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Capítulo III: Análise Comparada

Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza

“Pedem-me um depoimento sobre a minha actividade profissional. Escrevo algumas linhas, oito ao acaso.

1- Começo um projecto quando visito um sítio (programa e condicionalismos vagos, como quase sempre acontece).

Outras vezes começo antes, a partir da ideia que tenho de um sítio (descrição, uma fotografia, alguma coisa que li, uma indiscrição).

Não quer dizer que muito fique de um primeiro esquisso. Mas tudo começa.

Um sítio vale pelo que é, e pelo que pode ou deseja ser – coisas talvez opostas, mas nunca sem relação.

Muito do que antes desenhei (muito do que outros desenharam) flutua no interior do primeiro esquisso. Sem ordem. Tanto que pouco aparece do sítio que tudo invoca.

Nenhum sítio é deserto. Posso sempre ser um dos habitantes.

A ordem é a aproximação dos opostos.

2- Ouço dizer que desenho nos cafés, que sou um arquitecto de pequenas obras (como experimentei as outras, penso: oxalá que não; são as mais difíceis).

É verdade que desenho nos cafés. Não o faço como Toulouse Lautrec nos cabarés, ou algum Prix de Rome, entre as ruínas.

O ambiente de um café não inspira nem transporta. É um dos poucos – aqui no Porto – a permitir anonimato e concentração.

Não se trata de fuga à mesa de reuniões, à interdisciplinaridade, ao telefone, aos impressos de Regulamentos, aos catálogos de pré-fabricados ou de ferramenta simplificadora, ao computador ou à Assembleia de Moradores.

Trata-se de conquistar – é o termo – bases para trabalhar com isso e para isso. (Quantos cafés frequentei; mudo quando noto especial atenção, à mistura com chá e torradas).

3- Alguns dos meus últimos projectos passaram por longo debate com grupos organizados de moradores ou futuros moradores.

Nada de muito novo. Trabalhei assim, noutras circunstâncias, ou desejei trabalhar.

No Portugal saído de 74 não se tratava, contudo, de desejar ou não. A luta pela habitação, no Porto, em Lisboa, ou no Algarve, abertas as cadeias, ultrapassou os limites da casa, do bairro, da cooperativa. Possuiu a cidade.

Curto episódio. Tomado como método, o que é movimento degenera em cómodo alibi, moderador alienante, renitente a mergulhar na reformulação do desejo – o nosso e o de outros.

4- Dizem-me de obras minhas, recentes e antigas: baseiam-se na arquitectura tradicional da região.

Também essas obras me fizeram conhecer a resistência de um operário, a ira de quem passa e de quem julga.

A Tradição é um desafio à inovação. É feita de enxertos sucessivos.

Sou conservador e tradicionalista, isto é: movo-me entre conflitos, compromissos, mestiçagem, transformação.

Oito Pontos

5- Dizem-me (alguns amigos) que não tenho teoria de suporte nem método.

Que nada do que faço aponta caminhos. Que não é pedagógico.

Uma espécie de barco ao sabor das ondas que inexplicavelmente nem sempre naufraga (ao que me dizem também).

Não exponho excessivamente as tábuas dos nossos barcos, pelo menos em mar alto. Por demais têm sido partidas.

Estudo correntes, redemoinhos, procuro enseadas antes de (ar)riscar.

Posso ser visto só, passeando pelo convés. Mas toda a tripulação e todos os aparelhos estão lá, o capitão é um fantasma.

Não me atrevo a pôr a mão no leme, olhando apenas a estrela polar. E não aponto um caminho claro. Os caminhos não são claros.

6- Não gostaria de executar com as próprias mãos o que desenho. Nem de desenhar sozinho. Seria: esterilizar.

O corpo-mão e mente e tudo – não cabe no corpo de cada um. E nenhuma parte é autónoma.

7- As minhas obras inacabadas, interrompidas, alteradas, nada têm a ver com a estética do inacabado, ou com a crença na obra aberta.

Têm a ver com a enervante impossibilidade de acabar, com os impedimentos que não consigo ultrapassar.

