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Livro Lingua Latina

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Academic year: 2021

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Autor

Rodrigo Tadeu Gonçalves

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Todos os direitos reservados IESDE Brasil S.A.

Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 • Batel 80730-200 • Curitiba • PR

www.iesde.com.br Gonçalves, Rodrigo Tadeu.

Língua Latina. /Rodrigo Tadeu Gonçalves – Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2007.

184 p.

ISBN: 978-85-7638-771-8

1. Língua latina – Didática 2. Língua latina – Estudo e ensino 3. Língua Latina – Gramática 4. Língua latina – Literatura I. Título.

CDD 470.07 G635

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História do latim e as línguas neolatinas | 7

A hipótese do indo-europeu | 9

História do latim | 11

A passagem do latim para as línguas românicas modernas | 13 A latinização | 14

Fonologia e prosódia do latim | 21

A questão da duração das vogais | 22 O alfabeto latino | 23

O acento de intensidade | 25 As pronúncias do latim | 26

Estrutura da língua latina comparada com a do português | 31

A estrutura da língua portuguesa | 31

A estrutura do latim | 32

Comparação entre as duas línguas | 36

Sistema nominal latino | 43

As declinações nominais | 43 Os adjetivos de primeira classe | 47 Preposições | 49

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Graus dos adjetivose formação de advérbios | 73

A formação do comparativo dos adjetivos | 73 A formação do superlativo dos adjetivos | 75 Comparativos e superlativos irregulares | 76 Advérbios regulares | 76

Estrutura da língua latina: os verbos | 81

Características morfológicas dos verbos em latim | 81 Primeira conjugação verbal | 85

Segunda conjugação verbal | 88

Aprofundamento da morfologia verbal latina | 95

Terceira conjugação | 95

Quarta conjugação | 97 Conjugação mista | 99 Verbos irregulares | 101

A voz passiva e os verbos depoentes | 115

Voz passiva | 115

Verbos depoentes | 121

Os pronomes em latim | 131

Pronomes pessoais | 131 Pronomes possessivos | 132

Pronomes interrogativos e indefinidos | 133 Pronomes demonstrativos | 134

Pronomes relativos | 136

Conjunções: coordenação e subordinação | 147

Conjunções | 147

Conjunções coordenativas | 147 Conjunções subordinativas | 149

A questão da subordinação sem conjunção: o acusativo com infinitivo | 153

Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações | 161

Os numerais | 161

O calendário romano | 163

A quarta e a quinta declinações nominais | 167

Gabarito | 175

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É muito difícil não reconhecer a importância da língua latina para todos os estudiosos e profissionais de áreas relacionadas com a língua portuguesa, dada a relação de descendência histórica direta entre elas. Assim, a inclusão do estudo, ainda que incipiente, do latim nos currícu-los de Letras é fundamental.

Este livro tentará apresentar questões importantes da língua la-tina para alunos de graduação em Letras. O ensino do latim pretendido aqui é, portanto, instrumental, voltado para uma compreensão da nossa própria língua. Em especial, pensamos, o contato com a língua da qual a nossa deriva diretamente deve aumentar a nossa capacidade de refletir sobre estruturas linguísticas e sobre a nossa própria concepção da nos-sa própria língua, tanto no sentido histórico quanto no sentido sistemá-tico, nos termos da diacronia e da sincronia saussureanas.

Dessa forma, não pretendemos, por razões de escopo do mate-rial e do papel que essa disciplina exerce numa licenciatura em Letras – Português, oferecer um ensino extremamente complexo e aprofunda-do de todas as formas possíveis da gramática latina, nem pretendemos levar os aprendizes aos caminhos dos textos originais de forma mila-grosa. Mas sim, por outro lado, em uma tentativa metodologicamente reflexiva e crítica, pretendemos abrir o caminho ao aluno interessado para que, a partir daqui e das referências apresentadas ao longo do livro, continuem seus estudos a fim de que se apoderem dos tesouros do conhecimento, do pensamento, da literatura, da religião e da filoso-fia ocidentais a que o domínio pleno da língua latina conduz.

Isso não quer dizer, no entanto, que não tentaremos incentivar os alunos ao acesso desde o primeiro momento aos textos autênticos do vasto corpus da literatura latina: com glossários explicativos e adaptações mínimas, apresentaremos alguns excertos como base dos exercícios, para que, através de metodologia moderna no ensino da habilidade de leitura, possamos ajudar os alunos a se tornarem leitores capazes de compreen-der uma língua como o latim em sua base estrutural tão diversa da nossa. Por esse mesmo motivo, como o ensino da língua latina (que não tem mais falantes nativos vivos) só pode ser pensado de modo plausível visando a habilidade de leitura (e não as de escrita, produ-ção e compreensão oral), será necessário trabalhar com exemplos não-autênticos e que fugiriam aos moldes da literatura latina canônica. Faremos tudo, esperamos, de maneira dosada e sem distorcer o que deveria ter sido de fato a língua de Roma.

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as línguas neolatinas

Rodrigo Tadeu Gonçalves*

O latim é a língua que era falada na região central da Itália, chamada de Lácio, durante o primeiro milênio antes de Cristo e que, juntamente com o Império Romano, estendeu-se por grande parte da Europa, pelo norte da África e por diversas regiões da Ásia, até se transformar, através do curso natural das línguas, em dialetos incompreensíveis entre si, que acabaram dando origem a línguas como o nosso português, o francês, o catalão, o espanhol, o italiano, o romeno, o provençal, entre outras.

O latim que aprendemos hoje corresponde à variante literária de um período muito importante para a história do Ocidente: o período que, de maneira geral, compreende os séculos I a.C. e I d.C. Nesse período, grandes autores escreveram obras literárias que ajudaram a moldar as bases culturais, políticas, sociais, filosóficas e religiosas da Europa e, consequentemente, do mundo Ocidental. Dentre esses auto-res, podemos destacar o mantuano Públio Virgílio Maro1, que, dentre outras obras, escreveu a Eneida no

final do século I a.C. Virgílio narra, em doze livros de cerca de 700 a 1 000 versos cada, as origens históri-cas e mitológihistóri-cas da grandiosa Roma que, no seu tempo, era governada pelo imperador Augusto2, que,

após longas décadas de guerras civis, havia sido declarado imperador em Roma, e criaria um período de paz e prosperidade para a capital de um império que, se já vinha se expandindo enormemente ao longo dos séculos precedentes, avançaria seus domínios para lugares tão distantes quanto as Ilhas Britânicas, a costa do Norte da África (incluindo o Egito), e vários territórios do atual Oriente Médio, até as bordas do Mar Negro.

* Mestre em Letras e bacharel em Letras: português, inglês e latim pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

1 Virgílio nasceu no ano 70 a. C. perto de Mântua, na Gália Cisalpina, e morreu no ano 19 a.C.

2 De nome Gaio Júlio César Otaviano, Augusto recebeu esse título quando se tornou o primeiro imperador de Roma. Nasceu em 63 a.C. e morreu no ano 14 da nossa Era. Sob seu império, cessam quase cem anos de guerras civis entre os romanos, em especial, a mais importante, travada entre seu tio, Júlio César, e Pompeu.

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Te m át ic a C ar to gr afi a.

Mapa do Império Romano por volta da época de Augusto.

Na Eneida de Virgílio, o surgimento de Roma está ligado às raízes mitológicas européias, pois Enéias, o herói do poema, fugindo como um dos poucos sobreviventes da Guerra de Tróia3, recebe a

missão de buscar uma nova terra para fundar uma cidade que viria a ser a capital do mundo.

Os destinos e os deuses então guiam Enéias por terras distantes, até que ele chega na foz do rio Tibre, por volta do século VIII a.C., perto das famosas sete colinas que hoje ficam em Roma. Lá, seu filho Ascânio dá origem a uma linhagem de reis que misturam sua ascendência com as dos povos locais, que incluíam etruscos, faliscos, oscos, sabinos, entre outros, e que, com seus descendentes Rômulo e Remo, fundam a cidade de Roma.

Acompanhemos as palavras que Enéias ouve de seu pai, Anquises, quando desce aos infernos para encontrar-se com ele e conhecer o futuro glorioso de Roma:

Outros, é certo, hão de o bronze animado amolgar com a mão destra, ninguém o nega; do mármore duro arrancar vultos vivos.

