UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO
DEPARTAMENTO DE DIREITO PÚBLICO GRADUAÇÃO EM DIREITO
ERIC IAN NORONHA JUNQUEIRA
CRIPTOMOEDAS E IRPF: UM ESTUDO DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA
FORTALEZA 2019
ERIC IAN NORONHA JUNQUEIRA
CRIPTOMOEDAS E IRPF: UM ESTUDO DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA
Monografia apresentada à Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof.ª Drª. Denise Lucena Cavalcante.
FORTALEZA 2019
J94c Junqueira, Eric Ian Noronha.
Criptomoedas e IRPF : Um estudo de incidência tributária / Eric Ian Noronha Junqueira. – 2019. 52 f.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2019.
Orientação: Prof. Dr. Denise Lucena Cavalcante.
Coorientação: Prof. Dr. Hugo de Brito Machado Segundo.
1. Criptomoedas. 2. Imposto sobre Renda de Pessoa Física. 3. Ambiente Regulatório. I. Título. CDD 340
ERIC IAN NORONHA JUNQUEIRA
CRIPTOMOEDAS E IRPF: UM ESTUDO DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA
Monografia apresentada à Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof.ª Drª. Denise Lucena Cavalcante.
Aprovada em: ___/___/______.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________ Profª. Drª. Denise Lucena Cavalcante (Orientadora)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Prof. Dr. Hugo de Brito Machado Segundo
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Profª. Especialista Sofia Laprovitera Rocha
A Deus.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, de quem creio que vem todas a bênçãos e que me trouxe até aqui por sua misericórdia e graça.
Aos meus pais, por me ensinarem o que é o amor, o caráter e a perseverança. À Kay, minha companheira em todos os momentos.
Aos meus professores, especialmente minha orientadora, Professora Doutora Denise Lucena Cavalcante, por me ajudarem na minha formação como jurista.
Aos projetos de extensão EJUDI e Sociedade de Debates, por me mostrarem algumas paixões que pretendo levar por toda a minha vida.
Aos meus colegas, amigos e até irmãos que ganhei nos últimos 5 anos, por compartilharem comigo as mais diversas experiências que hoje fazem parte de quem eu sou.
“A tecnologia move o mundo.” Steve Jobs
RESUMO
O ser humano vive hoje um momento marcado pelo avanço da tecnologia. O conhecimento humano nunca avançou tão rápido e em tantas áreas como atualmente. Nesse sentido, o Direito é constantemente desafiado diante da necessidade de normas que consigam lidar com as diversas particularidades que envolvem os novos inventos e que alteram as diversas relações humanas. A exemplo disso, o Direito Tributário brasileiro possui hoje o desafio de lidar com as criptomoedas, iniciando pela reflexão relacionada à possibilidade de tributar os acréscimos patrimoniais de indivíduos que utilizam essas moedas virtuais. Desse modo, a monografia parte de uma análise sobre o cenário das criptomoedas, buscando, em seguida, identificar qual seria a sua natureza jurídica. A partir disso, aborda-se um panorama do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física com o intuito analisar os fundamentos e as controvérsias existentes na possível incidência tributária em questão. Assim, essa pesquisa busca garantir avanços no que diz respeito a um ambiente regulatório eficaz em meio aos avanços tecnológicos ora em evidência.
Palavras-chave: Criptomoedas. Imposto sobre Renda de Pessoa Física. Ambiente
ABSTRACT
The human being lives today a moment marked by the advance of technology. Human knowledge has never advanced so fast and in so many areas as it is today. In this sense, the Law is constantly challenged in the face of the need for norms that can deal with the various particularities that involve the new inventions and change the various human relationships. As an example, Brazilian Tax Law today has the challenge of dealing with cryptocurrencies, starting with the reflections related to the possibility of taxing the patrimonial additions of individuals who use these virtual currencies. Thus, the monograph starts from an analysis of the cryptocurrency scenario, and then seeks to identify its legal nature. From this, it is approached an overview of the Income Tax of Individuals with the intention to analyze the fundamentals and the controversies existing in the possible tax incidence in question. Therefore, This research seeks to ensure progress with regard to an effective regulatory environment amidst the technological advances now under evidence.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
2 CRIPTOMOEDAS... 11
2.1 Conceito e histórico... 11
2.2 O desafio apresentado ao direito tributário: qual a natureza jurídica das criptomoedas?... 23
3 A TRIBUTAÇÃO DO IRPF SOBRE AS CRIPTOMOEDAS………... 31
3.1 Fundamentos para a tributação das criptomoedas………. 34
3.2 Das controvérsias existentes na tributação das criptomoedas………. 40
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 45
1 INTRODUÇÃO
A presente monografia tem como objetivo estudar a relação entre as criptomoedas, evidenciadas principalmente por meio do Bitcoin, e a tributação do Imposto sobre Renda de Pessoa Física. A forma de utilização dessa nova tecnologia, a qual envolve criptografia, cálculos matemáticos, computadores e softwares sofisticados, constitui, em conjunto com a sua regulação, a análise central que será desenvolvida ao longo do trabalho.
Nessa perspectiva, pretende-se responder às seguintes perguntas: (i) O que são e como funcionam as criptomoedas? (ii) Quais são as medidas de natureza regulatória que estão sendo adotadas pelo Brasil e por outros países onde há larga utilização da referida tecnologia? (iii) É adequada a tributação das criptomoedas pelo IRPF? (iv) Se sim, a regulação atual é adequada para prevenir abusos por parte do Estado? (v) Quais são os aspectos que devem ser considerados para aprimorar a regulação na busca pela garantia dos direitos do contribuinte?
Desse modo, trata-se de um estudo descritivo, com o objetivo de conhecer a realidade atual dessa temática, com o fim de proporcionar ao leitor e aos responsáveis pela regulação uma visão sistemática, facilitando a construção de soluções para esse grande desafio.
No que se refere à metodologia do trabalho, a pesquisa foi desenvolvida com base na leitura e análise da literatura jurídica, especialmente constitucional e tributária, da ciência da computação, de artigos publicados em periódicos científicos e em revistas técnicas, além de atos normativos e pronunciamentos oficiais de autoridades, entidades e órgãos públicos, e de entidades privadas e organizações da comunidade internacional. Ademais, foram consultadas decisões judiciais proferidas por tribunais locais e estrangeiros. De maneira subsidiária, utilizou-se das bases de dados de jornais de grande circulação, revistas e informações divulgadas em blogs e sites especializados.
O trabalho está dividido em 2 (dois) capítulos, além desta introdução, conclusão e referências bibliográficas, ao final dos quais se objetiva, conforme já afirmado, oferecer contribuições para a manutenção de um ambiente regulatório mais eficaz e, consequentemente, mais justo em relação aos direitos do contribuinte.
No capítulo 2, é feito um estudo geral do que são as criptomoedas, relatando-se o seu surgimento e desenvolvimento, além da exposição dos principais conceitos necessários para a compreensão do tema. A exposição desse assunto leva a uma das reflexões centrais
para o Direito Tributário: Qual a natureza jurídica das criptomoedas? Seriam ativos financeiros? Bens? Moedas? Nesse aspecto, a busca por uma resposta gera a observância da realidade de alguns países, sendo possível observar posturas de oposição e de incentivo à tecnologia estudada.
No capítulo 3, após o entendimento dos elementos essenciais referentes ao objeto da possível tributação pelo IRPF, expõe-se a discussão ensejadora dessa pesquisa. Inicialmente, apresenta-se uma breve abordagem referente ao Imposto sobre Renda de Pessoa Física, evidenciando-se os pontos necessários para a caracterização do imposto. Em seguida, são ponderados os primeiros posicionamentos tomados por entidades regulatórias em relação às criptomoedas, enumerando-se argumentos a favor da tributação, ora já defendida pela Receita Federal do Brasil, restando, por fim, discorrer sobre as controvérsias existentes no posicionamento adotado pela RFB, demonstrando-se medidas a serem tomadas na resolução dessas controvérsias.
Diante disso, será possível obter conclusões sobre procedência da tributação das criptomoedas, evidenciando-se, se procedente essa tributação, medidas que devem ser tomadas para a garantia dos direitos do contribuinte nessa situação.
