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OLHAR A CIDADE NO BRASIL,

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Academic year: 2018

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OLHAR A CIDADE NO BRASIL,

VER A MODERNIDADE

À

BRASILEIRA

1

PIERRI GABRIELLI BEDIN*

Neste texto, me proponho retomar visões construídas nos varres

campos e correntes das ciências sociais sobre a cidade, Minha perspectiva

é relacionar o conceito de cidade, tal qual é concebido no meio intelectual e

social, com o fenõmeno da modernidade e com o processo sócio-histórico

de civilização. Minha pretensão é analisar a questão do urbano, tendo por

foco o caso brasileiro, a partir de um prisma transdisciplinar que almeja, por

um lado, escapar à lógica moderna de análise, mas, por outro, ver a

tonalidade específica da modernidade no Brasil.

Pensar o conceito de civilização é se reportar a um mito fundacional

do Ocidente. É refletir sobre um referencial que dá sentido à existência

deste. Isso porque é crença comum aos ocidentais serem estes "a

civilização", de proclamarem e vivenciarem sua experiência histórica, tendo

por premissa a obstinação de alteridade.

Parece ser a alteridade uma das noções dominantes da civilização

ocidental sobre si própria. O conceito de civilização e x p r e s s a a c o n s c iê n c ia

q u e o O c id e n t e t e m d e s i m e s m o ( . . . ) C o m e s s a p a la v r a , a s o c ie d a d e o c id e n t a l p r o c u r a d e s c r e v e r o q u e lh e c o n s t it u i o c a r á t e r e s p e c ia l e a q u ilo d e q u e se o r g u lh a : o n í v e l d e S U A t e c n o lo g ia , a n a t u r e z a d e S U A S m a n e ir a s , o

d e s e n v o lv im e n t o d e S U A c u lt u r a c ie n t í f ic a o u v is ã o d o m u n d o ?

Vivida como alteridade, como sinõnimo de diferenciação em relação a

outros modos civilizacionais, de espacialidades diferentes e temporalidades

distintas ou não, a civilização existe, porém, a partir da similitude, da unidade

de um dado conjunto de sociedades entre si. É um s is t e m a h ip e r s o c ia l d e

s is t e m a s s o c ie is ', nas palavras de Mareei Mauss, que estão entrelaçados, e

* Pesquisador bolsista fia CAPES; Mestrando em História do Brasil - PUCRS.

1Comunicação apresentada no Seminário Cultura e Cidades, na mesa "A modernidade e

a cidade", coordenada pela Prof." Dr." Léa Perez, em 21.10,1996, em Rio Grande/RS.

2 ELlAS, Norbert. Op r o c e s s o c iv iliz a d o r : uma história dos costumes. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1994. p, 23. Grifos do autor.

3 MAUSS, MareeI. As civilizações: elementos e formas (1929). In: OLIVEIRA, Roberto Cardoso de (orq.). M a r e e i M a u s s :antropologia. São Paulo: Ática, 1979. p. 187.

(2)

por conseguinte, possuem coesão por terem "fenômenos de civilização"

comuns, que Ihes dão sustentação como configuração sócio-histórica

específica.

Para Mauss, são "fenômenos de civilização" aqueles que possuem

por caráter distintivo o fato

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d e s e r e m c o m u n s a u m n ú m e r o m a is o u m e n o s

g r a n d e d e s o c ie d a d e s e a u m p a s s a d o m a is o u m e n o s lo n g o d e s s a s

A

s o c i e o e d e s ' . Portanto, a idéia de tradição é fundamental para a construção

de uma civilização: como história comum e como cultura partilhada, a

tradição é a condição de existência da civilização, que, ao construir esta

(tradição), trama uma rede de laços interativos, s e ja [de] e v o lu ç õ e s

s im u lt â n e a s p a r t in d o d e p r in c í p io s c o m u n s , s e ja [de] t r a n s m is s õ e s m a is o u

m e n o s c o n t in g e n c ia is , m a s s e m p r e d o m in a d a s p e la e x is t ê n c ia d e r e la ç õ e s

d e t e r m in a d a s e n t r e s o c ie d a d e s a e t e r m in e d e s ?

Se por um lado são os fenômenos de civilização que compõem esta, é

a relação entre área e a forma que a definem. A d e f in iç ã o d a á r e a d e u m a

c iv iliz a ç ã o

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é f e it a p e la f o r m a , e in v e r s a m e n t e a d e f in iç ã o d e u m a f o r m a é

f e it a p e la d e s u a á r e a d e e x ie n s ê o " . A forma, portanto, constitui-se dos

caracteres simbólico-materiais comuns ao grupo de sociedades que

integram a civilização. Já a área é o ambiente onde essas simbologias,

rituais, linguagens, práticas e relações sociais, enfim condições

histórico-culturais, se processam'. Logo, a definição de um modelo civilizacional está

na sua espaço-temporal idade. Dados de limitação e possibilidade de

significação e objetivação dos bens culturais da civilização, a "forma" e a

"área" são instituintes e instituídos do tipo civilizacional. Logo, fazendo de

espelho de identificação esses pressupostos, aponto que a nossa "área" é o

Ocidente, e a modernidade, a nossa "forma". E nestas, alguns "fenômenos

de civilização" nos dão uma certa homogeneidade, uma certa unidade, nos

definem como uma determinada "civilização": racionalista, secularizada,

progressista, pragmática e tecnologizada.

O conceito de civilização tornou-se, entre nós, p a la v r a m e s t r e ' , assim

como a noção de k u lt e r entre os alemães. A H is t ó r ia c o le t iv a n e le s s e

4MAUSS, op. cit., p. 183.

5MAUSS, op. cit., p. 185-186.

6MAUSS, op. cit., p. 188.

7 De acordo com Marshall Sahlins, autor que procura uma abordagem que contemple

sincronia e diacronia, a c u lt u r a é , p o r sua p r ó p r ia n a t u r e z a , umo b je t o h is t ó r ic o . SAHLlNS,

Marshall./ lh a s d e H is t ó r ia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. p. 185.

