Hoc facit, ut longos durent bene gesta per annos.
Et possint sera posteritate frui.
Federal: Decreto nº 61.251, de 30 de agosto de 1967 Av. Augusto Severo, 8, Rio de Janeiro, CEP 20021-040
Fundado em 21-10-1838, em plena Regência, por 27 sócios da prestigiosa Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, o IHGB originou-se de proposta anterior do marechal de campo Cunha Matos e do cônego Januário da Cunha Barbosa. Pedro II logo o tomou sob seus auspícios.
Os objetivos estatutários eram, entre outros: coligir, metodizar, publicar ou arquivar documentos, promover cursos e editar a Revista Trimestral de História e Geografia ou o Jornal do IHGB.
O Arquivo é hoje um dos melhores do Brasil, graças a sucessivas doações de papéis de estadistas e historiadores, como José Bonifácio, o marquês de Olinda, Varnhagen, Cotegipe, o conde d´Eu, o visconde de Ouro Preto, Prudente de Morais, Rodrigues Alves, Epitácio Pessoa, Manuel Barata, Wanderley Pinho, Hélio Viana e Jackson de Figueiredo, entre outros.
A Biblioteca, por compra, doações e permutas, ultrapassa de 500 mil volumes, de grande interesse para os estudos brasileiros.
A Mapoteca dispõe de cerca de 12 mil cartas geográficas, referentes, sobretudo, ao território brasileiro.
O Museu, criado em 1851 para guardar a memória de varões ilustres em máscaras mortuárias, retratos e lembranças pessoais, exibe hoje peças, como a espada de campanha de Duque de Caxias (modelo dos espadins dos cadetes do nosso Exército) ou a cadeira em que Pedro II, durante 40 anos, presidiu a 508 sessões do Instituto.
A Pinacoteca é rica, abrangendo desde a imensa tela da Coroação de Pedro II, de autoria do sócio Araújo Porto-Alegre, até a impressionante galeria de retratos (e bustos) de monarcas, nobres e personalidades da Colônia à República.
Os sócios, eméritos, titulares, honorários e correspondentes, no país e no estrangeiro, são eleitos vitaliciamente. O corpo social promove conferências, congressos e cursos, anunciados com antecedência, e realiza reuniões acadêmicas, de março a dezembro, todas as quartas- -feiras. As atas são publicadas pela Revista no último número do ano.
jan./abr.
2020
1º Vice-Presidente: Jaime Antunes da Silva 2º Vice-Presidente: Affonso Arinos de Melo Franco 3º Vice-Presidente: João Maurício de Araújo Pinho 1º Secretária: Lucia Maria Paschoal Guimarães
2º Secretária: Maria de Lourdes Viana Lyra
Tesoureiro: Fernando Tasso Fragoso Pires
Orador: Alberto da Costa e Silva
GEOGRAFIA:
Armando de Senna Bittencourt Cybelle Moreira de Ipanema José Almino de Alencar Miridan Britto Falci
Vera Lúcia Cabana de Andrade
HISTÓRIA:
Eduardo Silva
Guilherme de Andrea Frota Lucia Maria Paschoal Guimarães Marcos Guimarães Sanches Maria de Lourdes Vianna Lyra
PATRIMÔNIO:
Afonso Celso Villela de Carvalho Antonio Izaías da Costa Abreu Claudio Moreira Bento Fernando Tasso Fragoso Pires Roberto Cavalcanti de Albu- querque
ADMISSÃO DE SÓCIOS:
Alberto da Costa e Silva Alberto Venancio Filho Carlos Wehrs
Fernando Tasso Fragoso Pires Lucia Maria Paschoal Guimarães
CIÊNCIAS SOCIAIS:
Antônio Celso Alves Pereira Cândido Mendes de Almeida José Murilo de Carvalho Maria Cecília Londres
Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão
ESTATUTO:
Alberto Venancio Filho Antonio Celso Alves Pereira Célio Borja
João Maurício A. Pinho Victorino Chermont de Miranda COMISSÕES PERMANENTES
CONSELHO CONSULTIVO
Membros nomeados: Antonio Izaias da Costa Abreu, Armando de Senna Bittencourt, Carlos Wehrs, Célio Borja, Cybelle Moreira de Ipanema, Esther Caldas Bertoletti, Maurício Vicente Ferrei- ra Júnior e Miridan Britto Falci.
CONSELHO FISCAL
Membros efetivos: Alberto Venâncio Filho, Luiz Felipe de Seixas Corrêa e Ma- rilda Correia Ciribelli
Membros suplentes: Marcos Guimarães Sanches, Pedro Carlos da Silva Telles e Roberto Cavalcanti de Albuquerque
DIRETORIAS ADJUNTAS
Arquivo: Jaime Antunes da Silva
Biblioteca: Claudio Aguiar
Cursos: Antonio Celso Alves Pereira
Iconografia: Pedro K. Vasquez
Informática e Dissem. da Informação: Carlos Eduardo de Almeida Barata
Museu: Vera Lucia Bottrel Tostes
Patrimônio: Guilherme de Andrea Frota
Projetos Especiais: Mary del Priore
Relações Externas: Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão Relações Institucionais: João Mauricio de A. Pinho
Coordenação da CEPHAS: Maria de Lourdes Viana Lyra e Lucia Maria Paschoal Gui- marães (subcoord.)
Editor do Noticiário: Victorino Chermont de Miranda
INSTITUTO HISTÓRICO DO GEOGRÁFICO BRASILEIRO E
Hoc facit, ut longos durent bene gesta per annos.
Et possint sera posteritate frui.
R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 181, n. 482, pp. 11-392, jan./abr. 2020.