Quanto à relevância da temática, resta evidente que se trata de tema atual, o qual vem chamando cada vez mais atenção da literatura especializada, dos reguladores e do público em geral, sendo tema frequente em jornais de grande circulação.
Ademais, cabe ressaltar que a escolha do bitcoin entre as criptomoedas na maioria das situações expostas nesta pesquisa se deve ao fato de ser a primeira criptomoeda a ter uso generalizado, restando como exemplo emblemático no estudo de incidência tributária ora exposta.
Nesse sentido, as criptomoedas estão sendo utilizadas para diversos propósitos, restando possível a análise de incidência de diversos tributos a depender das atividades realizadas com a tecnologia. Porém, restringe-se o estudo ao Imposto sobre Renda de Pessoa Física diante das últimas movimentações por parte da Receita Federal (RFB), da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central (BACEN), as quais podem levar de maneira precipitada a uma tributação injusta das operações realizadas com essas moedas virtuais.
Por fim, é necessário ressaltar que essa pesquisa foi realizada durante um momento específico da trajetória das criptomoedas. Assim, devido às limitações temporais, as conclusões obtidas poderão ser revistas com o passar do tempo.
2 AS CRIPTOMOEDAS: ANÁLISE DO CENÁRIO EM QUE RESIDE O POSSÍVEL OBJETO DE TRIBUTAÇÃO DO IRPF.
2.1 Conceito e histórico
A moeda, conhecida pelas mais diversas comunidades, surgiu devido à necessidade de quantificação uniforme para a realização de operações mercantis. Diante da existência de diversos povos e uma variedade de mercadorias, restava necessária a estipulação de sistemas que permitissem a troca dos produtos desejados entre esses grupos de indivíduos. É nesse sentido que se desenvolveu o comércio e, consequentemente, as concepções do que seria moeda.
Em um passado mais distante, na ausência da utilização da moeda, os indivíduos praticavam a simples troca de mercadorias em que, apesar do aperfeiçoamento dos métodos de quantificação, inexistia uma equivalência perfeitamente precisa. A essa prática foi dado o nome de escambo, sendo exemplo emblemático em nossa história a extração de pau-brasil já no período colonial.
Com a evolução econômica e de tecnologias voltadas para a extração, passou-se a priorizar os chamados metais preciosos, tais como ouro e prata, os quais, por possuírem valor reconhecido nas mais diversas regiões do mundo, tornaram-se meio de validação na troca de mercadorias. Nessa realidade, a confiança dos indivíduos no valor dos referidos metais está diretamente atrelada às suas propriedades físicas.
Em seguida, é possível observar o surgimento do papel moeda como forma de validação das mais diversas trocas realizadas no mundo. Nesse contexto, a confiança no valor agregado presente nas operações comerciais está diretamente ligada ao Estado e sua importância, visto que este é detentor do poder de delimitar a circulação da pecúnia . 1
Diante dessa breve abordagem dos avanços na concepção de moeda, resta evidente que esta se demonstra em constante mutação, mas a base da construção do dinheiro é, e provavelmente sempre será, a confiança das pessoas envolvidas nas transações . Nesse 2
1Diretamente ligados ao monopólio estatal para a produção e circulação de moeda, o curso legal e seu poder liberatório serão abordados em momento oportuno nesta pesquisa.
2 Conforme Niall Ferguson em sua obra “A ascensão do dinheiro”: “O dinheiro não é metal. É a confiança registrada. E não parece importar muito onde é registrada: sobre prata, sob argila, sobre uma tela de cristal líquido. Tudo serve como dinheiro, das conchas lumache das Ilhas Maldivas, aos imensos discos de pedra das ilhas Yap, no Pacífico. E agora, ao que parece, o nada pode servir como dinheiro também, nesta era eletrônica.” Observa-se que “o nada” nesse trecho da obra se refere a moedas eletrônicas, diferentes das moedas virtuais a serem estudadas neste trabalho, conforme será explicado. Porém, resta evidente a possibilidade de
sentido, a mutabilidade do conceito de moeda está diretamente ligada ao advento de novas tecnologias (da balança aos artifícios da tecnologia), sendo perceptível a necessidade de revisitar esse conceito em períodos cada vez menores.
É nesse contexto que surgiram as moedas virtuais. Com o intuito de facilitar o entendimento, divide-se as moedas virtuais em dois grupos: as moedas virtuais relacionadas a determinada comunidade (“community-related virtual currencies”) e as moedas virtuais descentralizadas ou universais (“universal decentralized virtual currencies”). Aquelas funcionam como unidade de medida e fonte de confiança para a transação de mercadorias detentoras de valor apenas dentro das comunidades, a exemplo do que ocorre nos jogos eletrônicos. Por outro lado, as moedas virtuais descentralizadas chamam mais atenção por poderem ser utilizadas em uma amplitude maior, visto que não se prendem mais a realidades criadas, mas sim são utilizadas nas mais diversas transações do cotidiano . 3
Para o entendimento do que seriam essas moedas virtuais descentralizadas, é necessário evidenciar o trabalho desenvolvido por Satoshi Nakamoto, pseudônimo utilizado pela pessoa, ou até mesmo pessoas, responsável pela criação do bitcoin, a primeira e mais difundida criptomoeda da atualidade.
Em um artigo intitulado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” , 4 Nakamoto apresenta os principais conceitos do que embasam a criptomoeda representante dessa tecnologia.
Inicialmente, o que mais chama a atenção nas ideias apresentadas no referido artigo é a proposta de criação de um sistema de transferências em que não há participação de um terceiro intermediário confiável, papel geralmente desempenhado pelas instituições financeiras.
O papel desses terceiros é guardar histórico de transações e saldos resultantes dos usuários de seus serviços. Desse modo, o intermediário garante a segurança do sistema a
enquadramento das moedas virtuais na realidade apresentada pelo autor. FERGUSON, Niall. A Ascensão do Dinheiro – A História Financeira do Mundo. São Paulo: Planeta, 2009.
3 Exemplos disso são a aceitação de bitcoins em diversos tipos de estabelecimentos comerciais no estado de Pernambuco (disponível em:
https://www.folhape.com.br/economia/economia/economia/2019/02/03/NWS,95176,10,550,ECONOMIA,2373-BITCOIN-NOVO-MEIO-PAGAMENTO-ESTABELECIMENTOS-PERNAMBUCO.aspx. Acesso em: 27 ago. 2019.) e até já existem pretensões para a utilização da tecnologia como forma de pagamento de passagem de ônibus, caso da cidade de Fortaleza/CE (disponível em:
https://guiadobitcoin.com.br/onibus-fortaleza-aceitarao-bitcoin/. Acesso em: 27 ago. 2019)
4NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. [S. l.: s. n.], Disponível em: https://bitcoin.org/bitcoin.pdf. Acesso em: 27 ago. 2019.
partir da capacidade de aferir o real valor resultante após a realização de transações.
Nesse sentido, não haveria de se pensar em segurança ao se analisar um sistema digital em que pessoas realizem transações sem a presença de um intermediário, visto que qualquer um poderia enviar um arquivo ou outra forma virtual para mais de uma pessoa sem a necessidade de se excluir do seu computador. Estaria-se falando de dinheiro infinito e, logo, um sistema ineficaz. A essa questão é dada o nome de “gasto duplo”.
A resposta dada por Satoshi para o “gasto duplo” foi a Blockchain , a qual pode5 ser entendida, simplificadamente, como uma cadeia de blocos de registros que funciona como um livro público de todas as transações efetuadas por meio de bitcoins. Assim, toda transação realizada com bitcoins é verificada e validada com base em criptografia e cálculos matemáticos, sendo em seguida registrada em ordem cronológica, garantindo dessa forma a impossibilidade de utilização de um mesmo bitcoin em mais de uma operação financeira.