6 Tomo por empréstimo, aqui, a expressão de Edgar Morin. Para este, existem palavras

que assumiram a alcunha dep a la v r a s m e s t r a s , as quais, por serem mais que idéias-chaves,

dão forma e sentido ao nosso universo. Assumiram sentido para além de seus meros significados. Tornaram-se p a la v r a s g ig a n t e s que abarcam o poder;p a la v r a s h ip e r d e n s a s , pois

sintetizam em si om á x im o d e s ig n if ic a d o ev e r d a d e ; p a la v r a s n ú c le o , por serem osc e n t r o s ao

r e d o r d o s q u a is g r a v it a m n o s s a s c r e n ç a s eid é ia s ; p a la v r a s c a r d e a is , por nos darem os vetores

de nossa existência ep a la v r a s e s t r a t é g ic a s , por tornarem-se a força-motriz de ação política.

eiat.os. Rio Grande, 10: 159-172, 1996. 1 6 0

c r is t a liz o u e r e s s o a . E como tal, tornaram-se possibilidade de

experimentação quotidiana, tomaram o caráter de solo semântico de

atuação social. U s a - a s [o indivlduo] p o r q u e lh e p a r e c e u m a c o is a n a t u r a l,

p o r q u e d e s d e a in f á n c ia a p r e n d e a v e r o m u n d o a t r a v é s d a le n t e d e s s e s

c o n c e i t o s ' , Assim como o filtro de uma lentêfotográfica dá o tom ao retrato,

a categoria civilização, tal qual os ocidentais modernos a forjam, permeia o

.olhar sobre o sistema simbólico que estes teceram e significaram.,jo

, A eficácia e a possibilidade dos conceitos civilização,ocidental e

moderno sobrevive e n q u a n t o e s t a c r is t a liz a ç ã o d e e x p e r iê n c ia s p a s s a d a s e s it u a ç õ e s r e t iv e r u m v a lo r e x is t e n c ia l, u m a f u n ç ã o n a e x is t ê n c ia c o n c r e t a d a

s o c ie d a d e - is t o é , e n q u a n t o g e r a ç õ e s s u c e s s iv a s p u d e r e m id e n t if ic a r s u a s

p r ó p r ia s e x p e r iê n c ia s n o s ig n if ic a d o d a s p e t e v r e s " . Dito de outro modo:

/ enquanto estes conceitos exprimem a estética do conjunto de sociedades

, que compõem a chamada civilização moderna ocidental, existe uma certa

homogeneidade, uma estrutura histórica n o jo g o d e s ig n o s , d e c o s t u m e s 'e

d e c u lt u r a que é a rnodernidade."

Como modo civilizacional, a modernidade exprime-se c o m o mito de

referêncla, um valor transcendente, uma lógica especifica de experiência

histórica.

A experiência da modernidade tem na racionalização seu valor. A

razão se impõe corno principio, a intervenção como meio e o devir como

finalidade civilizacional. 1 3

A sociedade racionalista moderna tem na intervenção tec..nológica, na

produtMdade, na otimização dos resultados, no planejamento estratégico,

na busca de rendimento máximo, na secularização, seus caracteres

Tamanha força assumiram que t o m a r a m - s e d o n a s ' d a r e a lid a d e : t o m a r a m - s e h ip e r - r e a is .

MORIN, Ed9~r.P a r a s a ir d o s é c u lo X X . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 58.

9 No estudo que faz da sociogênese do processo civilizador, Norbert Elias identifica

variações no emprego da palavra civilização entre os ingleses e franceses em relação aos

alemães. Entretanto, vejo como comum ao conceito c iv iliz a ç ã o dos anglo-francos e ao

conceito de k u lt e r alemão o caráter paradigmático de alteridade e de valor existencial. Ver

ELlAS, op. cit., p. 23-26.

1 0Associo aqui o conceito de cultura e de modemidade, ou seja, vejo-os em comunhão

na medida em que concebo o tecer dos significados como o processo civilizacional. Sobre a

questão da cultura como uma teia de significados, ver: GEERTZ, Clifforc/. Ain t e r p r e t a ç ã o d a s

c u lt u r a s . Rio de J,an.ei.ro....:..Zahar, 1978, p. 1"5".Sobre o processo civilizacional como uma

construção de hábitos e costumes, vejo a obra de Elias (Op r o c e s s o c iv iliz a d o r , op. cit.) como

fundamental.

1 1ELlAS, op. cit., p. 26.

1 2 BAUDRILLARD, Jean. Modernité In: o B ie n n a le d e P a r is : Ia modemité ou

I'esprit du temps. Paris: L'Equerre, 1982. p. 28.

1 3Alain Touraine observà que a modernidade fez da racionalização "o único princfpio

de organização da vida pessoal e coletiva". Cf. TOURAINE, Alain. C r it ic a d a M o d e m id a d e .

Petrópolis : Vozes, 1994. p. 13.

(3)

peculiares."

A razão, neste tipo de sociedade,

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é compreendida como a luz que

norteia a construção da realidade projetada, regulando a marcha da

sociedade rumo ao progresso.

Projeto sempre inacabado, a modernidade é um modo de civilização

cuja lógica é o "dever ser". O sentido da vida é a busca incessante de um

projeto homogeneizante de futuro, cujo progresso é a finalidade sempre a

alcançar. O devi r é o fio condutor de uma concepção histórica cara à

modernidade: etapista, finalista e progressiva. Diante disso, ser moderno é

vivenciar a ânsia do póstero, é superar continuamente o tempo p r e s e n t e " .

Por ser o devir elemento distintivo da rnodemídade, esta se apresenta como

ruptura com a oposição à tradição, porém criando uma outra tradição: a sua

própria."

Se a lógica da modernidade é a do "dever ser" e a racionalização

viabilizadora do progresso pretendido, o tempotbrna-se dimensão

significativa. Conforme a noção temporal desta, onde linearídade é

pressuposto, a calculabilidade, a pontualidade, a previsibilidade-. são

elementos instituintes da cultura moderna.

Em movimento contínuo etotalizante, nascida das foodanças e mãe

destas, a modernidade, seguindo o raciocínio de Baudrillard, é a

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p r á t ic a

s o c ia l e o m o d o d e v id a a r t ic u la d o s o b r e a m u d a n ç a , a in o v a ç ã o , m a s

t a m b é m s o b r e a in q u ie t u d e , a in s t a b ilid a d e , a c o n t í n u a m o b iliz a ç ã o , a

s u b je t iv id a d e m o v e n t e , a t e n s ã o , a c r is e .1 7

Levados às várias sociedades e nações que compõem a "área" do

Ocidente, a "forma de civilização" denominada modernidade disseminou

seus "fenõmenos de civilização" característicos. É nesse processo, que não

1 4Max Weber, na introdução de Aé t ic a p r o t e s t a n t e e oe s p lr it o d o c a p it a lis m o , diz que o racionalismo é componente definidor elementar do Ocidente moderno. Não só o sistema econômico capitalista é delineado pela racionalização, já que esta se expressa também na ciência, na arte, na política ocidentais. Para Weber, essa racionalização é o processo de

"desencantamento" do mundo, pois essa intervenção destrói o mágico, supondo projeto,

previsão. Ver: WEBER, Max. A é t ic a p r o t e s t a n t e e o e s p í r it o d o c a p it a lis m o . São Paulo :

Pioneira, 1967.

