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Catolicismo e mudança social

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Academic year: 2021

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ortugal foi e continua a ser fortemente marcado pela Igreja Católica. A sua história e a vida das suas gentes estão repletas de caminhos que se entrecruzam com a história da Igreja, pelo que, se quiséssemos contar a história da Igreja em Portugal, não teríamos só de remontar aos primórdios da narrativa do país como Estado independente, mas de recuar mais alguns séculos, até aos povos que por aqui se estabeleceram anteriormente. Em Portugal, falar de religião é falar da Igreja Católica.

Diferentemente da conceção greco-romana, para os cristãos todo o ser humano possui igual dignidade, a qual dimana, por um lado, da sua natureza – igual para todos – e, por outro, de que todos são filhos de Deus, e portanto irmãos, em virtude da redenção. Esta questão não é despicienda em relação ao

que aqui tratamos, mas determi-nante, já que é o reconhecimento deste facto que dá um assentimen-to indiscutido de assentimen-todos os indiví-duos a uma ordem de valores, o que naturalmente deu origem a verdadeiras comunidades pró-ximas e atentas umas às outras, com reconhecimento de uma sé-rie de direitos morais inalienáveis. O próprio conceito de solidarie-dade tem a sua origem dentro da teologia católica, aplicado, entre outras coisas, à fraternidade entre todos os homens. Compreende--se, neste contexto, que Portugal

tenha sido o primeiro país do mundo a acabar com a escravatura.

Além do edificado das comunidades que se cimentaram em Portugal, a Igreja Católica estimulou também a criação do saber através das universidades (vejam-se as raízes católicas da Universidade de Coimbra) e o amor aos irmãos através dos mosteiros que, por sua vez, não ensinaram somente a arte de trabalhar as terras e de fertilizar regiões inteiras, de copiar os códices e construir igrejas; aos monges se deve o ensino das artes e das letras, do canto e do encanto pelo fascínio e pela beleza.

Portanto, o que a Igreja Católica propôs não foi uma identidade emparcelada, desencarnada ou formal, mas uma identidade com e para pessoas que aceitaram um conjunto de princípios e valores comuns; e há que considerar que os valores que pertencem de iure

ao género humano não constituem per se a identidade de um povo. Portugal descobriu-os e desenvolveu-os graças ao cristianismo. Portanto, a partir desta herança é-nos fácil falar de um património valorativo objetivo, constituído por crenças e modos específicos de ação que se concretizaram em coisas aparentemente tão genéricas como a democracia, a tolerância, a solidariedade e, de certa forma, o respeito e a aceitação da diferença, princípios estes que facilitaram a afirmação de uma identidade plural na comunidade portuguesa.

Porém, se estamos a reconhecer o espólio de valores culturais, religiosos e de pensamento político adquiridos ao longo de séculos, há que referir que, no decurso da nossa história, houve e continua a haver ventos contrá-rios que têm atentado contra este património adquirido. Desde o séc. xix, poderes de diferentes quadrantes políticos e socioculturais tentaram aniquilar a presença da Igreja na sociedade, recorrendo a diversas formas de atuação. Entre elas, destacam-se a publicação, em março de 1862, do diploma proibindo o funcio-namento das congregações reli-giosas, com o objetivo de reduzir e controlar a influência da Igreja na sociedade; e o surgimento, nos anos 70, de movimentos intelec-tuais da escola agnóstica e positi-vista, onde a crítica à religião era acompanhada por uma atitude de descrença, em que se vê a Igreja como um fator de decadência social.

Pouco a pouco, a relação sociedade-crença foi mudando, laicizando-se como consequência da de-fesa de uma existência individual e coletiva determinada mais pela vontade que pela herança. Deste modo, a li-berdade pessoal levou à reconstrução da sociedade e do sistema político: nascer, morrer, casar-se ou estudar co-meçaram a deixar de estar condicionados pelo religioso. A laicização de que estamos a falar não se dá separadamente do contexto internacional, mas tem subjacente um entendimento de uma global secularização dos sistemas sociais. Não obstante este processo, que assume muitas configurações diferentes, e de que Portugal não está alheado, como se pode verificar pelo progressivo, embora lento, afastamento do religioso, a Igreja Católica continua a assumir-se na sociedade portuguesa como fator de harmonia social e

Catolicismo

e mudança social

Missa das Universidades, 2016, igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa.(1)

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Procissão de Nossa Senhora da Nazaré, Peniche.(2)

mesmo de coesão nacional, realidade que também se verifica no panorama que passamos a descrever, desde logo pela percentagem de indivíduos que continuam a declarar-se católicos.