Observa-se, portanto, a primeira grande revolução na concepção de moeda trazida pela criação de Satoshi Nakamoto, pois o sistema de confiança, que sempre esteve vinculado a um terceiro controlador, agora dependente da criptografia, o que, sem sombra de dúvidas, garante uma maior autonomia para os sujeitos envolvidos nas transações . 6
Nesse momento, é cediço ressaltar da importância de se compreender os dois significados centrais atribuídos ao termo bitcoin: o Sistema Bitcoin (utiliza-se “B” maiúsculo), quando se trata da tecnologia digital referente a rede de transações idealizada por Nakamoto, e a criptomoeda bitcoin (utiliza-se “b” minúsculo), unidade de medida utilizada nesse sistema.
Quanto ao Bitcoin, Andreas M. Antonopoulos evidencia o caráter democrático do7
5Nas palavras de Satoshi Nakamoto em “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” :“We propose a
solution to the double-spending problem using a peer-to-peer network. The network timestamps transactions by hashing them into an ongoing chain of hash-based proof-of-work, forming a record that cannot be changed without redoing the proof-of-work”. “Nós propomos a solução para o problema do gasto duplo utilizando uma rede “ponto-a-ponto”. A rede registra as transações, colocando-as em uma cadeia contínua de prova de
trabalho baseada em hash, formando um registro que não pode ser alterado sem refazer a prova de trabalho ”. Tradução livre. NAKAMOTO, Satoshi.Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System.[S. l.: s. n.], Disponível em: https://bitcoin.org/bitcoin.pdf. Acesso em: 27 de agosto 2019.
6Mark Fenwick e Eick P. M. Vermeulen afirmam que a confiança nas instituições está sendo substituída pela chamada “confiança digital”. FENWICK, Mark; VERMEULEN, Erick P. M. Technology and Corporate Governance: Blockchain, Crypto, and Artificial Intelligence. Law Working Paper, [s. l.], n. 42/2018, Nov. 2018. 7Tradução livre de: “Bitcoin is not a company. It is not an organization. It is a standard or a protocol, just like TCP/IP, or the internet. It’s not owned by anyone. It operates by simple mathematical rules that everyone who participates in the network agrees on. Through this simple mechanism, through this invention of Satoshi Nakamoto, bitcoin is able to allow a completely decentralized network of computers to agree on what
transactions have occurred on a network, essentially agreeing on who currently has the money.” Tradução livre. ANTONOPOULOS, Andreas M. The internet of money. 2016, pg. 11. Formato digital.
sistema:
Bitcoin não é uma empresa. Não é uma organização. É um padrão ou um protocolo, assim como o TCP/IP ou a Internet. Não é de propriedade de ninguém. Ele opera por regras matemáticas simples com as quais todos os que participam da rede concordam. Através deste mecanismo simples, através da invenção de Satoshi Nakamoto, o bitcoin é capaz de permitir que uma rede de computadores completamente descentralizada chegue a um acordo sobre quais transações ocorreram em uma rede, essencialmente concordando sobre quem atualmente tem o dinheiro.
No mesmo sentido, afirma Wladson Viana : 8
Você não precisa se registrar em nenhuma empresa, fornecer todos os seus documentos, assinar contratos imensos, nada disso. Também não é necessário entender esses conceitos complexos explicados neste post. Qualquer pessoa no mundo em qualquer país com internet pode baixar um programa capaz de se conectar à rede Bitcoin, gerar um endereço bitcoin e começar a participar da rede, sem pedir permissão para ninguém.
As ideias de Satoshi Nakamoto foram concebidas em um ambiente que já se voltava, aos poucos, para essas novas tendências. É possível associar a criação das criptomoedas ao movimento “Cypherpunk” da década de 90, representado principalmente Timothy C. May. Esse movimento pregava o uso da criptografia como instrumento de mudanças políticas e sociais na busca da proteção da privacidade e a da liberdade pessoal, diante da progressiva atuação de empresas e governos no ambiente da web. As correspondências entre o ideal das criptomoedas e o trabalho de May podem ser observados9 em seu glossário criptográfico, considerado um documento importante para movimento.
Note-se que a principal contribuição do movimento Cypherpunk para as novas tecnologias foram os seus ideais , a busca por uma maior autonomia do indivíduo no10 ambiente digital em frente à atuação dos gigantes do mundo contemporâneo. Em meio a esses ideais, diversas tentativas de criação de moedas digitais ocorreram . 11
8 VIANA, Wladston. O que é Bitcoin? Um guia para os curiosos e futuros investidores. Blog Bússola do investidor. Disponível em: http://blog.bussoladoinvestidor.com.br/o-que-e-bitcoin/. Acesso em: 31 ago. 2019. 9 Uma breve história do trabalho de Timothy C. May em conjunto com Eric Hughes and John Gilmore está disponível no Linkedin em:
https://www.linkedin.com/pulse/cypherpunks-ten-prophets-timothy-cmay-samuel-falkon. Acesso em: 30 ago. 2019. Em caráter complementar, veja-se também GLOSSÁRIO CRIPTOGRÁFICO. Satoshi Nakamoto Institute. Disponível em: https://nakamotoinstitute.org/crypto-glossary/. Acesso em: 30 ago. 2019; MANIFESTO CRIPTO ANARQUISTA (Cypherpunk manifesto) do Activism.net. Disponível em:
https://www.activism.net/cypherpunk/crypto-anarchy.html. Acesso em: 30 ago. 2019.
10Para mais recomenda-se leitura do artigo intitulado “The untold history of bitcoin: enter the cypherpunks”. Que está disponível em:
<https://medium.com/swlh/the-untold-history-of-bitcoin-enter-the-cypherpunks-f764dee962a1>. Acesso em: 30 ago. 2019.
Como tentativa bem sucedida, o Bitcoin surgiu no ambiente da crise financeira internacional de 2008, em um momento em que o sistema financeiro entrava em colapso em proporções globais, abalando de maneira enfática a confiança cerne de todo esse sistema. É nesse contexto de incerteza que as ideias de Nakamoto encontraram espaço para serem difundidas, visto que a principal inovação era exatamente a criação de um sistema de transferência de recursos de forma autônoma, sem a dependência de governos ou bancos em certo descrédito naquele momento. Nesse aspecto, não é função da presente pesquisa entrar em questões referentes à intenção do criador do bitcoin em divulgar seu projeto apenas nesse contexto favorável. O que resta evidente é a suscetibilidade de avanço do Sistema Bitcoin diante de um cenário que indicava a falibilidade do sistema então questionado.
Em relação à confiança digital, é cediço, ainda, evidenciar a importância da tecnologiaPeer-to-Peer (P2P) para a sua completude. Por meio dessa tecnologia, permitiu-se a criação de redes em que compradores e os vendedores interagem diretamente na transação, trocando entre si dinheiro por bens. Isso resta evidente ao se observar a história do eBay, site de compra e venda precursor da prática hoje hegemônica de transações por meio da internet . 12 Porém, necessário observar que o modelo Peer-to-Peer em si não revoluciona o sistema de transação para o alcance de autonomia, visto que se trata de facilitar as transações, mas ainda permanecendo o controle por parte do servidor base destas e do próprio sistema financeiro que embasa a moeda utilizada nas referidas trocas.
Nesse aspecto, reside a grande revolução da criação de Nakamoto: o Sistema
Bitcoin não possui dono. Ninguém pode manipulá-lo de maneira isolada. Na verdade, o sistema é controlado em conjunto por todos os seus usuários, em todos os lugares do mundo, e só pode funcionar a partir do consenso entre todos os envolvidos.
Diante disso, resta necessário o entendimento de como um sistema à base de criptografia consegue garantir o controle diante da multiplicidade de núcleos que compõe a enorme rede de sujeitos envolvidos. De uma maneira direta, responde-se a esse questionamento por meio de dois termos: processamento e mineração.
