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Migrações, narrativas e sertão (o caso do cordel)

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DOSSIÊ

MIGRAÇÕES, NARRATIVAS E SERTÃO (O CASO DO CORDEL)

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

O

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

ponto de partida é pen-sar o cordel com o um a literatura que m igra. Vem dos tem pos im em oriais, dos relatos que se transm itiam , histórias que se acum ulavam . Um as eram esquecidas, outras

perm aneciam . Relatos que

cum priam um a função nas noi-tes antigas: explicar nossa gêne-se e nossa finitude. Relatos que tentavam aplacar nossos m edos diante das forças da natureza, diante do grande m istério.

Re-latos m itopoéticos. Porque no

princípio era a voz ...

M igração que se dá no tem -po e no espaço. Essas narrativas vêm dos lugares m ais dispares. Fazem parte de um fundo co-m uco-m de cultura. Trata-se de uco-m grande texto polifônico, que pode se relacionar com o m ito

lingüís-tico de um a apartação em Babel do que nunca m ais se uniria, apesar do latim e do inglês.

Relatos que m igram e

acom panham a saga da ocupação do planeta. Que

fizeram parte de um cancioneiro indo-europeu. No

caso do cordel brasileiro, histórias que sofreram in-fluências m ouras e judaicas, sefaraditas, na península

ibérica; antes de se m isturarem aos m itos indígenas e à herança africana, no grande caldo, m estiço e sin-crético, da cham ada cultura brasileira.

Histórias que m igraram da voz para o escrito,

com a inscrição nas grutas das cavernas, das lajotas de barro, no m árm ore dos tem plos e tum bas e no bronze da escultura m onum ental.

M igrar com o idéia de m over-se diante de um a realidade hostil ou em busca de um sonho, elem ento

propulsor das culturas. M igrar com o fuga, destino,

castigo ou busca. Com o m etáfora da dinâm ica ou da

circularidade da cultura, quando tudo se m ove, para

GllMAR

DE CARVAlHO*

se atualizar e perm anecer ou para se apagar de vez.

M igrar com o a errância

na direção do acaso, do risco, do im previsto. O eterno retor-no a um ponto zero. Com todas

as m etáforas do labirinto, das

ruínas circulares e dos

desloca-m entos no tedesloca-m po e no espaço. Cordel que deve ter vindo

na bagagem do colonizador, é o que todos dizem , esquecendo

da contribuição dos donos da

terra e dos que chegaram aqui depois de um a longa travessia, noite e m ar adentro, nos porões dos navios negreiros.

Outras m igrações, força-das, de gente que não tinha o

estatuto de gente, sendo tido

com o "coisa",m ercadoria, ofer-tada em anúncios de jornais.

Cordel que passa, pelo

que cham aria o teórico Antonio

Candido, de aventura da

adaptação. Que ia bem além

de transform ar o rei no dono

da fazenda, a princesa na filha do coronel ou o herói no rebelde prim itivo.

Adaptação que passava pela assim ilação de

outros códigos, nunca a m era incorporação da cor

local, m as um processo m ais intenso e profundo, de

apropriação de valores, de processam ento de

infor-m ações na construção de um a nova ou outra visão

do m undo.

Que está na gênese de um a recriação, que parte da tradição para superá-Ia e traz, com o no "topos"

do m undo às avessas, o m orto nas costas do vivo

ou o velho nos om bros do novo. Ou no país de São Saruê, nossa Cocanha, com rios de leite e m ontanhas de cuscuz.

Adaptação que incorpora à prosa das narrativas

constantes dos prim eiros títulos da Im prensa Régia do

RESUMO

o

t e x t o in s e r e o c o r d e l n u m a d is c u s s ã o s o b r e e x í lio e m ig r a ç ã o , c o n s id e r a n d o - s e q u e e s t e g ê n e r o lit e r á r io v e io d e o u t r o s c o n t e x t o s , a d a p t o u - s e à s c o n d iç õ e s b r a s ile ir a s , s o f r e n d o in f lu ê n c ia s in d í g e n a s e a f r ic a n a s , e in t e r a g e

c o m a c u lt u r a d e m a s s a , c o m o p o é t ic a d a v o z , e d a im a g e m , n a m e d id a e m q u e a b s o r v id a p e la s n o v a s t e c n o lo g ia s . U m a p o e s ia q u e m ig r a d e e p a r a u m a g e n t e s e r t a n e ja q u e é f o r ç a d a a m ig r a r .

