Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?
Texto
(2) 32. Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?. 1.. INTRODUÇÃO A audiodescrição (AD) é a transformação de imagem em texto, realizada em peças teatrais, cinema e televisão, cujo fim prioritário é tornar acessíveis esses eventos culturais aos deficientes visuais, noção que inclui pessoas cegas e com baixa visão, sejam deficiências congênitas ou adquiridas. A AD consiste na elaboração de um roteiro e, posteriormente, na sua narração por um locutor em um canal de som complementar ao do produto audiovisual. Nesse canal de som são descritas — no silêncio entre as falas dos personagens e sem interferir em sons importantes para a trama — expressões faciais, cenários, vestimentas, expressões corporais, títulos, símbolos relevantes, textos escritos na tela e créditos. Assim sendo, a audiodescrição é um texto multimodal, já que o sentido do roteiro só é pleno em conjunto com o áudio do filme, o qual contém elementos verbais (falas dos personagens) e puramente auditivos (ambiência sonora). Apesar desse recurso de tecnologia assistiva já ser uma realidade nos Estados Unidos e em países da Europa, aqui no Brasil, a audiodescrição é uma prática que começa a dar seus primeiros passos, mesmo já sendo garantida por lei desde 2000. O número de deficientes visuais em nosso país é significativo, cerca de 10% da população – aproximadamente 16 milhões de pessoas – segundo o Censo de 2000, e a maior parte dessas pessoas vive, respectivamente, no Nordeste e no Sudeste. Entretanto, mesmo com um número significativo de deficientes visuais e com a obrigatoriedade da implementação da lei, as iniciativas que utilizam esse recurso de acessibilidade ainda são esparsas. O primeiro evento que utilizou a audiodescrição em nosso país foi o Festival Assim Vivemos em 2003. Em 2005, foi lançado Irmãos de Fé, primeiro DVD com AD, e, em 2007, o projeto Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito, no Centro Cultural Banco do Brasil, foi a primeira mostra de filmes com audiodescrição pré-produzida. O primeiro espetáculo teatral com esse recurso ocorreu nesse mesmo ano. Em 2008, a Natura produziu a primeira propaganda com AD, e a montagem do espetáculo de dança Os três Audíveis estreou com esse recurso de tecnologia assistiva. Além dessas iniciativas pioneiras em diferentes áreas, outros festivais, como o Festival de Curtas-Metragens de São Paulo, nas edições 2006 e 2007, também utilizaram a audiodescrição. Apesar da boa aceitação das iniciativas, somente o Festival Assim Vivemos e o Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito tiveram continuidade. As demais se tornaram eventos isolados, como muitos que ainda acontecem pelo país. No dia primeiro de julho deste ano de 2011, começou a obrigatoriedade da AD em duas horas semanais da programação da TV digital, e esse início, apesar de um pouco conturbado, já é reflexo de uma vitória de mais de dois anos de briga entre as emissoras, o governo, especificamente o Ministério das Comunicações, e. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(3) Larissa Magalhães Costa. 33. grupos sociais envolvidos na busca pela garantia da implementação de medidas de acessibilidade. As pesquisas acadêmicas sobre audiodescrição começaram na Europa na década de 1990, e a maior produção acadêmica se deu na área dos Estudos da Tradução a partir de 2000, embora ela também seja abordada no âmbito dos Estudos de Tecnologia Assistiva e de Educação Especial. Aqui no Brasil, a presença da audiodescrição na academia ainda é incipiente, apesar de estar atraindo novos pesquisadores e conquistando cada vez mais visibilidade. Hoje temos três importantes pesquisadores na área e consequentemente três importantes pólos de pesquisa: um, na UFBA, coordenado pela Profa. Eliana Franco; outro, na UECE, coordenado pela Profa. Vera Lucia Santiago; e outro, na UFPE, coordenado pelo Prof. Francisco Lima. Esse recurso passou a ser reconhecido na Europa e aqui como um modo de tradução audiovisual intersemiótico. Se a circunscrição da atividade tradutória consiste em uma