De modo a compreender a forma como o fenómeno religioso se manifesta em Portugal, vamos recorrer aos estudos feitos pelo European Social Survey entre 2002 e 2012, para apresentar uma análise de variáveis que permitem caracterizar a sociedade portuguesa relati-vamente a este fenómeno.

Panorama da religião em Portugal

Os dados apresentados sobre a percentagem da população portuguesa que se diz católica evidenciam uma ligeira descida (em 4 pontos percentuais) entre 2002 e 2012, passando de 83 % para 79 %, ainda que se verifiquem anos intermédios com oscilações diferentes. A evolução destes 10 anos permite constatar que Portugal continua a manter bem vincada a sua matriz católica (veja-se o gráfico 1).

Se analisarmos esta matriz católica tendo em conta o sexo e a idade, verificamos que as mulheres, ao longo dos anos, apresentam um vínculo mais expressivo à

religião católica do que os homens, tendo-se verificado, entre 2002 e 2012, uma diminuição progressiva entre os homens que se dizem católicos, de 42 % para 37 %. Estes dados deixam transparecer que a descida do número de católicos que se verificou no período em análise entre a população portuguesa se deve, de forma geral, à desvinculação dos indivíduos do sexo masculino do catolicismo (veja-se o gráfico 2).

Já no que respeita à evolução da população católica portuguesa tendo em conta a idade, o gráfico 3 evidencia a crescente tendência dos grupos etários mais jovens para um afastamento da identidade católica. Entre 2002 e 2012, verifica-se uma descida em 8 pontos percentuais dos jovens entre os 15 e 29 anos que se dizem católicos, de 24 % em 2002 para 16 % em 2012. Importa aqui salientar que, entre 2010 e 2012, se verifica um retrocesso nesta tendência de descida, tendo mesmo subido em 2 pontos percentuais o número de jovens que se dizem católicos. Contrariamente a este grupo etário, o grupo dos mais velhos, com 50 ou mais anos, aumenta a sua posição religiosa, apresentando-se como o grupo com uma identidade cristã mais vincada e comprometida, passando de 46 % em 2002 para 56 % em 2012 (veja-se o gráfico 3).

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552.

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população portuguesa

79 % 83 % 84 % 82 % 84 % 83 % 2002 2004 2006 2008 2010 2012

Gráfico 1 – População católica

Gráfico 4 – População católica segundo a prática religiosa

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

2002 2004 2006 2008 2010 2012 42 % 40 % 38 % 38 % 39 % 39 % 58 % 60 % 62 % 62 % 61 % 61 % Homens Mulheres

Gráfico 2 – População católica segundo o sexo

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Gráfico 3 – População católica segundo a idade

2002 2004 2006 2008 2010 2012 24 % 20 % 17 % 16 % 14 % 16 % 30 % 32 % 30 % 27 % 25 % 28 % 46 % 49 % 53 % 58 % 61 % 56 % 15-29 30-49 50 e + 15-29 30-49 50 e + 2002 2004 2006 2008 2010 2012 13 % 11 % 15 % 18 % 15 % 17 % 53 % 55 % 53 % 47 % 52 % 57 % 34 % 34 % 33 % 35 % 33 % 26 %

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Não obstante esta matriz católica estar ainda muito presente em Portugal, a identidade cristã está cada vez mais afastada da vivência da prática dessas convicções.

O gráfico 4 mostra-nos que os Portugueses que se dizem católicos estão cada vez menos comprometidos com a prática religiosa, ou seja, em 2012 apenas 26 % dos indivíduos que se dizem católicos referem ir à missa uma ou mais vezes por semana, quando em 2002 correspondiam a 34 % dessa população. Esta descida da prática regular dá lugar a um aumento, nesse mesmo período, em 4 pontos percentuais, daqueles que dizem ter uma prática nominal, ou seja, que assistem aos serviços religiosos pelo menos uma vez por ano, passando de 53 % para 57 %, e, entre os não praticantes, de 13 % em 2002 para 17 % em 2012 (veja-se o gráfico 4).

O cruzamento da prática com o sexo deixa transparecer que a diminuição da prática regular entre a população portuguesa que se diz católica é transversal aos homens e às mulheres.

