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ROSA ELIZA DA SILVA

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Academic year: 2019

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PUC-SP

ROSA ELIZA DA SILVA

Diagnóstico em atendimento psicoterapêutico

a religiosos: prevalências psicossexuais

MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

ROSA ELIZA DA SILVA

Diagnóstico em atendimento psicoterapêutico

a religiosos: prevalências psicossexuais

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Univer- sidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião, sob a orientação do Prof. Dr. João Edênio dos Reis Valle.

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Banca Examinadora

_________________________________

_________________________________

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Agradecimentos

Aos terapeutas participantes da pesquisa que através de seus arquivos possibilitaram este trabalho.

À fundação Pórticus, representada pelo Dr. Einardo Bingemer, pelo financiamento de grande parte desta pesquisa.

À CAPES, que financiou o término desta pesquisa.

Ao Pe. Prof. Dr. João Edênio dos Reis Valle, meu orientador, pela sua dedicação e disponibilidade.

Aos membros do grupo de pesquisa “Psicologia e religiosidade: Peculiaridades”, da PUC de São Paulo: Deolino Baldissera, Eliana Massih, Ênio Pinto, Maria Cristina Bueno, Maria de Fátima Moraes, Neilomar dos Santos, pela fecunda partilha.

Aos meus pacientes, pela sua confiança e fonte de estímulos.

Ao psicanalista Dr.Flávio Carvalho Ferraz pelas valiosas supervisões clínica.

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Resumo

O tema dessa dissertação é o diagnóstico de religiosos em atendimento psicoterapêutico. A pesquisa se fez a partir do levantamento de 149 prontuários de casos atendidos por 12 terapeutas, os quais foram individualmente entrevistados com o objetivo de clarificar a classificação do diagnóstico. Essa se fez com base no DSM IV-TR em correspondência com o CID 10.

A novidade da pesquisa está na amostragem, toda ela constituída por presbíteros e seminaristas maiores da Igreja Católica. Desde o início se previa a incidência de comportamentos inadequados no campo da sexualidade, razão porque, já com base nos primeiros levantamentos de dados se decidiu dar relevo maior à discussão das prevalências psicossexuais mais freqüentes na população estudada. Do ponto de vista teórico, o conceito de diagnóstico psicológico foi elaborado na perspectiva da psicanálise. Nessa mesma linha foram feitas duas conexões importantes para a compreensão da problemática de pessoas de vida consagradas a Igreja. Uma foi a conexão com a religiosidade e a outra com a evolução da sexualidade e afetividade.

Os resultados da pesquisa (os dados colhidos na amostragem) foram apresentados no capítulo I.O capítulo II se ocupou do quadro teórico. E finalmente no capítulo III se fez uma leitura analítica dos dados.

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Abstract

The object of this research is a group of priest and seminarians of the Catholic church in São Paulo (Brazil). 149 subjects are taken in this research. They were all under psychoterapic care of 12 experts in psychoterapy. All those twelve experts where individually interviewed about their clinical judgment on the psychological diagnostic of the subjects. For this purpose the group of subjects where reduced to 48 subjects(25 priests and 23 seminarians).

At this point of the research the main objective was the clarification of the diagnostic of the 48 cases under study.A extense research work was undertaken in the case’s files of all the subjects and the attention was concentrated in the psychosexual aspects of the subjects behaviour, because the incidence of this kind of behaviour was predominant.For this purpose the DSM IV TR of the American Psychiatry Association was taken as the main reference for the classification of the cases.The CID 10 was also taken under consideration.

From a theoretical viewpoint, the concept of diagnostic was of psychoanalitic and psychodinamic nature.

Two other main connections were made in order to explain the psychosocial condition of the subjects: first a connetion with the religiosity and, second, a connection with the psychosexual development of the subjects.

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Sumário

Introdução ... 01

Capítulo 1. Os dados encontrados: aproximação descritiva ... 08

1.1. Parte introdutória: a amostragem e a coleta dos dados... 08

1.2. O levantamento dos dados: fases e instrumentos ... 10

1.3. Apresentação dos dados encontrados... 12

1.3.1. Os quadros diagnósticos encontrados ... 13

1.3.2. Tabelas descritivas gerais... 20

1.3.3. Tabelas resultantes de cruzamento das tabelas do grupo I e as do grupo II ... 24

1.3.4. Quadro sintético dos resultados das Tabelas II, 1 a II, 6 ... 31

1.3.5. Síntese das Tabelas cruzadas (tab. III 1 a Tab. III, 6) ... 32

1.4. Observações conclusivas... 33

Capítulo 2. Elementos teóricos da dissertação ... 35

2.1. O percurso do psicodiagnóstico ... 35

2.1.1. Sistemas classificatórios mais utilizados... 36

2.1.1.1. A Classificação Internacional das Doenças (CID). ... 36

2.1.1.2. O Diagnostic and Statistical Manual (DSM) of Mental Disorders... 38

2.1.2. O diagnóstico psicológico... 42

2.2. Elementos psicanalíticos para compreensão da sexualidade-afetividade... 48

2.2.1. Destinos na evolução da libido... 49

2.2.2. Perversões ... 67

2.3. A problemática psicossexual nos sujeitos da pesquisa ... 78

2.3.1. Psicanálise e religiosidade ... 78

2.3.2. A prática clínica e a religiosidade... 89

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Capítulo 3. Leitura e análise dos dados... 120

3.1. Considerando os dados diagnósticos mais significativos ... 120

3.1.1. Grupo denominado pedofilia ... 120

3.1.2. Grupo denominado efebofilia ... 121

3.1.3. Grupo denominado A.I. (Age Inapropriate). ... 122

3.1.4. Grupo denominado Transtorno de identidade de gênero .... 123

3.2. Comparação dos dados da pesquisa com dados de pesquisa do Instituto Southdown Institute - Canadá e com dados do Saint Luke Institute - EUA ... 124

3.3. Interpretação dos dados da pesquisa com base nos doze pontos que Brito Pinto considera em seu trabalho psicoterapêutico com pessoas de vida consagrada ... 126

4. Considerações finais... 129

Referências bibliográficas... 131

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Lista de Tabelas

Tabela I, 1: Freqüência dos quadros diagnósticos do DSM-IV em

correspondência com o CID 10 presentes nos 48 sujeitos da amostragem13 Tabela II, 1: Freqüência da distribuição da clientela, segundo seu status

eclesiástico. ... 20

Tabela II, 2: Distribuição da clientela por faixa etária ... 21

Tabela II, 3: Distribuição segundo o acompanhamento espiritual ... 22

Tabela II, 4: Distribuição segundo o número de sessões de psicoterapia ... 22

Tabela II, 5: Distribuição dos sujeitos segundo encaminhamento à consulta psiquiátrica ... 23

Tabela II, 6: Situação do acompanhamento ... 24

Tabela III, 1: Cruzamento dos quadros diagnósticos com o status dos sujeitos (seminaristas x presbíteros) ... 25

Tabela III, 2: Confronto entre categoria diagnóstica e faixa etária ... 26

Tabela III, 3: Distribuição da população estudada de acordo com o diagnóstico e acompanhamento espiritual ... 27

Tabela III, 4: Distribuição da população de acordo com o diagnóstico e número de sessões ... 28

Tabela III, 5: Cruzamento entre categoria diagnóstica e encaminhamento para consulta psiquiátrica ... 29

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Introdução

Apresentação do tema

Fazendo parte, há mais de seis anos, de um grupo de profissionais com experiência no atendimento psicoterápico a religiosos da Igreja Católica, tive oportunidade de conhecer, acompanhar e discutir casos clínicos de natureza distinta, bem como de ter acesso aos arquivos dos casos atendidos. De posse de todos esses dados, senti a necessidade de organizá-los de forma sistematizada, visando a um maior conhecimento clínico e maior eficiência no atendimento. Assim, iniciei o levantamento da problemática psicopatológica freqüente nessa população específica que é o tema de minha dissertação. Para tanto, contei com o apoio e incentivo dos colegas que sentiam igual necessidade em fazer um balanço avaliativo do trabalho realizado pelo grupo. Minha esperança é que a dissertação possa trazer mais luz em especial quanto aos quadros psicopatológicos de maior incidência.

O panorama das discussões sobre atendimento em saúde mental a religiosos neste início do século XXI tende a crescer, embora ainda sejam insuficientes. Temos trabalhos nos USA: Ciarrochi (2000); Rosseti (1990); Sperry (2004); no Canadá; Loftus and Camargo (1993); Shafranske (1996); no Brasil; Lotufo (1997); Nasini (2001); Valle (2002); Castilho Pereira (2004); Brito Pinto (2007); Massih (2006). Trata-se de uma complexa discussão teórica que encontra no atual momento elementos complicadores quando enfocada na perspectiva da prática terapêutica. Tanto mais que existe uma vigilância da opinião pública e da própria Igreja quanto a comportamentos sexuais inapropriados presentes no clero católico.

