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O DIREITO NO ÂMAGO DA SENTENÇA

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0 dircilo no àinago (la sentença (*)

AM1LCAR DE CASTltO

A gradeço aos ilustres prom otores do Segundo Congresso Jurídico do Triângulo Mineiro a honra que me deram de pro-fe rir esta conpro-ferência de encerram ento.

Procurando corresponder à gentileza recebida, escolhi tem a de interêsse geral, e tra te i de trazê-lo baseado em opiniões dos m ais eminentes autores modernos.

Preparando o terreno p ara onde vou levar a exposição, devo ad v ertir que nada direi de original, nem seriam as m inhas fôrças suficientes p a ra ta n to : nada mais farei do que repro-duzir o que colhi em m odernas obras estrangeiras, algum as pouco divulgadas, a respeito do núcleo da decisão judicial, isto é, acêrca da parte interna, psicológica, inatingível, do julgado, naquêle momento em que o juiz, tanto pode ascender a culmi- nãncias divinas, como descer às mais ab jetas prevaricações.

Começo por insistir em que, a respeito da contraposição do direito ao fato, há dois modos de pensar irrem ediavelm ente incompatíveis, absolutam ente inconciliáveis. P a ra um lado, a orientação clássica, no sentido de que o chamado direito obje-tivo incide diretam ente nos fatos, e os vai regendo, desde antes de serem oficialmente apreciados pela autoridade jurisdicional incumbida de m anter a ordem jurídica; e, como resultado disso, as pessoas, no curso da vida quotidiana, vão extrajudicialm ente adquirindo direitos subjetivos, ou vão cometendo crimes,

vio-(*) Conferência pronunciada na sessão solene de encerramento do Segundo Congresso Jurídico do Triângulo Mineiro, às 20 horas, do dia 29 de novembro de 1959, no salão nobre da Faculdade de Direito, em Uberaba.

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lando a s leis, porque estas estão atuando incessante e auto -m àtica-m ente. P a ra outro lado, a direção realista, no sentido de que o cham ado direito objetivo, critério oficial de apreciação jurídica dos fatos, não tem eficácia autom ática. Conquanto seja, a todo momento, potencialmente eficiente, nunca chega a ser realm ente eficaz, senão por interm édio da autoridade jurisdicional, pois o E stad o só g arante, como direito, por execução manu militari, a decisão judicial.

E êste último modo de pensar parece m ais razoável.

Icílio VANNI justifica, como princípio fundam ental, quer da dogm ática jurídica, quer do direito sob o ponto de vista histórico, que não há direito verdadeiro, sem juiz que o aplique. Ê que o direito não está nos fatos, m as na apreciação dos fa to s; apreciação esta feita e g aran tid a oficialm ente por um a autoridade, em se tra ta n d o de direito positivo de sociedade e stru tu ra d a em subordinação. P or isso mesmo, o direito se estende ta n to quanto à jurisdição, em m útua correspondência, soldados integral e indissoluvelm ente. No dizer de CARBONE, «a autoridade é elemento conceituai do direito, é nota que lhe integra a definição». E ssa autoridade é quem cuida de orga- nizá-lo em form a efetiva, e de impô-lo à vontade dos indivíduos, por coação física ou p síq u ica. Sempre foi a ssim : pelas decisões dos chefes dos agrupam entos sociais rudim entares, o direito se rev elo u . Themistas não eram leis, m as sentenças supostam ente ditadas por Themis, po r interm édio do rei, ao dirim ir os litígios: «eram as próprias sentenças ditadas ao julgador pela divindade» (SUM NER M A IN E ). E ainda hoje, a fo ra a supers-tição pagã, tudo continua como dantes: direito, propriam ente dito, é o que em ana da decisão judicial; direito subjetivo o que é eficazm ente por esta garantido, direito objetivo o que foi no julgam ento efetivam ente utilizado. Antes da decisão judicial, a respeito de direito o que há, por p arte do govêrno, como representante do povo, é prom essa de apreciar os fato s de certo modo, ficando aos particulares a esperança de que essa prom essa seja cum prida. O govêrno m antém a ordem jurídica, assegurando observá-la pelo órgão jurisdicional, e re sta aos particulares, quando muito, a persuasão de que isto aco n teça .