Nos tribunais falar bem, apontar com o seu rádio as distâncias na azul abóbada e os astros marcar quando a leste despontam. Mas tu, romano, aprimora-te na governança dos povos. Essas serão tuas artes; e mais: leis impor e costumes, poupar submissos e a espinha dobrar dos rebeldes e tercos.4

A partir dos relatos míticos da fundação de Roma, as conquistas desse povo belicoso e austero tornaram grande parte do mundo conhecido falante de latim, e, com a fusão de Império Romano e Igreja ao longo dos primeiros séculos da Era Cristã, a religião, a cultura, a literatura, a filosofia e a

admi-3 Os gregos sitiaram a cidadela de Tróia por cerca de dez anos e finalmente a destruíram porque o belo Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, raptara a belíssima princesa Helena, esposa do chefe grego Menelau. Dentre os gregos destacavam-se, por exemplo, o engenhoso Odisseu, protagonista da Odisséia do poeta grego Homero, e o furioso Aquiles, tema do outro poema épico homérico, a Ilíada. Também durante a guerra de Tróia encontramos o ardil do cavalo de madeira cheio de soldados, o famoso “presente de grego”.

4 Tradução de Carlos Alberto Nunes para os versos 847 a 853 do Livro VI da Eneida. Em latim: Excudent alii spirantia mollius aera, / credo equidem, vivos ducent de marmore voltus, / orabunt causas melius, caelique meatus / describent radio, et surgentia sidera dicent: / tu regere imperio populos, Romane, memento; / hae tibi erunt artes; pacisque imponere morem, / parcere subiectis, et debellare superbos.

Expansão do Império Romano para a morte de César. Expansão territorial desde Augusto até Nero e época de Trajano. Tentativa de penetração Romano-Germânica na época de Augusto.

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nistração pública levaram a antiga língua da Itália, ao longo da Antigüidade e da Idade Média, para a grande parte da Europa.

Assim, se falamos português hoje, é porque a região onde hoje fica Portugal fez parte desse proces-so de recepção da cultura dos conquistadores romanos e a língua latina lá falada foi aos poucos se diferen-ciando do latim falado pelas outras regiões, até que já não fosse a mesma língua. Somos, de certa forma, herdeiros lingüísticos da empreitada do mítico Enéias, e, por isso, é ainda muito importante aprendermos ao menos um pouco dessa língua que constitui um dos pilares fundamentais da cultura ocidental.

A hipótese do indo-europeu

Ao longo principalmente do século XVIII, estudiosos europeus interessados em várias línguas e culturas começaram a perceber similaridades muito claras entre palavras de línguas que já se sabia que eram aparentadas, como o grego e o latim, e línguas de regiões muito afastadas da Europa Ocidental, como o sânscrito, língua sagrada da antiga civilização dos Vedas, da Índia. Perplexos, os pesquisadores começaram a estabelecer relações entre essas línguas e a maioria das línguas faladas na Europa, e fo-ram mapeando semelhanças que constituíam evidência forte demais para levantar a hipótese de que todas essas línguas teriam derivado de algum ancestral comum. Em 1786, Sir William Jones, magistrado do Império Britânico que fora enviado para a Índia, pronunciou em um discurso na Sociedade Asiática aquilo que seria o pontapé inicial da ciência linguística que viria a se desenvolver ao longo do século XIX: a linguística histórico-comparativa. Eis o famoso trecho do discurso:

O sânscrito, sem levar em conta a sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos. Mantém, todavia, com essas duas línguas tão grande afinidade, tanto nas raízes verbais quanto nas formas gramaticais, que não é possível tratar-se do produto do acaso. É tão forte essa afinidade que qualquer filólogo que examine o sânscrito, o grego e o latim não pode deixar de acreditar que os três provieram de uma fonte comum, a qual talvez já não exista. Razão idêntica, embora menos evidente, há para supor que o gótico e o celta tiveram a mesma origem que o sânscrito. (ROBINS, 1983, p. 107).

Essa nova ciência buscava compreender a sistematicidade das relações históricas entre as línguas que passaram a ser chamadas de indo-européias. Elas foram assim chamadas porque os pesquisadores acreditavam que não só o latim, o grego e o sânscrito, mas também a maioria das línguas européias e muitas asiáticas, como o inglês, o alemão, o russo, o persa, o hindi, o francês, e tantas outras, derivavam de uma mesma língua-mãe, o proto-indo-europeu.

Essa protolíngua5 da Europa e de grande parte da Ásia teria sido falada há cerca de sete mil anos

por um povo de origem ainda relativamente misteriosa, que, em virtude da necessidade de migrações em massa, levou sua língua e costumes (como seus hábitos agrícolas, o uso de cavalos e de instrumentos de guerra, e sua sociedade patriarcal) por diversas regiões em ondas migratórias que deixaram o grupo original fragmentado em grupos menores, sem contato uns com os outros. Assim, as regiões que, em períodos diferentes e em locais diferentes receberam grupos de nômades indo-europeus, desenvolveram seus dialetos de maneiras diferentes, gerando ramos diferentes de dialetos que foram se diferenciando e formando línguas diferentes. Dessa forma, temos o ramo indo-iraniano, do qual fazem parte línguas como

5 Chamam-se protolínguas as línguas originárias de todo um ramo de uma família linguística ou da família inteira. Assim, a família das línguas indo-européias tem a sua protolíngua, o indo-europeu, enquanto que dentro dessa família várias outras são protolínguas, como o protogermânico, o proto-eslavo e assim por diante.

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o persa, o sânscrito e o bengalês; o ramo eslávico, do qual fazem parte línguas como o russo, o búlgaro, o servo-croata, o polonês; o ramo germânico, do qual fazem parte línguas como o alemão, o inglês, o islan-dês, o norueguês, o holandês; o ramo helênico, do qual fazem parte, entre outras, o grego antigo e o grego moderno; o ramo céltico, do qual fazem parte línguas como o gaulês, o gaélico escocês e irlandês, o galês, entre outras; o ramo anatólico, do qual fazem parte línguas de locais bastante distantes da Europa, como o tocário, falado numa região da Ásia Central, hoje pertencente à China, e, por fim, o ramo itálico, do qual fazem parte o latim, o osco e o umbro, por exemplo.

islandês dinamarquês sueco norueguês Proto-Indo-Europeu ITÁLICO latim [Romance] francês italiano espanhol português romeno grego clássico grego koiné (Novo Testamento) grego moderno HELêNICO gaélico escocês gaélico irlandês galês CÉLTICO BALTO-ESLÁVICO lituano búlgaro russo polonês ucraniano sânscrito hindi

ÍNDICO ALBANêS ARMêNICO GERMâNICO

Germânico Ocidental frísio alemão inglês holandês Germânico Setentrional nórdico antigo Germânico Oriental gótico bengalês bengalês bengalês

Assim como nos outros ramos, línguas mais antigas deram origens a línguas mais novas com base em processos de dialetação semelhantes aos que levaram o proto-indo-europeu a vários lugares diferentes e que o transformaram em várias línguas diferentes. Do mesmo modo que do gótico antigo nós temos hoje o alemão e o inglês modernos, do latim antigo nós temos hoje um sub-ramo, chamado de ramo das línguas neolatinas ou românicas, composto por línguas como o português, o francês, o italiano, o espanhol, entre outras.

Vejamos uma tabela com algumas palavras em várias línguas indo-européias:

Português

pai mãe irmão lobo

Latim

pater mater frater lupus

Grego

pater meter phrater lykos

Sânscrito

pitar matar bhratar vrkas

Espanhol

padre madre hermano lobo

Francês

pere mere frere loup

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Inglês antigo

fæder modor brothor wulf

Alemão

Vater Mutter Bruder Wolf

História do latim

Estudamos o latim por meio de seus registros escritos, que são dos mais variados, como inscrições em muros, monumentos fúnebres, documentos transcritos e copiados em várias épocas, citações de textos mais antigos em textos de autores mais recentes, dentre outras fontes. Assim, há documentos de vários períodos, e há, obviamente, escassez maior de registros escritos de estágios mais antigos da língua. A história do latim que faremos aqui é, portanto, bastante resumida e de caráter didático.

