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Construir a Transformação. Entre quatro paredes, quatro casas com Álvaro Siza

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Academic year: 2023

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Construir a Transformação.

Entre quatro paredes, quatro casas com Álvaro Siza

José Miguel Almeida Frias Coutinho

M

2023

MESTRADO INTEGRADO ARQUITETURA

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Construir a Transformação.

Entre quatro paredes, quatro casas com Álvaro Siza.

José Miguel Almeida Frias Coutinho

Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto a 13 de janeiro de 2023.

Júri da Prova Pública de Defesa da Dissertação:

Presidente: Prof.ª Doutora Filipa de Castro Guerreiro

Arguente: Prof. Doutor Carlos Manuel de Castro Cabral Machado Orientadora: Doutora Teresa Sofia Barbot Faria da Cunha Ferreira O jurí atribuiu a classificação final de 18 (dezoito) valores

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vigor. Excetuam-se as transcrições de texto ou de traduções em português, nas quais se mantém a grafia original. As citações originalmente escritas em línguas estrangeiras foram traduzidas livremente pelo autor, de modo a assegurar a continuidade da leitura.

As imagens apresentadas foram dimensionadas, cortadas e editadas, sempre que tal se considerou necessário.

Os desenhos produzidos para os Capítulos II e III têm por base cópias dos desenhos originais, interpretados pelo autor. Os documentos originais para a elaboração destes desenhos encontram-se em anexo.

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Ao Arquiteto Álvaro Siza, pela Lição e Obra

À Professora Teresa Cunha Ferreira, pela Oportunidade e Acompanhamento

Ao Naia, à Ticha, à Inês, ao Ronaldo e ao Fábio, pelo Companheirismo e Amizade

Ao Zezé,

pela Curiosidade e Carinho

Ao Pedro, à Joana, à Nena, à Babi, à Bibá, à Clara e ao Nemo, pela Alegria e Estabilidade

Ao meu Pai, pelo Sonho e Arte E especialmente à minha Mãe

por me ensinar continuamente o significado de Casa

E ainda aos arquitetos, investigadores, críticos e historiadores citados, bem como a todos os que permitiram e de algum modo contribuíram para este trabalho, nomeadamente:

A José Luís Carvalho Gomes, Chiara Porcu e Anabela Monteiro, colaboradores do Arq. Álvaro Siza;

A Daniel Fernandes e Sónia Oliveira, da Fundação Serralves;

A Zilda Cardoso, Eleonora Fantini e Tiago Cruz, em relação à Casa Alcino Cardoso;

A Sílvia Arada e ao Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, quanto à Casa José Manuel Teixeira;

A Manuel Silva, Juan Rojas, Bianca Schiavoni, Emma Mariani, Juliana Albuquerque e Martina Corti, relativamente à Quinta de Santo Ovídio;

E ainda à Belmira da nossa Casa de Vinhós.

Um sincero agradecimento.

Agradecimentos

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Abstract

Building on the built has always been a constant reality of the architect’s work.

The need to explore and study strategies for the conservation project of a small rural family house in a village near Peso da Régua, which we intend to transform, was the starting point of this research work. It works simultaneously as a way to deepen our knowledge on theories, methodologies and design practices in pre-existing structures.

We also make use of this Dissertation to develop research on (the work of) an architect of our interest, which allows us to experience and confront the problems and knowledge acquired during the design project in a process that is intended to be that of learning-by-doing, which characterizes the path of any architect.

Thus, Álvaro Siza (1933), an unavoidable household name in Portuguese architecture, and the author of a vast work in the country and all over the world for more than six decades, is the architect we chose to focus on. The architect’s written, designed and built work is here considered our study subject. We are primarily interested in the author’s thoughts, and his design and conservation practices with pre-existing buildings, of which housing was the original and design function. Under this assumption, three case studies were selected — the Alcino Cardoso House (1971-1973; 1986-1991), the José Manuel Teixeira House (1980-1991) and the Santo Ovídio Estate (1988- 1994; 1995-2002) —, which are analyzed and discussed based on pre-defined parameters, seeking to find similarities, and/or specificities of the buildings and their design process. In the prologue and the epilogue, we bring together the thoughts of our own design project for the house in Régua which were developed in parallel with our research.

This Dissertation was developed at the intersection of several different methodologies and techniques, in which drawing as a research tool plays a decisive role. In addition to the necessary bibliographic and archival research during which we collected information on the case studies from pre-existence to the conservation project; fieldwork was an essential part of the research process. Only these allowed for the subsequent treatment, redesign, and elaboration of the graphic material (analysis schemes, addition-demolition drawings, and constructive details), from which conclusions are drawn.

Therefore, we follow Siza’s teachings as we try to (re)construct the process narratives that guide and explain the decisions adopted in the design projects selected here as an analytical and reflective support for the development of a personal project proposal. Simultaneously, we try to deepen the theme of building on the built, which dominates the professional practice of architects today.

Keywords: Álvaro Siza, Conservation, Houses, Pre-existences

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Intervir no construído sempre foi uma constante no trabalho dos arquitetos.

Partindo da necessidade de explorar e estudar estratégias para a recuperação de uma pequena casa rural da família, numa aldeia de Peso da Régua, que se pretende transformar e tornar habitável, o presente trabalho serve paralelamente para aprofundar conhecimentos sobre teorias, metodologias e práticas de projeto em preexistências.

Aproveita-se igualmente a oportunidade da Dissertação para desenvolver a investigação sobre (a obra d)um arquiteto do nosso interesse, que nos permita experimentar e confrontar as problemáticas e os conhecimentos adquiridos ao longo do percurso do projeto, num processo que se deseja ser o de aprender-fazendo, e que marca o trajeto de qualquer arquiteto.

Assim, Álvaro Siza (1933-), referência incontornável da arquitetura portuguesa e autor de uma vasta obra construída no país e no mundo ao longo de mais de seis décadas, é a figura escolhida para nos debruçarmos sobre as práticas de projeto. Assume-se como objeto de estudo a sua obra, tanto escrita, como desenhada, projetada e construída. Interessa-nos sobretudo a reflexão e prática sobre intervenção no construído, cuja função original e de projeto seja habitação. Neste quadro, são selecionados três casos de estudo — a Casa Alcino Cardoso (1971-1973; 1986-1991), a Casa José Manuel Teixeira (1980- 1991) e a Quinta de Santo Ovídio (1988-1994; 1995-2002) —, que se analisam e discutem com base em parâmetros predefinidos, procurando encontrar relações, pontos de contacto e/ou especificidades nas obras e no processo de trabalho. No prólogo e no epílogo, reúnem-se os estudos, reflexões e propostas para o projeto da referida casa na Régua, a decorrer em paralelo à investigação.

O desenvolvimento desta Dissertação apoia-se no cruzamento de vários métodos, técnicas e ferramentas, destacando-se o uso do desenho como instrumento de investigação em confronto com a obra construída. Além da necessária pesquisa bibliográfica e de arquivo, durante a qual foi recolhida informação sobre as obras em estudo desde a preexistência ao projeto de recuperação, as visitas e o trabalho de campo apresentam-se como passo essencial do processo de investigação. Só estes permitem o posterior tratamento, redesenho e elaboração do material gráfico (esquemas de análise, vermelhos e amarelos, detalhes construtivos), que nos permitem extrair conclusões.