Qualquer um pode participar do gerenciamento do Sistema Bitcoin. Isso se torna
por Wei Dai, e o Bitgold, criado em 1998 por Nick Szabo. Disponível em:
<https://portaldobitcoin.com/7-criptomoedas-que-vieram-antes-do-bitcoin/>. Acesso em: 30 de ago. 2019. 12 O modelo P2P é de tamanha valia, sendo utilizado não só no mercado online, como também como ferramenta que permite facilidades em outras iniciativas, como o apoio à projetos por meio de melhorias no mecanismo de
crowdfunding. Vide: https://tech.ebayinc.com/product/peer-to-peer-fundraising-on-ebay/. Acesso em: 30 ago. 2019.
possível porque o trabalho necessário para a manutenção desse sistema é realizado por computadores. O entrave é que esse trabalho demanda processo computacional de alta 13 performance, sendo necessário um aparelhamento especializado e que consome quantidade significativas de energia elétrica . 14
A atividade realizada pelos computadores que processam no Bitcoin é chamada de mineração, sendo cada sujeito envolvido nessas operações chamados de mineradores.
Os mineradores são responsáveis por verificar e confirmar as transações realizadas com as criptomoedas. Eles trabalham constantemente de maneira simultânea e independente, confirmando as transações realizadas por outros sujeitos atuantes no sistema. Desse modo, quando determinado indivíduo envia uma quantidade de criptomoedas para outro, um grande grupo de envolvidos no sistema irá validar a transação através de cálculos matemáticos, os quais, após a ratificação, irão compor a longa cadeia da Blockchain (o grande livro contábil das criptomoedas).
Nesse sentido, resta necessário evidenciar que o trabalho de validação realizado por meio da mineração é extremamente vantajoso para os envolvidos, visto que é por meio dessa atividade que ocorre a aquisição originária de novas criptomoedas. Assim, os mineradores15 podem ser contemplados com novos bitcoins que surgem a partir da mineração.
Portanto, mineração não é nada mais do que confirmar determinada operação realizada por sujeitos envolvidos no sistema, ocorrendo o registro de um bloco (daí a nomenclatura da cadeia de blocos) na Blockchain. Em verdade, o bloco significa um conjunto
13 Sarah Uska em “Desmistificando Bitcoin e Blockchain – conheça a tecnologia que promete mudar o mundo” adverte que “A grande questão é que a técnica exige uma capacidade de processamento computacional muito grande, hardware (equipamento) especializado e gasta quantidades exorbitantes de energia elétrica (que no Brasil é bem cara)”. Disponível em:
https://ebusiness.liveuniversity.com/2017/05/30/desmistificando-bitcoin-e-blockchain-conheca-a-tecnologia-que-promete-mudar-o-mundo/ Acesso em: 30 ago. 2019.
14 O consumo significativo de energia para o processamento desses computadores influencia as estratégias dos sujeitos envolvidos em investimentos no sistema das criptomoedas, sendo possível, por exemplo, constatar estratégias como a instalação de centros de processamento em países como o Paraguai, onde o consumo de energia elétrica é menos custoso. Veja-se:
http://g1.globo.com/pr/parana/videos/t/todos-os-videos/v/brasileiros-buscam-o-paraguai-para-instalar-minerador as-de-bitcoin/6626445/ Acesso em: 30 ago. 2019. Diante dessa realidade, o próprio Estado paraguaio já busca tomar um posicionamento para aproveitar essa realidade. Disponível em:
https://webitcoin.com.br/paraguai-apoia-planos-de-construcao-da-maior-mining-farm-de-bitcoin-do-mundo-nov-26/ . Acesso em: 30 ago. 2019.
15 É por meio da validação das transações que se garante que a criptomoeda não será utilizada duas vezes, pois é preciso resolver um processo matemático complexo chamado de Proof of Work (PoW - “Prova de Trabalho”). A velocidade de processamento se mostra valorosa diante do fato de que o minerador que adquire a recompensa é aquele que resolve os cálculos, ou seja, verifica a operação em um menor período de tempo.
de transações realizadas. Os sujeitos vão participando das trocas de criptomoedas, as quais são validadas pelo mineradores, sendo assim construída a grande cadeia.
A segurança do sistema pode ser observada ao se perceber que todos os
mineradores tentam encontrar esse elo ao mesmo tempo, mas apenas o primeiro que resolver irá publicá-lo no fim da corrente, cabendo aos demais envolvidos conferir o surgimento de 16 um novo bloco. Só após essa confirmação que o bloco é incluído na cadeia, consolidando-se a transação.
Logo, a forma como se constrói a grande cadeia de transações torna praticamente impossível uma tentativa de inserção de dados falsos, visto que, além da enorme quantidade de validações sendo realizadas ao mesmo tempo, todos os registros anteriores teriam que ser igualmente alterados, trabalho inconcebível diante da complexidade de processamento requerido.
Um termo de fundamental compreensão para o entendimento do sistema de criptomoedas é o hash , o qual deve ser entendido como uma sequência de bits (menores parcelas de informação processada por um computador) criptografados. Quando o hash é emitido no sistema, os mineradores irão decodificá-lo, resultando na premiação por novos
bitcoins. Fala-se, então, na já citada aquisição originária de criptomoedas.
Nesse momento, resta necessário evidenciar uma previsão extraordinária necessária para a permanência do sistema com o passar do tempo: O Bitcoin foi projetado de forma a reproduzir a realidade dos metais preciosos existentes na terra. Logo, a criptomoeda, como a grande maioria dos recursos, deverá ter quantidade limitada. Assim, somente um número limitado e previamente conhecido de bitcoins poderá ser minerado. A quantidade estabelecida para totalizar os bitcoins foi de 21 milhões . Trata-se de uma arbitrariedade do 17
16 Daniel Portugal elucida que “(c)ada validação de bloco da Bitcoin leva um tempo para acontecer. É assim por diversos motivos técnicos que não vou explicar aqui, mas leve em conta um deles: não se pode acreditar na primeira mineradora que diz que achou a chave para aquele bloco. É preciso ter a confirmação de várias
mineradoras, de forma que a solução seja mais segura e ninguém consiga roubar no jogo. Apenas para clarificar: ‘roubar no jogo’, aqui, significa você conseguir gastar a mesma moeda duas vezes.” PORTUGAL, Daniel. Qual é a diferença entre cada criptomoeda. 2017. Medium. Disponível em:
https://medium.com/@danielportugal/qual-é-a-diferença-entre-cada-criptomoeda-1b2160050c7c. Acesso em: 30 ago. 2019.
17 Torna-se ora necessário apresentar o conceito de Halving, que significa a queda pela metade da quantidade de
bitcoins que surgem como recompensa da mineração. Com o intuito de ficar mais claro, o prêmio durante o ano de criação do sistema (2009) era de 50 bitcoins. Em novembro de 2012, reduziu-se para 25 bitcoins. A segunda redução ocorreu em Julho de 2016, resultando na recompensa de 12,5, quantidade atual. O novo halving deverá ocorrer no ano de 2020, passando o prêmio ao número de 6,25 bitcoins. Disponível em:
https://www.criptomoedasfacil.com/o-que-e-o-halving/. Acesso em: 31 ago. 2019. Nesse sentido, a estimativa é que 80% dos bitcoins já haviam sido minerados no início deste ano. Disponível em:
criador da tecnologia.
A previsibilidade da quantidade de bitcoins é possível devido ao fato de que, apesar da correspondência entre o poder de processamento e a resolução do problema matemático, a dificuldade para resolver a equação aumenta de acordo com a velocidade com que os mineradores completam os blocos. Ocorre, então, um ajustamento de forma a que, independentemente de quantos mineradores existam, um bloco é resolvido em um tempo relativamente padronizado. Assim, há sempre uma taxa previsível e contínua de bitcoins sendo descobertos, sendo possível realizar um planejamento em relação ao aumento de
bitcoins e posterior cessação de aquisição originária dessa criptomoeda.
Por outro lado, as criptomoedas podem ser adquiridas de maneira derivada , a 18 partir da aquisição daquelas já existentes, utilizadas nas transações. É nesse contexto que se observa o surgimento das exchanges, plataformas virtuais em que se realizam as trocas de criptomoedas, funcionando basicamente como casas de câmbio. É possível aos adquirente manter suas criptomoedas nessas plataformas . 19
Diante do exposto, percebe-se que a utilização de criptomoedas reside essencialmente no ambiente digital. Da mineração às transações realizadas por indivíduos no mundo todo, tudo é realizado por meio de computadores. A exemplo dos bitcoins, os quais não são impressos ou emitidos fisicamente , é necessário um mecanismo para a garantia de20 detenção e portabilidade dos valores que determinada pessoa possui. É nesse contexto que são apresentadas as chaves digitais.
https://portaldobitcoin.com/80-de-todos-os-bitcoins-ja-foram-minerados/. Acesso em: 31 ago. 2019.