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Vale dizer: a palavra direito é usada, quase sempre des- percebidam ente, em várias acepções. E p a ra em pregá-la em su a ex ata significação devemos lem brar que vivemos em regim e de ju stiça pública, e neste é oficial a apreciação jurídica dos fato s: faz-se justiça, substituindo-se, em regra, a atividade m ental e física das p artes interessadas, pela da autoridade ju risdicional.

E m sentido figurado, encontra-se geralm ente escrito nos compêndios, e ouve-se freqüentem ente falar, que o direito se aplica aos fatos, m as nem todos têm noção ex ata desta a fir-m ativa, que depende de explicação; e convéfir-m exafir-miná-la, isto é, vêr de que modo o direito é posto em prática, tal como em a b strato está prom etido.

Ê perfeita a lição de SATTA, onde ensina que aplicar o direito nada m ais é que avaliar juridicam ente o f a to .1

N a verdade, a atividade m ental da autoridade jurisdicional, p a ra chegar a qualquer conseqüência jurídica, deve, necessà- riam ente, concentrar-se na averiguação do fato e na determ i-nação do critério por que deva ser apreciado. Concomitante- m ente exam ina o que E rich DANZ cham a o lado bruto da

vida, que é o quadro apresentado pelas relações sociais, declara o valor jurídica de suas conseqüências, e passa a g a ra n tir obediência a essa declaração. Sempre a qusestio facti en tre-laçada à quaestio juris.

LIEBMAN, ern m agistrais considerações, m o stra que as p artes são soberanas na resolução de subm eter, ou não, ao julgam ento da autoridade judiciária, o conflito de interêsses que surgiu entre elas, e assim tam bém podem oferecer a ap re-ciação oficial apenas um a p arte dêsse conflito. E, p a ra o processo, interessa o que fô r nêle deduzido efetivam ente e

não importam os outros fatos que possam ocorrer pelo mundo

a fora. O jurista, e de modo especial o processualista, só pode

cuidar dos processos efetivamente propostos, e das lides que forem realmente levadas, perante os juizes, e na medida em

que o forem. Isso porque objeto do processo não é o conflito

( 1 ) S a l v a t o r e S a t t a , D iritto Processuale Civile, quinta edizione,

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de interêsses em sua simples e m aterial realidade. O conflito de interêsses não e n tra p a ra o processo ta l como se m anifestou na vida real, m as só indiretam ente, na feição e configuração que lhe deu o a u to r em seu pedido. P o r sua vez, o juiz não

age diretamente sôbre o conflito, que constitue realidade

psi-cológica pràticam ente inatingível: o que o juiz faz é apreciar, julgar, o fa to que lhe é proposto, definindo-lhe as conseqüências ju ríd icas. De ta l sorte, o conflito de interêsses existente entre as p artes fora do processo é, de fato, a sua razão de ser, sua

causa remota, não seu objeto. E, resum indo essas m agníficas

reflexões, afirm a o grande processualista: «o conflito de inte-rêsses não se to rn a objeto do processo em sua realidade socio-lógica e natural, ta l como surgiu entre as p a rtes. Êle é apenas o su b strato m aterial do objeto do processo, entrando p a ra êste só depois de moldado pelas p artes e vasada no pedido form ulado ao juiz, tran sfo rm ad o assim, de entidade sociológica, em fig u ra propriam ente ju ríd ic a . É, pois, p a ra o pedido inicial, que in sta u ra o processo, que se devem voltar os olhos ao querer identificar o objeto do processo».2

Deve-se, pois, ver bem claram ente que, na apreciação ofi-cial, os fa to s não são tom ados em consideração ao natural, ou ta l como aconteceram , m as ta l como ficaram oficialmente verificados e declarados. Se, em qualquer apreciação judicial, h á um a prelim inar verificação do fa to ; se nesta investigação substitui-se a atividade física e m ental dos interessados pela do juiz, a conseqüência é que fato pode não ser aquilo que os interessados viram acontecer, m as sem pre é o que o juiz

verificou nos autos e declarou que aconteceu. F a to não é p re-cisam ente o acontecimento, m as o que o juiz dá como acon-tecido. Pode-se, com segurança, dizer que fato não é o que aconteceu, m as o que o juiz declara que aconteceu.