Indexada por/Indexed by
Ulrich’s International Periodicals Directory – Handbook of Latin American Studies (HLAS) – Sumários Correntes Brasileiros – Google Acadêmico - EBSCO
Correspondência:
Rev. IHGB – Av. Augusto Severo, 8-10º andar – Glória – CEP: 20021-040 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Fone/fax. (21) 2509-5107 / 2252-4430 / 2224-7338
e-mail: [email protected] home page: www.ihgb.org.br
© Copyright by IHGB Tiragem: 300 exemplares
Impresso no Brasil – Printed in Brazil Revisora: Talita Rosetti Souza Mendes Secretária da Revista: Tupiara Machareth
Ficha catalográfica preparada pela bibliotecária Maura Macedo Corrêa e Castro – CRB7-1142 Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. - Tomo 1, n. 1 (1839) -
Rio de Janeiro: O Instituto, 1839- v. : il. ; 23 cm
Quadrimestral ISSN 0101-4366
Ind.: T. 1 (1839) – n. 399 (1998) em ano 159, n. 400. – Ind.: n. 401 (1998) – 449 (2010) em n. 450 (2011)
1. Brasil – História. 2. História. 3. Geografia. I. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Carlos Wehrs – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil José Murilo de Carvalho – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Manuela Mendonça – Universidade de Lisboa – Lisboa – Portugal
Maria Beatriz Nizza da Silva – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil
COMISSÃO DA REVISTA: EDITORES
Eduardo Silva – Fundação Casa de Rui Barbosa – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Esther Caldas Bertoletti – Ministério da Cultura – Rio de Janeiro-RJ – Brasil
Lucia Maria Bastos Pereira das Neves – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ-Brasil Maria de Lourdes Viana Lyra – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Mary del Priore – Universidade Salgado de Oliveira – Niterói-RJ – Brasil
CONSELHO CONSULTIVO
Fernando Camargo – Universidade Federal de Pelotas – Pelotas-RS – Brasil Geraldo Mártires Coelho – Universidade Federal do Pará – Belém-PA – Brasil Guilherme Pereira das Neves – Universidade Federal Fluminense – Niterói-RJ – Brasil José Marques – Universidade do Porto – Porto – Portugal
Junia Ferreira Furtado – Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte-MG – Brasil Leslie Bethell – Universidade de Oxford – Oxford – Inglaterra
Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos – Ministério das Relações Exteriores – Brasília-DF – Brasília Marcus Joaquim Maciel de Carvalho – Universidade Federal de Pernambuco – Recife-PE – Brasil Maria de Fátima Sá e Mello Ferreira – ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa – Lisboa – Portugal Mariano Cuesta Domingo – Universidad Complutense de Madrid – Madrid – Espanha
Miridan Britto Falci – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro-RJ – Brasil Nestor Goulart Reis Filho – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil Renato Pinto Venâncio – Universidade Federal de Ouro Preto – Ouro Preto-MG – Brasil Stuart Schwartz – Universidade de Yale-Connecticut – EUA
Ulpiano Bezerra de Meneses – Universidade de São Paulo – São Paulo-SP – Brasil Victor Tau Anzoategui – Universidade de Buenos Aires – Buenos Aires – Argentina
I – ARTIGOS E ENSAIOS ARTICLES AND ESSAYS
O cônego José Ferreira de Matos contra os frades 13 franciscanos: disputas pela direção da Ordem Terceira
de São Francisco (Bahia, c. 1744-1748)
Canon José Ferreira de Matos versus the Franciscan Friars:
Disputes for the Management of the Third Order of St. Francis (Bahia, c. 1744-1748)
William de Souza Martins
Ficção Imperial e a invenção de sertões “descobertos” 43 no governo do Morgado de Mateus (1768-1770)
Imperial fiction and the fictive creation of “discovered”
hinterlands in the government of Morgado de Mateus (1768-1770) Denise A. S. de Moura
A retórica antiliberal durante a Guerra de Independência 77 da Espanha: análise de dois periódicos servis
e sua linguagem política
Antiliberal rhetoric during the Peninsular War:
analysis of two servile journals and their political language Bruno Santos Sobrinho
El destino de los viajeros por el Alto Rio Negro-Vaupés 99 y de sus colecciones etnográficas, 1783-1905
The destination of travelers in the Upper Rio Negro-Vaupés and their ethnographic collections, 1783-1905
Gabriel Cabrera Becerra
O “Areópago Brasileiro”: O Instituto Politécnico Brasileiro 129 e a formação do campo da Engenharia Civil
The “Brazilian Aeropagus”: the Brazilian Polytechnic Institute and the Development of the Engineering Field Pedro Eduardo Mesquita de Monteiro Marinho
A Return Journey outlining paths: Alfredo Taunay’s entry into the IHGB
Wilma Peres Costa
Festa na Província do Piauí: o retorno do 203 corpo de Voluntários da Pátria da Guerra do Paraguai em 1870 Celebrations in the Province of Piauí: the return
of the Brazilian Volunteer corps from the Paraguay war in 1870 Johny Santana de Araújo
Estado confessional com liberdade religiosa: 227 crença e culto na Constituição do Império Brasileiro
Confessional State with religious freedom: belief and worship in the Constitution of the Brazilian Empire Daniel Machado Gomes
Repensando a Política Externa para a África no II Reinado 257 Rethinking Foreign Policy for Africa in the Second Reign
Frederico Antonio Ferreira
Caminhando em direção a um Direito Natural Ontológico 291 Towards a Natural Ontological Right
Cleyson de Moraes Mello
Do Paço ao Pão de Açúcar: A Exposição Comemorativa 319 do Centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas
no Rio de Janeiro, em 1908
From the Paço to the Sugar Loaf: The National Exposition in Rio de Janeiro in 1908 in Celebration of the Centenary of the Opening of Brazilian Ports to Friendly Nations Maria Letícia Corrêa
Mônica de Souza Nunes Martins
Memória sobre a Província do Espírito Santo às Cortes de Lisboa (1821)
We needless remind the Honorable Deputy:
Memoirs on the restoration of the Province of Espírito Sancto to the Lisbon Courts (1821)
Adriana Pereira Campos Kátia Sausen da Motta
Evolução, regulação e norma: o sexto discurso histórico 361 da farmácia brasileira no Segundo Reinado
Evolution, regulation and norm: the sixth historical speech of the brazilian pharmacy in the Second Reign Amanda Peruchi
III – RESENHAS REVIEW ESSAYS
José Bonifácio de Andrada e Silva:
a trajetória de um homem de carne e osso que ajuda
a compreender a História do Brasil 379
Alex Gonçalves Varela
• Normas de publicação 387
Guide for the authors 389
situação inédita, inimaginável, que faz com que o pensamento evoque pragas e pestes dos tempos medievais e modernos, surtos de febre ama- rela do Império ou a gripe espanhola de 1918. No mundo globalizado e de tecnologia digital, parecia difícil conceber algo como o confinamento social e, apesar das ameaças ao meio ambiente natural, um cenário tão devastador como o atual. Nessas ocasiões, uma pergunta sempre recor- rente adquire novas dimensões: qual o papel das Ciências Humanas e, especialmente, o da História nos dias de hoje?
Certamente não é o de aprender com o passado para assegurar um presente melhor. A História magistra vitae encontra-se há muito supera- da. No entanto, o acúmulo de experiências que vivemos desvenda novos horizontes de expectativas. O que será o depois? O novo normal? Ou fi- cará tudo como dantes? Como próprio à sua atividade, cabe à consciência histórica levar adiante a reflexão sobre o mundo que perdemos (e será que realmente o perdemos?) e a indagação de qual o novo mundo que desejamos no futuro.
Na esteira da crise do Instituto a partir de 2016, a R.IHGB tornou-se agora ainda mais vulnerável aos efeitos da pandemia. Assim, não foram poucas as dificuldades financeiras e pessoais para compor este número.
Elas explicam o pequeno atraso com que aparece. Não obstante, aqui está mais uma edição, cujos artigos instigantes procuram renovar uma tradi- ção de 190 anos, em busca de maior internacionalização e da abertura na direção de outros olhares, com temas que lidam com o tempo presente e com áreas próximas, como o Direito e a Filosofia. Ou seja, o número 482 também quis chegar com bagagem de peso, a fim de propiciar uma refle- xão capaz de contribuir, direta ou indiretamente, para o conhecimento da História do Brasil e sua relação com o mundo em que se insere.
Seguindo a estrutura da R.IHGB, constam deste número onze textos inéditos, duas transcrições de documentos e uma resenha, distribuídos
de “Comunicações” – em que se divulgam trabalhos expostos nas sessões da CEPHAS/IHGB –, deixa de trazer qualquer contribuição.
A seção “Artigos e Ensaios” inicia-se pelo século XVIII com dispu- tas entre clérigos da Ordem Terceira de São Francisco da Bahia e com a transformação de terras consideradas como “incógnitas” em sertões “des- cobertos” na América Portuguesa. Em seguida, passa-se ao oitocentos, o da retórica antiliberal nas guerras de independência hispânicas; o do Alto Rio-Negro, de seus viajantes e suas coleções etnográficas; o de algumas instituições e seus participantes – o Instituto Politécnico Brasileiro e o ingresso de Alfredo Taunay no IHGB; o das festas no Piauí pelo regresso dos combatentes da Guerra do Paraguai; o dos conflitos sobre culto e religião na Constituição do Império do Brasil; e o da política externa do II Reinado para África. Em seguida, de um ponto de vista filosófico, trata- -se do direito natural ontológico, e, para fechar o conjunto, examina-se a ideia de progresso nas exposições universais, em especial naquela que celebrou o Centenário da Abertura dos Portos em 1908.
Na seção “Documentos”, duas contribuições: a transcrição comen- tada de uma Memória sobre a Província do Espírito Santo às Cortes de Lisboa (1821) e um discurso inédito a respeito da farmácia brasileira no Segundo Reinado (1852).
