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A política de descentralização de recursos públicos para o ensino fundamental e seus reflexos na gestão da qualidade do ensino público

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Academic year: 2017

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(1)

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA – UCB

Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

A POLÍTICA DE DESCENTRALIZAÇÃO DE RECURSOS

PÚBLICOS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL E SEUS

REFLEXOS NA GESTÃO DA QUALIDADE DO ENSINO

PÚBLICO MUNICIPAL

Eunice Nóbrega Portela

(2)

Eunice Nóbrega Portela

A POLÍTICA DESCENTRALIZAÇÃO DE RECURSOS

PÚBLICOS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL E SEUS

REFLEXOS NA GESTÃO DA QUALIDADE DO ENSINO

PÚBLICO MUNICIPAL

BRASÍLIA – UCB

Dissertação apresentada ao Programa de Pós_Graduação “Stricto Sensu” da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Educação.

(3)

TERMO DE APROVAÇÃO

Dissertação de autoria de Eunice Nóbrega Portela, intitulada A política de descentralização de recursos públicos para o ensino fundamental e seus reflexos na gestão da qualidade do ensino público municipal, requisito parcial para obtenção do grau de Mestre do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação, defendida e aprovada, em 01 de

dezembro de 2006, pela banca examinadora constituída por:

_______________________________

Dra. Beatrice Laura Carnielli

Orientadora

________________________________

Dr. José Manoel Pires Alves Examinador

_________________________________

Dra. Naide Pereira Caldas Examinadora Externa

(4)

AGRADECIMENTOS

À professora Doutora Beatrice Laura Carnielle, orientadora desta dissertação, pela atenção, disponibilidade, intervenções e estímulo durante a realização deste estudo;

Ao professor Doutor José Manoel Alves, membro da Banca Examinadora, pela orientação na qualificação e pela disponibilidade em fazer parte dos membros avaliadores deste trabalho;

À professora Doutora Naide Pereira Caldas, minha gratidão pela forma com que se dispôs a orientar-me nas horas em que a dúvida impedia-me de vislumbrar novos caminhos, pela paciência e pela participação na banca examinadora;

À minha mãe, Hilda, razão maior da minha vida, exemplo de coragem, amor, bondade e sabedoria pela competência com que conduziu minha criação.

Ao meu pai, Salvador, pelo carinho, compreensão e pela ausência consentida durante a realização deste trabalho;

Aos irmãos, irmãs, sobrinhos(as) e demais parentes pelo incansável incentivo e carinho;

Aos meus amados filhos, Ilson Júlio e Eveline Lorrane pelas horas de convivência e lazer que deles subtrai, deixando de partilhar momentos únicos de suas vidas em prol deste trabalho.

Aos amigos das horas de crises, Eduardo Brito, Eiter, Joana Gláucia, Luiz Carlos e Lídia, que inúmeras vezes acalentaram cansaços e desesperanças com palavras de incentivo e carinho;

(5)

A Diretoria do Centro de Ensino Superior do Brasil – CESB pelo incentivo, apoio e pela credibilidade em mim depositada.

(6)

“Educação e qualidade são sempre uma questão política,

fora de cuja reflexão, de cuja compreensão não nos é

possível entender nem uma nem outra.”

(7)

SUMÁRIO

Termo de Aprovação...iii

Agradecimentos...iv

Lista de Quadros...ix

Lista de Gráficos...xi

Resumo...xii

Abstract ...xiii

1 – INTRODUÇÃO: O ESTUDO, SEUS OBJETIVOS E PROCEDIMENTOS...14

1.1 – Objetivos ...18

1.2 – A Pesquisa Procurou Investigar Três Questões Básicas...18

1.3 – Procedimentos Metodológicos...19

1.3.1 – Modelo de estudo...19

1.3.2 – Cenários de Pesquisa...20

1.3.3 – Sujeitos da Pesquisa...21

1.3.4 – Técnicas de Coletas de Dados e Informações Levantadas...21

1.4 – Estrutura do Trabalho...24

2 – REVISÃO DA LITERATURA...25

2.1 – Descentralização da Educação: Breve Histórico...25

2.2 – Conceito de Qualidade Aplicado ao Ensino e a Gestão Escolar ...31

2.2.1 – Introdução...31

2.2.2 – O Conceito de Qualidade...35

2.2.3 – A Qualidade na Educação...37

2.2.4 – O Gestor e a Qualidade do Ensino...45

2.2.5– Participação e Democracia na Escola...49

2.2.6 – Os Recursos Financeiros no Ensino Fundamental...53

2.3 – O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério...62

2.3.1 – Dados Gerais Sobre a Escolarização do Magistério da Educação Básica – Antes e Depois do PROFORMAÇÃO...67

2.3.2 – Programa de Formação de Professores em Exercício – PROFORMAÇÃO...70

2.3.2.1 – Programa de Formação de Professores em Serviço...72

2.4 – Salário Educação ...73

2.5 – O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE...74

2.5.1 – Histórico e Origem...74

2.5.2 – Principais Programas e Recursos Aplicados pelo FNDE...75

2.5.2.1 – Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)...75

2.5.2.2 – Programa Dinheiro Direto na Escola...77

2.5.2.3 – Programa Nacional de Biblioteca Escolar (PNBE)...81

2.5.2.4 – Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)...82

2.5.2.5 – O Programa Nacional de Saúde Escolar (PNSE)...83

2.6 – FUNDESCOLA...83

(8)

3.1 – A receita tributária do Estado de Goiás...92

3.1.1 Os recursos do FUNDEF...93

3.1.2 – Reflexos da Descentralização Financeira Na Municipalização do Ensino ...95

4 – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS...98

4.1 – O Contexto da Pesquisa...98

4.1.1 – O Financiamento do Ensino Fundamental em Novo Gama...101

4.2 – Os Eixos da Análise dos Dados do Município de Novo Gama...102

4.2.1 – O Financiamento...103

4.2.1.1 – Origem dos Recursos, Tipos e Tramitação...103

4.2.1.2 – Critérios de Aplicação...105

4.2.1.3 – Prestação de Contas...106

4.3 – A Qualidade do Ensino, Seu Entendimento e Condicionantes...108

4.3.1 – O Entendimento de Qualidade, Segundo os Representantes dos Segmentos Educacionais de Novo Gama...108

4.3.2 – Buscando Alcançar Padrões de Qualidade...111

4.3.2.1 – Em Busca das Estratégias que Promovem a Qualidade de Ensino ...120

4.3.3 – Atendimento das Expectativas e Necessidades da Clientela da Escola, em Termos da Qualidade do Ensino Oferecido...125

4.3.4 – Avaliando a Avaliação, o Rendimento Escolar e a Qualidade do Ensino...131

5 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES...143

5.1 – Considerações Preliminares...143

5.2 – Considerações Finais...146

5.3 – Recomendações...149

6 – BIBLIOGRAFIA...152

7 – GLOSSÁRIO...158

(9)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1: Valor Mínimo Aluno/Ano, segundo o FUNDEF – 1997 a 2005...64

Quadro 2: Evolução da Formação Acadêmica dos Professores da Educação Básica, em Anos Selecionados ...69

Quadro 3: Número de Professores por Grau de Formação no Brasil – 1997 e 1998...70

Quadro 4: Distribuição da Quota Estadual e Municipal do Salário Educação por Região, 2004-2005...74

Quadro 5: Desempenho do PNAE no Período 1995-2004...76

Quadro 6: Valor da Parcela do PDDE, em 2005, por Região...78

Quadro 7: Valor Anual do PDDE para Despesas de Custeio e Capital, segundo o Número de Alunos na Escola...78

