1
4. EQUAÇÃO FUNDAMENTAL
As máquinas hidráulicas podem ser estudadas, e os cálculos relativos a estes equipamentos podem ser feitos utilizando vários métodos, dentre os quais se destacam dois. O primeiro e mais antigo tem como hipótese que o rotor tem um número infinito de pás, que teriam de ser infinitamente finas. Na segunda abordagem a representação é feita a partir da análise de uma única pá, para daí então aproximar para o caso real. Esta apostila utiliza o primeiro método, que parte da hipótese de “escoamento congruente nas pás”.
4.1 EQUAÇÃO DE EULER
A equação de Euler é a equação básica para o desenvolvimento/estudo de bombas, ventiladores e turbinas.
Expressa o intercâmbio de energia entre o rotor e o fluido.
Para iniciar as análises são feitas as seguintes hipóteses simplificadoras, considerando uma máquina ideal:
Número infinito de pás
Espessura infinitesimal das pás
Fluido incompressível
Sem atrito (fluido ideal)
Isento de choque na entrada
Regime permanente
Considerando agora o princípio da conservação da quantidade de movimento angular (QMA) aplicado ao volume de controle (Figura 4.2) tendo como base o eixo do rotor:
(4.1)
Desconsiderando os torques devido às forças de superfície e de corpo (do campo gravitacional), e considerando regime permanente, resulta:
(4.2)
Figura 4.1 – Visão em corte do rotor (Fonte: Turton, 1995)
controle de superfície pela líquido de QMA Fluxo
controle de volume
no temporal de QMA Variação
eixo Torque nal
gravitacio campo da força devido Torque
superfície de força da Torque
.
VC eixo VC SC
s r x C dV r x C C d A
T t dV g x r F
x
r
SC
eixo r x C C d A
T
.
2 Figura 4.2 – Volume de controle para rotor de máquina geradora
Considerando uma máquina geradora e usando as relações do triângulo de velocidades na entrada (4):
4 4 4
4
4 4
C C sen
C
sen C u u
4 4
4 4 4
0 cos cos
180
cos
4C
4C
C C
m
m
E a partir do triângulo de velocidades na saída (5):
5 5 5 5
5
5
C C sen
C
sen C u u
5 5 5
5 cos
cos
55
C C
C C
m
m
Aplicando a Eq.(4.2) ao rotor da Figura 4.2, que representa o rotor de uma máquina geradora,
4 . 5 .
SC
eixo SC r x C C d A r x C C d A
T
Considerando o módulo do torque, com T eixo >0 em máquinas geradoras, usando o sub índice “t” para indicar um valor teórico, e o sub índice “∞” para indicar que foi obtido com a premissa de rotor com número infinito de pás,
5 4
0 cos( )
180
cos( SC
C C
SC
C C
t r C sen C d A r C sen C d A
T
m u
m u
Lembrando que “ θ ” é o ângulo formado entre “r” e “C”,
m
m u m
m u
t r C C A r C C A
T
5 5 5 5 4 4 4 4
3 Assim, o torque teórico para máquinas geradoras é expresso por,
(4.3)
De forma similar, para máquinas motoras,
(4.4)
Pode-se deixar as Eqs. (4.3) e (4.4) na forma genérica para máquinas hidráulicas geradoras e motoras 1 . (4.5)
“+” indica máquinas geradoras
“-“ indica máquinas motoras
A potência hidráulica (P h ) é definida como o produto do torque (T) pela velocidade angular (ω).
Considerando que esta potência é a hidráulica (P h ) teórica (subscrito “t”) de um rotor com número infinito (subscrito
“∞”), resulta:
5 5 4 4 . u r h t 5 u 5 4 u 4
T u t u
h m r C r C P m u C u C
P
t
A potência hidráulica também pode ser obtida pelo produto do peso específico (ϒ) pela vazão (Q) pela energia por unidade de peso (H) fornecida/recebida pelo rotor para/do fluido. Assim:
g m H P
Q H P
QH
P h t t t h t Q gCA m g t h t
Logo:
(4.6) A Eq.(4.6) é conhecida por equações de Euler 2 , ou equação fundamental das máquinas de fluxo (fundamental equation of turbomachines ), válida para máquinas radiais e axiais. Vale observar que é válida também para o caso em que a massa específica varie ao longo do rotor, pois a massa específica não aparece na equação.
