UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
CURSO DE LICENCIATURA EM TEATRO
JOÃO FRANCISCO DE AZEVEDO NETO
FULIGEM: PERFORMANCE NEGRA NA CENA CONTEMPORÂNEA
NATAL-RN 2020
JOÃO FRANCISCO DE AZEVEDO NETO
FULIGEM: PERFORMANCE NEGRA NA CENA CONTEMPORÂNEA
Trabalho apresentado como requisito necessário para obtenção do título de Licenciado do curso de Licenciatura em Teatro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação da professora doutora Naira Neide Ciotti.
NATAL-RN 2020
Monografia apresentada como requisito necessário para obtenção do título de Licenciado do Curso de Teatro. Qualquer citação atenderá às normas da ética científica.
______________________________________________________ João Francisco de Azevedo Neto
Monografia apresentada em _____ /____ /______
______________________________________________________ Profa. Dra. Naira Neide Ciotti (Orientadora)
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
______________________________________________________ Prof. Dr. Adriano Moraes de Oliveira (1º Examinador) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
_________________________________________________________ Prof. Dr. Ayrson Heráclito Novato Ferreira (2º Examinador - externo)
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB
______________________________________________________ Profa. Dra. Monize Oliveira Moura (Coordenadora)
Lista de Ilustrações
Figura 1 - Francisco Virginio dos Santos, ex Bóia-Fria - 15 Figura 2 - Performance Fuligem: Bagaço - 31
Figura 3 - Performance Fuligem: Oiteiro - 34 Figura 4 - Performance Fuligem: Cortar - 36 Figura 5 - Performance Fuligem: Semear - 38 Figura 6 - Performance Fuligem: Lâmina - 40
Figura 7 - Palestra: “A construção de um corpo cultural afro na poética de Ayrson Heráclito” - 43
SUMÁRIO:
INTRODUÇÃO 7
CONTEXTUALIZAÇÃO DO CENÁRIO 19
RECORTE RACIAL 22
PROCESSO ARTÍSTICO 24
FRAGMENTOS: PERFORMANCES PRETAS NA CONTEMPORANEIDADE
31
FULIGEM 32
CONSIDERAÇÕES FINAIS 46
RESUMO
Este trabalho propõe abordar a performance preta na cena contemporânea a partir da performance intitulada, com o objetivo de refletir de uma forma crítica sobre a situação do corpo preto na contemporaneidade. O processo artístico partiu de uma pesquisa biográfica realizada no laboratório de Performance e Teatro Performativo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LABPerformance-UFRN). Nesse sentido, usei um repertório auto biográfico de composição para escrever esta monografia. Por tanto, esta monografia apresenta uma arte politicamente engajada para denunciar a situação de trabalho dos Bóias-frias que vivem em condições análogas à escravidão. Com isso, ao procurar o material para esta monografia, realizei visitas de campo na Usina São Francisco em Ceará-Mirim, RN, e entrevistas documentais. Em seguida, construí um processo artístico em Arte performance que envolveu várias etapas: criação de fragmentos cênicos, foto performances e vídeo performances.
PALAVRAS-CHAVE:
Performance preta. Cena contemporânea. Performance. Fuligem. Processo artístico.
ABSTRACT
This work proposes to approach the black performance in the contemporary scene from the performance entitled Fuligem, in order to reflect in a critical way on the situation of the black body in contemporary times. The artistic process started from a biographical research carried out in the Performance and Performative Theater laboratory at the Federal University of Rio Grande do Norte (LABPerformance-UFRN). In that sense, I used an auto biographical repertoire of composition to write this monograph. Therefore, this monograph presents an art politically engaged to denounce the work situation of the Bóias-frias who live in conditions similar to slavery. With that, when looking for the material for this monograph, I made field visits at Usina São Francisco in Ceará-Mirim, RN, and documentary interviews. Then, I built an artistic process in Arte performance that involved several stages: creation of scenic fragments, photo performances and video performances.
KEYWORDS:
INTRODUÇÃO:
Ao longo da minha infância, até os 10 anos de idade, tive com o meu pai pouco diálogo, por dois motivos. Primeiro, porque ele não era uma pessoa de conversar com seus filhos, como ele mesmo sempre falava “sua obrigação era botar comida em casa”. Segundo, antes mesmo do sol raiar, ele saía de casa e só voltava à noite. A rotina de trabalho de meu pai como boia-fria na plantação de cana-de-açúcar na Usina São Francisco em Ceará-Mirim/RN, era um fator degradante de suas condições físicas e sociais.
Quando eu completei 13 anos de idade, a minha mãe me deu uma tarefa de deixar o almoço do meu pai às 16:00 horas da tarde em seu trabalho, porque os trabalhadores não recebiam o almoço. Ainda não sabia, neste momento, que eles também não recebiam nem mesmo, material de trabalho: facão; e de proteção como botas. Mais tarde, pude observar que cada trabalhador tinha que comprar no armazém da Usina, para ser descontado do seu salário no final da colheita de cana-de-açúcar no fim do dia.
Na maioria das vezes quando eu ia entregar o almoço dele, eu sempre pedia para ficar com ele no canavial, era uma forma que eu achava de estar mais próximo do meu pai. Enquanto ele cortava a cana-de-açúcar eu o ajudava puxando as canas para serem amarradas e para poder levá-las para o caminhão. Entre um corte e outro de cana-de-açúcar observava que, por mais que ele utilizasse camisas longas e boné para se proteger, ele sempre se cortava nos braços e no rosto, com as farpas produzidas pelo corte da cana. Isso ocorria por não terem um material de proteção adequado.
Durante as queimadas da cana-de-açúcar, partículas de fuligem da cana tomavam conta da cidade e das casas próximas à Usina São Francisco . Eram partículas pretas de 1 bagaço de cana-de-açúcar. As muitas famílias que não têm suas casas forradas de gesso precisavam limpar suas casas de quinze em quinze minutos, até o fim da queimada. E isso ocasionou problemas respiratórios aos filhos de muitos moradores, como por exemplo: asma, sinusite... como no meu caso. Em meio à essas partículas pretas que tomavam conta do canavial eu observava o meu pai como se fosse um super-herói, mas que não era de desenho animado, mas da vida real. O meu super-herói era feito de carne, osso, e estava presente, na minha frente.
Hoje, ele aos 78 anos de idade, e eu, estamos revivendo essas memórias juntos com longas conversas. Lembrando dessas vivências na infância, agora, na fase adulta como universitário realizei entrevistas e visitas de campo retornando aos mesmos lugares agora para produzir o meu trabalho artístico intitulado FULIGEM, que quer dizer: substância preta,
proveniente da decomposição de matérias combustíveis. Neste contexto, dedico esse trabalho
ao meu pai, e a todos os bóias-frias desse país que vivem em situações de trabalho análogas
de escravidão na contemporaneidade, segundo os dados da Organização Internacional do
Trabalho (OIT ).2
Em Ceará Mirim/RN, cidade em que nasci, na sala de aula da escola de ensino fundamental, eu sempre era designado a fazer o papel do lobo mau, ou do bandido, e até mesmo representar a caricatura de personagens engraçados nas apresentações de fim de ano na escola. Com isso, fui percebendo ao longo de vários momentos, que por mais que eu me dedicasse ao máximo para fazer uma boa apresentação, os papéis de herói nunca eram determinados para um menino preto, como eu. Assim sendo, preto não podia representar o papel de herói, galã ou bom mocinho. Nesse contexto, o racismo que envolve a aparência física do outro, seus traços, sua forma de falar, são predominantes, não só em minha cidade, mas posso dizer que no Brasil, como um todo.
Em minha trajetória como estudante de licenciatura em Teatro, tive as primeiras vivências com alguns processos de montagem de espetáculo teatral, onde fui percebendo que o que determinava a escolha de personagens marginalizados era a tonalidade da pele deles, por isso, sempre era representado por um personagem de pele preta.