Latim arcaico

Supõe-se que o latim tenha sido falado na região do Lácio por volta do século XI a.C., mas os primeiros registros da língua escrita encontrados datam do século VII ou VI a.C. Mais tarde, por volta do século III a.C., começam a ser produzidos textos literários em latim, em grande parte por meio de um processo de assimilação da cultura e literatura gregas do período.

Roma, então já uma potência, conquistava territórios de vários fundos culturais diferentes, e em pou-co tempo, por volta do século II a.C., o Mar Mediterrâneo já era praticamente dominado pelos romanos.

O ambiente cultural efervescente produzido pelo contato de várias culturas produziu em Roma o início de uma literatura que, de certa forma, surgiu como adaptação para o público falante de latim de textos épicos e dramáticos da tradição grega. É desse período, por exemplo, a suposta primeira obra da literatura latina, uma tradução da Odisséia de Homero feita pelo escravo grego Lívio Andrônico para propósitos educacionais. Lívio, capaz de ler e escrever em grego, trazido para Roma como escravo, tornou-se responsável pela educação dos filhos de seu senhor e, pela escassez de material, traduz o poema homérico para poder ensinar as letras às crianças em Roma. Assim sur-ge a literatura latina. Nesse período, ainda, outros autores produziram textos mais ou menos adap-tados da tradição grega, como as comédias de Plauto e Terêncio, de gosto popular, que seguem a tradição da Comédia Nova6 grega e as tragédias (em grande parte perdidas) de Névio e ênio, por

exemplo. Seguindo o caminho aberto por Lívio, Névio e ênio também escrevem os primeiros textos épicos em latim, dos quais, infelizmente, restaram apenas fragmentos.

Latim clássico

Convencionou-se chamar de latim clássico o estilo literário da língua ao longo do primeiro século a.C. até o início do primeiro século da Era Cristã. São desse período a prosa elaborada do político, filósofo e orador Cícero, a poesia lírica e a épica nacional de Virgílio, com as suas Bucólicas e a sua Eneida, e a lírica amorosa de

6 A Comédia Nova grega surge no período da virada do século IV para o III antes de Cristo, e baseia-se em tramas familiares, convencionais, com personagens caricaturais, como o velho imbecil, seu filho sem responsabilidades e, em geral, apaixonado por uma moça que não pode se casar com ele, o escravo sagaz do velho que ajuda o filho em suas desventuras etc. O principal autor grego dessa tradição é Menandro.

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Catulo, Propércio, Tibulo, Horácio e Ovídio. Em geral, o latim que ensinamos hoje em dia é a língua literária desse período, tanto por causa da beleza do estilo cuidadosamente trabalhado desses autores, quanto pelo fato de que grande parte do corpus mais substancial dos textos clássicos é literário, o que nos deixou sem muito acesso aos outros registros lingüísticos do período.

Latim culto

O latim culto era a variedade falada pela classe culta de Roma. Esse dialeto era a base do latim clássico, a variante literária. O latim culto deveria ser muito mais rígido quanto às normas gramaticais que estudamos hoje como sendo a gramática do latim, mas certamente muito menos estilizado que a língua literária, o chamado latim clássico. Documentos escritos nessa variedade linguística são menos comuns, mas é possível encontrar esse tipo de registro, por exemplo, em cartas de autores antigos, como as cartas de Cícero para seu irmão ou as cartas de Sêneca para sua mãe, nas quais a estilização e o trabalho estético consciente com a linguagem são menos intensos, ainda que presentes.

Latim vulgar

A variedade do latim chamada de latim vulgar é a língua das massas, dos analfabetos, do povo em geral. Os registros dessa língua são mais difíceis de se encontrar, mas dão testemunhos muito interes-santes da evolução do latim. As inscrições encontradas em muros, em banheiros públicos, e até mesmo em obras literárias que tentavam retratar a variedade linguística (como o romance chamado Satyricon, de Petrônio, autor do século I d.C., que apresenta longas passagens que tentam representar a língua do povo de Roma) nos mostram uma língua viva, muito frequentemente aberta às mudanças que ocorrem naturalmente nas línguas.

Um texto extremamente interessante é o chamado Appendix Probi, anônimo, provavelmente datado do século III a.C., que se constitui simplesmente de uma lista na forma de “X non Y”, que fun-cionaria para que as pessoas dissessem ou escrevessem X ao invés da forma realmente usada, Y. Nessa lista temos, por exemplo, a seguinte linha: auris non oricla. Essa linha nos diz muita coisa sobre como as pessoas falavam, e sobre como a língua seguia seu curso de mudança natural. A forma auris, em latim culto, que significa “orelha”, na fala popular, possivelmente recebia o sufixo diminutivo –cula, resultando em auricula7 “orelhinha”. Daí para a forma oricla, que deveria ser evitada, temos a mudança

do ditongo au para simplesmente o, e a queda da vogal u entre c e l. Ao estudarmos a passagem do latim para o português, vemos que é sistemática e regular essa mesma mudança de ditongos a vogais plenas, essas quedas de vogais e, além disso, vemos que frequentemente formas como –cla resultam em “-lha” e que vogais como i podem se “transformar” em e. Assim, “orelha” em português descende diretamente de auris ou de oricla? Parece claro que, ao menos nesse caso, a instrução do Appendix não funcionou! Mais de 20 séculos depois, sobrevive a forma “errada”! Curiosamente, como vimos acima, oricla já era uma forma diminutiva, então, etimologicamente, quando dizemos “orelha”, remetemo-nos historicamente ao jeito de dizer “orelhinha” em latim.

7 De onde vem, por exemplo, “auricular” em português? Essa é uma palavra que foi emprestada do latim muito tempo depois de a forma “orelha” já estar em uso pelos falantes de português. Esse tipo de empréstimo é considerado “erudito”, pois os falantes voltam ao latim para recuperar formas que, quando depois acolhidas pela língua, vivem lado a lado com as formas populares que já existiam. Os exemplos são muitos, como a forma popular “maduro” e a forma erudita “maturidade”, vindos do latim maturus, a forma popular “pai” e as formas eruditas como “patronímico”, ambos do latim pater, patris.

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Latim tardio

Após o período do latim clássico, o latim continuou sendo usado como língua do Império Ro-mano, que cresceu cada vez mais e, posteriormente, o latim tornou-se a língua oficial da Igreja Católica ocidental. Assim, ao longo de muitos séculos, o latim foi usado como língua universal para relações internacionais, para administração do Império e da Igreja, e ao longo da Antiguidade e da Idade Média, tudo que fosse importante era escrito em latim. Aos poucos, as comunidades foram desenvolvendo seus dialetos de forma que se afastassem mais e mais do latim, dando origem a línguas diferentes, mas a língua escrita continuava a seguir, na medida do possível, os padrões do latim culto, de forma que te-mos muito material escrito em latim “culto” por falantes nativos de outras línguas ou de outras varieda-des do latim. Esses registros escritos são bastante abundantes. Como exemplo, temos varieda-desde a tradução latina dos textos bíblicos, a Vulgata, vertida por São Jerônimo para o latim nos fins do século IV, até os documentos portugueses de administração e legislação do século XI, passando pela filosofia medieval e renascentista. Encontramos até mesmo textos escritos como teses e monografias de universidades no século XX, como a monografia que Karl Marx escreveu em latim sobre a filosofia do grego Epicuro.

É evidente que o latim, ao longo de tantos séculos de usos tão variados, foi sofrendo alterações substanciais, de forma que as variedades linguísticas resultantes foram se tornando incompreensíveis entre si, resultando, no curso dos séculos, em línguas diferentes, as chamadas línguas românicas.

A passagem do latim para as línguas românicas modernas

Como vimos anteriormente, o latim é a língua da qual surgem as chamadas línguas românicas, grupo que inclui não só o nosso português, mas também línguas importantes como o francês, o espa-nhol, o italiano, e línguas menores e menos conhecidas como o galego – falado na região da Galícia –, na Espanha, o provençal – idioma quase extinto falado em algumas regiões de fronteira da Itália com a França –, o catalão – língua oficial de Andorra e falado na Catalunha na Espanha –, o romeno – língua oficial da Romênia –, entre outras.

