idéias.

7 Podemos tomar a peça Os tecelões como um bom exemplo dessa conscientização e reflexão havida por parte de alguns dramaturgos da época.Escrita por G. Hauptmann, e encenada em 1892, a peça mostra uma greve de operários na região da Silésia, esmagada pelas forças de repressão.Levou pela primeira vez para o palco

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enfrentados pelo homem neste século8. Entre estes, podemos destacar: guerras, massacres, genocídios e outros tipos de violências cometidas pelo homem contra seres de sua própria espécie. O filósofo, dramaturgo e romancista Jean-Paul Sartre teve relevante participação como testemunha destes problemas que atingiram a espécie humana e o mundo naquela época. A guerra mudara muita gente, e Sartre em particular. A liberdade experimentada por seu individualismo antes da guerra acabara-se e naquele momento, ele necessitava de um projeto de ação que incluísse todos os homens.Iniciando sua carreira de dramaturgo, optou por um novo gênero, o qual ele chamou de Teatro de Situações, que ele considera o único adequado à nossa época. Partindo do pressuposto de que o homem é livre em determinadas situações, ele faz escolhas o tempo todo, dentro dessas situações.O termo utilizado por Sartre, foi primeiramente usado por Karl Jaspers9, que define situações-limite como situações extremas que nos colocam em face dos fatos mais inesperados da existência humana: o sofrimento, o acaso e a morte. Para Sartre, são situações como estas que fazem com que o homem tome consciência de si mesmo. Juntamente com Albert Camus, Sartre fez com que o existencialismo francês fosse particularmente fértil no campo teatral. A filosofia existencialista esteve particularmente preocupada com o indivíduo, sua natureza interior e seu destino. Camus10 e Sartre11 escreveram peças que trouxeram novas

alemão as lutas sociais do proletariado, marcando época no desenvolvimento de uma dramaturgia realista (“Os tecelões” foi escrita a partir de documentos sobre a revolta operária ocorrida em 1844 na Silésia).

8É importante lembrar, que ainda no fim do século XIX houve uma grande e contundente reflexão sobre a condição humana na sociedade burguesa. Gerhardt Hauptmann (autor de “Os tecelões”) já utilizava na época elementos da estrutura de um teatro não dramático e antecipava o teatro político revolucionário, elaborando acusadores painéis sociais: seus personagens são a massa miserável debatendo-se entre a fome e o álcool, entregues à passividade e conduzindo a revolta contra a opressão. São temas dos novos tempos que invadem o palco com inusitado vigor.

9Jaspers, Karl – Filósofo alemão contemporâneo (1883-1969). Jaspers chama as Situações-Limite àquelas em que me encontro sempre que não posso viver sem luta nem dor, em que inevitavelmente assumo a culpa ou em que tenho de morrer. Jaspers compara as situações-limite a um muro contra o qual se embate, porque é da queda que o homem pode se erguer de novo. Encarar as situações-limite sem fugir e em as negar é o único modo que ele tem de poder decifrar ou ver o que está para além delas. Porque elas estão lá, sem que sejam previsíveis nem superáveis, sem que se possa produzir alguma outra coisa, ser explicadas ou modificadas.

Não é possível estruturar uma teoria geral das situações-limite. Luta, dor, culpa ou sentimento de morte são vistos por ele como situações-limite, e têm sua origem na própria liberdade.

10 Camus, Albert (1931-1960) escreveu quatro peças: Calígula (escrita em 1938, estreou em 1945), O mal- entendido (1943); Estado de Sítio (1948) e Os justos (1949). Sua filosofia foi basicamente fundamentada sobre dois pilares fundamentais: o absurdo e a revolta. Sua definição de absurdo diz respeito ao confrontamento da irracionalidade do mundo como desejo de clareza e racionalidade que se encontra no

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esperanças para o teatro francês. Algumas delas pareceram representar uma nova dramaturgia, uma maturidade recém-adquirida nessa tradição. Assim como Sartre, Camus também engajou-se no movimento de Resistência durante a Segunda Guerra. Seu principal papel nesta missão foi o de jornalista, profissão que o obrigou a participar ativamente dos acontecimentos políticos daquela época.

Apesar disso, duas das peças escritas por Camus foram consideradas por críticos como pertencentes ao chamado Teatro do Absurdo12 (que teve como precursor Luigi Pirandello13, outro importante dramaturgo daquela época). São elas: Calígula (1938) e O Mal-Entendido (1943). Especificamente em Mortos sem Sepultura, Sartre aproxima-se ainda de outros dramaturgos na concepção de que a guerra e a violência fazem com que o homem mude de postura, mas é diferente daqueles que acreditavam que o teatro deveria trazer à tona o homem e sua relação com a classe social a que ele pertencia, como Erwin Piscator 14e Bertolt Brecht15.

homem. Quanto ao conceito de revolta, ele está vinculado, em última análise, busca inconsciente de uma moral. Nas palavras de Camus: ela é um aperfeiçoamento do homem, ainda que cego”.