18 Posteriormente restará evidente que aquisição derivada será o foco do estudo de incidência tributária, visto que é sobre ela que repousa a problemática hoje evidenciada no contexto brasileiro. Porém, é possível encontrar países que se comportam de maneira diferente, a exemplo da Eslovênia. Esta é um país que reconhece o Bitcoin como moeda ou ativo. Apesar da inexistẽncia de tributação sobre ganhos de capital em investimentos em criptomoeda, a Eslovênia tributa as operações de mineração criptografada e de moeda digital. Disponível em: https://www.oinvestidormoderno.com.br/bitcoin-e-regulamentacao-uma-analise-completa/ Acesso em: 30 ago. 2018.
19 Cabe destacar que até pouco tempo não havia previsão referente à regulamentação das exchanges. Conforme será observado posteriormente, a Receita Federal do Brasil já tomou medidas iniciais por meio da Instrução Normativa 1888/2019. Medidas nesse sentido estão diretamente ligadas à postura brasileira no cenário internacional na busca pela regulamentação do sistema, como os compromissos que tem sido assumidos pelo setor fintechs e criptomoedas para a aplicação das regras do Grupo de Ação Financeira (GAFIT/FAFT).
Disponível em: https://br.cointelegraph.com/news/exchanges-in-brazil-have-until-2021-to-conform-to-faft-rules. Acesso em: 31 ago. 2019.
20 Um questionamento pode surgir nessa afirmação, já que naturalmente nos é remetida a imagem daquela moeda dourada com o símbolo do bitcoin quando lemos sobre essa criptomoeda. Porém, essas moedas físicas são na verdade os Casascius, ideia de um dos usuários do sistema que não é mais uma prática atual. Apesar de existência física, os Casascius contêm a chave do valor digital de determinada conta de bitcoin. Acabam funcionando, na verdade, como contêineres das criptomoedas existentes apenas no ambiente digital. Disponível em: https://portaldobitcoin.com/casascius-o-bitcoin-fisico-mais-caro-ja-produzido/.Acesso em: 31 ago. 2019.
As chaves digitais funcionam como a garantia de propriedade sobre determinada quantidade de criptomoedas. Na verdade, essas chaves são compostas por uma chave privada e uma chave pública. A chave privada é a que possui o segredo que garante a segurança das criptomoedas e a pública trata dos dados de identificação que podem ser apresentados a terceiros . 21
Desse modo, só quem tem conhecimento da chave privada poderá manejar determinadas criptomoedas nas diversas operações possíveis, garantindo a segurança necessária para operar no Bitcoin . 22
Em verdade, as chaves são um combinado de letras e números em sequência que, ao ser identificado, possibilita a transferência do bitcoin para outro endereço ,23 assegurando-se, assim, a possibilidade de rotatividade das criptomoedas, a qual permite a circulação de riqueza . 24
Ademais, resta necessário esclarecer um ponto que causa certa confusão para os interessados em criptomoedas: as criptomoedas, diante da inexistência de autoridade monetária que atue como terceiro verificador das operações, não possuem valor de mercado
21 Uma maneira de enxergar a dualidade das chaves digitais de criptomoedas é pensar que a chave pública corresponde ao usuário ou endereço que serve identificação para os outros envolvidos no sistema. Por outro lado, a chave privada seria a senha ou código que garante o monopólio e a segurança diante dos demais indivíduos participantes de certa comunidade digital. Na realidade do Bitcoin, entende-se a chave privada como a parte secreta da carteira (wallet), a qual deve ser protegida com a máxima segurança possível, e a chave pública como o endereço.
22 Wladson Viana esclarece que “A matemática brilhante por trás dessas chaves digitais dão uma propriedade interessante a elas: da mesma forma que só quem tem a senha de um certo email pode enviar mensagens usando esse email, só quem sabe a chave privada (a carteira) relativa à uma chave pública (um endereço) pode assinar mensagens digitais criadas com esse endereço. [...] Daqui para frente, quando você ouvir ou ler que alguém ‘tem’
Bitcoins, lembre-se que isso significa que a pessoa é detentora de uma chave privada, ou carteira cuja chave pública ou endereço recebeu Bitcoins [...]. VIANA, Wladston. O que é Bitcoin? Um guia para os curiosos e futuros investidores. Blog Bússola do investidor. Disponível em:
http://blog.bussoladoinvestidor.com.br/o-que-e-bitcoin/. Acesso em: 31 ago. 2019.
23Na palavras de Wladson Viana: “É assim que os Bitcoins são transferidos: é criada uma mensagem digital originária do endereço que tem algum Bitcoin, transferindo-a para outro endereço. A mensagem tem que ter uma assinatura digital válida, e só quem consegue gerar essa assinatura é o detentor da chave privada (carteira) associada à chave pública (endereço). VIANA, Wladston. O que é Bitcoin? Um guia para os curiosos e futuros investidores. Blog Bússola do investidor. Disponível em:
http://blog.bussoladoinvestidor.com.br/o-que-e-bitcoin/. Acesso em: 31 ago. 2019.
24 A segurança resultante do uso dessas chaves também comprova a mobilidade inerente à tecnologia das
criptomoedas. Nesse sentido, evidencia-se as palavras de Detlev Schlichter: “(a)s long as my encrypted [Bitcoin]
wallet exists somewhere in the world, such as on an email account, I can walk across national borders with nothing on me and retrieve my wealth from anywhere in the world with an internet connection.” “(d)esde que minha carteira criptografada [Bitcoin] exista em algum lugar do mundo, como em uma conta de e-mail, posso atravessar fronteiras nacionais sem nada e recuperar minha fortuna de qualquer lugar do mundo com uma conexão à internet.” Tradução livre. SCHLICHTER, Detlev. In: DOWD, Kevin. New private monies: a bit-part player? The Institute of Economic Affairs Monographs, 2014. p. 73. Disponível em:
derivado de um ativo, como um metal precioso, ou de uma determinação governamental, sendo, em verdade, resultantes de um mercado aberto, regido pela lei da oferta e da procura, o que demonstra a ausência de garantia quanto à conversão em determinada moeda ou mesmo algum bem.
Nesse sentido, a utilização das criptomoedas depende da confiança e credibilidade que os sujeitos negociadores possuem sobre o sistema e sobre a expectativa de valorização daquelas. Isso pode trazer uma certa insegurança diante de uma análise inicial sobre essa25 prática. Porém, são perceptíveis diversas vantagens na utilização dessa tecnologia no contexto atual.
Em um primeiro momento, a autonomia inerente ao Bitcoin já desperta interesse, visto ser o principal diferencial ofertado por conta da Blockchain. Nesse sentido, o valor de determinada criptomoeda não deve sofrer influências diretas de eventuais políticas públicas ou circunstâncias governamentais.
Em seguida, a segurança do sistema pode ser notada diante da forma como se constrói a sua estrutura, sendo praticamente impossível falsificar bitcoins. Isso, em conjunto com o sigilo inerente ao sistema, atrai indivíduos com os mais diversos interesses , visto que, 26 ainda que seja possível constatar as transações, os sujeitos envolvidos se encontram protegidos pela criptografia, de modo que não há identificação de comprador e vendedor.
Ademais, observa-se que as criptomoedas podem ser uma saída na busca pela integração financeira de regiões em que o sistema financeiro tradicional não atua de maneira27 satisfatória, seja por impossibilidades ligadas a infraestrutura, seja por falta de interesse.
25 O próprio Banco Central já emitiu comunicado evidenciando os riscos decorrentes da aquisição das chamadas “moedas virtuais" ou "moedas criptografadas" e da realização de criptomoedas com as mesmas. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Comunicado 25.306, de 19 de fevereiro de 2014. Esclarece sobre os riscos decorrentes da aquisição das chamadas “moedas virtuais" ou "moedas criptografadas" e da realização de transações com elas. Disponível em:
http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/normativo.asp?numero=25306&tipo=Comunicado&data=19/2/201 4. Acesso em: 25 set. 2019.
