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Revista_Fitos v4 n1 - 2009

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009  Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

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•Roberto Fontes Vieira •Rui Oliveira Macedo

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•Valdir Florêncio Veiga Júnior •Wagner Luiz Ramos Barbosa

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4 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009 4

Índice

Tópicos em Debate

O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN. Mendes, F. R.; Duarte-Almeida, J. M.; Mattos, P. E. O.; Pires, J. M.; Carlini, E. A.

6

Artigo Original

Simpósios de Plantas Medicinais do Brasil: 40 anos de História. Alves, L. F.

18

Artigo Original

Drogas e Extratos Vegetais Utilizados em Fitoterapia. Boorhem, R. L.; Lage, E. B.

37

Artigo Original

Elaboração de uma Cartilha Direcionada aos Profi ssionais da Área da Saúde, Contendo Informações sobre Interações Medicamentosas Envolvendo Fitoterápicos e Alopáticos. Cardoso, C. M. Z.; Silva, C. P.; Yamagami, K.; Lopes, R. P.; Santos, F.; Bonassi, I.; Jesuíno, I.; Geres, F.; Martorie Jr., T.; Graça, M.; Kaneko, B.; Pavani, E.; Inowe, C.

56

Artigo Original

Novo Paradigma Produtivo: Utilização Racional dos Recursos Naturais para Obtenção de Fitoterápicos.

Oliveira, M. B. S. C.; Frutuoso, V. S.

70

Artigo Original

Atividades Antimicrobiana e Antioxidante da Própolis do Estado do Ceará.

Gutierrez-Gonçalves, M. E. J.; Marcucci, M. C.

81

Estado da Arte

Produtos Naturais Inibidores da Transcriptase Reversa do Vírus HIV. Gonçalves, R. S. B.; Barreto, M. B.; Gomes, C. R. B.; Souza, M. V. N.

87

Estado da Arte

Inibidores de Proteases Oriundas de Plantas: Uma Abordagem Útil para o Desenvolvimento de Novos Fármacos.

Silva-Lopez, R. E.

108

Estado da Arte

Plantas Medicinais Brasileiras. .

I. Achyrocline satureioides (Lam.) DC. (Macela). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

120

Estado da Arte

Plantas Medicinais Brasileiras. II. Portulaca pilosa L. (Amor-crescido). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

Estado da Arte

Plantas Medicinas Brasileiras.

III. Heteropterys aphrodisiaca Machado (Nó-de-cachorro). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J. Estado da Arte

Plantas Medicinais Brasileiras. IV. Annona muricata L. (Graviola). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

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129

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009  Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Contents

Debate

The Knowledge of Brazilian Students and Researchers About the Legislation of Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN-Mendes, F. R.; Duarte-Almeida, J. M.; Mattos, P. E. O.; Pires, J. M.; Carlini, E. A.

6

Original Article

The Symposium on Brazilian Medicinal Plants: 40 years of History. Alves, L. F.

18

Original Article

Herbal Drugs and Extracts Used in Phytoterapy. Boorhem, R. L.; Lage, E. B.

37

Original Article

Elaboration of a Primer for all Health Professionals, Containing Information on Interaction Between Drugs and Phytoterapics.

Cardoso, C. M. Z.; Silva, C. P.; Yamagami, K.; Lopes, R. P.; Santos, F.; Bonassi, I.; Jesuíno, I.; Geres, F.; Martorie Jr., T.; Graça, M.; Kaneko, B.; Pavani, E.; Inowe, C.

56

Original Article

New Productive Paradigm: The Rational Use of Natural Resourc-es in Order to Obtain Phytotherapics.

Oliveira, M. B. S. C.; Frutuoso, V. S.

70

Original Article

Antimicrobial and Antioxidant Activities of Própolis from Ceará State.

Gutierrez-Gonçalves, M. E. J.; Marcucci, M. C.

81

State of the Art

Natural Products as HIV Reverse Transcriptase Inhibitors. Gonçalves, R. S. B.; Barreto, M. B.; Gomes, C. R. B.; Souza, M. V. N.

87

State of the Art

Proteases Inhibitors originated from Plants: Useful Approach for Development of New Drug.

Silva-Lopez, R. E.

108

State of the Art

Brazilian Medicinal Plants.

I. Achyrocline satureioides (Lam.) DC. (Macela). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

120

State of the Art

Brazilian Medicinal Plants. II. Portulaca pilosa L. (Amor-crescido). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

State of the Art

Brazilian Medicinal Plants.

III. Heteropterys aphrodisiaca Machado (Nó-de-cachorro). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

State of the Art

Brazilian Medicinal Plants. IV. Annona muricata L. (Graviola). Barata, L. E. S.; Alencar, A. A. J.; Tascone, M.; Tamashiro, J.

126

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 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

O Conhecimento do Estudante e do

Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação

ileiro sobre a Legislação

do Conselho de Gestão do Patrimônio

Genético – CGEN

The Knowledge of Brazilian Students and

Re-searchers About the Legislation of Conselho

de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

Resumo

A Convenção sobre a Diversidade Biológica estabeleceu que cada país deveria elaborar leis e mecanismos de conservação de sua biodiversida-de, assim como regular o acesso e repartição de benefícios advindos de sua exploração industrial. A MP 2.186 estabeleceu normas para acesso aos recursos genéticos e conhecimento tradicional associado, porém sob altas custas da comunidade científica, devido ao grande número de exigências burocráticas para aprovação de projetos no Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). O objetivo deste trabalho foi verificar entre os autores de trabalhos apresentados no XX Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil, o grau de conhecimento sobre a legislação; quantos destes trabalhos foram submetidos ao CGEN, e se obtiveram ou não autorização oficial. Dos 449 questionários respondidos, a gran-de maioria dos autores (84%) trabalhou com planta nativa. Metagran-de dos trabalhos envolveu o acesso ao conhecimento tradicional (50%), sendo que a obtenção das plantas foi feita por coleta em 68% dos estudos. Por outro lado, apenas 9,6% dos trabalhos possuíam autorização do CGEN e 5,1% aguardavam autorização do órgão. Entre os graduandos, 54,7% declararam sequer conhecer o CGEN (número que cai para 27,3% dos pós-graduandos e 13,1% dos pesquisadores). Esta pesquisa confirma o grande desconhecimento da comunidade científica sobre a legislação brasileira de acesso aos recursos genéticos e conhecimento tradicional, especialmente entre estudantes de graduação.

Abstract

The Convention on Biological Diversity established that each coun-try should create laws and mechanisms to preserve its biodiversi-ty, as well as regulate the access to it and the sharing of benefits that result from its industrial exploration. The MP 2.186 established norms for the access to the genetic resources and the associa-ted traditional knowledge. However, this law had high fees to the scientific community due to the large number of bureaucratic requi-rements to pass projects in the Conselho de Gestão do Patrimônio Genético - CGEN (Council of Management of Genetic Resources). The objective of the present work was to evaluate, among the au-thors of posters presented in the XX Symposium of Brazilian Medi-cinal Plants, the level of knowledge they have regarding legislation. Mendes, F. R.; Duarte-Almeida,

J. M.; Mattos, P. E. O.; Pires, J. M.; *Carlini, E. A.

Centro Brasileiro de Informações so-bre Drogas Psicotrópicas (CEBRID),

Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo

Rua Napoleão de Barros, 925, Vila Clementino, 04024-002, São Paulo, SP, Brasil.