Durante o percurso de formação no curso de licenciatura em Teatro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fui percebendo que essa concepção de racismo estrutural era constante nos muros acadêmicos de uma forma superficial, fortalecendo o racismo estrutural, institucional.
Nessa perspectiva, Sílvio Luiz Almeida nos informa que, a partir da efetividade dos princípios de deveres e obrigações iguais foi utilizada para naturalizar a informação dos negros com afirmações que os mantêm subalternos, ora sob justificativa de incapacidade, ora de falta de vontade. Determina-se essa condição com meias verdades, como o apego ao passado escravista e a um anacrônico ideal de supremacia branca. Assim o racismo estrutural
não mostra que o motivo pelo qual existem disparidades entre brancos e pretos, determinam àqueles privilégios e, a estes, as “sobras” e o racismo. Por isso, Almeida (2018) , pesquisou o racismo estrutural como uma forma de violência reproduzida no tecido social que ocorre não mais na forma direta, mas nas formas institucional e cultural. É perceptível nos segmentos institucionais seja nas universidades ou galeria de arte, a pequena quantidade de negros exercendo funções de diretor, encenador, professor, curador de galeria de arte. Ela é quase inexistente nesses setores institucionais de poder.
No decorrer da minha graduação em teatro na UFRN, senti uma satisfação por estar usufruindo de uma educação de qualidade, e que conta com grandes profissionais. Ao mesmo tempo percebia no dia a dia da academia que esse espaço ainda é para poucos jovens pretos, como eu. Apesar da LEI Nº 12.711, de 29 de agosto de 2012: As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que se autodeclara preto, pardos indígenas, e que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Esta lei possibilitou construir de uma forma significativa, que essas pessoas ocupem o seu lugar como forma de uma reparação social, de cinco séculos de atraso, nesse sentido, podendo desenvolver uma nova narrativa de uma geração de jovens pretos que se tornaram: médicos, advogados, engenheiros e professores.
O Brasil desenvolve um racismo sistemático onde a branquitude intelectual elitista produz a invisibilidade da epistemologia negra, e desqualifica tudo o que está associado a cultura negra. A grande questão não é o fato, de fazer um papel de um bandido ou de mendigo, ou mesmo, de ter só referências brancas europeias na maioria das vezes no curso, o que há de se questionar é o fato de que esses papéis estão sempre destinados para os pretos representarem. Ou mesmo, se tem referências pretas na cena Teatral Brasileira, por que não é citada? Por que será?
Percebo, que esse fato é uma consequência de um racismo implantado com argumentos científicos. De acordo com Fanon (2008), às práticas eugênicas e higienistas utilizaram recursos validados pela ciência para definir as raças humanas em raças superiores e raças inferiores, raças puras e as outras. A supremacia racial branca foi considerada a referência do belo ou puro. Ao contrário, essa mesma supremacia entendia que os
afro-diaspórico que não tem alma, não são belos, não tinham cultura, eram simplesmente considerados como um objeto. Essa estratégia de desqualificar as pessoas negras tinha, ou
tem, se assim ainda podemos dizer, como propósito fortalecer o direito de escravizar os pretos.
Nesse sentido, o fato de estar inserido na academia, e ter essa consciência de negritude, o objetivo da minha persona diária é enegrecer minha pesquisa, minhas ações, meus questionamentos acerca do espaço que estou inserido, principalmente no que compete às situações de racismo velado vivido por mim e por outros estudantes preto(a). Com isso, nesta pesquisa, tenho como objetivo, abordar os sentidos das performance negra á partir das minhas próprias ações de performance na contemporaneidade, possibilitando que os alunos estudantes de Artes Cênicas pretos(as) reflitam de uma forma crítica sobre os espaços institucionais que estão inseridos.
Diante disso, o racismo brasileiro é estrutural em seus setores de poder, em sua especificidade e na eficácia mortífera simbólica apontada nos anos de 1960 - com perfeição o embranquecimento epistemológico da população brasileira. Isso significa não evidenciar pensadores pretos, não referenciar sua produção e nem ressaltar seu legado, assim como, ignorar toda potência de impacto que a presença e a memória de líderes e intelectuais pretos possuem. No sentido de confrontar o racismo que acomete o povo preto brasileiro historicamente, a contribuição e importância da cultura preta nesse país, está sob esse silenciamento na academia.
Nesse sentido, as minhas ações ao estar no espaço acadêmico para combater o racismo estrutural parte da iniciativa de usar: referências de autores pretos, questionar o porquê de não termos na grade curricular do curso de licenciatura em Teatro da UFRN, disciplinas que abordem a importância da performatividade do Teatro Experimental Negro (TEN) na cena Teatral Brasileira, e da importância que a atuação que o TEN proporcionou através do protagonismo preto. Nas palavras do próprio Abdias Nascimento (1944), desde que era ainda uma ideia em gestão, o TEN teria como papel defender a “Verdade Cultural Brasileira”.
Por isso, estando em contato com esse espaço acadêmico, e tendo essa consciência tardia de se auto reconhecer como um sujeito preto e quilombola, a 10 anos atrás, percebo que muitas vezes me submeti a usar uma máscara social na minha pré-adolescência. Para ser
aceito em espaços onde a branquitude reina, com toda sua prepotência. Afinal de contas quem quer ser preto? Onde o próprio dicionário brasileiro classifica a palavra “preto” como adjetivo e conceitua da seguinte maneira: como falta completa de cor por não ser capaz de refletir a luz. No entanto, hoje, percebo que minha maior arma é me afirmar como preto, empretecer todas as minhas ações.
O autor Achille Mbembe (2013), filósofo camaronês e autor da obra Necropolítica, apresenta um olhar diferente para a biopolítica. Nessa obra, o autor utiliza algumas leituras sugeridas para formular que, as políticas gregas são precursoras do controle sobre a morte dos outros. Já Foucault, formula o pensamento que a biopolítica opera na vida e sua dinâmica ocorre através do controle das vontades e dos corpos. Com relação a isso, Achille (2013) se propõe a olhar para as políticas da morte como uma macroestrutura operante em países colonizados, e seu funcionamento através da soberania que gerencia a morte. Esse questionamento surge do princípio de quando Achille Mbembe (2013) fala que:
De todos os humanos, o negro é o único cuja carne foi convertida em mercadoria. Aliás, negro e raça têm sido sinônimos no imaginário das sociedades europeias. Desde o século XVIII, constituíram ambos o subsolo inconfesso e muitas vezes negado a partir do qual se difundiu o projeto moderno de conhecimento – e também de governo. Será possível que a relegação da Europa à categoria de mera província do mundo acarretará a extinção do racismo, com a dissolução de um de seus mais cruciais significantes, o negro? Ou, pelo contrário, uma vez desmantelada essa figura histórica, todos nós nos tornaremos os negros do novo racismo fabricado em escala global pelas políticas neoliberais e securitárias, pelas novas guerras de ocupação e predação e pelas práticas de zoneamento?(MBEMBE, 2013 p. 19)
Nesse contexto, o processo de se reconhecer como preto, está associado a um processo que não se limita em só se autodeclarar preto, mais sim de se reconhecer como preto, nesse sentido, o processo não acontece do dia para a noite. Até, porque o racismo sempre usou estratégias para sermos criados como branco, e não com uma conscientização de negritude. No intuito, de construir tipologias de embranquecimento como: moreno djambé, moreno, para pode classificar um sujeito preto.
Com isso, essa forma de mascarar o racismo estrutural, propaga a negação da identidade do próprio ser preto que não tem esse reconhecimento. Desenvolvido para ser
aceito em alguns espaços sociais, máscara social que reflete em sua relação de querer se aproximar do homem branco e manter uma superioridade relacionada aos homens pretos com o propósito de manter uma aprovação social.