11 O teatro de Sartre e Camus foi ainda denominado “um teatro de tese”. Neste, o espetáculo é utilizado como instrumento para uma demonstração de questões essenciais do mundo moderno, que segundo estes dois dramaturgos, deveriam ser discutidos em cena.

12 Teatro do Absurdo – Expressão considerada pelas críticas alemã e inglesa, sobretudo após as publicações do discurso obtido sobre o Teatro do Absurdo, de Martin Esslin (1961), tendo por referência a corrente dramática anti-realista (em sua aparência exterior), antipsicológica, anti-retórica e extremamente caustica sobre a condição humana, que aproxima alguns autores do século XX (segunda metade): Samuel Beckett (Esperando Godot, Fim de Festa, Cinzas), Eugène Ionesco (A cantora careca, As cadeiras, O Rinoceronte), Albert Camus (Calígula, O mal-entendido), Arthur Adamov (A paródia, A invasão, O ping-pong) e Jean Genet (As criadas, Alta Vigilância, O balcão). Teatro de situações ilógicas, em que se manifestam contradições ou ausências de significado nos discursos e ações cotidianas, a angústia permanentemente experimentada pelo homem contemporâneo, a visão derrisória da condição humana, as artimanhas cínicas e inesgotáveis do poder de submissão.Comumente, os diálogos tornam-se jogos sem solução, já que, como assevera Adamov “ninguém entende ninguém”. As duas guerras mundiais, os totalitarismos, os valores burgueses fúteis, a ignorância ou a credulidade das massas e as narrativas de Kafka e de Camus exercem influências consideráveis sobre as perspectivas pessimistas que se projetam no Teatro do Absurdo. Nele, como observa Hildesheimer, há muitas perguntas, mas nenhuma resposta razoável ou convincente.Corre-se perversa e historicamente para o nada. Para saber mais, é válido consultar: CUNHA, N. Dicionário de Teatro.Porto Alegre: L&PM, 2001, 3a. ed.

13 Pirandello, (Luigi). Dramaturgo e escritor italiano (1867-1936).Em seus romances, contos, e, sobretudo em suas peças de teatro, salienta-se constantemente a obsessão pela pluralidade do ser individual e a inútil luta que o homem trava para atingir a verdade de sua própria identidade. Esta, sempre aparece fragmentada em hipóteses e aparências que se anulam umas às outras. Pirandello foi um homem de teatro por excelência. Entre as peças que escreveu destacam-se: Liolá (1916), Assim é se lhe parece (1917); Seis personagens à procura de um autor (1921), Henrique IV (1922) e Esta noite se improvisa (1930).

14 Diretor artístico de grande importância para o teatro internacional, deixando forte influência para aqueles que atuam neste campo.Essencialmente político, apoiado no marxismo é seu teatro. Seu livro Teatro Político (1929) é um convicto manifesto de projetos, um relato de uma trajetória difícil e contraditória, e uma reflexão vigorosa capaz de estimular qualquer conceituação. Piscator defende a arte como um meio, e não como um

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Dessa forma, diversas situações que ocorrem durante nossa existência podem ser consideradas situações-limite, e ao nos depararmos com elas, temos de fazer nossas escolhas. É importante lembrar, que ao fazer uma opção, o homem abre mão de todas as outras escolhas possíveis, ficando dessa forma, totalmente responsável pela decisão tomada e suas possíveis conseqüências.

Se é certo que o homem é livre numa determinada situação e que se escolhe a si próprio e em por essa situação, teremos de apresentar no teatro situações simples e humanas e liberdades que se escolhem nessas situações. O que o teatro pode mostrar de mais emocionante é um caráter em processo de formação, o seu momento de escolha, de livre decisão, o que compromete uma moral e toda uma vida. E como só há teatro realizando a unidade dos expectadores, é necessário encontrar situações tão gerais, que sejam comuns a todos. (...) Parece-me que a tarefa do dramaturgo é escolher entre situações-limite, a que melhor exprima suas preocupações e apresentá-la ao público, como a questão que se opõe a certas liberdades”.16

fim: está subordinada a tarefas políticas urgentes. O teatro precisa assumir-se enquanto instrumento de agitação e propaganda, sem abdicar de sua condição de arte: quanto mais artístico, mais político.Piscator buscava em suas peças retratar os temas mais diversos da Alemanha da década de 1920: petróleo, mazelas do capitalismo, guerra e revolução. Revolucionou a técnica teatral com inovações como o palco giratório, a esteira rolante, o filme, dados estatísticos e complexos mecanismos nos bastidores: para revelar a engrenagem da História sob um ponto de vista materialista e revolucionário, o palco precisa estar equipado.Sobre a trajetória deste dramaturgo, consultar: PISCATOR, E. Teatro Político. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.

15 Opondo-se ao drama aristotélico (que apresentava apenas relações inter-humanas individuais – objetivo essencial do drama rigoroso da “peça bem-feita”), Brecht considerava que a forma épica de teatro é a única capaz de apreender aqueles processos que constituem para o dramaturgo a matéria para uma ampla concepção de mundo. O homem concreto só pode ser compreendido com base nos processo dentro e através dos quais existe. Brecht teve grande relevância para a Alemanha da década de 1920. Além disso, era poeta e romancista.