T h e a u t h o r in s e r t s t h e c o r d e l in t o a d is c u s s io n a b o u t e x ile e m ig r a t io n , c o n s id e r in g t h a t t h is lit e r a r y g e n r e h a s c o m e f r o m o t h e r c o n t e x t s ,

a d a p t e d it s e lf t o B r a z ilia n c o n d it io n s , b e in g in f lu e n c e d b y I n d ia n a n d A f r ic a n c u lt u r e s , a n d in t e r a d in g w it h t h e c u lt u r e o f t h e m a s s e s a s t h e p o e t r y o f t h e v o ic e , t h e im a g e , w h ile b e in g a b s o r b e d b y n e w t e c h n o lo g ie s . A p o e t r y I h a t

m ig r a t e s f r o m a n d t o r u r a l p e o p le t h a t a r e o b lig e d t o m ig r a t e .

• Doutor em Com unicação e Sem iótico pela PUC de São Paulo, Professor Adjunto do Curso de Com unicação Social da UFC; do Program o de Pós-Graduação em Sociologia e do M estrodo em História Social, am bos da UFC.

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ABSTRACT

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Rio de Janeiro, fundada em 1815, com o "A Donzela Teodora', "A Im peratriz Porcina" ''A Princesa M agalo-na", "Roberto do Diabo" ou "João de Calais', os cinco

livros do povo, com o definiu Câm ara Cascudo, ao

canto dos violeiros.

O que faz com que o im presso traga a m arca do oral. Que a voz possa prevalecer sobre a letra, no dizer

do Paul Zum thor. Que im presso e oral se toquem e

troquem influências, estejam sujeitos a um perm

a-nente processo de negociação, tangenciam entos,

superposições, contam inações e recusas.

M igração que se dá entre as vigílias m edievais, em torno das fogueiras, as leituras coletivas dos fo-lhetos de cordel, no sertão e a possibilidade de acessar essas m esm as histórias no espaço virtual, por m eio da rede m undial de com putadores.

Tradição que dialoga com as tecnologias de ponta, num a m igração de suportes, m ídias e linguagens.

M aquinaria que m igrou dos grandes centros

para as cidades de m enor porte, na lógica do velho, m utante e im placável capitalism o, sem pre em busca de lucro e eficácia.

Tipografias que chegaram ao Recife, à Paraíba

(com o se cham ava João Pessoa), que m igraram para

Cam pina Grande, Condado, Patos, Guarabira, até

depois de m uitas voltas se instalarem em [uazeiro do

Norte, ponto de confluência da diáspora nordestina, a Nova Jerusalém das expectativas sertanejas, a cidade fundada em torno do m ilagre de um santo do povo.

O cordel vem a fixar um

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c o r p u s de histórias,

condensa e irradia influências, cum pre sua função

encantatória, estudada por Vladim ir Propp, com

heróis, provas, m ediadores, auxiliares m ágicos. O

cordel supera seu aspecto de suporte de m itos para se inscrever com o a narrativa tam bém factual, incorpo-rando o cham ado folheto noticioso ou "de acontecido': cujo prim eiro exem plo pode ser o cham ado ciclo do cangaço, onde as peripécias de Lam pião e seu bando,

hoje, personagens da história, ganhavam o registro

jornalístico, no calor da hora, com os folhetos

sen-do lançasen-dos ao m esm o tem po em que se davam os acontecim entos.

Padre Cícero tam bém tem sido objeto de um

c o r p u s que vem desde o início do século XX, sujeito às pressões da Igreja, ao m edo das represálias e à fra-gilidade do produto folheto, nem sem pre subm etido

às condições especiais de arm azenam ento e sujeito a

fungos, ao descaso, à um idade e, por outro lado, cum -prindo sua função social de difundir textos, im agens (na capa xilográfica ou não) e ideologias.