Tal como ensina SATTA, o juiz cria o fato, não no sentido de que o invente, ou de que o determ ine por sua atividade; sim no sentido de que, quando o verifica, nada m ais faz do que

(2) E n r i c o T u l l i o L i e b m a n — O despacho saneador e o ju lg a -m ento do -m érito, in R e v . For. vol. 104, p . 220 e 221; ENRICO TULLIO

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escolher, entre mil hipóteses possíveis aquela que se lhe afi-g u ra m ais correspondente à realidade: «e esta escolha, êste juízo, é inegavelmente um a criação, não m era percepção, ou recepção, pelo que se pode afirm ar com acêrto que o fato existe como o juiz o verificou. Criação que tem suas reg ras de c a rá te r lógico, e tam bém de c aráter estritam ente jurídico, porque a lei quase sem pre determ ina a via, m ais ou menos obrigatória, que o juiz deve p ercorrer p ara chegar a verifi-cação dos fa to s » .3

Veja-se bem que, na sentença, se encontra um a verdade form al, leg-il, fictícia, ou presum ida, que pode, ou não coincidir com a verdade efetiva, razão pela qual costum a-se dizer que a coisa julgada faz do branco, preto, e do quadrado, redondo.

Em sum a: h á um a declaração oficial do fa to ; entre o fato oficialmente verificado e o fato efetivam ente acontecido, pode haver certa distância; e só vale o que fôr oficialmente

verificado, pois o E stado não pode conceder proteção jurídica senão aos fatos judicialm ente averiguados.

Mas, além da averiguação oficial do fato, há tam bém oficial determ inação do critério por que o mesmo deva ser apre-ciado. A escolha da norm a jurídica aplicável e o sentido desta não dependem da atividade m ental dos interessados; o cha-mado direito objetivo não é aquêle critério oficial de apreciação do fato que o interessado vislum bra na letra da lei, na ju ris-prudência, ou na doutrina, m as o que fô r oficialmente veri-ficado p ara o caso em julgam ento; e por isso mesmo o critério oficial de apreciação pode não ser o que os interessados supunham ser, e sim é sem pre aquêle que o juiz com petente verifica e declara. E m resum o: o juiz dita o direito aplicável ao caso concreto; e portanto, para os interessados, pràtica- m ente o direito vem a ser aquilo que diz o juiz ser o direito, um a vez que só vale o que é oficialmente estabelecido pelo órgão competente do Poder Judiciário.

E note-se que raram en te o juiz encontra, em texto claro de lei, a norm a jurídica p ro n ta para ser u sada: na m aioria

( 3 ) S a l v a t o r e Sa t t a — D iritto Proceasuále Civile, q u i n t a e d iz io n e ,

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das vêzes, deve criá-la, isto é, estabelecer o critério oficial de apreciação jurídica do caso, na órbita da ordem jurídica em vigor, ta l como tam bém notou SATTA.

A célebre fra se de Jo h an ADAMS, por que term ina o

art. 30 da Constituição de M a ssach u setts: «a fim de que possa haver um govêrno de leis, e não de homens» (to the end it

may be a government of laws and not of men), não deve ser

literalm ente in te rp re ta d a. Ninguém pode pretender estabelecer

govêrno de leis, e não de homens, se dêstes depende a eficácia

daquelas. O que alm ejavam os constituintes norte am ericanos de 1780 era, sem dúvida, um govêrno de homens que não se

afastassem das leis, as interpretassem e as executassem

corre-tam ente, desde que leis só por homens podem ser bem, ou mal, feitas, e melhor, ou pior, executadas.