Quadro 8: Dados de Execução do PDDE...80

Quadro 9: Dados da Execução do PNBE no Período de 1999-2004...81

Quadro 10: Atuação do PNLD nos Anos de 2003, 2004 e 2005... 82

Quadro 11: Quantidade de Escolas Atendidas pelo PDE, por Região ...86

Quadro 12: Recursos do PME, segundo o Número de Alunos Matriculados na Escola..87

Quadro 13: Atendimento do PME, por Região...87

Quadro 14: Demonstrativo da Escola Ativa...88

Quadro 15: Atuação do PAPE...90

Quadro 16: Principais Receitas do Estado de Goiás, 2000 a 2005...92

Quadro 17: Aporte da Quota Estadual e Municipal do Salário Educação ao Estado de Goiás, 2004 e 2005...93

Quadro 18: Custo Aluno/Ano no Estado de Goiás no Ensino Fundamental e Valor Mínimo Nacional, em 2005...95

Quadro 19: Matrículas no Ensino Fundamental no Estado de Goiás...95

Quadro 20: Quantitativo de Alunos das Escolas Pesquisadas...100

Quadro 21: Evolução das Matrículas na Rede Municipal de Ensino Fundamental, 2001-2004...100

Quadro 22: Receita Pública do Município de Novo Gama, 2001 a 2005...101

Quadro 23: Recursos Repassados pelo FNDE ao Município de Novo Gama, em 2004 e 2005...102

(10)

Quadro 25: Opinião dos Alunos, em Percentual, sobre a Escola Freqüentada e o Ensino

nela Ministrado...130

Quadro 26: Percentual de Alunos da 3.ª Série do Ensino Fundamental, com Média

Insatisfatória, por Bimestre, no Ano de 2005...137

Quadro 27: Resultados de Médias Insatisfatórias dos Alunos da 4.ª Série das Escolas

(11)

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Criação de Unidades Executoras nas Escolas Públicas Estaduais e

Municipais-1995 a 2003 ...81

Gráfico 2: Contribuição e Receita do Estado de Goiás ao FUNDEF, em 2004...93

Gráfico 3: Repasses do FUNDEF para o Estado de Goiás, 1998/2004...94

Gráfico 4: Evolução das Matrículas no Ensino Fundamental, no Estado de Goiás por

Esfera de Governo, 1997-2004...96

Gráfico 5: Matrículas no Ensino Fundamental, Escolas Estaduais e Municipais,

1991-2004 – Em percentual...96

(12)

RESUMO

A presente pesquisa teve como objetivo geral analisar a política de descentralização de recursos públicos para o ensino fundamental e seus reflexos na gestão da qualidade do ensino público municipal. Para tanto, realizou-se estudo exploratório em amostra de quatro escolas públicas do município do Novo Gama (GO), as quais são contempladas com os programas de descentralização de recursos. A investigação teve como ponto de partida as fontes e as formas de financiamento da educação pública do ensino fundamental e as políticas e programas de descentralização de recursos do Governo Federal em favor dos estados e municípios. A base teórica considerou o conceito de qualidade do ensino, entendido como aquele que atende às expectativas e necessidades dos beneficiários dos serviços educacionais, atendimento esse que pressupõe ser a constante melhoria da qualidade, missão e objetivo de toda a organização escolar. Contou com as informações colhidas em entrevistas semiestruturadas com gestores municipais, diretores de escolas, coordenadoras e pais integrantes do Conselho Escolar das escolas pesquisadas, no município em questão.Uma amostra de alunos e professores também prestou informações pelo preenchimento de questionários. A pesquisa constatou haver diferença no grau de conhecimento das fontes e características dos programas apoiados pelos recursos descentralizados entre os segmentos da área educacional. Foi ressaltada a importância do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE) como instrumento de planejamento das atividades escolares. Por outro lado, o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) foi considerado o programa com maior reflexo na melhoria da qualidade do ensino. Na opinião dos segmentos pesquisados, os recursos descentralizados têm sua aplicação planejada de forma democrática e têm contribuído para a melhoria da qualidade do ensino fundamental. Para futuras pesquisas, é recomendado que seja aprofundada a gerência da qualidade, para a qual os recursos são importantes, porém não de conhecimento das fontes e características dos programas apoiados pelos recursos descentralizados determinantes.

(13)

ABSTRACT

The research aimed to analyze the importance for the management of the local public education of the financial resources transferred by the Federal Government. In orther to achieve this purpose, an exploratory study was undergone in a sample of four schools in the county of Novo Gama-GO, which receive federal resources. Initially, were listed the forms of financial support for the elementary education and the policies and programs intended to attend the states and counties. The theory adopted focuses the quality of education, meaning as that which is in accordance with the expectations and needs of the clients of the educational services. To achieve these purposes, the improvement of the quality must be a mission and objective of all the school organization. The research obtained the necessary information through interviews with the county educational authorities, school directors, coordinators and parents belonging to the School Council. A sample of teachers and pupils were also gave information’s through the use of questionnaires. It was noted a considerable difference among the personal in the acknowledgment about the programs financed with federal resources. It was underlined the importance of the School Development Plan (PDE) as a tool for the planning of the school activities. On the other hand, the Money Directors to the School (PDDE) was considered the program with major benefits for the improvement of the quality of the elementary education. In the opinion of the personal, the utilization of the resources is democratically planed and has a considerable impact in the quality of the elementary education. For future researches is recommended to deepen the management of quality of the education, for which resources are essential but not sufficient to fulfill all the needs.

(14)

1 – INTRODUÇÃO

O ESTUDO, SEUS OBJETIVOS E PROCEDIMENTOS

“Quando tentamos um adentramento no diálogo como fenômeno humano, se nos revela algo que já poderemos dizer ser ele mesmo: a palavra. Mas, ao encontrarmos a palavra, na análise do diálogo, como algo mais que um meio para que ele se faça, nos impõe buscar, também, seus elementos constitutivos”.

Paulo Freire

O financiamento da educação, considerando a sua complexidade, geralmente não

desperta o interesse dos educadores, principalmente como objeto de estudo. Esse fato sempre

me pareceu intrigante, pois, embora a literatura da área aponte a relevância das políticas de

financiamento do ensino público, os professores, e até mesmo os gestores, parecem não

estabelecer nenhuma relação entre a questão do financiamento do ensino e a sua qualidade ou

até mesmo com a política de valorização profissional.

A idéia da pesquisa teve sua origem nessas inquietações muitas vezes levantadas pelos

alunos da disciplina que ministro no ensino superior, Política, Estrutura e Gestão da

Educação, da dificuldade em encontrar um material que reúna os recursos financeiros

destinados ao ensino fundamental e apresente uma análise do processo de apoio federal a esse

nível, enfocando seus reflexos na gestão da qualidade do ensino. O desafio era como construir

algo para satisfazer uma necessidade de informação e conhecimento, tanto dos futuros

professores quanto da docente, sem render-se às abordagens simplistas, tratando de maneira

clara o financiamento da educação e que ao mesmo tempo permitisse uma compreensão do

tema por quem vier a fazer uso deste trabalho.

Parte da concepção de que para organizar uma pesquisa nessa área era necessário ler,

interpretar, buscar uma série de leis e dados que pudessem dar ao tema a real dimensão que

ele possui no cenário político contemporâneo. Busquei definir o contexto para compreender

os condicionamentos do financiamento do ensino fundamental. Dessa forma, a pesquisa foi

ganhando contornos e delineando-se como algo novo, esclarecedor e, portanto, viável.

Assim sendo, o tema A Política de Descentralização de Recursos Públicos para o

(15)

de pesquisa durante dois anos, em que se identificaram os mecanismos de apoio financeiro

federal ao ensino fundamental, levantando suas principais fontes, forma de transferência,

aplicação, destinação e possíveis entraves à sua utilização; analisaram-se os repasses

efetuados ao município, por programa, nos últimos cinco anos; e identificaram-se os

programas que têm contribuição mais efetiva na melhoria da qualidade do ensino fundamental

público.