Como sabemos, além de o latim ter sido a língua de um dos maiores impérios que o mundo já viu durante tantos séculos, e além de ter sido a língua da administração religiosa, da produção científica e fi-losófica de grande parte da Europa por tanto tempo, as línguas diretamente derivadas do latim também encontraram seu caminho ao redor do mundo. O português, como sabemos, é falado não só no Brasil e em Portugal, mas também em Angola, Cabo Verde, Macau, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, entre outros países asiáticos e africanos pelos quais os portugueses passaram nos séculos XV e XVI, quando navegaram ao redor do mundo. Os espanhóis, de modo similar, levaram seu idioma a grande parte das Américas, o que explica o nome América Latina. O francês, também falado no Canadá, Suíça, Luxemburgo, Congo, Haiti, Senegal e em vários outros países, ajuda a dar uma idéia da importância das línguas românicas ou neolatinas ao redor do globo.

Além disso, mas não somente por esse fato, grande parte do vocabulário do inglês (que, embora seja uma língua indo-européia, faz parte de outro ramo, o das línguas germânicas) é de origem latina, via empréstimos do francês, ocorridos durante o período em que a Inglaterra foi dominada pelos Nor-mandos, por volta dos séculos XI e XII. Assim, a expansão de um vocabulário de origem latina ao longo das línguas mais importantes do mundo na atualidade faz com que grande parte do núcleo comum

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dessas línguas seja aparentado, facilitando a nós, falantes de uma língua latina, o reconhecimento de muitas palavras das outras línguas européias importantes.

A latinização

Tendo sido exposta toda a importância das línguas neolatinas no contexto mundial, passemos ao estudo de como o latim veio a se transformar nessas outras línguas.

Durante o período em que o Império Romano mantinha uma administração política centralizada, as conquistas de territórios, em geral, significavam a instalação de um governo local, que deveria utilizar-se do latim para fins gerenciais. Não só isso, mas também os povos dominados, por motivos diversos, acabavam falantes do latim, ou como língua materna ou como segunda língua. As línguas locais, mais ou menos aparentadas do latim, acabavam influenciando a língua latina usada na região e, com o passar do tempo, conforme os dialetos latinos das províncias iam se consolidando, eles iam tomando características individualizadas, e aos poucos esses dialetos se constituíam como línguas autônomas. A seguinte passagem explica esse processo chamado latinização:

Latinização ou romanização é a assimilação cultural e lingüística dos povos incorporados ao universo da civilização latina. O fato de tantos povos de língua, raça e cultura diferentes terem adotado a língua e, pelo menos em parte, a civi-lização dos vencedores é um fenômeno único na história da humanidade. Essa aceitação, porém, não se deveu a impo-sições diretas. As conquistas romanas tinham caráter político e econômico; não houve por parte de Roma pretensão de impor aos conquistados sua língua ou sua religião; ao contrário, considerava o uso da língua latina como uma honra. Se os drúidas foram perseguidos na Gália, isso aconteceu porque a utilização de vítimas humanas nos sacrifícios feria o di-reito romano, ao qual se dava grande valor e importância. O Novo Testamento mostra que os romanos não eliminavam instituições políticas, religiosas ou jurídicas, obviamente desde que não conflitantes, dos povos incorporados: o povo judeu manteve a religião, o sinédrio, o sumo sacerdote, os levitas e os saduceus; a casa real de Herodes continuou a existir. Deviam pagar os impostos, enquanto as legiões cuidavam da segurança e ao governador romano era reservada a palavra final em questões jurídicas específicas, como no caso da condenação à morte. (BASSETO, 2005, p. 103).

Esse processo não é nada simples. Por exemplo, embora o latim tenha sido usado nas Ilhas Bri-tânicas, uma das últimas províncias a serem conquistadas (o que se deu por volta do século I d.C.), ao longo do processo de descentralização do poder imperial, ao longo do período de queda do Império Romano (que atinge seu ápice quando o Império Romano Ocidental deixa de ter um centro político no século V, em virtude das invasões bárbaras), as províncias mais afastadas e aquelas onde havia menor centralização do poder e unidade cultural não mantiveram o latim como língua “oficial”. Isso explica porque territórios mais próximos de Roma, como as terras onde hoje temos França, Espanha, Portugal e Itália, mantiveram-se falando latim, enquanto que, uma vez que o domínio imperial enfraquecia-se, províncias como a Bretanha acabaram por continuar a falar as línguas locais, o que aconteceu em gran-de parte do resto da Europa e das outras regiões ao redor do Mar Mediterrâneo, da Ásia Menor, entre outros. Por isso os ingleses, os egípcios, os escandinavos e tantos outros hoje em dia não falam uma língua neolatina.

Nos locais em que a língua latina foi falada por mais tempo, mesmo com o enfraquecimento e posterior queda do domínio do império, os dialetos foram se diferenciando cada vez mais dos dialetos das outras regiões falantes do latim. Aos poucos, falantes do latim da Ibéria já não conseguiam entender plenamente falantes da península itálica, por exemplo.

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Como vimos nas seções anteriores, havia uma diferença substancial entre o dialeto da classe ur-bana culta de Roma, base da língua literária que conhecemos como latim clássico, e o chamado latim vulgar, língua falada pelas classes mais baixas, em geral analfabetas. Esse latim vulgar, provavelmente muito diferente de região para região, por ser a língua viva que fervilhava nos mercados, que era falada pelos estrangeiros, pelos escravos de outros lugares, pelos trabalhadores, pelos soldados de baixa pa-tente em tantos lugares diferentes, deve ter sofrido mudanças mais rapidamente que o dialeto urbano culto de Roma. Com o passar dos séculos, esse latim vivo das províncias foi o que serviu de base para as transformações posteriores que resultaram nas línguas neolatinas.

Vejamos alguns exemplos de semelhanças nos vocabulários das línguas românicas ou neolatinas: a) nos nomes de algumas cores:

Português

Francês

Espanhol

Italiano

latim

branco blanc blanco bianco album

negro noir negro néro niger, nigra, nigrum

verde vert verde vérde viridis

b) nos nomes dos números de um a dez:

Português

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Latim

unus duo tres quattuor quinque sex septem octo novem decem

Espanhol

uno dos tres cuatro cinco seis siete ocho nueve diez

Catalão

un dos tres quatre cinc sis set vuit nou deu

Galego

un dous tres catro cinco seis sete oito nove dez

Português

um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez

Francês

un deux trois quatre cinq six sept huit neuf dix

Italiano

uno due tre quattro cinque sei sette otto nove dieci

Romeno

unu doi trei patru cinci şase şapte opt nouâ zece

Texto complementar

O seguinte texto corresponde a um trecho da Eneida de Virgílio, na tradução do paraense Carlos Alberto Nunes. O trecho conta o início da história do Cavalo de Tróia, e consiste no início do Canto II do poema. Nele, o protagonista Enéias narra à sua amante, Dido, a rainha de Cartago, como foi esse episódio da Guerra de Tróia, na qual ele lutara, e da qual ele saíra como sobrevivente e com a missão de encontrar a terra prometida, a Nova Tróia, que viria a ser Roma.

(16)

Prontos à escuta calaram-se todos, dispostos a ouvi-lo. O pai Enéias, então, exordiou do seu leito elevado: Mandas, rainha, contar-te o sofrer indizível dos nossos, como os aquivos9 a grande potência dos teucros10 destruíram,

reino infeliz, espantosa catástrofe que eu vi de perto, e de que fui grande parte. Quem fora capaz de conter-se sem chorar muito, mirmídone ou dólope ou cabo de Aquiles? A úmida noite do céu já descamba, e as estrelas, caindo devagarinho no poente, os mortais ao repouso convidam. Mas, se realmente desejas ouvir esses tristes eventos, breve relato do lance postremo11 da guerra de Tróia,

bem que a lembrança de tantos horrores me deixe angustiado, principiarei. – Pela guerra alquebrados, dos Fados12 repulsos

em tantos anos corridos, os cabos de guerra da Grécia

com a ajuda da arte de Palas13 construíram na praia um cavalo

alto como uma montanha, de bojo com tábuas de abeto. Voto de pronto regresso era a máquina, todos diziam. Nessa medonha caverna, tirados por sorte, os guerreiros de mais valor ingressaram, num ápice enchendo as entranhas daquele monstro, com armas e gente escolhida de guerra. Tênedo, ilha famosa se encontra defronte de Tróia,

rica no tempo em que o império de Príamo ainda existia, ora uma enseada de pouco valor ou nenhum para as naves. Prestes mudaram-se os dânaos; na praia deserta se ocultam. Nós os supúnhamos longe, a caminho da rica Micenas. Com isso a Têucria respira mais leve no luto penoso.