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propriamente novo. Esse atendimento, contudo, se faz em geral na privacidade dos consultórios psicoterapêutico de forma isolada, sem possibilidades de confrontos, e, com isso, o trabalho terapêutico que se realiza não é posto em discussão de maneira sistemática e organizada.

A razão dessa dispersão, e em conseqüência dessa obscuridade dos dados, é devido à fragmentação dos atendimentos e à falta de pesquisa e discussão sobre os mesmos. A delicadeza do assunto aliada ao sigilo a que deve se ater o profissional tornam ainda menos acessíveis à discussão uma série de importantes aspectos envolvidos nos quadros clínicos que surgem ante os terapeutas.

Nos Estados Unidos e no Canadá, já existem há muitos anos clínicas especializadas que vêm elaborando levantamentos e pesquisas no sentido de obter uma visão mais objetiva do que é específico à terapêutica de sacerdotes e religiosos. Estagiei rapidamente em uma delas, o Southdown Institute de Toronto, no Canadá, tendo tido oportunidade de conhecer de perto o minucioso acompanhamento clínico ali propiciado a clérigos portadores de transtornos psicológicos dos mais distintos gêneros (Dlugos, 2006; Safiotti, 2006). Participei também, em janeiro de 2003, de um curso ministrado em São Paulo pelo Dr. Robert Camargo (Camargo, 1997,1993.), terapeuta norte-americano responsável pelo setor de pesquisas daquele Instituto. No grupo de pesquisa do professor Edênio Valle, do Programa de Ciências da Religião, tive, durante o ano de 2006, a oportunidade de analisar e discutir detidamente o livro de Sperry (2003), no qual esse conhecido especialista sintetiza sua experiência de 30 anos com clérigos católicos dos Estados Unidos. Foram três ocasiões ímpares para perceber a necessidade e urgência de se conhecer e ajudar a traçar um quadro mais objetivo do que se faz de fato no atendimento a sacerdotes e religiosos no Brasil.

Objeto da pesquisa e seus limites

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2000 a setembro de 2003. Meu trabalho é retrospectivo e se baseia fundamentalmente na análise do material constante nas pastas clínicas e arquivos dos psicoterapeutas que se dispuseram a colaborar, garantido o anonimato de seus clientes. Meu fito era o de mapear e organizar os dados encontrados em quadros estatísticos que pudessem deixar claros alguns aspectos referentes à clientela e aos problemas que emergiam dos casos clínicos trabalhados nos consultórios. Servi-me para sistematizar os quadros nosológicos, do sistema classificatório desenvolvido pela Associação Psiquiátrica Americana (APA, 1995), ou seja, do Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM IV) em correspondência com o sistema da Organização Mundial de Saúde (OMS, 1993) a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). A escolha desses sistemas diagnósticos classificatórios teve como finalidade homogeneizar de alguma forma os dados, uma vez que havia uma certa diversidade nas abordagens teóricas empregadas pelos terapeutas, embora a maioria usasse um enfoque psicodinâmico com elementos comuns.

Houve de minha parte também uma preocupação de levantar não só as demandas e os quadros psicopatológicos, como também de esclarecer os elementos sociográficos distintivos dos clientes, de modo a poder fazer uma comparação entre eles.

Julgo indispensável salientar que a presente pesquisa tem limites inerentes à sua metodologia. A amostragem é parcial. Não se pode, a partir dela, fazer generalizações. No entanto, os resultados a que chega a pesquisa são indicativos do que provavelmente acontece no plano mais geral dos clérigos católicos que apresentam algum tipo de distúrbio na área aqui estudada.

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O problema da pesquisa

A partir da constatação desses dados e demandas dos clientes, a pergunta central a ser respondida pela pesquisa era a seguinte: quais as prevalências psicossexuais diagnosticadas no atendimento psicoterapêutico a religiosos, nos limites da amostragem em estudo?

Hipótese

Considerando, primeiro, que a população masculina que busca a vida religiosa, geralmente deixa o núcleo familiar muito cedo, sem ainda ter amadurecido plenamente sua identidade; e, segundo, que com a entrada no contexto institucional dos seminários (BRITO PINTO, 2007; BENELLI, 2007), sua formação geralmente é direcionada predominantemente para uma meta espiritual bem definida, levanto a hipótese de que o desenvolvimento afetivo-sexual permanece facilmente em um plano secundário, ou mesmo, reprimido. Assim as dificuldades nessa área não são suficientemente explicitadas, acumulando-se com o passar dos anos, para só emergir mais tarde, com prejuízo para o amadurecimento psicoafetivo do sujeito, provocando dificuldades nas relações interpessoais e as devidas ao exercício do ministério presbiteral, com o que as inconsistências psicossexuais aparecem, às vezes de forma não dissimuladas, mas explosiva.

Objetivos da pesquisa

o Descrever o quadro clínico e estudar a prevalência de quadros

psicopatológicos classificáveis de acordo com o DSM IV a partir de dados de prontuários e entrevistas com os terapeutas que atendera os casos da amostragem em estudo; com especial atenção a quadros de ordem afetivo-sexual.

o Sistematizar o conhecimento das características dessa amostragem,

de maneira a facilitar o trabalho dos terapeutas no atendimento a religiosos;

o Contribuir no processo de autoconhecimento e amadurecimento

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Quadro teórico-metodológico

1) Utilizei a teoria e a metodologia de avaliação diagnóstica de Walter Trinca (1983, 1984,1997), apoiando-me largamente em seu pensamento clínico e no modelo de psicodiagnóstico compreensivo por ele sugerido, que tem como pressuposto tanto abraçar, apreender, clarear, quanto dar uma lógica ao conjunto de dados obtidos sobre o cliente. Tal método, como diz o próprio Trinca, se “caracteriza por uma síntese harmônica e descritiva do conjunto dos dados”. Ele o entende como uma organização de princípios, métodos e técnicas, tendo em vista que o psicodiagnóstico abrange múltiplos referenciais, obtidos durante o processo e compreende o “estudo dos fatores intrapsíquicos, interpessoais e socioculturais, cuja interação acarreta desajustamento no paciente”. Embora me fundamentando em Trinca, uso outros autores que também se referem à proposta de Trinca (ANCONA LOPEZ, 1984; VORCARO,1995; PAPAZANAKIS,1997). Complementarmente emprego ainda o método diagnóstico de Othmer & Othmer (1993), por ver consonância entre os pontos de vista desses autores e o utilizado pelos psicoterapeutas que me forneceram os dados constantes em minha pesquisa. Othmer e Othmer valorizam dois estilos de abordagem diagnóstica: o método psicodinâmico, baseado em conceitos psicanalíticos e o estilo descritivo, orientado para os sinais e sintomas,. Partindo desses dois enfoques eles orientam o diagnóstico de acordo com o DSM IV TR (APA, 1995). Dessa forma, minha concepção de diagnóstico combina pontos de vista em que vejo proximidade com o pressuposto de. Othmer & Othmer (1993, p.31).

Os transtornos psiquiátricos podem reviver e ampliar os conflitos

existentes ou evocar novos conflitos, enquanto os conflitos

preexistentes podem desencadear o surgimento ou agravar o curso

de doenças psiquiátricas.

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Procedimentos metodológicos e técnicos

1) A caracterização da amostragem, como já se disse, partiu de um levantamento sistemático dos prontuários encontrados nos consultórios. Além disso, foram feitas entrevistas com os doze psicoterapeutas responsáveis pelo atendimento dos casos. Todos eles/elas atuam na cidade de São Paulo, mas atendem clientes vindos das mais diversas regiões do país.

2) A pesquisa se realizou em quatro passos:

Passo 1: Nessa fase inicial, deu-se a análise de todos os prontuários constantes dos arquivos e destes foram selecionados os 48 casos que se enquadravam no sistema diagnóstico do DSM-IV em correspondência com o CID 10. Trata-se de um material arquivado de modo razoavelmente homogêneo, não obstante haja diferenças entre eles. Todos os informes são de responsabilidade dos terapeutas que os forneceram. Há alguns instrumentos de interesse direto da pesquisa que constam de todas as pastas. Destacam-se os indicados nos anexos da dissertação: o formulário de “síntese de encerramento de caso” (Anexo 1); o minucioso questionário de início da terapia preenchido pelo paciente (Anexo 2); as orientações para a redação de uma autobiografia (Anexo 3). Por razões várias, os casos considerados na pesquisa foram os atendidos entre setembro de 2000 e setembro de 2003, portanto ao longo de três anos consecutivos. Em virtude de certas exigências de uma dissertação acadêmica, os casos tomados em consideração foram apenas os referentes a distúrbios comportamentais bem delimitados, selecionados à luz da acesa discussão em curso nos meios especializados e na mídia mundial e nacional sobre o comportamento psicossexual de membros do clero.