1 5 De acordo com Francisco Coelho dos Santos, O t e m p o lin e a r d a m o d e m id a d e é

im a n t a d o p e lo q u e e s t á p o r v ir . Portanto, o presente se constitui apenas no elo que liga o

homem ao futuro, poisé ot e m p o d o f a z e r p a r a c h e g a r à . COELHO SANTOS, Francisco. O

o c a s o d a s o r ig e n s e o o c a s o d a s f in a lid a d e s . Porto Alegre : Pontifícia Universidade Católica,

1 9 9 5 . Policopiado, p. 2.

1 6Apesar da oposiçãoà tradição, a modernidade se aproxima desta. A ambigüidade da

modernidade é fruto de seu caráter homogeneizador, pois, ao irradiar-se, a modernidade ~Iabora sua própria temporalidade, isto é, sua tradição. Sobre as oposições e as imbricações entre modernidade e tradição, ver: BAUDRILLARD, op. cit., p. 28.

17BAUDRILLARD, op. cit., p. 28.

162 B I B L O S . R i o G r a n d e . 1 0 : 1 5 9 - 1 7 2 . 1 9 9 8

se quer findo", o homem ocidental encara seu projeto civilizacional como

seu triunfo sobre outras civilizações que lhe antecederam ou que lhe são

contemporãneas.: Ou seja, é essencial ao processo civilizacional a

c o n s c iê n c ia d a c iv iliz a ç ã o , is t o é , a c o n s c iê n c ia d a s u p e r io r id a d e d o

c o m p o r t a m e n t o p r ó p r io e d e s u a s u b s t a n c ia liz a ç ã o e m c iê n c ia , t é c n ic a o u

, a r t e1 9 para que esse processo torne-se força-motriz de internalização

cultural, pelos próprios da civilização e, conseqüentemente, se expanda por

espaços entendidos como ainda não suficientemente civilizados. Desse

modo, simultaneamente, justifica-se e faz surgir as condições de

homogeneização da própria civilização.

É no consenso formado pelas nações que compõem a civilização em

tomo da busca de padronização dos modos de vida, em torno de

pressupostos comuns, que a obra civilizacional é erigida. Nesse sentido, ao

se falar em civilização não se pode classificar as sociedades que a integram

como mais ou menos civilizadas. Na verdade, na medida em que u m a

c iV iliz a ç ã o c o n s t it u i u m a e s p é c ie d e m e io a m b ie n t e m o r a l n o q u a l está

m e r g u l, \ a d o u m c e r t o n ú m e r o d e n a ç õ e s e d a q u a l c a d a c u lt u r a r a c io n a l n ã o

p a s s a d e u m a f o r m a p a r t ic u t a r O , as diferenças entre as nações são apenas

resultado da particularização de um mesmo modo civilizacional. Com efeito,

dentro do sistema que é a civilização, a qual se define por seus elementos

de coesão, seus fenõmenos próprios e distintivos, ~ubJ~t~ singularidade

de cada povo ou Estado, nesse gênero comurh:-~obre um fundo de

civilizaÇão único, cada sociedade dá contornos, matizes e saliências

peculiares, mesmo a trama civilizacional sendo tecida pelos mesmos fios.' E

na moderna civilização ocidental um dos fios de sustentação da unidade

civilizacional é a racionalização da vida nas comunidades urbanas. Por isso,

o alvo das ações planificadoras/reguladoras é a cidade. Espaço de

objetiva~o da cultura moderna, o meio urbano, enquanto microcosmos

simbólico e material, constitui-se no território existencial da experiência

histórica da modernidade.

local de confluência/convergência, de relações de poder, de

sociedade em mosaico, a cidade, por seu próprio caráter, configurou-se na

paisagem do agregar e do confrontar das díterenças". Entrecruzamento de

experiências múltiplas, local de circulação, é dessa intensidade da cidade

1 8 Cf. Touraine: A m o d e m id a d e e x c lu i t o d o o f in a lis m o . A s e c u la r iz a ç lJ o e o

d e s e n v o lv im e n t o ( . . . ) m a n if e s t a a r u p t u r a n e c e s s á r ia com o f in a lis m o r e lig io s o q u e e x ig e

s e m p t e u m f im d a h is t ó r ia .TOURAINE, op,cit., p. 17.

1 9ELlAS, op.cít., p. 100.

2 0 DURKHEIM, Émile, MAUSS, Marcel. Notas sobre a noçãode civilização ( 1 9 3 1 ) . In:

MAUSS, Marcel.E n s a io s d e S o c io lo g ia .São Paulo: Perspectiva, 1 9 8 1 . p.4 7 1 .

2 1 Novamente, a quêstão da diferença, tão cara à antropologia, figura como impávida

ao se olhar um dos objetos das ciências sociais queéa cidade.

(4)

que se criaram as condições do afloramento simultâneo e simbióticodos vetores do modo de civilização moderno e também de suas contradições.

Conforme essa ótica, o homem (da) na cidade constrói um tipo especifico da história, quer pela aglutinação ffsica e material, quer pela

partilha e/ou pela heterogeneidade do universo simbólico-cultural da

sociedade urbana. Portanto, a cultura urbana, se é que podemos falar numa,

é construtora e, simultaneamente, produto da ambientação do homem

QPONMLKJIHGFEDCBA

à

cidade2 2

• Outrossim, viver na cidade significa, interativamente, ser sujeito e

objeto de um processo civilizacional. Significa partilhar de uma experiência

coletiva de (re)construção permanente de laços sociais, fundados

em

principios reguladores que são, quotidianamente, postos à prova e

reelaborados. Ao consumir a cultura de seu habitat, o Indívtduo se vê

impelido a conviver com outros personagens sociais, a compatilhar rituais,

operaciortaíizar a comunicação com os demais pela linguagem, a exprimir

sua subjetividade, bem como confrontá-Ia com outras. E na mediação entre

estas, vivencia a vertigem de, ao respeitar as normas, em suas práticas, responder ao projeto moderno de normalidade, de ordem. Por conseguinte,

se não o fizer, é t r a n s ç r e s s o r " . Num rápido sobrevôo sobre a questão do

urbano, percebe-se a quantidade de problemáticas que são levantadas, fazendo-nos entender por que a anlropologia tem mirado tanto seu alvo para a cidade.