Deseja-se, portanto, a partir da lição de Siza, (re)construir as narrativas do processo que guiam e explicam as soluções adotadas das obras aqui selecionadas, como suporte analítico e reflexivo ao desenvolvimento de uma proposta projetual, bem como aprofundar a temática da intervenção no construído, que atualmente domina a prática profissional dos arquitetos.

Palavras-chave: Álvaro Siza, Recuperação, Casas, Preexistência.

Resumo

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Introdução 11

Prólogo: Entre quatro paredes... 19

Capítulo I: Construir a Transformação 21

- “Oito pontos” (sobre método) 23

- “Viver uma casa” 27

- “Recuperação e Manutenção” 33

Capítulo II: Três casas de Álvaro Siza 38

- Casa Alcino Cardoso, Caminha (1971-1973; 1986-1991) 40

- Casa José Manuel Teixeira, Guimarães (1980-1991) 50

- Quinta de Santo Ovídio, Lousada (1988-1994; 1995-2002) 60

Capítulo III: Análise Comparada 71

- Paisagem, Lugar, Preexistência 73

- Estratégia de Projeto 77

- Tectónica, Materialidade, Detalhe 83

Epílogo: Oito pontos (para uma casa em Vinhós) 89

Considerações finais 95

Índice de imagens 101

Referências bibliográficas 111

Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza 117

Anexo 2: Casa Alcino Cardoso 124

Anexo 3: Casa José Manuel Teixeira 128

Anexo 4: Quinta de Santo Ovídio 130

Sumário

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Intervir no construído sempre foi uma constante no trabalho do arquiteto. No entanto, temas como a sustentabilidade ambiental e sociocultural e a economia circular e de recursos têm vindo a ditar um renovado e crescente interesse pelo estudo das estratégias, metodologias e práticas de intervenção no construído.

Esta Dissertação tem como ponto inicial a necessidade de explorar e estudar estratégias para o projeto de recuperação de um pequeno anexo de uma casa de família, numa aldeia trasmontana na serra do Marão, que se pretende transformar e tornar habitável.

Como compatibilizar valores patrimoniais ou a memória do local com as necessidades contemporâneas do cliente, do ambiente e do contexto? De que modo o programa, as preexistências e as condições do local podem ser incorporados ou condicionar a solução adotada? Estas foram as questões- problema que se configuraram perante o início do projeto.

Aproveita-se a oportunidade da Dissertação para desenvolver, em simultâneo, uma investigação sobre (a obra d)um arquiteto do nosso interesse que nos permita experimentar e confrontar as problemáticas e os conhecimentos adquiridos ao longo do percurso do projeto. A escolha do tema e do autor a estudar deve-se também à oportunidade de colaborar enquanto bolseiro no projeto de investigação “Atlas de Siza: Colmatar lacunas no Património Mundial”,1 cujo objetivo consiste em inventariar, documentar e analisar a obra do arquiteto Álvaro Siza, para a instrução da candidatura de um conjunto das suas obras à lista do Património Mundial.2

Objeto

Além de referência pessoal constante ao longo do curso de Arquitetura, por intermédio de professores e das frequentes visitas às suas obras sempre expressivas, inovadoras e didáticas, Álvaro Siza (1933-) constitui uma figura incontornável da arquitetura portuguesa. Autor de uma vasta obra construída ao longo de mais de seis décadas, tornou-se um modelo e inspiração para arquitetos, artistas e estudantes de todo o mundo

Assume-se como objeto de estudo a sua obra escrita, desenhada, projetada e construída e interessa-nos sobretudo, no âmbito desta Dissertação, as reflexões e práticas de intervenção sobre estruturas preexistentes, cuja função de projeto seja habitação em ambiente rural.

Entende-se a intervenção no construído como “a ação de concretizar uma forma arquitetónica onde já existe uma organização prévia criada pelo engenho humano”,3 como a definiu Francisco de Gracia. A ambiguidade da expressão utilizada por agora, reflete a proliferação de termos na prática atual relativas a este tipo de intervenção (reabilitação, restauro, reconstrução, conservação, requalificação, ...) e uma preocupação desde o início deste trabalho em ser o mais abrangente possível.

Introdução

1 O projeto SIZA.Atlas (Refª SIZA/ETM/0023/2019) financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) encontra-se a ser desenvolvido através duma parceria entre o ISCTE- Instituto Universitário de Lisboa, a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e a Escola Superior Gallaecia (ESG).

Para mais informações sobre os objetivos e resultados do projeto de investigação, ver: https://ciencia.iscte-iul.

pt/projects/atlas-de-siza- colmatar-lacunas-no- patrimonio-mundial/1688.

2 O conjunto de obras de Álvaro Siza (“Ensemble of Álvaro Siza’s Architecture Works in Portugal” encontra- -se na Lista Indicativa do Património Mundial desde 2017. Para mais informações sobre a inscrição na Lista Indicativa, ver: https://

whc.unesco.org/en/

tentativelists/6224/.

3 GRACIA, Francisco de – Construir en lo construido:

La arquitectura como modificación. Hondarribia:

Nerea, 2001. 3ª edição, p. 11.

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A pesquisa apoiou-se inicialmente numa imersão nos escritos e entrevistas de Álvaro Siza em paralelo com a contextualização da evolução das teorias de intervenção no construído. Não querendo incorrer no tratamento de temáticas já vastamente tratadas, nem considerando adequado forçar correspondências com a obra de Álvaro Siza, faz-se apenas uma breve abordagem introdutória às teorias de intervenção no construído. Assim, não se pretende ser exaustivo, mas apenas dar pistas de enquadramento e reflexão para o presente trabalho, sendo indispensável a consulta das obras nas notas de margem e na bibliografia para um entendimento mais aprofundado sobre o tema.

As primeiras reflexões sobre a temática da intervenção no construído remontam ao Renascimento. Defendendo um regresso às formas da Antiguidade, a época clássica traz-nos exemplos interessantes nos quais se usam os princípios estéticos vigentes para intervir sobre a preexistência medieval, mais frequentemente, como membrana envolvente. Neste âmbito, destacam-se o Templo Malatestiano, em Rimini, de Leon Battista Alberti (1404-1472), ou a Basílica Palladiana, em Vicenza, de Andrea Palladio (1508-1580). A Revolução Francesa (1789) vem marcar uma mudança de paradigma no conceito de tempo. De ‘cíclico’ passa a ser entendido como ‘linear’ (o que traz a consciência da sua irreversibilidade), sendo a partir daqui que surgem as primeiras teorizações sobre a intervenção no construído. O arquiteto francês Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879), que defendia o restauro do período arquitetónico dominante do edifício existente restabelecendo uma unidade de estilo, e o escritor e filósofo John Ruskin (1819-1900), que por outro lado negava qualquer ação positiva frente à recuperação dos edifícios existentes, personalizaram as duas grandes posturas antagónicas do século XIX quanto à intervenção no construído:

o restauro ou a conservação. (Fig. 1) No entanto, “sempre algo mais próximos do que o seu confronto aparenta, [Viollet-le-Duc e John Ruskin] baseavam-se num forte sentimento de separação radical entre história e contemporaneidade, entre velho e novo, visto que para eles o fio que os poderia unir se rompeu.”4

4 CAPITEL, Antón - Metamorfosis de

monumentos y teorias de la restauración. 2.ª ed. rev. (1ª ed. 1988). Madrid: Alianza Editorial, 2009. p. 42.