* Correspondência: E-mail: [email protected]

Unitermos:

CGEN; Conhecimento Tradicional, MP 2.186, Legislação de Fitoterápicos, Patrimônio Genético, Pesquisa da Biodiversidade.

Key Words:

CGEN, Traditional knowledge, MP 2186, Legislation on Phytotherapics, Genetic Resources, Biodiversity Research.

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009  Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

We also aimed at assessing how many of those works were submitted to the CGEN, and whether they were approved. Out of the 449 authors who answered the questionnaire, the great majority (84%) had worked with native plants. Half of the works (50%) involved access to traditional know-ledge, and the plants were obtained by collection in 68% of the studies. On the other hand, only 9.6% of the works had been authorized by the CGEN, and 5.1% were waiting for authorization. Among the graduate students, 54.7% declared not even knowing the CGEN (a number that dropped to 27.3% among post graduates and to 13.1% among the researchers). This survey corroborates the tho-rough lack of knowledge the scientific community has on the Brazilian legislation regarding the ac-cess to genetic resources and traditional knowled-ge, mainly among graduate students.

Introdução

O Brasil é um dos países com maior biodiversidade no mundo, possuindo pelo menos 5 grandes biomas definidos que, somados à sua diversidade cultural, contribuem com um enorme potencial para a des-coberta de novos medicamentos de origem natural (CARLINI et al., 2007). Ainda hoje, cerca de ¼ dos medicamentos modernos são desenvolvidos a partir de plantas (LIU; WANG, 2008); um mercado de mais de 60 bilhões de dólares ao ano, com taxa de cres-cimento de 5 a 15% (KARTAL, 2007). Cerca de 80% da população dos países em desenvolvimento recor-re ao uso de plantas medicinais para o tratamento de problemas primários de saúde, muitos possuindo apenas esta alternativa (VIGO, 2008). Diante des-te quadro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece o uso de plantas medicinais como prática complementar ou alternativa nos cuidados básicos de saúde e tenta incentivar políticas para regulação e registro de plantas medicinais assegurando a qua-lidade destes produtos (WHO, 1998). Uma recente valorização das plantas medicinais tem sido obser-vada em todo o mundo seja o vegetal in natura, na forma de fitoterápicos tradicionais, ou como matéria prima e protótipo para o desenvolvimento de novas drogas. A Comunidade Européia é exemplo disto, com uma política que procura simplificar o registro de produtos tradicionais, dentro das garantias de eficácia e segurança (SILANO et al., 2004).

A Convenção sobre a Biodiversidade Biológica (CDB) prevê que os seus países signatários de-vem elaborar normas e leis como mecanismos de

conservação de sua biodiversidade, bem como regular sobre seu acesso e repartição de benefí-cios advindos de sua exploração industrial (LAIRD, 2002; VAN OVERWALLE, 2005; FERRO, 2006). A proposta da CDB era diminuir a exploração preda-tória das riquezas naturais, especialmente nos pa-íses megadiversos, estimulando o uso sustentável da biodiversidade, com benefícios diretos para as comunidades tradicionais.

No Brasil, a proteção legal pertinente ao patrimônio genético já constava no artigo 225 da constituição de 1988, no entanto restava fazer uma lei definindo regras para instrumentar a proteção, a fiscalização e o uso da biodiversidade no país. Esta regulamen-tação foi primeiramente realizada por medida provi-sória (MP 2.052 de 29/06/2000) após a celeuma ocasionada por políticos e ambientalistas por causa das cláusulas do contrato firmado entre uma empre-sa farmacêutica estrangeira com uma associação local para fins de bioprospecção (BENTES, 2006). Em 2001 o Brasil editou uma nova medida provisória (MP 2.186 de 23 de agosto de 2001) estabelecendo normas para o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado, e criando o Con-selho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) como órgão encarregado de análise das solicitações de acesso. Esta MP foi elaborada basicamente no âmbito restrito do Ministério do Meio Ambiente (MMA), sem contar praticamente com a participa-ção dos setores acadêmico e produtivo. O resultado desta ausência de diálogo foi uma legislação extre-mamente restritiva e impositiva; contendo normas praticamente impossíveis de serem seguidas. A MP 2.186 prevê que todo acesso a componente do patrimônio genético nacional ou conhecimento tradi-cional associado para fins de pesquisa científica, bio-prospecção e desenvolvimento tecnológico, deverá ser previamente encaminhado ao CGEN para obten-ção de autorizaobten-ção (uma norma geral posteriormen-te flexibilizado por resoluções inposteriormen-ternas do CGEN). A MP 2.186 e as resoluções posteriormente publi-cadas pelo CGEN tentam definir os critérios para classificação de cada tipo de acesso, assim como os trâmites para solicitação de licença; contudo o gran-de problema persiste no excesso gran-de exigências para aprovação dos pedidos. Azevedo (2005) e Ferro et al. (2006) destacam que entre as principais críticas da comunidade científica sobre a MP 2.186 estão:

• o período para análise dos projetos, que pode ser demasiadamente longo, com idas e vindas até que todas as exigências sejam cumpridas,

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 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

o que termina por inviabilizar a realização de teses e projetos com cronogramas definidos; • a definição precisa de alguns termos, como acesso ao patrimônio genético e bioprospec-ção, entre outros;

• a necessidade de indicar antecipadamente o local de coleta, o que nem sempre é possível prever, já que isto leva ao encarecimento da pesquisa, pela necessidade de idas adicionais ao campo (para certificar-se da existência da planta);

• a necessidade de anuência prévia do titular da área de coleta, dado a dificuldade tanto em definir o local como seu titular e comprovação de posse (muitas vezes a autorização é verbal, dada por voto de confiança);

• a exigência de depósito de amostra em insti-tuição fiel depositária, embora muitas institui-ções não estejam preparadas para exercer esta função, e muitas vezes sequer demonstrem qualquer interesse em receber este material; • o contrato de repartição de benefícios com o proprietário ou detentor do conhecimento tradicional. Este é ponto crítico, pois embora a comunidade científica reconheça a importân-cia de garantir benefícios para as comunidades tradicionais, raramente a pesquisa reverterá em benefícios financeiros; além disso, há um desconhecimento da comunidade científica so-bre os moldes de um contrato de repartição de benefícios; este mais um ônus burocrático ao pesquisador, pois demanda tempo e recursos para tal.

Quanto a este último ponto, pode-se ainda acres-centar como um evidente obstáculo a dificuldade que muitas vezes existe para definir o detentor do conhecimento tradicional, já que este conhecimento muitas vezes tem um caráter difuso. Mesmo quando uma pesquisa etnofarmacológica aponta uma comu-nidade tradicional como detentora de um conheci-mento ainda não publicado (por exemplo, o uso de um chá de uma determinada planta para uma enfer-midade), não se pode descartar que outros povos não pesquisados façam o mesmo uso, sendo, por-tanto, co-detentores tradicionais nos direitos de re-partição de benefícios. Um dos grandes obstáculos para a legitimação destes direitos é que o conheci-mento tradicional, diferentemente do conheciconheci-mento científico, é transmitido verbalmente de geração em geração, não existindo, portanto prova documental que ateste sua propriedade intelectual, como fazem a comunidade científica e o setor industrial. Vascon-celos et al. (2002) discutem que este é o

proces-so pelo qual ocorre apropriação do conhecimento tradicional pela comunidade médico-científica e in-dustrial. Classicamente, o conhecimento tradicional tem sido investigado e traduzido para a linguagem científica, sendo revalidado para obtenção de legi-timidade. Em seguida, o conhecimento tradicional passa a ser marginalizado, transmitindo-se a idéia de que o produto industrial é puro, seguro, validado, enquanto a preparação popular é impura, insegura e ineficaz. Esse embate – conhecimento acadêmico x conhecimento popular – é conhecido pela sigla DIA, onde: D – Desqualificação do uso popular (“coisa de ignorante”); I – Ilegalização (torna ilegal o exercício da medicina popular); e finalmente A – Apropriação do conhecimento popular, isolando e agora comer-cializando um princípio ativo.