Transformou o fazer teatro.Pode-se afirmar que seu teatro era político, e, sobretudo, social.Provocando a discussão em suas encenações, trouxe o teatro dialético, o qual oferecia peças que suscitassem a discussão.

Sobre a biografia de Brecht, é válido consultar: PEIXOTO, F. Brecht, vida e obra. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1978.

16 SARTRE, J.P. Situations II. Paris: Gallimard, 1948.

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Foi através de suas peças de teatro que Sartre tornou-se realmente famoso, tendo conseguido colocar em cena quase a totalidade de seus temas, entre eles, a liberdade, vista por Sartre como o cerne de sua filosofia, e tida por ele como aspecto imprescindível na obra de arte. Dentro dessa perspectiva, Sartre afirma que:

A finalidade da obra de arte é recuperar esse mundo, mostrando-o tal como ele é, mas como se tivesse origem na liberdade, sendo na cerimônia do espetáculo (ou da leitura) que essa recuperação é consagrada. Eis o papel fundamental da liberdade na obra de arte: a obra de arte é um ato de confiança na liberdade, e uma vez que os expectadores e autor só conhecem essa liberdade para exigir que ela se manifeste, a obra de arte pode ser definida como uma apresentação imaginária no mundo, na medida em que exige a liberdade humana, de forma que o escritor, homem livre que se dirige a homens livres, tem apenas um único tema: a liberdade”.17

No decorrer de nossas vidas nos deparamos constantemente com situações-limite que nos obrigam a tomar decisões imediatas e viver suas conseqüências, o que implica afirmar que em todos esses casos está em questão o exercício da liberdade do homem.A liberdade é definida por Sartre como um recuo do ser-em-si. Essa liberdade definida ontologicamente não é uma noção abstrata, mas deve se manifestar concretamente através da escolha de uma ação, da tomada de decisão.Ser livre é realizar escolhas concretas. Não há liberdade em abstrato, ela é sempre situada e coagida. Entretanto, é pelos obstáculos que se interpõem à realização de um ato concebido, pela distância entre o fim escolhido e a consciência (distância imposta pela existência real do mundo) que se realiza a liberdade, e de acordo com Sartre, esta se afirma mais claramente

17 SARTRE, J.P. Que é a literatura? São Paulo: Ática, 1987, p.39.

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quando sujeita a maiores pressões. Ao relacionar essas idéias à sua concepção de teatro, Sartre esclarece que o homem só se define pela ação e o teatro é essencialmente ação.Tal concepção é reforçada em uma série de textos, conferência e entrevistas de Sartre sobre teatro, que mais tarde vieram a compor o livro Um Thèatre de Situations, no ano de 1973. Nesses textos, o filósofo dizia criar personagens que são forçadas à escolha e à ação. Estas personagens vão formando suas características e constituindo seus destinos a partir de situações vividas em perfeita harmonia com o princípio de que a “existência precede a essência” e com a visão do homem como projeto vir-a-ser. Ao Teatro de Situações de Sartre opõe-se o teatro clássico, cujo conflito essencial seria desencadeado por

“caracteres” formados a priori. Por exemplo, Orestes de Eurípedes chega a Argos com um destino traçado, o Orestes de Les Mouches chega à cidade sem uma determinação definida, a possibilidade de vingança se constitui a partir da relação que se estabelece com sua irmã, Electra. Sartre confirma este raciocínio, quando afirma que:

A situação é um chamado: ela nos cerca; ela nos propõe soluções, nós devemos nos decidir. É para que a decisão seja profundamente humana, para que ela coloque em jogo a totalidade do homem, a cada vez é preciso colocar em cena situações-limite, quero dizer, que apresentam alternativas em que a morte é um dos termos. Assim, a liberdade se descobre em seu mais alto grau porque ela se aceita para poder se afirmar”.18

Nesse momento, tudo o que o ator pode faze é persuadir por contágio. Seu ofício é reproduzir através de palavra por palavra, gesto por gesto, a totalidade da obra, promovendo sobre o expectador um contágio afetivo e lançando este para dentro de seu personagem.

18 SARTRE, J.P. Situations II. Paris: Gallimard, 1948.

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Autor e ator sabem que no exercício de seu ofício, a única maneira de atingir os expectadores é fasciná-los o máximo possível.

“Eis porque no teatro, mais do que em qualquer outro gênero literário, é preciso escrever com palavras fortes, palavras que impressionem, posto que as réplicas passam rápido, e não se pode retomá-las para melhor compreendê-las. Além disso, é preciso também pôr em cena atitudes teatrais, isto é, é preciso que os gestos e as palavras postas em cena admitam certa ênfase para impressionar o expectador, é preciso que os atos representados assumam uma certa monstruosidade”.19

Dentre as várias peças escritas por Sartre, escolhemos Mortos sem Sepultura20 para ser analisada com certa profundidade em nosso trabalho. Ao fazermos a leitura da peça, identificamos nela alguns aspectos relevantes da filosofia de Sartre, sobre os quais pretendemos discorrer no percurso desta dissertação. Entre estes, podemos destacar principalmente: a relação liberdade- escolha-responsabilidade, a tortura e os conflitos nas relações com o outro.