Fig. 1. Authentic vs. Restored (OMA). Na exposição Cronocaos (Veneza, 2010;

Nova Iorque, 2011) Rem Koolhaas (1944) põe em evidência a oposição entre as duas posturas.

(à esquerda) Autêntico:

“Não nos enganemos neste assunto importante, tal como ressuscitar os mortos, é impossível restaurar qualquer coisa que já tenha sido grande ou bela em arquitetura. - John Ruskin, 1849. (à direita) Restaurado: “Restaurar um edifício não é repará-lo, nem mantê-lo, nem reconstrui-lo; é restabelecer nele um estado que nunca existiu – Eugène Viollet-le-Duc, 1855 1

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É o arquiteto italiano Camilo Boito (1836-1914) que vai perseguir uma solução de compromisso entre as duas posições, inaugurando a ideia de intervenção mínima e, em caso de acrescentos necessários, da diferenciação da nova intervenção face à preexistência. As suas considerações estiveram na base da formulação das Cartas de Atenas (1931) e de Veneza (1964) sobre o restauro e conservação de monumentos. 5 Alexandre Alves Costa (1939-) sintetiza o que hoje reconhecemos como a necessária heterodoxia do debate atual ao afirmar que “cada caso é um caso e que a teoria da intervenção nascerá de cada circunstância nunca generalizável”.6 A sua ressonância em Álvaro Siza é evidente, já que o próprio garante que “intervir sobre o património supõe assumir que não existem regras nem soluções a priori, e que não é possível trabalhar com ideias preconcebidas; cada caso é diferente”.7

Assim sendo, será possível estabelecer constantes, pontos de contacto ou relações entre as obras de intervenção no construído de Álvaro Siza?

Perante os mais de 500 projetos do arquiteto português e ocupando este tipo de intervenção uma parcela não maioritária, mas ainda assim significativa, neste trabalho afina-se a pesquisa a habitações unifamiliares, e destas, por afinidade tipológica e programática com o projeto na Régua a desenvolver em paralelo, dirige-se o foco às casas em contexto rural.

Considera-se que estas, por não exigirem uma resposta a condições urbanas mais restritivas e por se encontrarem em meios à partida menos condicionados, permitem uma maior experimentação do arquiteto, ao nível das formas e materiais utilizados.

Denota-se igualmente que as obras de intervenção no construído de Siza tendem a ser menos publicadas em monografias ou revistas sobre o arquiteto (salvo raras exceções, como a casa Alcino Cardoso, muito divulgada a nível nacional e internacional desde a sua construção; ou o “polémico” caso do Chiado, que depois do incêndio de 1988, levantou grandes discussões sobre a pertinência da reconstrução dos quarteirões do bairro lisboeta, segundo o desenho preexistente). Porém, verifica- se sobretudo uma insuficiência na documentação do processo destas obras, apostando-se principalmente em exibir o resultado final, em detrimento de conhecer as estruturas preexistentes e como estas foram transformadas.

Objetivos

Além das diferentes questões-problema levantadas anteriormente, os objetivos desta Dissertação passam, portanto, por identificar, analisar e comparar as operações e estratégias de intervenção no construído na obra do arquiteto Álvaro Siza, tentando (re)construir as narrativas dos processos que guiam os projetos e explicam as estratégias e soluções adotadas.

Introdução

5 A curta contextualização no âmbito desta dissertação determina a omissão de muitos nomes fundamentais para a evolução das teorias de intervenção no construído, sendo por isso indispensável o confronto aprofundado com os autores e textos mencionados. No âmbito desta Dissertação, revelaram-se especialmente esclarecedores os textos:

“Teorías de la intervención arquitectónica”, do livro Intervenciones, de Ignasi Solà- Morales, e “Primera parte: El Tapiz de Penélope – Discusión crítica sobre las teorías de restauración arquitectónica”

da obra Metamorfosis de monumentos y teorias de la restauración, de Antón Capitel.

6 COSTA, Alexandre Alves – A arte de construir a transformação. Património Estudos. Nº3 (2002), pp.

126-127.

7 SIZA, Álvaro – El Sentido de las Cosas [Una Conversación con Álvaro Siza]. In Cecilia, F. M., Levene, R. C. – Álvaro Siza: 2001/2008. Madrid: El Croquis, 2008. p.18.

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Pode-se argumentar, como o afirma o próprio Siza, que não existem diferenças significativas entre os processos de projeto com estruturas preexistentes e a construção nova. No entanto, acreditamos que existe em Álvaro Siza uma necessidade profunda de conhecer as preexistências antes da configuração do projeto e o desejo de estabelecer um fio condutor entre o novo e o antigo. É este processo que tentamos desvendar.

Pretendemos também disseminar as obras de recuperação de Álvaro Siza selecionadas como casos de estudo, por considerarmos que as boas práticas servem pedagogicamente de exemplo na formação dos arquitetos. Não mostrando apenas o resultado final, mas reconstituindo uma cronologia dos projetos.

Por fim, a partir da lição de Siza, tentamos estabelecer alguns princípios de intervenção para o projeto da casa no Marão.

Metodologia

A experiência na Unidade Curricular Construir no Construído e a participação no Projeto editorial “Novo-Antigo”, coordenados por Teresa Cunha Ferreira, permitiram uma aproximação às questões teóricas e conceptuais, assim como a experimentação de ferramentas metodológicas e a reflexão sobre os parâmetros de análise e discussão das obras.

Sendo um dos arquitetos mais reconhecidos internacionalmente, Álvaro Siza conta com inúmeras monografias, entrevistas, textos e artigos publicados sobre a sua obra desde o início do seu percurso profissional.

Foi, portanto, necessário proceder a uma seleção, ao longo da orientação, das principais fontes a recorrer, que permitissem a construção de alicerces sólidos relativamente à obra e ao autor.

Assim, a pesquisa bibliográfica de contextualização socorreu-se, sobretudo, dos catálogos da Universidade do Porto e das Bibliotecas Municipais do Porto. À seleção online das publicações acrescenta-se o fortuito cruzamento com outras obras que, de algum modo, apelaram ao nosso interesse. Deu-se, no entanto, particular destaque à voz e aos escritos de Álvaro Siza, tendo a leitura e interpretação dos próprios livros e entrevistas ocupado a maior parte desta fase de investigação.

O desenvolvimento do trabalho apoia-se ainda no cruzamento de vários métodos, técnicas e ferramentas, destacando-se o uso do desenho como instrumento de investigação em confronto com as obras construídas. Após a abordagem global à obra de Siza, a seleção dos três casos de estudo — a Casa Alcino Cardoso (1971-1973; 1986- 1991), a Casa José Manuel Teixeira (1980-1991) e a Quinta de Santo Ovídio (1988-1994; 1995-2002) — resulta da afinidade tipológica, programática e paisagística com o projeto a desenvolver no Marão.