Uma das questões prementes na Antropologia, tanto em nível

teórico-metodológico quanto etnográfico, tem sido a cidade. Pensar a

cidade é crucial nas ciências sociais, na medida em que, cada vez mais, os

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n a t iv o s d e ix a m d e s e r t r ib o s

A

e x o t i c e s d a A f r ic a eA s ia o u a m e r f n d io s d e g r u p o s i s o t e d o s " , Assim, fazer antropologia o b s e r v a n d o o t e m l t i e t "

22Sobre a questão da multiplicidade urbana e das tipologias variadas que a compõem,

é imprescindível a referência do "clássico" de Walter Benjamin, que analisa, entre outros

aspectos, a multidão e a relação do homem na multidão. BENJAMIN, Walter. S o c io lo g ia . São

Paulo: Atica, 1991. capo2: A Paris do Segundo Império em Baudelaire.

23 Conforme Jean Duvignaud, a cultura apresenta-se como uma estratégia, de-cunho

simbólico, de conquista do espaço, diferenciando o conceito de habifar dódé aÍcljar. De acordo com Duvignaud, habitar consiste na imersão num dado sistema cultural, e não meramente

ocupar um espaço ffsico:'DUVIGNAUD, Jean. F e s t a s ec iv iliz a ç õ e s . Rio de Janeiro: Tempo

Brasileiro, 1983, em particular, p. 35-37 e p.- 5 6 .

A norma como uma prática histórica de racionalização da convivência social é

conceituada por Georges Canguilhem, ao afirmar que o n o r m a l é , ao m e s m o t e m p o , a

e x t e n s ã o e a e x ib iç ã o d a n o r m a . Ver CANGUILHEM, Georges. Rio de Janeiro : Forense

Universitária, 1990. p. 211.

Acerca das relações de poder sobre as transgressões e sobre a eficácia e a lógica

desse poder no meio social, é fundamental: FOUCAULT, Michel.M ic r o f { s ic a d o p o d e r . Rio de

Janeiro: Graal, 1995.

2 4 Faço aqui uma mera referência a uma discussão que pretendo abordar com mais

acuidade no fecho do texto sobre a desconstrução, nos quadros da antropologia, da relação

com seu objeto inicial de pesquisar 0 .. nativo. Nos tempos da globalização, da era

1 6 4 B I B l O S , R i o G r a n d e , 1 0 : 1 5 9 - 1 7 2 , 1 9 9 8 .

tornou-se prática comum entre os antropólogos, num processo que Roberto

Da Matla classificou como u m m o v im e n t o d r á s t ic o o n d e , p a r a d o x a lm e n t e ,

n ã o se s a i d o lu g a f 6 . 0 Brasil tem, inclúsive, aquilo que poderia se chamar

de uma tradição em antropologia urbana.

Dada a questão, considero necessário me reportar às teorias e abordagens clássicas da temática urbana. Não a fim de estabelecer uma síntese exaustiva ou uma posição acabada. Antes, angular visões que têm sido suportes de produção acadêmica e dialogar com autores e escolas relevantes no estudo urbano.

Max Weber, teórico alemão, preocupou-se especialmente com a modernidade ocidental, ao longo de sua obra, e um dos focos de sua análise foi a cidade, que ele estudou no sentido de definição dos critérios de seu

conceito dentro da configuração do ocidente moderno. Para ele, a

c o m u n id a d e u r b a n a , n o s e n t id o p le n o d a p a la v r a , e x is t e u n ic a m e n t e n o

O c k i e n t e " , Weber correlaciona o fenômeno ao processo capitalista em

curso no mundo ocidental. N e s t a p e r s p e c t iv a , a c id a d e n ã o se a u t o - e x p lic a

p o is n ã o é u m a t o t a lid a d e , m a s a p e n a s a o b je t iv a ç ã o d e u m a t o t a lid a d e m a io r , n a q u a l se i n s e r e " , conforme a classificação que Ruben Oliven estabeleceu para abordagem weberiana. Para ele, Weber analisa a cidade como uma variável dependente.

comunicacional, ou seja qual definição que se queira dar, não podemos mais trabalhar tal qual Malinowski (não que sua obra seja dispensável e não-valorizável). A relação sujeito-objeto radicalmente se alterou. Até porque o próprio objeto se pluralizou e complexificou, sem falar, outrossim, no redimensionamento do lugar, da fala e da interação do sujeito com quem e com o que produz. Boas pistas, para uma primeira reflexão, encontram-se em GEERTZ, Clifford.

Estar lá. Escrever aqui.D iá lo g o , n. 3, v. 22, p. 58-63,1989.

2 5 Gilberto Velho tem apontado para a relativização necessária dos conceitos de

familiar e exótico. O q u e s e m p r e v e m o s e e n c o n t r a m o s p o d e s e r f a m ilia r m a s n ã o é

n e c e s s a r ia m e n t e c o n h e c id o , e o q u e n ã o v e m o s e e n c o n t r a m o s p o d e s e r e x ó t ic o m a s , a t é

c e r t o p o n t o , c o n h e c id o . N o e n t a n t o , e s t a m o s s e m p r e p r e s s u p o n d o f a m ilia r id a d e s e e x is t im o s

como f o n t e s d e c o n h e c im e n t o o u d e s c o n h e c im e n t o , r e s p e c t iv a m e n t e . VELHO, Gilberto.

Observando o familiar. In: NUNES, Édson de Oliveira. Aa v e n t u r a s o c io ló g ic a . Rio de Janeiro :

Zahar, 1978. p. 39. Para o autor, o estranhamento pode-se dar no próprio habitat do

antropólogo, num processo de a u t o - e s t r a n h a m e n t o . Logo, estudar a própria sociedade nãoé

pecado condenável. Há possibilidades múltiplas nisso. Relativizarmos nossa própria cultura abre-nos uma perspectiva muito rica.N ã o c r e io q u e oe s t u d o d a p r ó p r ia s o c ie d a d e s e ja u m a

h e r e s ia d a t r a je t ó r ia d a r e f le x ã o a n t r o p o ló g ic a , m a s s ig n if ic a , s e m d ú v id a , u m a a m p lia ç ã o e

c o m p le x if ic a ç ã o d e n o s s o c a m p o d e e s t u d o . VELHO, Gilberto. O antropólogo pesquisando em

sua cidade: sobre conhecimento e heresia. In: VELHO, Gilberto (org.). Od e s a f io d a c id a d e .

Rio de Janeiro: Campus, 1980. p. 20.

2 6 DA MATTA, Roberto. O ofício do etnólogo ou como ter "antropological blues". In:

NUNES, Edson de Oliveira. Aa v e n t u r a s o c io ló g ic a . Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 29.

2 7 WEBER, Max. Conceito e categorias de cidade. In: VELHO, Otávio. Of e n ô m e n o

u r b a n o . Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p. 82.