8- Discuto com um operário como assentar mosaico de 30x30 num pavimento de geometria irregular: em diagonal (como proponho) ou paralelamente a uma das paredes. Diz-me: nós, em Berlim, não fazemos como quer.

No dia seguinte volto à obra. “Dou-lhe razão. É mais fácil de executar” (diz-me o operário).

Encontramo-nos no mesmo interesse: construir da forma mais prática e racional, como aconteceu – voando – no Parténon, ou em Chartres, ou na casa Milà.

E hoje: redescobrir a mágica estranheza, a singularidade das coisas evidentes.”

[A versão que aqui se transcreve é a que está publicada em 01 Textos:

SIZA, Álvaro – 01 Textos. 2ª ed. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2019. pp. 22-23.]

[o texto “Oito Pontos” foi primeiramente publicado nos Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme. Barcelona. Nº 159, Out.Nov.Sez (1983)]

Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza

“Nunca fui capaz de construir uma casa, uma autêntica casa. Não me refiro a projectar e construir casa, coisa menor que ainda consigo fazer, não sei se acertadamente.

A ideia que tenho de uma casa é de uma máquina complicada, na qual em cada dia avaria alguma coisa: lâmpada, torneira, esgoto, fechadura, dobradiça, tomada, e logo cilindro, fogão, frigorífico, televisão ou vídeo; e a máquina de lavar, ou os fusíveis, as molas das cortinas o fecho de segurança.

As gavetas encravam, os tapetes rompem-se, e os estofos do divã da sala.

Todas as camisas, peúgas, lençóis, lenços, guardanapos e toalhas de mesa, panos de cozinha – jazem rotos junto à tábua de passar a ferro, cujo pano de protecção apresenta um aspecto lamentável. Igualmente: há pingos de água caindo do texto (avariam os canos do vizinho, ou parte-se uma telha, ou descola a tela). E os algerozes estão cheios de folhas pardas, os rufos soltos, ou apodrecidos.

Quando há jardim a relva cresce ameaçadoramente, qualquer tempo livre é insuficiente para dominar a raiva da natureza; pétalas caídas e legiões de formigas invadem as soleiras das portas, há sempre cadáveres de pássaros e de ratos e de gatos. O cloro da piscina esgota, avaria o robot; nenhum aspirador restitui a transparência das águas ou suga as patas dos insectos, finas como cabelo.

O granito das lajes ou das calçadas cobre-se de perigosíssimo limo, o verniz escurece, películas de tinta desprendem-se e põem a descoberto os nós de uma madeira reduzida à capa. Qualquer dedo de anciã pode furar os caixilhos, os vidros estão partidos, caíu o betume, o silicone desprende-se das superfícies, há mofo nos armários e nas gavetas, as baratas resistem aos químicos. Sempre terminou a graxa quando procuramos a lata necessária, os tacos descolam, desprendem-se os azulejos, primeiro um, logo a parede inteira.

Por aí fora.

Viver numa casa, numa casa autêntica, é ofício a tempo inteiro. O dono da casa é simultaneamente bombeiro de serviço (as casas ardem constantemente, ou inundam-se, ou o gás escapa-se sem ruído, em geral explode); é um enfermeiro (já viram as lascas de madeira do corrimão cravando-se fundo no sabugo das unhas?); é um nadador-salvador, domina todas as artes e profissões, é especialista em física, em química, é jurista – ou não sobrevive. É telefonista de serviço e recepcionista, telefona a cada momento, procurando picheleiros, carpinteiros, trolhas, eletricistas, e logo lhes abre a porta de entrada, ou a de serviço, acompanhando-os com subserviência; pois deles depende, embora nada impeça a necessidade de uma oficina completa, a qual igualmente se vai degradando. E então é necessário afiar lâminas, comprar acessórios, olear, rearrumar, desumidificar; de imediato avaria o desumidificador, e atrás o ar condicionado, as bombas de calor.