26 É necessário ressaltar a necessidade de cuidado em relação à vantagem do anonimato, visto que esta resulta na possibilidade de financiamento de atividades extremamente maléficas ao redor do mundo, como o terrorismo. A exemplo disso, O Grupo de Ação Financeira Internacional (FATF/GAFI) já vem reiteradamente alertando para a necessidade de concatenação de medidas a serem adotadas pelos países como o objetivo de impedir o
financiamento de crimes e terrorismo por meio de ativos virtuais. Vide FATF/GAFI. The Forty Recommendations. FAFT/Gafi. Disponível em:
http://www.fatf-gafi.org/publications/fatfrecommendations/documents/regulation-virtual-assets.html. Acesso em: 01 set. 2019.
27 Entende-se integração financeira no trabalho ora apresentado como a possibilidade de participação dos indivíduos no sistema financeiro, atuando ativamente nos mercados internacionais.
Nesse sentido, assevera Andreas M Antonopoulos : 28
Parte da razão pela qual o bitcoin é um caminho sem volta é porque existe grande necessidade dessa tecnologia. Bancos no mundo em desenvolvimento não conseguem estender seus serviços a essas populações. Recentemente, eu estava conversando com um banqueiro que me disse ‘Metade da nossa população está a 100 milhas da agência mais próxima, rio acima, em uma canoa. Nós não podemos atendê-los.’ Mas mesmo a mais remota vila na bacia amazônica tem uma torre de celular, e alguém naquela vila tem um painel solar e um telefone de texto Nokia 1000. Existem mais celulares Nokia no mundo do que qualquer outro tipo de dispositivo eletrônico. É o dispositivo produzido em mais larga escala pela humanidade. Quase 5 bilhões de pessoas têm acesso a telefones celulares. Quase 3 bilhões de pessoas têm acesso a telefones celulares e não têm acesso a água potável. Pense sobre isso. Os telefones celulares são mais difundidos do que a água em nosso planeta. O que acontece quando todos e cada um deles é um banqueiro. Para mim, a visão do bitcoin não é dar acesso aos bancos para outros 6 bilhões; é tirar todo mundo do sistema bancário. Nós podemos fazer isso. A atividade bancária é um aplicativo.
É cediço ainda ressaltar a liberdade resultante a mobilidade inerente às criptomoedas. É possível enviá-las e recebê-las em qualquer tempo e lugar e de maneira instantânea, inexistindo entraves políticos ou cambiais que impeçam a circulação de riqueza. É um sistema alternativo que pode resguardar pessoas em determinadas situações críticas . 29
Porém, há que se destacar o clima de apreensão estabelecido no cenário
28Tradução livre de: “Part of the reason bitcoin is unstoppable is because there is this great need for this technology. Banks in the developing world cannot extend services to these populations. Recently, I was talking to a banker who told me, ‘Half our population is 100 miles from the nearest branch, upstream, on a canoe. We can’t serve them.” But even the remotest village in the Amazonian basin has a cellphone tower, and someone in that village has a solar panel and a Nokia 1000 text phone. There are more Nokia feature phones in the world than any other kind of electronic device. It is the most massively produced device humanity has ever produced. Almost 5 billion people have access to cell phones. Almost 3 billion people have access to cell phones and do not have access to safe drinking water. Think about that. Cell phones are more widespread than water on our planet. What happens when each and every one of those is a banker. For me, the vision of bitcoin is not to bank the other 6 billion; it’s to unbank all of us. We can do it. Banking is an app.” Tradução livre.
ANTONOPOULOS, Andreas M. The internet of money. 2016. p. 113. Formato digital.
29 Kevin Dowd exemplifica situação:“A second is the right to make payments to whomsoever one whishes – and in particular, to outfits of which the government disapproves. The outstanding example is Wikileaks. Following a massive release of secret US diplomatic cables by Wiikileaks in November 2010, the US government
orchestrated an illegal financial blockade by pressuring major payments providers such as Visa, Mastercard, Bank of America and PayPal to block payments to Wikileaks and/or freeze the group’s accounts so it could not access funds already collected. Wikileaks were, however, able to circumvent this blockade by accepting payment in Bitcoin.”Que fica traduzido por: “Um segundo (exemplo) é o direito de fazer pagamentos a quem desejar – e, em particular, para organizações que o governo desaprova. O exemplo notável é o Wikileaks. Após uma liberação massiva de telegramas diplomáticos dos EUA pela Wikileaks em novembro de 2010, o governo dos EUA orquestrou um bloqueio financeiro ilegal ao pressionar grandes fornecedores de pagamentos como Visa, Mastercard, Bank of America e PayPal a bloquear pagamentos ao Wikileaks e/ou congelar as contas do Wikileaks para que não pudesse acessar os fundos já coletados. O Wikileaks foi, no entanto, capaz de contornar este bloqueio aceitando pagamentos em Bitcoin.”Tradução livre. DOWD, Kevin. New private monies: a bit-part player? The Institute of Economic Affairs Monographs, 2014. p. 75. Disponível em:
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2535299##. Acesso em: 01 set. 2019. Retirar se já estiver no final
internacional diante da utilização dessa tecnologia, o qual possui coerência diante de algumas fragilidades que poderão, ou até já podem, causar sérios problemas no contexto atual.
Primeiramente, apesar de ser marcado pelo caráter democrático e pela mobilidade, já se deixou claro que a manutenção do sistema das criptomoedas requer uma quantidade de energia excessiva. Nesse sentido, há que se questionar se o crescimento do sistema alternativo não irá trazer muitos prejuízos com o gasto energético e, consequentemente, com impactos negativos ao meio ambiente. 30
Há, ainda, questionamentos quanto a escalabilidade do sistema, visto que o 31 tempo necessário para a validação das transações é muito longo se comparado ao do sistema 32 financeiro tradicional. Somado a isso, o fato de que os avanços tecnológicos podem afetar a segurança ora existente quanto a criptografia, demonstram o temor existente quanto aos próximos anos das criptomoedas.
Por fim, há quem enxergue a possibilidade de o crescimento na adoção das criptomoedas e, logo, de um sistema descentralizado causar efeitos negativos no modelo
30 AUniversidade de Cambridge realiza pesquisas nessa temática há alguns anos. O estudo realizado pelo Cambridge Centre for Alternative Finance no ano de 2017 já apontava para a utilização de maneira ativa da tecnologia por mais de 3 milhões de pessoas. Vide texto em “Global Cryptocurrency Benchmarking Study”disponível em:
http://www.cam.ac.uk/research/news/study-highlights-growing-significance-of-cryptocurrencies. Acesso em: 01 set. 2019.
No ano de 2019 há pesquisas que apontam para o consumo de cerca de 58,93 TWh por ano com bitcoins, montante similar ao consumo de energia anual da Suíça (58,46 TWh) e da República Tcheca (62,34 TWh), e representa cerca de 0,24% de toda energia gerada no mundo. Disponível em:
https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2019/07/bitcoins-consomem-tanta-energia-quanto-suica.ht ml Acesso em: 01 set. 2019.
Há, ainda, uma série de outros relatos que demonstram impactos em alguns países, como a Venezuela. Tainá Freitas em “O Bitcoin vai acabar com o meio ambiente do planeta” afirma que esse país, onde muitos habitantes têm adotado o bitcoin para tentar se esquivar da hiperinflação, está sofrendo, pois “devido ao alto uso de energia advindo da mineração de bitcoins (versus a incapacidade do governo de adicionar nova capacidade ou cuidar da que já tem instalada), o país tem experimentado apagões frequentemente”. Disponível em:
https://conteudo.startse.com.br/nova-economia/tecnologia-inovacao/taina/bitcoin-meio-ambiente-2018/. Acesso em: 01 set. 2019.
31 Deve-se entender escalabilidade como habilidade que um sistema possui de manejar uma quantidade crescente de trabalho, conforme “O QUE significa escalabilidade de software? ” Stack Overflow. Disponível em:
https://pt.stackoverflow.com/questions/90297/o-que-significa-escalabilidade-de-software . Acesso em: 01 set. 2019.