Segundo Fanon (2008):
O negro tem duas dimensões, uma com seu semelhante e outra com o branco. Um negro comporta-se diferentemente com o branco e com outro negro. Não há dúvida de que esta cissiparidade é consequência direta da aventura colonial. E ninguém pensa em contestar que fizeram do negro o meio do caminho no desenvolvimento do macaco até o homem. São evidências objetivas que dão conta da realidade. (FANON, 2008, p. 33)
Assim sendo, o corpo de um sujeito branco é universal, ou seja, é um corpo detentor do conhecimento e da razão. O corpo do sujeito preto sempre foi associado a uma particularidade de inferioridade. Nessa perspectiva, as narrativas de quem fala, e de quem escreve, são pontos de vistas diferentes. Assim, se construiu uma cultura estrutural, eurocêntrica que fortalece uma cultura colonial branca, e desvaloriza outra cultura associada, nesse caso, a cultura preta, tida como inferior. E assim, construiu uma supremacia sobre o corpo branco, pois, tudo que está associado ao mesmo é detentor do conhecimento.
Com relação ao meu ingresso na pesquisa, aconteceu quando surgiu a possibilidade de fazer parte do Laboratório de Performance e Teatro Performativo - LABPerformance - da UFRN, coordenado pela professora Naira Ciotti. Minha atuação no laboratório ocorreu no período de 2018 a 2020 como participante do grupo, e no segundo momento como bolsista de iniciação científica através do Programa de Conselho Nacional Científico - PIBITI-CNPq no Laboratório de Performance. Foram fundamentais ambas experiências teórica e prática, porque foi aonde começou a ficar claro o que eu queria falar no meu trabalho de finalização de curso e como eu poderia começar a desenvolvê-lo. Por isso, comecei a ler alguns artigos que abordam sobre a performance preta, bem como os livros dos professores que tratam desse assunto nesse campo da arte, e performance preta: Ayrson Heráclito, Zeca Ligiéro, Carlos Sakamoto; e por fim, desenvolvi uma pesquisa de campo sobre os trabalhadores que plantam e cortam cana-de-açúcar, mais conhecidos como Boias-frias, atuantes na cidade de Ceará-Mirim.
Esse contato também ocorreu através da disciplina de Estudo da Performance I no ano de 2019, ministrada pela docente Naira Ciotti. Foi nessa disciplina que eu pude vivenciar e apreciar o processo metodológico da docente em sala de aula, no momento que nos foi proposto trazer uma fruta, flor, e até mesmo objetos que tem um significado especial para o mesmo. Assim sendo, quando chegamos na aula seguinte, foi proposto que os alunos deitassem no chão, em seguida, o objeto que cada aluno havia levado para a aula foi posto em algumas partes específicas do corpo, como: cabeça, barriga, pé, entre outros; e a partir disso ser ressignificado ações.
A partir dessa vivência, comecei a desenvolver a minha vídeo-performance intitulada fuligem desenvolvendo uma pesquisa com várias performances refletindo sobre a representatividade preta. O processo artístico desenvolvendo uma pesquisa biográfica e documental, sobre o trabalho escravo na modernidade dos Bóias-frias, na plantação de cana-de-açúcar de Ceará-Mirim/RN.
Nesse contexto, quem desenvolve uma pesquisa nesse campo é a escritora e psicóloga, Grada Kilomba³ em seu livro:Memórias da Plantação (Cobogó, 2019), publicado
originalmente em 2008, é uma compilação de episódios do racismo cotidiano, baseado em
conversas com mulheres da diáspora africana na plantação de cana-de-açúcar.
E foi a partir dessa experiência que comecei a me relacionar constantemente com a materialidade da cana-de-açúcar e refletir sobre alguns questionamentos feitos pela professora: Naira Ciotti, em sala de aula, sendo o seguinte questionamento qual é a relação que você tem com a cana-de-açúcar? E, quais são suas memórias com elas?
Diante desses pontos levantados me fez refletir sobre algumas memórias que estava na infância onde meu pai trazia cana-de-açúcar para casa quando vinha do canavial da Usina São Francisco em Ceará-Mirim/RN onde trabalhava, e a partir dessas lembranças comecei a desenvolver uma entrevista documental, pesquisa de campo, e a vivenciar o dia-a-dia dos Bóias-Fria na contemporaneidade.
____________________________________________
³Grada Kilomba (Lisboa, 1968) é escritora, teórica, psicóloga e artista interdisciplinar. É descendente de
angolanos, portugueses e são-tomenses, e hoje vive em Berlim. Trabalha linguagens híbridas que unem texto,
performance, encenação, instalação, coreografia e vídeo. Formou-se em psicologia clínica e psicanálise, em
Lisboa, e trabalhou com sobreviventes das guerras de Angola e Moçambique. Em 2008, recebeu uma bolsa para
Efetivamente esse processo de pesquisa possibilitou me reconectar com minhas vivências, com meu pai na infância. Possibilitando a partir dessas memórias ser estimuladas, potencializadas artisticamente em meu processo artístico. Como também, ao longo da escrita da pesquisa fui chegando à conclusão de que um dos sentidos das performances preta(o) no meu ponto de vista, é abordar as questões culturais preta, sociais, de uma forma crítica com outras narrativas. E, principalmente com representatividade preta.
No ato de escrever no papel os modos de pensar minha pesquisa, também escrevo quem eu sou. Me coloco, a disposição de superar um obstáculo no meu caminho no ato de escrever. Nesse sentido, me permito a escrever, reescrever, com propósito de praticar cada vez mais. E assim, tornar essa prática de uma forma mais fluida, como também, sinto um desejo de querer ser capaz de desvendar-me enquanto estudante de arte, ao mesmo tempo, atualizar-me a cada nova leitura para construir repertório. Compreendo a arte como campo político, interdisciplinar e diversificado, ao desarticular lógicas formais.
Dando continuidade a disciplina de Estudos da Performance. Diante da proposta, solicitada em levar algum objeto, materialidade, optei por levar duas canas-de-açúcar, e cada aluno começou a desenvolver as aulas em forma de experimentos com o objeto que trouxe. No final, da aula começamos a conversar sobre como foi o experimento com esses objetos, no andamento da conversa foi direcionado uma pergunta para mim, pelo motivo da minha escolha em levar duas canas-de-açúcar para a aula. Ao dialogar com a turma comentei que meu pai tinha trabalhado como boia-fria durante muitos anos, e de uma certa forma a cana-de-açúcar fazia parte da minha memória de infância. Por isso, tinha optado por trazer para aula. A partir, disso, comecei a iniciar um trabalho documental, chamando para participar o ex boia-fria, Francisco Virginio dos Santos, do qual contribuiu narrando um pouco da sua experiência como trabalhador rural. O meu propósito em realizar essa entrevista com o meu pai, era escutar a vivência que ele teve como Bóia - Fria para usar como estímulos no meu processo de criação. Para além disso, vivenciar na prática o dia -dia de uma cortador de cana- de- açúcar foi nesse momento que comecei desenvolver a minha pesquisa de campo na Usina São Francisco/ RN. E, começar fazer análise sobre a situação que meu pai viveu décadas atrás, com o que eu estava vendo,presenciando, praticando no dia-dia na Usina São Francisco /RN com os trabalhadores Bóia-Fria na contemporaneidade. O que eu pude
perceber durante um 1 ano de vivência, e pesquisa nesse que esses trabalhadores ainda vive em situações análogas à escravidão.
Figura 1 - Francisco Virginio dos Santos, ex Bóia-Fria.
Fonte: Robvani Gomes
Foto tirada na casa do entrevistado, 2019.
O sr. Francisco Virginio dos Santos tem 78 anos de Idade, nasceu em Coqueiros, comunidade quilombola, morou alguns anos nessa distrito de Ceará-Mirim/ RN foi onde teve seus primeiros filhos com sua mulher Maria do Socorro Azevedo dos Santos, e se mudou para vive na cidade de Ceará-Mirim/RN depois que seus filhos nasceram anos depois, a procura de mais oportunidade de sobrevivência . Trabalhou durante 50 anos como boia-fria no Canavial da Usina São Francisco. Dos 15 anos, ao 65 anos de idade. Diante do seu relato não recebia utensílio de proteção como: bota; e também não recebia utensílios de trabalho, como o facão. Todo o material de trabalho tinha que ser comprado no armazém da Usina São Francisco/Ceará-Mirim, onde na maioria das vezes era descontado no salário.