Viver uma Casa

Nada contudo ultrapassa a tortura dos livros que se movem misteriosa e autonomamente, desarrumando-se de propósito, atraindo pó com as suas lombadas e a sua espessura magnética. O pó penetra no bordo superior das folhas, pequeníssimos bichos comem-nas com ruído indescritível; as folhas grudam-se, o couro mancha, pingos de água saídos de vasos com flores prestes a morrer escorrem sobre as gravuras, atravessam as telas em furioso processo de dissolução. O capacho da porta de entrada desfaz-se e há um sulco profundo na madeira, os pêlos das piaçabas desprendem-se, partem-se objectos preciosos, as tábuas das mesas e as dos móveis abrem-se em estalidos aterradores, não funciona o autoclismo, o fogão enche-abrem-se de fuligem – qualquer dia arde – na cristaleira partem-se os copos da bisavó, rebentam as garrafas de vinho verde a que quase nada de açúcar dá vida, saltam as rolhas, ou apodrecem, perde qualidade exactamente a colheira mais apreciada.

Quando pela primeira vez não é substituída de imediato uma lâmpada fundida toda a casa perde luz, o que invariavelmente acontece ao sábado, ao mesmo tempo que rebenta um pneu do único carro disponível.

Por isso considero heróico possuir, manter e renovar uma casa. Em minha opinião deveria existir a Ordem dos Curadores de Casas e todos os anos atribuída a respectiva comenda e um elevado prémio pecuniário.

Mas quando esse esforço de manutenção não é aparente, quando o saudável cheiro a cera de uma casa, por outro lado bem ventilada, se mistura com o perfume das flores do jardim, e quando nela nós – visitantes irresponsavelmente pouco atentos aos instantes de felicidade – nos sentimos felizes, esquecendo as nossas angustias de nómadas bárbaros, então a única medalha possível é a de gratidão, do silencioso aplauso; um momento de paragem, olhando em volta, mergulhando na atmosfera doirada de um interior de Outono, ao fim do dia.”

[A versão que aqui se transcreve é a que está publicada em 01 Textos:

SIZA, Álvaro – 01 Textos. 2ª ed. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2019. pp. 94-95]

[o texto “Viver uma Casa” foi primeiramente publicado no catálogo Álvaro Siza, Obras e Proyectos, pela Electa, em 1995. O catálogo foi editado por Pedro de Llano e Carlos Castanheira a propósito da Exposição no Centro Galego de Arte Contemporânea e na Câmara Municipal de Matosinhos, de 6 de Maio a 28 de Julho de 1996]

Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza

“Eu não sei se a minha intervenção sai um pouco do contexto deste encontro.

Não sou um especialista em recuperação ou conservação, mas vou apresentar um projecto num edifício público. No fundo, estamos a falar sempre de arquitectura. Eu lembro que há uns anos fui colocado na Faculdade de Arquitectura, numa nova disciplina referida exactamente à recuperação e não estava de acordo. Provavelmente foi por isso que fui colocado aí. Não estava de acordo porque em termos de arquitectura, recuperação não é uma especialidade, trata-se simplesmente de arquitectura. Tem uma base histórica, científica muito forte, mas também tem algo do que qualquer intervenção arquitectónica nos apresenta.

Estava a pensar numa recuperação de uma igreja que vi ali fora, uma igreja de uma aldeia, não sei em que sítio é, onde se deve ter posto ao arquitecto encarregado um problema de opção muito difícil e que não tinha a ver, provavelmente, nem com a história, nem com nada de científico. É uma igreja preciosa, em que se manteve na fachada um reboco, com as pedras desenhadas, que terá sido feito provavelmente no princípio do século, o que é discutível. Será melhor manter ou retirar (e estes problemas são constantes, quando se trabalha em recuperação). Ele optou assim, quanto a mim, bem, mas é discutível.

Portanto não é só científico, histórico, é óptimo para nós, arquitectos, termos a possibilidade de nos dedicarmos quase por inteiro à concepção e desenvolvimento dos projectos, já que trabalhamos em equipa com gente que se especializa em vários sectores. É óptimo que nesta Faculdade de Engenharia exista uma especialização e mestrados especificamente voltados aos temas da recuperação porque isso é uma garantia de que haverá conhecimento, informação, a possibilidade de formar de novo artesãos.