32 Daniel Portugal em “Qual é a diferença entre cada criptomoeda” afirma que: “Na rede Bitcoin é possível processar em torno de 8 transações por segundo. Isso é muito pouco! Atualmente, a validação de um bloco inteiro demora em torno de 10 minutos. Agora, considere que a Master e a VISA conseguem processar em torno de 30 mil transações por segundo. A diferença é brutal.
E por que isso é importante? Imagine que você vai na padaria comprar pão, mas ao pagar, precisa aguardar 10 minutos até que a sua compra seja confirmada. Em comparação, pense que se usar cartão de crédito ou débito, sua transação é validada em poucos segundos. Então, isso quer dizer que você não consegue fazer pequenas transações com Bitcoin. Pelo menos ainda não. Disponível em:
https://medium.com/@danielportugal/qual-é-a-diferença-entre-cada-criptomoeda-1b2160050c7c. Acesso em: 01 set. 2019.
tradicional e, dessa forma, afetar a eficácia e eficiência da política monetária dos diversos Estados . 33
Diante do exposto, resta necessário evidenciar que, independente de apoiar ou se opor ao uso dessa tecnologia, as criptomoedas estão sendo utilizadas em larga escala, sendo evidente o seu crescimento com o passar do tempo. Nesse aspecto, detém-se ao estudo de como o Direito Tributário brasileiro irá tratar essa prática.
Porém, para que se possa entender o comportamento a ser tomado diante desse desafio, resta necessário analisar a natureza jurídica das criptomoedas.
2.2 O desafio apresentado ao direito tributário: qual a natureza jurídica das criptomoedas?
Em Direito Tributário, há de se observar a importância do fato gerador. É a partir deste que se inicia o processo que resultará na exação tributária. Nesse ponto, o Estado deve observar as situações de fato, com previsão anterior em lei , para a cobrança de determinado 34 tributo.
Nesse sentido, a legislação tributária nacional é clara ao dispor que a tributação está necessariamente ligada a determinado fato gerador , evitando-se, assim, ficções jurídicas que 35 poderiam ser criadas com o intuito meramente arrecadatório.
É nesse cenário que surge o primeiro grande desafio do Direito Tributário em relação
33 Cesar van der Laan em “É crível uma economia monetária baseada em bitcoins? Limites à disseminação de moedas virtuais privadas” elucida: “Em tese, o aumento per se no uso de moedas virtuais levaria ao decréscimo no uso da moeda soberana, dessa forma reduzindo sua circulação necessária para compensar as transações econômicas diárias. Ficaria prejudicado o alcance das políticas monetárias. A ampla substituição da moeda emitida pelo banco central por moedas virtuais privadas poderia significativamente reduzir o tamanho dos balancetes das autoridades monetárias e, portanto, também sua habilidade em influenciar as taxas de juros de curto prazo, pilar básico das políticas monetárias modernas. Isso implica que a própria transmissão das mudanças de juros pelos bancos centrais pela economia, e o controle sobre moeda e crédito, poderiam tornar-se menos efetivos”. Disponível em:
https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td163. Acesso em: 01 set. 2019.
34 Trata-se do Princípio da Irretroatividade Tributária, conforme dispõe a Constituição Federal: “Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: III - cobrar tributos: a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado;.”BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 01 set. 2019.
35 “Art. 4º A natureza jurídica específica do tributo é determinada pelo fato gerador da respectiva obrigação, sendo irrelevantes para qualificá-la: I - a denominação e demais características formais adotadas pela lei; II - a destinação legal do produto da sua arrecadação.”BRASIL. Lei 5172, de 25 de outubro de 1966. Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e
às criptomoedas: Qual a natureza jurídica dessa tecnologia? É necessário responder a esse questionamento, pois a partir desse entendimento será possível compreender qual a natureza das diversas operações realizadas com as moedas virtuais e, então, poderá se confirmar a36 ocorrência de fato gerador em determinada situação.
A princípio, cabe evidenciar a ocorrência de 4 possíveis operações a serem realizadas com as criptomoedas: (1) aquisição originária de moedas virtuais (mineração), (2) investimento em moedas virtuais (por meio da compra e venda, por exemplo), (3) recebimento a título gratuito e (4) a sua utilização para a aquisição de mercadorias e serviços.
Para o estudo das possibilidades, apresenta-se as 3 naturezas jurídicas mais evidentes, as quais são discutidas ao redor do mundo: criptomoedas como moedas (I), ativos financeiros (II) ou bens (III). Desse modo, passa-se à análise dessas possibilidades no contexto nacional.
Quanto à moeda , o ordenamento jurídico brasileiro apresenta alguns impasses a 37 essa configuração. A Constituição Federal delimita de maneira clara o comportamento 38 estatal diante do sistema monetário. Veja-se:
CONSTITUIÇÃO FEDERAL
Art. 21. Compete à União: [...] VII - emitir moeda;
Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: [...] VI - sistema monetário e de medidas, títulos e garantias dos metais;
Art. 48. Cabe ao Congresso Nacional, com a sanção do Presidente da República, não exigida esta para o especificado nos arts. 49, 51 e 52, dispor sobre todas as matérias de competência da União, especialmente sobre: [...] XIII - matéria financeira, cambial e monetária, instituições financeiras e suas operações; XIV - moeda, seus limites de emissão, e montante da dívida mobiliária federal.
Art. 164. A competência da União para emitir moeda será exercida exclusivamente pelo banco central.
Diante disso, resta evidente a previsão constitucional de monopólio exercido pela União sobre o sistema monetário nacional, o qual é materializado pela atuação do Banco
36 A título exemplificativo, há de se perceber que se as moedas virtuais forem consideradas como moedas em determinada operação de circulação, poderia-se estar diante de uma caso de tributação do IOF. De forma distinta, as criptomoedas seriam objeto de tributação do ICMS se declaradas bens para esses fins.
37Conforme a conceituação econômica clássica, a moeda possui como principais funções ser meio de troca, atuar como unidade de conta ou, ainda, como reserva de valor. Como meio de troca, trata-se do seu atributo de facilitar as transações e eliminar a necessidade de coincidência de demandas, necessária no sistema de escambo. Como unidade de conta, a moeda está relacionada com o fato ser o referencial das trocas, ou seja, o instrumento de cotação. Por fim, funcionando como reserva de valor, trata-se do poder de compra que se mantém no tempo, ou seja, como medição de riqueza. Disponível em: https://politicamonetaria.webnode.com.br/moeda/. Acesso em: 02 set. 2019.
38 BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 05 set. 2019.
Central. É nesse contexto que a União Federal, por meio das Leis n. 8.880/94 , n. 9.069/95 39 40 e n. 10.192/01 , estabeleceu o Real como única moeda válida no território nacional. Logo, é 41 fundamental o reconhecimento por parte do ordenamento jurídico para a caracterização de moeda.
Ademais, a União por meio das normas anteriormente citadas dispõe sobre o curso legal da moeda nacional e seu poder liberatório.
Em relação ao curso legal, pode-se entender como a capacidade de sua utilização como forma de pagamento em determinada localização. Nesse aspecto, o Real possui curso legal, pois sua aceitação é obrigatória em todo o território brasileiro, conforme se observa no 42 artigo 1º da Lei n. 9.069/95 e no artigo 315 do Código Civil . 43
Assim, devido a sua capacidade de utilização como forma de pagamento e da obrigatoriedade de sua aceitação em determinado território, a moeda possui necessariamente o poder de liberar determinado devedor de suas obrigações a partir do momento que ela a entrega ao credor, o que é chamado de poder liberatório.
Diante disso, a partir do disposto na legislação brasileira, não há que se falar da configuração das criptomoedas como moedas , visto que o Real é a única moeda estabelecida44
39BRASIL. Lei 8.880, de 27 de maio de 1994. Dispõe sobre o Programa de Estabilização Econômica e o Sistema Monetário Nacional, institui a Unidade Real de Valor (URV) e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8880.htm. Acesso em: 10 set. 2019.