Ao final, a resenha debruça-se sobre a biografia de personagem des- tacado – José Bonifácio de Andrada e Silva.
Saúde para todos e façam bom uso da leitura!
Lucia Maria Bastos P. Neves
Diretora da Revista
I – ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYSO CÔNEGO JOSÉ FERREIRA DE MATOS CONTRA OS FRADES FRANCISCANOS: DISPUTAS PELA DIREÇÃO
DA ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO (BAHIA, C. 1744-1748)
CANON JOSÉ FERREIRA DE MATOS VERSUS THE FRANCISCAN FRIARS: DISPUTES FOR THE MANAGEMENT OF THE THIRD ORDER OF ST. FRANCIS (BAHIA, C. 1744-1748) William de Souza Martins1
1 – Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. E-mail:
Resumo:
A partir de um amplo levantamento sobre a presença de sacerdotes seculares nas mesas administrativas de diferentes associações da Ordem Terceira de São Francisco, fundadas na América Portuguesa e no Reino de Portugal, o artigo pretende compreender os conflitos que opuseram o cônego José Ferreira de Mattos aos frades franciscanos da província da Bahia, à qual a Ordem Terceira da referida cidade se encontrava subordinada. O conflito envolveu a realização de obras na capela da Ordem Tercei- ra, particularmente a construção de torres de si- nos, dispensando-a de utilizar o campanário do Convento, além da celebração de atos litúrgicos na capela da Ordem e na igreja conventual. Os atritos entre a Ordem Terceira e os religiosos franciscanos da Bahia foram também motiva- dos por distintos ordenamentos jurídicos que cada ramo da família franciscana considerava adequado para o governo da Ordem Terceira.
O artigo trata sistematicamente da participação do clero secular em associações destinadas, em princípio, a agregar fiéis leigos, tema muito pou- co explorado pela historiografia.
Abstract:
Based on a broad analysis about the presence of secular priests on the management boards of different associations which were founded in Portuguese America and the Kingdom of Portugal by the Third Order of Saint Francis, we aim to understand the conflicts between Canon José Ferreira de Mattos and the Franciscan friars in the province of Bahia, to which the Third Order of that city was subordinated.
The conflicts involved construction works in the chapel of the Third Order, particularly the construction of bell towers, thereby rendering it unnecessary to use the convent bell tower or to celebrate liturgical acts in the chapel of the Order and in the convent church. The frictions between the Third Order and the Franciscan religious in Bahia were also triggered by different legal orders that each branch of the Franciscan family considered appropriate for the government of the Third Order. The article systematically deals with the participation of the secular clergy in associations meant, basically, to aggregate lay faithful, a topic that has been little or hardly explored by historiography.
Palavras-chave: Ordem Terceira de São Fran- cisco; Clero secular; Ordens religiosas; Francis- canos na Bahia.
Keywords: Third Order of St. Francis; secular clergy; religious orders; Franciscans in Bahia.
Diferentemente das simples irmandades, sujeitas à jurisdição epis- copal e paroquial, as ordens terceiras estavam subordinadas no espiritual à direção dos religiosos das ordens mendicantes2. A referida jurisdição era ordinária, estabelecida por diversas bulas apostólicas. Segundo um importante compêndio, publicado proximamente ao contexto analisado, os prelados das ordens regulares tinham “uma espécie de superioridade, autoridade e supereminência ou jurisdição facultativa ou diretiva sobre os Terceiros seculares”. Tocavam, assim, aos prelados regulares erigir congregações de irmãos terceiros; lançar o hábito e conceder profissão a estes; visitar e corrigir espiritualmente; fazer estatutos e explicações das regras; derrogar estatutos “com o tempo inúteis ou prejudiciais”3. Os prelados gerais ou provinciais delegavam a jurisdição ordinária sobre as ordens terceiras a comissários visitadores, um religioso regular que era nomeado em comum acordo com os irmãos terceiros. Segundo o frei Jerônimo de Belém, a autoridade dos prelados regulares ou dos comissá- rios não era “coativa, como a dos Religiosos, porque os Irmãos Terceiros
2 – A primeira versão desse estudo foi apresentada no Colóquio Internacional Faces do Poder, realizado na Universidade Federal da Bahia entre os dias 2 e 3 de maio de 2019.
Agradeço a Evergton Sales Souza pelo convite para participar do referido evento e pelos comentários feitos após a apresentação. Agradeço também à Laura de Mello e Souza e a Rodrigo Bentes Monteiro pelos comentários feitos na ocasião. O presente texto constitui a parte final de uma trilogia de estudos em que se pretendeu examinar as mais importan- tes associações de irmãos terceiros fundadas na cidade da Bahia – a Ordem Terceira de São Francisco, a Ordem Terceira do Carmo e a Ordem Terceira de São Domingos – à luz da documentação do Conselho Ultramarino. Ainda que a natureza da documentação conduza o olhar do historiador para os conflitos de jurisdição, pois os litigantes apelavam sempre em última instância à Coroa, detentora dos direitos de padroado nas possessões ultramarinas, as fontes também abrem espaço para o exame de outras questões da vida associativa, como: o perfil dos membros que dirigiam as ordens terceiras, a realização de rituais religiosos, etc. Ver MARTINS, William de Souza. O deão Antônio Rodrigues Lima e os conflitos entre a Ordem Terceira e os religiosos do Carmo da Bahia (c. 1735-1748).
In: MARTINS, William S. (Org.). Ordens terceiras no mundo luso-brasileiro (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: Gramma, 2019, p. 119-150; MARTINS, William de Souza.
Em busca de um lugar de distinção: a Ordem Terceira de São Domingos na Bahia colonial (1723-c. 1800). In: ARAÚJO, Maria Marta Lobo de (Coord.). As ordens terceiras no mundo ibérico da Idade Moderna. Braga: Santa Casa da Misericórdia de Braga, 2019, p.
141-170.
3 – FERREIRA, Pe. Manoel de Oliveira. Compêndio geral da História da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco [...]. Porto: Na Officina Episcopal do Capitão Manoel Pedroso Coimbra. Com todas as licenças necessárias. Anno de 1752, p. 39-40.
não fazem rigoroso voto de obediência, mas é uma Jurisdição Paterna e caritativa, com que os Irmãos Terceiros [...] devem conformar-se”4. Além da autoridade espiritual do comissário, as ordens terceiras eram dirigidas no temporal por mesas administrativas. Segundo o mesmo autor, o minis- tro era também “prelado e cabeça, a quem todos, depois do Comissário, devem obedecer”. Para evitar desordens entre o comissário e o ministro, este último “será sujeito dos principais da Ordem”5.
O conflito que será examinado constitui um exercício para se pensar a respeito da projeção do clero secular sobre associações religiosas funda- das sob a órbita de influência de ordens regulares. Para se medir o referido processo, será adotada como índice a presença de sacerdotes no cargo de ministro, o mais elevado da associação de irmãos terceiros franciscanos.
Ainda que fossem destinadas aos fiéis de ambos os sexos e de diferentes ocupações, as ordens terceiras atraíram também sacerdotes seculares, que se beneficiavam com numerosos atrativos espirituais e com isenções fa- cultados às ordens terceiras. Com relação aos que ocupavam o lugar de ministro, particularmente no século XVII, havia recomendações para que o posto em questão fosse preenchido por um membro do clero secular.