Não tinha salário certo, recebemos por produção, ou seja, pela quantidade de canas que a conseguia cortar durante o dia. Seu Francisco, nos relata que muitas vezes não paravam para almoçar, só para não perder tempo e conseguir cortar mais cana-de-açúcar. Nos relata também que não recebiam almoço, pois trabalhavam mais de 8 horas por dia, e por isso, precisavam levar o almoço de manhã bem cedo, assim que saiam, e só paravam para almoçar às 16 horas. O ruim, segundo ele, era que por causa do horário, a comida já estava fria, mesmo assim, eles comiam frio, e é por esse motivo que as pessoas que trabalham na plantação e colheita de cana-de-açúcar é chamada de boia-fria.
Diante das respostas que foram prontamente respondidas nessa pequena entrevista, percebi que eu necessitava começar a ter um contato direto com os boias-frias que estavam na ativa, para conhecer na prática qual era a realidade atual desses trabalhadores. Com isso, comecei a frequentar o canavial da Usina São Francisco, no primeiro momento ao ir no canavial estava acontecendo uma queimada⁴, por esse motivo, tive que passar por algumas partes do canavial e fiquei observando a fumaça que ia se expandindo em todo espaço, e ganhando mais proporção em direção ao centro da cidade de Ceará-Mirim RN, minha cidade natal.
Na semana seguinte, me desloquei ao canavial e tive a oportunidade de ver alguns trabalhadores plantando a muda da cana-de-açúcar. O processo ocorria da seguinte maneira: eles utilizavam 1 km de terra com uma muda de cana, para fazer o plantio. Após observar esse processo, resolvi caminhar adentrando o canavial, essa iniciativa me permitiu ver que havia muito pó preto no local onde ocorreu a queimada. Ao observar isso resolvi tirar minha dúvida com um trabalhador perguntando a ele o que seria aquilo. Prontamente o homem me mostrou que aquilo eram partículas, resultante das farpas que tem na cana-de-açúcar e um dos motivos que os faz eles usarem camisas longas, porque precisam se proteger delas. O homem ainda me explicou que ao ser queimada a cana se transforma em fuligem. Tendo conhecimento dessa informação fiquei me perguntando qual nome eu poderia chamar o meu trabalho artístico e assim, intitulei com o nome fuligem.
__________________________
⁴Queimada é uma prática primitiva da agricultura, destinada principalmente à limpeza do terreno para o cultivo de plantações ou formação de pastos, com uso do fogo de forma controlada que, às vezes, pode descontrolar-se e causar incêndios em florestas, matas e terrenos grandes. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Queimada. Segundo os dados de João Francisco Gonçalves Antunes (PqC Embrapa Informática Agropecuária) um dos pontos mais críticos sobre a queimada da palha são as emissões de gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente o gás carbônico (CO2), como também o monóxido de carbono (CO), o óxido nitroso (N2O), o metano (CH4) e a formação do ozônio (O3), além da poluição do ar atmosférico pela fumaça e fuligem.
Dando andamento a visita, encontrei outros trabalhadores cortando a cana-de-açúcar e perguntei a eles qual era o período de plantar, colher, produzir cana e rapadura, eles me informaram que entre a plantação e a produção de cachaça levaria 1 ano, a 1 ano e meio, esse período varia muito sobre as condições climáticas de cada estado. Com a chegada do fiscal no local, não pude dar continuidade a visita. Ao ser questionado pelo fiscal, o que estava fazendo lá, expliquei ao mesmo que era estudante e estava fazendo uma pesquisa. Ele me informou que iria falar com o chefe dele para saber se ele autorizava ou não. Por fim, ao conversar com o seu chefe, ele me informou que as entrevistas não tinham sido autorizadas pelo seu superior durante o trabalho, nem mesmo fazer registros fotográficos e vídeos dos funcionários. No entanto, eu poderia dar continuidade a pesquisa respeitando as instruções que foram citadas.
E, assim fui vivenciando o trabalho dos Boia-Fria frequentando semanalmente o canavial. No primeiro momento, comecei a observar o dia-dia deles e a escrever e fazer desenhos no meu caderno de bordo, sobre o que era observado. Nessa primeira observação, analisei algumas características dos trabalhadores, assim como, a rotina de trabalho deles. A atividade de observação me permitiu constatar que na maioria das vezes, os trabalhadores não tinham nem uma hora de descanso para almoçar e descansar, levando em consideração o trabalho que eles realizam. O fato de isso não ocorrer deve-se pelo motivo de eles receberem seus salários por produção, sendo assim, quanto mais tempo eles se dedicarem cortando cana-de-açúcar, consequentemente poderão receber uma quantidade maior do seu salário. Dessa maneira, pude ver a velocidade com que eles cortavam a cana-de-açúcar com o facão.
Paralelamente a essas visitas ao canavial, eu levava para sala de aula, além, da cana-de-açúcar, registros dessas atividades por meio de desenhos e da escrita, com o intuito de ressignificá-los em movimentos corporais. Desse modo, no fim de cada aula, escrevia no caderno quais as sensações que pulsava no meu corpo, sendo elas: angústia, cansaço e raiva. Fui percebendo, ao longo das aulas, que eu deveria sintetizar as ações que eu estava desenvolvendo, com o propósito de potencializar a performance.
Após 16 dias de visita de campo, fez uma proposta ao chefe já que eu não posso tirar foto dos trabalhadores gostaria de vivenciar o dia-a-dia dos trabalhadores, ou seja, corta a cana, inserir no caminhão entre outras atividades solicitadas, porém todas as minhas ações tinham que ser registradas, recebi um posicionamento favorável do chefe, no entanto eu não poderia passar a quantidade de horas que os trabalhadores passavam. Com o posicionamento
positivo, informei que um colega de nome Alessandro Silva, iria registrar essas minhas ações de trabalho tirando fotografias. Nesse contexto, todas as fotos performance foram realizadas naquele espaço do canavial da Usina São Francisco, no momento que eu estava desenvolvendo as atividades dos trabalhadores.
E assim comecei a construir o meu processo com os desenhos, e anotações, logo em seguida com possibilidade de desenvolver as tarefas mais um elemento foi inserido nesse processo de construção, nesse caso, a fotografia. Depois de dois meses no canavial falei com o chefe se tinha a possibilidade de gravar, o posicionamento foi favorável, mas, reafirmou que eu poderia gravar porém, só poderia ser a minha imagem, e não a dos trabalhadores num prazo de três horas de gravação. E assim, foi feito, realizamos a gravação pegandos algumas imagens do canavial, mas também o percurso que foi feito, da chegada do caminhão ao canavial, e todo processo de plantação, corte, inserção no caminhão, e queimada da cana-de-açúcar.
Diante desses fragmento de imagem, panorâmica do espaço, optei em fazer uma gravação de outros cenários, por exemplo, comecei a fazer um roteiro com cada parte da cidade que de certa forma tinha uma representação com a cana-de-açúcar na cidade de Ceará-Mirim/RN. Fiz gravação em três pontos em específico realizando fotos performance, e vídeo performance. O primeiro foi na praça que está localizada em uma das entradas da cidade, conhecida como: praça Oiteiro Neto; nesta praça tem uma imagem de um boia-fria, porém, não tem como saber que foi ele, porque não tem nenhuma identificação de quem seja esse boia-fria homenageado.
No segundo, optei em fazer uma gravação da trajetória do caminhão de cana-de-açúcar que geralmente fica estacionado próximo a área de lazer da cidade, e deste ponto, desce para o canavial para pegar cana-de-açúcar para serem triturados e vendidos para outras usinas próximas da região, para ser confeccionada: rapadura, cachaça, melaço. No terceiro momento optei fazer uma gravação no Mercado do Café, no centro da cidade. Nesse espaço eram vendidos homens e mulheres pretas que eram escravizados. Neste local, em específico caminhei de joelho da Prefeitura da Cidade que fica do lado do mercado do Café, até, a frente do mercado.