A literatura aponta que ao longo de sua história este país tem atravessado momentos

que priorizaram o controle centralizado e outros que buscaram a descentralização do controle

dos sistemas de educação básica. Segundo o dicionário Aurélio (2004, p. 235),

“Descentralizar é dar autonomia”. Nesse enfoque de estudo, descentralizar será entendido

como dar autonomia a órgãos públicos, administrativos, tornando-os desvinculados do poder

central.

Num breve retrospecto histórico, é possível perceber que a descentralização de

recursos para apoiar os sistemas de educação básica não é uma questão recente. Fávero (2001)

destaca que a descentralização começa a configurar o cenário das políticas educacionais,

desde 1834, quando, após o Ato Adicional de 1834, referendado pela Constituição de 1891,

assim como pela revisão de 1926, estabeleceu-se um federalismo educacional que acabou

determinando que o ensino das primeiras letras ficasse a cargo primeiro das Províncias e

posteriormente dos Estados recém-criados. Nasce aí, portanto, a idéia da descentralização do

ensino da esfera federal em favor dos estados e municípios, ainda presente no cenário das

políticas educacionais pós-anos 80.

A municipalização do ensino fundamental, prevista na Constituição Federal de 1988,

Art. 211, passou a ter maior impulso com a criação do Fundo de Manutenção e

Desenvolvimento do Ensino fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF), além

de outros programas federais de apoio ao sistema municipal de ensino. A Carta Magna

notabilizou-se em dar maior autonomia a estados e municípios, ou seja, intensificou a política

de descentralização de competências e recursos.

A descentralização do poder, ou seja, o repasse pelo governo central de atribuições

administrativas para as esferas subnacionais, tem como objetivo desburocratizar,

(16)

Nas últimas décadas, verificou-se que as políticas educacionais têm sofrido novos

contornos decorrentes, entre outros, de alterações substantivas na forma de gestão dos

sistemas de ensino. Tradicionalmente, à União cabia a manutenção do seu sistema de ensino,

composto pelas Instituições de Ensino Superior (IES) e Escolas Técnicas. Os Estados

assumiram a responsabilidade pelo ensino fundamental e médio, a participação dos

municípios sendo irrelevante percentualmente no atendimento escolar, salvo poucas exceções.

A Constituição Federal de 1988 veio mudar esta configuração, pois define no seu Art. 211:

A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. § 1.º A União organizará e financiará o sistema federal de ensino e dos Territórios, e prestará assistência técnica e financeira aos Estados, Distrito Federal e aos Municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória.

§ 2.º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e pré-escolar.

A passagem da responsabilidade pelo ensino fundamental dos estados para os

municípios tem sido um processo complexo e vagaroso, ainda em curso, na maioria dos

estados.

Outro ato normativo relevante, promulgado logo após a LDB, Lei n.º 9.394/96, foi a

instituição do Fundo Nacional de Desenvolvimento e de Valorização do Magistério

(FUNDEF), decorrente da Emenda Constitucional de 14/12/96, regulamentada pela Lei n.º

9424/96. O FUNDEF foi implantado em 01/01/98 com o objetivo de promover a

universalização, a manutenção e a melhoria da qualidade do ensino fundamental. Entre as

inovações do FUNDEF, podemos destacar que os recursos para educação, em volume

proporcional ao número de alunos matriculados na rede pública no ano anterior, são

repassados para os estados e municípios e depositados em uma conta bancária específica, a

fim de facilitar a fiscalização de sua aplicação. Com a criação deste Fundo, a União passa a

ter o caráter supletivo, complementando os recursos dos estados que não atingiram o valor

custo/aluno/ano mínimo definido nacionalmente.

Nesse contexto, compete à União exercer junto aos estados e aos municípios ação

supletiva e redistributiva, como forma de corrigir as disparidades educacionais existentes

entre as diversas regiões do País. Esta ação do governo federal, no âmbito educacional, é

(17)

suplementar1 a planos e projetos educacionais, apresentados, anualmente, pelos estados, Distrito Federal e municípios. Tais projetos se apresentam sob forma de Planos de Trabalho

(PTA), elaborados conforme critérios estabelecidos pela Secretaria de Educação Básica (SEB)

e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Sendo assim, o governo

federal passa a atuar no planejamento, regulação e coordenação das políticas públicas,

destacando-se o constante monitoramento e avaliação dos programas e promoção e

implementação de inovações pedagógicas.

O foco do presente estudo é o ensino fundamental por ser sua oferta obrigação legal do

Estado para as crianças e jovens na faixa de 6 aos 14 anos2 e pelo fato de ele ser objeto de atenções especiais e integrar a atual agenda de reformas institucionais. Buscar analisar em que

medida o aporte de recursos dos distintos programas do governo federal tem contribuído para

a o alcance dos objetivos do próprio governo, cumprir compromissos internacionais que

promovam a universalização e a maior eqüidade do acesso, a melhoria da qualidade de ensino

e a implementação de processos mais eficazes e eficientes de prestação de serviços

educacionais. O estudo teve como palco o município de Novo Gama (GO), Entorno do

Distrito Federal, que possui número significativo de escolas municipais contempladas com os

programas de descentralização de recursos.

Estudar a descentralização de recursos públicos na educação e seus impactos na gestão

da qualidade não foi uma tarefa simples, considerando as questões complexas que envolveram

a pesquisa. Por outro lado, foi relevante não só pela contribuição que dará à sociedade, tanto

no acompanhamento e avaliação das políticas públicas educacionais como na referência

teórica que norteará outras pesquisas na área. Outro aporte talvez mais ousado seja de

alcançar os objetivos propostos no estudo.

1.1 – Objetivos

Os objetivos que nortearam o presente estudo foram:

a) Objetivo Geral:

1

Usou-se o termo apoio financeiro, em substituição ao financiamento, porque o governo federal assume o caráter apenas redistributivo e suplementar, ou seja, a União não financia sozinha a educação básica.

2

(18)

Analisar a política de descentralização de recursos públicos no ensino fundamental e

seus reflexos na gestão da qualidade do ensino público municipal, em Novo Gama (GO).

b) Objetivos Específicos

• Identificar os mecanismos de apoio financeiro federal ao ensino fundamental, levantando suas principais fontes, forma de transferência, aplicação, destinação e

possíveis entraves à sua utilização.

• Analisar os repasses efetuados ao município-alvo do estudo, por programa, no período de 2001 a 2005, últimos cinco anos.

• Identificar os programas que tiveram contribuição mais efetiva na melhoria da qualidade do ensino fundamental público.

• Identificar os critérios de distribuição dos recursos dos programas entre as escolas do município.

• Apontar os reflexos do aporte de recursos federais na gestão da qualidade do ensino fundamental público municipal.

Esperamos, dessa forma, sensibilizar os gestores públicos que cuidam do planejamento

dos recursos financeiros do setor educacional, para a necessidade de acompanhamento,

avaliação, controle e transparência na aplicação de recursos públicos na educação.

Tal preocupação fundamenta-se no princípio de que o financiamento da educação e os

custos do ensino têm despertado o interesse dos políticos e da sociedade de um modo geral.

Como decorrência, o financiamento teve a sua relevância reconhecida dentro das políticas

públicas da educação dos últimos dez anos, período em que o tema suscitou questionamentos

e polêmicas que impulsionaram mudanças na legislação brasileira que, além de ampliarem os

seus recursos, criaram suporte legal que normatiza as formas de transferência e aplicação de

recursos destinados à educação.

1.2 – A pesquisa procurou investigar três questões básicas

(19)

• Quais são os programas de descentralização de recursos públicos que têm contribuído, de forma mais efetiva, na melhoria da qualidade do ensino fundamental?