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À escolha dos casos de estudo, seguiu-se uma nova pesquisa bibliográfica nos espaços anteriormente referidos, acrescentando-se desta vez a pesquisa pela plataforma digital GoogleScholar, que, de modo mais eficaz e abrangente, permitiu a inclusão na bibliografia de artigos científicos e outras publicações sobre as casas em questão.

Seguiu-se a consulta dos arquivos das Câmaras Municipais e do Arquivo de Serralves, no qual Álvaro Siza depositou parte do seu acervo.

Realçam-se ainda às contribuições sempre prestáveis do escritório do arquiteto, quando solicitado.

Ao longo do trabalho foi-se compilando material dos casos de estudo através publicações e dos arquivos, que pudessem documentar o processo de projeto, dando-se especial interesse às memórias descritivas, esquissos, fotografias antes e depois da intervenção, desenhos de projeto (plantas, cortes e alçados), e desenhos de pormenor (caixilharias, detalhe, axonometrias, etc.…).

Considerou-se ainda de particular relevância a recolha dos testemunhos orais e escritos do arquiteto João Luís Carvalho Gomes (colaborador de Siza há mais de quatro décadas), bem como dos clientes das casas que foi possível contactar - Zilda Cardoso e Manuel Silva – não só porque transmitem informação preciosa que, de outro modo, se perderia, mas principalmente por constituírem a voz, em primeira pessoa, de quem viveu e acompanhou com interesse o desenvolvimento dos projetos.

As visitas de campo foram outro aspeto fundamental e fator de exclusão durante o processo de seleção dos edifícios a estudar. O levantamento fotográfico e desenhado das obras permitiu o confronto dos desenhos com a realidade construída. Além disso, não se prescindiu da experiência sensorial de deambular e imaginar o quotidiano nestas casas, indispensável para uma leitura completa das obras.

Pela imposição destas condições, e por se tratar de espaços íntimos e privados, é de especial louvor a concordância, disponibilidade e vontade de colaboração dos atuais proprietários, que possibilitaram a elaboração desta Dissertação.

Só através da combinação destes dois métodos — a recolha dos elementos supracitados e a experiência espacial — é possível o posterior tratamento, redesenho e elaboração do material gráfico (esquemas de análise, vermelhos e amarelos, detalhes construtivos, ...), que permitem a documentação da evolução dos projetos.

A análise comparada parte de critérios predefinidos apoiados em leituras que aprofundam as três principais dimensões a investigar — o local, o programa, a construção – e procura estabelecer conclusões das diferentes relações entre o novo e o antigo.

Introdução

8 O Arquivo de Serralves reúne quarenta projetos do Arq. Álvaro Siza. Alguns dos elementos digitalizados, que incluem esquissos, fotografias e desenhos de projeto estão disponíveis online em:

http://arquivos.serralves.pt/

details?id=72490. A pesquisa no âmbito deste trabalho requereu, no entanto, o contacto com a instituição que prestavelmente cedeu os elementos solicitados.

(16)

Estrutura

A metodologia construída ao longo da investigação vai-se refletir determinantemente na estrutura da Dissertação.

Assim, no Prólogo - “Entre quatro paredes...” damos nota de algumas memórias, impressões e intenções iniciais associadas ao pequeno edifício, na aldeia transmontana de Vinhós, que há muito se pretende transformar em casa de férias.

No Capítulo I – Construir a Transformação iniciamos uma imersão gradual na obra de Álvaro Siza. Inspirados por três escritos do arquiteto, em diferentes fases do seu percurso profissional — “Oito Pontos” (1983),

“Viver uma casa” (1994), e “Recuperação e Manutenção” (2002) —, vamos construindo a nossa abordagem e criando um olhar próprio sobre o autor.

Os três ensaios elaborados resultam numa aproximação progressiva aos temas desta Dissertação, sob o prisma dos escritos e entrevistas de Álvaro Siza, relativamente às especificidades dos projetos de casas, e da intervenção em preexistências.

No Capítulo II – Três casas de Álvaro Siza, elegemos os três casos de estudo e partimos à descoberta de cada uma das obras, recolhendo informações desde a preexistência às diferentes fases de projeto, procurando reconstituir uma cronologia do processo. Em cada uma, abrimos com uma leitura própria, espacial e sensorial, resultante do nosso confronto com os espaços construídos durante as visitas às obras.

No Capítulo III – Análise Comparada, aprofundamos o estudo das obras colocando-as em relação entre si. Procurando semelhanças, pontos de contacto e especificidades, analisam-se os edifícios à luz das suas relações com a Paisagem, Lugar e Preexistência, motivados pela leitura de Norberg-Schulz; da Estratégia de Projeto, sugeridos pela categorização das relações topológicas de Francisco de Gracia; e da Tectónica, Materialidade e Detalhe, resultante do confronto com as perspetivas de Kenneth Frampton.

No início de cada capítulo, um pequeno texto estabelece o fio condutor dos temas abordados e insere o leitor na metodologia aí utilizada, dando igualmente nota de questões relativas à leitura dos desenhos e dos anexos.

Finalmente, no Epílogo – Oito pontos (para uma casa em Vinhós) reúnem-se os estudos, reflexões e propostas para o projeto a decorrer em paralelo com a investigação.

(17)

Perante as atuais metas de desenvolvimento sustentável do século XXI e a emergência das alterações climáticas, os processos e modos de recuperação do edificado existente são um tema urgente no panorama arquitetónico global.

Encontra-se nas obras de recuperação de Álvaro Siza uma leitura atenta do lugar que pretende compatibilizar o legado histórico com as exigências do habitar contemporâneo.

A recuperação de estruturas preexistentes domina atualmente a prática profissional dos arquitetos, sendo por isso essencial estudar, divulgar e salvaguardar boas práticas de intervenção no construído.

Introdução

(18)

2

3 4 5

6 7 8

3 4 5

9 10 11

(19)

(àesquerda)

Figs. 2-11. A casa de Vinhós

Prólogo

Entre quatro paredes Surgiu um sonho.

Antes, era puro,

Pueril, uma ideia febril.

Um sonho remoto, Uma promessa familiar.

Depois, transformou-se

Em vontade de construir cegamente.

De restituir uma perda, De voltar às raízes, De criar um lugar Para novas memórias.

De viver, Novamente.

Finalmente,

Com mais calma, pudor, E algum, pouco, conhecimento Correu-se o primeiro risco

(escrito, apagado e reescrito múltiplas vezes, pelo autor, entre dezembro de 2021 e agosto de 2022)

Vinhós é uma pequena aldeia, no concelho do Peso da Régua, a meia encosta da serra do Marão, ocupando estoicamente o extremo de um dos vales que desemboca no Douro.

A pequena construção, que se pretende transformar num refúgio transmontano para a família, ocupa um dos lados de um lote de acentuado declive. A sua origem remonta à simples necessidade de marcar um terreno que, por volta dos anos 60, e perante a ausência prolongada da família na zona, se suspeitava vir a ser ocupado pelo crescimento da aldeia. A inexistência de compartimentação interior, e a necessidade de um espaço para guardar os veículos, hortícolas e as alfaias agrícolas determinaram a multifuncionalidade deste espaço.