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Passo 3: Baseando-me nas informações colhidas, dediquei-me a organizar tabelas descritivas que permitissem uma visão mais sistematizada do conjunto dos dados.

Passo 4: Retomando os muitos textos e autores lidos durante as três fases anteriores, passei à elaboração de minha visão teórica das questões suscitadas pelos dados levantados.

3) Decorreram daí os três capítulos em que está dividida a dissertação. O Capítulo 1 corresponde à apresentação dos dados coletados. Seguindo uma orientação colhida no Exame de Qualificação, pareceu-me mais útil mostrar em primeiro lugar os dados encontrados, deixando para o Capítulo 2 os elementos teóricos que tomei como referência para a iluminação dos dados. No Capítulo 3, estão sintetizadas as análises e leituras que faço dos dados à luz do quadro teórico que assumo.

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Capítulo 1

Os dados encontrados: aproximação descritiva

1.1. Parte introdutória: a amostragem e a coleta dos dados

Não deixa de ser uma ousadia dizer que nesta pesquisa pretendo levantar, do ponto de vista do diagnóstico psicoterapêutico, as prevalências psicossexuais mais freqüentes em padres e seminaristas que demandam uma ajuda terapêutica especializada. É uma ousadia, porque existe enorme dificuldade em chegar a dados fidedignos e devidamente documentados quanto a essa clientela, uma vez que são muito exíguas as informações sobre a realidade e o comportamento psíquico dos padres, em especial no Brasil. Sabe-se pouco sobre sua realidade: Quais as características de seu amadurecimento psicoafetivo e sexual? Os distúrbios psicoafetivo e sexuais são entre os padres mais intensos ou mais freqüentes do que em outros grupos de cuidadores com responsabilidade social?

Infelizmente não há como responder a essas perguntas. A razão para nossa ignorância quanto a cada um desses quesitos é bastante evidente: não há pesquisa no Brasil e, em decorrência, existe uma enorme falta de dados. Sabemos relativamente pouco - especialmente no campo da psicoafetividade – sobre os militares, os professores ou os médicos. Em se tratando de um grupo religioso sui generis,, como é o caso do clero católico, o levantamento dos dados se torna ainda mais difícil.

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situações específicas, etc.. Outras 17 pastas foram eliminadas em razão da dificuldade em relacioná-las aos quadros do DSM-IV-TR (APA, 1995), o sistema de diagnóstico padrão escolhido como referência para a classificação nosológica dos pacientes. Dessa maneira, o quadro final da amostragem passou a ser de 48 pacientes, correspondendo a 32,88% do total de 143 pacientes que encontrei nos arquivos. Esse grupo de 48 proporcionou os dados para descrever com maior rigor as prevalências psicossexuais que apareceram no diagnóstico dos presbíteros que buscaram atendimento psicoterapêutico com 12 psicoterapeutas participantes da pesquisa.

1.2. O levantamento dos dados: fases e instrumentos

Foram três os passos, respectivamente, fases, que conduziram aos resultados aqui apresentados. As variáveis tomadas como referência para a seleção e organização dos dados em tabelas foram desde o início as seguintes:

a) O paciente era já presbítero ordenado (do clero diocesano ou do clero religioso) ou ainda seminarista1

b) Em que faixa etária se encontra (faixas organizadas entre 20 e 60 anos, com intervalos regulares de 5 anos).

c) Que diagnóstico psicodinâmico ou psiquiátrico emerge dos dados de arquivo e das entrevistas com os/as terapeutas?

A partir dessas referências, a pesquisa se desenvolveu em três fases que foram se complementando:

Fase 1

Esta fase, longa e difícil, foi a correspondente ao estudo do material constante das fichas dos prontuários masculinos preenchidos pelos terapeutas (cf. Anexo 1) para cada paciente, entre setembro de 2000 a setembro de 2003. Aos poucos se clareou o quadro diagnóstico geral e foram percebidas algumas lacunas que precisavam ser preenchidas através de entrevistas com os terapeutas. Paralelamente, foram feitas as leituras indispensáveis à elucidação

1

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teórica, em especial dos conceitos de diagnóstico e de distúrbios psicossexuais, tanto em geral quanto, mais especificamente, no caso de membros do clero.

Fase 2

Com os primeiros dados em mão, passei a fazer entrevistas semidirigidas com os terapeutas sobre cada paciente, centrando as perguntas nos quadros e hipóteses diagnósticas que pareciam oferecer chance para ulteriores esclarecimentos. Uma decisão tomada nessa fase foi a de definir as “prevalências psicossexuais“ como objeto central de minha atenção. Como variáveis para os dados diagnósticos, foram selecionadas as seguintes: identificação dentro do clero, idade, diagnóstico emitido ou presumido, número de sessões, eventual acompanhamento espiritual, eventual acompanhamento psiquiátrico e “situação de atendimento”. Para essa variável que nas tabelas é chamada de “situação de Atendimento”, foram utilizadas a seguintes categorias:

Desistência do atendimento (abandono sem falar com o terapeuta). “Alta” (O critério de alta foi dado por cada psicoterapeuta dentro de

sua abordagem clínica e tinham em comum o terapeuta e o paciente concordarem em relação ao término do tratamento), e ressalto que esse tema embora importante não foi desenvolvido na pesquisa.

Alta a pedido (o paciente decidiu encerrar o atendimento e comunicou o seu desejo ao terapeuta).

Abandono da vida religiosa (com conseqüente encerramento do atendimento).

Encaminhamento para outro profissional ou instituição terapêutica. Transferência para outra região ou cidade (com interrupção do atendimento).

Óbito Fase 3

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definidos pelo DSM IV-TR (APA, 1995). Essa fase do trabalho do diagnóstico teve supervisão de um psiquiatra.

Assim se chegou a uma primeira abordagem diagnóstica, descritiva e de categorização, orientada por sinais e sintomas. É o que se mostra neste Capítulo 1. Uma segunda leitura, inspirada na psicanálise, será feita no Capítulo 2, mas levando em conta o conjunto dos dados enunciados nesse primeiro capítulo.

Inicialmente, pretendia-se fazer um aprofundamento da problemática psicodinâmica subjacente aos diagnósticos. Para tanto, pretendia-se lançar mão dos 19 testes de Rorschach aplicados aos 48 clientes da amostragem. O material era rico, mas dei-me conta de que enveredar por essa via exigiria quase que uma outra dissertação. Em certo sentido, porém, o estudo crítico desse material serviu-me em mais de um caso para fundaserviu-mentar serviu-meu diagnóstico final.

1.3. Apresentação dos dados encontrados

A princípio, os dados coletados foram agrupados e colocados num banco de dados do programa Acess do computador a partir das sete variáveis selecionadas, depois foram tabuladas segundo o programa do computador SPSS do Departamento de Estatística da PUC-SP. São tabelas descritivas que visam oferecer os traços que caracterizam o rosto da amostragem em estudo. As tabelas são de três tipos distintos.

• A primeira delas é a Tab. I, 1. É a mais importante de todas. Só foi possível defini-la após exaustiva análise das pastas e arquivos estudados e as entrevistas com os/as terapeutas que acompanharam os pacientes. Essa tabela servirá como variável independente do estudo, funcionando as demais como varáveis dependentes Ela mostra os quadros diagnósticos dos distúrbios psicossexuais prevalentemente encontrados entre os 48 sujeitos da amostra final.

(23)

• Após esses dois tipo de tabelas, é apresentado um segundo conjunto de tabelas resultantes do cruzamento entre as categorias diagnósticas elencadas na Tab. I 1 e as variáveis que aparecem nas Tabelas II, 1 até II, 7. Desses cruzamentos surgem seis tabelas, a saber: Diagnóstico x Identificação Geral dos Sujeitos; Diagnóstico x Faixa Etária; Diagnóstico x Situação de Atendimento,; Diagnóstico x Número de Sessões; Diagnóstico x Orientação Espiritual; Diagnóstico x Consulta Psiquiátrica.