tarefa complexa que há tempos ocupa os profissionais e os estudiosos da área, abordar a audiodescrição como uma modalidade de tradução traz um novo desafio ao debate, já que devem ser levadas em consideração as características específicas e exigências técnicas da AD. O fato de a tradução audiovisual (TAV) e, consequentemente, a AD serem vistas por muitos como um tipo de adaptação e não como tradução será meu ponto de partida para discutir um possível hiato entre significantes e práticas. Raquel Segovia inicia o texto “Adaptácion, traducción y otros tipos de transferências” afirmando que os estudiosos da tradução vêm expandindo seu campo de trabalho e investigação e que essa ampliação traz a reboque um problema terminológico, uma vez que algumas dessas práticas não deveriam ser consideradas tradução, apesar de terem características comuns. Para ela, a adaptação cinematográfica e televisa – principal tipo de adaptação a que se refere no texto – não pode ser considerada tradução, uma vez que a tradução e a adaptação são práticas diferentes e subgrupos de uma categoria maior por ela denominada transferências. Para empezar, hemos partido del supuesto de que ambas prácticas forman parte de una clasificación más general que aquí hemos denominado transferencias. Ahora bien, mientras que la traducción es un tipo de transferencia que se lleva a cabo entre diferentes lenguas y culturas, la adaptación es susceptible de realizarse tanto de esta forma como dentro de una única cultura y en la misma lengua (SEGOVIA, 2001, p. 228).. Segovia defende como tradução somente uma das tipologias propostas por Jakobson, a tradução interlingual ou tradução propriamente dita. A autora comenta que alguns teóricos consideram a divisão tripartite desse linguista russo bastante insatisfatória e problemática e utiliza uma citação de Theo Hermans para embasar seu posicionamento,. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(4) 34. Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?. mostrando que se Jakobson denomina “propriamente dita” um dos tipos de tradução, simultaneamente ele está considerando que as demais não são propriamente tradução: It is merely repeated, tautologically restated: this form of translation is translation, interlingual translation is ‘translation proper’. The addition of the qualifier ‘proper’ suggests moreover that the other two are not ‘properly’ translation. This, it will be appreciated, undermines the whole exercise of ranging them all three together as so many kinds of translation (HERMANS, 1995, p. 17 apud SEGOVIA, 2001, p. 224).. Apesar de discordar da argumentação de Segovia (e de Hermans) com relação à tipologia de Jakobson – que no meu ponto de vista não é hierarquizante e contribuiu para a ampliação dos objetos de estudo da área, ao invés de manter o conceito restrito –, a autora sinaliza um problema terminológico decorrente dessa ampliação, que precisa ser aprofundado. Como a própria autora afirma, a adaptação pode ser realizada entre línguas e culturas, mas também pode ser realizada dentro de uma mesma cultura e língua. A adaptação pode ser, por exemplo, uma reescrita interlingual de obras clássicas, adequando a linguagem a um determinado público, ou a transformação de obras literárias para cinema, televisão ou teatro. Essas duas acepções podem ser encontradas no verbete “adaptar” do dicionário Aurélio (1996, p. 43): “2. Modificar o texto (obra literária), ou tornando-o acessível ao público a que se destina, ou transformando-o em peça teatral, script cinematográfico etc.”