Casos especiais (simplificações):
Para máquinas axiais: u 4 =u 5 e Cm 4 =Cm 5
Nas turbinas hidráulicas para reduzir as perdas por atrito no tubo de sucção busca-se C u5 =0 resultando α 5 =90º .
Para máquinas geradoras desprovidas de pás diretrizes, como bombas e ventiladores centrífugos, normalmente assume-se α 4 =90º e C u4 =0. Neste caso o escoamento entra no rotor na direção radial.
1
Esta convenção será adotada a partir de agora neste capítulo
2
Segundo Pfleiderer (1979, p.21), a eq.(4.6) foi deduzida por Leonard Euler em 1754.
5 u 5 4 u 4
t m r C r C
T
4 u 4 5 u 5
t m r C r C
T
5 u 5 4 u 4
t m r C r C
T
5 5 4 4
1
u u
t u C u C
H g
4
OUTRAS FORMAS DA EQUAÇÃO FUNDAMENTAL IDEAL DAS MÁQUINAS DE FLUXO
A partir do triângulo de velocidades pode-se tirar as seguintes relações:
(4.7)
Substituindo as eqs. (4.7) na equação fundamental (4.6) obtida anteriormente, resulta:
(4.8)
A eq.(4.8) é outra forma da equação fundamental das máquinas de fluxo. Representa a energia teórica entregue/recebida ao/pelo fluido pelas pás (espessura desprezível) do rotor (com número infinito de pás).
Pode-se ainda calcular a altura teórica com número infinito de pás usando Bernoulli no canal do rotor,
5 4
2 4 2 5 4 5
2 z z
g c c p H t p
Fazendo z 5 ≈z 4 :
(4.9)
Comparando a eq.(4.9) à eq. (4.8) pode-se definir duas energias de pressão. A energia de pressão estática, que o fluido recebe ao passar pelo rotor de uma máquina de fluxo pode ser expressa por:
(4.10)
onde o termo “I” representa o aumento da pressão decorrente da ação da força centrífuga sobre as partículas fluidas, provocado pela diferença de velocidade tangencial na entrada e saída como consequência do movimento do rotor. Vale observar que no caso do rotor axial a velocidade tangencial na entrada e saída são iguais e este termo é nulo. O termo “II” deve-se a transformação de energia de velocidade em energia de pressão, decorrente da diminuição da velocidade relativa entre a entrada e a saída, no interior dos canais em forma de difusores, constituídos pelas pás do rotor.
5 2
2 5 2 5 5
5 2 5 5 5 2 5 2
5 2
2 u c u u c 1 c u w
c
w u u
2 4 2
4 2 4 4
4 2 4 4 4 2 4 2
4 2
2 u c u u c 1 c u w
c
w u u
g c c g
w w g
u H t u
2 2
2
2 4 2 5 2 5 2 4 2 4 2 5
g c c p H t p
2
2 4 2 5 4 5
II I
est g
w w g
u u p
H p
2 2
2 5 2 4 2 4 2 5 4
5
5 E por fim a energia de pressão dinâmica. Além do aumento da energia de pressão estática, há o aumento da energia de pressão dinâmica, devido à variação da energia cinética do fluido ao escoar da entrada para a saída do rotor.
(4.11)
CONCEITOS DE AÇÃO E REAÇÃO
A interpretação dos conceitos de ação e reação tem por base o conceito de energia de pressão estática dada pela eq. (4.10). E as máquinas de ação e reação são classificadas conforme segue:
H est =0 → máquina de ação ou pressão constante H est >0 → máquina de reação
Existe um número adimensional chamado de grau de reação (degree of reaction), que indica como cada uma destas máquinas transforma a energia. Quando a avaliação é feita sob o escoamento ideal, sem perdas, esta grandeza é denominada grau de reação teórico e é dada por,
(4.12)
(4.13)
Exemplo 1: Um rotor de bomba centrífuga de 200 mm de diâmetro de saída gira a 3500 rpm. O ângulo das pás na saída é igual a 22º e a componente meridiana da velocidade absoluta na saída é igual a 3,6 m/s. Determinar a altura teórica para número infinito de pás. Considere escoamento com entrada radial. (R. 103,64 mca)
Exemplo 2: Uma bomba centrífuga opera a 2,0 m 3 /min e rotação de 1200 rpm. A altura da pá na saída é de 20 mm. O ângulo construtivo das pás na saída é de 25º. A componente meridiana da velocidade absoluta na saída é de 2,5 m/s. Determine: a) as alturas e potência teórica para número infinito de pás; b) as expressões das alturas e potências em função da vazão; c) o gráfico H-Q e P-Q de 0 a 4,0 m 3 /min. (R. a) 10,8 mca e 3,6kW; b)H t∞ [mca]=18,1- 218,6.Q[m 3 /s], e Ph t∞ [kW]=177,6Q[m 3 /s]-2144,6.Q 2 [m 3 /s])
Exemplo 3: Uma bomba centrífuga opera a 0,005 m 3 /s e rotação de 1500 rpm. O diâmetro do rotor na entrada é de 100 mm e na saída 200 mm. As alturas da pá na entrada e saída são 10 mm e 5 mm respectivamente.