1.3.1. Os quadros diagnósticos encontrados

Começo mostrando a tabela dos diagnósticos retrospectivos feitos a partir dos 48 clientes, segundo as indicações dos prontuários e observações colhidas diretamente das entrevistas com seus respectivos psicoterapeutas. Tendo em vista este quadro geral, passo, muito brevemente, a descrever cada um desses quadros diagnósticos, servindo-me para tanto das indicações do próprio DSM-IV-TR em correspondência com o CID 10.

Tabela I, 1: Freqüência dos quadros diagnósticos do DSM-IV em correspondência com o CID 10 presentes nos 48 sujeitos da amostragem.

Classificação dos diagnósticos da população dos pesquisados (48) e sua correspondência na amostra

total (149) segundo o DSM-IV(APA) e CID10 (OMS) entre 2000 e 2003.

Diagnóstico N°. % %

F.32 5 10,4 3,3

F.41 3 6,3 2,0

F.42 1 2,1 0,6

F 60.8 1 2,1 0,6

F 63.8 1 2,1 0,6

F 65.4 4 8,3 2,6

F 65.8 1 2,1 0.6

F 66 23 47,9 15,4

EFEB2 7 14,6 4,7

EPILEPSIA 2 4,2 1,3

TOTAL 48 100,0 32,2

2

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Esta Tabela I, 1 é a mais importante de todas. Embora seus dados não possam ser generalizados, em decorrência da exigüidade da amostragem, ela provavelmente se aproxima da realidade da população em estudo. Tem, além disso, um valor clínico. Abre uma linha de investigação e aprofundamento terapêutico, além de permitir interessantes comparações entre o grupo em estudo e outros grupos de profissionais da ajuda. Escapa aos objetivos do trabalho levantar qualquer tipo de juízo de valor ou aprofundar as possíveis linhas de discussão teológica ou disciplinar.

A Tabela I, 1 permite ver que dos 149 pacientes a cujos prontuários tive acesso, somente os 48 que constam dessa tabela se encaixaram nas categorias diagnósticas do DSM IV-TR (APA, 1995) em correspondência com o CID10 (OMS, 1993) por mim tomados como referência.

O diagnóstico mais freqüente entre esses 48 pacientes foi o F66 com freqüência de 47,9%. Seguem-se, pela ordem, o de efebofilia com 14,6% e o F32 com 10,4% ,juntamente com o grupo das parafilias (F65.4 e F 65.8), com destaque para o subgrupo de pedofilia. Outros quadros diagnósticos constatados têm presença menor. É o caso do grupo F41 com 6,3%, seguido do grupo de epilepsia com 4,2%, e fechando com os grupos F 42; F 60.8 e F63. 8, todos com apenas um caso (2,1%).

Passo, agora, à apresentação de cada um desses diagnósticos, tendo como fonte básica de referência o DSM-IV-TR. Levo em conta nessas considerações principalmente os Eixos I II e III do DSM IV-TR, aos quais retornarei no Capítulo II da dissertação. Em alguns momentos terei em vista também o CID 10, isto é, no diagnóstico transtorno da identidade de gênero. Sirvo-me também de alguns autores especializados em transtornos comportamentais do clero.

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menos relevante, mas merecedora de atenção (4 casos, ou seja, 8,4% da amostragem). A categoria epilepsia, por sua natureza, merece uma consideração à parte. São dois os casos deste tipo na amostragem.

Transtornos sexuais e da Identidade de gênero (DSM IV)

Transtornos da identidade de gênero F 66: (N= 23; 47,9% da amostragem)

Caracterizam estes transtornos por uma forte identificação com o sexo oposto, acompanhado por desconforto persistente em relação ao próprio sexo atribuído. O termo “identidade de gênero” se refere, assim, à percepção que um indivíduo tem de si mesmo enquanto homem ou mulher. O termo disforia de gênero denota sentimentos fortes e persistentes de desconforto com o sexo atribuído, bem como o desejo de possuir o corpo de outro sexo e assim ser visto pelos outros como um membro do sexo oposto. Ambos os termos devem ser distinguidos da orientação sexual que se refere à atração erótica por homens ou mulheres ou por ambos. O CID 10, da Organização Mundial da Saúde (OMS), enfatiza em uma nota que “a orientação sexual por si só não constitui um transtorno”. Considera o Transtorno de maturação sexual a incerteza com relação à identidade ou orientação sexual e que ocorre mais em adolescentes, quando estes não estão seguros quanto à sua orientação sexual, e pode ocasionar ansiedades e depressão. Ocorre também em indivíduos que, após um tempo de orientação sexual aparentemente estável e vínculos duradouros, percebem que sua orientação sexual está modificando. A orientação sexual egodistônica (F 66.1.) acontece quando a identidade ou preferência sexual não está em dúvida, mas o indivíduo deseja que isso fosse diferente por causa dos aos transtornos psicológicos e de comportamento agregados e pode assim buscar tratamento por desejar alterá-la. Na forma como este diagnóstico aparece na pesquisa ele é melhor descrito pelo CID 10 do que pelo DSM-IV-TR.

Transtornos sexuais

• Parafilias (F 65)

(26)

atividades, situações incomuns e causam sofrimentos clinicamente significativos ou prejuízos no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. As parafilias incluem exibicionismo, fetichismo, frotteurismo, pedofilia, masoquismo sexual, sadismo sexual, travestismo fetichista, voyeurismo e parafilia sem outra especificação.

Pedofilia F65. 4 (N=4, 2,6% da amostragem)

A incidência deste comportamento na amostragem é de 4 casos, ou seja, de 8,3% da amostragem. Esse transtorno, de acordo com o DSM-IV-TR, tem como característica principal a realização de atividades sexuais por um período mínimo de seis meses, fantasias sexualmente excitantes, recorrentes e intensas, impulsos sexuais ou comportamentos envolvendo uma ou mais de uma criança pré-púbere geralmente com idade inferior a 13 anos. As fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos causam sofrimento clinicamente significativo, ou, prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Parafilia sem outra especificação F65. 8 (N=1, 2,1% da amostragem) Um único caso (2,1%) da amostragem pode ser colocado nesta categoria diagnóstica. Esse caso é catalogado na pesquisa como parafilia porque não satisfaz os critérios para qualquer das outras categorias específicas. Inclui a compulsão a sites pornográficos de cunho sadomasoquista.

Efebofilia (N= 7 ; 14,6% da amostragem)

(27)

Groth, Hobson e Gary, 1982. O efebófilo fixado é descrito como um indivíduo cujo interesse sexual primário está centrado em adolescentes e nunca ou quase nunca tem sexo ou sente atração por outros adultos. Esses indivíduos podem estar interessados em pornografia e comumente usam álcool ou outras drogas, por seu efeito desinibidor antes de iniciar a atividade sexual. Em suas aventuras sexuais tendem a ser mais calculadores do que impulsivos. Alguns fazem uso da sagacidade, de engano e da intimidação. Sperry comenta que cada vez mais existe um consenso entre os estudiosos de que esses indivíduos são psicossexualmente imaturos e que seu desenvolvimento foi interrompido ou detido em algum momento de sua evolução psicoafetiva e sexual.

Os efebófilos regressivos são descritos como indivíduos cuja orientação sexual primária se dirige a adultos de outro sexo. Quando submetidos a um estresse extremo, tais indivíduos podem regressar psicologicamente a uma etapa psicossexual anterior e ter sexo com um adolescente. Sperry, apoiando-se em Plante, refere que estimativas confiáveis indicam que, nos Estados Unidos, em torno de 4 a 5 % por cento dos sacerdotes podem ter tido sexo com menores pós-púberes (PLANTE 1999 apud SPERRY 2004, p.37).

Transtornos depressivos (F 32; N=5; 10,4% da amostragem) F 32.1. Transtorno depressivo maior.

Como indicador apareceu através da presença de humor deprimido na maior parte do dia, sentimento de tristeza e vazio.

Perda ou aumento de peso sem estar em dieta, diminuição ou aumento de apetite quase todos os dias.

Fadiga ou perda de energia, sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada, diminuição da capacidade de pensar ou concentrar-se. Notável diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia quase todos os dias.

Insônia ou hipersônia quase todos os dias.

(28)

Transtornos induzidos pelo álcool (F10)

Os transtornos por intoxicação com álcool e/ou abstinência de álcool) aparecem na pesquisa em comorbidades com outros diagnósticos, como as patologias F 32, F65. 4 e F66. Não se justifica tomá-los isoladamente. O critério diagnóstico que usei para este item foi o do consumo recente de álcool com apresentação de alterações clinicamente significativas no comportamento, como comportamento sexual inadequado ou agressivo, humor instável, prejuízo no comportamento social e ocupacional.