As ordenações da Ordem Terceira, elaboradas em 1616, em Madrid, pelo vigário geral da Ordem de São Francisco, frei Antonio de Trejo, estipula- vam que “o ofício de ministro e os demais ofícios podem tê-los pessoas seculares: mas sempre se há de procurar que o ministro seja sacerdote professo e pessoa grave”6. Em substituição a tal legislação, fr. Luís de São Francisco elaborou novos estatutos gerais, válidos para todos os reinos e todos os senhorios da Coroa portuguesa. Os estatutos reformados foram aprovados, em 1675, pelo ministro geral da Ordem de São Francisco, frei
4 – BELÉM, Fr. Jeronimo de. Palestra da penitência sendo corifeu, autor e Mestre o milagroso Deus Menino. E seu legítimo Substituto o Patriarca dos Pobres, o grande Pe- queno S. Francisco de Assis. Para exercício dos Alunos da Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Xabregas e de todas as mais da província dos Algarves [...]. Lisboa Ocidental: Na Officina de Antonio Isidoro da Fonseca. Ano de 1736, p. 349.
5 – Ibid., p. 353.
6 – OLIVETI, Fr. Manoel do Monte, OFM. Regra dos irmãos terceiros da Santa e Vene- rável Ordem Terceira da Penitência, que instituiu o Seraphico P. S. Francisco e decisões e resoluções de algumas dúvidas sobre o estado da mesma Ordem Terceira [...]. Em Lisboa:
Na Officina de Ioam da Costa, 1669, p. 53.
Francisco Maria de Bononia. A nova legislação continuava a expressar certa preferência pelos membros do clero secular para a ocupação do lu- gar de ministro:
Este ofício de Ministro poderá tê-lo pessoas seculares e dos mais gra- ves da Ordem: porém, encomendamos muito a todos os irmãos Mi- nistros e Comissários que sempre procurem muito que seja sacerdote e exemplar, enquanto for possível; porque muito diferente respeito se tem a um Sacerdote, do que a um secular”7.
Durante o século XVII, a presença de membros do clero secular nas associações de terceiros franciscanos fundadas no Rio de Janeiro e na Bahia foi mais expressiva do que a observada no século seguinte, o que constitui, talvez, uma adequação às diretrizes estabelecidas nos estatu- tos gerais. Desde 1622, seis sacerdotes ocuparam o ofício de ministro na Ordem Terceira do Rio de Janeiro. Entre estes, o padre Antônio da Rocha Freire se manteve à frente da associação durante quatro anos (1665, 1674- 1676), e dois outros sacerdotes foram ministros durante um biênio8. Na Bahia, por sua vez, desde 1636, foram ao todo oito sacerdotes e, entre estes, um foi reeleito para o lugar de ministro9. Infelizmente, a falta de acesso aos registros de entradas de irmãos na Ordem fluminense durante o século XVII – cujos assentos possibilitaram, para o século XVIII, uma análise mais sistemática das ocupações exercidas pelos membros – limi- tam as conclusões da análise. A impossibilidade de consultar, para a ela- boração do presente estudo, os registros equivalentes da Ordem Terceira de São Francisco da Bahia também dificulta a composição do quadro ocu- pacional da referida associação no Seiscentos.
7 – SÃO FRANCISCO, Fr. Luís de, OFM. Livro em que se contém tudo o que toca à Origem, Regra, Estatutos, Ceremônias, Privilégios, e Progressos da Sagrada Ordem Ter- ceira da Penitência de N. Seraphico P. S. Francisco [...]. Lisboa: Na Officina de Miguel Deslandes, 1684, p. 563.
8 – PORTO, Joaquim Augusto da Cunha Porto. Resumo histórico relativo ao patrimônio da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro, seguido do tombo geral da Ordem. Rio de Janeiro: Typ. De A. Guimarães & Cia., 1881, p. I-VI.
9 – GARCEZ, Angelina. Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Bahia. Salvador:
EDUFBA, 2007, p. 141-150.
Na Bahia, durante o século XVIII, cotejando-se a composição da Ordem Terceira de São Francisco com a do Carmo, a presença de clé- rigos seculares à frente do principal cargo foi muito menos expressiva.
Dois cônegos da Sé soteropolitana se perpetuaram em longos priorados à testa da associação carmelita: os sacerdotes João Calmon (1709-1710 e 1713-1721) e Antônio Rodrigues Lima (1735-1742). No mesmo perí- odo, somente o cônego José Ferreira de Matos, o pivô do conflito que será mais adiante examinado, manteve-se por mais de um ano à frente da mesa administrativa da Ordem Terceira de São Francisco, entre 1742- 1744. Além deste, o vigário Gonçalo de Souza (1760) e o padre Antônio do Val Rodrigues (1771) foram os únicos sacerdotes que ocuparam as funções de ministro da Ordem10.
Ainda que incipiente, a historiografia acerca das associações de ir- mãos terceiros franciscanos fundadas em Portugal e em domínios ultra- marinos oferece algumas informações que, quando cotejadas com as da Bahia, permitem compreender certas peculiaridades, e ajudam a revelar a dimensão que assumiu a presença de sacerdotes seculares na admi- nistração temporal das ordens terceiras. No Rio de Janeiro, ao longo do século XVIII, somente quatro sacerdotes ocuparam o lugar de ministro da Ordem Terceira de São Francisco fundada na referida cidade, e todos eles exerceram seus mandatos até 172511. Deste período em diante, e em caráter mais acentuado na segunda metade de Setecentos, parte expres- siva dos ministros da associação em pauta era constituída por abastados negociantes, assunto que foi exaustivamente tratado em outra ocasião12. Para as cidades da Bahia e do Rio de Janeiro, que estavam plenamente inseridas nos circuitos atlânticos de comércio, abastados comerciantes foram atraídos a ocupar o lugar de ministro das associações de terceiros
10 – GARCEZ, Angelina, op. cit., p. 141-150. JABOATÃO, Fr. Antônio de Santa Ma- ria, OFM. Novo Orbe serafico, ou Crônica dos frades menores da Província do Brasil.
Impressa por ordem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Tip.
Brasileira de Máximo Gomes Ribeiro, 1859, parte II (inédita), v. 1, p. 309-313.
11 – PORTO, Joaquim Augusto da Cunha Porto, op. cit., p. I-VI.
12 – MARTINS, William de Souza. Membros do corpo místico: ordens terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700-1822). São Paulo: Edusp, 2009, p. 347-369.
franciscanos13. Ainda que as duas cidades abrigassem as sedes do poder episcopal e, igualmente, os cabidos diocesanos, os sacerdotes seculares tiveram um peso comparativamente reduzido, quer em relação ao século anterior, quer em comparação a outras localidades situadas na América Portuguesa e no Reino de Portugal.
No que tange à Vila e, a partir de 1711, cidade de São Paulo de Piratininga, pesquisas também revelaram a ocupação majoritária do cargo de ministro da Ordem Terceira local pelo segmento mercantil14. No século XVIII, o segundo grupo profissional em importância à frente do lugar de ministro da Ordem consistia no clero secular, cujos mandatos ocorreram por dezessete vezes, e que se concentraram particularmente na segunda metade do século XVIII, um padrão superior e distinto daquele apurado no Rio de Janeiro e na cidade da Bahia15. É interessante notar que, em São Paulo, a ampliação da presença de membros do clero secular à frente da Ordem Terceira de São Francisco local acompanha as primeiras décadas de funcionamento da diocese e do cabido, instituídos respectivamente em 1745 e em 174616. Dentre os eclesiásticos que ocuparam as funções de ministro da Ordem paulista, três pertenciam ao cabido da diocese17.
13 – SOUSA, Avanete Pereira. A centralidade/capitalidade econômica de Salvador no século XVIII. In: SOUZA, Evergton Sales; MARQUES, Guida; e SILVA, Hugo R.
(Org.). Salvador da Bahia: retratos de uma cidade atlântica. Salvador: EDUFBA; Lisboa:
CHAM, 2016, p. 99-125. FRAGOSO, João; GUEDES, Roberto. Notas sobre transfor- mações e a consolidação do sistema econômico do Atlântico luso no século XVIII. In:
FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (Org.). O Brasil colonial, 1720-1821. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014, p. 9-57.
