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SOBRE AS NUVENS. Cânions, desfiladeiros, cachoeiras e o frio in tenso do inverno mais rigoroso do Brasil fazem o EM CASA

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Academic year: 2021

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SOBRE AS NUVENS

Cânions, desfiladeiros, cachoeiras e o frio in tenso do inverno mais rigoroso do Brasil fazem o

contraponto perfeito ao clima de romance em um tour epicurista pela bela Serra Catarinense

por LUCIANO VELLEDA

fotos CRISTIANO CARNIEL

EM CASA

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55 Nesta página, a cascata do

Aven-cal, em Urubici. Na página ao lado , cavalgadas organizadas para conhecer a região. Na dupla de abertura, vista do Rio do Ras-tro Eco Resort , em Bom Jardim da Serra

O dia amanheceu, mas ainda não é possível vê-lo. São

sete horas da manhã e uma espessa nuvem cobre toda

a área do Rio do Rastro Eco Resort, em Bom Jardim

da Serra. A visibilidade não ultrapassa dez metros, e

o frio lá fora é de respeito. No interior da varanda

en-vidraçada do chalé, aquecida pelo ar condicionado, a

temperatura agradável permite contemplar o raiar do

dia nesta que é uma das regiões mais frias do Brasil.

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Grossas toras de lenha e gravetos dispostos numa estante ao lado da rede, delicadamente bordada, indi-cam que fazer fogo, por aqui, é de costume uma necessidade. E então, como se houvesse alguém com um poderoso sopro, a mesma espessa nuvem começa rapidamente a se dis-sipar, o céu azul em instantes se re-vela, o sol forte lança seus raios e em poucos minutos a paisagem está aberta, revelando os outros 17 cha-lés ao redor e as águas calmas do lago diante deles.

Tons de verde claro e escuro formam o gramado que há pouco parecia se-quer existir nesse charmoso ecore-sort. Olhando de perto, percebe-se que as folhas da grama estão cober-tas por uma fina camada de gelo, um indicativo de que houve uma leve geada na madrugada. Fato normal por estas bandas, no alto da Serra Catarinense. Com um pouco de sorte, pode até nevar – como aconteceu agora no último mês de julho. “Somos o único resort do Brasil onde neva”, costuma dizer Ivan Cascaes, dono do empreendimento.

No interior dos aconchegantes cha-lés, lençóis térmicos garantem o sono dos anjos, não importa quão frio esteja lá fora; a lareira compõe o clima romântico, e a jacuzzi com sais de banho alivia qualquer tensão. A natureza ao redor completa o cenário.

Ao lado, de cima para baixo, a imensidão da serra vista do Morro da Igreja, a principal atração de Urubici, e a estrada que liga Lauro Müller e Bom Jardim da Serra ser-penteia na Serra do Rio do Rastro. Na pá-gina ao lado, detalhe de uma canoa na propriedade do Eco Resort

Nesta parte do país,

pró-ximo à fronteira com o

Rio Grande do Sul,

câ-nions profundos atraem

e prendem o olhar de

quem os admira. Um

de-les, o cânion do Ronda,

fica dentro da área do

hotel e pode ser visitado

num passeio a cavalo,

assim como a cachoeira

do Gritador. Cavalgadas

em noites de lua cheia

são organizadas por uma

operadora de viagem

que atende o resort e,

para quem quer ir mais

longe, é possível fazer

tours em veículos 4x4

aos cânions do Funil e

das Laranjeiras.

O DESFILADEIRO TORTUOSO

DA SERRA DO RIO DO RASTRO

É UM CENÁRIO MARCANTE

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Mais perto, bem em frente ao acesso do ecoresort, o desfiladeiro tortuoso da Serra do Rio do Rastro e a estrada que serpenteia ali com-põem uma das mais belas paisagens do Brasil. São apenas 12 quilôme-tros, um curto trecho da SC-438, que liga os municípios de Lauro Müller a Bom Jardim da Serra, e que transporta o viajante quase do nível do mar a 1.450 metros de altitude. Um mirante estrategicamente posi-cionado no topo da serra é parada obrigatória dos visitantes – e tam-bém de muitos quatis.

Ao lado do mirante, o acolhedor café Mensageiro da Montanha é abrigo seguro para se aquecer e pro-var um dos 25 saborosos tipos de café – desde o clássico expresso ao café com menta, ou o affogato de maçã, elaborado com sorvete de creme, geleia de maçã e chantili.

Caminhos de Baco

Distante 53 quilômetros de Bom Jardim da Serra, a cidade de São Joa-quim é nacionalmente conhecida pelas baixas temperaturas registra-das em seus termômetros. Por tem-pos ostentou o título de “a cidade mais fria do Brasil”. Distinção re-centemente perdida para Urupema, antes distrito de São Joaquim e hoje elevada a município. Esses detalhes meteorológicos, entretanto, pouco im-portam. Dois graus a mais ou a menos,

Ao lado, o delicioso café de maçã no Men-sageiro da Montanha. Na página ao lado, o fogo e a chaleira do chimarrão são hábito no Rio do Rastro Eco Resort

A REGIÃO TEM REFÚGIOS DE

CHARME E O ÚNICO RESORT

DO BRASIL EM QUE NEVA

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Ao lado e na página ao lado, o conforto e o charme do chalé do Rio do Rastro Eco Resort, em Bom Jardim da Serra