Nesse sentido, após todas gravações realizadas optei fazer uma compilação das ações de performance e unir todas essas ações. No momento da edição optei que as imagens fossem
transmitidas paralelamente, ou seja, tanto as imagens panorâmicas como as ações da performance iam sendo passadas simultaneamente.
Todo esse processo de construção foi sendo realizado paralelamente com disciplinas que eu estava pagando naquele semestre, iniciando com a disciplina de estudos da performance I, e finalizado na disciplina de Encenação I em 2019. Ambas disciplinas foram ministradas pela minha orientadora a Profa. Dra. Naira Ciotti.
CONTEXTUALIZAÇÃO DO CENÁRIO:
A cidade de Ceará- Mirim nasceu como Boca da Mata, povoado em torno de mata virgem, no qual seus primeiros colonos sobreviviam da plantação de subsistência e dos roçados de algodão. Lá formou-se um pequeno núcleo comercial que deu origem às primeiras edificações. No entanto, relatos de pessoas mais idosas nos fazem representar a história de que tudo tenha começado naquele ponto. O solo fértil e bem adaptado para a plantação de cana-de-açúcar possibilitou a instalação de várias engenhocas e banguês ao longo do vale.
O surgimento dos pequenos engenhos contribuiu para o desenvolvimento socioeconômico daquele pequeno povoado, a partir dos senhores de engenho que se instalaram no vale. Enquanto lá estavam, iniciaram uma luta para trazer a estrada de ferro que era uma maneira de escoar suas produções e, também, um meio de diminuir a distância da província que era percorrida em lombo de animal, troles e carros de boi.
Segundo Manoel Ferreira o primeiro engenho que se tem notícia foi instalado próximo à Boca da Mata, Engenho Carnaubal e seu fundador foi um português, vindo de São José de Mipibu, chamado Antônio Bento Viana. Uma filha dele casou-se com o futuro Barão de Mipibu e tiveram um filho, Miguel Ribeiro Dantas, que se casou com uma irmã de seu pai, dando origem à família dos Meiras de Ceará-Mirim, fundadores dos Engenhos Diamante e Jericó. Outra filha do português casou-se com José Ribeiro Dantas Sobrinho, o Zumba do Timbó que era conhecida como “O Major”.
A fabricação de açúcar se iniciou no Estado do Rio Grande do Norte nos engenhos “Ferreiro Torto”, “Cunhaú” e um terceiro menos conhecido, mas de fato existente no município de São Gonçalo do Amarante, o chamado “Putigi”. Em 1843, o português Antônio Bento Viana inaugurou a primeira moeda de ferro-horizontal no engenho Carnaubal. Em
seguida, em 1845, Manoel Raposo da Câmara inaugurou a segunda moeda ferro-horizontal, no engenho Porão.
Segundo Ferreira Nobre, em 1861, o município tinha 51 engenhos, e de 1862 a 1863 estes eram movidos à vapor, sendo um do tipo moderno importado e montado pela firma Pacheco e Mendes. Em 1914, Ceará-Mirim apresentava 56 engenhos. Em 1866, a produção de açúcar de Ceará-Mirim atingiu a safra de 210.000 sacas de 82 quilos.
No mesmo, a relação com a minha cidade natal, onde eu passei a infância e boa parte da vida adulta até hoje. A relação de sobrevivência está igual a antes, desde o período colonial de subalternidade da maioria dos cidadãos, que limita seu sustento à prefeitura da cidade.
Nesse sentido, foi construído por alguns intelectuais da cidade um discurso romantizado quando é falado dos pretos que foram escravizados no período colonial. Esses homens foram os protagonistas da riqueza dos barões e baronesas, sendo mão-de-obra da plantação de cana-de-açúcar. Essa cidade permanece com a mesma perspectiva sistemática dos colonizadores do período colonial.
A cidade do colonizador [...] é um lugar de má fama, povoados por homens de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde eu como; morrem lá não importa onde eu como. É um mundo sem espaço; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizador é uma cidade de fome, fome de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizador é uma vila agachada, uma cidade ajoelhada. (MBEMBE, 2018, p. 41).
Compreendo, a partir desta reflexão, o quanto o município que foi fundado por aristocratas e construído pela mão-de-obra escrava no período colonial, ainda permaneça na contemporaneidade com a mesma perspectiva da escravidão, contudo agora, na modernidade. Subalterna, a população não tem acesso a um trabalho digno, por não serem pessoas que são privilegiadas pelo seu nome, sobrenome e trocas de favores políticos. Nestes municípios, a população está limitada a cargos públicos, pois não tem outra possibilidade de sustento e o cidadão não tem acesso à cultura e a marginalidade toma de conta, restaurando uma insegurança pública.
Todas as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores são na maior parte, trabalho físico. Com isto, perde-se muita água e sais minerais diante de um processo de remuneração de mão-de-obra escrava, ou seja, que só acontece quando terminam todo o trabalho. A
criação do figurino é composta de botas com biqueira de ferro, calças de brim, perneiras de couro até o joelho contendo três barras de ferro frontais, camisa de manga comprida, chapéu, lenço no rosto e pescoço, óculos e luvas feitas de raspa de couro. Ademais de toda essa vestimenta, os equipamentos de trabalho (um facão ou podão de metal com lâmina de meio metro de comprimento e uma lima) e a realização do trabalho sob o sol levam a um elevado dispêndio de energia, o que por si só são elementos deletérios à saúde.
Neste sentido, parto do contexto que motivou a criação de boa parte do meu trabalho artístico como performer, no qual a minha pesquisa está centrada na produção da cana-de-açúcar no estado do Rio Grande Norte, especificamente na cidade de Ceará-Mirim/RN, município da grande Natal/RN, a minha cidade natal, cujo processo de construção do município partiu da mão-de-obra escrava nos canaviais e na confecção de açúcar, da cachaça, da rapadura e do mel.
Todas essas atividades, com estas vestimentas, remuneradas por produção, levam os trabalhadores a suar abundantemente e, com isto, desidratarem facilmente, ocorrendo câimbras frequentemente. Esse processo começa, em geral, pelas mãos e pés, depois avançam pelas pernas e chegam ao tórax quando são harmonizadas. Mas deve-se explicitar que esses trabalhadores desenvolvem uma situação desvalorizada e desumanizada, vivendo na situação de escravidão da contemporaneidade no qual esse corpo destinado ao trabalho de morte reflete o processo anterior.
Minha preocupação é com aquelas formas de soberania cujo projeto central não é a luta pela autonomia, mas a instrumentalização generalizada da existência humana e a distribuição de matérias de corpos humanos e populações. (MBEMBE, 2018, p. 10).
Compreendo com essa reflexão que a falta de oportunidade é uma estratégia da soberania, ou seja, da aristocracia, cujo objeto de riqueza é a mão-de-obra escrava, onde o sujeito é dominado pelo soberano que determina de que forma e quantas horas o trabalhador exerce suas atividades. Sendo assim, o sujeito vira o escravo na modernidade se submetendo ao trabalho de morte, fato idêntico ao processo de escravidão na colonização, onde pessoas foram escravizadas mental e fisicamente. Na contemporaneidade vivemos em uma utopia, da qual o pobre precisa morrer de trabalhar para ter o pão de cada dia, cujos direitos trabalhistas são arrancados a cada dia.
RECORTE RACIAL:
A política de morte dos corpos afro-diaspórico se inicia com o trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar no período colonial e chega à cena contemporânea cujo projeto central do estado é a destruição desse corpo pretos. Que prevalece em sua maioria em situação de trabalho escravo na contemporaneidade na plantação de cana-de-açúcar. com propósito de gerar cada vez mais riquezas, para uma aristocracia elitista. Essa hegemonia não se limita a uma região, mas à intensidade de interesse do controle do corpo e da mente, por exemplo, como os empresários que têm o controle de contratar um trabalhador e demiti-lo na hora que quiserem, pois são eles que constituem normas de quem sai e quem fica. Diante desse contexto, a classe trabalhadora fica submissa a trabalhos que são explorados fisicamente e psicologicamente diante de várias circunstâncias de necessidades de sobrevivência no mundo capitalista em que estamos.