14 – MORAES, Juliana de Mello. Viver em penitência: os irmãos terceiros franciscanos e suas associações, Braga e São Paulo (1672-1822). Tese de Doutoramento em História, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, 2009, p. 416-423. BORREGO, Ma- ria Aparecida. A teia mercantil: negócios e poderes em São Paulo colonial (1711-1765).
São Paulo: Alameda, 2010, p. 166-173.
15 – ORTMANN, Fr. Adalberto, OFM. História da antiga capela da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco em São Paulo. Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1951, p. 425-435.
16 – ZANON, Dalila. Bispos de São Paulo: as diretrizes da igreja no século XVIII. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2012, p. 71-80.
17 – ORTMANN, Fr. Adalberto, op. cit., p. 432-3.
Na capitania das Minas, duas associações de irmãos terceiros fun- dadas em meados do século XVIII oferecem perfis divergentes quanto à questão aqui examinada. Na Ordem Terceira de São Francisco de Vila Rica, instituída em 1746, os ministros oriundos do clero secular consti- tuíam uma pequena minoria na segunda metade do século XVIII, fican- do muito atrás dos irmãos que se dedicavam às ocupações mercantis e à mineração18. No que diz respeito à Ordem Terceira de São Francisco de Mariana, 30% dos irmãos que ocupavam as funções de ministro da asso- ciação, entre 1758 e 1808, provinha do clero secular19. Provavelmente, a existência de padrões tão distintos, em localidades situadas a distância relativamente pequena dentro da Capitania das Minas, deva-se à concen- tração da estrutura eclesiástica do bispado na cidade de Mariana, com a fundação da diocese e do cabido, respectivamente em 1745 e em 174820. Convém salientar que, por conta da proibição da entrada de ordens regu- lares na Capitania das Minas, os sacerdotes seculares ocupavam também a função de comissário nas ordens terceiras.
Na Vila de Recife, não foi muito significativa a presença do clero secular à frente da Ordem Terceira de São Francisco. Instituída em 1695, durante o século XVIII, somente cinco eclesiásticos ocuparam o cargo mais elevado de ministro no âmbito da referida associação21. Pesquisas mostram como a Ordem Terceira de São Francisco do Recife constituiu, em princípios do século XVIII, um veículo de legitimação para a ascensão social do segmento mercantil, em suas disputas com a nobreza da terra
18 – SOUSA, Cristiano Oliveira de. Prestígio, poder e hierarquia: a “elite dirigente” da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Vila Rica (1751-1804). Tese de Doutorado em História, Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal de Juiz de Fora, 2015, p. 196-199.
19 – BARBOSA, Gustavo Henrique. Poderes locais, devoção e hierarquias sociais: a Ordem Terceira de São Francisco de Mariana no século XVIII. Tese de Doutorado em História, Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal de Minas Gerais, 2015, p. 180.
20 – RUBERT, Arlindo. A Igreja no Brasil: expansão territorial e absolutismo estatal (1700-1822). Santa Maria: Pallotti, 1988, p. 150-151.
21 – PIO, Fernando. A Ordem Terceira de São Francisco do Recife e suas igrejas. 5 ed.
UFPE, 1975, p. 124-127.
local22. No âmbito do referido grupo, sobre o qual se projetava o descré- dito associado às ocupações mecânicas, destacou-se Antônio Fernandes de Matos, falecido em 1701, quando ocupava pela quarta vez o cargo de ministro da associação23.
Em síntese, no que tange às associações de irmãos terceiros fundadas na Colônia, as informações apontam para a predominância do segmento mercantil e, em segundo lugar, para a participação minoritária do clero secular na composição do cargo máximo de ministro das ditas associa- ções franciscanas. Essa percepção foi manifestada pelo procurador da Coroa, quando foi chamado a intervir sobre o conflito que opôs a Ordem Terceira aos religiosos franciscanos da Bahia:
Estas ordens Terceiras do Estado do Brasil tiveram bom princípio, mas degeneraram muito; enquanto as ordens foram pobres, serviam nelas os Irmãos por devoção, agora que são ricas, servem por interes- se; e esta da Bahia tem tido tais e quais Irmãos, que a têm extinto e consumido o seu patrimônio, que era grande, porque as esmolas foram ao princípio muitas.
Hoje, os homens principais daquela Cidade, que serviam de Ministros e da Mesa, se têm retirado; porque os clérigos e os homens de segunda condição se fizeram senhores absolutos dos bens da Ordem24.
Preconceito semelhante foi expresso um pouco depois pelo chance- ler da Relação da Bahia, o desembargador Francisco de Campos Limpo, em uma informação enviada ao Conselho Ultramarino: “tudo movido por mercadores e comissários, não se achando assinada no dilatado número de Terceiros, que tem assinado uma petição, pessoa alguma da nobreza da Cidade, mas tudo gente peã, que não passavam de negociantes”25.
22 – MARQUES, Maria Eduarda. Homens de negócio de fé e de poder político: a Ordem Terceira de São Francisco do Recife, 1695-1711. Recife: Fundação Joaquim Nabuco: Ed.
Massangana, 2014.
23 – MELLO, José Antônio Gonçalves de Mello. Um mascate e o Recife: a vida de An- tônio Fernandes de Matos no período de 1671-1701. 2 ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981, p. 90-96.
24 – AHU_ACL_CU_005, cx. 89, D. 7251. Parecer do procurador da Coroa sobre o pro- cedimento que teve o chanceler da Relação da Bahia em relação às discórdias ocorridas na Ordem Terceira de São Francisco da mesma Cidade. Lisboa, 22 de abril de 1747.
25 – AHU_ACL_CU_005, cx. 89, D. 7251.
No Reino de Portugal, alguns estudos que enfocaram a composi- ção das mesas administrativas das associações de terceiros franciscanos e, em particular, o perfil dos ocupantes do cargo máximo de ministro, revelam padrões distintos daqueles encontrados na América Portuguesa.
Tanto em Coimbra quanto em Braga, cidades que abrigavam centenárias sés episcopal e arquiepiscopal, respectivamente, era maciça a presença de eclesiásticos no grupo dirigente das ordens terceiras franciscanas. No século XVIII, mais da metade dos ministros da Ordem Terceira de São Francisco de Coimbra era composta por membros do clero. Os irmãos terceiros ministros de condição eclesiástica pertenciam a diferentes insti- tuições: professores da Universidade, sacerdotes providos em igrejas co- legiadas e, principalmente, membros do cabido diocesano. Neste último segmento, destacou-se o cônego Miguel de Souto Maior, que ocupou o cargo mais elevado da Ordem Terceira por catorze anos sucessivos (1738- 1751). Quando se acrescenta ao referido perfil a informação de que diver- sas famílias da fidalguia local se fizeram representar no lugar de ministro – diversos eclesiásticos eram também de condição nobre – chega-se à conclusão de que a associação dispunha de “uma cúpula fortemente eli- tizada onde não há espaço, à imagem do município e da Santa Casa, para gente que se dedica à atividade comercial e ao mundo dos negócios”26.
No que diz respeito à cidade de Braga, as pesquisas de Juliana de Mello Moraes identificaram 111 eleições anuais para o cargo de ministro da Ordem Terceira de São Francisco, entre 1674 e 1822. Dos ministros eleitos no período, 50% pertenciam ao segmento eclesiástico, em cujo meio aparecem com destaque os cônegos. Dentre as trajetórias de mem- bros do cabido ocupantes do cargo máximo da Ordem Terceira, merece particular menção a do cônego Francisco Pacheco Ferreira, que ocupou, por nove anos sucessivos, as funções de ministro e de vice-ministro, en- tre 1734 e 174427. Mas, à diferença do que ocorria em Coimbra, foram
26 – MOTA, Guilhermina. Os ministros da Ordem Terceira de S. Francisco de Coimbra no século XVIII: perfil social, famílias, redes de poder. Biblos. n. 1, p. 311-343, 2015. A citação encontra-se na p. 336.