Como se pode observar, a necessidade de políticas de valorização e proteção ao conhecimento tradi-cional é inquestionável. A questão que deve ser colocada é: como chegar a este objetivo sem pre-judicar a pesquisa científica? Está claro para toda a academia, e mesmo para o governo, que os meca-nismos de proteção do conhecimento tradicional e de repartição de benefícios previstos na MP 2.186 são ineficientes e equivocados. O fato é que a MP, ao exigir autorização de acesso e contrato de re-partição de benefícios para a pesquisa acadêmica, ainda que o potencial econômico seja uma possi-bilidade remota, age como entrave e desestímulo para o estudo da nossa biodiversidade. Tanto isso é verdade, que novas resoluções têm sido publica-das seguidamente, no sentido de flexibilizar e des-burocratizar as exigências para coleta de material biológico, especialmente nos casos onde não existe acesso ao conhecimento tradicional. Portanto, a re-gulamentação dos estudos envolvendo acesso ao conhecimento tradicional continua sendo o ponto crítico. Questões como o indivíduo ou a comunida-de comunida-detentora comunida-de um conhecimento tradicional, ou quem deveria ser o favorecido de eventuais bene-fícios advindos de exploração econômica, têm sido amplamente debatidos sem que se observem opi-niões consensuais para estes pontos. A carência de modelos adequados ou mesmo suporte legal para contrato de repartição de benefícios e pagamento de royalties para comunidades tradicionais, espe-cialmente indígenas, são outros pontos cruciais a serem considerados. Há inclusive uma corrente, apoiada por boa parte da comunidade científica, que é favorável ao pagamento de royalties, quando cabível, a um “fundo administrado pelo governo” e que seria especificamente utilizado para projetos de valorização e preservação do conhecimento

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tra-Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009  Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

dicional, investimento em educação, saúde e me-lhorias da condição de vida destas comunidades. À parte de toda esta discussão conceitual, o Brasil possui corpo científico e competência para estu-dar sua biodiversidade, faltando, entretanto apoio e “know-how” para o desenvolvimento de produtos (CALIXTO, 2005; VIGO, 2008). As políticas públicas brasileiras são contraditórias, pois ao mesmo tempo em que se desenvolvem programas de incentivo ao uso e pesquisa de plantas medicinais, como a Polí-tica Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), o mesmo governo que a instituiu amor-daça a própria pesquisa neste campo utilizando a ferramenta da MP 2.186. Criada para tentar coibir a biopirataria no país, esta MP acabou por trans-formar o cientista brasileiro em biopirata, uma vez que sua extrema burocracia tem levado os pesqui-sadores a trabalhar na clandestinidade. A legislação brasileira deveria ter postura justamente contrária, incentivando e valorizando a pesquisa de sua bio-diversidade, como procura fazer o PNPMF, pois é sabido que só se pode proteger o que se conhece. Infelizmente, o que tem sido notado nos congres-sos, palestras e cursos na área de plantas medici-nais, é que poucos estudantes, e mesmo pesqui-sadores, possuem conhecimento suficiente sobre a legislação em vigor e suas exigências para o es-tudo de plantas medicinais e conhecimentos tradi-cionais. O objetivo deste trabalho foi avaliar, entre os participantes que apresentaram seus trabalhos em painéis (pôsteres), no XX Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil, realizado em 2008, o grau de conhecimento sobre o CGEN e a legislação vigen-te; pela medida inicial de quantos destes trabalhos foram submetidos ao CGEN e se obtiveram ou não autorização para pesquisa.

Material e Métodos

Aplicação dos questionários

Foram entregues questionários impressos com per-guntas de múltipla escolha (Quadro 1) aos autores de painéis presentes no local de exposição do tra-balho, durante a sessão de painéis do XX Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil (SPMB), nos dias 17, 18 e 19 de setembro de 2008. A pesquisa foi realizada apenas com congressistas brasileiros. Os autores recebiam os questionários com a instrução de responder anonimamente às perguntas, em rela-ção ao trabalho que estavam apresentando. Autores

com dois ou mais trabalhos sendo apresentados re-ceberam um questionário por painel, desde que es-tivessem presentes no local. Os questionários foram recolhidos depois de 10-30 minutos e foram separa-dos de acordo com o setor onde foi feita a pesquisa, correspondendo aos setores do XX SPMB: 1. Agro-nomia; 2. Botânica / Etnobotânica; 3. Etnofarmaco-logia; 4. Saúde Pública; 5. Química de Produtos Na-turais; 6. Farmacologia / Toxicologia; 7. Tecnologia Farmacêutica; 8. Registro, Legislação e Patentes. Não houve separação por dia de apresentação. Tabulação dos resultados

Os dados obtidos nos questionários foram tabula-dos e analisatabula-dos no programa Microsoft® Excel, uti-lizando-se códigos numéricos para cada resposta. Questionários com rasuras e aqueles cuja questão número 4 estava em branco foram eliminados (ao todo 12 questionários), já que o principal objetivo da pesquisa era avaliar a resposta dos participantes a esta questão (autorização do CGEN). Ao final da tabulação, foram contados os números de respostas de cada alternativa e em seguida cruzados os dados das principais questões. Os dados foram expressos em números absolutos ou porcentagem de resposta, dentro de cada categoria.

Limitações da pesquisa

Os questionários foram distribuídos durante as ses-sões de painéis do XX SPMB e recolhidos até o fim da sessão. Devido à curta duração destas sessões frente ao volume de trabalhos apresentados, não foi possível aplicar os questionários individualmente e tampouco responder as dúvidas dos participantes. Por se tratar de questionários de autopreenchimen-to, é possível que alguns participantes não tenham entendido algumas questões ou as tenham interpre-tado erroneamente. Ainda assim, espera-se que o resultado da pesquisa reflita, de maneira geral, o grau de conhecimento da população estudada quan-to ao CGEN, servindo de amostragem quanquan-to aos pedidos solicitados e aprovados naquele órgão.

Resultados e Discussão

Foram entregues 449 questionários, sendo 192 res-pondidos por graduandos, 183 por pós-graduandos, 61 por pesquisadores ou profissionais e 13 por parti-cipantes que se declararam como “outra categoria” ou não responderam a questão. Do total de partici-pantes, aproximadamente 80 % se declararam

(10)

vin-10 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009 culados a instituições públicas e 20% a instituições

privadas. Estes números, embora surpreendentes pelo grande número de graduandos, refletem a parti-cipação da comunidade científica nos congressos da área básica, onde há um nítido predomínio de estu-dantes (graduação e pós-graduação), especialmen-te aqueles ligados a instituições públicas de ensino. Dado o seu caráter multidisciplinar, o tema “plantas medicinais” costuma ser abordado nos programas de pós-graduação das áreas de botânica, química, farmacologia, entre outras.