19 ALVES, I.S. O drama da existência: Estudos sobre o pensamento de Sartre. São Paulo: Humanitas, 2003.

20Vale lembrar que Mortos sem Sepultura foi encenada no Brasil, primeiramente no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, situado em São Paulo), com direção de Fernando Peixoto, no ano de 1954.Nessa época, a peça não teve muita repercussão. Já nos anos 70 em plena ditadura militar, a peça estreou no Teatro Maria Della Costa, também em São Paulo, onde permaneceu por várias semanas, obtendo desta vez uma melhor aceitação por parte do público.O cartaz da peça foi elaborado pelo artista Elifas Andreatto, e mostrava um prisioneiro amarrado em um pau-de-arara (símbolo de tortura típico do Brasil), mas com um soldado ao fundo, portando uma farda nazista. Uma grande quantidade desses cartazes foram vetados e apreendidos pela censura, tão logo ocorreram as primeiras apresentações, sob a alegação de que “o pau-de-arara é uma invenção brasileira”.

(24)

CAPÍTULO I

A LIBERDADE E AS ESCOLHAS DO HOMEM.

1.1- A CONCEPÇÃO SARTRIANA DE LIBERDADE

Neste ponto de nosso trabalho, pretendemos destacar alguns aspectos da concepção sartriana de liberdade, procurando nos ater em algumas questões que consideramos relevantes para nossa pesquisa.

Para Sartre, a liberdade surge na origem do Para-Si. Este é definido por Sartre como o caráter do ser que tem consciência de sua existência. A consciência é um “ser-para-si, porque é auto-reflexiva, visto que pensa sobre si mesma”.

Na concepção de Sartre, a existência precede a essência, mas esse fato aplica-se a um único ser: o homem, pois só ele é livre, o que significa que ao contrário de outros seres, o homem não é predeterminado.

Primeiramente o homem existe, se descobre, surge no mundo, e só depois se define. Inicialmente ele não é nada. Não existem idéias inatas, anteriores ao surgimento do homem e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. Só depois será alguma coisa, e tal como a si próprio fizer. O que ele virá a ser dependerá de suas escolhas. No tocante a essa questão Sartre define que:

“O homem é antes de mais nada um projeto que se vive subjetivamente, nada existe anteriormente a esse projeto. Nada há no céu inteligível, e o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser. Não o que ele quiser. Porque o que entendemos vulgarmente por querer é uma decisão consciente”.21

21 SARTRE, J.P. O ser e o nada. São Paulo: Vozes, 1997, p.181.

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Na citação vista anteriormente Sartre mencionou a palavra “projeto”, termo muito utilizado por ele em sua filosofia. Portanto, aqui se faz necessário esclarecermos o significado de tal palavra, já que ela se encontra inserida no próprio conceito de liberdade sartriana.

Sartre define como projeto a propriedade da realidade humana de ser continuamente lançada adiante de si e de estar sempre no futuro, ou seja, em tudo o que fazemos, participamos daquela ação no momento presente, mas já sabendo aonde queremos chegar, ou seja, já prevendo qual será o nosso objetivo final sobre aquela ação. Por exemplo, nesse momento escrevemos esta pesquisa, porém já estamos pensando na conclusão deste trabalho, ou melhor, no fim de nosso projeto, na totalidade a alcançar. O homem não é nada mais do que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através de seus atos.

Estamos para além de tudo o que fazemos, sempre no futuro em relação a nós mesmos. Paulo Perdigão nos dá alguns exemplos pertinentes a este aspecto da filosofia de Sartre:

“A linguagem, por exemplo: ao falar ou escrever, estou já no fim da sentença, no significado geral do que pretendo expressar. Ao caminhar em uma direção, sou orientado pelo fim futuro que projetei: levanto-me para apanhar um livro na estante situada a certa distância e, se não me desoriento no meio do caminho, é porque cada um dos meus movimentos é determinado pelo futuro projetado (o ato de ler o livro). O corpo, também é passado para a consciência. Estou sempre à frente de meu corpo:

em um jogo de tênis, a minha consciência já está no gesto futuro de rebater a bola enquanto o corpo é passado com relação a esse gesto futuro, e tenho de conduzí-lo até lá. Sem o futuro, não seríamos sequer capazes de dar um passo orientado, esboçar o mais leve gesto coordenado”.22

22 PERDIGÃO, P. Existência e liberdade. Porto Alegre: L&PM, 1995, p.82.

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Tomemos um outro exemplo: um professor quando entra na sala para ministrar uma aula, deverá ter projetado com antecedência o conteúdo a ser ensinado para seus alunos, ou seja, ele deverá ter bem definido o ponto no qual ele pretende chegar, e qual será a conclusão daquela aula.