Aliás, dem onstra Chu CHONG, «governa-se pelos homens, não pelas leis, porque estas não podem te r eficácia por si m esm as. E n treg u e o poder a homens direitos, são as leis respeitadas; caso contrário, não. O homem virtuoso é, em si mesmo, fonte de ju stiça . Sendo o governante idôneo, reina a ordem, ainda que a s leis sejam poucas; não o sendo, não saberá bem executá-las, por m ais com pletas que sejam , nem en fre n ta r situações sem pre cam biantes, e virá o cáos. A pros-peridade do E stad o depende menos da perfeição das leis, que da virtude e conduta dos g o v ern an tes» .4

N este mesmo sentido, já em 1801, na In g laterra, George CANNING bradava em discurso contra o gabinete de Adding- ton «fora com a cantilena de leis, e não homens, a vã suposição de que os arrêios, e não os cavalos, é que puxam a carruagem . Não, senhor: se a com paração deve ser feita, se a distinção deve se r tom ada em consideração, os homens são tudo, e as leis, com parativam ente nada».

E foi ainda m ais incisivo e irreverente JU N IU S (Sir Philip F ran c is), em um a de suas fam osas c a rta s políticas:

«Leis e não homens é o canto de serêia comum, de afetad a

( 4 ) Ch u Ch o n g — On the reconstruction of the Chinese sy ste m

of law, Na n k i n, 1947, apud Re n é Da v i d — T raité É lém entaire de Droit

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m oderação: fingido estilo básico, inventado por velhacos e vul-garizado pelos tôlos».

A razão, sem dúvida, está com Mc BAIN: qualquer go- vêrno é ta n to de homens, como de leis, porque enquanto aquêle é instituição humana, estas são feitas, in terp retad as e

executa-das pelos homens. Dem ocraticam ente é absurdo estabelecer

oposição entre governo de homens e de leis. E sta s são pro-dutos de que aquêles são produtores. Leis, sem homens p ara interpretá-las e executá-las, seriam n ad a. Ã parte dos homens, um govêrno de leis seria coisa inerte, inofensiva, inútil, inexis-te n inexis-te fo ra do reino da im aginação. 5

«As leis existem, m as quem as executa?» E duardo COU- TURE, repetindo estas palavras de DANTE, em um a passagem do Purgatório, lem bra que sempre haverá dia em que as leis existentes hajam de ir às m ãos de alguém ; e acontecerá, então, dram àticam ente, queiramos, ou não, que o direito dependerá dessas m ãos e dos homens que as m anejem . M ostra que tôda lei contém um a cláusula implícita segundo a qual seu conteúdo efetivo será o que declarem os juizes em sua aplicação quoti-diana; e invoca a fra se de GOLDSCHMIDT: «o direito chega sem pre a um m omento em que se encontra na ponta de um a espada», p ara concluir, ensinando, que a ponta dessa espada é o processo, no qual, em últim a análise, a lei será o que

resolverem os juizes.61

Pode-se, então, dizer que a alegórica balança e a simbólica espada da Justiça, assim como sua cegueira imanente, se encontram na decisão judicial, que é tudo.

A decisão judicial ainda é uma espécie de m ata virgem, no reino do direito, região quase inexplorada, da qual, muito pouco se conhece. J á no princípio do século X V III D’AGUES- SEAU entrevia a grandeza e a miséria do julgar, notando que os fato s são juridicam ente apreciados, não pelo que são

( 5 ) Ho w a r d Le e Mc Ba i n — The L iving C onstitution p . 3 .

(6) Ed u a r d o J. Oo u t u r e no Prólogo ao excelente opúsculo de

Al c i d e s d e Me n d o n ç a Li m a , intitulado "As garantias da magistratura bra-sileira e o sistem a dos paises americanos”, Edição Revista Forense, Rio, 1952, p. 1-2.

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em si mesmos, m as por exterio rid ad es. E n tretan to , até pouco tempo não se havia prestado bastan te atenção a que «o juiz julga, não sôbre a verdade etern a das coisas, m as sôbre ap a-rências, figuras, indícios, vestígios, som bra dos fatos» (CAPO- G R A S S I).