28 OLlVEN, Ruben George. A cidade como categoria sociológica. In:

U r b a n iz a ç ã o em u d a n ç a s o c ia l n o B r a s il. Petrópolis : Vozes, 1980. p, 94.

(5)

Cabe ressaltar, contudo, que, ao fazer uma leitura generosa de Weber, percebo que o sociólogo tem o mérito de promover uma abordagem

da cidade, mesmo que numa correlação profunda com o capitalismo, que vai

além do economismo. Até porque, para Weber, a modernidade capitalista é

mais um sistema sócio-econômico. É um modo de civilização que envolve

outros fatores (políticos, militares, religiosos, jurídicos ... ). É o espírito de um

tempo que se objetiva na cidade.

Por não ser uma totalidade autônoma, a cidade, na análise weberiana,

é objeto de estudo relevante, dado que sua meta é

gfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

a n a lis a r a s ig n if ic a ç ã o e

QPONMLKJIHGFEDCBA

a f u n ç ã o d a o r g a n iz a ç ã o u r b a n a n o d e s e n v o lv im e n t o d o p r o c e s s o d e r a c io n a liz a ç ã o d o o c id e n t e , is t o é, n a g ê n e s e d o m u n d o

A

m o a e t n o " , de

acordo com a leitura de Léa Perez. Desse modo, os elementos que

conferem racionalidade ao mundo ocidental moderno têm de estar presentes

na cidade. E são estes, portanto, que definem o conceito de espaço urbano,

no sentido concebido por Max Weber. 3 0

Quanto ao aspecto econômico, a cidade se define pela tipologia das

atividades produtivas: por um lado, deve haver indústria e comércio, e por

outro, há de ocorrer a variedade de ofícios e tecnologias produtoras. Tais

quesitos propiciam ser a cidade o lugar do mercado. É a cidade, na ótica de

Weber, uma aglomeração mercante que deve ter o caráter local e perene,

com o in t e r c â m b io r e g u la r e n ã o o c a s io n a l d e m e r c a d o r ia s n a lo c a lid a d e , c o m o e le m e n t o e s s e n c ia l d a a t iv id a d e lu c r a t iv a e d o a b a s t e c im e n t o d e s e u s

n e b i t e n t e s . "

A cidade deve ser um centro político-administrativo e, como tal, contar

com relativa autonomia jurisdicional e de administração do poder público

com (no mínimo, parcial) participação cidadã. Ou seja, ser uma comunidade

intelectualizada. E nesse âmbito, agrega o fato da institucionalização da

forma de propriedade - a existência de propriedade imobiliária,

regulamentada e regulada pelo mercado e pelo direito. Ainda no cerne do

quesito político-administrativo, salienta o autor ser a cidade o espaço da

segurança e destaca isso relacionando ao fato de a cidade ser o local do

mercado. Difere da tradicional visão de que não é moderna a existência da

fortaleza e da guarnição, versão que peca por não perceber que é condição

s in e q u a n o n para a existência e desenvolvimento do mercado a paz e a

segurança. Portanto, conjugam-se a organização política interna, o

componente militar e o desenvolvimento do mercado no processo urbano,

conforme o olhar de Weber.

2 9 PEREZ, Léa. Dois olhares sobre o urbano : Max Weber e a Escola de Chicago.

V e r it a s . Porto Alegre, PUCRS, v. 39, n. 156, p. 622, 1994.

3 0 O resumo, de caráter absolutamente sintético e preliminar que passo a fazer dos

critérios de cidade em Weber é com base no texto já referido: WEBER, op. cit., p. 68-89.

3 1 WEBER, op. cit.. p. 69.

166 BIBlOS, Rio Grande. 10: 159-172, 1998.

Falar na cidade. é, obrigatoriameflte, falar no cidadão, sujeito e objeto

da/na urbe - do direito, da propriedade, do poder e do mercado. Nesse

sentido, para o teórico, a cidade é o local onde relação de vizinho e

associações dos habitantes da urbe, que formam uma comunidade, está

regimentada por um controle político. Dito de outro modo: está racionalizada

por uma ordem político-administrativa.

Para além do aspecto quantitativo (dimensão e territorialidade da

cidade), Weber traça uma caracterização profunda e perspicaz, calcada em

critérios que vão do econômico ao reliqioso."

Na medida em que o autor dá essa pluralidade de focos, ampliando a

visibilidade no estudo do urbano e fugindo de uma análise e c o n o m is im p lis t a ,

o pensamento weberiano ganha vigor e importância. Faço eco à

significância atribuída por Léa Perez aos escritos produzidos por Max Weber

sobre a cidade."

Ruben Oliven situa a Escola de Chicago na vertente de estudo da

cidade como variável independente?'. E, segundo o mesmo autor, de certa

maneira oposta à corrente de Weber, apresentada acima. Para Oliven, na

perspectiva desta escola, a c id a d e s e r ia v is t a c o m o u m a p o t ê n c ia s o c ia l

c a p a z d e g ir a r c o m s u a in f lu ê n c ia os m a is v a r ia d o s e t e it o s " : Ou seja, a

cidade seria a causa da forma específica de organização sócio-cultural

que ocorre no espaço urbano. Porém, conforme esse autor, sem

correlações com fenômenos externos. Posição esta que contra-argumento a

seguir.

Trabalhando com a mortologia da vida urbana, seja no processo de

interaçâo humana com a cidade, seja no aspecto da experiência coletiva

típica do espaço urbano, a Escola de Chicago propõe um olhar sincrônico.

Ao analisar a situação em si, focando um lo c u s específico, a Escola rompe

com o princípio de linearidade. A E s c o la d e C h ic a g o se in t e r e s s a p e la

3 2 Weber fala da cidade como um espaço sócio-cultural de agrupamento em torno

também de símbolos religiosos, como entidades mitico-religiosas e/ou templos religiosos. Ver WEBER, op. cit., p. 81-89.