OS 18 CHALÉS DO RESORT

TÊM JACUZZI, LAREIRA E

LENÇÓIS TÉRMICOS

o inverno em São Joaquim é gelado à beça. E segue atraindo visitantes, ainda que a cidade não tenha propria-mente uma boa estrutura hoteleira. O frio da região, todavia, tem desen-volvido nos últimos dez anos outro segmento econômico: a produção de vinhos. Pouco a pouco, sem alarde, pequenas vinícolas crescem e come-çam a ganhar mercado. O clima de baixas temperaturas, mais uma vez, é o aliado diferencial. “O clima é a questão. Como é muito frio, a uva amadurece mais tarde e forma uma maturação mais completa”, explica o enólogo Nei Rasera, há sete anos tra-balhando na Serra Catarinense e há quase dois na vinícola Villa Fran-cioni, a pioneira em São Joaquim. Fundada em 2003, produz cerca de 150 mil garrafas por ano. O cenário futuro é promissor e já deu vida à linha VF, a top da Villa Francioni, com destaque para os tin-tos Francesco, VF e Michelli – este último elaborado com as uvas san-giovese, as que melhor se adaptaram ao clima da região. Enquanto a Villa Francioni segue lapidando seus vi-nhos, a alquimia da sagrada bebida é igualmente feita com dedicação num morro quase em frente.

Ali localiza-se a Vinhedos Monte Agudo, cuja primeira safra é de 2008 e há três rótulos no mercado: um branco chardonnay, um tinto mer-lot/cabernet e um espumante brut.

A comunicativa sommelière Carolina Rojas Ferraz

exalta com indisfarçável satisfação a história recente da

família na aventura do vinho, que começou num

impulso e hoje segue caminho rumo ao sucesso. No alto

do morro, com vista para os parreirais que se

esparra-mam pela encosta da propriedade, foi recentemente

inaugurado um espaço gourmet, numa confortável

cabana com amplas portas de vidro e janelas que

privilegiam admirar a paisagem da Serra Catarinense.

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63 62

Ali, a Vinhedos Monte Agudo re-cebe convidados e visitantes para jantares com menu-degustação har-monizados com vinhos próprios. A simbiose perfeita é completada com o visual do lado de fora. Além dos jantares, a família Rojas Ferraz ela-borou o programa Sunset – um char-moso piquenique ao pôr do sol em meio aos vinhedos acompanhado com tábua de frios e, é claro, vinhos.

Igreja nas alturas

A pouca estrutura hoteleira de São Joaquim é bem compensada pela ci-dade de Urubici, com cerca de 40 pousadas. A distância de 60 quilô-metros entre as duas cidades, se não é exatamente perto, tampouco in-viabiliza rodar pela região. Urubici é referência em ecoturismo, com muitas trilhas de diferentes níveis de dificuldade – desde algumas horas de caminhada até outras de oito dias de trekking.

Há ainda mais de 80 cachoeiras ca-talogadas espalhadas pelas monta-nhas da serra. A cascata do Avencal, localizada bem ao lado da estrada, dentro de uma propriedade privada, é uma das mais visitadas, combi-nando o fácil acesso com sua singela beleza. Quando o nível da água está baixo, vê-se só um filete despen-cando de cem metros de altura, num penhasco em formato de ferradura. Ao lado, roteiros enogastronômicos estão se desenvolvendo na região como a visita a Villa Francioni. Na página ao lado, o pro-grama Sunset em São Joaquim com tábua de frios e degustação no Vinhedo Monte Agudo

O FRIO DA REGIÃO

PROPICIOU O SURGIMENTO

DE PEQUENAS VINÍCOLAS

O som da água chocando-se contra os rochedos lá embaixo

é sedutor, como um fundo musical num ambiente calmo,

silencioso, e cercado de araucárias. Quem busca emoções

mais fortes pode se aventurar na tirolesa de 175 metros

de comprimento, atravessando o vão numa altura de 120

metros. Apesar de tantas cachoeiras e trilhas, a atração

mais procurada em Urubici é o famoso Morro da Igreja.

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GUIA TOP

Onde ficar

Rio do Rastro Eco Resort. Diárias a partir de R$360 para o casal com café da manhã, na baixa temporada. Reservas: (48) 9931 6100 ou riodorastro.com.br

Serra Bela Hospedagem Rural. Diárias a partir de R$226 para o casal. Reservas: (49) 3278 5113

ou serrabela.com.br

Top Destinos viajou com o apoio da Santur (Santa Catarina Turismo). Mais informações sobre a região: santur.sc.gov.br

Ao lado, vista da paisagem sinuosa da Serra Catarinense

A GEOGRAFIA RECORTADA DA

SERRA É PANORAMA DO ALTO

DO MORRO DA IGREJA

Embora não haja igreja alguma. Mas o morro está lá, soberano, a 1.822 me-tros de altitude. Uma estrada inaugu-rada em 1981 conduz os visitantes até o topo, onde existe uma das bases da aeronáutica que controlam o tráfego aéreo do Brasil. Acima das nuvens, o visual do local é provavelmente o mais abençoado de toda a região. Ali en-tende-se bem a geografia dos cânions da Serra Catarinense, com suas fendas profundas recortando a montanha. Conforme desce, a serra vai virando planície, e depois segue, indo longe até se encontrar com o mar.

Para escapar da serração, que não raro impossibilita enxergar pouco mais de um palmo à frente dos olhos, o melhor horário de visitação é entre 9h e 13h. No auge do inverno, em dias de forte geada, o céu claro costuma favorecer ainda mais o espetáculo. Mas se por acaso a paisagem estiver fechada por espessas nuvens, convém não desani-mar. É assim mesmo. Logo, como um sopro mágico, as nuvens se dissipam e a Serra Catarinense estará ali, inteira-mente à disposição.

Referências

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