. Contudo, a legendagem ou dublagem, modalidades mais conhecidas da tradução audiovisual, assim como as demais modalidades da TAV que lidam com as restrições de tempo e/ou de espaço, também podem ser consideradas um tipo de adaptação, como pode ser visto no verbete “Adaptation” da Routledge Encyclopedia of Translation Studies: Adaptation is also associated with ADVERTISING and AUDIOVISUAL TRANSLATION. The emphasis here is on preserving the character and function of the original text, in preference to preserving the form or even semantic meaning, especially where acoustic and/or visual factors have to be taken into account (ROUTLEDGE, 2009, p.4).. Apesar de a TAV viver um período de grande crescimento, trazendo grande visibilidade para os Estudos da Tradução (CINTAS, 2005, p.314), são poucos os trabalhos que problematizam sua inserção nesse campo ou sua “melhor” adequação aos Estudos da Adaptação. Jorge Diaz Cintas, em trabalho anterior ao citado acima, sinalizou que a tradução audiovisual era a atividade mais importante dos nossos dias em termos numéricos, por atingir um grande número de pessoas, mas que, paradoxalmente, apresenta uma quantidade reduzida de estudos, situando-se em um lugar “marginal” ou “subordinado”, provavelmente devido à noção corrente de tradução (Ver CINTAS, 2001, p.20). Já Eliana Franco, diferentemente de Cintas, atribui a quantidade reduzida de. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(5) Larissa Magalhães Costa. 35. estudos sobre a TAV ao fato de ela ser uma atividade recente, cujo desenvolvimento está atrelado aos avanços tecnológicos. A tradução audiovisual é uma área recente nos Estudos da Tradução porque, diferentemente das outras modalidades tradutórias, seu desenvolvimento está estritamente ligado ao desenvolvimento tecnológico. Ou seja, o refinamento da pesquisa em TAV depende, de certo modo, do avanço da mídia e de novos recursos tecnológicos oferecidos (FRANCO, 2007, p. 7).. Cintas, em trabalho recente (2007), afirma que a resistência à inserção das práticas que constituem a TAV nos Estudos da Tradução foi diminuindo com o tempo. Provavelmente um dos motivos para a diminuição dessa resistência seja o grande interesse do público nos produtos da TAV e a aceitação de um conceito de tradução mais flexível. En la actualidad, la tendencia más compartida va dirigida a una revisión del concepto de traducción con el objetivo de hacerlo más flexible e inclusivo, capaz de acomodar nuevas realidades profesionales, en lugar de rechazar aquellas actividades que no entran dentro de una noción rígida y desfasada de traducción, acuñada hace ya muchos siglos cuando ni el cine, ni la televisión, ni el ordenador, ni los móviles habían sido inventados todavía (CINTAS, 2007, p.11).. Vale lembrar que a tradução audiovisual se favorece academicamente com os Estudos da Tradução ao mesmo tempo em que traz muita visibilidade para a atividade tradutória como um todo, havendo, então, um favorecimento recíproco. O embate travado por Cintas em favor da aceitação das modalidades de TAV nos Estudos da Tradução se deve ao entendimento de que a adaptação é uma prática inferior à tradução. Nas palavras desse autor (2007, p. 11): “En la mayoría de debates académicos, el término ‘adaptación’ parece haber asumido una connotación peyorativa, de inferioridad con respecto al concepto de traducción”. Jorge Diaz Cintas rejeita o uso do termo “adaptação”, assim como Aline Remael, por acreditar que este tem conotação negativa, sendo visto e pensado, normalmente, como uma prática inferior. Eles afirmam que um dos grandes problemas da tradução audiovisual é que nos produtos audiovisuais são utilizados dois códigos – imagem e som – e que as limitações impostas pela necessidade de sincronia desses dois códigos obrigam, inevitavelmente, a síntese de informações, levando essa prática a ser vista como um tipo de adaptação (CINTAS; REMAEL, 2007, p. 9). Para ambos os autores, ser vista como adaptação é uma das razões para que a tradução audiovisual tenha sido ignorada pelos estudiosos da tradução até recentemente. Foi, sobretudo, a partir da classificação de Jakobson que a noção de tradução audiovisual passou a ser considerada por muitos autores. Para eles [Diaz-Cintas e Remael], era uma mudança necessária, já que, “[t]odos esse modos de tradução apagaram os limites tradicionais entre a tradução e a interpretação e entre os códigos oral e escrito” (GAMBIER, 2003, p.178). [...] Ou seja, com o advento dos. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(6) 36. Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?. meios audiovisuais, “[a] tradução deve ser entendida a partir de uma perspectiva mais flexível, heterogênea e menos estática, que engloba uma série vasta de realidades empíricas e acompanha a natureza sempre mutável da prática” (DÍAZ CINTAS; REMAEL, 2007b, p.10 apud SELVATICI, 2010, p.58).. Yves Gambier aponta que as práticas audiovisuais podem ser vistas como tradução se esta não for pensada como simples transferência palavra por palavra, mas como um conjunto de estratégias que incluem resumo, paráfrase etc. Nessa perspectiva a noção de texto se expande e inclui outros sistemas semióticos que também são partícipes da construção dos significados. A equivalência, então, passa a ser compreendida de maneira mais flexível. Diaz Cintas defende que El concepto tradicional de fidelidad formal, tan venerado por los estructuralistas de la lingüística de los años sesenta, ha de ser revisado y flexibilizado para el caso de la subtitulación y demás modalidades de traducción audiovisual. El one-to-one translation approach pierde toda su validez en nuestro terreno y el concepto de equivalencia, tanto semántica como formal, se debe entender desde una perspectiva mucho más maleable que en otras esferas de la traducción (CINTAS, 2007, p. 10).. Frederic Chaume, assim como Diaz Cintas, defende a ampliação, abandono ou redefinição dos conceitos de equivalência e fidelidade para incorporação das práticas audiovisuais nos Estudos da Tradução. Sería sensato para la traductología abandonar o darle un nuevo significado a concepciones estáticas como “equivalencia” o “fidelidad”. Tales términos han sido entendidos por muchos años de manera muy estricta, y renunciar a ellos o redefinirlos abriría camino a soluciones y estrategias traductivas practicadas todos los días por profesionales de esta modalidad (CHAUME, v. 9, no 15 (ene.-dic. 2004), p. 352).. É nessa perspectiva que Gambier sugere o uso do termo “tradaptação”, no qual se diluiriam as dicotomias tradução literal/livre e tradução/adaptação (Ver SELVATICI, 2010, p. 58; FERNANDES, 2007, p. 38). Diaz Cintas considera esse conceito de Gambier impreciso, desnecessário para o campo da TAV – apesar de reconhecer que é uma tentativa de achar um equilíbrio entre a tradução e a adaptação – e criado tardiamente, já que para ele a questão terminológica já está resolvida. Embora para Diaz Cintas a questão da terminologia já esteja resolvida e pareça haver atualmente, de maneira geral, a aceitação das modalidades da TAV nos Estudos da Tradução, Manuela Correia, em sua dissertação de mestrado, primeiro trabalho acadêmico sobre AD defendido no país, sinaliza que ainda há resistência na inserção da audiodescrição nos Estudos da Tradução. Até há bem pouco tempo, ainda havia certa relutância em se utilizar o termo “tradução” para se referir a práticas como a legendagem, a dublagem e o voice-over. Se isso ocorreu com modalidades de tradução audiovisual mais antigas, aquelas que são mais facilmente aceitas enquanto modalidades tradutórias devido ao seu caráter interlingual, nada mais natural que a resistência seja ainda maior no caso da audiodescrição, uma modalidade de tradução audiovisual intersemiótica que conta apenas com pouco mais de trinta anos de existência (CORREIA, 2009, p.12).. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(7) Larissa Magalhães Costa. 37. Correia mostra que Hynks, audiodescritora no Reino Unido, defendeu, em 2005, que a audiodescrição seria uma prática complementar à tradução, tendo em vista que para ela a tradução consiste na transposição fiel de uma língua para outra e a audiodescrição consiste muitas vezes na síntese das informações visuais. É notória na fala de Hynks a sedimentação da noção da tradução, presente no senso comum, que acredita em uma tradução fiel, na qual se parte do princípio de que é possível ao traduzir criar uma obra igual na outra língua ou, no caso da audiodescrição, em outro meio. Catalina Jimenez Hurtado e Ana Ballester Casado afirmam que a audiodescrição é uma modalidade de tradução audiovisual definida como uma tradução subordinada à imagem e limitada pelo tempo de silêncio no produto audiovisual (Ver HURTADO, 2006, p. 145, CASADO, v. 