São coisas que faltam e como cada vez aumenta mais a preocupação com o património, essa falta é dramática.

Eu dei como título desta pequena intervenção “Recuperação e Manutenção”, porque pouco antes de o ter decidido fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: descer a Rua Mouzinho da Silveira. Fiquei aterrado, porque vi praticamente todos os prédios abandonados e em degradação acelerada.

Isto acontece muito pela cidade e pelas cidades. Quer no Porto, quer em Lisboa há uma diminuição de população no centro histórico, exactamente porque por um lado se quer manter, mas por outro lado não há capacidade, dinheiro, o que seja para intervir de forma acelerada.

E o que é que está na origem desta situação?

Uma coisa ainda mais grave, que é um hábito que se perdeu de manutenção das casas. No fundo é um problema cultural. Enquanto não se criar um ambiente como existe, por exemplo na Holanda: quando chega a Primavera, só se vê gente a pintar janelas, portas, rebocos.

Recuperação e Manutenção

Enquanto isso não acontecer, por mais que se recupere o património aceleradamente, aparecerá outro património em ruína e património recente, porque devemos pelo menos ter a ambição de estar a criar património. Aí surge outro problema também grave, que é a má construção usual. Nos prédios, normalmente, as construções são mal feitas e mesmo em edifícios públicos a manutenção não se processa, não há também aí esse hábito.

Como excepção, esta Faculdade está muito bem tratada. A Faculdade de Arquitectura por exemplo deve estar prestes a largar rebocos. Cor já não tem.

Há uns edifícios que tinham uns tijolos ou cerâmicas decorativas na fachada em que a decoração se está tornando extremamente complexa porque vão caindo mais mosaicos, mais cerâmicas e portanto os desenhos geométricos tornam-se bem mais complexos.

Enquanto não houver a possibilidade de criar esse hábito e meios para isso, é claro que por um lado se recupera património e por outro lado se vai acumulando novo património degradado; algum não fará falta nenhuma, mas algum também fará, e de qualquer maneira isso custa dinheiro. Se fosse possível que o dinheiro fosse canalizado para meios, hábitos, cultura de manutenção, o problema seria muito menor. O facto de existir a arquitectura de várias épocas do passado, em pé e em boas condições, é fundamental para a criação da nova arquitectura porque nós trabalhamos no fundo em continuidade, julgo eu. As maiores rupturas na história da arquitectura têm uma componente de continuidade ou retomam rapidamente essa componente.

O facto de dispor da beleza dos centros históricos é importantíssimo para que a periferia tenha também algo dessa beleza. Visitando algumas zonas em recuperação, vejo que um dos problemas (e falo em relação a mim próprio, porque sou arquitecto, falo de arquitectos), talvez porque se iniciam as recuperações já num estado de ruína avançado, é tendência do arquitecto deixar uma assinatura nas recuperações que faz. Posso citar coisas como retirar as proporções e o desenho das aberturas, modificando proporção, escala, quadradinhos ou outro sistema aparecendo de súbito um grande envidraçado preenchendo o vão com um aspecto que faz lembrar um velho desdentado, ou de manter a fachada e o resto, o tardoz por exemplo ser em

“arquitectura moderna”, a sequência de jardins ser transformada muitas vezes em espaço público com esta ideia de vitalizar (não creio que vitalize, e cria também problemas de ambiente). Falando da recuperação de fachadas, cito também os casos que se lhes sobrepõe não sei quantos mais pisos, sempre dizendo que é recuperar....Há uma série de problemas que é muito bom que sejam discutidos periodicamente em conjunto, que haja debate, que se troquem informações e opiniões.”

[A versão que aqui se reproduz corresponde à primeira publicação do texto através da transcrição da conferência proferida por Álvaro Siza no seminário “A Intervenção no Património: Práticas de conservação e reabilitação”, de Outubro de 2002, publicada em:

COSTA, Aníbal (ed.), ... [et al.] – A Intervenção no Património: Práticas de conservação e reabilitação. Porto: FEUP, 2002. pp. 19-26]

Anexo 1: Três textos de Álvaro Siza

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