O mesmo ocorre com um palestrante. Antes de proferir sua explanação sobre determinado tema, ele necessitará de um projeto previamente estabelecido sobre os assuntos que serão abordados na referida palestra, para que ele possa ter dessa forma, seus objetivos alcançados.

Porém, cabe-nos lembrar, que o projeto original ao qual Sartre se refere não é algo decidido nem determinado definitivamente, pois se trata de um projeto sobre a qual não temos consciência plena, mas não pode ser definido como inconsciente. Por isso, ele não é uma determinação definitiva do para-si, e sim, uma escolha que surge fundamentada pela sua própria liberdade, apesar de não haver vinculação do projeto com a nossa vontade, ou como nos exemplifica Perdigão:

Ao agirmos voluntariamente, fazendo valer as nossas decisões, apenas captamos pela reflexão o projeto já estabelecido por nossa liberdade originária. Agimos assim para nos recuperarmos enquanto ser que atua e decide, para nos apropriarmos dessa liberdade originária através de uma decisão reflexiva (posicionamos nossa própria consciência que somos enquanto liberdade). Daí a satisfação que acompanha o ato voluntário. Fiz o que quis. Mas o fim visado já estava anteriormente posto: quando agimos por vontade a decisão já estava tomada”.23

23 PERDIGÃO, P. Existência e Liberdade.Porto Alegre: L&PM, 1995, p. 82.

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Considerando essa afirmação, é lícito supor que a consciência apresenta uma intencionalidade, e o para-si em seu ser mesmo, é intencional, ou seja: para Sartre, todo ato humano é por princípio intencional. A liberdade é o ato de se fazer como consciência de ser-no-mundo, ato de escolher a si como projeto existencial, condição que se realiza de modo situado, sem que seja determinado senão pelo próprio sujeito: o homem. Este é antes de mais nada, o seu fazer-se; é o que escolheu para si mesmo. A noção de sujeito abarcada na filosofia sartriana é de fundamental importância para o seu conceito de liberdade, uma vez que a liberdade somente é liberdade de um sujeito cuja consciência é autônoma para escolher, ou seja, é intencional. Dessa forma, o sujeito livre sartriano é aquele elaborado na esteira da filosofia cartesiana, na medida em que Descartes promulgou a liberdade do pensar e da consciência do sujeito. Nessa perspectiva define Sartre:

“Como ponto de partida não pode existir outra verdade senão esta:

penso, logo existo, é a verdade absoluta da consciência que apreende a si mesma. Qualquer teoria que considere o homem fora desse momento em que ele se apreende a si mesmo, é de partida, uma teoria que suprime a verdade, pois fora do cogito cartesiano, todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de probabilidade que não esteja ancorada numa verdade desmorona no nada, para definir o provável temos de possuir o verdadeiro”.24

Dessa forma, a liberdade aparece como condição fundante do sujeito:

24 SARTRE, J.P. Questão de método. São Paulo: Abril Cultural 1987, p.54.

(28)

“Certamente, eu não poderia descrever uma liberdade que fosse comum a outro e a mim, não poderia, pois, considerar uma essência de liberdade. Ao contrário, a liberdade é o fundamento de todas as essências posto que o homem desvela as essências intramundanas ao transcender o mundo rumo às suas possibilidades próprias”.25

Entretanto, é importante lembrar que entre Sartre e Descartes existe uma diferença. Descartes inicialmente elaborou o raciocínio que definia o pensamento como a essência do ser e que sua mente era separada do corpo. Naquele momento, todo o que ele tinha, porém, era sua idéia de uma coisa pensante.

Assim, para mostrar que não estava sendo enganado, ele precisava provar a existência de Deus, pois essa seria a única garantia de que nossas idéias são claras e definidas são verdadeiras e que não estamos sendo iludidos por nenhum gênio maligno. Assim, Descartes deu-se por satisfeito ao usar a prova de uma versão ontológica de Anselmo e afirmar que a idéia de um Deus perfeito deve ter uma causa. O homem é cheio de defeitos e não pode ser essa causa, de modo que Deus deve ser a causa de nossa idéia da perfeição dele. Partindo desse pressuposto, Descartes considerou que havia conseguido comprovar a existência de Deus. Em Situações I, Sartre procurou definir a visão que Descartes tinha sobre Deus, relacionando essa idéia à liberdade do homem, e ressaltando um ponto em que discorda de Descartes, pelo menos em parte:

“Ora, o Deus de Descartes é o mais livre dos deuses que o pensamento humano forjou; é o único Deus criador. Com efeito, não está submetido a princípios – nem sequer ao da identidade – nem a um bem soberano de que seria o único executor. Não criou apenas os existentes, de acordo com regras que se teriam imposto

25 SARTRE, J.P. O ser e o nada.Petrópolis: Vozes, 1997, p.212.

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à sua vontade, mas criou ao mesmo tempo os seres e suas essências, o mundo e as leis do mundo, os indivíduos e os princípios elementares. (...) Assim, Descartes oscila perpetuamente entre a identificação da liberdade com a negatividade ou negação do ser – o que seria a liberdade de indiferença – e a concepção do livre-arbítrio como simples negação da negação. Em resumo, faltou-lhe conceber a negatividade com produtora”.26