Abrem-se as portas; alegram-se os troas de ver mais de espaço o acampamento dos dórios, as praias desertas agora:

O ponto era este dos dólopes; eis onde Aquiles se achava;

9 Os gregos.

10 Os troianos.

11 Último.

12 Os Fados são os destinos, os desígnios que fogem até mesmo à vontade dos deuses.

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surtos na terra, os navios; o campo em que as hostes lutavam. Muitos pasmavam de ver o presente ominoso da deusa, a imensidão do cavalo. Timetes, primeiro de todos, aconselhou derrubarmos o muro e direto o postarmos na cidadela, ou por dolo isso fosse ou dos Fados previsto. Cápis, porém, e outros mais de melhor parecer insistiam para que ao mar atirássemos logo a armadilha dos dânaos, fogo deitássemos nela ou que ao menos o ventre do monstro fosse explorado ou sondadas as vísceras sem mais reservas. Assim, o vulgo inconstante oscilava entre vários alvitres. Nisso, Laocoonte ardoroso, seguido de enorme cortejo, da sobranceira almeidina desceu para a praia, e de longe mesmo gritou: – Cidadãos infelizes, que insânia vos cega? Imaginais porventura que os gregos já foram de volta, ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses, então, a tal ponto desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros, ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas,

e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade.

Qualquer insídia contém. Não confieis no cavalo, troianos! Seja o que for, temo os dânaos, até quando trazem presentes. Disse, e arrojou com pujança viril um venab’lo dos grandes contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia, no qual se encrava, a tremer; sacudida com o baque, a caverna solta um gemido, abaladas no fundo as entranhas do monstro. Oh! Se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira, com o ferro, então, deixaríamos frustra a malícia dos gregos, e em pé, ó Tróia, estarias, o paço luxuoso de Príamo.

(18)

Atividades

1. Individualmente ou em grupo, analise as indicações do Appendix Probi abaixo e discuta em que medida ainda hoje cometemos os mesmos “erros” e por quê.

a) umbilicus non imbilicus b) uiridis non uirdis. c) formica non furmica

(19)
(20)
(21)

e prosódia do

Este texto pretende capacitar os alunos a pronunciar o latim de acordo com o que se considera a maneira mais correta, segundo estudos baseados em várias evidências. Algumas delas são os erros cometidos por falantes de latim menos cultos em inscrições (por exemplo, quando um falante de portu-guês escreve “caza” ao invés de “casa”, sabemos que é porque o som do grafema1 “s”, quando em posição

intervocálica, e o do “z” são iguais), os testemunhos de gramáticos antigos (quando tentavam descrever articulatoriamente o som de cada letra2) e o modo como certos grafemas são pronunciados em diversas

línguas derivadas do .

Portanto, é aceitável que haja consenso no modo como se pronuncia o latim hoje, e uma sistemati-zação (inclusive se mais próxima do modo como os falantes do latim no período clássico falavam) do modo como se pronuncia uma língua que já não possui mais falantes é extremamente desejável e importante. Por exemplo, podemos superar barreiras internacionais quando pensamos em estudos que envolvam o latim e podemos nos comunicar com estudiosos do latim no mundo todo e sermos entendidos. Como ou-tro exemplo da importância da tentativa de padronizar a pronúncia do , se a reconstituição da pronúncia do latim clássico é realmente acurada, poderemos nos treinar para pronunciar a literatura escrita em latim de maneira correta, o que nos permitirá admirar uma dimensão extremamente importante da literatura do período, que envolvia ritmo e duração de vogais.

A pronúncia que usaremos, portanto, é a chamada pronúncia reconstituída ou restaurada do , que é re-sultante de evidências como as descritas acima. Há ainda pelo menos duas outras maneiras de pronunciar o latim que são importantes e comuns. Uma delas, mais ampla em nível internacional, é a chamada pronúncia eclesiástica. A pronúncia eclesiástica é mais comum entre estudiosos do latim ligados à religião e apresenta

1 Tentaremos não cometer confusões terminológicas sérias como atribuir um “som” a uma “letra”. Na verdade, as letras são símbolos gráficos (unidades chamadas “grafemas”) que representam “fonemas”, ou unidades mínimas de som de uma dada língua. Ainda que estejamos lidando com uma língua chamada de “morta”, porque não há mais falantes nativos vivos dela, com os avanços da linguística, é possível falar em “grafemas” e “fonemas” para o . Ainda que não estejamos empregando os símbolos do Alfabeto Fonético Internacional (International Phonetic Alphabet – IPA), usaremos algumas notações caras aos estudos linguísticos, como os sinais “[ ]” para indicar pronúncia aproximada (nesse livro, sempre de modo impressionístico, dadas as características do , língua já sem falantes nativos).

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algumas diferenças com relação à pronúncia reconstituída, como veremos. Uma terceira maneira de pronun-ciar o latim é mais regional, e, no caso do Brasil e de Portugal, é chamada de pronúncia tradicional (ou portu-guesa). Na verdade, as pronúncias tradicionais locais são pronúncias do latim influenciadas pela fonologia da língua local. Assim, além da pronúncia tradicional portuguesa, encontramos uma pronúncia tradicional do latim influenciada pelo inglês, outra pelo alemão e assim por diante.

Os motivos que nos levam a adotar a pronúncia reconstituída nesse material são de diversas ordens: Como exposto anteriormente, os argumentos para a reconstituição da pronúncia do latim a.

que chamamos de pronúncia restaurada ou reconstituída são baseadas em várias evidên-cias, muitas delas baseadas em diversos dados, como os erros de ortografia dos falantes nativos do latim de épocas antigas, os testemunhos de gramáticos antigos sobre como eram pronunciadas as letras e a evolução da pronúncia das diversas línguas derivadas do , as lín-guas românicas.

Se as evidências são de natureza variada, é plausível que a pronúncia reconstituída seja mais b.

próxima do que se considera que fosse a pronúncia do latim pela classe culta no período clás-sico. Isso inclui o fato de que a construção poética na literatura latina se baseava fortemente no som das palavras e, assim, pronunciando o latim de forma mais próxima como se deveria pronunciar, apreciamos a literatura latina mais plenamente.

Uma pronúncia adotada em vários lugares do mundo e sem vieses ideológicos (como o reli-c.

gioso ou o nacionalista) é mais apropriada para estudos também não enviesados.

A questão da duração das vogais

São cinco as vogais em : a, e, i, o, u (o y também é considerado vogal, porém é usado basicamente em palavras estrangeiras, como as gregas). No entanto, cada vogal poderia ser pronunciada de forma longa ou breve. Comumente, representam-se as vogais longas com o sinal diacrítico mácron ( ¯ ) e as vogais breves com o sinal diacrítico braquia ( ˘ ) sobre as vogais. Assim, temos as vogais longas ā, ē, ī, ō e ū e as vogais breves ă, ĕ, ĭ, ŏ e ŭ.

De acordo com os testemunhos da métrica clássica e dos gramáticos antigos, a duração de uma vogal dizia respeito ao tempo relativo de produção de cada vogal. Cada vogal longa corresponderia ao tempo de duração da pronúncia de duas breves. Dessa forma, um ā corresponderia à pronúncia seguida de dois ă ( ¯ = ˘˘ ).

A pronúncia adequada de vogais breves e longas em latim era extremamente importante, uma vez que palavras de mesma grafia pronunciadas com diferença apenas na duração de uma vogal poderiam significar coisas totalmente diferentes. Por exemplo, hĭc significa “este”, enquanto que hīc significa “aqui”; ĕst é a forma de terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “ser” latino, enquanto que ēst é a forma de terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “comer” latino.