• Qual a opinião dos diversos segmentos da área educacional sobre os reflexos da descentralização de recursos públicos na gestão da qualidade do ensino público

municipal?

1.3 – Procedimentos Metodológicos

1.3.1 – Modelo de Estudo

Gil (1996), define a pesquisa como um procedimento racional e sistemático que tem

como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos. A pesquisa deve ser

desenvolvida mediante um percurso no qual deve ser observada a utilização cuidadosa dos

métodos, técnicas e outros procedimentos que compõem a metodologia.

A especificação da metodologia da pesquisa é fundamental para definir a trajetória do

pesquisador ao longo da investigação. De acordo com Lüdke e André (1986), em toda e

qualquer pesquisa, é necessário, por parte do pesquisador, promover confronto entre os dados,

as evidências, as informações coletadas e o conhecimento teórico acumulado. Esses devem

ser relacionados ao tema que passará a ser parte integrante da investigação, numa relação

indissociável entre a teoria estudada e prática vivenciada por meio do processo que envolve a

pesquisa. Durante esse percurso, o pesquisador ainda pode delimitar com maior clareza a área

específica do campo a pesquisar.

O processo de pesquisa, segundo Lüdke e André (op.cit.), não se realiza numa

dimensão ampliada, acima do ambiente pesquisado, mas, sim, dentro do próprio universo

pesquisado, ou seja, o pesquisador se insere nas atividades comuns e inerentes ao ser humano.

Cônscio dessa limitação delimita a sua área, abordando-a com um olhar mais completo,

aprofundado e, acrescento, multidimensional do objeto de estudo.

Segundo Gil (1987), a pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior

familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito e proporciona o

(20)

exploratória como aquela que se caracteriza pelo desenvolvimento e esclarecimento de idéias,

com o objetivo de oferecer uma visão panorâmica, uma primeira aproximação a um

determinado fenômeno que é pouco explorado. Esse tipo de pesquisa é também denominado

pesquisa de base, pois oferece dados elementares que dão suporte para a realização de estudos

mais aprofundados sobre o tema.

Apesar da existência de um considerável volume de dados sobre financiamento do

ensino fundamental, optou-se por um estudo exploratório. Isso porque o foco da pesquisa – a

contribuição dos recursos financeiros descentralizados para os municípios –, bem como o

reflexo desses recursos na qualidade do ensino contam com escassas análises sistematizadas

sobre o objeto em estudo.

Por ser exploratória, a pesquisa recorreu fundamentalmente à descrição. Rúdio (1988)

afirma que a pesquisa descritiva deseja conhecer a natureza do fenômeno investigado, os

processos que o constituem ou nele se realizam. Gonsalves (2001) diz que a pesquisa

descritiva objetiva escrever as características de um objeto de estudo. Por fim, Nascimento

(1988) ressalta que a pesquisa descritiva pode assumir diversas formas nos estudos

exploratórios, que não exigem a elaboração de hipóteses a serem testadas no trabalho,

restringindo-se a definirem objetivos e buscar maiores informações sobre um determinado

assunto de estudo. Acrescenta que tais estudos têm por objetivo familiarizar-se com o

fenômeno ou obter nova percepção do mesmo e descobrir novas idéias, realizando descrições

precisas da situação e descobrindo as relações existentes entre os seus elementos

componentes.

1.3.2 – Cenário da Pesquisa

O Município de Novo Gama está localizado no Estado de Goiás, em região limítrofe

com o Distrito Federal. Foi selecionado para a realização da pesquisa, por um lado, por

constituir um típico pequeno município da Região Centro-oeste, e, por outro, pela facilidade

de acesso da pesquisadora às autoridades municipais da área de educação, devido à sua

(21)

O Município em estudo tem 28 escolas públicas de ensino fundamental, situadas nos

diversos bairros e condomínios, que reúnem cerca de 10.000 alunos. A escola que possui o

maior número de matriculas no ensino fundamental possui cerca de 580 alunos

Para o aprofundamento do estudo, optou-se trabalhar com uma amostra de escolas

existentes.

Como critérios da amostra intencional, foram escolhidas quatro escolas que fossem

contempladas com os programas de apoio ao ensino fundamental: duas de médio porte (de

380 a 480 alunos e duas de grande porte (480 a 580 alunos) As escolas deveriam atender

também aos seguintes critérios: a) inexistência de proximidade física entre elas, de modo a

não obter dados similares decorrentes das características semelhantes da área onde estão

situadas; b) as escolas deveriam participar de um ou mais programas de apoio financeiro, de

forma descentralizada com recursos da União.

1.3.3 – Sujeitos Pesquisados

Os sujeitos pesquisados foram: o Secretário Municipal, o Coordenador Municipal do

Programa de Desenvolvimento da Escola, 4 diretoras, 4 coordenadoras pedagógicas/

coordenadoras do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE), 16 professores do ensino

fundamental, sendo 4 de cada escola, 4 pais que fazem parte do Conselho Escolar, 1 de cada

escola, e 40 alunos, 10 de cada escola, que foram incluídos pela necessidade de ouvir do

“cliente” sua satisfação ou insatisfação com os serviços educacionais público municipal.

1.3.4–Técnicas de Coleta de Dados e Informações Levantadas

Antes de iniciar-se a pesquisa, foi agendado encontro da pesquisadora com o

Secretário de Educação, no decorrer do qual foi apresentado formalmente o seu projeto e

pediu-se a permissão e apoio da Secretaria de Educação daquele município para a realização

da pesquisa. Solicitou-se, ainda, a autorização à consulta de documentos oficiais de convênios

firmados, documentos encaminhados aos diretores e coordenadores das escolas e

(22)

Na coleta de dados, foram utilizadas as técnicas de análise documental, observação,

questionário.

Análise documental

Começou-se pela análise documental que, de acordo com o que Lüdke e André (1996)

assinalam, pode constituir-se numa técnica valiosa de abordagem dos dados qualitativos, seja

como complementação das informações obtidas por outras técnicas, seja desvendando

aspectos novos de um tema ou problema. Para obter as informações sobre os recursos

financeiros, analisaram-se os programas de descentralização de recursos do governo federal,

incluindo o Fundo de Desenvolvimento da Escola (FUNDESCOLA) e os programas do

Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Privilegiando-se também a

análise dos Planos de Melhoria das Escolas pesquisadas, para conhecer as metas, objetivos,

planejamento estratégico e outras especificidades das escolas objeto da pesquisa.

Observação

O processo da observação foi planejado em conjunto com as diretoras. Lüdke e André

(1986) destacam que a observação tem grande importância nas novas abordagens da pesquisa

educacional, pois esse tipo de técnica possibilita um contato direto do pesquisador com o

fenômeno pesquisado, além de trazer a “perspectiva do sujeito”. Vale ressaltar que é

importante o observador manter-se neutro, ou seja, não influenciar as atitudes dos

pesquisados. Thomas e Nelson (2002) tecem algumas considerações básicas sobre a pesquisa

observacional, que incluem os comportamentos que serão observados, quem será observado,

onde as observações serão feitas ou conduzidas e quantas observações serão feitas.

A participação das diretoras no planejamento da observação foi importante, pois são

elas que cuidam do gerenciamento dos recursos descentralizados, enviados para as escolas por

meio do Caixa Escolar/Conselho Escolar ou Colegiados, como também pelo gerenciamento

da qualidade do ensino ministrado nessas instituições.

(23)

Os alunos e professores responderam a questionários diferenciados: o dos alunos

continha questões fechadas, no intuito de verificar seu nível de satisfação com os serviços

educacionais públicos; os questionários dos professores, constituídos de perguntas abertas,

visaram levantar opiniões e dados com relação às fontes de financiamento, origem e critérios

para sua aplicação. (As cópias dos questionários constam dos anexos 2 e 3).