27 – MORAES, Juliana de Mello, Viver em penitência, op. cit., p. 135-138.
poucos os membros das famílias da nobreza local que vieram a ocupar a função de ministro.
Ainda que seja importante mapear a atuação do clero no âmbito dos ofícios de maior prestígio da Ordem Terceira de São Francisco, por si só a presença de sacerdotes em tais funções não constituía uma ameaça à estabilidade institucional das referidas associações. Assim, os distúr- bios em que se envolveu a Ordem Terceira de São Francisco da Bahia por ocasião do ministério do cônego José Ferreira de Mattos, e que se prolongaram anos após o referido sacerdote deixar a referida função, em 1744, derivam de um contexto específico, que se espera aqui reconstituir em parte. Pelo que se apura da documentação dos fundos do Conselho Ultramarino, pode-se observar que os conflitos que opuseram os irmãos terceiros franciscanos aos religiosos do Convento de São Francisco da Bahia derivaram de três pontos básicos: as obras realizadas na capela da Ordem Terceira e, em particular, a tentativa abortada de construção de uma torre de sinos; mudanças nas cerimônias litúrgicas efetuadas pela Ordem, com assistência dos religiosos do Convento; e o afastamento da Ordem com relação ao ordenamento jurídico reconhecido pelos religio- sos franciscanos, representado pelo manual de frei Luís de São Francisco, citado no início do texto.
As obras na capela e as ameaças de desobediência
Em 1701, a Ordem Terceira franciscana estabeleceu uma concordata com os religiosos do Convento de São Francisco da Bahia. Por meio do documento, acordaram obrigações recíprocas, com vistas às obras nas dependências e na fachada da capela da associação, a partir das quais esta assumiria as características arquitetônicas que até hoje mantém. Por parte da Ordem, o protagonista principal do acordo foi o coronel Domingos Pires de Carvalho, ministro da associação entre os anos de 1701 e 170328. Negociante minhoto de grosso trato, e estabelecido na Bahia desde 1660, Pires de Carvalho ascendeu socialmente, ocupando postos na infantaria, nas ordenanças e no Senado da Câmara. Seguindo um padrão proveniente
28 – JABOATÃO, Fr. Antônio de Santa Maria, op. cit., parte II, v. 1, p. 311.
da nobreza, ampliou o patrimônio familiar a partir de casamentos estra- tégicos, unindo-se aos D’Ávila. Em 1698, vinculou os bens que totaliza- vam 120 mil cruzados em um morgado29. Tornou-se grande benfeitor da Ordem Terceira de São Francisco. Dois anos antes de falecer, em 1706, beneficiou com a renda de 2:800$000 réis a referida associação, para que esta celebrasse cotidianamente uma missa perpétua pela salvação de sua alma30.
Alguns termos celebrados na concordata de 18 de dezembro de 1701 tornam-se fundamentais para a compreensão mais ampla dos conflitos ocorridos em meados do século XVIII. Ao apresentar a planta das no- vas dependências da capela e da fachada idealizada pelo mestre Gabriel Ribeiro, os religiosos ponderaram que
A artefatura [sic] das obras, que a dita planta demonstrava e a sua dis- posição poderia pelo tempo adiante ser motivo de novidades e altera- ções que perturbassem a paz, concórdia e união que deve ter, manter e observar sempre esta nossa Congregação da Venerável Ordem Tercei- ra com este convento de N. P. S. Francisco dos Religiosos Capuchos desta cidade da Bahia [...] de quem não será nunca em nenhum tempo razão que se desanexe, pois do mesmo convento e Religiosos dele bebeu sempre a Venerável Ordem Terceira o leite da Santa doutrina e lhe foram os seus Religiosos Mestres e companheiros inseparáveis em todos os exercícios espirituais31.
Se a Ordem Terceira não cumprisse os termos do acordo ajustado, ou tentasse derrogá-lo, sem expresso acordo da província franciscana, “se obrigam eles Irmãos da Mesa que ao presente são e ao diante forem, por este termo de concordata e obrigação, a pagar de esmola pelos bens da
29 – BORGES, José Eduardo dos Santos. Viver sob as leis da nobreza: a casa dos Pires de Carvalho e Albuquerque e as estratégias de ascensão social na Bahia do século XVIII.
Tese de Doutorado em História, Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal da Bahia, 2015, p. 179-208.
30 – CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt. Mentalidade e estética na Bahia colonial:
a Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Bahia e o frontispício da sua igreja. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1996, p. 90.
31 – ALVES, Marieta. História da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Seráfi- co Padre São Francisco da Congregação da Bahia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948, p. 16. A grafia da transcrição foi atualizada, mantendo-se o uso de maiúsculas do original.
Ordem a este convento trinta mil cruzados”32. Não obstante, o minucioso pacto estabelecido por frades e por irmãos terceiros franciscanos não foi capaz de evitar depois os fortes desentendimentos entre as duas partes.
Em uma informação com data de 7 de setembro de 1744, enviada ao Conselho Ultramarino pelo chanceler do Tribunal da Relação da Bahia, o desembargador Francisco de Campos Limpo expôs detalhes que comple- tam o documento analisado acima. Em uma escritura de 30 de junho de 1701, devido à demolição do velho Convento de São Francisco, e conse- quente construção de outras dependências de culto para os religiosos, es- tes haviam doado aos irmãos terceiros um sítio denominado do jenipapei- ro, para que também pudessem edificar igreja, sacristia, consistório e casa de exercícios novos. Para tanto, assinaram ambas as partes a “cláusula de ficar a capela e mais obras debaixo da clausura e muros do Convento [...], de que se fez termo, que chamam – da Concordata – que reciprocamente assinam”33. Em 1735, os religiosos negaram uma súplica dos irmãos ter- ceiros “para levantarem torres e colocar sinos e fazerem ofícios cantados pelos irmãos defuntos”, provavelmente, levando em conta as cláusulas da concordata. Em 1736, a Ordem Terceira solicitou ao rei uma licença para fazer junto à capela da associação um hospital “onde se possam curar os irmãos pobres e desamparados por se achar com lugar suficiente e cabe- dal”. O procurador da Coroa autorizou apenas que a Ordem tivesse uma área reservada na enfermaria do hospital da cidade da Bahia para curar os irmãos pobres, “por não ser conveniente à saúde pública se multipliquem hospitais pelas cidades”34.
32 – ALVES, Marieta, op. cit., p. 17.
33 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6678. Parecer do Conselho Ultramarino sobre o requerimento do provincial da província de Santo Antônio, em que pede ordem para que qualquer ministro afaste o reverendo cônego José Ferreira e seus parciais da direção da Mesa da Ordem Terceira de São Francisco e proceda logo à nova eleição. Lisboa, 15 de fevereiro de 1745.
34 – AHU_ACL_CU_005, cx. 54, D. 4691. Consulta do Conselho Ultramarino ao rei [...] sobre o pedido do ministro e irmãos da Mesa da Venerável Ordem Terceira da Peni- tência de São Francisco da Cidade da Bahia para construírem junto a sua igreja um hospi- tal onde possam curar os irmãos pobres e desamparados. Lisboa, 20 de fevereiro de 1736.