Por isso, ainda que não pronunciemos todas as vogais longas e breves como os falantes de latim as pronunciavam, já que, em português, a duração de vogais não é fonologicamente distintiva como era em , nesse material tentaremos marcar como longa ou breve toda vogal que, para fins de reconhe-cimento e distinção de formas linguísticas, seja necessariamente breve ou longa.

(23)

O alfabeto latino

O alfabeto latino teve origem no alfabeto usado pelos gregos. Em períodos mais antigos, o latim era escrito apenas com letras maiúsculas, sem sinais de pontuação. Hoje, costuma-se usar pontuação e letras minúsculas, mesmo em início de sentenças. Maiúsculas são usadas apenas em nomes próprios.

O alfabeto latino é praticamente igual ao alfabeto usado hoje por nós, falantes de português, exceto pelo fato de que a letra V/u exercia as funções do que hoje são as letras V/v e U/u e a letra I/i do que hoje são o I/i e o J/j.

Vamos às letras individuais:

A a: lê-se como o nosso “a” aberto, não nasal, como em “amor”, “casa”. B b: como o nosso “b” em “boca”.

C c: na pronúncia reconstituída, o “c” sempre se lê como uma consoante oclusiva3 [k], e nunca

como uma fricativa [s]. Assim, Cicero lê-se sempre “kíkero”, e não “síssero”.

D d: como o nosso “d” em “dedo”. A regra que transforma o “d” antes de “i” em alguns dialetos do português em [dj] não se aplica em .

E e: o “e” breve (ĕ) lê-se como o “e” aberto em português, como em “pé”. O “e” longo (ē) lê-se como o “e” fechado em português, como em “cabelo”.

F f: como o nosso “f” em “flor”.

G g: assim como o “c”, o “g” em latim era sempre oclusivo, como em “gato”. Assim, genus deveria ser lido como [guênus] em português, e não como [jênus].

H h: o “h” latino era sempre uma consoante fricativa aspirada e, portanto, era sempre pronuncia-do. Assim, o “h” em hodie deveria ser pronunciado como uma consoante, aspirado na garganta, e não como o “h” em “hoje”, que não é pronunciado. O “h” era pronunciado aspirado mesmo quando logo após consoantes oclusivas, como em philosophia (lido com um “p” seguido da soltura do ar entre os lábios antes da produção da vogal), e thalamus (com a soltura do ar antes da vogal depois da pronúncia do “t”), por exemplo.

I i: essa letra em latim representava tanto o “i” vocálico quanto o “i” semivocálico (que aparece imediatamente antes ou depois de uma outra vogal, funcionando como uma ditongação da vogal – um exemplo em português é o “i” em “pai”, que não é pronunciado como uma vogal plena, e sim como uma semivogal, ou seja, algo intermediário entre a vogal “i” e a consoante “j”). Assim, o “i” latino se pronuncia como o “i” em “ilha” (vogal) ou como o “i” em “ioiô” (semivogal). Posteriormente, o “i” semivocálico latino transformou-se no “j” do português. Assim, de Iuppiter em latim temos “Júpiter” em português. Não ha-via em latim o som que representamos pela consoante J j em português, embora alguns dicionários e edições de textos latinos apresentem a semivogal latina grafada como J j e a vogal grafada como I i, por questões didáticas.

K k: assim como o “k” em português, o “k” latino era usado em palavras emprestadas de outras línguas, em especial do grego. Assim, o “k” em kalendas se pronuncia como o “c’ em “calendário”.

3 Uma consoante oclusiva é uma consoante que, para ser produzida, requer que haja fechamento completo da passagem do ar pela boca e soltura posterior. São oclusivas, por exemplo, as consoantes [d, t, p, b, k], entre outras, enquanto as fricativas são consoantes que requerem passagem constante do ar pela boca, com alguma constrição (que nunca é completa) em algum local, como com a língua perto dos dentes superiores, o que produz os sons [s] e [z], ou com os dentes superiores no lábio inferior, que produz os sons [f] e [v].

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L l: como o “l” em “lua”.

M m: antes de vogal e em posição intervocálica, como em “mel”. Em fim de palavra, ocorria nasa-lização da vogal anterior, assim como em “amaram”.4

N n: antes de vogal e em posição intervocálica, como em “nariz”. Em fim de palavra, diferentemen-te do “m”, o “n” era pronunciado como consoandiferentemen-te plena, e não como nasalização da vogal. Por exemplo, o n sublinhado em nomen est é pronunciado da mesma forma que o “n” sublinhado em “benefício”.

O o: assim como o “e”, o “o” breve (ŏ) era pronunciado como o “o” aberto em “ódio” e o “o” longo (ō) era pronunciado como o “o” fechado em “orelha”.

P p: como o “p” em “pipoca”.

Q q: o q em latim era sempre seguido da semivogal “u”, de forma que sempre era pronunciado como o [kw] de “aquário” [akwário], e nunca como o [k] de “quente” [kente].

R r: o r latino nunca era pronunciado como o r aspirado fricativo de “rua” [hua], e era sempre pro-nunciado como o “r” em “era” ou, ainda, como o “r” vibrante de alguns dialetos do sul do Brasil, que é como se fosse uma sequência rápida de vários “r” como o de “era”.

S s: como o “s” em “silêncio”. O “s” latino nunca era pronunciado sonorizado como o “s” de “casa”, mesmo quando em final de palavra. Não ocorre em latim o processo de sonorização que ocorre em português. Em português, o “s” em final de palavra antes de outra palavra que comece com vogal ou com consoante sonora sofre sonorização, e assim a pronúncia de “casas”, por exemplo, tem [s] ou [z] pro-nunciados no final, a depender do que vem depois. Dessa forma, temos [kazas] em “casas quadradas” e [kazaz] em “casas azuis” ou “casas vermelhas”.

T t: como o “t” em “tatu”. A regra que transforma o “t” antes de “i” em alguns dialetos do portu-guês em [tch] não se aplica em latim.

V u: Essa letra em latim representava tanto o “u” vocálico quanto o “u” semivocálico (que aparece imediatamente antes ou depois de uma outra vogal, funcionando como uma ditongação da vogal – um exemplo em português é o “u” em “mau” [maw], que não é pronunciado como uma vogal plena, e sim como uma semivogal, ou seja, algo intermediário entre a vogal “u” e a consoante “v”; outro exemplo é o som do “w” em “kiwi”). Assim, o “u” latino se pronuncia como o “u” em “uva” (vogal) ou como o u em “auê” (semivogal). Posteriormente, o “u” semivocálico latino transformou-se no “v” do português. Assim, de uita em latim temos “vida” em português. Não havia, em , o som que representamos pela consoante V v em português, embora alguns dicionários e edições de textos latinos apresentem a semivogal latina grafada como V v e a vogal grafada como U u por questões didáticas.

X x: sempre como o encontro [ks] em português, assim como no estrangeirismo “ecstasy”, e nunca como em “êxtase”.

Y y: como o “ü” francês ou alemão, ou seja, trata-se de uma vogal como “i”, mas pronunciada com os lábios arredondados para produzir um “u”. Estrangeirismos como “Müller” exemplificam o som dessa vogal, de origem grega no alfabeto latino.

4 Há controvérsias entre os teóricos sobre se o “m” final representava apenas a nasalização da vogal anterior ou se era pronunciado como consoante oclusiva bilabial nasal, ou seja, com o fechamento completo dos lábios e a produção de um “m” como o de “minha”. Sigo aqui a teoria de que o “m” final nasaliza a vogal anterior em virtude de que, em métrica latina, uma sílaba final de uma palavra pode sofrer o processo chamado de “crase” quando termina em vogal + “m” e a palavra seguinte inicia-se por vogal, o que indica que o “m” possivelmente não era consonantal em final de palavra. Outra evidência a favor dessa posição é que palavras com “n” final não se encaixam nessa regra de crase na métrica.

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Z z: Assim como o “x”, o “z” era pronunciado como consoante dupla, e devia ser lido como [dz]. Os ditongos em latim são apenas os seguintes:

ae (também grafado æ)

:::: pronuncia-se como o ditongo “ai” no português “pai”, por exemplo.

oe (também grafado œ)

:::: pronuncia-se como o ditongo “oi” no português “foi”, por exemplo.

ei

:::: como o ditongo “ei” no português “andei”. ui

:::: como o ditongo “ui” no português “fui”. au

:::: como o ditongo “au” no português “mau”. eu

:::: como o ditongo “eu” no português “cresceu”.