Chizzoti (2001) postula que o questionário consiste em um conjunto de questões

pré-elaboradas, sistemáticas e seqüencialmente organizado em itens que constituem o tema da

pesquisa. Essa técnica foi utilizada com o objetivo de suscitar dos informantes respostas por

escrito sobre o que têm condições de informar. Lakatos (1991) define questionário como um

instrumento de coleta de dados que, constituído por uma série ordenada de perguntas que

devem ser respondidas sem a presença do entrevistador. Os questionários, instrumentos de

coleta de dados, foram pré-testados em pelo menos cinco alunos e professores que fizeram

parte do público-alvo desta pesquisa.

Buscando verificar o nível satisfatório de professores e alunos com os serviços

educacionais públicos, foram aplicados questionários diferenciados a uma amostra de

professores e alunos.

A amostra privilegiou o levantamento das opiniões dos professores por considerar de

grande relevância a opinião deles sobre o tema enfocado e pelo fato de serem sujeitos

importantes e, dentro da ótica da qualidade, “produzirem a qualidade”. Dessa forma, o

questionário foi aplicado a cerca de 30% dos professores que ministram aulas no ensino

fundamental público municipal de 1.ª a 4.ª série. Já a opinião dos alunos foi colhida numa

amostra simbólica de dez alunos, por escola.

Análise dos dados

A análise dos dados consistiu no cruzamento das informações prestadas pelos diversos

segmentos da comunidade escolar sobre os programas de apoio de recursos da União, bem

como sobre aqueles que, efetivamente e de forma consensual, contribuem para a gestão de

qualidade do ensino fundamental público. Para facilitar a análise, as questões foram

agrupadas em torno de dois eixos: 1) O financiamento do ensino fundamental –origem dos

(24)

ensino, que permitiram a análise política da descentralização do ensino na qualidade do

ensino público municipal do Novo Gama. Para evitar repetições desnecessárias, as questões

foram desdobradas dentro dos eixos que propiciaram a análise e as conclusões estudo.

1.4 – Estrutura do Trabalho

Este trabalho foi organizado em cinco capítulos. No primeiro capítulo, Introdução,

situam-se as razões que levaram à realização da pesquisa, explicitando a temática e as

questões investigadas e procedimentos metodológicos adotados. O capítulo dois aborda os

mecanismos de financiamento do ensino fundamental, levantando suas principais fontes,

forma de transferência, aplicação, destinação e possíveis entraves à sua utilização. O capítulo

três apresenta o montante de recursos mobilizados pelo ensino fundamental no Estado de

Goiás e no município pesquisado. Finalmente, o quarto capítulo analisa e discute os

depoimentos dos diversos segmentos da área educacional sobre os reflexos da

descentralização de recursos na gestão da qualidade do ensino fundamental público

municipal. O quinto e último capítulo traz as conclusões da pesquisa. Ainda neste trabalho,

apresenta-se apêndice com definições dos principais termos utilizados e os instrumentos de

(25)

2 – REVISÃO DA LITERATURA

2.1 – Descentralização da Educação: Breve Histórico

“A absorção da gerência de todos os interesses, ainda que secundários e locais do Governo Central, mata a vida nas localidades, nada lhes deixa fazer, perpetua nelas a indiferença e a ignorância de seus negócios, fecha as portas da única escola em que a população pode aprender e habilitar-se praticamente para gerir negócios públicos [...] Portanto, a maior e a mais corajosa revolução a fazer no Brasil é a revolução da descentralização.”

Visconde do Uruguai (1862)

No Brasil, a centralização administrativa constitui um de seus graves problemas, pois

ensejou o surgimento de grande burocracia federal, que, por força da própria dimensão, ficou

condenada a tornar-se insensível aos problemas mais urgentes que almejam solução. O

centralismo tende a aplicar soluções iguais a um país rico em diversidades e peculiaridades

que reclama soluções diferentes para problemas diferentes.

A descentralização, tal como enfocada nos textos oficiais, é associada à autonomia. No

entanto, ainda que isso não venha a ser repetido e enfatizado ao longo deste trabalho, a

descentralização na área educacional é entendida apenas como apoio financeiro aos entes

subnacionais para melhor desempenharem suas funções educativas. O aporte de recursos,

ainda que regido por um cipoal de normal, além da já citada melhoria do desempenho, alonga

o raio de ação (ou espectro de atividades) que a escola tem a seu dispor. Neste sentido, a

descentralização pode ser associada à autonomia.

Diante desse contexto e ao longo de sua história, este país tem atravessado momentos

que priorizam a centralização e outros que buscam a descentralização dos sistemas de

educação básica. Para melhor compreensão dessa discussão, é pertinente começar definindo

descentralização. Segundo o dicionário Aurélio (2004, p. 235), descentralizar é dar

autonomia. Nesse enfoque de estudo, descentralizar é dar autonomia a órgãos públicos,

administrativos, tornando-os desvinculados do poder central.

Num breve retrospecto histórico, é possível perceber que a descentralização dos

(26)

forma ampla, à formatação de federação brasileira em que a educação situa-se como um dos

pontos nevrálgicos.

A promulgação do Ato Adicional, de 12 de agosto de 1834, que ocorreu no período da

Regência do Império, foi a primeira tentativa de formalização de um pacto federativo, no

âmbito da educação, formulado junto com uma série de medidas que buscavam aplacar os

anseios de autonomia das províncias, conforme aponta Carnielli (2000).

Apesar da descentralização administrativa impulsionada pelo referido Ato Adicional,

observou-se que durante todo o período Imperial e da Primeira República essa

descentralização significou omissão da União em relação à educação popular, conforme

entendimento na época, ou seja, extensão do ensino elementar às camadas populares.

A Constituição Federal de 1934, inspirada pelo ciclo de reformas dos sistemas

estaduais de educação, realizadas nos anos 20 e início dos anos 30, em vários estados (Minas

Gerais, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará), e pela atuação dos Pioneiros da Escola Nova

incorpora no texto da lei alguns princípios básicos no que tange ao papel diretor da União, na

vinculação de recursos orçamentários para a educação, e da autonomia dos sistemas estaduais,

segundo o estabelecimento de conselho estadual de educação. Logo em seguida, o Estado

Novo tratou de abafar as primeiras conquistas, repondo a pesada centralização por parte da

União, especialmente no período de 1937 a 1945.

Um fato que merece destaque neste cenário político é a criação, em 1942, do Fundo de

Ensino Primário (FNEP) criado pelo Decreto n.º 4.948, de 14/11/42. Este fundo marcou o

início do controle pela União no uso das verbas orçamentárias vinculadas à expansão e ao

desenvolvimento do ensino. Os estados assinaram o Convênio Nacional de Ensino Primário

com a União e se comprometiam a utilizar 15% de seus orçamentos em educação, no ano de

1944, acrescentando a esse índice 1% ao ano até alcançar o total de 20%. A União, em

contrapartida, comprometia-se a colaborar financeiramente, nos limites dos recursos do

Fundo, para o desenvolvimento do ensino primário, subsidiando os recursos dos Estados

quando fosse necessário. O Convênio ainda previa que as unidades federadas firmassem

convênios com os municípios onde comprometiam verbas orçamentárias para o ensino,

inicialmente, com o percentual de 11% de seus orçamentos, até alcançar o limite de 15%, ao

(27)

Quando o FNEP foi criado, logo no início da implantação dos convênios, o então

ministro da Educação, Gustavo Capanema, defendia o planejamento democrático. De acordo

com Souza e Faria (2003), tal fato se justificativa, à época, pela conjuntura internacional que

se notabilizou pelo alinhamento do Brasil com as forças aliadas da Segunda Grande Guerra,

pela circulação das idéias de Mannheim sobre a necessidade de intervenção do Estado nas

sociedades liberais e, internamente, pelo impacto do Manifesto dos Mineiros, em 1943. Esse

período representou inflexibilidade administrativa que acentuava a centralização

político-administrativa.

