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Cad. Saúde Pública vol.28 número5

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(5):816-817, mai, 2012

EDITORIAL

Oportuno escrever sobre o uso do asbesto em pleno século XXI, próximo à data da confe-rência da Organização das Nações Unidas (ONU), a Rio+20, que pretende discutir a sus-tentabilidade do planeta. Parte do êxito depende de diretrizes políticas necessárias para banir e/ou reduzir substâncias químicas nocivas ainda em uso, como agrotóxicos, benze-no e amianto. Neste caso, o asbesto, fibra mineral utilizada em telhas, caixas d’água, freios e outros produtos. Mineral capaz de causar asbestose (fibrose pulmonar), placas pleurais, alterações funcionais respiratórias, câncer de pulmão e o mesotelioma, um câncer raro da membrana que envolve os pulmões, de difícil tratamento e mau prognóstico.

Todos os tipos de asbesto são classificados pela Agência Internacional para Pesquisa

do Câncer (IARC) no grupo 1, reconhecidamente “cancerígeno para os seres humanos”, e

segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), critério 203, “não há níveis seguros para

a exposição às suas fibras”. Ainda, para a OMS, o risco deve ser zero para que não haja a possibilidade de câncer na população exposta, incluindo exposição não ocupacional.

A OMS estima em torno de 100.000 mortes/ano causadas pelo asbesto em todo o mun-do. De acordo com a Associação Internacional da Seguridade Social (AISS), 3.500 britânicos morrem anualmente devido à exposição ao amianto, e na Austrália, mais de 45 mil mortes de câncer devido ao asbesto. No Brasil, os dados de morbi-mortalidade mostram um au-mento de casos de mesotelioma, e espera-se uma onda de novos pacientes, que farão uso dos serviços públicos de saúde.

Atualmente, o banimento do asbesto dos processos produtivos é uma realidade em mais de 50 países. Além disso, as vítimas têm buscado seus direitos em tribunais. Na Fran-ça, uma decisão da Suprema Corte condenou os empregadores que expuseram trabalha-dores ao asbesto a pagar indenizações e reconhecer o amianto como causa da doença. Na Itália, em 2012, a Suprema Corte condenou os donos de uma fábrica de telhas de asbesto e ordenou o pagamento de indenização para familiares e vítimas.

O Brasil é o terceiro maior produtor de asbesto do mundo e com um consumo de qua-se 1kg de asbesto/habitante/ano. Todo esqua-se asbesto encontra-qua-se nas instalações e equi-pamentos espalhados em diferentes ambientes, o que ultrapassa os locais de trabalho e aumenta o risco para a população ambientalmente exposta.

Alguns estados brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro, possuem legislação que trata do banimento do asbesto, porém ações contestatórias no Supremo Tribunal Federal, impetradas por empresas que insistem no seu uso, dificultam a sua aplicação. Inúmeros Projetos de Lei têm circulado no Congresso Nacional desde o final dos anos 1980, mas infe-lizmente não se tem logrado êxito.

Por intermédio de uma carta recentemente publicada em diferentes mídias, diversas instituições acadêmicas brasileiras afirmam que não há possibilidade de “utilização segu-ra” mesmo com o “uso controlado” do asbesto, e afirmam que estes são conceitos engano-sos e inviáveis. Assim, o Estado brasileiro, no seu processo decisório e civilizatório, tem o dever de cumprir a Constituição e proteger a saúde da população promovendo o imediato banimento do asbesto.

Hermano Albuquerque de Castro

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

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