Determine a energia de pressão transmitida pelo rotor em termos de altura equivalente. O ângulo construtivo das pás na saída é de 30º. (R. 12,18 mca)
g
c H din c
2
2 4 2 5
motoras u
Cu H
H
t est
t
4 4
1 2
geradoras u
Cu H
H
t
t est
5 5
1 2
6
EQUAÇÃO FUNDAMENTAL – EFEITO DO NÚMERO FINITO DE PÁS
Das condições iniciais estipuladas, duas afetam o rendimento de forma mais significativa, o atrito e o número finito de pás. No caso do atrito atribui-se um rendimento hidráulico que considera estas perdas, já o número finito de pás altera o triângulo de velocidades devido ao fenômeno conhecido por “escorregamento“.
ESCORREGAMENTO
A primeira característica que altera a carga (H t∞ ) definida na concepção ideal do rotor é o escorregamento.
Ao se deslocar pelo rotor a partícula, devido à sua inércia, tende a manter sua orientação com relação aos eixos fixos, criando um movimento circulatório em relação ao canal, conhecido como vórtice relativo (relative circulation).
Na Figura 4.3 uma partícula fluida genérica foi representada por uma circunferência cortada por uma reta
“AB”. Devido à inexistência de atrito, a partícula atingirá a seção de saída do rotor (III) com a mesma direção que entrou (I). Porém, enquanto a partícula atravessa o rotor, este está em movimento, arrastando a partícula tangencialmente. Um observador, solidário ao rotor, verá a partícula num movimento radial, mas com certa rotação ao se mover (vórtice relativo).
Figura 4.3 - Origem do vórtice relativo (Fonte: Silva, 2000)
O movimento através do rotor pode ser considerado então como uma composição de movimentos da corrente de passagem e do vórtice relativo (Figura 4.4).
Figura 4.4 – Composição da corrente de passagem (Fonte: Silva, 2000)
O vórtice relativo produz uma corrente radial com sentido centrípeto junto à face de ataque da pá, em
sentido contrário à corrente de passagem, resultando em uma redução da velocidade relativa nesta região. No dorso
da pá (nas costas da pá) o sentido das duas correntes é o mesmo, e ocorre um aumento da velocidade relativa nesta
região. Isto gera um gradiente de pressão através do canal com sobre pressão na face de ataque e depressão no
dorso.
7 Figura 4.5 – Vórtice relativo e distribuição de pressão nas pás
3Esta diferença de pressão gera um “tombamento” da velocidade relativa de saída do rotor na direção do dorso da pá, fazendo que a inclinação da velocidade relativa seja menor que o ângulo construtivo das pás do rotor.
Conforme pode-se ver no triângulo de velocidades da Figura 4.6, a consideração de número finito de pás aumenta a velocidade relativa (W 5# ) se comparada ao que haveria se a consideração fosse com número infinito de pás (W 5∞ ). Como a velocidade tangencial (u 5 ) é a mesma e a vazão não se altera, ou seja C m5# = C m5∞ , ocorre uma redução em C 5∞ e consequentemente em C u5∞ . Reduzindo C u5∞ ocorre automaticamente uma redução na altura (H t∞ ) entregue ou recebida pelo rotor.
Figura 4.6 – Representação dos triângulos de velocidades na saída (Fonte: Alé, 2011)
3