A respeito do uso do campanário, pelo termo da mesa assinado em 11 de março de 1743, durante o ministério do cônego José Ferreira de Matos, a Ordem tentou levantar “Torre com sinos, [...], abrindo alicerces, e escalando o muro da clausura, privando juntamente os Religiosos da esmola gratuita que se dava ao Convento pela assistência que faziam os Religiosos Cantando”35. Em razão de tais conflitos, a mesa suspendeu na capela da Ordem a realização dos Passos nas sextas-feiras da Quaresma, como também as festas do Santo Nome de Jesus e de Santa Isabel. Por sua vez, na igreja do Convento, deixou de ser feita a festa das Chagas de São Francisco. Quanto às funções litúrgicas da Semana Santa, o maior atrito ocorreu quando o irmão ministro José Ferreira de Matos tentou usurpar atribuições que cabiam originalmente aos religiosos do Convento:
Pretendeu também o Ministro fazer o Lava-pés com alva e estola, e capa de asperges, a título de ser sacerdote, cônego [...] da Sé, para benzer o incenso, dar benção ao Religioso que cantasse o Evangelho, e porque o Comissário estranhou a novidade, não consentindo se fi- zesse a função por ser ato de jurisdição, e que só consentia ao Ministro da Ordem lavar os pés dos pobres e dar-lhe a sua esmola como se costumava; se não fez o lava-pés, ficando os pobres desconsolados, e escandalizados geralmente os irmãos terceiros36.
No final da informação enviada ao Conselho Ultramarino, o chan- celer da Relação da Bahia recomendava que, na próxima eleição para o lugar de ministro da Ordem, fossem afastados os irmãos da parcialidade do cônego tesoureiro-mor. E, além disso, fosse adotada uma medida pre- ventiva de maior alcance: a proibição da eleição de cônegos ou dignida- des da Sé para o cargo máximo da Ordem. Em consulta de 17 de fevereiro de 1745, o Conselho endossou as medidas previstas pelo desembargador da Bahia, justificando que “as perturbações que se experimentam nesta Ordem Terceira e na do Carmo da mesma Cidade, e as que sucederam na Ordem Terceira de São Francisco do Rio de Janeiro, todas foram fomen- tadas por dignidades e cônegos”37. Um pouco antes, em 18 de setembro
35 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6678, cit.
36 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6678, cit.
37 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6680. Consulta do Conselho Ultramarino sobre o que representa o provincial da Província de Santo Antônio do Brasil acerca das causas das
de 1744, em uma ordem passada ao vice-rei, o Conselho determinou que, para o futuro, não seriam “reeleitos os ministros da Ordem senão de- pois de passados três anos”38. As medidas propostas foram aparentemente cumpridas pela Ordem. Quando se observa a lista de irmãos ministros eleitos na Ordem Terceira franciscana, até o final do século XVIII, so- mente dois sacerdotes ocuparam o referido posto, mas não consta que fossem cônegos: o vigário Gonçalo de Souza (1760) e o padre Antônio do Val Rodrigues (1771). E, depois do cônego José Ferreira de Matos, somente um ministro foi reeleito no mesmo período, o irmão Francisco Carneiro Leão (1772 e 1776), mas com três anos de espaçamento entre o primeiro e o segundo ministérios39.
Os religiosos capuchos do Convento da Bahia atuaram em várias frentes para a defesa dos agravos cometidos pela Ordem Terceira. Entre 1743 e 1744, recorreram à Ouvidoria Geral do Cível e à Relação da Bahia, onde promoveram ações de força para que tivessem a sua jurisdição res- peitada. A justificativa buscada para tanto residia na “superioridade que tem na dita Ordem a dita Religião por seus prelados”40. Elaboradas para conter as inovações dos irmãos terceiros com relação à edificação de tor- res e de outras dependências na capela da Ordem, como também aquelas ligadas às funções de culto, as ações de força promovidas pelos religiosos obtiveram sentenças favoráveis nos dois órgãos. Além das vias judiciais ordinárias, os religiosos apelaram diretamente à soberania régia. O des- pacho do Conselho Ultramarino de 21 de agosto de 1743, poucos meses depois da Ordem ter decidido construir torres de sino para a sua capela, informou que o religioso procurador da Província de Santo Antônio da Bahia havia solicitado a demolição das novas obras. Segundo o mesmo despacho, o Conde das Galvêas, vice-rei do Estado do Brasil, encarregar- -se-ia diretamente da suspensão do uso dos sinos e das obras da torre. Em
grandes perturbações da Ordem Terceira de São Francisco da cidade da Bahia. Lisboa, 17 de fevereiro de 1745.
38 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6680, cit. Ver também JABOATÃO, Fr. Antônio de Santa Maria, op. cit., parte II, v. 1, p. 320.
39 – GARCEZ, Angelina, op. cit., p. 141-150.
40 – AHU_ACL_CU_005, cx. 81, D. 6680, cit.
uma informação dirigida ao soberano, com data de 17 de março de 1744, o Conde das Galvêas chegou à conclusão semelhante àquela encontrada pelo chanceler da Relação da Bahia:
Estas reeleições dos ofícios das Ordens Terceiras e Irmandades que há nesta Cidade lhe são sumamente prejudiciais porque com elas se destroem, e não sendo justamente [...] mais procuradas por indústria, só servem de [ileg.] parcialidades e fomentar discórdias [...] e seria um arbítrio mui conveniente evitar-se este abuso pelo meio que Vossa Majestade for servido determinar41.
Para apoiar as pretensões dos religiosos acerca da dependência da Ordem Terceira em relação ao Convento de São Francisco, frei Inácio das Neves, o procurador geral da Província de Santo Antônio, reuniu, em 1743, uma documentação que constitui uma radiografia precisa da expan- são das ordens terceiras pelo Reino de Portugal e pelos seus domínios.
Enviou cartas a diversas províncias franciscanas, para que os represen- tantes delas respondessem, por meio de certidões, se, nas ordens terceiras que administravam, as respectivas capelas apresentavam torres, “e se têm nelas sinos para tocarem todas as vezes que parecer aos ditos terceiros e se estes vivem sujeitos em tudo à obediência e ordens dos prelados”
regulares42. O secretário da Santa Província de Portugal, cuja sede estava no Convento de São Francisco da cidade de Lisboa, respondeu que, nos 28 conventos daquela Província, somente três tinham capelas contíguas aos estabelecimentos conventuais. Porém, em nenhuma das capelas, ha- via torres ou sinos. E que “todas as ordens terceiras e seus irmãos com suas capelas são sujeitos em tudo e por tudo ao Ministro provincial e aos seus Comissários”. O secretário da Província da Ordem Terceira da Penitência, cuja sede estava no Convento de Jesus em Lisboa, declarou que, naquela Província, havia várias ordens terceiras com capelas sepa- radas dos conventos, “porém nenhuma delas tem torres nem sinos”. Nas capelas em questão, unicamente os religiosos terceiros regulares cele- bravam funções litúrgicas. O representante da Província da Imaculada
41 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722. Carta do chanceler da Relação da Bahia Francisco de Campos Limpo ao rei, comunicando os rendimentos da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade da Bahia. Bahia, 6 de abril de 1745.
42 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
Conceição do Rio de Janeiro respondeu que, nos treze conventos que havia naquela Província, em oito, havia ocorrido fundações de ordens terceiras, sem que, em nenhuma destas, houvesse torres com sinos. O guardião do Convento de Santo Antônio de Lisboa, que pertencente à Província homônima, certificou que, nos 15 conventos da Província, seis possuíam ordens terceiras situadas intra claustra e, em nenhuma delas, havia torres com sinos. Declarou também que os irmãos não poderiam ser chamados de terceiros se não tivessem sujeição aos prelados regulares.