13, 2007, p.161). Casado complementa essa ideia informando que, dada a limitação do tempo, é fundamental saber escolher o que deve ser dito ou omitido. “Estabelecer prioridades a partir do princípio da relevância é um aspecto da audiodescrição que ainda há muito que se investigar” (2007, v.13, p. 161, tradução nossa). Vale ressaltar que todos os autores aqui mencionados defendem que a audiodescrição é, sim, uma modalidade de tradução audiovisual e não um tipo de adaptação, mesmo com as restrições de tempo e espaço. Eliana Franco vai além e afirma que [...] a tradução audiovisual é uma modalidade democrática, porque não trata apenas de filmes. Sua face democrática foi enfatizada faz pouco tempo, quando passamos a assimilar melhor o conceito de tradução intersemiótica de Jakobson, e a aceitar a adaptação fílmica como tradução, o que levou vários estudiosos de literatura a se interessar pela modalidade, e a escrever excelentes trabalhos sobre o tema. E mais recentemente, a importância da tradução audiovisual, e de seus modos de tradução mais conhecidos, como a legenda e a dublagem (e em seguida, o voice-over e a interpretação simultânea), foi redimensionada pela nova tendência de pesquisa na área, aquela que lida com o conceito de acessibilidade. Assim, pesquisas sobre a legenda fechada para deficientes auditivos e a audiodescrição para deficientes visuais começaram a ser desenvolvidas, e começaram a ganhar espaço no país (FRANCO, v. 13, 2007, p. 8, grifo nosso).. Até o momento, procurei dar um panorama geral da discussão acerca da inserção ou não da TAV nos Estudos da Tradução, mostrando diferentes pontos de vista sobre o tema e a maneira pela qual o debate foi travado no âmbito acadêmico. Para os teóricos da TAV, a recusa em aceitar que suas modalidades faziam parte dos Estudos da Tradução era decorrente de uma visão mais geral/tradicional de tradução, que é verter um texto de uma língua para outra, noção ainda presente no senso comum. Se inicialmente a tradução era pensada em termos de correspondências entre palavras, depois entre componentes sintático-lexicais, atualmente é corrente a compreensão de que a tradução é um processo de negociação ou mediação entre diferentes culturas e historicidades. Isso nos leva à reflexão acerca da ampliação do conceito de tradução. Se por um lado a inclusão da. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(8) 38. Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?. tradução audiovisual no conceito de tradução pode auxiliar na mudança da visão mais essencialista do senso comum que ainda pensa tradução como transporte completo de significados estáveis, por outro é fundamental questionar se a incorporação de novas modalidades de tradução não amplia demais esse conceito. No artigo “Sobre o que chamamos de tradução”, Maria Paula Frota e Helena Martins definem duas atitudes, quais sejam descritiva e avaliativa, como direcionamento para o debate dos possíveis limites para a tradução. Essas duas atitudes, que geram dois diferentes questionamentos – “O que chamamos de tradução?” e “O que devemos chamar de tradução?” respectivamente – são tratadas de maneira inter-relacional. Frota e Martins mostram que a reflexão descritiva e avaliativa dos limites conceituais e práticos da tradução propicia a análise do uso dessa palavra/conceito como excessivamente restritivo ou excessivamente amplo e defendem que, apesar de toda tradução ser uma transformação e por isso “o ato tradutório sempre [ser] em alguma medida interventor” (FROTA; MARTINS, 2009, p. 161), deve haver um limite nessa intervenção para que o produto seja designado como “tradução”. Trata-se de buscar um lugar no qual o fato de reconhecermos que todo conceito nasce por igualação do não igual não nos faça condenar toda e qualquer distinção conceitual ao estatuto de ilusão. Um lugar em que se possa reconhecer que não é porque a tradução é também, em algum sentido, autoria, adaptação e crítica ideológica que precisamos abrir mão de chamar alguns textos de “tradução”, outros de “original”, outros de “adaptação”, outros de “crítica”. [...] O