Desde a infância, lembro-me deste pequeno volume como uma casa de brincar disfarçada de garagem desarrumada, com a vista mais intocada da aldeia. Ao longo dos anos, foi-se construindo o sonho de criar um espaço para regressar ao cheiro levemente adocicado das lareiras, às uvas experimentadas às escondidas e a frescura da água corrente num dia de sol.

A obra nasce!

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(21)

“Reconhecer-se-á que não se inventa uma linguagem. Reconhecer-se-á que a linguagem se transforma para se adaptar à realidade e para lhe dar forma.

Tudo será reconhecido como património colectivo e, nessa condição, objecto de mudança e de continuidade. Os instrumentos de reconhecimento do real chamam-se História, a arte de construir a sua transformação chama-se Arquitectura. Uma sem a outra chama-se fracasso da arquitectura moderna.”9

Reconhecendo a Arquitetura como a arte de construir a transformação do real, indissociável da sua História, partimos à construção de um olhar próprio, renovado, sobre a arquitetura de Álvaro Siza.

A extensa bibliografia sobre o arquiteto obrigou a uma criteriosa seleção das fontes. Deste modo, apesar de partirmos inicialmente de algumas considerações sobre a obra do arquiteto, socorrendo-nos da voz de personalidades que admiramos, foi sobretudo nas palavras de Álvaro Siza que pudemos encontrar os desígnios de projeto, as reflexões e os pontos- chave para a construção da nossa visão.

Os três ensaios que se seguem, propõem suscitar a reflexão sobre as problemáticas desta Dissertação: o método de Álvaro Siza, os projetos de habitação unifamiliar e a intervenção no construído. Para isso, reclamamos os títulos de três textos do arquiteto, de diferentes naturezas: “Oito Pontos”

(1983) foi composto a pedido de uma publicação, “Viver uma casa” (1994) foi escrito pelo simples prazer de escrever e “Recuperação e Manutenção” (2002) foi redigido para uma conferência.

A partir da análise dos textos visitados, pretende-se fundamentar alguns princípios que caracterizam os temas em estudo, acompanhados por uma síntese crítica de algumas obras que, por extravasar o âmbito desta Dissertação, não pretende ser exaustiva, mas apenas enquadrar o suporte reflexivo ao trabalho que se propõe desenvolver.

A transcrição integral dos textos que dão título aos ensaios pode ser encontrada no Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza,10 no final desta dissertação. Excetua-se o texto “Recuperação e Manutenção”, no qual se optou por transcrever apenas a reflexão inicial, excluindo-se, assim, a apresentação do trabalho do arquiteto no edifício da Associação dos Portos do Douro e Leixões (APDL). Apresentam-se ainda, as datas e referências bibliográficas de onde foram transcritos bem como as da sua primeira publicação, quando seja o caso.

Capítulo I: Construir a Transformação

9 COSTA, Alexandre Alves – A arte de construir a transformação. Património Estudos. Nº3 (2002), p. 128.

10 Ver pp. 117-123

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Figs. 13-20. Oito publicações

Figs. 21-28. Oito autores: (da esquerda para a direita, de cima para baixo) Fernando Távora, Rafael Moneo, Kenneth Frampton, Vittorio Gregotti, Alexandre Alves Costa, Peter Testa, Eduardo Souto de Moura e Ávaro Siza.

13 14 15 16

17 18 19 20

21 22 23 24

25 26 27 28

(23)

Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira nasceu em Matosinhos em 1933. Formou- se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), em 1955, e trabalhou no atelier do professor e arquiteto Fernando Távora (1923-2005) até 1958, antes de iniciar atividade profissional por conta própria. Lecionou na ESBAP e posteriormente na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), que também projetou. Ao longo da sua carreira, contam-se mais de 500 projetos e obras distribuídos por 16 países, na Europa, América do Norte e do Sul, Ásia e África. Foi Professor Visitante na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Universidade da Pensilvânia, na Universidade dos Andes, em Bogotá, e na Universidade de Harvard. Participou igualmente em inúmeras conferências e seminários pela Europa, América e Japão. Entre os mais de 100 prémios e distinções, destacam-se a Medalha da Fundação Alvar Aalto (1988), o Prémio Mies van der Rohe (1988), o Prémio Pritzker (1992), e a Medalha de Ouro do RIBA (2009). É ainda Doutor Honoris Causa por 19 Universidades.11 Por ser uma figura incontornável da arquitetura portuguesa e fonte de inspiração para muitos estudantes, designers e arquitetos de todo o mundo, muito já foi publicado sobre Álvaro Siza. Perante a grande quantidade de escritos sobre a sua figura e obra, o estudo iniciou-se pelo confronto com oito publicações - número inspirado pelo texto “Oito Pontos”, um dos raros escritos publicados em que arquiteto reflete sobre o seu método de trabalho.12 As oito publicações cujas capas se apresentam na página anterior, foram escolhidas por afinidade e reconhecimento dos seus autores. Definiram ainda o plano- base de contextualização do arquiteto e permitiram uma progressiva afinação dos limites do estudo a desenvolver.

Daqui, surgiu o desígnio de estabelecer uma aproximação ao método de Álvaro Siza, enquanto progressivamente vamos criando pontes que contaminem e auxiliem o nosso próprio percurso de investigação. Convocam-se, assim, oito autores que permitiram simultaneamente a imersão no mundo de Siza e a estruturação do nosso mapa mental. Os oito pontos que se apresentam surgem da reflexão sobre oito citações desses autores:

“Pedreiro de obra grave, insisto, o termo é perfeitamente aplicável a Álvaro Siza, grande construtor de espaços e imagens magníficas, com uma obra extremamente complexa por ser sempre igual a si mesma e sempre diversa, mas profundamente simples e vigorosamente criativa.13

A propósito do Dia Mundial da Arquitetura de 1992, Fernando Távora profere na Casa das Artes do Porto, uma “Homenagem a Álvaro Siza”. Recorrendo à expressão portuguesa renascentista utilizada para distinguir os grandes arquitetos da época, Távora realça no recém-laureado com o Pritzker, o conhecimento e profundo enraizamento da sua obra na cultura portuguesa.

O professor, mestre e amigo pessoal de Siza elogia ainda a sua capacidade de síntese no desenho de obras aparentemente simples, sem recorrer a subterfúgios e excessos formais, não deixando, no entanto, de ser audaz e criativo.

“Oito pontos” (sobre método)

1.

11 Para uma biografia mais completa com a indicação das obras de Álvaro Siza e descrição detalhada dos Doutoramentos Honoris Causa, prémios e distinções, ver: CECILIA, Fernando Márquez, LEVENE, Richard C (ed.) – Álvaro Siza: 2008/2013.

Madrid: El Croquis, 2013. Nº 168/169. pp. 4-5. Ou CRUZ, Valdemar – Retratos de Siza.

2ª ed. rev. Lisboa: Lápis de Memórias, 2017. pp. 251-254.