Porém, ao final de suas considerações sobre “A liberdade cartesiana”, Sartre, diz “não censurar Descartes pelo fato de ter atribuído a Deus o que nos pertence por direito” (no caso, a liberdade):

“Serão precisos dois séculos de crise para que o homem recupere a liberdade criadora que Descartes atribuiu a Deus e para que se conceba finalmente essa verdade, base essencial do humanismo: o homem é o ser cuja aparição faz com que o mundo exista. Mas não censuramos Descartes pelo fato de ter atribuído o Deus o que nos pertence por direito; admiramo-lo principalmente por ter, numa época autoritária, lançada as bases da democracia, por ter seguido até o fim as exigências da idéia de autonomia e por ter compreendido, muito antes de Heidegger, que o único fundamento do ser era a liberdade”.27

Certa vez Sartre afirmou que o homem é livre mesmo quando preso em uma cela. Mas como se explica tal afirmação?

26 SARTRE, J.P. Situações I. São Paulo: Publicações-Europa-América, 1947, pp.295-296.

27 Ibid, p. 301.

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De acordo com Sartre, não devemos entender o verdadeiro conceito de liberdade como o mesmo que “obter o que se quer”, mas sim, querer autonomamente. Esse querer envolve toda a ação humana. O problema da liberdade diz respeito ao querer e não ao poder (poder para alcançar o que o querer indica) e é por isso que o sucesso não importa em absolutamente nada para liberdade: não se é menos livre porque não se consegue o que quer, mas seríamos não-livres (o que é impossível) se nosso querer fosse condicionado.

Então, no caso do homem preso numa cela mencionado anteriormente, não se quer dizer que ele é sempre livre para sair da prisão, mas sim, que ele é sempre livre para procurar se evadir, ele pode sempre projetar sua fuga. Já o sucesso ou fracasso desse projeto não diz respeito à liberdade, pois é na ação livre que o homem se constrói como sujeito. Assim, toda ação, escolha, objetivo ou condição de vida são frutos da liberdade humana. E esta deixa de ser uma conquista humana para ser uma condição de existência do homem. Nessa perspectiva, a consciência do homem, ou na terminologia sartriana, o Para-si não é algo prontamente determinado, as ao contrário, o Eu ou a consciência passa a existir a partir do momento em que ela se lança no futuro, na concretização das escolhas, sendo assim preenchida pela liberdade.Já o exercício da liberdade em nossas ações é sempre intencional e sempre movido por uma vontade consciente dos princípios norteadores dessa escolha e dos fins às conseqüências dessa ação. Na ação livre o homem é consciente dos princípios de sua ação, ou seja, não existem valores morais nos quais se possa fundar a ação humana.

Nesse contexto de ausência de princípios norteadores de ação, é consagrada a passagem do texto “O existencialismo é um humanismo”, no qual um jovem pergunta a Sartre se ele deve ir para a guerra ou cuidar da mãe. A resposta do filósofo foi a de que não existe uma regra, um valor ou um modelo, ou mesmo uma resposta que seja correta e que sirva de parâmetro para a decisão a ser tomada pelo jovem. Ou seja, é de sua total responsabilidade a escolha que ele fizer, pois o jovem é livre para erigir os seus valores. Em suma: não existem valores éticos universais para a vida humana.

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Na filosofia de Sartre a existência preceda a essência. Se quisermos existir ao mesmo tempo em que construímos nossa imagem, esta imagem é válida para todos: escolhendo-me escolho o homem. Essa co-responsabilidade dá fundamento à angústia. Nenhum indivíduo escapa à sua profunda e total responsabilidade de escolher para si a humanidade inteira.

Para Sartre, a não-existência de Deus é o princípio fundamental, o homem está abandonado, pois não encontra em si, nem fora de si, nenhuma realidade a que se apegar.Conforme Sartre menciona em O existencialismo é um Humanismo, no século XVIII, para o ateísmo dos filósofos suprime-se a noção de Deus, mas não a idéia de que a essência precede a existência.Filósofos como Diderot, Voltaire e Kant defenderam o conceito de natureza humana, onde cada homem é um exemplo particular de um conceito universal. Se tomarmos como exemplo vários homens de épocas e classes sociais diferentes, veremos que estes possuem as mesmas qualidades de base, mas sua essência continua a preceder a existência histórica encontrada na natureza. Porém, no existencialismo ateu representado por Sartre Deus não existe, dessa forma, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, e que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: o homem. Por isso, não há natureza humana, visto que não há um Deus para a conceber. O homem é livre e sem desculpas.A liberdade humana fundamenta-se na autonomia da escolha concreta, na ação:

“Com efeito, tudo é permitido Se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte abandonado, já que não encontra em si nem fora de si uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele.(...) O indivíduo é livre. Ele não apenas tem liberdade, mas é liberdade. Nós construímos tudo: até mesmo nossos valores, regras e imposições.(...) Assim, não temos atrás de nos, nem diante de nós no domínio luminoso de valores, justificações ou desculpas.(...) O homem está condenado a ser livre, condenado não porque criou a si próprio, e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto

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fizer..(...) Se com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável, por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade”.28

O homem estando condenado a ser livre carrega nos ombros o “peso do mundo inteiro”, é responsável pelo mundo e por si mesmo como maneira de ser.