fato de que a linha entre a verdade e a mentira não pode ser traçada de forma absoluta não nos deve impedir de considerar ultrajantes certas mentiras. E o fato de que o uso e o abuso da linguagem não podem ser separados não nos deve impedir de considerar abusivos certos usos (FROTA; MARTINS, 2009, p.172). É possível fazer um paralelo entre o que é defendido por Frota e Martins e o que Umberto Eco (2007) defende na introdução do livro Quase a mesma coisa. No debate sobre a tradução propriamente dita e a tradução intersemiótica, Eco se refere à necessidade de uma prudência terminológica, afirmando ser fundamental distinguir o que é uma tradução propriamente dita de uma tradução intersemiótica, entendida por ele como transmutação ou adaptação. Apesar de a audiodescrição vir se firmando como uma modalidade de tradução, considero necessário aprofundar o debate acerca dos limites e entrecruzamentos entre a tradução e a adaptação para melhor refletir se não seria mais adequado chamar a audiodescrição – um tipo de tradução intersemiótica, já que transforma imagem em texto – de adaptação e não de tradução por uma “prudência terminológica”, como defendido por Eco.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(9) Larissa Magalhães Costa. 39. Lauro Maia Amorim mostra que os limites que separam a tradução da adaptação são tênues e inexatos, na medida em que as definições desses termos não são definitivas e nem necessariamente consensuais, além de variarem ao longo da história. [...] os limites que a [adaptação] separariam da tradução não são “naturais”, nem tão nítidos como se supõe, e não há nenhuma unanimidade teórica quanto à possibilidade de delimitação objetiva (AMORIM, 2005, p.41). Os conceitos de tradução e de adaptação são concebidos com base em instância institucional mais ampla, que influencia as próprias opções investidas numa reescritura (AMORIM, 2005, p. 44).. Apesar de Amorim trabalhar essas duas noções no campo da reescrita literária, suas considerações sobre o tema trazem grande contribuição para o debate que aqui venho desenvolvendo, já que podem ser estendidas à tradução audiovisual e à audiodescrição em particular, salvaguardando as especificidades de cada campo. Refletirei sobre a ideia de fidelidade versus criatividade discutida por Amorim no livro Tradução e Adaptação: encruzilhadas da textualidade em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, e Kim, de Rudyard Kipling. Amorim promove o debate sobre fidelidade versus criatividade a partir do texto Translation and Adaptation de Johnson (1984) e mostra que para esse autor “apesar de a tradução e a adaptação operarem em níveis semelhantes, o ‘grau’ ou a ‘natureza’ da ‘aplicação mental’ variam em cada caso” (AMORIM, 2005, p. 81). A adaptação seria mais flexível e criativa do que a tradução, mas menos fiel, já que há maior espaço para modificação ou perda de informação. A tradução por sua vez seria mais exaustiva, por requerer maior rigor e fidelidade ao texto original. Na bibliografia consultada para produção deste artigo não encontrei nenhuma menção à ideia de criatividade atrelada às modalidades da TAV. Só há menção à necessidade de adequação do texto à restrição do tempo e, consequentemente, à síntese das informações, e ao fato de que essa necessidade de síntese leva alguns teóricos a considerarem essas modalidades como adaptação e não tradução. É possível que a falta de menção ao aspecto da criatividade nas modalidades da TAV seja decorrente da ligação que esta tem com a noção de adaptação: a criatividade faz parte dessas modalidades, uma vez que a restrição do tempo leva à condensação das informações e são necessárias soluções criativas para minimizar a perda de informação. Amorim aponta que para Susan Basnnett-McGuire a adaptação implica a transgressão dos limites do que se pensa como tradução, e traduzir seria manter-se no interior desses limites. Nesse sentido, a adaptação promoveria desvios em relação ao texto original. Mas quais seriam, então, esses limites? A síntese de informação, característica comum às modalidades da TAV, extrapola esses limites e promove desvios em relação ao original?. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(10) 40. Audiodescrição, transformação de imagens em palavras: tradução ou adaptação audiovisual?. Tanto o conceito de tradução quanto o de adaptação são atravessados por instâncias que informam seus sentidos, suas possibilidades, seus limites. A contradição não é um elemento externo ou contingente em relação à constituição desses limites, mas, pelo contrário, é um fator que “põe em jogo” a configuração das próprias fronteiras que separariam objetivamente, os “conceitos” e as produções textuais das concepções teóricas que os sustentam (AMORIM, 2005, p. 107).. Considero importante ressaltar que o que se discute aqui não são definições fixas e que não se alteram no curso da história, mas o debate sobre como essas definições são compreendidas neste momento histórico e quais os desdobramentos dessas definições na prática. Nesse sentido, os limites que separam tradução e adaptação não são naturais e sim culturais e, por isso mesmo, delimitáveis, não unânimes e mutáveis. Refletir sobre essa delimitação – que, para mim, deve ser flexível para incorporar essas novas afiliações, mas não tão abrangente a ponto de deixar de demarcar o não aceitável e acabar com as fronteiras, que não separam objetivamente, mas dão certo contorno às práticas e as organizam como objeto de teorização – é fundamental para pensar a tradução não só como objeto de teorização no âmbito acadêmico, mas para pensar também a forma como ela faz parte do ofício do tradutor ou nele interfere. Se na prática essas modalidades da TAV funcionam como adaptação e não como tradução, por que então não chamá-las de adaptação? É uma filiação estratégica que recusa uma denominação entendida como menor ou pejorativa? Parece-me que esses conceitos vêm sendo tratados como uma taxonomia binária. Se pensar os limites para chamarmos algo de tradução ou adaptação significa reconhecer critérios que utilizamos em nossa prática cotidiana, critérios que não estão lá a priori, mas são frutos de nossas práticas, temos que reconhecer também que essa oposição reduz esses conceitos e geram um hiato entre significantes e práticas. Amorim mostra que Gambier considera que a oposição entre tradução e adaptação é reducionista na medida em que representa uma ‘taxonomia binária’ que pressupõe um certo fetichismo em relação ao texto de partida, reproduzindo outras antinomias como literário/nãoliterário, literal/livre, forma/conteúdo etc. Na medida em que a tradução é mediação, somente pode ser concebida no espaço de adequações, ou seja, adaptações: a tradução, como mediação, é ajustamento a um contexto, a certos objetos ou intenções, a leitores ao mesmo tempo reais e objetos de representações de fantasmas. Ela é trabalho, negociação de sentido, interação: é necessariamente adaptação, como toda comunicação e não puro transporte de formas (GAMBIER, 1992, p.424 apud AMORIM, 2005, p.104). Fica evidente que tratar esses dois conceitos dicotomicamente é inadequado e insuficiente, na medida em que, inevitavelmente, eles se cruzam. Se inserir a TAV nos Estudos da Tradução e a audiodescrição na TAV tem intuito de atrelá-las a um campo já estabelecido institucionalmente, favorecendo-as academicamente, o grande interesse do público nessas modalidades traz visibilidade para os Estudos da Tradução, gerando um favorecimento recíproco. Para mim, a consolidação da AD como uma modalidade de TAV. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(11) Larissa Magalhães Costa. 41. e sua integração nos departamentos universitários de tradução ajuda na promoção, desenvolvimento e difusão de uma atividade de extrema relevância social.. REFERÊNCIAS CASADO, Ana Ballester. La audiodescriptión: apuentes sobre el estado de las perspectivas de investigación. TradTerm, São Paulo, v. 13, p.151-169, 2007. CINTAS, Jorge Diaz. Entrevista concedida a Eliana Franco e Vera Lucia Santiago. Cadernos de Tradução, v.2, n.16, 2005. CINTAS, Jorge Díaz. Traducción audiovisual y accesibilidad In: Traducción y accesibilidad Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de Traducción Audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007. p. 9-23 CORREIA, Manoela Cristina. Com os olhos do coração: estudo acerca da audiodescrição de desenhos animados para o público infantil. 