CARNELUTTI, h á pouco mais de um decênio, em m agní-fico estudo, intitulado «Voltemos à sentença», salientou a neces-sidade de exam inar-se a decisão judicial, não ta n to p ara se com preender o que seja o processo, mas para saber-se o que

seja o direito. A firm ou que, p ara isso, há verificar o que seja

julgar, pois tem -se estudado o julgado, postergando-se a lógica interna do ato de ju lg ar, de todo o julgar, em que se resolve

qualquer das fases do processo. M ostrou na decisão judicial

algo misterioso, que deve se r considerado, porque o processo

é coisa viva e, em qualquer de seus aspetos, a vida é segrêdo, patenteando afinal que na alm a do juiz é que se celebra o

mistério. 7

CALAMANDREI, tendo o juiz como «artífice ativo da justiça», tam bém reconheceu que o direito nêle se encarna, p ara converter-se em expressão concreta da vontade, operante atrav és de suas palav ras. No seu entender, o juiz é o direito feito homem, pois só dêste podemos esperar na vida prática a tu tela que, em ab strato , aquêle nos p ro m ete .8

CAPOGRASSI, nesse mesmo rumo, apontou no processo judicial esta dupla fe itiçaria: fazer reviver o que não vive mais, o que já é m orto; e fazê-lo reviver na consciência e no juízo de alguém que é perfeitam ente ausente e estranho ao acontecimento que deve ressu rg ir; e fazer viver aquela razão e aquela vontade objetivada, que é a lei, precisam ente onde faltou a vida da lei. No seu dizer, estam os diante de um a das m ais m aravilhosas criações da vida, um a das m ais típicas invenções, em que a vida, a trav és de mil expedientes e mil ensaios, consegue realizar seus paradoxos.

(7) Fr a n c e s c o Ca r n e l u t t i — Torniam o al giudteio, in Rivista di

Diritto Processuale, vol. IV, Parte I, pág. 165-174.

( 8 ) Pi e r o Ca l a m a n d r e i — Elogio de los jueces escrito por un

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O juiz ouve o que lhe dizem, vê o que lhe m ostram , e põe-se a refletir sôbre reflexões alheias. Mas todo êsse reviver, que faz atrav és do reviver de outrem, nunca é um ver d ireta -mente, nunca é a presença. E sta é impossível. Ê um a substi-tuição da presença; e aqui está a m agia: to rn a r presente o que não é presente. Ê, portanto, um processar por sinais, que significam, m as não são, a coisa significada; quase um sistem a de hieroglifos que o juiz deve trad u zir na realidade procurada, e jam ais aparecida na sua inatingível presença a tu a l. Mediante êste procedim ento por sinais, por assim dizer, atravessando a

sombra das coisas, o juiz deve refazer presente o passado.

E deve refazê-lo presente p a ra julgá-lo; porque deva aplicar as leis ao caso; porque deve resolver a crise; porque deve recom -por e faze r voltar a seu álveo a tra n sto rn a d a corrente da expe-riência jurídica. E por isso não tr a ta só de trad u zir os sinais n a coisa presente, que é sem pre um a substituição da presença, cuida tam bém de trad u zir a lei, e a generalidade das leis, nos têrm os pelos quais possam tornar-se critérios adequados a apreciar o fato reconstituído. Não lhe é presente o fato, porque já é passado; e tam bém não lhe é presente a lei, porque esta é geral e o fa to a ju lg ar é mais que particular, individual, de absoluta singularidade. Assim como não tem à disposição o fato acontecido, porque é passado, nem ao menos tem a seu dispor a lei, porque esta é geral e deve to rn ar-se lei daquêle fa to ú n ico . E m ta is condições, o juiz nada tem e deve conseguir tu d o . O processo é precisam ente êste fazer reviver como p re-sente a ação passada e extinta, e êste to rn a r concreta a lei, que é geral e a b s tr a ta .8

E p a ra evidenciar a precariedade do direito, a grandeza e a m iséria do julgar, nada melhor que êsse mesmo artigo de

CAPOGRASSI, onde m o stra que o juiz não é apenas

histo-riador: procurando o fio da lógica objetiva, na confusão das

lógicas particulares das paixões e dos interêsses, isto é, desco-brindo a lógica objetiva da lei e da vida, reconstroi, com esta,

( 9 ) Gi u s e p p e Ca p o g r a s s i — Giudizio, processo, scienza, verità, in

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m entalm ente o passado, e substitui com atividade nova a que tinha perdido sua objetividade.