Apesar de os convênios firmados entre a União e os Estados terem propiciado a

cooperação no financiamento e manutenção do ensino, o FNEP previa, em sua origem, a

criação de recurso específico para a educação, que só ocorreu em 1964, com o Salário

Educação.

O Salário Educação, principalmente após a criação do Fundo Nacional de Educação

(FNE) em 1968, generalizou o uso dos convênios, criando sistemática operacional própria,

revista a cada ano. Na concepção de Fávero (2001), essa sistemática introduziu prática de

planejamento extremamente empobrecida do ensino fundamental, porque era reduzida a uma

programação financeira, sustentada por uma assistência técnica, que a autora considera

extremamente rasteira. Na esfera política educacional, o longo regime militar implantado em

1964 configurou-se como grande fonte de financiamento do ensino privado.

A Constituição Liberal de 1946 preceituou organização equilibrada do sistema

educacional brasileiro, mediante formato administrativo e pedagógico descentralizado, sem

que a União abdicasse da responsabilidade de apresentar as linhas-mestra de organização

nacional. Na vigência dessa Constituição, foi prevista como obrigatória a criação de uma lei

de diretrizes e bases da educação, aprovada somente em 1961 (LDB 4.024/61).

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, na concepção de Durmerval Trigueiro

Mendes (2000), representou o marco instaurador do planejamento educacional brasileiro.

Com essa lei em cada estado, foi criado um Conselho Estadual de Educação (Lei n.º 4.024/61)

que rompia o monolítico sistema estruturado pela União e comandado pelo Ministério da

(28)

(CFE), como um órgão técnico normativo, assumisse a função primordial de estabelecer as

diretrizes para assistência técnica e financeira, no apoio aos esforços dos Estados em

cooperação com os municípios, na administração dos sistemas educacionais.

Na vigência da Lei n.º 4.024/61, nasceu a exigência de planos estaduais de educação,

elaborados segundo um manual divulgado pelo MEC, para utilização dos recursos vinculados.

Mendes (2004) ressalta que a LDB, de 1961, apanhou de surpresa todo o sistema

administrativo, o federal e os estaduais, despertando apaixonadas controvérsias. Os estados

não sabiam o que fazer com a sua liberdade; por sua vez, o governo federal se sentia

repentinamente esvaziado, já que não encontrava estilo de ação fora do modelo centralizado

com que se habituara.

O Plano Nacional de Educação, elaborado em 1962, não representou planejamento

para a educação nacional. Na verdade, o referido plano apenas disciplinava a utilização das

verbas orçamentárias federais reservadas à educação.

O que notabilizou a ação política, a partir de 1964, foi a elaboração dos diagnósticos e

dos planos setoriais de educação, inspirados no bojo dos planos nacionais de

desenvolvimento, subordinados ao Ministério do Planejamento, num esquema fortemente

tecnocrático. No que se refere à elaboração desses planos, o MEC, em nível de procedimento,

manteve seu caráter centralizador, expresso na legislação, que definia amplos programas

nacionais e os mecanismos para utilização das verbas.

O que é possível perceber na política educacional do período militar, no que concerne

à atuação do MEC, é que não houve projetos elaborados pelos estados, mas projetos federais

executados nos estados que mascaravam o poder centralizador do período.

A década de 70 configura cenário político educacional no Brasil que surge no vigor da

tecnocracia e do autoritarismo, porém aponta para o início da desconcentração administrativa

que estava presente na proposta de municipalização do então ensino do 1.º grau. Essa

desconcentração administrativa caracterizava-se por delegar a execução de tarefa, mas não

envolvia a redistribuição do poder e a autonomia administrativa. Embora a proposta de

(29)

condições para se efetivar na maioria dos municípios, pois faltavam recursos, quadros de

pessoal e incentivo. As escolas estaduais estavam fortalecidas e estruturadas e não puderam

ser absorvidas pelos poderes municipais.

No período em que o Brasil viveu sob a égide da ditadura militar (1964 a 1984), pouco

avançou em termos de municipalização da educação pelo enfoque tecnocrático de

administração, uma oposição às idéias de Anísio Teixeira, que à época ocupava o cargo de

conselheiro, de 1962 a 1968, que “previa uma responsabilidade solidária ao se referir à

descentralização do ensino como um dos pilares para a sistematização da organização política

no Brasil” (Souza e Faria, 2003).

O primeiro documento que fez referência legal à descentralização dos estados aos

municípios foi a Lei n.º 5.692/71, em seu artigo 71, o qual se referia às atribuições que os

Conselhos Estaduais deveriam delegar aos Conselhos Municipais de Educação.

A Constituição Federal, promulgada em 1988, em seu artigo 211, prevê a organização

dos sistemas de ensino entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, que

recebem a incumbência de atuar prioritariamente na pré-escola e ensino fundamental.

Beltrão (1984) assegura que a descentralização constitui a melhor maneira de

assegurar a eficácia e a redução do custo dos programas federais. Na concepção deste autor,

nenhum plano nacional poderá ser realmente eficaz se não tiver sua execução amplamente

descentralizada e se não puder engajar, desde a fase de sua elaboração, a participação dos

mecanismos administrativos locais, que estão naturalmente mais bem habilitados a identificar

e resolver os problemas de maneira mais rápida e peculiar a cada caso. Dessa forma, a

descentralização ganha o aspecto de modernização do sistema gerencial e, ao mesmo tempo,

de aprimoramento da democracia. Com a adoção de medidas descentralizadoras seria possível

desburocratizar o Estado, promover abertura para novas formas de gestão da esfera pública,

da autonomia gerencial para autarquias, organizações não-governamentais (ONGs) e até

mesmo às escolas e, ainda buscar incrementos para elevar os índices de produtividade dos

sistemas públicos e melhorar a qualidade do ensino.

É sabido que esse processo de modernização foi inspirado no modelo neoliberal que

(30)

descentralização da educação, no período de 1980 a 1990. Nesse período, foram realizadas

profundas reformas políticas e econômicas, que ampliaram a redemocratização política

chegando à liberalização e à privatização da economia. Observa-se que o contexto político

ainda trazia as marcas do regime autoritário que deixou seqüelas na educação básica pela falta

de investimento no setor. Tal medida gerou índices alarmantes da educação que passam a ser

publicados e divulgados em meio uma ambiência marcada pelo processo de globalização, de

disseminação do neoliberalismo.

Após o Consenso de Washington – encontro que reuniu na capital americana em

novembro 1989, no International Institute for Economy, funcionários do governo dos EUA,

dos organismos internacionais e economistas latino-americanos –, discutia-se um conjunto de

reformas essenciais para que a América Latina superasse a crise econômica e retomasse o

caminho do crescimento. O diagnóstico era tenebroso: dívida externa elevada, estagnação

econômica, inflação crescente, recessão e desemprego. As conclusões desse encontro

passaram a ser denominadas informalmente como o Consenso de Washington, expressão

atribuída ao economista inglês John Williamson.

Longe de ser tese conspiratória do governo norte-americano, do Banco Mundial ou do

FMI, o consenso representava corrente de pensamento na defesa de um conjunto de medidas

técnicas em favor da economia de mercado, que visavam, em tese, à recuperação econômica

dos países latino-americanos.