O procurador da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores respondeu que, nos dez conventos da Província, havia ordens terceiras correspondentes, em cujas capelas não havia torres com sinos “porque todas as funções dos ditos terceiros são feitas pelos religiosos, a quem vi- vem sujeitos”. Na Província da Soledade, dos dezoito conventos estabe- lecidos, havia ordens terceiras em quinze, todas estabelecidas intra claus- tra e destituídas de torres de sinos. Por fim, na Província da Imaculada Conceição das Ilhas de São Miguel e Santa Maria, havia sete conventos de frades menores observantes, cada qual com uma ordem terceira, cujas igrejas caracterizavam-se pela ausência de campanários, “porque todas as funções dos ditos terceiros são feitas nas Igrejas dos Religiosos, que ficam contíguas às dos Terceiros”43. O que ressalta na documentação cita- da é a dependência dos irmãos terceiros em relação aos religiosos para a celebração de funções litúrgicas, residindo neste fator a existência de ca- racterísticas específicas das capelas dos irmãos, como a ausência de torres com sinos, manutenção de passagens que as uniam às naves conventuais e a fundação no interior da clausura regular. A ação da Ordem Terceira de São Francisco, no sentido de construir um campanário e de substituir a participação dos religiosos por sacerdotes seculares nas funções de culto, foi vista como tentativa de quebrar a subordinação da associação aos re- ligiosos franciscanos da Bahia.
Em face de tais alegações, a Ordem Terceira elaborou, em 7 de mar- ço de 1744, uma resposta muito hábil e firme que, enviada à soberania régia, continha a assinatura do ministro em exercício, o cônego José
43 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
Ferreira de Matos. Em primeiro lugar, a Ordem argumentou que a nova capela, que começou a ser erigida em 1701, não se encontrava no interior da clausura do Convento. A capela e todos os edifícios, que tinham sido desde então levantados, estavam situados na clausura da Ordem, “cercada de muros próprios da Ordem Terceira, e diversos dos do Convento; tem a sua própria e especial portaria para a rua, pela qual se servem sem depen- dência alguma dos Religiosos”44. Entre a capela da Ordem e o Convento, havia apenas uma comunicação para garantir a passagem do religioso co- missário da Ordem Terceira, cujo acesso era controlado por duas chaves, que ficavam em poder de ambas as partes. Assim, se as ordens terceiras fundadas em diversas províncias franciscanas não dispunham de torres de sinos, era porque as respectivas dependências não se encontravam se- paradas dos conventos a que estavam ligadas, fato que não se verificava na Bahia. E, apelando para argumentos muito sensíveis no contexto das rígidas hierarquias do Antigo Regime, expunham que
Até a irmandade dos pretinhos de Nossa Senhora do Rosário, que saindo-se da Sé desta Cidade fizeram sua igreja separada, tem nela sinos e torres aos lados.
Por ventura pode ser vontade de Sua Majestade que os terceiros sejam sepultados com menos solenidade que os Pretos do Rosário? E que havendo festividade na Igreja da Ordem Terceira se não dê a conhecer com um repique? Que havendo de sair a via sacra se não convoque com o toque de um sino o povo45?
Além de sustentar a pretensão de erigir um campanário com sinos, a Ordem Terceira questionou certas irregularidades supostamente pratica- das pelos religiosos, por ocasião das obras do novo convento. As infor- mações a respeito do ritmo desta construção são pouco precisas, havendo indícios de que as obras externas da estrutura da igreja conventual es- tariam concluídas na década de 1730, mas que as duas torres só seriam finalizadas na década de 178046. Ao alegar que os frades menores obser-
44 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
45 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
46 – FLEXOR, Maria Helena Ochi. Construção do monumento franciscano In: FLE- XOR, Maria Helena Ochi; FRAGOSO, Fr. Hugo, OFM (Orgs.). Igreja e Convento de São Francisco da Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2009, p. 180-194.
vantes da Província de Santo Antônio pertenciam a um ramo reformado da Ordem, não poderiam jamais ter edificado no Convento torres de sinos com as características então assumidas:
Esta sua província do Brasil e convento da Bahia é de capuchos reco- letos e reformados, os quais não podem ter torres e sinos, e ainda que estes na nova Igreja que tem feito. Levantaram duas, uma a cada lado (por não haver nestas distâncias quem olhasse por semelhante relaxa- ção...), e em a torre do Lado esquerdo tenham três sinos, os quais fa- zem dobrar aos seus frades defuntos, e repicar nas suas funções, como qualquer outro Convento de Religiosos Monacais47.
As irregularidades cometidas pelos religiosos franciscanos da Bahia estavam em desacordo com o previsto nos respectivos estatutos:
E os religiosos além de serem mendicantes, recoletos, reformados e capuchos, aos quais se vier uma reforma se lhe hão de depor os três sinos, de que usam na torre esquerda, e ainda demolir uma e outra, por não poderem ter nenhuma, assim por direito canônico como por sua regra e estatutos, que não lhes permite mais de uma tal campana, que bem baste para os congregar ao coro48.
Por fim, a Ordem Terceira revelou aos agentes régios a motivação oculta dos religiosos do Convento, que os levou a impedir a construção do campanário na capela da mesma associação:
Mas a afetação com que os mesmos Religiosos alegaram em o seu requerimento causas tão pouco lisas e faltas da verdade nos obriga ul- timamente a declarar a Vossa Excelência o que na Realidade os moveu a entrar nele. E foi a esperança em que há anos viviam de que esta Or- dem lhe comprasse a torre do Lado esquerdo por trinta mil cruzados, como muitas vezes lhe tem oferecido; e como fazendo-se torre própria totalmente se lhes finda e extingue esta esperança49.
Se for considerada verídica a alegação da Ordem Terceira, a quantia a que esta fez referência no trecho transcrito corresponde ao valor da multa ajustada na concordata estabelecida com os religiosos em 1701, se a associação se afastasse dos termos do ajuste. Além das disputas que
47 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
48 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
49 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6722, cit.
envolveram a construção de um campanário na capela da Ordem e os usos dos sinos do Convento, o segundo principal ponto de atrito a opor os irmãos terceiros aos religiosos foi constituído pelo ordenamento jurí- dico que devia ser seguido pela Ordem. É a questão que será examinada a seguir.
Em busca de um ordenamento jurídico para a Ordem Terceira Em uma correspondência sem data enviada ao rei, mas provavel- mente elaborada entre o final de 1743 e princípios do ano seguinte, o pro- curador da Província de Santo Antônio da Bahia argumentou que, desde o ano de 1635, em que fora criada pelos religiosos, a Ordem Terceira da Penitência vinha edificando o povo daquela cidade. Além disso, sujeita- va-se “em tudo e por tudo à boa direção de seu Comissário e Prelados da Província em observância das Constituições que para a [...] Ordem Terceira fez Frei Luís Pinheiro”50. Esta era a alcunha pela qual frei Luís de São Francisco era também conhecido. O referido frade ingressara em 1652 na Ordem dos Frades Menores. Se antes da profissão religiosa, ha- via atuado como ministro da Ordem Terceira de São Francisco da cidade do Porto, ao ingressar no estado eclesiástico, continuou servindo a mesma associação, desta vez, no cargo de comissário visitador, pelo período de 25 anos51. Conforme foi indicado no primeiro item do texto, desempe- nhou papel importante em 1675 na organização de estatutos válidos para todas as fraternidades da Ordem Terceira franciscana, fundadas nos do- mínios de Portugal e de Espanha52. Segundo o procurador da Província da Bahia, a dita legislação fora mandada observar “por uma Patente do Reverendíssimo Padre Geral da Ordem, que naquele tempo existia”, como também “por um capítulo dos estatutos da Província”53. De fato, o capí-
50 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6678, cit.
51 – RIBEIRO, Fr. Bartolomeu, OFM. Os terceiros franciscanos portugueses. Sete sé- culos da sua história. Braga: Tipografia Missões Franciscanas, 1952, p. 62. MACHADO, Diogo Barbosa. Biblioteca Lusitana Histórica, Crítica e Cronológica [...]. Tomo III. Lis- boa: Na Officina de Ignacio Rodrigues, 1752, p. 95-96.
52 – Os estatutos em questão encontram-se reproduzidos em SÃO FRANCISCO, Fr.
Luís de, op. cit., p. 533-585.
53 – AHU_ACL_CU_005, cx. 82, D. 6678, cit.