A Tabela 1 traz um apanhado geral dos principais re-sultados obtidos, separados de acordo com o setor do Simpósio. A tabela mostra os setores com maior número de questionários respondidos, forma de ob-tenção do material botânico para os estudos, se uti-lizou planta nativa brasileira e se houve acesso ao conhecimento tradicional. Houve maior número de questionários respondidos nos setores de Química de Produtos Naturais e Farmacologia / Toxicologia, justamente por serem os dois maiores setores do SPMB. Do total de participantes pesquisados (úl-tima linha da tabela), a grande maioria dos autores

(84%) trabalhou com planta nativa, e metade dos trabalhos envolveu acesso ao conhecimento tradi-cional (50%); porcentagem que foi maior no setor de Etnofarmacologia (75%), e menor no setor de Agronomia (35%). A forma predominante de obten-ção das plantas (entre todos os setores) foi por co-leta (68%), número que sobe para 81% no setor de Química de Produtos Naturais. A segunda principal forma de obtenção entre os trabalhos dos setores de agronomia, botânica e química foi por cultivo, en-quanto no setor de farmacologia recorreu-se ao co-mércio. Cinco entrevistados do setor de etnofarma-cologia (21%) responderam “não se aplica” à forma de obtenção do material botânico, provavelmente porque estes trabalhos não envolveram coleta. A Figura 1 mostra a relação entre o total de traba-lhos apresentados no SPMB e a obtenção ou não de autorização do CGEN. Pode-se observar que ape-nas 9,6% dos trabalhos apresentados no SPMB pos-suem autorização do CGEN, enquanto 5,1% aguar-dam resposta à solicitação, ou seja, apenas 14,7% estão em situação legal. Ao se excluir da pesquisa os trabalhos cujos autores declararam que seu trabalho

Tabela 1 - Número de trabalhos (e respectivas porcentagens) que acessou ou não o conhecimento tradicional, utilizou planta nativa ou exótica, e forma de obtenção do material botânico, segundo os autores, entre os setores do SPMB com mais trabalhos.

Setor e número de questionários Agronomia (51) Botânica / Etnobotânica (34) Etnofarmacologia (24) Química de produtos naturais (127) Farmacologia / Toxicologia (169)

Total (inclui setores não mostrados)1

Houve acesso ao conhecimento

tradicional?

Estudo com planta nativa? Sim 18 (35%) 20 (59%) 18 (75%) 68 (53%) 79 (47%) 224 (50%) Não 33 (65%) 14 (41%) 6 (25%) 59 (47%) 90 (53%) 225 (50%) Sim 38 (75%) 32 (94%) 18 (75%) 114 (91%) 142 (84%) 377 (84%) Não 13 (25%) 2 (6%) 6 (25%) 12 (9%) 27 (16%) 71 (16%)

Forma de obtenção do material botânico:

Coteta 34 (69%) 24 (73%) 17 (71%) 102 (81%) 104 (63%) 297 (67%) Cutivo 10 (20%) 4 (12%) 1 (4%) 19 (15%) 17 (10%) 58 (13%) Comércio 4 (8%) 3 (9%) 1 (4%) 4 (3%) 39 (24%) 65 (15%) Não sabe / não se aplica 1 (3%) 2 (6%) 5 (21%) 1 (1%) 5 (3%) 20 (5%)

1Demais setores não mostrados: Saúde pública (12 questionários); Tecnologia Farmacêutica (18 questionários); Registro, Legislação e Patentes (3 questionários). O total inclui também 11 questionários onde o setor não foi especificado. Porcentagens (arredondamento) calculadas considerando cada questão do questionário (ver Quadro 1), descontadas as respostas em branco de cada questão.

Tópicos em Debate/Debate O conhecimento do estudante e do pesquisador brasileiro sobre a legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009 11 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

não envolvia o estudo de planta brasileira observam-se números observam-semelhantes, com apenas 16,2% de tra-balhos com autorização ou aguardando autorização do CGEN, segundo informação dos autores (dado não mostrado). No outro extremo, 36,8% dos parti-cipantes desconhecem o CGEN ou nem sabem do que se trata o assunto (Figura 1). Quando a cate-goria do entrevistado é levada em consideração (Ta-bela 2), observa-se que o desconhecimento sobre a legislação e o CGEN é maior entre os graduandos e pós-graduandos (54,7% e 27,3%, respectivamente; contra 13,1% entre os pesquisadores). Entretanto, o número de autores que conhece o órgão e não so-licitou autorização possui freqüência inversa: 55,7% (pesquisadores / profissionais), 48,1% (pós-gradu-andos) e 21,9% (gradu(pós-gradu-andos).

Estes resultados mostram que apesar da MP 2.186 ter sido criada em 2001, regulamentando as normas de acesso ao patrimônio genético e conhecimento tradicional, ela continua desconhecida por boa parte da comunidade científica envolvida com a pesquisa de plantas medicinais. Mais gritante é o fato de que mesmo entre os que conhecem a legislação, o nú-mero de trabalhos apresentados sem autorização do CGEN é enorme. Foram considerados nesta catego-ria os trabalhos cujos autores responderam a alter-nativa 3 da questão 4 da pesquisa (não obteve li-cença ou não submeteu o projeto), já que as alterna-tivas 4 e 5 deveriam ser respondidas por quem não conhecesse a legislação do CGEN ou cuja questão não se aplicasse ao seu trabalho (ver Quadro 1). Tópicos em Debate/Debate O conhecimento do estudante e do pesquisador brasileiro sobre a legislação do Conselho

de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

Tabela 2 – Solicitações de licenças ao CGEN, de acordo com a categoria acadêmica. Os valores representam o número de trabalhos com as respectivas porcentagens entre parênteses

Licença do CGEN

Obteve

Solicitou e está aguardando

Não solicitou / Não obteve

Não sabe do que se trata / Desconhece o CGEN Não se aplica ao trabalho

Total Graduando 20 (10,4%) 6 (3,1%) 42 (21,9%) 105 (54,7%) 19 (9,9%) 192 Pós-graduando 16 (8,7%) 10 (5,5%) 88 (48,1%) 50 (27,3%) 19 (10,4%) 183 Pesquisador ou Profi ssional 5 (8,2%) 6 (9,8%) 34 (55,7%) 8 (13,1%) 8 (13,1%) 61 Outra categoria 2 (20,0%) 1 (10,0%) 1 (10,0%) 4 (40,0%) 2 (20,0%) 10 Dois entrevistados não assinalaram a categoria.

Figura 1 – Total de trabalhos apresentados no SPMB e a autorização do CGEN

Figura 1: Situação dos trabalhos

apresen-tados no XX SPMB quanto à obtenção de autorização do CGEN para o estudo em questão (em porcentagem).