O acento de intensidade

O , além de marcar todas as vogais como longas ou breves, mantinha em seu sistema prosódico a marca de intensidade das sílabas relativamente independente do sistema de duração.

A marcação de intensidade de sílabas cria o fenômeno chamado acento. Trata-se de acento do ponto de vista da produção das sílabas mais fortes (tônicas) ou mais fracas (átonas), e não do ponto de vista da marcação gráfica de acentos (graves, agudos, circunflexo e til, por exemplo).

Em, não havia palavras cujo acento principal caía na última sílaba (oxítonas), a não ser que a pala-vra consistisse de apenas uma sílaba.

Todas as outras palavras tinham acento tônico principal ou na penúltima ou na antepenúltima sílaba, a depender dos seguintes fatores:

se a penúltima sílaba for longa, recebe o acento principal (a palavra é paroxítona). a.

se a penúltima sílaba for breve, o acento não recai sobre ela, e o acento principal cai sobre a a.

antepenúltima sílaba (a palavra é proparoxítona). Reconheceremos uma sílaba longa das seguintes maneiras:

a vogal principal é naturalmente longa (marcada com o sinal de mácron; ex.:

a. habēre);

a sílaba contém um ditongo (ex.:

b. prōēlium);

uma vogal é seguida por duas consoantes

c. 5 ou por consoante dupla “x” ou “z” por exemplo: āctus.

Por isso, saber se uma vogal é longa ou breve é bastante importante, e marcaremos a vogal longa nesse livro sempre que ela for importante para o reconhecimento do padrão acentual da palavra. Bons dicionários de latim marcam as vogais longas e breves de todas as palavras.

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As pronúncias do latim

Existem várias maneiras de pronunciar o . Como neste livro adotaremos a pronúncia reconstruída ou reconstituída, é importante saber que adeptos de outras formas acabam pronunciando ligeiramente diferente da que adotaremos aqui. Vejamos quais são as formas mais comuns de se pronunciar “o” .

Pronúncia reconstituída

Como vimos nas seções anteriores, a pronúncia reconstituída é aquela que tenta resgatar o modo como os romanos cultos do período clássico pronunciavam a sua língua. As evidências para a recons-tituição da pronúncia original do latim são, por exemplo, erros de ortografia de falantes menos cultos (escrever “caza” ao invés de “casa” indica, em português, que pronunciamos o “s” e o “z” nesses contextos da mesma forma – assim acontecia com exemplos em latim que servem para que se possa reconstituir a pronúncia do ), testemunhos de gramáticos antigos sobre a pronúncia das letras, regras do sistema poético latino, entre outros.

Pelo fato de que se trata de uma pronúncia que tenta, com a maior quantidade de dados empíri-cos que for possível coletar, reproduzir a exata forma como os falantes nativos de latim pronunciavam seu idioma, adotaremos essa pronúncia em nosso curso.

Pronúncia eclesiástica

O latim foi pronunciado por muito tempo com forte influência da língua-mãe da região onde era falado. Assim, o italiano influenciou fortemente a pronúncia do latim na Itália, sede da Igreja Católica. Os ritos tradicionais da Igreja acabaram sendo pronunciados com a pronúncia italiana do , o que fez com que houvesse grande influência da pronúncia italiana do latim ao redor do mundo, em especial no que concerne às relações entre latim e Igreja Católica. A essa pronúncia com forte influência da pronúncia do italiano chamamos de pronúncia eclesiástica do .

Algumas características da pronúncia eclesiástica são:

Os ditongos “ae” e “oe” são sempre pronunciados como um “e” aberto (como em pé). Assim, femi-nae, que na pronúncia reconstituída se pronuncia com um ditongo [ai] no final, na pronúncia eclesiásti-ca se pronuncia [feminé], com acento principal em “fe”.

A letra “c” não é pronunciada sempre como se fosse um “k”, como na pronúncia reconstituída, e sim como o “tch” de “tchê” antes de “e” e “i”. Assim, na pronúncia eclesiástica, Cícero pronuncia-se “tchí-tchero”, e não “kíkero”.

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As pronúncias locais

As pronúncias influenciadas por outras línguas locais acabaram por gerar variações regionais no modo como o latim é pronunciado. Por exemplo, na chamada pronúncia tradicional portuguesa, pronun-ciam-se as palavras latinas quase como se estivesse usando o sistema de pronúncia do português.

Algumas características são, por exemplo:

Os ditongos “ae” e “oe” são pronunciados [é], assim como na pronúncia eclesiástica.

::::

Os grafemas “j” e “v” são pronunciados como consoantes, e não como semivogais. Assim, a

::::

forma Iupiter é pronunciada [Júpiter], como em português, e a forma uita se pronuncia [vita], como no português “vitalidade”.

O “t” antes de “i” e não precedido das consoantes “s”, “t” e “x” é pronunciado [ss]. Portanto,

::::

iusti-tia lê-se [justíssia].

Listamos aqui apenas algumas das características das pronúncias eclesiástica e tradicional portugue-sa, apenas para que se saiba que pode haver variação no modo como se pronuncia o . No entanto, pelos motivos listados ao longo deste capítulo, sugere-se que o aprendiz de latim tente pronunciar as palavras do modo mais próximo ao que teria sido o modo como os romanos pronunciavam o latim em Roma por volta dos séculos I a.C. e I d.C., ou seja, usando a pronúncia chamada de restaurada ou reconstituída.

Texto complementar

O seguinte texto trata das teorias dos autores antigos sobre as letras e seus sons. O trecho destacado em negrito serve como exemplo de testemunho de tentativas de descrição dos sons das letras pelos autores antigos.

(WEEDWOOD, 2002, p. 43-46)

Gregos e romanos compartilhavam concepções semelhantes da natureza da littera (grego: grámma), a menor unidade da fala (vox; grego: phoné). Havia duas visões distintas, frequentemente expostas lado a lado. De acordo com uma, a littera era o símbolo escrito, a representação do som da fala (: elementum; grego: stoikheïon). Essa visão, a precursora da moderna dicotomia letra-som, foi menos importante na Antigüidade (e, de fato, até por volta de 1800) do que a segunda visão, mais complexa. Estóicos e romanos descreviam a littera como uma entidade com três propriedades: seu nome (nomen), sua forma ou aspecto escrito (figura) e seu som ou valor (potestas). Essa visão mais flexível, suscetível de extensão e refinamento num grau muito maior que a crua oposição entre letra e som, foi a base para uma série de abordagens multifacetadas e infinitamente variadas da littera por parte dos estudiosos antigos e, mais ainda, dos medievais.

(28)

Potestas era a propriedade da littera cujo domínio mais se aproximava do moderno campo da fonética. Platão, Aristóteles e os latinos classificam as litterae do seguinte modo:

Vogais Litterae

Semivogais Consoantes

Mudas

(A categoria das “semivogais” incluía o que modernamente chamamos de continuantes: Do-nato inclui F, L, M, N, R, S, X sob esta rubrica.)

Só uns poucos estudiosos sentiram a necessidade de ir mais fundo na fonética articulatória. Entre eles estavam Dionísio de Halicarnasso (em atividade entre 30 e 8 a.C.), cuja notável descrição da articulação dos sons do grego ficou desconhecida do Ocidente latino até sua primeira edição em 1508 pelo grande impressor veneziano Aldo Manúcio, e o metricista Terenciano Mauro (século II), cujo relato em versos dos sons e metros latinos foi pouco lido antes do Renascimento. Na prática, as vinhetas de uma linha oferecidas por Marciano Capela (século V) em sua enciclopédia alegórica, O Casamento de Filologia e Mercúrio (III, 261), foram as únicas descrições articulatórias dos sons do latim disponíveis para a maioria dos estudiosos medievais. Caracterizações do tipo “o D surge do ataque da língua perto dos dentes superiores” ou “o L soa docemente com língua e palato” ou “Apio Cláudio detestava o Z porque imita os dentes de um cadáver” ainda eram citadas no século XVI. Somente depois de se familiarizarem com as descrições articulatórias muito mais deta-lhadas, que eram lugar-comum nas gramáticas medievais do hebraico e do árabe, é que os cristãos do Renascimento começaram a se interessar pela fonética articulatória.

