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Einstein (São Paulo) vol.12 número2

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Academic year: 2018

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Editorial

Uma nova revolução sexual

A new sexual revolution

Carmita Helena Najjar Abdo*

* Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Autor correspondente: Carmita Helena Najjar Abdo – Rua Dr. Ovidio Pires de Campos, 785 – CEP: 05403-903 – São Paulo, SP, Brasil E-mail: [email protected]

DOI: 10.1590/S1679-45082014ED3182

Para a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM- IV),(1) as disfunções sexuais se definiam

pela presença de dor ou alguma alteração em uma ou mais das fases do ciclo linear de resposta sexual (desejo – excitação – orgasmo – resolução).

Já na quinta edição desse manual, o DSM-5,(2) publicada em 2013, as

disfun-ções sexuais foram consideradas gênero-es pecíficas, passando as dificuldades de desejo e de excitação da mulher a consti-tuírem uma única disfunção (do interesse/ excitação sexual). Transtorno de dor geni-topélvica/à penetração também passou pa ra uma só categoria, deixando de ser, respec-tivamente, dispareunia e vaginismo (como constavam no DSM-IV), porque, segundo os especialistas norte-americanos, são con-dições de difícil distinção.

Quanto aos subtipos, as disfunções con-tinuam sendo caracterizadas como ao longo da vida (primárias) ou adquiridas (secundá-rias), e generalizadas (quando ocor rem em quaisquer circunstâncias) ou si tuacionais. Mas a intensidade do sofrimento (míni-mo, moderado ou grave) agora também compõe a caracterização das disfunções e o contexto deve ser especificado: fatores relativos à parceria, ao relacionamento,

à vulnerabilidade individual, à cultura, à religião e os de ordem médica devem ser relatados.

Um mínimo de 6 meses de duração fir mou-se como critério para o diagnós-tico da disfunção sexual, no sentido de se evitarem “exageros” e se aumentar a precisão, diferenciando problemas transi-tórios de dificuldades persistentes e, por-tanto, patológicas.

Quanto às questões relacionadas à in congruência de gênero, reunidas como transtorno de identidade de gênero no DSM-IV, uma nova denominação diag-nóstica (menos estigmatizante) foi suge-rida pelo DSM-5: a disforia de gênero, considerada uma multicategoria, pois en-globa disforia em crianças, adolescentes e adultos.

Os critérios A (identificação com o gê -nero oposto) e B (aversão em relação a um gênero) foram unificados, em razão de não haver evidências que justificassem mantê-los separados.

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tério A1 para crianças, “forte desejo de ser do outro gênero ou a insistência de pertencer a outro gênero”, é necessário, mas não suficiente, para o diagnóstico, ago-ra mais restritivo.

Uma ampla mudança foi proposta para as parafilias no DSM-5: parafilia não é, por si só, transtorno mental, devendo ser distinguida de transtorno parafílico. A pa-rafilia passa a ser transtorno quando causa sofrimento ou prejuízo ao indivíduo. Também quando leva a danos pessoais ou risco de dano a outros. Portanto, parafilia é uma condição necessária, mas não suficiente para diag-nóstico de transtorno parafílico e, consequentemente, não requer intervenção clínica automática.

A distinção entre parafilia e transtorno parafíli-co não alterou as definições diagnósticas já estabeleci-das, desde o DSM-III-R.(3) No DSM-5, dois critérios

se destacam: o critério A, que especifica a natureza da excitação parafílica (com peças íntimas de mulher, por exemplo, como no fetichismo) e o critério B, que apon-ta as consequências negativas (sofrimento psicológico, prejuízo em outras áreas da vida, risco de dano a outro). Se o indivíduo preenche o critério A, mas não preenche

o B, não há transtorno parafílico, mas parafilia. Portan-to, essa nova concepção aceita o comportamento sexual atípico, desde que consensual, como não patológico. Isso implica que os indivíduos envolvidos não sejam incapazes de dar seu consentimento (como crianças e deficientes mentais, por exemplo).

A simples apresentação desses novos conceitos e critérios diagnósticos suscitou dúvidas e acaloradas dis-cussões no meio acadêmico, o que repercutirá na clíni-ca. Refletem, afinal, uma revolução na forma como os especialistas norte-americanos entendem o comporta-mento e a função sexual nos dias de hoje. Vamos aguar-dar, curiosos, o que a CID-11 irá propor.

REFERÊNCIAS

1. Associação Psiquiátrica Americana (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Texto revisado (DSM-IV-TR). 4a ed. Porto Alegre: Artmed; 2002.

2. American Psychiatric Association (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5th ed. Arlington, VA: APA; 2013.

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