O fato de o cordel ter se am plificado,

preferen-cialm ente, no Nordeste não lhe dá um caráter de

cultura genuína, de raiz, autêntica, com o querem

alguns. Poucos produtos regionais têm sido tão

uni-versais. Vale pensar na perda de sua im portância e no seu conseqüente esvaziam ento político e econôm ico, a partir do final do século XIX e na pouca força dos

ciclos m igratórios de estrangeiros, que preferiram o

Sul e o Sudeste para se fixar e fazer o Brasil.

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É bom não esquecer a aventura nortista desta

literatura, com a Editora Guajarina, de Belém do

Pará, editando folhetos, de 1914 a 1940, tendo com o

público-alvo os m igrantes nordestinos, atraídos pela

possibilidade de um a nova vida, a partir da sedução

pela fartura da água.

Outra vez as m igrações m arcam essa literatura,

que acom panha os fluxos m igratórios para a pose

de Capital Federal do Rio de Janeiro, a febre das indústrias de São Paulo e a construção "candanga" de Brasília.

Passam os a ter pontos de encontro de poetas e

de com ercialização de folhetos na Feira de São

Cris-tóvão, na zona norte carioca, na Praça da República

paulistana (antes, no Largo da Concórdia, em frente

à Estação Ferroviária do Brás), e, no Distrito Federal, nas cidades satélites do Plano Piloto.

Literatura que m igra, ao sabor do contexto. E

assim se intensificam as trocas nesse m ercado que

se subm ete às regras da cham ada Indústria Cultural,

onde a redundância, representada pelos clássicos, os

títulos que perm anecem , deve se alternar com a novi-dade dos lançam entos, num a dosagem em que não se

pode cair no estranham ento e não se deve parecer que

estam os ouvindo e / ou lendo a m esm a narrativa.

Cordel que se confunde com a cantoria, tendo

am bos seus registros nas m anifestações da voz, e que m igra para o m estre que fica no centro da roda do

m aneiro-pau, para o im proviso do tirado r de coco

e para a sacanagem da em bolada, acom panhada por

pandeiros.

Todo esse conjunto vai fazer o cam inho de volta

com o grupo francês "Fabulous Trobadors', que, a

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partir de Toulouse, faz um

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r a p a partir do cordel,

do repente, da em bolada e do que vieram , buscar

no Nordeste que, por sua vez, se abasteceu, até certo

ponto, da poesia trovadoresca européia, de jograis e

m enestréis, dos autos nas portas das igrejas, dos ven-dedores das feiras com seus pregões, dos charlatões

e saltim bancos com seu teatro que é atualizado pelo

dram a de circo e pela patifaria que está na gênese de nosso hum or escrachado.

Nada de m edievo no sertão, proposta de parte

dos teóricos do m ovim ento arm orial. O sertão está

sujeito aos fluxos de tem pos que caracterizam a

con-tem poraneidade, principalm ente, nas regiões perifé-ricas do capitalism o. E aqui se pode falar em periferia

sem risco, porque seria ingenuidade pensarm os que

estam os em algum centro, visto que a hegem onia se

constrói e se reforça com a cham ada globalização,

espécie de m arco conceitual de um m undo sem fron-teiras, e, por isso m esm o, para o fim das m igrações,

diante da utopia m acluhiana da aldeia global ou do

fim da necessidade de passaportes para o consum o

de bens e de inform ação.

O fim das m igrações se faz a partir da introjeção de nossa idéia de país. No caso do sertão, ele estaria

"dentro de nós': com o na resposta de Guim arães Rosa

a seu entrevistador Gunther Lorenz, na introdução

à edição da ficção com pleta do autor m ineiro pela

editora Nova Aguilar. Tam bém estaria no verso

"tra-go o sertão dentro de m im ", da poética de Patativa do Assaré, diálogo possível, apesar de im provável,

juntando o São Francisco aos Bastiões, o Urucuia à

Serra de Santana e a riqueza de léxicos, de visões de m undo e de literatura desses dois grandes nom es da letra e da voz.