Se analisarmos os dados relativos ao ano de 2002, vemos que quase metade das mulheres católicas (42 %) dizem ter uma prática regular, contra apenas 24 % dos homens. Nos 10 anos seguintes, a tendência de descida da prática regular acontece tanto entre as mulheres (passa para 31 % em 2012) como entre os homens (passa para 18 % em 2012). Esta descida dá lugar à subida dos indivíduos que, independentemente do sexo, dizem ter uma prática nominal ou ser não praticantes (veja-se o gráfico 5).

Esta análise das práticas permite perceber que a descida gradual da presença dos Portugueses nas igrejas é trans-versal a toda a população, não estando circunscrita a um grupo específico.

A análise da prática tendo em conta os grupos etários confirma essa teoria. A descida dos indivíduos que di-zem ir à missa com regularidade acontece em todos os grupos de idade, sendo mais expressiva entre os grupos etários mais jovens. Em 10 anos, as igrejas tiveram uma descida em 10 pontos percentuais do número de jovens católicos entre os 15 e os 29 anos que dizem ir à mis-sa com regularidade, de 23 % em 2002 para 13 % em 2012. Importa salientar que 1/4 da população jovem católica (25 %) se diz não praticante em 2012 (veja-se o gráfico 6).

Tendência semelhante verifica-se no grupo etário dos 30 aos 49 anos: de 28 % de indivíduos que em 2002 dizem ter uma prática regular, há uma descida para 17 % em 2012; contrariamente aos não prati-cantes, que sofrem uma subida de 12 % em 2002 para 21 % em 2012 (veja-se o gráfico 6).

Considerando outras vertentes da vivência cristã,

e.g. a oração, verifica-se que a maioria da população

portuguesa que se diz católica reza com frequência,

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Gráfico 5 – Prática religiosa da população católica segundo o sexo

Gráfico 6 – Prática religiosa da população católica segundo a idade

Prática Regular Pratica Nominal

Valores em % Não Praticante 2002 15-29 15-29 15-29 15-29 15-29 15-29 30-49 30-49 30-49 30-49 30-49 30-49 50 e + 50 e + 50 e + 50 e + 50 e + 50 e + 2004 2006 2008 2010 2012 19 12 10 14 13 8 24 15 12 30 20 14 21 18 13 25 21 13 59 60 45 64 60 48 53 58 50 50 54 43 59 57 49 61 63 53 23 28 44 23 27 44 23 28 39 21 26 43 21 25 33 13 17 35 2002 H omem H omem H omem H omem H omem H omem M ulher M ulher M ulher M ulher M ulher M ulher 2004 2006 2008 2010 2012 17 10 17 7 21 60 49 55 52 54 24 42 24 41 25 11 52 37 25 14 20 12 20 15 51 45 53 51 62 54 25 41 27 37 18 31

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não obstante haver uma tendência de queda desta prática entre 2002 e 2012, de 66 % para 51 %, contra uma subida dos que dizem rezar apenas em ocasiões (de 25 % passa a 31 %) ou nunca rezar (de 8 % passa para 14 %)(veja-se o gráfico 7).

Ainda assim, a percentagem dos que dizem rezar com frequência nos últimos 10 anos é bem diferente da percentagem dos que dizem ter uma prática regular, permitindo concluir que a maioria dos Portugueses que se dizem católicos tem necessidade de estar ligada a Deus, ao religioso, embora prefira fazê-lo num foro mais privado, através da oração, do que numa manifestação pública, com a presença nas igrejas.

Contudo, ainda são muitos os católicos que em 2012 têm uma ligação débil e volúvel com Deus, pois, por um lado, não frequentam a eucaristia semanal (74 % dos católicos não praticam ou têm uma prática nominal) e, por outro, rezam apenas ocasionalmente ou nunca rezam (45 % rezam apenas ocasionalmente ou nunca rezam) (veja-se os gráficos 4 e 7).

Pode-se perceber, a partir destes números, que o catolicismo de uma parte significativa dos Portugueses não tem por trás uma vivência assídua dos seus princípios e valores, mas é essencialmente de uma herança cultural e familiar que não é alicerçada em práticas religiosas.

Na verdade, quando questionada sobre o seu sentimento religioso, a população católica portuguesa revela um sentimento acima da média (variando entre 1, nenhum sentimento, e 10, muito sentimento religioso), embora se verifique uma descida deste sentimento entre a população católica nos 10 anos em estudo, de uma média de 6,2 em 2002 para uma média de 5,8 em 2012 (veja-se o gráfico 8).