Segundo os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o perfil de pessoas que trabalhavam processo de escravidão no período colonial reflete até hoje na contemporaneidade ou seja preto (as). Dos resultados que chegam ao conhecimento da população a maioria deles por meio de denúncias diretas de fugitivos a CPT elabora uma classificação em duas categorias: trabalho escravo e conflitos trabalhistas. Esta última se subdivide em superexploração e desrespeito trabalhista. Como critérios básicos para a identificação do trabalho escravo, a CPT reafirma que é preciso que, na denúncia, haja elementos que caracterizem o cerceamento da liberdade, seja através de mecanismos de endividamento, seja pelo uso da força (proprietários ou funcionários armados, ocorrência de assassinatos, espancamentos e práticas de intimidação), ou mesmo pela situação de isolamento que impede a saída dos trabalhadores.
Esse processo de superexploração são casos em que os trabalhadores são submetidos a condições extremamente precárias de trabalho e remuneração, com infrações graves da legislação trabalhista, mas nos quais não se verifica a privação da liberdade. Já os casos registrados como desrespeito trabalhista, indicam também o não cumprimento da legislação trabalhista vigente, mas que não submetem o trabalhador a condições degradantes. Uma das ações de combate ao trabalho escravo que já vem sendo posta em prática há alguns anos é o resgate ou a libertação de trabalhadores retidos nas áreas de serviço da roça, do plantio de cana-de-açúcar, das pastagens e ainda nas de desmatamento, na feitura de cercas e na
pulverização de herbicidas. Estas atividades ocorrem principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, que continuam liderando o número de casos de trabalho escravo.
Algumas usinas afins em tratar-se apenas de soro caseiro, uma mistura de sal e açúcar em água. Algumas usinas dizem que além de sal e açúcar, o soro contém potássio e outros sais minerais, além de substâncias que dão cor e sabor, tornando o soro uma espécie de refresco. Outras usinas admitem que os soros têm componentes energéticos. Porém, até esse momento as autoridades sanitárias não sabem a composição de todos os soros e suplementos energéticos distribuídas pelas usinas aos trabalhadores, nem sabem quais os efeitos que esses podem causar a curto, a médio e a longo prazo sobre a saúde de trabalhadores submetidos a forte esforço físico e com carência nutricional e hídrica.
Segundo o Instituto de Economia Agrária (IEA) em 2005 o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar é considerado uma das alternativas de energia renovável com melhor custo/efetividade para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Existem preocupações relacionadas com o atendimento das demandas internas e externas de biocombustíveis, que apontam na direção do avanço da monocultura de cana-de-açúcar e de seus respectivos impactos sociais e ambientais no território nacional. No mesmo, tal fato requer atenção especial de representantes do governo brasileiro, do setor privado e da população em geral.
Esse contexto de avanço da monocultura de cana-de-açúcar e de seus respectivos impactos sociais e ambientais no Brasil é uma importante oportunidade para o envolvimento de diversos Organização Internacional, Brasileira que tem o objetivo de combater o desmatamento nacionais e internacionais, no processo de sustentabilidade. É notório que o uso de biocombustíveis em escala global poderá representar contribuição aos esforços internacionais para a redução das emissões de gases de efeito estufa, por ser uma alternativa renovável em relação ao uso de combustíveis fósseis. No entanto, toda eficácia que etanol pode proporcionar não reflete na qualidade de trabalho dos bóias-frias desse país, onde vivem com uma condição desumana de trabalho. O que foi relatado pelos trabalhadores às instituições como a CPI, demonstra o trabalho desumano que essas pessoas vivem no seu dia-dia de trabalho. E, a partir, dessa vivência e recorte racial, histórico, comecei a desenvolver as últimas ações que culminou na finalização de fragmentos de foto performance, vídeo performance de ações performática intitulada: Fuligem.
FRAGMENTOS: PERFORMANCES PRETAS NA CONTEMPORANEIDADE
Figura 2 - Performance Fuligem: Bagaço
FULIGEM
Com sua palha, afiada.
que me corta como uma navalha, entre duas partes.
Fuligem que me cobre, em
um devaneio, com uma fumaça, cinza com partículas pretas.
É nesse espaço que eu passo o dia todo. Eu nem mesmo reconheço mais.
É perceber, que o dia já passou, com isso preciso correr para pegar o ônibus de volta para casa.
E ao chegar, na rua da minha casa, já não reconheço o
espaço que tanto derrubei, várias toneladas de cana para construir. Não lembro mais os nomes dos meus filhos.
E perceber que vida de cortar cana, não estava só tirando
minha saúde, mas sim estava tirando o que há de mais precioso em minha vida:
A relação de afeto com os meus filhos.
E ao deitar na minha cama já percebo que acordei. É preciso pegar a minha Bóia, e seguir para o canavial entre doze a quinze toneladas durante o dia.
No fim da tarde, é momento que eu vou pegar a bóia. Que não é mais bóia quente, é bóia fria.
boia-fria quer Bóia quente.
Quero sonhar, mas não sinto entusiasmo para isso.
Quero ser mais do que um espírito morto, onde as minhas ações estão limitadas a cortar e cortar mais uma tonelada de cana.
Quero ser mais que um bagaço que está sendo destruído aos poucos de uma forma degradante,
onde os pés da cana-de-açúcar viram partículas de um bagaço.
E os Boias Frias viram um bagaço onde cada vértebra de sua coluna não se sustenta mais. Se degradando aos poucos.
Onde a fuligem me faz, em inalar fumaça oral e nasal, provocando um câncer futuro. É nesse solo quente e úmido que deixo cada
dia um pouco de mim, nesse processo degradante. Onde estou sendo triturado como uma cana-de-açúcar que é triturada na moenda do engenho.
(João Azevedo, Natal/RN, Janeiro 2019)
Figura 3 - Performance Fuligem: Oiteiro
O ato de estar na frente de uma estátua de um ex Bóia-Fria que trabalhou anos, no canavial da Usina São Francisco, e perceber que nem mesmo, o seu nome está gravado na lápide, foi transformar todas essas energias nesse espaço como uma forma estética de potencializar uma situação que milhares de Bóias-Frias vivem, ou seja, em situação análoga de trabalho escravo na modernidade. O autor Leonardo Moretti Sakamoto em sua pesquisa que resultou no estudo “Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI” (Organização Internacional do Trabalho, 2007), recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos 2003, na categoria Revista, pela reportagem Homens-tatu do Sertão⁵, publicada na Problemas Brasileiros, edição de maio de 2003; e o Prêmio combate ao Trabalho Escravo 2006, na categoria Personalidade, concedida por cinco entidades envolvidas nessa luta: a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Nesse sentido, Sakamoto diz que:
Como o Estado brasileiro já não admite a possibilidade de uma pessoa ser “dona” de outra, também não reconhece o trabalho escravo com relação legítima ou legal. Por isso, quando nosso Código Penal foi aprovado, em 1940, esse crime ficou conhecido como “redução à condição análoga à escravo”. (SAKAMOTO, 2020, p. 9)
Do ponto de vista técnico e jurídico, essa é a nomenclatura para definir tal forma de exploração. Na prática, é o mesmo que trabalho escravo contemporâneo. Desta forma, o artigo 149 do Código Penal, quatro elementos definem trabalho escravo contemporâneo, de maneira combinada ou isolada: Cerceamento de liberdade; Servidão por dívida; Condições degradantes de trabalho e Jornada Exaustiva.