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Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

Oficialmente, os trabalhos com plantas brasileiras ou conhecimento tradicional sem autorização do CGEN (cerca de 77% do total) estão sendo conduzidos na ilegalidade, conforme protesta a comunidade cien-tífica desde a criação da MP 2.186 (RODRIGUES; CARLINI, 2005; MENDES et al., 2007). A ilegalida-de dos trabalhos e o ilegalida-desconhecimento sobre a exis-tência do CGEN e da legislação de acesso ao recur-so genético mantém-se elevada, independente do setor do SPMB onde o trabalho foi apresentado. A

Tabela 3 mostra que mesmo entre os trabalhos apre-sentados no setor de Etnofarmacologia, que propor-cionalmente são os que mais envolveram o acesso ao conhecimento tradicional, o número de autores que declarou não conhecer o CGEN é bastante ele-vado (41,7%). Agronomia foi o setor com a maior proporção de trabalhos com autorização do CGEN: 15,7%. Uma possível explicação é que neste setor muitos trabalhos são realizados em fazendas expe-rimentais, sem a necessidade de coleta de campo SETOR DO PAINEL: __________________________________________________________________ 1) O trabalho que você está apresentando envolveu acesso ao conhecimento tradicional (pesquisa com população tradicional)

- SIM - NÃO

2) O trabalho que você está apresentando envolve o estudo de planta brasileira?

- SIM - NÃO

3) Como você obteve o material para seu estudo? - Coletado por mim ou terceiros.

- Proveniente de fonte cultivada.

- Adquirido do comércio ou empresa fornecedora. - Não sei.

- Não se aplica / não houve coleta neste estudo.

4) Você obteve autorização do CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético) para acesso ao patrimônio genético (planta coletada) ou ao conhecimento tradicional referentes ao trabalho que está apresentando no Simpósio?

- Sim, obtive licença para meu projeto de pesquisa. - Solicitei licença e estou aguardando a licença.

- Não, não obtive licença / não submeti meu projeto de pesquisa. - Não sei do que se trata este assunto / desconheço o CGEN.

- Não se aplica ao meu trabalho / não trabalho com plantas medicinais.

5) Assinale as opções que melhor se referem a você.

5.1 – Categoria: 5.2 – Instituição:

- graduando - Pública

- pós-graduando - Privada

- pesquisador / profissional -outro

Quadro 1 – Pesquisa realizada com os autores de painéis no XX Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil

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Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

em áreas particulares ou da União, o que facilitaria a obtenção de licenças. Tal suposição é reforçada pelos resultados apresentados na Tabela 1 (maior cultivo e menos acesso ao conhecimento tradicional nos tra-balhos de agronomia) e na Tabela 4, onde se verifica a maior porcentagem de trabalhos com autorização do CGEN justamente no grupo onde o material botâ-nico foi obtido de cultivo. Por outro lado, os dados da Tabela 4 também mostram que dos trabalhos onde houve coleta pelo autor do trabalho ou por terceiros apenas 10,4% possuem licença do CGEN, enquanto 5,4% aguardam resposta à solicitação. Este dado re-vela que, a coletas de plantas no território nacional e o acesso ao patrimônio genético estão ocorrendo à revelia da legislação, já que, em teoria, deveriam ser realizadas apenas após autorização do CGEN ou de órgão ambiental competente integrante do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA).

Há, na realidade, muita confusão, principalmente en-tre os estudantes, no que se refere às definições de coleta e acesso ao patrimônio genético, e que órgão autoriza o quê. Segundo orientação técnica número 01 do CGEN, coleta é a obtenção de amostras de espécimes silvestres, seja pela remoção do indivíduo do seu habitat natural, seja pela co-lheita de amostras biológicas, enquanto o

aces-so é a atividade realizada com o objetivo de isolar, identificar ou utilizar informação de ori-gem genética ou moléculas e substâncias pro-venientes do metabolismo dos seres vivos e de extratos obtidos destes organismos. De início, o CGEN era o órgão responsável por toda autorização de acesso ao patrimônio genético, enquanto cabia ao órgão ambiental competente integrante do SIS-NAMA emitir autorização de coleta. Posteriormente, foram editadas algumas resoluções na tentativa de facilitar o processo, prevendo que o próprio IBAMA autorizasse tanto a coleta como o acesso (pesquisa) de material botânico para fins de pesquisa científica sem potencial econômico. A coleta e o acesso ao patrimônio genético devem ainda distinguir-se do acesso ao conhecimento tradicional, sendo o co-nhecimento tradicional definido como informa-ção ou prática individual ou coletiva de comu-nidade indígena ou de comucomu-nidade local, com valor real ou potencial, associada ao patrimô-nio genético. Segundo a legislação vigente, este acesso somente pode se dar após anuência prévia da comunidade tradicional e autorização do CGEN (http://www.mma.gov.br).

Na presente pesquisa, observam-se porcentagens levemente superiores de autorizações do CGEN Tabela 3 – Solicitações de licenças ao CGEN, de acordo com o setor onde o trabalho foi apresenta-do no XX SPMB. Os valores representam o número de trabalhos com as respectivas porcentagens entre parênteses.

Licença do CGEN

Obteve

Solicitou e está aguardando

Não solicitou / Não obteve

Não sabe do que se trata / Desconhece o CGEN Não se aplica ao trabalho

Total Agr 8 (15,7%) 3 (5,9%) 11 (21,6%) 19 (37,3%) 10 (19,6%) 51 Bot 3 (8,8%) 2 (5,9%) 17 (50,0%) 10 (29,4%) 2 (5,9%) 34 Etn 3 (12,5%) 2 (8,3%) 6 (25,0%) 10 (41,7%) 3 (12,5%) 24 SP 1 (8,3%) 2 (16,7%) 1 (8,3%) 4 (33,3%) 4 (33,3%) 12 QPN 17 (13,4%) 9 (7,1%) 49 (38,6%) 38 (29,9%) 14 (11,0%) 127 Far 9 (5,3%) 4 (2,4%) 66 (39,1%) 78 (46,2%) 12 (7,1%) 169 TF 0 (0,0%) 1 (5,6%) 11 (61,1%) 4 (22,2%) 2 (11,1%) 18 Setor do Simpósio1

1 Setor: Agr (Agronomia); Bot (Botânica / Etnobotânica); Etn (Etnofarmacologia); SP (Saúde Pública) QPN (Química de Produtos Naturais); Far (Farmacologia / Toxicologia); TF (Tecnologia Farmacêutica). O setor de Registro, Legislação e Patentes não foi incluído, pois só teve três questionários. Outros 11 questionários não especificaram o setor.

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Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

para os trabalhos que acessaram conhecimento tradicional (Tabela 5), quando comparados aos tra-balhos que não acessaram conhecimento tradicio-nal (11,6% contra 7,6%, respectivamente). Mesmo assim a proporção de trabalhos sem autorização do CGEN ou cujos autores desconhecem o órgão se mantém semelhantes. Os resultados desta pesqui-sa mostram que a atual legislação brasileira é

ine-ficiente em atingir seus objetivos, já que uma gran-de parcela da comunidagran-de científica envolvida com a pesquisa de plantas medicinais desconhece sua existência, e mesmo entre os que a conhecem, ape-nas uma fração tem submetido seus projetos para aprovação pelo CGEN. Fica evidente, portanto, que o caminho escolhido pelo governo não tem sido o mais adequado.