Fonte dos dados dos gráficos 7 e 8: European Social Survey, 2002 a 2012

Base: população católica portuguesa

Gráfico 7 – Frequência com que a população católica reza

Gráfico 8 – Sentimento religioso segundo a população católica e a população geral

2002 2004 2006 2008 2010 2012

5,7

6,2 5,8 6,1 6,4 6,1 5,8

5,3 5,7 5,9 5,7 5,2

Sentimento religioso população geral Sentimento religioso católicos

2002 2004 2006 2008 2010 2012 25 % 25 % 23 % 66 % 63 % 62 % 8 % 8 % 9 % 1 % 1 % 6 % 19 % 21 % 31 % 66 % 62 % 51 % 10 % 10 % 14 % 4 % 7 % 4 %

Rezar com frequência Em ocasiões Nunca NS/NR

Maria Franco, antiga presidente da Ação Católica Rural.(3)

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Reunião do arciprestado de Arcos de Valdevez.(4)

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população portuguesa

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população católica portuguesa

Gráfico 9 – Sentimento religioso da população católica segundo a prática

Gráfico 11 – Índice de religiosidade da população geral segundo o sexo, a idade e o estado civil

Gráfico 10 – Sentimento religioso da população segundo o sexo e a idade

2002 2004 2006 2008 2010 2012 4,9 6,4 6,8 6,1 6,4 6,1 5,8 4,5 5,0 5,3 5,0 4,1 Homem Mulher 15-29 30-49 50 e + 2002 2012 2002 2004 2006 2008 2010 2012 4,7 4,1 4,8 4,8 4,3 4,1 5,3 5,0 5,3 5,4 5,2 4,5 6,6 6,1 6,3 6,7 6,3 6,0 2002 2004 2006 2008 2010 2012 4,6 4,4 5,0 5,2 4,6 4,1 5,7 5,4 5,7 6,1 5,8 5,4 7,7 7,0 7,3 7,4 7,3 7,6 Homem Mulher Casado Separado Divorciado Viúvo 15-29 30-49 50 e + Solteiro Se xo Id ad e Es ta do c iv il 2,6 3,4 2,6 2,9 3,4 3,1 3,1 2,8 3,8 2,6 2,4 3,1 2,2 2,5 3,2 2,9 2,4 2,5 3,6 2,3

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556.

Esta variável permite reforçar a análise feita no pon-to anterior; na verdade, a ligação dos indivíduos que se dizem católicos ao religioso é cada vez menor, evi-denciando que uma parte expressiva dos católicos em Portugal não apresenta qualquer ligação à religião ou então uma ligação débil. Para além disso, os números analisados em 10 anos mostram uma clara tendência de reforço desta realidade, não obstante continuarmos a ter mais de 3/4 da população portuguesa a professar--se católica.

A análise do sentimento religioso da população católica segundo a sua prática deixa transparecer a diferença do sentimento religioso que existe entre os Portugueses católicos que mantêm um vínculo institucional e aqueles que dizem não ter qualquer prática religiosa. Nos 10 anos em estudo, os católicos praticantes mantiveram o nível de sentimento religioso, apresentando uma média alta (em 2002 apresentam uma média de 7,7 e em 2012 de 7,6); já entre os católicos não praticantes a descida da média é mais acentuada (de 4,6 para 4,1). Os praticantes nominais mantêm uma ligação religiosa intermédia, apresentando um valor de sentimento religioso acima do nível médio da escala, ainda que sofrendo uma ligeira descida, entre 2002 e 2012, em 0,3 pontos (de 5,7 de média para 5,4) (veja-se o gráfico 9).

São as mulheres (em 2002, 6,4, em 2012, 5,8) e o grupo etário mais velho (em 2002, 6,6, em 2012, 6) que manifestam, ao longo dos últimos anos, a média mais alta de sentimento religioso, situando-se este senti-mento acima da média da escala. Importa, no entanto, salientar que a descida do sentimento que estes grupos manifestam nos 10 anos em estudo é uma tendência comum aos homens e aos grupos etários mais jovens (veja-se o gráfico 10).

Dos dados analisados, depreende-se que os Portu-gueses católicos vão mantendo uma maior ligação ao divino, a Deus, na medida do seu compromisso cristão, ou seja, os católicos praticantes mantêm a sua relação institucional e privada com a religião, na medida em que têm uma prática assídua, rezam com frequência e dizem ter um sentimento religioso elevado. Verifica-se o contrário entre os Portugueses católicos que se dizem não praticantes, i.e., o desvinculamento do institucio-nal manifesta-se também na frequência com que dizem rezar e no sentimento religioso que dizem ter, eviden-ciando que o catolicismo que professam parece estar a afastar-se cada vez mais dos princípios em que se alicer-ça o catolicismo, deixando transparecer a ideia de que ser católico não passa de uma herança cultural que mais de 3/4 da população continua a considerar importante na sua identidade.