40 BRASIL. Lei 9.069, de 29 de junho de 1995. Dispõe sobre o Plano Real, o Sistema Monetário Nacional, estabelece as regras e condições de emissão do REAL e os critérios para conversão das obrigações para o REAL, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9069.htm. Acesso em: 10 set. 2019
41BRASIL. Lei 10.192, de 14 de fevereiro de 2001. Dispõe sobre medidas complementares ao Plano Real e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10192.htm. Acesso em: 10 set. 2019
42 O caráter obrigatório de nossa moeda nacional pode ser observado no o artigo 1º da Lei 10.192/01. “Art. 1o As estipulações de pagamento de obrigações pecuniárias exeqüíveis no território nacional deverão ser feitas em Real, pelo seu valor nominal.” Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10192.htm. Acesso em: 10 set. 2019. Ademais, a Lei de Contravenções penais (Decreto-lei 3.688/1941) estabelece o pagamento de multa para aquele que recusar recebimento, pelo seu valor, de moeda de curso legal no país. “ Art. 43. Recusar-se a receber, pelo seu valor, moeda de curso legal no país”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3688.htm. Acesso em: 10 set. 2019.
43 O art. 1º da Lei 9.069/95 e o art. 315 do Código Civil evidenciam o curso legal em nosso ordenamento jurídico. Veja-se: “Art. 1º A partir de 1º de julho de 1994, a unidade do Sistema Monetário Nacional passa a ser o REAL (Art. 2º da Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994), que terá curso legal em todo o território nacional.” BRASIL. Lei 9.069, de 29 de junho de 1995. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9069.htm. Acesso em: 10 set. 2019 “Art. 315. As dívidas em dinheiro deverão ser pagas no vencimento, em moeda corrente e pelo valor nominal, salvo o disposto nos artigos
subseqüentes.” BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de
2002.http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/Leis/2002/L10406.htm. Acesso em: 10 set. 2019.
44 Restaria ainda reflexão sobre a possibilidade de reconhecimento das moedas virtuais como moedas estrangeiras em nosso país, a exemplo de dólares, euros, ienes, entre outros. Entretanto, é perceptível um padrão
no território nacional, inexistindo a possibilidade de emissão de moeda, no sentido jurídico, a qual seja emitida por sujeitos privados, ainda mais sem a existência de terceiro controlador do sistema.
Entretanto, apesar da impossibilidade do referido reconhecimento jurídico, há de se reconhecer que atualmente as criptomoedas cumprem o papel econômico inerente às moedas legalmente reconhecidas, visto que cada vez mais são aceitas como instrumentos de troca por bens e serviços, como já exposto anteriormente.
Nesse aspecto, cumpre demonstrar os impactos da utilização da referida tecnologia como meio de troca: as criptomoedas naturalmente se tornam usuais, diante do Princípio da Autonomia Privada. Porém, os efeitos jurídicos diferem daqueles resultantes da utilização do Real, visto que o poder liberatório aqui observado é resultante somente do acordo entre as partes envolvidas.
Assim, conclui-se que as criptomoedas podem adquirir poder liberatório resultante do acordo entre as partes envolvidas em uma transação. Porém, não existe curso legal inerente à tecnologia, o que também revela a impossibilidade de reconhecimento como moeda sob a 45 ótica do Direito Tributário.
A primeira tentativa de regulamentação veio do Poder Legislativo. O Projeto de Lei nº 2303/15 , o qual ora tramita na Câmara dos Deputados, não atribui aos 46 bitcoins o conceito de moeda. Na verdade, o projeto visa a incluir as moedas virtuais no conceito de arranjo de pagamento , trazendo sujeição expressa à supervisão do Banco Central. 47
Nesse sentido, a Lei não traz muitas inovações, tratando basicamente de explicitar
nas moedas assim referidas, as quais possuem direta relação com a soberania de países ou o reconhecimento de organizações como blocos econômicos. Nessa perspectiva, não parece coerente à adoção de tese nesse sentido na presente pesquisa.
45 Fernando Ulrich em “Bitcoin: a moeda na era digital” observa que “bitcoins, como unidade monetária, são mais bem considerados um bem incorpóreo que, em certos mercados, têm sido aceitos em troca de bens e serviços. Poderíamos dizer que essas transações constituem uma permuta, e jamais venda com pagamento em dinheiro, pois a moeda, em cada jurisdição, é definida por força de lei, sendo uma prerrogativa de exclusividade do estado.” ULRICH, Fernando. Bitcoin: a moeda na era digital. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2014. p. 113.
46 BRASIL. Projeto de Lei 2303, de 8 de julho de 2015. Dispõe sobre a inclusão das moedas virtuais e programas de milhagem aéreas na definição de "arranjos de pagamento" sob a supervisão do Banco Central. Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1555470. Acesso em: 25 set. 2019. 47 Conforme disposto na Lei 12.865/13, Arranjo de pagamento é “o conjunto de regras e procedimentos que disciplina a prestação de determinado serviço de pagamento ao público aceito por mais de um recebedor, mediante acesso direto pelos usuários finais, pagadores e recebedores.” BRASIL. Lei 12.865/13, de 9 de outubro de 2013. Dispõe sobre os arranjos de pagamento e as instituições de pagamento integrantes do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). Disponível em:
competências regulatórias que já decorrem de normas vigentes, principalmente a Lei 12.865/03.
Se aprovada, as consequências positivas são principalmente a submissão das operações com criptomoedas ao disposto no Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90) e a inclusão dessa tecnologia no rol daquelas passíveis de constituírem indícios dos crimes previstos na lei de lavagem de dinheiro (Lei n. 9.613/98). A consequência dessa última referência seria a necessidade de comunicação dessas operações ao COAF (atual Unidade de Inteligência Financeira) . Porém, resta necessário destacar que o Projeto não deixa claro48 quem estaria obrigado a prestar informações ao COAF e em que circunstâncias, apresentando de maneira genérica diante do desconhecimento das particularidades da tecnologia.
Ademais, a despeito da inexistência de previsão legal sobre a matéria até o presente momento, a Receita Federal tomou o primeiro grande passo para a solução da controvérsia referente às criptomoedas por meio do Perguntas e Respostas do ano de 2016 : 49 manifestou o entendimento no sentido de que as criptomoedas, embora não consideradas moedas para o ordenamento jurídico, devem ser declaradas na Ficha Bens e Direitos como “outros bens”, visto que são equiparadas a um ativo patrimonial . 50
A temática das moedas virtuais não havia sido abordada até o referido documento, os “Perguntões” (terminologia usual) anteriores ao de 2016 não apresentavam previsões e os posteriores passaram a adotar os mesmos dois pontos trazidos no referido documento (perguntas 447 e 607).
Nesse sentido, além de determinar a obrigação de o contribuinte declarar as as suas criptomoedas para fins de imposto de renda, a Receita Federal do Brasil também ressalta
48 Conforme o art. 11, II, b, da Lei n. 9613, as pessoas previstas na lei (art. 9) deverão comunicar ao COAF a proposta ou realização das operações que, nos termos de instruções emanadas das autoridades competentes, possam constituir-se em sérios indícios dos crimes previstos na Lei (crimes de “lavagem”), ou com eles
relacionar-se. BRASIL. Lei 9.613/13, de 3 de março de 1998. Dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores; a prevenção da utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9613.htm. Acesso em: 25 set. 2019.
49 O Perguntas e Respostas, chamado de “Perguntão”, é um relatório anual que reúne questionamentos importantes que podem esclarecer dúvidas quanto à apresentação da Declaração de Ajuste Anual (DAA) do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física. RECEITA FEDERAL. Perguntas e Respostas. 2016. Disponível em: http://receita.economia.gov.br/interface/cidadao/irpf/2016/perguntao/irpf2016perguntao.pdf. Acesso em: 25 set. 2019.
50 Ponto 447 do Perguntas e Respostas do ano de 2016. RECEITA FEDERAL. Perguntas e Respostas. 2016. Disponível em: http://receita.economia.gov.br/interface/cidadao/irpf/2016/perguntao/irpf2016perguntao.pdf. Acesso em: 25 set. 2019.