Licença do CGEN

Obteve

Solicitou e está aguardando

Não solicitou / Não obteve

Não sabe do que se trata / Desconhece o CGEN Não se aplica ao trabalho

Total

Coleta (própria ou terceiros)

31 (10,4%) 16 (5,4%) 117 (39,4%) 111 (37,4%) 22 (7,4%) 297 Cultivo 9 (15,5%) 3 (5,2%) 16 (27,6%) 22 (37,9%) 8 (13,8%) 58 Comércio / empresa 1 (1,5%) 3 (4,6%) 22 (33,8%) 28 (43,1%) 11 (16,9%) 65 Não se aplica / Não houve coleta 1 (5,6%) 1 (5,6%) 4 (22,2%) 4 (22,2%) 8 (44,4%) 18 Dois entrevistados responderam não saber a origem do material estudado e nove não assinalaram nenhu-ma alternativa nesta questão.

Tabela 4 – Solicitações de licenças ao CGEN, de acordo com a forma de obtenção do material botânico. Os valores representam o número de trabalhos com as respectivas porcentagens entre parênteses.

Tabela 5 – Solicitações de licenças ao CGEN, entre os trabalhos que envolveram ou não o acesso ao conhecimento tradicional.

Licença do CGEN

Obteve

Solicitou e está aguardando Não solicitou / Não obteve Não sabe do que se trata / Desconhece o CGEN Não se aplica ao trabalho Total Acessou conhecimento tradicional 26 (11,6%) 13 (5,8%) 82 (36,6%) 82 (36,6%) 21 (9,4%) 224

Não envolveu acesso ao conhecimento tradicional 17 (7,6%) 10 (4,4%) 83 (36,9%) 86 (38,2%) 29 (12,9%) 225

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Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN Discussões sobre a necessidade de se controlar o

acesso aos recursos genéticos e proteger o conhe-cimento tradicional vêm sendo recorrentes em todo o mundo, especialmente após a convenção da biodi-versidade biológica (KING et al., 1996; AGUILAR, 2001; LAIRD, 2002; TIMMERMANS, 2003; VAN OVERWALLE, 2005; KARTAL, 2007). Além do Bra-sil, vários países já adotaram leis para regulamentar o acesso à sua biodiversidade e conhecimento tra-dicional. Entretanto, os mecanismos hoje adotados são pouco eficientes para reverter benefícios às co-munidades tradicionais e para a conservação destes ecossistemas, apresentando ainda, como desvanta-gem, o risco de desestimular a pesquisa científica e o investimento de indústrias para o desenvolvimento de produtos relacionados com a biodiversidade e o conhecimento tradicional. É pertinente se lembrar do fato que a colocação de um bioproduto no mercado é uma tarefa extremamente complexa e demorada, e somente com muito incentivo, desde a bioprospec-ção até a produbioprospec-ção e circulabioprospec-ção é que essa via terá sucesso.

Se por um lado hoje se aceita plenamente a proposta de que as comunidades detentoras de conhecimento tradicional devam receber benefícios pelas informa-ções oferecidas, quando houver desenvolvimento de produto comercial; por outro lado, há obstáculos evidentes para se identificar o que é uma pesquisa com potencial econômico e qual a comunidade a ser beneficiada, assim como mecanismos apropriados de repartição. A exata separação do que é conhe-cimento tradicional e o que se tornou conhecimen-to difuso é um empecilho para determinar em que casos caberiam repartição de benefícios. Também é fundamental que sejam diferenciadas a pesquisa básica (acadêmica) da pesquisa aplicada (com in-teresse no desenvolvimento de um produto) (MAR-QUES et al., 2007; MENDES et al., 2007). Ainda assim, não se pode ignorar que uma pesquisa com potencial econômico que vise o desenvolvimento de um novo produto farmacêutico possa fracassar na geração de um produto final e, por conseguinte, não caberia repartição de benefícios neste caso. Espera-se, portanto, que a nova legislação, considere estes casos, prevendo a possibilidade de contratos de re-partição de benefícios darem em nada.

Um dos maiores impasses para separar a pesqui-sa científica da bioprospecção ou pesquipesqui-sa com po-tencial econômico é definir o ponto a partir do qual passa a existir uma viabilidade econômica, já que os estudos de química e farmacologia quase sem-pre asem-presentam potencial econômico. A exigência

do contrato de anuência prévia e da repartição de benefícios, nestes casos, desestimula a realização do estudo. No caso das pesquisas visando o de-senvolvimento de novos fármacos, talvez o início da pesquisa clínica fosse o ponto de corte, onde já existem dados pré-clínicos suficientes que apóiam a viabilidade do estudo clínico, e há um inegável inte-resse pelo desenvolvimento do produto final (caso contrário; não seriam conduzidas pesquisas clínicas, devido ao alto custo desta etapa).

Outro problema continuamente levantado refe-re-se às dificuldades legais para garantir os direi-tos de propriedade intelectual do conhecimento tradicional associado. A lei de patentes não pre-vê mecanismos de proteção para o conhecimento tradicional, e mesmo os medicamentos tradicionais (preparações herbáticas) raramente são passíveis de patenteamento, já que é difícil atribuir a eles os conceitos de novidade, originalidade e utilida-de industrial, que são os requerimentos básicos e condições para propriedade intelectual (KARTAL, 2007). Entretanto, existe a possibilidade de paten-te para diversos processos, tais como os métodos de extração, purificação, concentração, isolamen-to, ou modificação da formulação (dose, composi-ção, etc.), assim como a obtenção de fórmulas com maior segurança ou eficácia, ou ainda para novas indicações (KARTAL, 2007).

Após a CDB, alguns países, blocos ou organizações internacionais passaram a propor novas formas de garantir a propriedade intelectual e a geração de benefícios para os detentores de conhecimento tra-dicional. Entre estas propostas, destaca-se o cha-mado “sistema sui generis” que funcionaria como uma alternativa ao atual sistema de propriedade in-telectual (AGUILAR, 2001; TIMMERMANS, 2003). Os mecanismos de proteção e geração de benefí-cios para o conhecimento tradicional poderiam se dar, entre outras formas, por (1) segredo comercial; (2) registro de direitos comunitários; (3) bancos de dados; (4) contratos; (5) licenças de conhecimento (para detalhes ver AGUILAR, 2001). Kartal (2007) sugere que cada país deveria ter seu banco de da-dos e o ideal seria que eles fossem interligada-dos para que servissem como uma eficiente ferramenta para o exame de patentes sobre os produtos da biodiver-sidade, advindos do conhecimento tradicional. Neste contexto, é fundamental separar a pesquisa científica da exploração industrial e criar ferramen-tas para que o saber científico produzido pela aca-demia não seja utilizado pela indústria como forma

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Tópicos em Debate/Debate O Conhecimento do Estudante e do Pesquisador Brasileiro sobre a Legislação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético – CGEN

de apropriação do conhecimento tradicional ou da biodiversidade, sem retorno para as nações ou po-vos detentores do conhecimento tradicional. Mas não se deve penalizar justamente o cientista brasi-leiro, criando burocracias incompatíveis com a rea-lidade acadêmica, prejudicando o desenvolvimento de teses e o estudo de nossa flora. É importante considerar que o estudo acadêmico pode, antes de tudo, resgatar e preservar um conhecimento em risco de extinção. Di Stasi (2005) observa que o estudo etnofarmacológico pode contribuir para a recuperação e preservação do conhecimento tra-dicional sobre plantas medicinais, melhorando as condições econômicas e de saúde da população local, ao retornar informações e orientações sobre o valor medicinal e melhor forma de uso, extração, cultivo e comercialização destes produtos. Em lon-go prazo, o estudo científico de componentes da biodiversidade brasileira, principalmente aqueles associados ao conhecimento tradicional e um his-tórico de uso, pode levar ao desenvolvimento de novos produtos, tais como medicamentos, insetici-das e cosméticos, ajudando no desenvolvimento do país. Este modelo se apóia no triângulo dourado de Mashelkar, segundo o qual o conhecimento tradi-cional, a medicina e a ciência moderna convergem como uma eficiente ferramenta para a descoberta de novas terapias, mais seguras e efetivas (KAR-TAL, 2007; LIU; WANG, 2008).