3 3 Conforme Léa Perez: A a n á lis e s o b r e a c id a d e [feita por Weber), p a r a a lé m d a

r iq u e z a e p r o f u n d id a d e n o t o c a n t e a o s d a d o s a p r e s e n t a d o s , m o s t r a n ã o s o m e n t e a g r a n d e

v a r ie d a d e d e p o s s ib ilid a d e d e o r g a n iz a ç ã o d o u r b a n o , c o m o t a m b é m s u a c o m p le x id a d e .

c o lo c a n d o p a r a o a n a lis t a a n e c e s s id a d e d e c r u z a r d if e r e n t e s n í v e is e p la n o s a n a lí t ic o s

Ressalta ainda que Weber fez u m a d e m o n s t r a ç ã o e x e m p la r d a d iv e r s id a d e d o s "approches"

p o s s í v e is d e u m m e s m o f e n ô m e n o , d o m é t o d o d o s t ip o s id e a is , d e u m a in t e r p r e t a ç ã o c e n t r a d a

n o r e la t iv is m o e n o p lu r a lis m o , e f e it a a p a r t ir d o m é t o d o c o m p a r a t iv o e d a p e r s p e c t iv a d a s

r e la ç õ e s d e v a lo r . Pontua, por fim, que a im p o r t â n c ia d e s t e e s c r it o é o f a lo d e e le c o n s t it u ir

u m a in s t ig a n t e r e f le x ã o s o b r e of e n ô m e n o u r b a n o d e u m a a t u a lid a d e r e m a r c á v e l. PEREZ, op cit.,

P.628-629.

34 OLlVEN, op. cit., p. 19.

3 5 OLlVEN, op. cit., p. 20.

BIBlOS. Rio Grande, 10: 159-172. 1998.

(6)

c id a d e já d a d a ,

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

em s u a e x is t ê n c ia p le n a ep r e s e n t e , c o t id ia n a eh u m a n a " . 3 6

Contudo, os sociólogos urbanos de Chicago, ao privilegiarem úrn

dado recorte no estudo (do urbano), não abandonam por completo a

correlação da cidade com a civilização ocidental e a modernidade. Assim, de

certo modo se aproximam de Weber; ao contrário da crítica corrente,

contextualizam seu objeto.

Robert Ezra Park, um dos líderes da Sociologia Urbana de Chicago,

diz que: As c id a d e s e, e s p e c ia lm e n t e , as g r a n d e s c id a d e s m e t r o p o lí t a n a s d a é p o c a m o d e r n a , n a m e d id a em q u e p o d e m s e r c o n s id e r a d a s c o m o u m p r o d u t o d a a r t e e d a v o n t a d e m a is d o q u e o e f e it o d a s f o r ç a s n a t u r a is , são, em t o d a

QPONMLKJIHGFEDCBA

a s u a c o m p le x id a d e a a r t if ic ia lí d a d e , a c r ia ç ã o m a is e de produto da

vontade conduzem, primeiro, à relação com a temporalidade e inovação,

típicas da configuração da modernidade e, segundo, à noção de projeto e de

intencionalidade racional, elementos distintivos desse mesmo processo

civilizacional. Concluindo, Park diz: P o r t a n t o , d e v e m o s c o n c e b e r nossas

c id a d e s n ã o a p e n a s c o m o c e n t r o s d e p o p u la ç ã o , m a s c o m o o f ic in a s d e c iv í lí z a ç ã o e, ao m e s m o t e m p o , c o m o o h a b it a t n a t u r a l d o h o m e m

A

c i v i t i z e d o "

O processo civilizacional está, com Park, vinculado ao processo

urbano. Cidade e civilização são componentes de um todo explicativo, onde

as partes interagem entre si. C a d a n o v a c iv lliz e ç ê o t e m s id o a c o m p a n h a d a p e lo a p a r e c im e n t o d e n o v a s c id a d e s . P o r q u e a e x p a n s ã o d a e x is t ê n c ia c o r p o r a t iv a e c o le t iv a d o h o m e ms e t o r n o u p o s s í v e l p o r m e io d e n o v a s c o n c e n t r a ç õ e s d e p o p u la ç õ e s n o s r e s p e c t iv o s c e n t r o s . E s s e s c e n t r o s t ê m s id o as c i d e o e s " , Assim, a civilização se funda na cidade, e é a cidade a

oficina da civilização. Para o autor, a importância da cidade como objeto está

em percebê-Ia como instrumento da evolução e expansão da civilização.

Outro sociólogo vinculado à Escola de Chicago é Louis Wirth.

Comungando com as questões abordadas por Park, Wirth diz que o q u e

c h a m a m o s d e c iv iliz a ç ã o ( . . . ) t e m s e u b e r ç o n a c id a d e ; a c id a d e é o c e n t r o q u e ir r a d ia as in f lu ê n c ia s d e v id a c iv iliz a d a m o d e r n a p a r a os c o n f in s d a t e r r a , e o p o n t o q u e as c o n t r o l e " . Na pena de Wirth, ao tratar da cidade, também

figuram traços distintivos da civilização moderna: a idéia de irradiação,

correlato das noções de homogeneização e vetorização, trazidas por Jean

Baudrillard'", assim como a idéia de controle, de normatização, que Míchel

Foucault tanto pontuou ao longo de sua obra, que é referencial ao se pensar

3 6 PEREZ, op. cit., p. 630.

37 PARK, Robert Ezra. A cidade e a civilização. In: PIERSON, Donald. E s t u d o s d e

o r g a n iz a ç ã o s o c ia l. São Paulo: Martins, 1949. p. 692-693.

3 8 PARK, op. cit., p. 589.

3 9WIRTH, Louis. A sociedade urbana. In: PIERSON, op, cit., p. 604.

4 0 BAUDRILLARD, op. cit., p. 28-31.

168 BIBlOS, Rio Grande, 10: 159-172.1998.

a modernidade no que tange à disciplinarização, o poder e as instituições

racionalizadoras dos corpos e das m e n t e s ."

Pensar a modernidade como o modo de civilização onde se configura

a noção de indivlduo (e Louis Dumont e Norbert Elias foram mestres nisso)?

é pensar que o espaço onde se construiu esse preceito cultural é a cidade.

Dado que o indivlduo se funda na alteralidade do "eu" frente a outro "eu",

isso só pode se dar na coletividade.

Seguindo a idéia levantada por Francisco Coelho dos Santos, ao

tratar dos pressupostos filosóficos da modernidade, o p r im e ir o n ê o é o

p r im e ir o se n ê o é s e g u id o p o r u m s e g u n d o . E m c o n s e q O ê n c ia , o s e g u n d o

n ê o é s im p le s m e n t e u m a e s p é c ie d e r e t a r d a t á r io q u e v e m d e p o is d o p r im e ir o ; p o is é e t e - q u « p e r m it e ao p r im e ir o s e r o p r i m e l r o " , Assim, o

indivlduo só é indivlduo em relação ao coletivo, uma vez que a elaboração

do indivíduo se dá de forma relacional, na experimentação da partilha

cultural e no desenvolvimento da subjetividade pessoal. Outrossim, o

lndivlduo só é indivíduo na sociedade moderna e, em contrapartida, a

sociedade moderna existe como tal devido à existência de um conjunto de

indivíduos que se agrupam no espaço urbano. Logo, o indivíduo é fruto da

cidade. Dito de outro modo: a noção de indivíduo é tributário da cidade,

posto que oa r d a c id a d e lib e r t a , conforme o adágio medieval alemão. E Park

persegue essa pista ao constatar que a c id a d e , e e s p e c ia lm e n t e a g r a n d e

c id a d e , o n d e m a is d o q u e em q u a lq u e r o u t r o lu g a r as r e la ç õ e s h u m a n a s