E isto, em substância, distingue o historiador do juiz. aquêle limita-se a reviver, reconstruir, re to rn a r presente o evento histórico: êste é o seu fim . O juiz, além de historiador, deve modificar, destruir, su b stitu ir um evento por outro, nêle cancelando, ou encaixando, conseqüências jurídicas e práticas. E porque êste su sb titu ir um evento por outro é colaborar na vida, é um viver, tem todo o valor da vida, produz, às vêzes terríveis modificações no destino do indivíduo, é fim que go-verna tôda a investigação. Pode-se dizer que o juiz é o ju sti-ceiro do evento, o que não é o historiador.

Indubitàvelm ente a lógica da objetividade não elimina o subjetivism o do ju lg ad o r. Após a objetiva verificação do fato, re sta o julgar, na su a p arte mais secreta e delicada, no mo-mento da decisão, em que o homem-juiz, não se sabe se com a sua inteligência, com sua vontade, ou com tôda a sua alma, diz a últim a p alav ra. P o r m ais que e steja gara n tid a a objeti-vidade, por m ais que se reconstitua a norm al objetividade da vida, a um certo ponto culm inante intervem a setentia animi do julgador, a particular, irrepetível, decisão judicial.

Mas aquilo que constitui a particularidade da decisão é sujeitável a análise? A singularidade do caso resu lta de dois elem entos: um, a extrem a peculiaridade do fato, que é o objeto do julgam ento; depois de o haver descoberto no que tem de comum com todos os outros fatos, re sta o que tem em si mesmo, em sua particularidade, pela qual se individua: a atividade daquêle agente e precisam ente aquela atividade; outro, a extrem a particularidade da própria decisão daquêle juiz, no sentido de que, no acolher as dúvidas, em eliminá-las. no d ar fé a êste ou àquele aspeto, a esta ou àquela palavra, a êste ou àquele porm enor, no sentir-se, ou não, em estado de certeza moral, há qualquer coisa que é verdadeiramente uma

escolha. E sta escolha, que é inevitàvelm ente inerente à mais

secreta personalidade do juiz, se encontra com a atividade individual, tam bém esta absolutam ente específica, e tudo acaba em qualquer coisa de único, que é precisam ente o ato final de opção, aquêle decidir, que é necessàriam ente o fim da dúvida,

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o não investigar mais, o quietar-se. Ora, êste unicuin, precisa-m ente porque tal, é insuscetível da análise, e portanto precisa-menos ainda sujeitável a r e g r a s .10

CALAMANDREI, falando do prazer que tem o químico e o ju ris ta de verem confirm adas as suas previsões, conclui que, p a ra o ju rista , quando êste desce do plano da teoria ao da p rática judicial, as coisas mudam por completo. Em suas investigações, o cientista tem diante de si a natureza, que é sem pre a mesma, e serve-se, p a ra interrogá-la, de instrum entos de precisão que não variam de hum or: en tre sua inteligência e o fato , não h á outro interm ediário senão o microscópio. Ao contrário, en tre a previsão do advogado e a verdade oficial, que será escrita afinal na sentença, interpõe-se tô d a um a série de obstáculos, atrav és dos quais se em aranha e, com freqüência, parte-se o fio da previsão: m isteriosos in terru p to res psíquicos que desviam, ou impedem totalm ente, a passagem da corrente.

Ensina-se nas cátedras que a verdade escrita na sentença não é senão o fa to filtrado na m ente do juiz. N a realidade, porém, as coisas são muito m ais complicadas: o fato, antes de chegar à m ente do juiz, tem que p a ssar atrav és da narração que dêle faça cada litigante a seu advogado; e depois, na fase in stru tó ria, a tra v és dos esquecimentos ou das reticências das testem unhas; m ais ta rd e ainda, no debate final, atrav és das parciais reconstruções dos defensores. Finalm ente chega ao julgador, não por um só caminho, que c o rra à luz do sol, sim p o r duas to rtu o sas ro ta s que, em grande parte, passam por túneis, já que têm que a tra v e ssa r os obscuros m eandros do espírito hum ano.11

E m tais condições, quando o ju rista espera, ou sonda, um a decisão judicial, a base sôbre que se apoia é instável. Que é um julgado? No dizer de LEPA U LLE, nada m ais que resultado do esforço de um ser hum ano, que exerce sua inteligência, sua vontade, seus reflexos, e seu subconsciente, na

reconsti-( 1 0 ) G iu s e p p e e C a p o g r a s s i — Giudizio, processo, scienza, verità, in R iv ista di D iritto Processuale, v o l. V p a r t e I, p . 1 0 -1 1 .