Em contrapartida, as propriedades do nomen e da figura despertavam um interesse mais ativo e criativo entre os estudiosos medievais. Coleções de alfabetos exóticos – grego, hebraico, “caldeu”, gótico, runas, ogamos, vários códigos e cifras – circulavam amplamente, bem como breves tratados sobre a invenção de várias escritas. Uma antiga forma de taquigrafia, as notas tironianas, era pratica-da em alguns centros monásticos nos séculos IX e X, enquanto em outros os escribas adicionavam subscrições em latim transliterado em caracteres gregos. Um notável pequeno tratado do século VII ou VIII, atribuído a certo Sergílio[...], descreve o movimento da pena ao formar cada letra e dá o nome de cada gesto em , grego e hebraico: “Quais são os nomes dos três gestos da letra A nas três línguas sagradas? Em hebraico, abst ebst ubst. Como são chamados em grego? Albs elbs ulbs. E em ? Duas linhas oblíquas e uma reta traçada entre elas”.

Mas o que interessava aos autores medievais não era a littera como uma unidade de fala fisi-camente visível ou audível, e sim, muito mais, sua possível importância na iluminação dos aspectos

(29)

superiores da ordem do mundo. Um autor do século VII, Virgílio Gramático, explicava: “Tal como o homem consiste de corpo, alma e uma espécie de fogo celeste, assim a littera é constituída de corpo – isto é, sua forma, sua função e sua pronúncia (suas juntas e membros, por assim dizer) – e tem sua alma em seu sentido, e seu espírito em sua relação com as coisas superiores”. Outros autores aplicavam interpretações tipológicas e alegóricas a vários aspectos da littera, no mais das vezes à sua forma. Seu som era de menor importância: era a parte terrena da littera, seu “corpo”. Só lentamente, à medida que a Idade Média se encerrava, é que os pensadores ocidentais começaram a voltar seu interesse para a parte física da fala, tal como passaram a levar mais a sério as manifestações físicas do mundo natural. O ímpeto para tal iniciativa não veio de dentro da própria tradição ocidental, mas de fora dela: primeiro, durante o Renascimento, do mundo semita; mais tarde, por volta de 1800, da Índia.

Atividades

1. Em duplas ou grupos de até quatro alunos, escolham algumas das palavras latinas abaixo e organizem-se de forma que cada aluno leia uma palavra por vez, enquanto outro aluno ouve a pronúncia da palavra e procura nas regras da pronúncia reconstituída informações para julgar se o colega está lendo corretamente a palavra, tanto do ponto de vista da pronúncia das letras individualmente quanto do ponto de vista de onde vai o acento principal da palavra. O aluno que estiver ouvindo deverá apontar os eventuais erros ou inconsistências e tentar corrigir o leitor.

abīre dexter ingens proponĕre tendĕre

accusāre diuus iubēre puella tollere

addĕre eques iuuāre quietus utilitas

aestas facĕre luna quis uehemens

amicitia ferox luxuria redīre uenīre

aqua gens mediocris rex uoluntas

bibĕre grauitas necessario saeuus uoluptas

caput homo nuntius sapientia

ciuis hora obiicĕre saxum

decem humanĭtas paruus suauis

delēre indignus postridie surgĕre

2. Selecione palavras de três ou mais sílabas no exercício anterior, escreva-as abaixo, marque a sílaba tônica da palavra com um acento agudo ( ´ ) e justifique, segundo as regras de acentuação aprendidas nesta aula.

(30)
(31)

latina comparada com

a do português

Neste texto, veremos as principais diferenças entre a estrutura morfossintática1 da língua

portu-guesa e do latim. Para um curso com a extensão deste, é possível que esta seja a questão mais relevante a ser aprendida apropriadamente sobre o latim, pois, ainda que a Língua portuguesa seja diretamente derivada do latim, a estrutura das duas línguas é bastante diferente no que concerne ao modo de esta-belecer as conexões entre as palavras.

A estrutura da língua portuguesa

Basicamente, o sentido de uma oração em Português depende da ordem em que colocamos as palavras umas diante das outras. Assim, as seguintes orações têm sentidos diferentes:

a) O poeta vê a lua. b) A lua vê o poeta.

Claramente, embora a segunda sentença seja gramatical2, ela significa algo bastante diferente da

primeira. Isso se dá porque a ordem em que sujeito e objeto direto são ditos influencia na nossa per-cepção de quem faz o quê para quem, nas sentenças normais da língua. Explicando melhor, na primeira sentença, é o sujeito “o poeta” quem “vê” com seus olhos o objeto direto “a lua”, a coisa vista. Na segunda,

1 Morfossintática porque envolve tanto a forma interna das palavras quanto o modo como as palavras se combinam umas com as outras para produzir expressões bem-formadas da língua.

2 Sentenças gramaticais são aquelas que não violam regras gramaticais da língua, e que, portanto, poderiam ser ditas por qualquer falante dela.

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a mesma expressão lingüística, “o poeta”, aparece depois do verbo transitivo direto, de modo que ele passa a ser o que é visto no evento de “ver” denotado pela sentença. Nesse segundo caso, por causa da ordem das palavras, quem age no evento de ver é a lua (mesmo que pareça implausível ou estranho imaginar que a lua veja alguma coisa – mas, afinal, o que seria da linguagem se ela não nos permitisse dizer todas as coisas que quiséssemos?), que, através dos seus “olhos”, “vê” o poeta.

O que queremos mostrar é que o processo sintático na Língua portuguesa envolve a colocação das palavras em uma ordem linear mais rígida, e o que define quem é o sujeito e quem é o objeto em sentenças transitivas simples, como as duas acima, é qual expressão nominal aparece antes e qual ex-pressão nominal aparece depois do verbo.

Isso se dá de várias formas, e em vários níveis. Por exemplo, dizemos “o poeta”, e não “poeta o”; dizemos “vê a lua”, e não “a vê lua”, nem “vê lua a”. Tudo isso tem a ver com o fato de que em Português as palavras são concatenadas às outras seguindo regras sintáticas rígidas de colocação.

Vejamos quais são as funções sintáticas importantes em uma sentença mais complexa, e como elas se realizam em Português:

c) O cozinheiro dá um camelo para o escravo do senhor no fórum. Analisando a sentença com calma, temos o seguinte:

“o cozinheiro” é a expressão sujeito do verbo principal da sentença, pois concorda com ele e

::::

aparece antes dele.

“dá” é o verbo principal da sentença, e requer três argumentos

:::: 3 para ter a idéia do evento

com-pleta: alguém que dá (o sujeito), algo que é dado (o objeto direto) e para quem se dá a coisa (o objeto indireto).

“um camelo” é o objeto direto do verbo, o

:::: algo que é dado.

“para o escravo” é o objeto indireto, o

:::: para quem se dá algo.

“do senhor” é uma expressão preposicionada que se junta a um nome (o escravo) de modo

::::

a formar uma adjunção, ou seja, uma expressão que pode (mas não precisa) se unir a outro nome para especificá-lo mais (um adjetivo poderia fazer a mesma coisa – por exemplo, pode-ríamos ter “o escravo esperto” ao invés de “o escravo do senhor”).

“no fórum” é uma expressão preposicionada que funciona como um circunstancializador do

::::

evento, que diz onde o evento ocorreu.

Com essa sentença analisada, passamos à análise da estrutura do latim.

A estrutura do latim

Diferentemente do Português, que estabelece a maioria das relações sintáticas através da ordem sequencial em que colocamos as palavras, o latim estabelece as relações das funções dos termos da

3 Argumentos são aqueles termos que são obrigatórios para que um verbo expresse seu sentido completo. Por exemplo, um verbo transitivo direto requer dois argumentos: o sujeito e o objeto. Caso um falte, o evento não é expresso propriamente. Exemplo: “o menino quebrou...”, “a menina viu...” são sentenças em que falta o argumento objeto. A terminologia remete à lógica tradicional.

Referências

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