12 Não nos referimos aqui a uma definição teórica sugerida pelo próprio autor, mas antes a uma descrição sobre o seu método de trabalho, o seu processo.

Apesar de muitas publicações incluírem referências e análises de críticos, historiadores e arquitetos ou entrevistas (em que Álvaro Siza responde sempre com prontidão e algum apontamento irónico) são poucos os textos onde o arquiteto escreve sobre o seu próprio método.

13 TÁVORA, Fernando – Omaggio ad Álvaro Siza. In FRAMPTON, Kenneth (ed.)

— Álvaro Siza: tutte le opere.

Milano: Electa, 1999. p. 68.

Capítulo I: Construir a Transformação

(24)

“Siza trabalha – e ele já o disse muitas vezes – reconhecendo a realidade.

Está atento à paisagem, aos materiais, aos sistemas de construção, aos usos, as pessoas que ocuparão o construído. A arquitetura contribui para definir a realidade de que é preciso partir. Daí que seja obrigado a conhecê-la. Siza insistiu sobre este conceito em múltiplas ocasiões” 14

No livro Inquietud teórica y estrategia proyectual (2004), o arquiteto espanhol Rafael Moneo (1937-), reúne alguns textos das suas aulas sobre a obra de oito arquitetos contemporâneos marcantes por considerar indispensável refletir sobre a prática arquitetónica da nossa época. Álvaro Siza dá nome a um dos capítulos e Moneo reconhece-lhe a sensibilidade perante a realidade com a qual trabalha nas suas múltiplas escalas e naturezas (paisagem, materiais, sistemas construtivos, usos e pessoas). E de facto, Siza confirma essa vontade de integração no local repetidamente quando afirma que “a ideia está no «sítio»”15 ou “Começo um projecto quando visito um sítio.” 16

“Para Siza, arquitetura significa a capacidade de assimilar os opostos e superar as contradições, de buscar o Outro em cada um de nós. A sua atitude, portanto, é inconciliável com a crescente parcelarização do trabalho nas empresas de construção e com o isolamento do arquitecto do cliente e dos artesãos, (...). Por outro lado, porém, Siza toma partido de forma igualmente assertiva contra a conceção autorreferencial do arquiteto, que se traduz na indiferença às características do lugar, ao processo de construção, às implicações socioculturais de cada obra.” 17

Kenneth Frampton (1930-), arquiteto, professor e historiador britânico, foi um dos principais divulgadores da obra de Álvaro Siza internacionalmente.

Enquanto editor de Álvaro Siza: tutte le opere (1999), reuniu informação sobre a obra completa (construída e não construída) do arquiteto português desde o início do seu percurso profissional. Além das considerações sobre a especialização dos arquitetos, que se abordará em “Recuperação e Manutenção”, Frampton realça, no prefácio do livro, a capacidade conciliadora da obra de Siza assimilando os opostos e superando as contradições — nas palavras de Siza

“[a] ordem é a aproximação dos opostos.”18 e “[a] Tradição é um desafio à inovação (...) [M]ovo-me entre conflitos, compromissos, mestiçagem, transformação.”19 —, procurando sempre uma solução integradora, do(s) Outro(s). A arquitetura atinge, portanto, uma dimensão social, de agregação, representativa dos lugares e das pessoas que a habitam.

”Se se quiser falar da arquitectura de Siza será preciso começar por admitir a sua não-descrição: não se trata apenas de uma não-descrição crítica ou literária (...), mas a mesma parca capacidade dos desenhos e da fotografia para comunicar o sentido específico do seu trabalho. Também porque ele está à altura de desenvolver no projecto uma particularíssima dimensão temporal; não só pelo processamento necessário para entrar em contacto com a sua seca arquitectura, mas pela capacidade de instituir uma espécie de arqueologia autónoma feita da série de estratos das tentativas precedentes, das correcções, dos erros de qualquer modo presentes no arranjo final, construída por acumulação e depuração de sucessivas descobertas que se constituem como dados dos arranjos posteriores.”20 2.

3.

14 MONEO, Rafael

— Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona:

Actar, 2004. p. 203. Ver pp. 199-251, para o ensaio completo de Rafael Moneo sobre a obra de Álvaro Siza.

15 SIZA, Álvaro – “Notas sobre o trabalho em Évora”.

Arquitectura. Lisboa. Nº132.

Fev./Mar. (1979), p. 36.

16 SIZA, Álvaro - Oito Pontos (1983). In 01 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2019.

2ª edição, p. 22.

17 FRAMPTON, Kenneth – L’architettura come trasformazione critica: l’opera di Álvaro Siza. In Álvaro Siza:

tutte le opere. Milano: Electa, 1999. p. 61.

18 SIZA, Álvaro, op. cit., p.

22.

19 SIZA, Álvaro, ibid., p. 23.

20 GREGOTTI, Vittorio – Architetture recenti di Alvaro Siza. Controspazio. Bari. Nº9, Set (1972), p. 22.

4.

(25)

O arquiteto italiano Vittorio Gregotti (1927-2020) escreve em 1972, um dos primeiros artigos sobre Álvaro Siza numa publicação internacional. O artigo

“Architetture recenti di Alvaro Siza” na revista Controspazio,21 dirige um elogio ao modo discreto do arquiteto português, capaz de criar uma arquitetura densa e de secretas relações. Afirma, ainda, que só o confronto direto, in loco, com as obras permite assimilar e processar essas relações e intenções. A não- descrição referida inicialmente refere-se à necessidade primeira de visitar e percorrer as obras, para as compreender. Além disso, acrescenta outro ponto essencial. Sente-se a sua arquitetura, não como um processo fechado, de resposta a um só problema pontual, mas como progressiva adaptação, de descoberta por tentativa e erro, aperfeiçoando-se o desenho. Só este processo permite a densidade, redescobrindo “a mágica estranheza, a singularidade das coisas evidentes”,22 e evitando o imediatismo.

“Por isso, uma das chaves essenciais para a compreensão da sua obra é a relação que vai estabelecendo com a envolvente geográfica e histórica, na contingência óbvia do programa e da diversidade dos lugares, mas sujeita, antes de mais, à evolução do seu próprio posicionamento perante a realidade em transformação.” 23

A propósito da exposição “Álvaro Siza arquitecturas 1980-1990”, no Centre George Pompidou, em Paris, em 1990, Alexandre Alves Costa redige um texto contextualizando a obra de Siza no panorama moderno da arquitetura portuguesa. No excerto acima, Alves Costa sintetiza os contributos anteriores quanto às relações que se pretende estabelecer com o lugar e a sua história, acrescentando duas dimensões que consideramos fundamentais: o programa e o posicionamento. De facto, a funcionalidade, tema predileto do Movimento Moderno, é assumido por Siza como condição essencial a satisfazer em complementaridade com as questões do lugar (“A claridade e a utilidade da Arquitectura dependem do comprometimento na complexidade das transformações que cruzam o espaço”24), não se demitindo o arquiteto de intervir, posicionando-se, participando na criação do espaço, e acrescentando novas camada nos longos processos de transformação do território. — “A inatingível perfeição da Arquitectura consiste em ser surpreendente e também a partir de algum momento, ser desde sempre parte de um lugar. (...) A Arquitectura fixa a cada instante o movimento que a transporta e transforma sem interrupção.”25

“São precisamente as implicações metodológicas do programa de investigação de Siza que são de uma importância que ultrapassa as circunstâncias particulares e experiência do seu trabalho individual. Recusando elevar os seus princípios como absolutos e evitando sistematicamente soluções morais simples, para os problemas arquitectónicos, o seu programa de pesquisa não escapa à incerteza inerente à contingência presente.” 26

Em 1984, Peter Testa apresenta a sua tese ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), intitulada “The Architecture of Álvaro Siza”, cujo texto viria a ser publicado quatro anos depois, em versão bilingue, pelas Edições da FAUP.