Transtornos de ansiedade generalizada (F41; N= 3; 6,3% da amostragem)

Aparece como ansiedade e preocupação, inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele. Fadigabilidade, dificuldade de concentrar-se, irritabilidade, tensão muscular, perturbação do sono, tais sintomas causa sofrimento e prejuízo no funcionamento social e ocupacional e intelectual.

Transtornos obsessivo-compulsivos (F42; N= 1; 2,1 % da amostragem)

Os sintomas desse transtorno se caracterizam por preocupação exagerada pela ordem e perfeccionismo. Com pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são intrusivos e inadequados e causam acentuada ansiedade ou sofrimento. Em algum ponto durante o curso do transtorno, o indivíduo reconhece que as obsessões ou compulsões são excessivas ou irracionais.

Epilepsia

(29)

doença. Outros autores, entretanto, reconhecem que as alterações elétricas encontradas nos epilépticos justificam alterações comportamentais e de personalidade.

Wais e colaboradores referem às epilepsias, porque existem diversos modos de distúrbios epilépticos e denominam de ataque epiléptico ou crise epiléptica como sendo a manifestação clínica (sinais e sintomas) resultante da atividade neuronal excessiva, hipersincrônica e anormal dos neurônios encontrados predominantemente no córtex cerebral. Por esse conceito a pessoa pode sofrer um ataque epiléptico isolado ou circunstancial, sem ser considerado, necessariamente, portador de epilepsia. Há que distinguir as crises tônico-clônicas generalizadas (Grande Mal) das crises parciais ou focais resultantes de alterações em região delimitada do cérebro, mais precisamente, de uma região cerebral mais delimitada (sem convulsões necessárias). Essas últimas correspondem a mais de 50% das epilepsias em geral, sendo aquelas do lobo temporal as mais freqüentes, seguidas pelas do lobo frontal. Nas auras do lobo temporal pode ocorrer uma variedade de sensações viscerais (“aura epigástrica”), como, por exemplo, sensações de mal estar subindo da “boca do estômago” para cima. Também são freqüentes sensações estranhas inexplicáveis na cabeça e outros sinais autonômicos, como a salivação excessiva, rubor, palidez, taquicardia, dor precordial, tosse e apnéia. São comuns as tonturas e vertigens. As percepções da realidade alteradas incluem tanto distorções das percepções reais (metamorfopsias) como alucinações. Os sons podem parecer subitamente distantes ou intensamente altos, objetos podem parecer maiores ou menores, mais próximos ou mais distantes. A representação da realidade também pode estar alterada, de modo que os objetos, sons adquirem um significado diferente do original. Em tais percepções, podem ocorrer fortes vivências afetivas, como o medo e a ansiedade intensos, sem controle e sem fatores desencadeantes, incluem também depressão, culpa e raiva, em graus variados. Há mais raramente sentimentos agradáveis de prazer, bem aventurança e êxtase (“a chamada epilepsia de Dostoievski”).

(30)

personalidade seriam muito mais devedores a alterações funcionais do sistema nervoso central do que motivados por razões exclusivamente emocionais, cogitando-se, inclusive, que muitos dos sentimentos esboçados por tais pacientes sejam conseqüências desse distúrbio funcional. Há uma maneira de ser do epiléptico caracterizado principalmente por irritabilidade, explosividade, agressividade, querelência, viscosidade, instabilidade de humor e outros sinais (cf. Lúcia Coelho) 3

1.3.2. Tabelas descritivas gerais

Tabela II, 1: Freqüência da distribuição da clientela segundo seu status eclesiástico.

Freqüência absoluta e relativa da distribuição entre os religiosos já ordenados e os ainda em formação

Identificação Geral N %

Seminarista 23 48.0

Presbítero 25 52,0

Total 48 100,0

Na Tabela II,1, tem-se a variável Identificação geral segundo o status clerical dos pacientes. Pode-se observar uma proporção similar de seminaristas e presbítero. O número de padres é ligeiramente superior aos dos que ainda estão em fase preparatória. A categoria “seminaristas” se refere a jovens clérigos já na fase final de seus estudos. Os padres são tanto do clero diocesano quanto do religiosos. Preferi uni-los em um único grupo pelo fato de não apresentarem diferenças significativas no que é do interesses desta dissertação.

3

(31)

Tabela II, 2: Distribuição da clientela por faixa etária.

Freqüência absoluta e relativa por faixa etária da população de seminaristas e presbíteros que

procuraram psicoterapia entre 2000 e 2003.

Faixa Etária N°. %

20 a 25 anos 09 18,8

26 a 30 anos 10 20,8

31 a 35 anos 06 12,5

36 a 40 anos 08 16,7

41 a 45 anos 09 18,8

46 a 50 anos 03 6,3

51 a 55 anos 02 4,2

56 a 60 anos 01 2,1

Total 48 100,0

(32)

Tabela II, 3: Distribuição segundo o acompanhamento espiritual.

Distribuição dos sujeitos segundo Acompanhamento Espiritual entre 2000 e 2003

Acompanhamento Espiritual N°. %

Sim 19 39,6%

Não 29 60,4%

Total 48 100%

Os grupos de psicoterapeutas que se dispuseram a fornecer seus dados à pesquisadora enviam alguns de seus clientes também para um aconselhamento espiritual junto a um sacerdote com formação psicológica. Da Tabela II, 03 se depreende que um pouco menos de 40% dos atendidos tiveram esse tipo de assistência a qual visa esclarecer aspectos pouco claros eventualmente existentes na interface entre a problemática psicológica (enfrentada na psicoterapia) e o plano espiritual, que normalmente é cultivado por padres e seminaristas em função dos ideais religiosos que cultivam e do serviço espiritual que prestam ao povo.

Tabela II, 4: Distribuição segundo o número de sessões de psicoterapia.

Classificação dos pesquisados segundo o número de sessões de psicoterapia entre 2000 e 2003

Número de Sessões N° %

8 a 12 5 10,4

13 a 24 17 35,4

25 a 36 8 16,7

37 a 48 5 10,4

49 a 60 3 6,3

61 a 72 5 10,4

73 a 84 3 6,3

85 a 96 2 4,2

TOTAL 48 100,0

(33)

aparecem três grupos que constituem o mesmo percentual de 10,4% da amostragem total. São eles: os que tiveram, respectivamente, de 8 a 12 sessões; de 37 a 48 sessões e de 61 a 72 sessões. Foram relativamente poucos os que superaram a cota de 73 a 84 sessões, 6,3%, e de 85 a 96 sessões, 4,2%. E, mais além, vêm as duas faixas (de 49 a 60 sessões e 73 a 84 sessões) com 6,3%; e, por último, a faixa de 85 a 96 sessões com 4,2% .Se somarmos as freqüências, poderíamos dizer que a maior freqüência ao tratamento foi de 8 até 36 sessões, com 62,5% do atendimento, seguido de 37,5%, correspondendo ao atendimento de 37 a 96 sessões.

Tabela II,5: Distribuição dos sujeitos segundo encaminhamento à consulta psiquiátrica.

Freqüência bruta e relativa de pacientes que passaram por consultas psiquiátricas entre 2000 e 2003

N° %

SIM 18 37,5

NÃO 30 62,5

TOTAL 48 100,0

(34)

Tabela II, 6:Situação do acompanhamento.

“Situação do Atendimento” da população de pesquisados entre 2000 e 2003

N° %

Abandono 9 18,8

Alta 8 16,7

Alta a pedido 19 39,6

Encaminhado para outros 3 6,3

Saída da vida religiosa 4 8,3

Transferido 2 4,2

Em atendimento 2 4,2

Óbito 1 2,1

Total 48 100,0

Da Tabela II, 6, pode-se depreender que 39,6% dos pacientes solicitaram alta ao terapeuta. As razões para tanto não são devidamente especificadas. No grupo (18,8%) dos que abandonaram o tratamento, os indícios apontam para algum fator interno, mas é difícil dizer uma palavra definitiva a respeito, 16,7% tiveram alta, enquanto 8,3% saíram da vida religiosa. Além disso, 6,3 % foram encaminhados para outro serviço ou profissional, aqui ao que parece por razões externas e de conveniência. As categorias “Em atendimento” e “Transferido” tiveram a mesma freqüência, 4,2%, e foi a óbito um paciente (2,1%).

Síntese dos resultados das tabelas II,1 até II, 6

1.3.3. Tabelas resultantes de cruzamentos das tabelas do grupo I e as do grupo II:

(35)

Tabela III, 1: Cruzamento dos quadros diagnósticos com o

status dos sujeitos (seminaristas X presbíteros.