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população portuguesa

Gráfico 13 – Índice de religiosidade da população geral segundo a região de residência

Algarve Alentejo Lisboa e vale do Tejo Centro Norte 2,4 2,5 2,7 3,2 3,3 2,6 2,8 2,5 2,9 3,1 2002 2012

Gráfico 12 – Índice de religiosidade da população geral segundo a escolaridade e a situação perante o trabalho

Fonte dos dados: European Social Survey, 2002 a 2012 Base: população portuguesa

Ensino básico Ensino médio Ensino superior Trabalhador Estudante Desempregado Doméstico Reformado Outro Es tu do s Sit u ão P ro fi ss io n al 2002 2012 3,3 2,6 2,7 2,9 2,4 2,6 3,6 3,4 3,1 3,1 2,5 2,5 2,6 2,2 2,5 3,5 3,3 2,7

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Eduardo Duque

Jovem em oração.(5)

Importa, contudo, salientar que, em geral, os Portugueses estão a perder o seu compromisso católico; ainda que esta linha descendente seja lenta, a tendência é clara, quer se trate de jovens ou indivíduos mais velhos, quer se fale de homens ou mulheres.

Perante esta análise, importa compreender qual o nível de religiosidade que os indivíduos portugueses dizem ter. Para tal, construiu-se um índice no qual se agregaram as variáveis da prática religiosa, da frequência da oração e do sentimento religioso dos Portugueses.

Tal como se pode observar nos gráficos 11 e 12, a posição da religiosidade dos Portugueses mantém-se acima da média, tanto em 2002 como em 2012, entre as mulheres, os indivíduos mais velhos, com 50 e mais anos e viúvos, com nível básico de ensino, domésticos ou reformados, ainda que seja visível uma descida neste mesmo período (numa escala de 5 posições, em que 3 corresponde ao nível médio da escala). Com índice de religiosidade abaixo do nível médio da escala e com a religiosidade menor entre os Portugueses, encontram--se os homens, os indivíduos mais jovens, entre os 15 e 29 anos, e os solteiros e divorciados, com nível médio de escolaridade, que se encontram a estudar ou desempregados, mantendo-se também nestes grupos a tendência de descida que é transversal a todas as variáveis em análise.

Fazendo um retrato do nosso país, vemos que é no Norte de Portugal que o nível de religiosidade é mais alto, sendo a única região que mantém, tanto em 2002 como em 2012, a sua religiosidade acima do nível médio da escala (3,3 e 3,1, respetivamente). Olhando para as

demais regiões do país, Lisboa e Vale do Tejo é a região que, em 2012, apresenta o índice de religiosidade mais baixo (2,5). Contrariamente à tendência de descida encontram-se as regiões do Alentejo e do Algarve, que, em 10 anos, veem aumentar o seu nível de religiosidade entre os habitantes (veja-se o gráfico 13).

Em forma de síntese, e tendo em conta a análise de todas as variáveis, vemos que, em geral, os Portugueses não são indiferentes à questão religiosa, não só porque continuam a manter um vínculo ao catolicismo (79 % em 2012), mas também porque vão persistindo em manter alguma ligação prática, visível nos dados de 2012, quer se trata de uma relação institucional, de foro público, traduzida na prática religiosa (26 % dizem-se praticantes regulares e 57 % nominais), ou numa relação de foro mais privado na relação com Deus, traduzida na frequência da oração (51 % dizem rezar com frequência e 31 % em ocasiões) ou no sentimento religioso (média de 5,8).

Importa também reter a ideia de que, na generali-dade, os Portugueses estão a afastar-se das práticas ou vivências associadas ao catolicismo, já que a tendência de descida dos valores não se circunscreve a um gru-po, mas é transversal a toda a sociedade portuguesa católica.

Imagem

Gráfico 4 – População católica segundo a  prática religiosa
Gráfico 6 – Prática religiosa da população  católica segundo a idade
Gráfico 8 – Sentimento religioso segundo  a população católica e a população geral
Gráfico 9 – Sentimento religioso da população  católica segundo a prática
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