Capítulo I: Construir a Transformação

21 A Controspazio foi uma revista italiana de arquitetura e urbanismo (1969-2012), e foi dirigida pelo arquiteto e historiador Paolo Portoghesi de 1969 e 1985.

22 SIZA, Álvaro - Oito Pontos (1983). In 01 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2019.

2ª edição. p. 23.

23 COSTA, Alexandre Alves – Sem se apressar a correr para o mundo. In SIZA, Álvaro, COSTA, Alexandre Alves – Álvaro Siza. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. p. 21.

24 SIZA, Álvaro – Farmácia Moderna (1988). In 01 Textos.

Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2019. 2ª edição. p. 34.

25 SIZA, Álvaro – O Tempo desenha a Arquitectura (2008). In 02 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2018.

p. 22.

26 TESTA, Peter – A arquitectura de Álvaro Siza:

The architecture of Álvaro Siza. Porto: Edições da FAUP, 1988. p. 178.

5.

6.

(26)

Testa enfatiza a incerteza metodológica no processo de Álvaro Siza, — o próprio afirma que: “O Arquitecto é um detetive. (...) O Arquitecto concentra-se num projecto, um caso. E logo outro e outro. (...) O Arquitecto colecciona dúvidas, inventa ou invoca teorias. Nelas se apoia até as encontrar inúteis, procurando emergir, acotoveladas, logo substituídas ou transformadas”.27 A criação arquitetónica torna-se, assim, num longo percurso em ziguezague, no qual a experiência e a aprendizagem nunca concluída do arquiteto “assenta em grande parte na capacidade de ver, registando e porventura compreendendo. (...) É esse depósito em constante desenvolvimento de imagens, temas, ideias e respostas que permite, julgo eu, criar – inovando.”28

“O facto de Siza não escrever sobre a sua obra ou sobre arquitectura é um gesto consciente que ultrapassa a simples neutralidade dos muros da cidade.

O importante em Siza não é o feito, não é a obra, daí o seu não comentário.

A sua maneira de, os seus álibis, o seu fazer, enfim, o seu método de projectar contém «uma noção narrativa própria» que nos ficou.” 29

Eduardo Souto de Moura (1952-), outro grande nome da arquitetura portuguesa contemporânea, apresenta no seu relatório de estágio, em 1980, um pequeno texto ao qual deu o nome “Álvaro Siza – Um Arquitecto Amoral”.

Atendendo o processo de Siza, os seus modos de fazer, como o seu atributo mais relevante, Souto de Moura traz à superfície uma nova perspetiva sobre a capacidade pedagógica e didática da sua obra. Perante a dificuldade de definir o método de Siza (por ele próprio, pelos outros, por nós), os próprios edifícios resultam de um longo processo de desenho. E muito embora seja difícil, impossível mesmo, restituir todas as razões, desígnios e condicionantes de um projeto que conduziram a determinada solução, a simples leitura da sua evolução permite apontar caminhos, e fixar princípios. A narrativa que guia o projeto surge, portanto, carregada das suas convicções.

“Empenhou-se num projecto colectivo da época: não ser tradicionalista e não ignorar as raízes. (…) Quando tem prosseguimento, o trabalho transforma- se numa espécie de corrida de obstáculos. Mantém contudo intacta a paixão pela Arquitectura.” 30

Para a publicação de Imagginare l’evidenza (1998),31 Álvaro Siza elaborou uma pequena nota autobiográfica. Com apenas algumas frases curtas e assertivas, o arquiteto resume o seu percurso e reconhece as hesitações características da sua época, na constante necessidade de conciliar valores aparentemen- te antagónicos (Moderno vs. História, local vs. internacional, ...). Realçamos ainda o facto de o trabalho do arquiteto ser marcado por incessantes avanços e recuos, numa corrida de obstáculos em que só o verdadeiro gosto e entu- siasmo pelo ofício permite a constante acumulação de experiência, cultura e conhecimento que a sua obra evidencia.

7.

8.

27 SIZA, Álvaro – O Tempo desenha a Arquitectura (2008). In 02 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2018.

p. 21.

28 SIZA, Álvaro – Discurso de Aceitação do grau de Doutor Honoris Causa pelo Politécnico de Milão (2013). In 02 Textos. Lisboa: Parceria A.

M. Pereira, 2018. p. 115.

29 MOURA, Eduardo Souto de – Álvaro Siza – Um Arquitecto Amoral. In COSTA, Ana Alves; COSTA, Ana Catarina, FERNANDEZ, Sérgio – Cidade Participada:

Arquitectura e Democracia.

Operações SAAL – S. Victor.

Lisboa: Tinta-da-china, 2019.

p. 109.

30 SIZA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. p. 147-148.

31 O livro Immaginare l’evidenza, de 1998, resulta da transcrição da entrevista feita por Guido Gianfranco a Álvaro Siza. Foi posteriormente traduzido para português e publicado em 2000, pela Edições 70, com o título Imaginar a Evidência.

(27)

Em 1994, Álvaro Siza escreve um pequeno texto intitulado “Viver uma Casa”,32 após uma estadia prolongada em casa de uns amigos, a recuperar de uma queda. “Estes amigos são arquitectos e têm uma verdadeira paixão pela casa que eles mesmo construíram, uma casa magnífica com uma manutenção perfeita.”33 Num tom informal, entre a ironia e a melancolia, o arquiteto confessa:

“Nunca fui capaz de construir uma casa, uma autêntica casa. Não me refiro a projectar e construir casas, coisa menor que ainda consigo fazer, não sei se acertadamente. A ideia que tenho de uma casa é a de uma máquina complicada, na qual em cada dia avaria alguma coisa”34

Álvaro Siza continua o texto enumerando algumas dificuldades diárias e infortúnios das avarias domésticas que perturbam o quotidiano dos seus habitantes. A manutenção surge, à primeira leitura, como um processo penoso, levando o arquiteto a considerar “heroico possuir, manter e renovar uma casa”.35 Não obstante, ao realçar a importância dos pequenos elementos essenciais à vivência do espaço doméstico (gavetas, tapete, estofos;

verniz, silicone, caixilhos, azulejo; lâmpadas, livros, roupa, fogão), muitas vezes relegados para segundo plano durante o processo de projeto dos arquitetos, faz-nos refletir sobre a exigência e rigor com que Siza encara o projeto de uma casa.