4 1 Foucault propõe uma teoria da modernidade com base numa abordagem de poder e

de racionalidade que difere das concepções correntes, correlacionando texto e contexto,

racionalidade e práticas de disciplinarização, numa perspicaz constatação de que o poder não

apenas reprime, mas também cria, assim como não é característico de uma classe ou uma

instituição, mas contamina todos os aspectos da vida social, numa rede infinita e complexa de "micropoderes" que permeiam os saberes, os sujeitos e as instituições na efetivação de gestos, atitudes e discursos projetados por uma dada "epistemé". Para essa sintética exposição, tomo as seguintes obras: FOUCAUL T, Michel. Asp a la v r a s e as c o is a s .São Paulo:

Martins Fontes, 1995 (em especial os capítulos 1 1 1 , V, VII e XIX); FOUCAULT, Michel.

M iC [ g f í s ic a d o P o d e r . Op. cít., (em especial os capítulos 1 1 .V, VI e XI) e FOUCAUL T, Michel, V ig ia r

eP u n ir :nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

. 4 2 Louis Dumont vai buscar na herança judaico-cristã os fundamentos do fenõmeno

cultu~al do individualismo que se expande no Ocidente a partir do Renascimento. O indivíduo, como valor supremo da sociedade, é tributário do aviltamento e da desvalorização do mundo como ele é, e o revigoramento da ação individual rumo à realidade projetada. Dito de outro modo: o individualismo é um traço distintivo de nosso processo civilizacional, tendo o indivíduo uma temporalidade e uma espacialidade próprias. Ver: DUMONT, Louis, O I n d iv id u a lis m o :

uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Já Norbert Elias, ao estudar a

sociogênese dos padrões civilizacionais, preocupa-se em perceber desde atos mais cotidianos

como o comportamento à mesa, ou processos mais institucionalizados, como a construção

dos Estados-Nação, Entretanto, entre esses exemplos não há diferença de importância,

ambos são revestidos de significação relevante na expansão dos princípios organizadores do modo civilizacional moderno. Cf. ELlAS, op. cit., 1, e 2. v.

4 3 COELHO DOS SANTOS, op. cit., p. 9.

(7)

t e n d e m

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a s e r im p e s s o a is e r a c io n a is , ( . .. ) , [e é a cidade] n u m s e n t id o b e m r e a l u m la b o r a t ó r io p a r a

QPONMLKJIHGFEDCBA

a

A

t n v e s t i q e ç ê o d o c o m p o r t a m e n t o c o le t iv o .4 4

Ezra Park define a cidade como uma.o r d e m m o r a l, onde se elabora

uma expressão coletiva e organizad~ não apenas de instituições e

indivíduos. A cidade não se caracteriza apenas quantitativamente pelo

conjunto de c o n v e n iê n c ia s s o c ia is que dispõe - prédios, serviços públicos,

funcionários, meios de transporte ...A n t e s , ac id a d e é u m e s t a d o d e e s p f r it o ,

u m c o r p o d e costumes e t r a d iç õ e s e d o s s e n t im e n t o s e a t it u d e s

o r g a n iz a d o s , in e r e n t e s a esses costumes e t r a n s m it id o s p o r essat r e a i ç ê o . "

Ao apontar a cidade como uma ambiência simbólica, Park faz as ciências sociais vislumbrarem o urbano como um campo de investigação privilegiado. Ou seja, abre a discussão em torno do conceito de cultura urbana. Tomando a cidade como um estado de espírito, está trabalhando o

meio urbano como contexto expíicatívo da cultura. Se por um lado se define

o objeto de estudo da sociologia urbana, não obstante o desconstrói, uma vez que então tudo que é urbano é objeto desse saber. Porém, esse

esquadrinhamento não é por postura teórica e/ou metodológica arbitrária. É

o próprio objeto que assim impõe, já que a cidade é o lugar de todos e de

tudo: c a d a in d iv í d u o e n c o n t r a e m a lg u m lu g a r e n t r e as v a r ia d a s

m a n if e s t a ç õ e s d a v id a c it a d in a o t ip o d e a m b ie n t e n o q u a lse e x p a n d e e se

s e n t e à v o n t a d e ; e n c o n t r a , em suma, o c lim a m o r a l em q u e sua n a t u r e z a

p e c u lia r o b t é m os e s t f m u lo s q u e d / jo liv r e e t o t a l e x p r e s s / jo a suas

d is p o s iç õ e s .46

Por ser então o espaço da multiplicidade, da variedade de

experiências, do contato e da mistura das diterenças, a cidade torna-se o

campo fértil para o olhar antropológico sobre os grupos e territórios culturais que se formam no espaço urbano.

O autor brasileiro que melhor soube trabalhar a cidade, para mim, foi Gilberto Freyre. Dono de uma perspicaz capacidade de análise, Freyre na sua vasta obra mergulhou nas questões da brasilidade e uma de suas miras foi o processo urbano no Brasil. Ao olhar a cidade moderna, fez aquilo que

tem sido também meu propósito: escapouà lógica moderna de análise e viu

a modernidade no Brasil.

O ato da conquista lusa sobre o Brasil não só demarcou possessão territorial e poder administrativo metropolitano, mas o início da modernidade

na América. Para Gilberto Freyre, o Brasilé a p r im e ir a s o c ie d a d e m o d e r n a

c o n s t it u f d a n o s t r ó p ic o s c o m c a r a c t e r f s t ic a s n a c io n a is . e q u a lid a d e s d e

p e r m a n ê n c ia . Q u a lid a d e s q u e n o B r a s il m a d r u g a r a m , em v e z d e se

4 4 PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestão para a investigação do comportamento

humano no meio urbano. In: VELHO, op. cit., p. 45.

4 5 PARK, op. cit., p. 26.

4 6PARK, op. cit., p. 63.