Como conclusão, esta pesquisa confirma o grande desconhecimento da comunidade científica sobre a legislação brasileira de acesso aos recursos gené-ticos e conhecimento tradicional, especialmente de estudantes de graduação, e mostra que a maioria dos estudos está sendo conduzida sem autoriza-ção dos órgãos competentes. Espera-se que a(s) nova(s) legislação(ões) contemple(m) os anseios da comunidade científica, facilitando a pesquisa da biodiversidade e do conhecimento das populações tradicionais brasileiras, e ao mesmo tempo garan-tindo mecanismos de proteção ao conhecimento tradicional. Espera-se ainda que a legislação pos-sua uma linguagem simples e fácil de ser interpre-tada, que possa ser assimilada pelos profissionais e estudantes envolvidos com a pesquisa de plantas medicinais no Brasil.

Agradecimentos

Os autores desta pesquisa agradecem aos estagi-ários e pós-graduandos do CEBRID, que ajudaram na aplicação dos questionários, e aos congressis-tas que participaram da pesquisa.

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009 1 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

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1 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Simpósios de Plantas Medicinais do

Brasil: 40 anos de História.

The Symposium on Brazilian Medicinal

Plants: 40 years of History.

Resumo

O valor terapêutico das as plantas medicinais nativas e aclimatadas no Brasil tem sido o tema de discussão em diversos Congressos científi-cos nacionais e internacionais. Dentre esses, destaca-se o Simpósio Brasileiro de Planta Medicinal, cuja ocorrência bi-anual. Nos últimos 40 anos, este Simpósio se consolidou como o mais importante encon-tro científico nacional nessa área. O objetivo deste trabalho é traçar um pouco da sua história, a partir, principalmente, de uma análise dos seus livros de resumos das comunicações ali apresentadas.

Abstract

Therapeutic value of Brazilian medicinal plants has been discussed in many international and national congresses. Among them, The Brazil-ian Symposium of Medicinal Plants deserves special attention. In the last 40 years they have consolidated of the most important scientific national meeting in this area. The goal of this article is to trace a little of its history, through an analysis of the abstract on the subjects, pub-lished thereafter.

Introdução

Para o cientista atuando em qualquer aspecto da pesquisa com plantas medicinais, a oportunidade mais adequada para a troca de informações é durante a realização dos Simpósios de Plantas Medicinais do Brasil (SPMB). A sua história já foi tema de uma tese de doutorado, na qual FERNANDES (2004) analisou detalhadamente cada um dos Simpósios realizados no período 1967-2002, avaliando o número de comunicações em cada encontro, as instituições presentes em cada um deles e pro-duzindo uma série de entrevistas com 17 pesquisadores atuantes na área de plantas medicinais. Mais recentemente, Carlini e Siani (2007) relembraram o primeiro desses Simpósios. Assim, abordo algumas questões não levantadas naquele minucioso trabalho, como a presença das instituições estrangeiras, as atividades terapêuticas das plantas estudadas, e a questão da colaboração entre os pesquisadores das diferentes áreas que fazem parte do estudo das plantas medicinais. O 1º SPMB ocorreu em 1967, na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Organizado pelos profes-sores J. R. Magalhães, E. A. Carlini e A. Kraemer, o Simpósio reuniu 103 pesquisadores, dos quais 12 apresentaram trabalhos nas áreas de *Alves, L. F.

Programa de Pós-Graduação e História da Ciência e das Técnicas Epistemológicas, Cidade Universitária, Centro de Tecnologia, Bloco G, Ilha do Fundão, Caixa postal 68501, 21945-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

*Correspondência: E-mail: [email protected]

Unitermos:

Plantas Medicinais Brasileiras, História.

Key Words:

Brazilian Medicinal Plants, History.

Revista Fitos Vol.3 Nº02 junho 2007

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Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009 1 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Elaboração de uma Cartilha Direcionada aos Profissionais da Área da Saúde, Contendo Informações sobre Interações Medicamentosas Envolvendo Fitoterápicos e Alopáticos Artigo Original/Original Article Simpósios de Plantas Medicinais do Brasil: 40 anos de História Artigo Original/Original Article

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Revista Fitos Vol.3 Nº02 junho 2007

farmacologia, fitoquímica e botânica. Esses 12 pro-fissionais representavam oito instituições: a Escola Paulista de Medicina, o Instituto Biológico, o Insti-tuto de Botânica e o Instituo Butantã, no estado de São Paulo, o Jardim Botânico, o Centro (atual Nú-cleo) de Pesquisas de Produtos Naturais da UFRJ e o Departamento de Química da UFRRJ, no Rio de Janeiro e o Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFCE. Apesar de ter contado com apenas 7 trabalhos, 3 em farmacologia, 2 em botâ-nica, 1 em fitoquímica e 1 misto (fitoquimica e far-macologia), esse primeiro encontro foi o ponto de partida para outros que vêm ocorrendo a cada dois anos em diferentes cidades do Brasil.

Em alguns casos, a palavra ‘palestra’ talvez seja mais adequada do que ‘trabalho’ para explicar o que houve naquela reunião histórica, há quarenta anos, pois quatro deles estavam relacionados com os problemas enfrentados pelos pesquisadores de cada uma das áreas presentes. Assim, o professor Carlos Rizzini, do Jardim Botânico do Rio de Janei-ro, e Luiz Fernando Labouriau, do Instituto de Bo-tânica de São Paulo, falaram, separadamente, so-bre as dificuldades do ponto de vista da botânica. O primeiro se manifestou sobre a importância da identificação do material vegetal e sobre a ‘falta de interesse da juventude para esse trabalho’ (RIZZI-NI, 1968), enquanto que o segundo expôs a ques-tão da cultura de plantas de interesse farmacológico (LABOURIAU, 1968). O professor Otto Gottlieb, do Instituto de Química da USP discursou sobre os problemas da química como a manutenção, a ope-ração e a manutenção do equipamento necessário para o isolamento e a identificação das substâncias químicas de origem vegetal (GOTTLIEB, 1968). Os problemas enfrentados pelos farmacólogos foram apresentados pelo professor José Ribeiro do Vale, do Departamento de Farmacologia da Escola Paulis-ta de Medicina (RIBEIRO DO VALE, 1968). Em sua palestra, ele lembrou do tempo em que trabalhava no Instituto Butantã (em 1936), que era, nas suas palavras: ‘um laboratório de química e farmacologia que causaria inveja mesmo aos pesquisadores de 1967’. Esse laboratório, entretanto, foi desmante-lado ‘e transformado em laboratório de química do tempo de Lavoisier’ (RIBEIRO DO VALE, 1968, p. 37). Finalmente, o professor Raymond Zelnick, da Seção de Química do Instituto Butantã, proferiu uma palestra sobre as plantas utilizadas na medicina e nos rituais pelos índios da Amazônia (ZELNICK, 1968). O objetivo principal do Simpósio era ‘estabe-lecer um real espírito de colaboração entre os vários pesquisadores, nesse campo de pesquisa [plantas

medicinais], um dos únicos talvez capaz de apre-sentar para a Indústria Brasileira conseqüências de monta, mesmo a curto prazo’ (MAGALHÃES et al., 1968, p. 7). Este ponto foi ressaltado por vários dos palestrantes. Por exemplo, no discurso de abertura o professor Moussatché, do Instituto Oswaldo Cruz disse (MOUSSATCHÉ, 1968, p. 9):