2009. Dissertação (Mestrado) - Programa de PósGraduação em Letras e Lingüística, Universidade Federal da Bahia - UFBA, 2009. Disponível em: <http://www.audiodescricao.com>. Acesso em: 15 set. 2009. ECO, Umberto. Introdução. Quase a mesma coisa. Trad. de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2007. FERNANDES, Alexandra Valle. Tradução para legendagem: perspectivas e condicionalismos com uma breve análise de um episódio de Gilmore Girls – Tal Mãe, Tal Filha. 2007. Dissertação (Mestrado em Terminologia e Tradução) - Faculdade de Letras, Universidade do Porto, 2007. Disponível em: <http://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/14671/2/tesemesttraducaoparalegendagem000075130.pdf>. Acesso em: 05 abr. 2011. FRANCO, Eliana. Apresentação. TRADTERM, v. 13, p.7-10, 2007. FROTA, M.P.; MARTINS, H. Sobre o que chamamos de tradução. In: PIETROLUONGO, Márcia A. (Org.). O trabalho da tradução. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009. HURTADO, Catalina J. De imágenes a palabras: La audiodescripción como uma nueva modalidad de traducción y de representación Del conocimiento. In: Quo vadis translatogie? Ein halbes Jahrhundert universitare Ausbildung von Dolmetschern und Übersetzern in Leipzig. Frank&Time, 2006. Disponível em: <http://books.google.com/books?hl=en&lr=&id=NUNtOs9yDIAC&oi=fnd&pg=PA143&dq=audi odescripci%C3%B3n&ots=aw_6D4eOYB&sig=pOyggVY6rCPOsjaiEFStRcflyEM#v=onepage&q=a udiodescripci%C3%B3n&f=false>. Acesso em: 20 jul. 2009. SEGOVIA, Raquel. Adaptácion, traducción y otros tipos de transferencias In: CHAUME, Frederic; AGOST, Rosa (eds.). La traducción en los medios audiovisuales. Castelo de la Plana: Publicaciones de la Universitat Jaume I, 2001. SELVATICI, Carolina. Closed caption: conquistas e questões. 2010. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) - Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. Larissa Magalhães Costa Doutoranda em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), mestre em História Comparada (UFRJ) e graduada em História (UERJ), é audiodescritora desde 2008 com formação em roteiro e locução de audiodescrição. Fez workshops com Joel Snyder e Bernd Benecke e participa desde 2008 do Projeto Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito no CCBB. Em 2009 fez AD do livro Os Inclusos e os Sisos e em 2011 audiodescreveu a Exposição Muito Especial.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 22, Ano 2011 • p. 31-41.
(12)
Documentos relacionados
No entanto, maiores lucros com publicidade e um crescimento no uso da plataforma em smartphones e tablets não serão suficientes para o mercado se a maior rede social do mundo
The narrow and elongated ventral branch is located alongside the ventral margin of the dorsal branch and its dorsally directed tooth is lodged in the small concavity immediately
A avaliação realizada no presente estudo tem como base de dados os laudos analíticos de amostras de águas subterrâneas coletadas no segundo semestre.. Mapa hidrogeológico do
arrows indicate bigger (↑) or smaller (↓) gradient between the species……...…16 Figure 2 – Representation of some typical benthic foraminifera species life habit position, living
Através de uma nova perspectiva sobre a ideia de evento, apresentam-se algumas leituras que foram cruciais para a apropriação do acontecimento, na tentativa de compreender
LUIZ FERNANDO DE ALMEIDA SPINELLI, brasileiro, Engenheiro Civil, CREA 0600936580, Corretor de Imóveis, CRECI 30622, Pós-graduado em Pericias de Engenharia e
Pelo presente instrumento, o SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM COMERCIAL – SENAC / MA, com sede na Rua do Passeio, 495, Centro – São Luis / MA, neste ato representado pelo
LEVANTAMENTO E GRUPOS TRÓFICOS DE COLEOPTEROS CURSORES DE SOLO EM SERGIPE: IMPORTÂNCIA DOS COLEOPTEROS COMO INDICADORES DE PROCESSOS DE RECUPERAÇÃO FLORESTAL ± 2,5 cm