Figura 4 - Performance Fuligem: Cortar
Dando continuidade, à segunda ação desenvolvida é o corte da cana-de-açúcar, até a exaustão. Diante desta vivência no canavial e na aula prática, eu me permiti desenvolver vários cortes, compulsivamente com o facão até chegar ao estado de desgaste corporal. Essa ressignificação de movimentos surgiu através da convivência com os Bóias-Frias que tinham que cortar em média de 12 a 15 toneladas diárias. Muitas vezes trabalhando uma quantidade de carga horária que ultrapassa o limite físico e psicológico do corpo, pelo favorecimento de um enriquecimento da aristocracia agrícola.
Como descreve Achille Mambembe:
O corpo em si não tem poder nem valor. O poder e o valor do corpo resultam de um processo de abstração com base no desejo de eternidade. Nesse sentido, o mártir, tendo estabelecido um momento de supremacia em que o sujeito triunfa sobre a sua própria mortalidade, pode se perceber como tendo trabalhado sob signo do futuro. Em outras palavras: na morte, o futuro é colapsado no presente. (MBEMBE 2018, p. 65).
Diante dessa reflexão, o corpo dos trabalhadores que trabalha em situação de trabalho escravo na modernidade, são corpos que continuam sendo escravizados de outras maneiras, seja na falta de qualidade de trabalho, no excesso de trabalho físico, provocando várias lesões corporais e degenerativas do corpo. A supremacia do mercado agrícola não está preocupada com as necessidades desses corpos, mas sim com a eternidade de sua própria vida, no propósito de escravizar cada vez mais.
Figura 5 - Performance Fuligem: Semear
Durante a quarta ação desenvolvida reflito sobre esse processo de ciclos de plantação de mudas de cana-de-açúcar e de que forma são desenvolvidas. Ao vivenciar esse processo de plantação pude perceber o quanto é agressivo para a saúde desses trabalhadores. No entanto, como a política desenvolve estratégias para beneficiar aos aristocratas e não aos trabalhadores para poder sobreviver ao risco.
Nesse sentido, compreendo que esses corpos que são escravizados nos canaviais são de trabalhadores sem perspectiva de vida, ou seja, corpos mortos em sua existência material, à soberania que determina o poder de seu corpo e o destrói gradativamente no seu trabalho cotidiano de produção, e na queimada de açúcar e na plantação. Assim sendo, as oligarquias articula crônicas narrativas de desvalorização da massa trabalhadora: perda de direitos trabalhistas, aumento da carga horária de trabalho, pagamento de salário por produção, aposentadoria só aos 80 anos de idade, e assim, tornando a maioria da população escravizadas na era moderna, como também, o país se torna cada vez mais subalterno.
Figura 6 - Performance Fuligem: Lâmina
Fonte: Alessandro Silva (2019) - Mercado do Café/ Ceará-Mirim/RN - (onde era vendido às pessoas que eram escravizada no período colonial)
No ato de desenvolver golpes de facão nas minhas costas repetidas vezes, são, desenvolvidas sensações que me leve acontecimentos de precariedade dos Bóias-Frias em seu ambiente de trabalho, sem condições de trabalho e não tendo matérias de segurança, tendo a necessidade de comprar com o seu próprio dinheiro seu material de trabalho. O almoço, só depois de mais de 10 horas de “labuta”, e muitas vezes sendo humilhado em seus ambientes de trabalho pelos seus superiores.
Neste contexto, esses fatos devem ser ressignificados de uma forma crítica, e, é partir daí que começo a desenvolver essa crítica de uma forma poética, através de ações da performance. O meu objetivo como performer é dar visibilidade a situações de exploração de mão-de-obra escrava, e de trabalho escravo na contemporaneidade, que muitas vezes achamos que essa situação ficou no período colonial onde homens e mulheres pretos (as) foram escravizados (as) há séculos. No entanto, percebemos que essa situação está presente de uma forma, muitas vezes, maquiada, com intuito, de classificar o que seria trabalho escravo na contemporaneidade apenas a partir de código penal, por exemplo.
Os sentidos da performatividades pretas desde o período colonial foi desvalorizado por termos como “macumba “que ainda são utilizados de maneira pejorativa para descrever o candomblé e a umbanda, por algumas pessoas preconceituosa e racista., como também uma ideologia expressa em preconceitos definidos sobre raça e gênero, além de parcialidade no tratamento das histórias desses povos que se mantiveram sob a dominação colonial europeia durante tantos séculos de opressão (LIGIÉRO, 2019, p. 21). Porém, todas essas questões de racismo e sobre tradicionais religiões de origem africana, afro- brasileira, gênero, raça, servem constantemente para que esses povos possam resistir e se fortalecer cada vez mais.
O processo de sincretismo religioso é um dos exemplos que podemos refletir sobre: por exemplo; quando os Afro- diaspórico não podiam cultuar a sua divindade e assim, tinha que sempre associar o seu orixá aos santos com a igreja católica para ser aceito pela branquitude. Porém, todas estratégicas de pagamentos não foram eficaz para apagar essas performances resistentes até hoje na contemporaneidade por exemplo seja o Funk, ou o samba, que surgiram nas favelas do Rio de Janeiros por artistas pretos. Seja, o Blues que foi realizado pelos nortes-afro americana, e foi embranquecido pela indústria da música.
Nesse contexto, as performances pretas na maioria das vezes são camufladas em alguns ambientes institucionais, e quando são utilizados na maioria das vezes, não sabemos
quais são as referências dessa performance. Por exemplo, tive a possibilidade ter aulas prática corporal onde foram desenvolvidas em sua metodologia o Maracatu, Cavalo Marinho. Porém, em nem momento foi falado sobre a origem dessa performance preta, ou seja, quem são esses mestres que não tem sua devida visibilidade sobre seu trabalho? Como descreve o autor, Zeca Ligiéro:
Por tudo isso é que, no Brasil, a sociedade dominante, quando precisar mostrar sua tipicidade, sua singularidade, sua identidade enfim, tem de recorrer a performance negra. Pois o que são traje de baiana, o pandeiro, a feijoada, o rebolado, a bola “redondinha “etc. Se, não símbolos concretos dessa performance. (LIGIÉRO, 2011, p. 11)
Nesse sentido, o processo de desqualificação construído pela branquitude de elites dirigentes, estruturam e puseram em vigência procedimentos que rotulam ou veladamente sugerem como incivilizadas, retrógradas, arcaicas e até nocivas, as práticas culturais dos afrodescendentes e até mesmo sua presença na sociedade. Assim, sendo a música preta historicamente reconhecida como “lasciva”, quando não “monocórdica”, as religiosidades como um conjunto de “crendices e superstições”, a medicina tradicional como anti-higiênica, “inócua” e etc.
Durante esse processo de pesquisa sobre os sentidos das performances pretas tive a possibilidade de participar de uma vivência na V Edição do Evento Reperformar o Afeto⁶, em 2018 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte( UFRN). Nesta edição quem estava como artista residente era o professor Heráclito, que trouxe a proposta de abordar o corpo cultural afro-brasileiro. Houve também um processo de compartilhamento das poética do artista com uma oficina ministrada por ele sobre o corpo, a performance e o ritual. Nesse sentido, tivemos a possibilidade desenvolver performances pretas corporalmente, a partir de ações práticas propostas por ele, como experimentar a cozinha sagrada e produzir um ritual de oferendas às divindades do mar.
________________________
⁶Segundo o site: “REPERFORMAR O AFETO é um projeto de pesquisa e ação de extensão do LABPerformance que promove, a cada ano, desde 2016 residências artísticas em live art em total sincronia com as disciplinas do curso de Licenciatura em Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. A proposta geral do projeto é a escolha curatorial de participantes como meta-autores de diferentes ações: artísticas, performativas e pedagógicas em contextos compartilhados.” Disponível em
Figura 7 - Palestra “A construção de um corpo cultural afro na poética de Ayrson Heráclito”
Fonte: Ayrson Heráclito (Acervo pessoal, concedido para criação do cartaz do evento V Reperfomar Afeto).