( 1 1 ) Pi e r o Ca l a m e n d r e i — E lo g io d e lo s j u e c e s e s c r i t o p o r u n a b o g a d o , p . 1 8 -1 9 .

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tuição e apreciação de fato acontecido em meio social complexo, às vêzes fatos complicados, a avançar um tanto ao acaso, entre erros, mal-entendidos, preconceitos, e fragm entos de doutrina que vagam em sua m em ória.12

P or outro lado, o ato de observar está sujeito a muitas deturpações, de origens diversas: sensitiva, intelectual, profis-sional. Ninguém ignora que os sentidos podem enganar-nos; a inteligência pode levar-nos a direção errada, ou por

insufi-ciência, ou por excesso; e as profissões são elementos que

também aperfeiçoam ou alteram a justeza da observação. «Não é tão fácil, como se julga, limitar-se qualquer pessoa a verificar um f a to . Todos nós temos, apesar de tudo, tendência

natural para deform ar o que observamos, e para ligar os fatos

observados às nossas idéias, aos nossos hábitos mentais, à

nossa maneira de ver (BEAUM IS). Cada indivíduo observa

em função de sua preparação anterior, dos conhecimentos adquiridos e da profissão, ou atividade fundamental, que

exer-ça, isto é, em função de seu mundo, do mundo tal como êle

o vê. Além disso é ilusória a suposição de que só a

inteli-gência guia os homens e governa o mundo, pois à inteligência

e ao raciocínio, em m uitas ocasiões, se sobrepõem as fôrças ainda mal conhecidas do nosso inconsciente, do nosso sub-cons- ciente e dos nossos reflexos. P a ra aprender e esta r precavido contra o êrro, urge que o homem não menospreze as referidas

fôrças, porque os fenômenos inconscientes desempenham, na

vida mental, papel muitas vêzes mais importante do que os

fenômenos intelectuais. Em bastantes circunstâncias os erros

não provêm de causas exteriores: têm origem nas nossas insu-ficiências e im previdências. R aras são as pessoas que sabem defender-se de si próprias: dos seus reflexos, dos seus com-plexos, impulsos, inclinações, paixões.13

Por conseguinte, aquêle unicum indecomponível, de que nos fala CAPOGRASSI, depende principalmente do coeficiente pessoal do julgador: de sua inteligência e de seu subconsciente,

(1 2 ) P i e r r e L e p a u l l e — L e droit International privé, p . 5.

(1 3 ) M á r io G o n ç a l v e s V i a n a — A arte de aprender, p á g . 137-138, 14 3-144.

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de sua honra, de sua cultura, de sua paciência, de seu interesse pela função judicial, de sua religião, sua moral, sua afetividade, de seu amor próprio, de sua vaidade e de sua acuidade, e até da pressão do meio ambiente, imponderáveis que chegam a determ inar decisões diversas do mesmo julgador, em casos semelhantes, proferidas em tempos diferentes. E então quando o julgado é de tribunal coletivo, quanto maior o número de julgadores, mais ainda influem essas razões indefiníveis, ine-vitáveis, fugazes, inatingíveis.

Procurei corresponder à gentileza dos que me acreditaram capaz de encerrar êste Segundo Congresso Jurídico do Triân-gulo Mineiro, prendendo a atenção dos que tiveram a bondade de acom panhar esta alinhavada, e talvez maçante, exposição, a assunto de elevadíssima e indiscutível relevância, pois con-forme à lição de SATTA, o problema da jurisdição é o mesmo da juridicidade da ordem estatal: esta, precisamente por ser jurídica, nasce com a exigência absoluta de concretizar-se; e a decisão judicial é o único ato com o qual, e pelo qual, a ordem se concretiza e assegura, pela sua realização, a sua pró-pria juridicidade. O juiz é o sujeito através do qual a ordem se concretiza.14

(1 4 ) S a l v a t o r e S a t t a — D iritto Processuale Civile, q u in ta ed iz io n e, P a d o v a , 1957, p á g . 7 .

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