População pesquisada entre 2000 e 2003 de acordo com o Diagnóstico e

Identificação Geral

Seminarista Presbítero Total

DIAGNÓSTICO

F.32 3

12,5% 2 8,3% 5 10,4% F.41 1 4,2% 2 8,3% 3 6,3%

F.42 1 4,2%

1 2,1% F.60.8 1

4,2%

1 2,1%

F.63.8 1 4,2%

1 2,1%

F.65 5 20,4% 5 10,4% F.66 18 75,0% 5 20,8% 23 47,9% EFEB 7

29,2% 7 14,6% EPILEP 1 4,2% 1 4,2% 2 4,2% TOTAL 23 100,0% 25 100,0% 48 100,0%

Podemos observar na Tabela o Transtorno de depressão maior (F32) aparece de forma proporcional em ambos os subgrupos: 3 seminaristas e 2 presbíteros. O mesmo se diga do Transtorno de ansiedade generalizada (F 41): um seminarista e dois presbíteros acusam esse transtorno (2); já alguns diagnósticos aparecem somente em presbíteros e como caso único de diagnóstico tais como: Transtorno obsessivo compulsivo (F42), de Personalidade narcísica (F60. 8), Explosivo intermitente (F63. 8). No diagnóstico de parafilias (F65) apareceram 5 casos em presbíteros sendo no subgrupo de pedofilia (F65. 4) 4 casos.

(36)

Quanto ao Transtorno de identidade de gênero de Gênero (F66) ocorreram 18 casos em seminaristas, e 5 em presbíteros. E a categoria diagnóstica de epilepsia apareceu proporcionalmente (1) em seminaristas e (1) em presbíteros.

Tabela III, 2:Confronto entre categoria diagnóstica e faixa etária.

Diagnóstico Faixas etárias

20 a

25 anos 26 a 30 anos 31a 35 anos 36 a 40 anos 41 a 45 anos 46 a 50 anos 51 a 55 anos

56 a 60 anos Total Diagnóstico F32 2 20,0% 1 6,7% 1 11,1% 1 33,3% 5 10,4%

F41 1

16,7% 1 12,5% 1 11,1% 3 6,3%

F42 1

11,1%

1 2,1%

F60.8 1

33,3%

1 2,1%

F63.8 1

12,5%

1 2,1%

F65.4 1

12,5% 2 22,2% 1 50,0% 4 8,3%

F65.8 1

11,1%

1 2,1% F66 8

88,9% 8 80,0% 2 33,3% 2 25,0% 1 11,1% 1 33,3% 1 50,0% 23 47,9%

EFEB 2

33,3% 2 25,2% 2 22,2% 1 100,0% 7 14,6% Epilepsia % 1 11,1% 1 12,5% 2 4,2% Total 9

100% 10 100% 6 100% 8 100% 9 100% 3 100% 2 100% 1 100% 48 100%

(37)

diagnóstico foi a de 46 a 50 anos em que notamos o diagnóstico F32, F60. 8 e F66 (um paciente). A sexta faixa de maior diagnóstico foi a de 51 a 55 anos em que apareceram F65. 4 e F66 (um paciente). A última faixa de diagnóstico foi a de 56 a 60 com um diagnóstico Efeb. (um paciente).

Tabela III, 3: Distribuição da população estudada de acordo

diagnóstico e acompanhamento espiritual.

Acompanhamento Espiritual

Diagnóstico Sim não Total

F32 5 17,2% 5 10,4% F41 2 10,5% 1 3,4% 3 6,3% F42 1 5,3% 1 2.1%

F60. 8 1

5,3%

1 2,1%

F63. 8 1

5,3%

1 2,1%

F65. 4 4

21,1%

4 8,3%

F65. 8 1

5,3% 1 2,1% F66 4 21,1% 19 65.5% 23 47,9% EFEBO 3 15,8% 4 13,8% 7 14,6% EPILEPSIA 2 10,5% 2 4,2% Total 19 100,0% 29 100,0% 48 100,0%

(38)

Tabela III, 4: Distribuição da população estudada de acordo com o diagnóstico e número de sessões.

Número de Sessões 08 a 12

sessõe s

13 a 24 sessõe

s

25a 36 sessõe

s

37 a 48 sessõe

s

49 a 60 sessõe

s

61 a 72 sessõe

s

73 a 84 sessõe

s

85 a 96 sessõe s Total Diagnóstico F32 1 20,0% 2 11,8% 2 100,0% 5 10,4%

F41 1

5,9% 1 12,5% 1 20,0% 3 6,3

F42 1

33,3%

1 2,1%

F60.8 1

12,5%

1 2,1%

F63.8 1

20,0%

1 2,1%

F65.4 1

12,5% 1 33,3% 2 40,0% 4 8,3%

F65.8 1

33,3%

1 2,1% F66 2

40,0% 12 70,6% 3 37,5% 2 40,0% 1 33,3% 1 20,0% 2 66,7% 23 47,9% EFEB 2

40,0% 1 5,9% 1 12,5% 1 20,0% 2 40,0% 7 14,6% Epilepsia 1

5,9% 1 12,5%

2 4,2% Total 5

100% 17 100% 8 100% 5 100% 3 100% 5 100% 3 100% 2 100% 48 100%

(39)

Tabela III, 5: Cruzamento entre categoria diagnóstica e encaminhamento para consulta psiquiátrica.

Psiquiatria Sim Não Total Diagnóstico F32 4 22,2% 1 3,3% 5 10,4%

F41 2

11,1%

1 3,3%

3 6,3%

F42 1

5,6%

1 2,1%

F60.8 1

3,3%

1 2,1%

F63.8 1

5,6%

1 1 2,1%

F65.4 4

22,2%

4 8,3%

F65.8 1

3,3%

1 2,1%

F66 5

27,8%

18 60,0%

23 47,9%

EFEB 7

23,3%

7 14,6%

Epilepsia 1

5,6% 1 3,3% 2 4,2% Total %Psiquiatria 18 100,0% 30 100,0% 48 100,0%

(40)

Tabela III, 6: Cruzamento entre categoria diagnóstica e situação do atendimento.

Situação de Atendimento Aban

dono Alta

Alta a Pedido Encami-nhado para outros Saída da Institui-ção Trans-ferido Em atendi-mento

óbito Total

Diagnóstico F32 2 22,2% 1 12,5% 1 5,3% 1 25,0% 5 10,4%

F41 3

15,8%

3

6,3%

F42 1

50,0%

1 2,1%

F60.8 1

12,5%

1 2,1%

F63.8 1

5,3%

1

2,1% F65.4 1

11,1% 1 12,5% 1 5,3% 1 33,3% 4 8,3%

F65.8 1

5,3%

1

2,1% F66 5

55,6% 5 62,5% 7 36,8% 3 76,0% 2 100,0% 1 100,0% 23 47,9%

EFEB 4

21,1% 2 66,7% 1 50,0% 7 14,6% Eplepsia 1

11,1%

1 5,3%

2

4,2% Total 9

100% 8 100% 19 100% 3 100% 4 100% 2 100% 2 100% 1 100% 48 100%

(41)

1.3.4. Quadro sintético dos resultados das Tabelas II, 1 a II, 6.

Passo a fazer uma breve síntese dos pontos que sobressaem nas tabelas gerais. A amostragem é constituída por um número quase igual de participantes seminaristas (48%), de sacerdotes já ordenados (52%). O status de um presbítero é naturalmente muito mais definido e empenhativo do que o de um jovem ainda na fase seminarística.

Por faixa etária é de se supor que a maioria dos que têm idade inferior a 30 anos (N=19) sejam ainda seminaristas, já que praticamente quase todos os que apresentam idade superior a 30 anos (N= 29) se supõe que seja presbíteros.

Quase 40% dos sujeitos foram encaminhados para um acompanhamento espiritual oferecido por um sacerdote especializado.

O número de sessões havidas é importante em um balanço geral. Os 48 sujeitos podem, desse ponto de vista, ser divididos em três distintos segmentos. No primeiro, que teve entre 8 e 24 sessões, há 22 sujeitos. Talvez fosse mais adequado falar aqui de uma terapia de apoio ou, no máximo, de uma terapia breve. Um segundo subgrupo, de 16 sujeitos, teve entre 25 e 60 sessões, o que já possibilita falar de uma psicoterapia em sentido mais próprio. Em um terceiro grupo estão 10 pacientes, com um número de sessões de atendimento entre 61 e 96, tempo hábil para um tratamento terapêutico mais adequado. Que fatores se escondem por trás dessas discrepâncias?

37,5% dos pacientes da amostragem foram encaminhados também a uma consulta (ou a um tratamento) psiquiátrico, enquanto 62,5% não o foram. Nos casos de encaminhamento à psiquiatria, os psicoterapeutas sentiram a necessidade de um diagnóstico e eventual assistência médico-psiquiátrica especializada. Os dados não permitem ulteriores aprofundamentos das razões para tanto, mas esse é um tema relevante que merece uma devida atenção.