Sartre recusou a idéia de determinismo29 e demonstrou que somos nós que escolhemos nossas ações e assim, tornamo-nos livres, controlamos nossas vidas e ganhamos a possibilidade de mudá-la. Essa liberdade é condicionada por questões concretas e, ao procurarmos resolver os problemas anulamos uma realidade e tornamos real uma outra. O fato de escolhermos, de realizarmos nossos projetos e acabarmos com uma situação e criarmos outras nos tornam agentes de nossa história e da história da humanidade. Não há algo ou alguém movendo nossas vidas, ou seja, não há determinismo. Somos nós os responsáveis pelas nossas vidas, enquanto seres que escolhem a todo o momento.

Em entrevista concedida ao jornal Correio Brasiliense30 Bornheim afirmou que de acordo com Sartre, o determinismo pode ser biológico, social ou psicológico. “Sartre não aceitava nenhuma forma de determinismo. Ele considerava que o homem inventa esse determinismo para se proteger contra a liberdade porque é difícil ser livre. Há a responsabilidade absoluta, mas não é uma coisa aleatória, você tem que reinventar a responsabilidade em função de cada ato cometido”.

28 SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1974, p.15.

29 Determinismo é o termo empregado a partir do século XIX para referir-se à realidade conhecida e controlada pela ciência, e no caso da ética, particularmente ao ser humano como objeto das ciências naturais e ciências humanas (sociologia e psicologia), portanto, como completamente determinado pelas leis e causas que condicionam seus pensamentos, sentimentos e ações, tornando a liberdade ilusória. (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1999, p. 361).

30 BORNHEIM, G. Entrevista concedida ao Correio Brasiliense em março de 2000 e publicada em 15 de setembro de 2002. Bornheim não se considerava sartreano, mas foi um dos principais pesquisadores de Sartre no Brasil Faleceu em 05 de setembro de 2002.

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Aqui, convém mencionar, que na peça Mortos sem Sepultura, Sartre demonstra suas personagens em pleno exercício de liberdade, mas trata-se da liberdade na concepção sartriana, ou seja, uma liberdade na qual Deus não existe, cabendo somente ao homem suas decisões e eventuais conseqüências.

O fato de o homem ter sido lançado ao mundo, sem justificativas e gratuitamente nos remete a um conceito muito utilizado por Sartre: a contingência.

Quando falamos de contingência estamos nos referindo a uma característica fundamental do próprio ser. O romance “A náusea” expressa literariamente a contingência do ser-no-mundo, a angústia de ser. O livro é, pois, uma análise feita pelo próprio sujeito dessa obsessão essencial do homem, mas que ele procura mascarar ordinariamente pela vã agitação da vida. Roquentim (o protagonista) encontra-se num estado de abstração que exige uma completa reflexão sobre o íntimo das coisas. O que lhe aparece então, é a contingência, a gratuidade do que o cerca e dele mesmo. Essa contingência, ou seja, a gratuidade de sua própria existência, provoca em Roquentim sensações de náusea que causam nele uma ruptura consciente com os outros e o mundo, sem que ele descubra seu significado. No decorrer da história ele experimenta esta sensação várias vezes e em diferentes lugares. Para Roquentim não existe uma razão que explique a existência dos seres e dos acontecimentos, nenhuma coisa traz consigo sua razão de ser. Nada contém em si mesmo sua própria definição. Tudo é pura continência, absurdo, acaso. O argumento de João da Penha contribui nessa perspectiva, quando ele afirma que:

“Comumente, acredita-se que o mundo é obra divina criada para o homem, o que implica aceitar a necessidade dessa criação, logo de uma finalidade dela. Afirmar então que algo é contingente, é supor que sua existência é sem sentido, sem explicação. Dizer, por exemplo, que o mundo é contingente, é descrer que sua criação obedeceu a uma vontade superior, que assim procedeu, determinando desígnios. Num mundo contingente, portanto, o homem sente-se jogado nele, sem qualquer ponto de referência

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que não seja ele mesmo. Não há leis morais estabelecidas que lhe orientem a vida – cabe-lhe criá-las”.31

“A náusea”, traz ainda a inscrição de autoria de um escritor francês, que procura definir em apenas uma frase a situação do protagonista Roquentim:

“É um homem sem importância coletiva, exatamente um indivíduo”.32

Dessa forma, no decorrer do romance, Roquentim descobre importantes verdades: o mundo é contingente, ou seja, não é absolutamente necessário, e quanto a nós, estamos demais nele, sobrando, por nada e para nada, radicalmente gratuitos. Os objetivos nos permanecem estranhos, opacos;

impenetráveis, ininteligíveis.A nossa vida só encontra solidez quando está atrás de nós, morta, irrecuperável, transformada em passado. No presente não temos nunca uma essência necessária, como uma pedra o uma árvore. Portanto, a contingência é algo que está relacionado ao acaso e à ausência de um determinismo rígido.