Sendo assim, formou-se a idéia hegemônica de que o Estado, sobretudo nos países em

desenvolvimento, deveria direcionar suas ações nas relações exteriores e na regulação

financeira, tendo como base os critérios negociados diretamente com os organismos

internacionais. As reformas consolidadas neste período foram marcadas por um processo de

desregulamentação na economia, da privatização das empresas produtivas estatais, das

reformas dos sistemas previdenciário, de saúde e de educação, maior abertura de mercado e

descentralização dos serviços prestados. Essas medidas provocariam otimização de seus

recursos. Na área educacional, a ação do Estado deveria privilegiar a regulação e a avaliação

sistêmica de todos os meios de ensino.

A otimização de recursos representava uma forma de se criarem condições para maior

(31)

mediante o envolvimento direto do poder local na captação das demandas, no controle dos

gastos, na inspeção e no cumprimento das metas estabelecidas e, a um só tempo, o

acompanhamento dessas ações pelo setor público.

Souza e Farias (2003), destacam que este cenário evidencia o aprofundamento da

intervenção dos diversos organismos internacionais nas políticas de educação de países

situados à margem das economias centrais, em particular a América Latina. As reformas

educacionais, portanto, vão ocorrer sob forte impacto de diagnósticos, relatórios e receituários

cunhados no âmbito de órgãos multilaterais de financiamento, tais como: Banco Mundial

(BM); Banco Interamericano de desenvolvimento (BID); e Banco Internacional para a

Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD) e, de órgãos voltados para a cooperação técnica,

como o Programa das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (Unesco), a

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Fundo das Nações

Unidas para a Infância (Unicef), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

(Pnud).

Observa-se, nos estudos e propostas elaborados por esses organismos, a defesa da

descentralização como forma de desburocratizar o Estado, melhorar a forma de gestão dando

mais autonomia às unidades escolares e ao mesmo tempo promover a democracia, envolvendo

a sociedade no controle, acompanhamento e implementação dos projetos e programas

destinados à educação e à qualidade do ensino.

2.2 – Conceito de Qualidade Aplicado ao Ensino e a Gestão Escolar

“Mas, enquanto a palavra de ordem da “igualdade de oportunidades” coloca ênfase no comum, a da “qualidade” enfatiza a diferença.”

Mariano F. Enguita

2.2.1 – Introdução

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no artigo 3.º, inciso IX, prevê os

princípios que devem nortear a educação brasileira, constando entre eles, a “garantia do

(32)

contemporânea. Essa qualidade não surge da noite para o dia, mas é processo de construção

lenta, que exige mudança na forma de pensar e de agir das pessoas, resultando de evolução

histórica em que o conceito assumiu diversos significados, conforme a época e a sociedade

considerada.

Desde os primórdios da civilização já é possível observar a preocupação do homem

com o provimento dos bens adequados aos seus interesses e capacidade de acesso. Daí surge a

associação de habilidades humanas à produção: os caçadores mais hábeis podiam garantir a

melhor caça, e os mais hábeis artesãos, os melhores artefatos para conservação dos alimentos.

Com o passar do tempo e a expansão dos assentamentos humanos em aldeias, vilarejos

e cidades, provocou-se a divisão do trabalho por especialização: os artesãos passaram a

produzir sob encomenda, levando em conta as necessidades e os desejos de seus clientes. Os

agricultores, os pescadores e demais profissões aderiram à produção, de acordo com a

necessidade da comunidade.

Com a revolução industrial, a substituição do trabalho artesanal pela produção em

massa marcou mudança básica no atendimento ao consumo e no modo de produção para

atender às necessidades da comunidade. A nova forma de produção exigia produção em série,

que não mais deveria atender às preferências individuais, mas às de uma clientela distante e

não-identificada.

No entanto, o crescimento agressivo da competição entre produtores forçou a

identificação às preferências dos clientes e assim a expansão dos negócios. A partir dessa

nova visão, foi possível maior abertura de espaços para as funções de pesquisa de mercado e

desenvolvimento de produtos, num cenário marcado pelo esforço agressivo de persuasão e

vendas.

Como corolário da produção em massa e da competição, surge, entre os produtores,

nos Estados Unidos a partir da década de 1920, a preocupação com o controle de custos

associada à qualidade dos produtos. O primeiro passo foi a inspeção, como uma forma de

evitar desperdícios na produção dos bens, considerando que só é possível separar um produto

(33)

imperfeito é o mesmo de fabricar um produto de qualidade. A ênfase passou a ser a prevenção

dos erros, a melhoria da qualidade e a redução de custos.

O sistema de controle da qualidade mais famoso foi criado por Deming, em 1951, no

Japão, sendo conhecido como “Programa Qualidade Total”. Este sistema muda a história do

Japão e começa a disseminar a filosofia da qualidade, introduzindo a discussão de que o

fundamental na operação de qualquer negócio é o projeto. A esse respeito, haveria de se

considerarem os propósitos de tê-lo elaborado, do que é necessário para alcançar e atender ao

cliente, por meio de produto que fosse adequado ao consumo e satisfizesse as suas

necessidades. Observa-se a preocupação com a qualidade, que vai desde o planejamento até a

confecção do produto final.

Deming apud Crosby (1994), afirmou que tinha desenvolvido programa de qualidade

para os engenheiros e técnicos, mas não para seus patrões. Segundo ele, dessa forma, a prática

da produção com qualidade não se difundiu, pois os engenheiros e os técnicos faziam

produtos, seus chefes faziam política, e a decisão de produzir qualidade é política.

A busca da qualidade supõe que o atendimento das necessidades dos clientes seja a

diretriz básica da organização e a adote com coragem e determinação, evitando que interesses

corporativistas ou departamentais se sobreponham a ela.

Partindo dessa concepção, promover a qualidade exige o envolvimento de todas as

pessoas de uma organização. A qualidade começa com a adoção de postura voltada ao

contínuo aprimoramento, o que, evidentemente, não é algo fácil, porque significa mudança de

cultura, tanto individual quanto da organização; é processo que exige tempo, clareza de idéias,

seriedade de propósito e persistência.

Mezomo (1994), um dos autores que têm dedicado maior atenção ao estudo da

qualidade, entende que toda organização, seja pública ou privada, surge da necessidade de

atender a uma determinada clientela, eleita em termos de suas necessidades, conhecendo a

estrutura a que atende e os processos a serem utilizados para otimizar seus resultados. Para

ele, a instituição deve enfocar o cliente tanto na definição da estrutura quanto no desenho da

organização. Somente assim é possível satisfazê-lo, caso contrário deixará de ser cliente da

(34)

má interpretação do processo de melhoria da qualidade, porque sugere a possibilidade de se

chegar a um “estado” de “qualidade total” que não existe, até porque, na sua concepção,

qualidade é processo e, não, estado que possibilita a obtenção ou a passagem a patamares

sempre mais elevados de performance. Sendo assim, a qualidade nunca será total, o que deve

ser total é o esforço e o compromisso da organização de melhorar constantemente seu nível de

performance. Acrescenta que é por essa razão que não denomina o seu trabalho “gestão da

qualidade total” (GQT), mas de “gestão total da qualidade” (GTQ).

De acordo com Mezomo (op.cit.), a melhoria da qualidade não se dará por simples

maquiagem dos processos produtivos, mas por verdadeira transformação na cultura da

organização. Conforme já mencionado, entre as mudanças que levam à transformação, o autor

destaca a quebra de barreiras representadas pelo imobilismo e a manutenção de privilégios.

Como se pode facilmente depreender, a implantação de programa de qualidade é

processo de médio e longo prazo e que exige gerenciamento competente, em que a qualidade

da formação pessoal e profissional do gerente é condição básica para a qualidade dos serviços

prestados pela instituição.