(42)

esse é provavelmente o motivo do fim do tratamento; 6,3% foram encaminhados a outros profissionais, provavelmente, em alguns casos, devido às freqüentes transferências (4,2%) que ocorrem com clérigos e religiosos. Houve um óbito.

1.3.5. Síntese das tabelas cruzadas (de Tab. III 1 a Tab. III 6).

Da Tabela III, se depreende que, ao lado de algumas coincidências, há certas diferenças entre os quadros nosológicos dos seminaristas e dos presbíteros. Na coluna dos seminaristas, pode-se ver que há um grande número de casos no item F 66 (75%). Essa mesma categoria comparece em apenas 20,8% dos presbíteros. A diferença é notável, razão pela qual cabe perguntar se existe algum fator sistemático por trás dessa discrepância. Uma outra observação pode ser feita. É a que indica a existência de 20,4% de efebofílicos entre os padres contra nenhum entre os seminaristas.

O que salientar na Tabela III, 2? A forte incidência da categoria diagnóstica F66. Ao que tudo indica essa presença é mais marcante entre os seminaristas. Supondo que a grande maioria de menos de 30 anos seja seminaristas, o percentual chega a 84%. Ao contrário, a efebofilia se concentra nos grupos etários entre 31 e 45 anos. Algo análogo se pode dizer do grupo F 41.

Observando a Tabela III, 3 pode-se observar que os pacientes encaminhados à orientação espiritual específica provinham de quase todos os grupos de diagnóstico (F41; F42; F60. 8; F 63.8; F 65.4; F 65.8; F 66; efebofílicos; epilépticos). Na coluna dos seminaristas apenas os F32 não o foram, enquanto entre os padres todos os F 32 o foram. Ainda uma observação: os efebofílicos foram encaminhados ao orientador espiritual em igual proporção (respectivamente, 15,8% e 13,8%). Haveria razões especiais para tal variação nos encaminhamentos ou é essa indicação fruto de outros critérios?

(43)

acentuar que os F 66 e os efebofílicos tendem a ficar em terapia por um tempo bastante restrito. Dos 23 do grupo F66, nada menos de 17 tiveram menos de 30 sessões. Dos efebofílicos, quatro de um grupo de sete se situam no mesmo patamar de provável insuficiência do número de sessões. Há uma outra consideração a ser feita. Dos 48 sujeitos da amostragem, somente 13 tiveram mais do que 49 sessões. Levanta-se uma questão de método e de objetivos: o que fazer em um número tão restrito de sessões com pessoas que, provavelmente necessitam de um atendimento especializado mais longo? Pode-se falar em uma psicoterapia em senso estrito? Valeria desenvolver uma metodologia de curta duração?

Quanto a uma assistência psiquiátrica (apenas consulta? acompanhamento? medicamentos? colaboração ?) é importante dizer que 37,5% dos 48 pacientes tiveram esse encaminhamento, contra 100% dos F 65.4. e de quatro entre os cinco F 32.Também com os F 41, F 42 e F 63.8 os percentuais são análogos. Já no grupo dos F 66 o percentual foi bem menor (27,8%). Dos efebofílicos, nenhum fez consulta psiquiátrica. São dados que levantam várias indagações quanto aos critérios e resultados de tal linha de conduta. È de se perguntar se existe nesse ponto uma linha de conduta refletida. Os dados em si não permitem dar uma resposta.

O término das sessões de tratamento se espelha na Tabela III, 6. O quadro não permite uma leitura precisa. Como já se insinuou, isso talvez se deva em parte à natureza da clientela e ao grupo institucional ao qual pertence o clero. A tabela permite discernir três tipos de término (expressão melhor que a de “alta”) da terapia. No primeiro deles o fim da terapia se deve a motivos externos ao processo (como a saída da vida religiosa, transferências e encaminhamentos para outros profissionais, etc.). No segundo grupo, deu-se “alta” (é o caso de 8 sujeitos) ou teve “abandono” (caso de 9 sujeitos). No total desses dois grupos se situam 36 dos 48 sujeitos. São dados a serem melhor analisados e equacionados.

1.4. Observações conclusivas

(44)

Brasil. É uma afirmação que vale muito especialmente quando se fala do que ocorre com os clérigos que passam por um de psicoterapia.

Chegando ao fim da apresentação dos dados que logrei levantar em minha pesquisa, não posso dizer que eles esclarecem todos os inúmeros pontos de obscuridade existentes. Mas meus dados – é minha esperança –que ofereçam um ponto de partida. Eles decorrem de psicoterapeutas com larga experiência no atendimento de clérigos e se fundamentam em dados que, embora não completos e sistemáticos, permitem certa objetividade. A complexidade do quadro tornou-se ainda mais patente, mas, quem sabe, alguma luz se fez.

Para mim, na medida em que meus dados iam se tornando mais transparentes, ficou cada vez mais claro que um campo afetivo sexual emergia como dominante na problemática levantada. Eu o chamei de “prevalências psicossexuais”, buscando propositadamente um termo bastante genérico. Os quadros nosológicos encontrados justificam que nos capítulos seguintes eu, sempre do ponto de vista do diagnóstico, me concentre naqueles quadros que indicam essas peculiaridades.

(45)

Capítulo 2

Elementos teóricos da dissertação

2.1. O percurso do psicodiagnóstico

Segundo Simon (1983) a história do diagnóstico em saúde mental passou por vários registros até chegar à atual conceituação no campo da psicologia.

Assim na Antiguidade a desordem mental era causada por espíritos e os curandeiros eram chamados a diagnosticar. Com os gregos e a concepção cosmogônica naturalista dos filósofos pré-socráticos (final do século VII, início século VI a.C.), a doença mental é vista como de etiologia física, passando assim à competência da medicina. Já no período da Idade Média ocorreu uma retomada das crenças e explicações religiosas e práticas de cura inspiradas em concepções místicas e supersticiosas. Os doentes mentais eram diagnosticados desde esse ponto de vista e submetidos, por isso, a “tratamentos” da mesma índole.

No período na Renascença (século XV e XVI), os estudiosos retomam o conceito teórico hipocrático, fundamentado na observação dos fenômenos, e assim, os distúrbios mentais são vistos pela comunidade científica como tendo causas naturais, o que reabilita a intervenção da medicina, e provoca certo distanciamento entre interpretações teológicas e filosóficas.

(46)

Já psiquiatras posteriores, como Kraepelin, Bleuler e o próprio Freud, se conduzem numa única direção, elaborando de maneira cada vez mais sofisticada a interpretação etiológica dos fenômenos psicológicos e psicopatológicos.

Atualmente os estudos clínicos tendem a ter uma visão mais integrada da saúde mental e dos distúrbios psicopatológicos em geral. Surge uma maneira mais eclética de se conduzir a saúde mental, incorporando elementos provenientes das ciências sociais, e do avanço dos estudos estatísticos, da biologia, da neurologia e o grande desenvolvimento da tecnologia, bem como das próprias novas teorias desenvolvidas no campo das ciências “psi.” O avanço no campo da farmacologia e das tecnologias diagnósticas tem também grande influência na evolução do diagnóstico. Nos EUA ocorreu um grande esforço no desenvolvimento no campo psicométrico. Na Europa surgem técnicas preocupadas também com a organização e funcionamento da estrutura da personalidade. Destaca-se nesse campo o Método Rorschach.

2.1.1. Sistemas classificatórios mais utilizados

No início do século XX ocorreu a preocupação com a organização e classificação das doenças mentais, dadas as dificuldades de comparar as informações estatísticas coletadas, pela falta de uniformidade na classificação das doenças mentais. Os dois sistemas classificatórios das doenças mentais mais utilizados atualmente são o DSM (Diagnostic And Statistical Manual Of MentalDisorders), desenvolvido pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) e a CID (Classificação Internacional de Doenças) criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

2.1.1.1. A Classificação Internacional das Doenças (CID)

(47)

1893, e assumida pelo Instituto Estatístico Internacional, sob o nome de Classificação Internacional de Causas de Morte. E depois sua nova versão passou a ser chamada de Classificação Internacional de Doenças, Danos e Causas de Morte e são reformuladas no intervalo de dez em dez anos, e, na sexta reformulação, (CID 6), a classificação passou a ser utilizada também para efeito de verificação da taxa de morbidade e mortalidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou em 1984 um grupo de estudiosos, com o objetivo da revisão da CID-10, e muitos pesquisadores foram convidados, de várias partes do mundo, a partir de uma grande conferência internacional sobre classificação e diagnóstico, realizada em Copenhagem, Dinamarca em 1982. Notáveis esforços foram empreendidos envolvendo 40 paises, com o fito de desenvolver a entrevista diagnóstica internacional, ela foi composta como um instrumento adequado para conduzir estudos epidemiológicos de transtornos mentais em grupos de população em diferentes paises.