Com efeito, no texto “Construir” de 1982, Álvaro Siza afirma que “[o] projecto de uma casa é quase igual ao de qualquer outra: paredes, janelas, portas, telhado. E contudo é único. Cada elemento se vai transformando, ao relacionar-se”.36 Noutros depoimentos, o arquiteto reflete sobre a importância da casa na vida do ser humano enquanto necessidade e desejo transversal — “ter casa é o sonho universal, uma casa com tubos que ligam ao céu e à terra, com luz, com porta e com armários, corredor, átrio.”37 — e como refúgio do exterior e espaço de expressão da individualidade — “A casa é o abrigo (...) Dentro somos independentes ou quase. Estamos protegidos da cidade e do mundo inteiro. (...) A casa é o eu de cada um”.38 Neste último, acrescenta ainda que, apesar de ser o espaço do “eu”, a universalidade das necessidades fundamentais do ser humano determinam que as suas casas sejam “praticamente iguais, na horizontal como na vertical.

(...) [M]antêm-se iguais, ou quase, porque nós os que as ocupamos somos quase iguais”,39 na medida em que devem responder a um conjunto de funções comuns, essenciais à sua vida, bem-estar e felicidade.

No início do seu percurso profissional, à falta de mais encomendas, Álvaro Siza projetava principalmente casas para a família, amigos e conhecidos.

Entre os seus primeiros projetos contam-se pequenas intervenções localizadas em casas de familiares [Cozinha da casa da avó (1952), Portão na casa do tio (1952), Quarto de banho da casa de Irene Camacho (1953)] e pequenas habitações [Quatro casas em Matosinhos (1954-1947), Casa dos pais (1960-1961), Casa Luís Rocha Ribeiro (1960-1969), Casa Ferreira da Costa (1962-1965), Casa Alves Costa (1964-1971), Casa Alves Santos, (1964- 1970), Casa Manuel Magalhães (1967-1970), entre outras].

Capítulo I: Construir a Transformação

“Viver uma Casa”

32 “Viver uma Casa” foi primeiramente publicado no catálogo da exposição no Centro Galego de Arte Contemporânea, coordenado por Pedro de Llano e Carlos Catanheira e editado pela Electa em 1995, com o título Álvaro Siza, Obras e Projectos.

33 SIZA, Álvaro – El Sentido de las Cosas [Uma Conversación con Álvaro Siza]. In CECILIA, Fernando Márquez; LEVENE, Richard C (ed.) – Álvaro Siza:

2001/2008. Madrid: El Croquis, 2008. Nº 140. p. 44.

34 SIZA, Álvaro – Viver uma Casa (1994). In 01 Textos.

Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2019. 2ª edição. p. 94 35 Id.

36 SIZA, Álvaro – Construir (1982). In 01 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2019. 2ª edição. p. 21.

37 SIZA, Álvaro – Sair de um sonho (2003). In 01 Textos.

Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2019. 2ª edição. p. 201.

38 SIZA, Álvaro – A casa (2006). In 01 Textos. Lisboa:

Parceria A. M. Pereira, 2019. 2ª edição. p. 243.

39 Id.

(28)

Deste primeiro conjunto muito diverso de obras, a postura de Álvaro Siza parece evoluir no sentido do encerramento dos edifícios em relação à rua, ao espaço público. Peter Testa afirma que “[a]s casas de Siza são todas abertas para dentro com o fim de assegurar a privacidade física e psicológica.

A casa é compreendida como um interior fechado – uma característica das casas ocidentais desde a antiguidade”40 e o próprio arquiteto reconhece este facto:

“[As primeiras casas] [e]ram muito interiorizadas, para que as janelas não abrissem sobre coisas de que eu não gostava, e isso às vezes, provocava uma reacção. Até que mudei de ideias e decidi que não poderia estar a criar microclimas num jardim, geralmente havia um jardim. Tinha que trabalhar com a realidade, nestas ruas havia casas de que eu não gostava e era com isso que tinha que contar.”41

A Casa Beires (1973-1976), na Póvoa de Varzim, parece ser a primeira — o ponto de inflexão —, no conjunto da obra de Siza, a abandonar a postura do microclima interiorizado, para se confrontar com a cidade, mesmo que criticamente.42 Ocupando o centro de um pequeno lote suburbano retangular, a Casa Beires ficou conhecida como a “casa-bomba” devido à caixilharia contínua de contornos irregulares que se afirma como uma crítica à ortodoxia moderna, estabelecendo uma clara rutura com as casas confinantes:

“[S]e as casas anteriores eram edifícios discretos, introvertidos, e com uma participação mais distante do contexto urbano, a Casa Beires, mais que um mero participante submisso, assume-se como “construção crítica”; um subversivo dissidente topográfico, que (...) produz um comentário à banalidade demagógica do contexto urbano.”43

Mais tarde, refletindo sobre a Casa Vieira de Castro (1984-1994), em Vila Nova de Famalicão, o arquiteto assegura que o projeto de uma habitação unifamiliar exige uma análise profunda dos hábitos, necessidades e aspirações da família que a vai habitar.44 De facto, em múltiplas ocasiões Álvaro Siza, confirma o diálogo com o cliente, como condição imprescindível no sucesso do projeto:

“É um trabalho onde a participação do cliente no projeto tem sempre uma especial intensidade; naturalmente, quem quer fazer uma casa quer expressar ao detalhe o que lhe interessa, o que gosta, os seus gostos, etc. Portanto, é um tema que se presta a um estudo em detalhe e em relação com uma pessoa em particular.”45

De igual modo, o arquiteto assume a dificuldade de trabalhar sem interlocutor em projetos de habitação, seja porque é mais difícil projetar desconhecendo a sua identidade, levando a situações em que os proprietários alteram completamente o projeto, seja porque quando se trabalha com promotores imobiliários, o interesse recai sobretudo em tornar o objeto comercialmente apelativo.46

40 TESTA, Peter – A arquitectura de Álvaro Siza : The architecture of Álvaro Siza.

Porto: Edições da FAUP, 1988.

p. 19.

41 SIZA, Álvaro – Álvaro Siza. Dar Forma a um Lugar. In MILANO, Maria;

CREMASCOLI, Roberto – Álvaro Siza. Dar Forma a um Lugar. Matosinhos: Cardume Editores, 2016. p.18.

42 Álvaro Siza explora anteriormente a relação direta com a envolvente urbana noutros projetos como as Quatro Casas (1956-1957), em Matosinhos, ou o Conjunto Habitacional das Caxinas (1970-1972), em Santo Tirso, mas o arquiteto identifica a Casa Beires como o primeiro projeto onde essa mudança de atitude relativamente ao contexto é consciente e premeditada.

43 TRIGUEIROS, Luiz (ed.) – Álvaro Siza 1954-1976. Lisboa:

Editorial Blau, 1997. p. 164.

44 SIZA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. p. 39.

45 SIZA, Álvaro - Conversación sobre el tema de la casa. In CIANCHETTA, Alessandra;

MOLTENI, Enrico – Álvaro Siza:

Casas 1954-2004. Bercelona:

Gustavo Gili, 2004. p. 11.

46 SIZA, Álvaro – O regresso aos bairros. In CRUZ, Valdemar – Retratos de Siza. Lisboa:

Lápis de Memórias, 2017. p.

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