Também não é novidade que o termo qualidade tem sido usado e abusado por

inúmeras campanhas publicitárias que vêm sendo veiculadas, quase diariamente, pelos

diversos órgãos da mídia, ora ganhando conotação econômica, ora política, ora social. Assim,

o termo “qualidade” se torna polissêmico, cada qual o utilizando com um sentido próprio. Tal

discurso é adotado, e até justificado, por órgãos governamentais e não-governamentais bem

como por diferentes partidos políticos. O que é possível observar nesses discursos é que o

termo “qualidade” nem sempre é usado com o significado que lhe é devido. Muitas vezes,

apresenta conotação desprovida da idéia que a originou. Sabe-se que as palavras, como

depositárias de uma concepção de mundo, são portadoras de significados. Acabam revelando

um conjunto de conceitos vinculados à concepção de mundo que direciona e orienta a prática

dos indivíduos e dos grupos que as utilizam. O conceito de qualidade pode ser considerado

construção ideológica. Dessa forma, qualidade depende do vasto e complexo código

ideológico de quem a está empregando.

Ao longo desta revisão de literatura, percebeu-se certa indefinição do significado

(35)

deste conceito. É necessário que se precisem os sentidos que se atribuem a este termo, a fim

de evitar falsa interpretação que acabe difundindo idéias que não agregam nenhum valor ao

estudo em questão.

Corroborando esse pensamento, Toledo (1987), aponta que a qualidade é hoje a

palavra-chave mais difundida dentro das empresas/instituições. Ao mesmo tempo, existe

pouco entendimento sobre o que é qualidade. Para o autor, os próprios teóricos da área

reconhecem a dificuldade de se definir, precisamente, o que seja este atributo de um produto

ou serviço. Dessa forma, antes de aprofundarmos o debate sobre a gestão da qualidade,

achou-se pertinente apreachou-sentar alguns conceitos que a definem. Não achou-se tem aqui nenhuma intenção

de esgotar o assunto, apenas contribuir para a compreensão do tema.

É importante registrar que não se trata apenas de buscar definição ou conceito, porque

a qualidade representa filosofia de ação e compromisso institucional que as escolas brasileiras

devem adotar, superando os limites da teoria, ainda que sólida e legalmente constituída.

A filosofia da gestão da qualidade fundamentada na melhoria da qualidade surgiu,

inicialmente, para atender às necessidades de produção industrial, posteriormente, sendo

estendida à área de serviços, como a saúde e a educação. Nessas áreas, a gestão da qualidade

tem características mais complexas e próprias, mas que não deixaram de produzir resultados

considerados significativos.

No contexto educacional, a gestão da qualidade surge como um conjunto de

indagações de educadores e administradores educacionais quanto à viabilidade da aplicação

do modelo gerencial na educação. Tais questionamentos tinham como pano de fundo a

discussão sobre a filosofia da qualidade como modelo válido também para revitalizar os

sistemas educacionais. A grande dúvida era como utilizar a filosofia da qualidade no contexto

educacional, se ela estava cheia de termos e conceitos estranhos, tais como clientes,

consumidores, fornecedores, ferramentas da qualidade e outros, integrantes da produção de

bens oferecidos no mercado, porém estranhos ao contexto educacional.

(36)

Qualidade vem do latim qualitate, cuja tradução é a “natureza das coisas”. O termo

“qualidade” é historicamente situado e pressupõe a incorporação de inúmeros significados.

Ao longo do tempo, as diferentes interpretações que o termo “qualidade” vem reunindo

parecem convergir para duas vertentes: ora designando atributo, condição ou propriedade de

ser de um objeto, que é capaz de distingui-lo dos demais; ora referindo-se ao próprio ser ou a

coisa em si. No dicionário Aurélio (2000), a qualidade, em seu sentido genérico, é definida

como “propriedade, atributo ou condição das coisas ou das pessoas capaz de distingui-las das

outras e de lhes determinar a natureza”.

Dentro de uma organização ou instituição, a qualidade também assume diferentes

significados, principalmente para bens de consumo, em função das conveniências e estratégias

de mercado das empresas.

Mezomo (op.cit.), em seu estudo, apresenta o conceito de qualidade dos principais

autores da área de administração. Juran (apud Mezomo, 1994), entende a qualidade como

propriedade do produto (ou serviço) que o torna adequado ao uso. Essa adequação existe, para

ele, quando o produto (ou serviço) é confiável e atende às necessidades de quem o utiliza.

Assim, para esse autor, um produto tem qualidade quando está adequada e satisfaz às

necessidades do usuário. A adequação ao uso é determinada por aquelas características do

produto (ou serviço) que o usuário reconhecesse como benéficas para ele. Já Derning, (apud

Toledo, 1987) entende a qualidade como algo que dá orgulho ao trabalhador pela produção

(ou prestação de serviços). E esse orgulho, por sua vez, supõe a padronização do produto,

exigindo do trabalhador o conhecimento profundo das técnicas necessárias à produção do

bem, assim como habilidades específicas. Para Crosby (apud Mezomo,1994), a qualidade

exige o atendimento a determinadas normas claras, conhecidas e cumpridas pela pessoa que

age. Por isso, qualidade, para ele, significa conformidade com as especificações. Essa

conformidade deve ser absoluta, ou seja, a qualidade visa a zero de defeitos, embora, em

muitos casos, isso seja impossível. Feigenbaun (apud Mezomo, 1994), define qualidade como

um conjunto de características do produto, tanto de engenharia quanto de fabricação, que

determinam o grau em que ele satisfaz as necessidades do consumidor. Mezomo, por sua vez,

define qualidade como propriedade (ou conjunto de propriedades) de um produto (ou serviço)

ostentada pelas organizações comprometidas com o pleno atendimento das necessidades de

(37)

As concepções apresentadas destacam três atributos do produto ou serviço de

qualidade:

• Ser produto adequado ao fim a que se destina;

• Satisfazer às exigências do cliente/consumidor;

• Ainda que fabricado em larga escala, o produto deve conservar um padrão único, ou seja, características constantes.

Esses atributos para serem aplicados à educação necessitam ser ressignificados. O

primeiro deles apresenta alto grau de generalidade – adequado ao fim – sendo pouco

esclarecedor quanto às características que o “serviço educacional” deveria possuir para ser

adequado. Uma possível forma de focar o atributo seria adotar como definição operacional de

“adequado” aquele que lhe é designado pela classificação adotada no SAEB.

O atributo satisfação das exigências do cliente direcionaria a ação educativa ao

encontro das expectativas cultivadas pelos pais dos alunos. Isso porque, no caso dos alunos,

seria paradoxal que eles tivessem exigências relativas a um processo que visa, em última

instância, ao desenvolvimento de suas potencialidades. Um atributo próximo ao da satisfação,

aplicável aos alunos, poderia ser o da motivação. Por outro lado, a padronização não é

desejável no processo educativo. Poderia, no entanto, ser associado a padrões mínimos de

resultado do processo, conforme sugerido por Schmelkes (1994).

É possível perceber que a qualidade é processo de busca contínua, esforço cooperativo

para adequar a estrutura e os processos à produção dos serviços ou produtos, visando alcançar

os objetivos previstos (satisfação do cliente) e a sua melhoria continuada, sempre em

consonância com a missão da organização ou instituição.

2.2.3 – A Qualidade na Educação

Sem a pretensão de esgotar a discussão que envolve o emprego do termo “qualidade”,

pretende-se concentrar a análise da qualidade no campo educacional, tentando estabelecer

Imagem

Gráfico 1
Gráfico 2: Contribuição e Receita do Estado de Goiás ao FUNDEF, em 2004
Gráfico 3: Repasses do FUNDEF para o Estado de Goiás, 1998-2004
Gráfico 4: Evolução das Matrículas no Ensino Fundamental, no Estado de Goiás, por  Esfera de Governo, 1997-2004

Referências

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