A Classificação Internacional de Doenças (CID 10) ao todo é formada de 21 capítulos definidos em códigos alfanuméricos por uma letra, e o quinto capítulo é o equivalente aos transtornos mentais e do comportamento. O código alfanumérico é constituído de cinco caracteres sendo o primeiro uma letra (sempre F) no caso de transtornos mentais e de comportamento, o segundo se refere à classe diagnóstica, o terceiro, à categoria. Os dois últimos caracteres designam uma subdivisão categorial e um detalhamento diagnóstico.

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F 0 Transtornos Mentais Orgânicos incluindo Sintomáticos

F1 Transtornos Mentais e de Comportamentos Decorrente do uso de Substância Psicoativa

F2 Esquizofrenia, Transtornos Esquizotípicos e Delirantes.

F3 Transtornos do Humor (Afetivo)

F4 Transtornos Neuróticos Relacionados com o Estresse e Somatoformes

F5 Síndromes Comportamentais Associadas a Perturbações Fisiológicas e Fatores Físicos.

F6 Transtornos de Personalidade e de Comportamento em Adultos.

F7 Retardo Mental

F8 Transtornos do Desenvolvimento Psicológico

F90 a F98 Transtornos Emocionais e de Comportamento com Início usualmente ocorrendo na Infância e

Adolescência

F99 Transtorno Mental não Especificado.

2.1.1.2. O Diagnostic and Statistical Manual (DSM) of Mental Disorders

Grob (1991, apud MIGUEL JORGE, 1996) divulgou um curioso trabalho de revisão sobre o surgimento do DSM. Nesse material, ele comenta que no século XIX as doenças mentais eram indiferenciadas das doenças físicas, e os psiquiatras, da mesma forma que os outros médicos, caracterizavam as doenças mentais por meio da análise dos sintomas e dos sinais.

Com o desenvolvimento das ciências sociais e dos estudos estatísticos possibilitou-se o desenvolvido do DSM que foi instituído pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), graças aos esforços de vários pesquisadores.

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grupos diagnósticos baseados nos fundamentos biológicos utilizados por Kraepelin.

Adolf Meyer foi um dos maiores críticos desse modelo classificatório dos sintomas, e com base em sua concepção genético-dinâmica expunha a sua teoria sobre a importância da experiência de vida da pessoa, juntamente com os dados fisiológicos e biológicos. Com a introdução da psicanálise no quadro teórico vigente nos primórdios do século XX e os estudos e pesquisas psicanalíticos a partir das observações e descrições das patologias transcorridas na Segunda Guerra Mundial, houve ênfase no entendimento da responsabilidade social em relação aos problemas da vida diária, através da psiquiatria social de Menniger.

E, em 1948, ocorreu a divulgação da CID 6, esta não incluía as síndromes cerebrais crônicas, vários transtornos de personalidade e reações transitórias ou situacionais, que eram de grande importância para psiquiatras norte-americanos, especificamente aqueles seguidores de Adolf Meyer e William Menninger. Tal fato mobilizou a Associação Psiquiátrica Americana (APA) a criar uma substituição para a CID 6, e editar o DSM I, que divulgou as idéias de Meyer, Menninger e Freud.

Em 1988, a Associação Psiquiátrica Americana produziu o DSM IV e realizou revisões em 1991e 1993. Nelas conservou os critérios de categorias e recomendou cuidado em relação ao trabalho diagnóstico por ser praticado por pessoas não habilitadas e incluiu uma nova seção em que considera a diversidade de culturas.

Cada categoria diagnóstica incluiu dados acerca dos transtornos e aspectos associados à idade, cultura, sexo, prevalência, incidência, risco, curso, complicações, fatores predisponentes, padrão familiar e diagnóstico diferencial.

(50)

O diagnóstico no DSM IV é multiaxial, e está dividido em cinco eixos, o eixo I abrange os transtornos de desenvolvimento; o eixo II constitui os transtornos de personalidade e deficiência mental; o eixo III são as condições médicas gerais, em que ocorre um transtorno mental devido a uma condição clínica atual; o eixo IV está ligado aos problemas do viver, ou de estressores psicossociais; e por último o eixo V é a Avaliação Global do Funcionamento (AGF), que quantifica o julgamento por parte do clínico, a gravidade dos sintomas e o nível de funcionamento do paciente, e resume o funcionamento psicológico, social e ocupacional. A escala (AGF) se estende de 1 a 100.

Miguel Jorge acredita que a padronização de conceitos e critérios diagnósticos em psiquiatria caminha para uma linguagem comum, e a divergência entre os dois sistemas classificatórios mais utilizados, o DSM e o CID, já não faz sentido, tendo em vista a grande utilidade que trazem para fins clínicos e de pesquisa.

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM IV-TR)-APA

EIXO I

Transtornos Clínicos Transtornos Cognitivos

Transtornos Relacionados ao uso de Substâncias Esquizofrenia e outros Transtornos Psicóticos

Transtorno de Humor Transtorno de Ansiedade Transtornos Somatoformes

Transtornos Dissociativos

Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero Transtorno da Alimentação

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EIXO II

Retardo Mental Transtorno de Personalidade

Grupo A Paranóide Esquizóide Esquizotímica

Grupo B Anti-Social Borderline Histriônico Narcísico

Grupo C Esquiva Dependente Obsessivo-Compulsiva

EIXO III

Perturbações Orgânicas (História Médica) Transtornos Físicos Transtornos Neurológicos

Endocrinopatias Desequilíbrio Eletrolítico Doenças Vasculares do Colágeno

Doenças Circulatórias Infecções Carcinoma Deficiência de Vitaminas

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EIXO IV

Avaliação dos Estressores Psicossociais

Problemas do Viver ou Estressores Externos Problemas Psicossociais e Ambientais

Problemas de Família Morte de uma Pessoa Significativa

Abuso Infantil ou Sexual Dificuldade de Aculturação

Analfabetismo Pobreza Extrema

Problemas no Trabalho ou Desemprego Problemas Legais (Quer como Réu ou Vítima)

EIXO V

A Avaliação Global do Funcionamento (AGF) quantifica o julgamento por parte do clínico da

gravidade dos sintomas e do nível de funcionamento do paciente (resume o funcionamento psicológico,

social e ocupacional). A avaliação se estende de 1 a 100.

2.1.2. O diagnóstico psicológico

O termo diagnóstico vem sendo utilizado sempre que tentamos ter uma visão sobre um determinado fenômeno, quando observamos suas características, sua relação com o todo, e, de uma forma bem natural, estabelecemos aí um modo de diagnosticar.

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fazemos a leitura de um acontecimento valendo-se de critérios específicos de um determinado campo do saber, estamos fazendo um diagnóstico científico em relação a esse campo.

Para Simon (1983, p.19), o termo diagnóstico vem do grego e dia significa separar e gnosis significa perceber ou conhecer. Assim, para algo ser conhecido ou percebido, é necessário haver uma separação ou discriminação. Ele diz que “o uso do diagnóstico deve sua existência à necessidade do intelecto humano de poupar trabalho, uma das formas de conseguir é utilizando abstrações.”

A psicologia se constituiu a partir das ciências humanas e é daí que incide seu olhar para os fenômenos, nos quais introduz seus procedimentos, sua teoria, sua técnica, e, à medida que unificou seu objeto de estudo, ela conquistou sua identidade profissional.

Ancona Lopez observa que o diagnóstico em psicologia se iniciou em 1896, quando o psicólogo foi chamado à clínica médica para fazer procedimentos diagnósticos com crianças deficientes físicas e mentais. E a partir da visão desse modelo médico, a doença mental passou a fazer parte dos estudos científicos, distanciando das causações divinas ou das possessões; Dessa forma ela tornou-se objeto de observação, descrição e classificação e paralelamente à psiquiatria, que tratava das doenças mentais, surgiu a psicopatologia, divisão da medicina que estuda o comportamento anormal, e, ao lado a psicologia geral, que pesquisava a esfera psíquica, emergiu a psicologia clínica, cujo interesse principal está centrado na esfera da angústia humana.

Imagem

Tabela A: comparação entre os 48 pacientes em estudo e o total de 149  atendidos pelos terapeutas no período de 2000 a 2003
Tabela B Tabela de % comparativa de grupo em estudo  por distúrbios da sexualidade

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