A possibilidade de ter o professor Ayrson Heráclito na V Edição do Reperformar Afeto nos proporcionou refletir sobre alguns conceitos que estávamos sendo abordados na academia sobre os sentidos da performance preta. A partir dos questionamentos de alguns alunos do curso de licenciatura em Teatro UFRN, que tem o objetivo desenvolver em seu processo artístico na linguagem da performance, ou mesmo falar sobre os sentidos da performance preta com mais embasamento sobre essa temática.
Ao final da oficina perguntado ao professor convidado quanto tempo ele levava para construir suas vídeo- performance, ele comentou que seus trabalhos têm várias etapas de filmagem em média leva um ano a dois alunos para concluir seus trabalhos. Dependendo do estilo dessa performance que ele tivesse construído uma performance por exemplo, utilizando ferramentas tecnológicas. Desta forma, percebemos o quanto o processo de criação de uma performance, não é tão simples como parece ser, durante proposta de aula, foi proposto pelo proponente que realiza-se movimentos de trabalho, de caça, movimentos do dia-dia e que repete-se várias vezes, mudando a intenção, a sensação. Durante essa oficina desenvolvi a última ação da minha vídeo-performance intitulada de Fuligem.
Assim sendo, eu gosto de pensar os sentidos da performance preta na cena da contemporaneidade tendo como referência a reflexão do performer Ayrson Heráclito, em sua performance Transmutação da carne⁷ Assim como descreve Heráclito:
Eu trago memória dos maus tratos, eu trago em cena essa ideia desse holocausto que foi a escravidão. Eu comecei a pensar um corpo, um corpo que tivesse uma certa conexão com essa história, com esse passado, com esses fantasmas. E surgiu a ideia da carne de charque, uma carne mista, mestiça, entre a gordura e carne. Ai, eu pensei na carne justamente como uma metáfora desse corpo de homens que foram escravizados. A dor e ferida da escravidão negra no mundo não diz respeito apenas aos afro-brasileiros, afro-americanos, aos escravos descendentes ou os homens que forma escravizados. E eu convido essas pessoas, justamente, para viver esse processo. (HERÁCLITO, 2016, p. 3128-3129)
Nesse contexto, percebo que a performance preta tem em dispositivos ações performáticas com problemáticas que muitas vezes estão associadas a dispositivos sociais, sobre a Presença Preta, Poética, Política, Dispositivos de questões sociais que os corpos preto sofrem.No entanto, não vejo, como conceito fechado.
Para além disso, acredito que os performers que trabalha com sentidos da performance preta tem que construir uma persona diária, em seus locais institucionais que ocupa, na minha concepção precisamos ocupar os passos institucionais, por exemplo: Teatro. Galeria de Arte, Universidade. No entanto, não adianta existir apenas um único preto seja curador das galerias de Arte, ou professor em uma Universidade, ou Departamento de Arte. É preciso também ampliar a visão crítica sobre espaço que ele pode ocupar. E, principalmente o porquê ele não ver, mais pessoas pretas igual ele ocupando esse espaço. Compreendo que cada professor tenha uma formação diferente, venha de universidade diferente, e tenha suas pesquisas diferentes. No entanto, acredito que uma das funções do professor é a de mostrar as possibilidades e cabe o aluno escolher o que quer para a sua pesquisa. E, não ficar limitado à pesquisa do professor.
_____________________________
⁷Ayrson Heráclito. Transmutação da carne, 2000. Performance apresentada em diversos museus e galerias.
Por exemplo, seja o simples fato de questionar o porquê não vemos referências não de autores preto na academia? Partindo dessa perspectiva, durante a disciplina de performance I,
realizei a seguinte pergunta a minha orientadora: você conhece algum artista, escritor, performer preto? E, partir desse questionamento conheci algumas obras do artista: Ayrson Heráclito, a partir de vídeo performance, foto performance, em especial o trabalho intitulado “Transmutação da carne” sugerido pela Professora, me identifiquei com o formato de construção de seu trabalho. E, comecei desenvolver as minhas performances pretas.
Assim, como descreve o professor Ayrson Heráclito 8, em sua entrevista realizado pela professora Naira Ciotti, disponibilizada na Manzuá Revista de Pós Graduação de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
“Estar nas universidades é exatamente isso. Como professor, é também falar que existem outras formas de compreensão de ensino, de maneiras e de métodos de ensino. Então, nós vamos ter que olhar também para os nossos livros que são escritos pela natureza, que estão escritos pelas culturas indígenas e negras. Esse arquivo, essa biblioteca imensa e seu legado imenso que foi escrito ali nos terreiros. Então, vamos também olhar para esses mestres, esses teóricos, esses filósofos porque eles não podem ficar mais invisíveis.” (HERÁCLITO, 2019, p. 17).
E, assim, comecei pesquisa e fazer performance preta. sobre questões sociais, políticas, que afetam a mim, e ao povo preto. Durante esses trabalhos comecei desenvolver a performance tendo como dispositivo sobre o trabalho escravo na contemporaneidade. Paralelamente desenvolvendo leituras de alguns autores e artistas que aborda em suas performance o dispositivo que vinha pesquisando. Sendo eles Achille Mbembe, Frantz Fanon, Carlos Sakamoto, Ayrson Heráclito, Tiago Santana, Grada Kilomba, Paulo Nazareth, Carlos Martel.
Em seguida, expliquei que o motivo de realizar esta pergunta tinha a haver com as referências bibliográficas que tive contato desde o primeiro semestre do período de formação, cujas referências são de homens brancos e europeus.Nesse contexto,, expliquei que o motivo de querer ter referências pretas, não era uma questão de desmerecer os autores brancos, e sim, de ter outras narrativas escritas por pretos.
_________________________
8CIOTTI, N. Entrevista com Ayrson Heráclito. Manzuá: Revista de Pesquisa em Artes Cênicas, v. 2, n. 2, p. 6-17, 3 out. 2019. Disponível em https://periodicos.ufrn.br/manzua/article/view/18935 acesso 30/05/2020
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Entendo a performance como uma das mais completas linguagens artísticas por abarcar em sua estrutura não somente as artes visuais (plásticas), a música, a arquitetura, a pintura, a dança, teatro.A prática artística da performance expande a representação em si pela necessidade do autoconhecimento.
Durante o processo de pesquisa, tornou-se cada vez mais instigante a reflexão sobre os sentidos das performances, ao ter contato com alguns professores artistas, que são referências neste segmento de performances afro-brasileira e arte afro brasileira: Zeca Ligiéro e Ayrson Heráclito. Assim comecei a desenvolver meus processos artísticos performáticos com características de performances pretas na contemporaneidade.
Como Bolsista de Iniciação Científica do Projeto “Ações Pedagógicas: Contribuições do Ensino da Performance para o Currículo de Linguagens, Mídias e Tecnologias”, sob a orientação da Prof. Dr. Naira Ciotti, tive a possibilidade de pesquisar a performance como também, no desafio de enfrentar obstáculos na minha escrita como estudante pesquisador em desenvolvimento. Durante esse processo de Bolsa, tive a possibilidade de realizar entrevistas documentais, desenvolver pesquisa de campo, vídeo performances, foto performances, colaborar na produção do evento Reperformar o Afeto Edição 2019, na qual tivemos a presença do Professor Dr. Ayrson Heráclito, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Estar na condição de licenciando em Teatro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, tendo uma consciência de negritude e uma visão crítica de que forma o racismo estrutural prevalece nesses espaços, me fez perceber a importância de refletir sobre o meu corpo preto em relação a esse espaço acadêmico. Qual é meu discurso? Eu, um sujeito, pobre, preto, periférico, aluno de escola pública? Quais são as minhas práticas? Por quê, por mais que as cotas raciais venham contribuindo de forma significativa nessa reparação social ainda assim, vemos pouca pessoas pretas nas salas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte?
Num segundo momento, desenvolvo uma autocrítica sobre meus experimentos em performances pretas e de que forma o meus trabalhos estão relacionados com outros dispositivos sejam eles político, econômico ou social. Nesse contexto, pude receber críticas