1 7 0 BIBlOS, Rio Grande. 10: 159-172. 1998.

r e t a r d a r e m c o m o n a s possessões t r o p ic a is d e in g le s e s , f r a n c e s e s e

h o la n d e s e s .4 7

No Brasil, a modernidade passou por uma aclimação, isto é, ressignificou-se a partir das condições locais, numa dinâmica de amálgama,

para usar termos de Jean Baudriílard", ou processo de hibridização e

sincretismo, nas palavras de Gilberto Freyre_49

O Brasil foi o contexto onde se misturaram códigos culturais antes distintos: os europeus, indígenas e negros, que aqui simbiotizaram-se de tal modo que desenvolveram aquilo que para Freyre pode ser denominado de

e q u ilf b r io d e a n t a g o n is m o s , verificável no cruzamento das raças, nas trocas

culturais e na inviabilidade da separação entre urbano e rural, e por isso a

proposição dor u r b a n o : uma ordem mista entre o rural e o urbano."

Nos termos gilbertianos, falar da cidade brasileira é falar de um

espaço polissêmico e, portanto, sedutorà análise.

Pensar a cidade à brasileira é aceitar que, de um lado, adotamos

nomes de cidades européias e de santos católicos". mas, por outro,

batizamos estas também com vocábulos indígenas, por exemplo. Assim

como nossas ruas, que, apesar dos nomes de autoridades, insistimos e m

chamá-Ias, teimosamente, por outras nominações de caráter sentimental e

cotidiano". Contudo, ao assim fazer, não renunciamos à modernidade,

apenas a reinventamos. Roberto da Matta, inegável seguidor das pistas

4 7 FREYRE, Gilberto. C a s a - g r a n d e &s e n z a la : formação da família brasileira sob o

regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 12.

4SBAUDRILLARD, op. cit., p. 32-33.

4 9 Freire aponta-nos para a mobilidade e a plasticidade da cultura brasileira, que

hibridiza vários bens e símbolos culturais, desde os valores morais até a arquitetura, as raças e as línguas ... Ver FREYRE, Gilberto.C a s a - g r a n d e&s e n z a la ,op. cit.

5 0 O conceito der u r b a n oé proposto por Gilberto Freyre como uma melhor categoria de

análise sobre as relações entre o urbano e o rural no Brasil que, para o autor, não são

dicotOmicas, mas contínuas e misturadas. Cf. FREYRE, Gilberto. S o b r a d o s & m u c a m b o s :

decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. Rio de Janeiro: José Olympio. Brasllia : INL, 1977. p. XXXIV-XXXV_

5 1 Sobre a questão do nome das cidades e ruas no Brasil, é possível perceber um

processo de integração com o universo cultural da modernidade em sua origem (européia) e

n e s t e c a s o ,u m a t o s im b ó lic o d e r e c r ia ç ã o d o lo c a l d e o r ig e m , conforme Luiz Ricardo

Centurião. É adequado, ainda, perceber que para além do sistema formal de denominações,

há outro: subjetivo, afetivo. Para Roberto da Matta, asc id a d e s b r a s ile ir a s t ê m d o is t ip o s d e

o r ie n t a ç ã o . C o n v iv e m c o m a r a c io n a lid a d e d o s is t e m a d e r u a s o c id e n t a l, q u e n o s E s t a d o s

U n id o s v a iao e x t r e m o - c o m n ú m e r o s eg r a d e s p e r f e it a m e n t e g e o m é t r ic a s - , c o m os is t e m a

t r a d ic io n a l, m a is p e r s o n a liz a d o . Aom e s m o t e m p o q u e s it u a asz o n a s n o r t e , s u l, le s t e e oeste,

U s a c o m o r e f e r ê n c ia u m m o r r o , u m a m a n g u e ir a f r o n d o s a . Ver: CENTURIÃO, Luiz Ricardo. A

cidade na América colonial portuguesa. E s t u d o s I b e r o - A m e r ic a n o s : Porto Alegre, PUCRS, v.

22, n. 1, p. 126, jun. 1996, e DA MATTA, Roberto. Antropologia da preguiça (entrevista a

Celina COrtes).I s t o é,São Paulo, n. 1415, p. 5-6,13 novo 1996_

5 2 A nossa "Rua da Praia"é um exemplo bem claro disso - no caso, oficialmente a

"Rua dos Andradas' da cidade de Porto Alegre.

(8)

deixadas por Freyre, aponta para algo que creio ser fundamental observar

sobre o Brasil. Para esse antropólogo, existe aqui o que ele chamou de

gfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

in s t it u c io n a liz a ç ã o d o in t e r m e d it lr io , que não pode ser restrito a um lugar

negativo no sistema (reportando-se, assim,

QPONMLKJIHGFEDCBA

à generosidade e positividade

propostas por Freyre).

O ponto de vista estritamente racional, sem dúvida, não dá conta da

trama brasileira. A fim de caracterizar a cultura brasileira, da Matla usa uma

metáfora: a história de Dona Flor, narrativa de Jorge Amádo, que entre ficar

com Vadinho ou Teodoro, e la s u g e r e f ic a r c o m o s d o is , e s c o lh e n d o n ã o

e s c o lh e r .5 3

No Brasil, assim como Dona Flor, a cidade não escolheu entre o

racional e o passional, entre o tradicional e o moderno. Optou-se, aqui, por

um sistema híbrido, plástico, onde o amolecimento das regras não significa

sua recusa em definitivo, mas sua ressemantização permanente. N ó s n ã o

p o d e m o s e n ã o q u e r e m o s s e p a r a r a s c o is a s , in t e r d iç õ e s r f g id a s n ã o t ê m

lu g a r , n e m v e z .5 4

Movimento, contrastes violentos, misturas, diferenças que tanto dão

cara à cidade brasileira não negam ao nosso exotismo tropical a

modernidade, apenas a tonalizam, dando-lhe uma cor de subversão, de

calor que desmancha normas rígidas e miscigena deliciosamente os vetores

da racional idade e do progresso com a afetividade e a desordem,

contradizendo o próprio pístico de nossa bandeira nacional.

O que pretendi, contudo, foi apenas vislumbrar um ângulo possível de

análise sobre o Brasil. Sob o foco da cidade, busquei conceber que a

modernidade na Terra de Santa Cruz existe sim, apenas foi "naturalizada

brasileira, nacionalizando os critérios de moderno e de urbano, tal como

foram concebidos pelos analistas do modo civilizacional da modernidade e

da cidade. Amolecidas as regras sociais, também os conceitos que as

tentam contemplar derretem-se frente a essa pulsão cultural.

5 3 DA MATTA, Roberto. Para uma antropologia da tradição brasileira. In: C o n t a d e

m e n t ir o s o : sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 149.

5 4 PEREZ, Léa. Por uma poética do sincretismo tropical. E s t u d o s I b e r o - A m e r ic a n o s .

Porto Alegre, PUCRS, v. 18, n. 2, p. 51, 1992.

1 7 2 B I B l O S . R i o G r a n d e , 1 0 : 1 5 9 - 1 7 2 . 1 9 9 8 .

Referências

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