O épico roseano se expande pelo norte de M inas, pelo oco dessas Gerais, onde a narradora [oana Xaviel, da novela "Um a estória de am or", do livro "M anuelzâo e M iguilirn" do "Corpo de Baile" deveria ir buscar a

segunda parte, o desfecho m oralizador da história

da vaca Cum buquinha, cuja carne fora com ida pela

Destem ida, a m ulher grávida do vaqueiro,

desenca-deando, a dança dram ática do bum ba-m eu-boi, da

m orte à ressurreição, da apoteose carnavalesca de

Parintins (AM ), com feixes de raios laser e pirotecnias várias, ao Serrote do M eio, em Itapajé (CE), onde a

em a é recoberta por folhas secas de bananeira ou ao

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Poço da Onça, em M iraím a (CE), onde se recorre

às penas da galinha de angola (capote) criadas pela com unidade.

Buscar nos "ocos e veredas do m undo Gerais" o lugar de onde vêm as histórias, "quem por tão pri-m eiro descobriu o vulto de idéia das estórias?': Essa a proposta do narrado r em Rosa, intrigado com um a história "desigual das outras, danada de diversa".

Estabelecer, não de m aneira esquem ática,

re-ducionista ou em pobrecedora, os m arcos de dois

brasis: um de cim a que um dia pode ficar na parte de baixo. Poeta de m ão calejada, grossa, que dialoga com poetas "niversitários" Um "cante lá que eu can-to cá" não com o divisor de águas ou im posição de

lim ites, m as com o um pacto de respeito ao lugar do outro, ao não silenciar o canto do poeta que está fora

do cânon da academ ia, deslegitim ado pelos grêm ios

beletristas com seu espírito " fi n - d u - s i ê c l e " dezenove,

bem entendido. A poética de Patativa superando a

depreciação de ser sub ou para-literatura ou

litera-tura folclórica. O m al-estar das elites pela adoção de

Patativa pelo vestibular da Universidade Federal do

Ceará, em 2006.

Viver um sertão recortado, de lim ites exíguos,

m as que se estende pela universalização dos dram as, com o se a Serra de Santana, em Assaré, pudesse ser

vista com o um m icrocosm os, um m undo m

iniatu-rizado. Patativa foi o grande cantor desse sertão que ele conheceu com o ninguém . Cantou o que viveu, no

cabo da enxada, sol a pino, com pondo enquanto

ca-vava a terra para plantar o m ilho, o feijão, a m andioca

que se transform aria em farinha.

Grandissíssim os sertões, m inim alistas em sua

estética de Vidas Secas, cantados a paio seco pelo

poeta pássaro. Barroco na estética da digressão e da acum ulação de Guim arães Rosa. Sertão claro /escuro. M aniqueísta, no catolicism o popular baseado na M

is-são Abreviada, retom ado por Ibiapina, Conselheiro,

Padre Cícero e Frei Dam ião.

Sertão que vira m ar, m ar que vira sertão, ou-tra vez o m undo às avessas ou o fluxo e refluxo das

m igrações das forças da natureza, em purrando os

hom ens com o figurantes e não protagonistas de um

enredo Severino.

Sol que é fonte de vida e de m orte, hiperbólico, excessivo, desm edido, dem ente. Choverá? A resposta

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seria dada pelos alm anaques populares, cuja m atriz é

o "Lunário Perpétuo': m as passa antes pelo

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C a l e n d r i e r d e s B e r g e r s (1497) e pelo Hesíodo de "Os Trabalhos

e os Dias".

Sertão que m igra para dentro de nós, diante da necessidade im periosa de im plodir estereótipos, de superar clichês e de construir novos paradigm as.

Sertão que tem no rom ance social, do pós-m o-dernism o, seu antecipado cinem a-novo ou sua m úsica de protesto. Que vai além , na contem poraneidade, com a profusão de parabólicas espetadas, m uitas ve-zes, nos terreiros de casas de taipa. Um sertão m uito integrado e nada apocalíptico, na apropriação dos conceitos de Um berto Eco.

Um sertão que m uda, e, portanto, se m ove. Onde a casa de farinha foi eletrificada, negando a possibili-dade do canto de trabalho no descascar da m andioca, com o versejou Patativa. Ou no engenho de ferro substituindo o engenho de pau, com o lam entou em outro poem a. Onde as rodas do carro de bois foram recobertas por borracha, acabando com o range-range onom atopaico que lem bra a m úsica experim ental de um [ohn Cage.