Em seu tratado de ontologia fenomenológica O ser e o nada publicado em 1943, Sartre esclarece ainda o termo possibilidade, como também sendo algo relacionado à sua concepção de liberdade. O homem é o ser dos possíveis, está aberto a todas as possibilidades. Isto ocorre porque ele não é um ser predeterminado.Ao assumir livremente algumas dessas possibilidades ele projeta um modo de existir, além de projetar-se na existência, num tipo de experiência que a realidade humana define mais como futuro do que como passado.O homem só será aquilo que fizer de si a partir de um projeto de existência. Mas se ele pode assumir qualquer possibilidade, significa que não está determinado para alguma

31 PENHA, J. O que é existencialismo.São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 80.

32 SARTRE, J.P. La nauseé. Paris: Gallimard, 1938.

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coisa em particular. Isso nos leva a crer que todas essas possibilidades são igualmente contingentes, pois nenhuma o atrai mais do que a outra e o homem não tem por obrigação assumir alguma entre elas.

Assim a liberdade originária concebida por Sartre só pode realizar-se a partir da escolha radical de um projeto a ser assumido num mundo contingente.

A questão da contingência parece-nos estar diretamente relacionada a facticidade33, visto que ao nascer já nos encontramos obrigatoriamente situados em um lugar e uma circunstância qualquer:

“Não sou livre nem para escapar ao destino de minha classe, minha nação, minha família, nem sequer para construir meu poderio ou minha riqueza; nem para dominar meus apetites mais insignificantes ou meus hábitos. Nasço operário, francês, sifilítico, hereditário ou tuberculoso. (...) Bem mais do que parece”

fazer-se “, o homem parece” ser feito “pelo clima, a terra; a raça; a língua; a história da coletividade da qual participa; a hereditariedade, as circunstâncias individuais de sua infância, os hábitos adquiridos, os grandes e pequenos acontecimentos de sua vida”.34

Em O Ser e o Nada, Sartre faz algumas relações entre liberdade e facticidade e nos deixa claro que o compromisso é uma espécie de noção mediadora entre esses dois conceitos. Mas tudo depende da conduta que cada um assume em relação a cada elemento da facticidade. Dessa forma, Sartre reafirma a contingência do mundo histórico: ninguém está predeterminado a

33 Facticidade – Termo introduzido por Fitche para designar o caráter contingente do que é e impossibilidade em que estamos de justificar por intermédio de uma dedução racional a realidade do mundo. Fenomenologia contemporânea retomou o termo – principalmente Heidegger e Sartre – para exprimir a idéia de que nossa existência é um fato decerto constatável, as sem fundamento, sem razão e até, a princípio, absurda. A partir disso, Sartre chega à conclusão de que o homem, desvinculado de qualquer obediência a uma necessidade que organizaria sua vida, é soberanamente livre.

34 SARTRE, J.P. O ser e o nada. Rio de Janeiro: Petrópolis, Vozes, 1997, p.130.

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qualquer coisa, por mais fortes que sejam os fatos que compõem uma situação.

Cada indivíduo é sujeito de sua história. Neste momento, faz-se importante lembrar ainda, que a noção de facticidade leva-nos ao engajamento ou ao compromisso. Franklin L.e Silva nos explica melhor essa afirmação, quando menciona que:

Diríamos que, primeiramente, não se trata tanto de assumir um compromisso quanto de reconhecer que estamos irremediavelmente comprometidos. (...) Como nascemos sempre num dado contexto real e concreto, já estamos, somente por isso, comprometidos com ele, isto é, com o mundo no qual temos de viver. Ainda que venha optar pelo quietismo e pela indiferença, tais atitudes não deixam de representar a maneira pela qual respondo às solicitações do meu mundo, da minha época, da minha classe, e, portanto, a forma como me comprometo com os problemas do meu tempo”.35

O exercício da liberdade se dá no denso universo de possibilidades que formam a teia complexa de tudo aquilo que devo afirmar ou negar, aceitar ou recusar, superar ou evitar, transpor ou contornar. Nesta sucessão de atos concretos, cada um se faz Ser.

Para Sartre a existência precede a essência, mas esse fato aplica-se somente ao homem, pois só ele é livre, o que significa que ao contrário de outros seres, o homem não é predeterminado.Ou seja: o homem é compreendido como ser-no-mundo e possui consciência sobre todos os seus atos. Essa consciência, em determinado sentido vive voltada para si própria, o que Sartre denomina “para- si”. A consciência é para-si, porque aparece a si mesma e só existe na medida em que aparece. Então, podemos dizer que a consciência permanece presa a si mesma sem conseguir-se abandonar-se.

35 SILVA, F.L.S. Liberdade e Compromisso. In: Revista Cult, n. 91, Abril/2005. pp. 50-51.

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