Sertão que se interliga pelas parabólicas que fa-íscam sob o sol e vê surgirem as antenas da telefonia celular. Que incorpora as m otos ao tanger do gado. Vaqueiros de jeans, dançando o novo forró que as bandas am plificam , com suas dançarinas sensuais, sua pancadaria e seus jogos de luzes. E com um a pobreza dos referenciais poéticos, anos-luz de distância de Hum berto Teixeira e com a diluição de m uitos sons já diluídos anteriorm ente, sem a riqueza da síntese feita por Luiz Gonzaga.

Sertão onde as urnas eletrônicas podem servir para o voto de cabresto. Onde as im agens do chão esturricado, do barro que racha foram substituídas por canais. M uitos defendem a m igração das águas do Velho Chico para fertilizar outros sertões. Quem sabe?

A reform a agrária continua no papel ou avança, tim idam ente, enquanto não se fizer ouvir, m ais um a vez, outra vez, o canto contundente de Patativa do Assaré, a favor do M ST e da defesa da terra para quem nela trabalha.

Nunca é dem ais lem brar que o sociólogo Chico de Oliveira disse um a vez que de todos os estados do

Nordeste, o Ceará é o m ais "encam içadam ente oligár-quico': E tem sido assim , desde as sesm arias.

A telinha da tevê nos dá a possibilidade da m i-gração sem sairm os da cadeira. O controle rem oto nos dá a dim ensão do tapete m ágico, do "Rom ance do Pavão M isterioso" que levantou vôo da Grécia, pilotado por um jovem apaixonado, levando a bordo a filha de um conde orgulhoso.

M igração na dim ensão do sonho. O program a de baixo nível m ostra a m iséria do m igrante nordestino m al-sucedido em São Paulo e seu sonho de voltar, que vai ser realizado pelo apresentador / padrinho, num a m ediação que não faz parte, a rigor, do papel dos m eios de com unicação.

Na reportagem , a m iséria dos barracos da favela se funde com um sertão m ítico, sim , porque todos são nordestinos. A m igração passa a ser desestim ulada e se sugere o cam inho de volta. Feitos os preparativos, criado o clim a de intensidade dram ática, a expectativa da fuga da realidade perversa, do sonho desfeito. A fam ília em barca no jato da com panhia aérea que cobra tarifas de baixo custo. Esse o novo pau-de-arara, é o que sugere a em issão.

A chegada se dá num clim a de surpresa e festa antecipada. A panorâm ica do sertão tira partido da dor, da perda, da saudade. Pessoas choram , se instala o clim a do folhetim . A fam ília chega da em preitada desastrada. Nunca deveriam ter saído dali. O castigo é am enizado e revestido do caráter de prêm io. Serem os todos felizes, para sem pre, com direito a cam inhão de m óveis novos, cortesia de outro patrocinador, roupas, cestas básicas e a m ulher tem direito a um a escova no cabelo para ser a Cinderela da noite do dom ingo.

Ainda bem que a trilha sonora não é a T r i s t e P a r t i d a , com sua plangência que fez Luiz Gonzaga se em ocionar, ao ouvi-Ia cantada por um violeiro e em itida pelas ondas da Rádio Borborem a, de Cam -pina Grande, nos idos da era de sessenta.

Luiz Gonzaga quis saber quem cantou: "setem -bro passou, com oitubro e novem bro / já tam o em dezem bro / m eu Deus, que é de nós / assim fala o pobre do seco Nordeste / com m edo da peste / da fom e feroz".

O ir e vir é contínuo. Faria parte de nossa condição de decaídos? Os relatos de pessoas que fo-ram trabalhar no Sudeste e voltaram são ricos, m as

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insistem na m esm a tecla: o sonho de voltar. M uitos trabalhavam alguns m eses e voltavam , com a desculpa

de trazer o dinheiro e fazer novos filhos. Assim se

reproduzia a m iséria, ao largo das políticas de

pla-nejam ento fam iliar e sob a forte influência da Igreja, hoje das igrejas, com a avalanche de denom inações evangélicas espalhadas pelo sertão afora, em outras m igrações da fé.

O jato sobrevoa a cidade rom eira. O ônibus, com ar condicionado, corta a caatinga. A tradição está den-tro de nós, com o o sertão. Nossa m igração é viagem ao interior, ao nosso interior. Tem sido assim .

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