“Temos uma flora tão vasta que o que resta ainda por fazer é quase tudo. Desse modo, é bastante oportuna a idéia de promover essa reunião, com o fim de coordenar os diversos núcleos já existen-tes e trabalhando isoladamente. Sabemos muito bem das dificuldades existentes para promover algum estudo coordenado, multidisciplinar. O ob-jetivo principal desse Simpósio é exatamente o levantamento dessas dificuldades”

Para o professor Gottlieb. ‘nós os químicos orgâni-cos vivemos sós dentro do nosso campo, enquanto o farmacológo não sai do dele. Nós não sabemos o que o farmacólogo faz e publica, e o farmacólogo não sabe o que nós fazemos. Essa situação, é claro, precisa mudar e já está mudando’. Entretanto, ele continua afirmando: ‘É minha opinião que a diferen-ça de mentalidade entre o farmacólogo e o químico hoje, ainda é profunda demais para que uma medi-da oficial possa resultar em uma colaboração eficaz’ (GOTTLIEB, 1968, p. 19). Para ele, os esforços in-dividuais deveriam ser tentados em primeiro lugar; pois em seguida, viria o apoio oficial. O professor Ribeiro do Vale referiu-se à qualidade dois traba-lhos desenvolvidos pelos fitoquímicos, mas ‘a parte farmacológica é, ou falha, ou deficiente, ou mesmo inexistente’. E conclui: ‘tem que haver uma relação mais estreita entre o químico e o farmacologista, se possível até next-door’ (RIBEIRO DO VALE, 1968, p. 38; grifo no original). Os participantes do Simpó-sio adotaram as seguintes recomendações:

1. Publicação dos trabalhos do Simpósio. 2. Envio de sugestões e/ou planejamento para pesquisas específicas em Produtos Naturais de Interesse Farmacológico para a Comissão de Estudo de Produtos Naturais do CNPq e da FA-PESP.

3. Levantamento das linhas de trabalho e das possibilidades imediatas de cooperação dos vá-rios laboratóvá-rios, em equipamentos e pessoal. 4. Divulgação deste cadastro ainda em 1967. 5. Envio, pelos pesquisadores, à Comissão de Estudo de Produtos Naturais do CNPq, de to-dos os resultato-dos de trabalhos, passato-dos e futuros, que a Comissão deverá divulgar

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perio-20 Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009Revista Fitos Vol.4 Nº01 março 2009

Elaboração de uma Cartilha Direcionada aos Profissionais da Área da Saúde, Contendo Informações sobre Interações Medicamentosas Envolvendo Fitoterápicos e Alopáticos Artigo Original/Original Article Simpósios de Plantas Medicinais do Brasil: 40 anos de História Artigo Original/Original Article

dicamente, a todos os interessados no uso dos resultados.

6. Estudar a possibilidade de agrupamento re-gional dos laboratórios.

7. Preocupação com a carência de núcleos au-tênticos de pesquisa em Farmacologia Clínica. 8. Estímulo à formação interdisciplinar de pes-quisadores nesse campo.

9. Realização de um novo Simpósio, na sexta-feira e sábado anteriores à XX Reunião anual da SBPC, em São Paulo, em local a ser determi-nado.

As primeira e última recomendações se concretiza-ram já no ano seguinte. Um relatório, com as conclu-sões do Simpósio, também foi enviado ao CNPq. As outras recomendações ficaram no papel.

Na discussão final, ‘Planejamento para a formação de futuros núcleos de pesquisa dedicados ao estu-do da flora medicinal brasileira’, o Dr Walter Mors (1968), apresentou uma lista de 22 instituições pú-blicas dedicadas ao estudo das plantas medicinais, opinando sobre a inconveniência da criação de novos grupos, por considerar aquele número suficiente. Os grupos mencionados foram os seguintes:

1. Departamento de Química da UFRRJ 2. Departamento de Química da UFMG

3. Centro de Pesquisa de Produtos Naturais da UFRJ

4. Instituto de Química da UFPE

5. Seção de química do Instituto Butantã 6. Instituto de Química e Tecnologia da UFCE 7. Instituto Biológico de São Paulo

8. Divisão de Química do INT-RJ

9. Cadeira de Química Orgânica da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da USP

10. Instituto de Antibióticos da UFPE

11. Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da USP

12. Departamento de Farmacologia da Escola Paulista de Medicina

13. Cadeira de Farmacologia da Faculdade de Medicina da UFRJ

14. Instituto de Biofísica da UFRJ 15. Jardim Botânico do Rio de Janeiro 16. Instituto de Botânica de São Paulo 17. Faculdade de Farmácia de Araraquara 18. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto 19. Seção de Farmacologia do Instituto Oswaldo Cruz

20. Laboratório Central de Controle de Drogas e Medicamentos - RJ

21. Instituto de Biologia da UFMG

22. Instituto Nacional de Endemias Rurais – MG

A predominância absoluta do eixo Rio-São Paulo, com 16 grupos é gritante. O professor Labouriau (DISCUSSÃO FINAL, 1968, p. 59) chamou a aten-ção sobre esse fato, salientando o problema da dis-tância entre os laboratórios responsáveis pela pu-blicação dos resultados das pesquisas com plantas medicinais, na sua maioria situados na região sudes-te, e a matéria prima, que está a mil quilômetros de distância. Outra característica é o domínio das áreas de química e farmacologia. O professor J. R. Maga-lhães ressaltou o fato do ‘número irrisório, absoluta-mente ridículo de grupos de botânicos, atuando na área’ e ‘a falta acentuada de núcleos de pesquisa em Farmacologia Clínica, nem um grupo sequer figura na relação’ (DISCUSSÃO FINAL, 1968, p. 55). Na época em que o documento foi discutido e publicado (1968), a região nordeste compareceu com apenas uma instituição, o Instituo de Química da UFCE, que apresentou um único trabalho. Nesses quaren-ta anos a situação mudou quase que radicalmente. Foram criados diversos centros de pesquisa e pós-graduação em diversas cidades do país. A região su-deste (e São Paulo, em particular) continua à frente, mas o salto registrado com a presença dos grupos que foram sendo criados, é um fato indiscutível, em todos os congressos examinados neste trabalho. O II Simpósio ocorreu, como previsto no evento an-terior, em 1968, no mesmo local, isto é, na Facul-dade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Os professores J. R. Magalhães, E. Carlini e A. Kraemer foram mais uma vez os seus organiza-dores. Foram apresentados 20 trabalhos nas áreas de farmacologia, botânica, fitoquímica e toxicologia. Paulo Nóbrega, do Laboratório Central do Controle de Drogas e Medicamentos, proferiu uma palestra sobre a importância do controle de qualidade para a produção de fitoterápicos (NÓBREGA, 1970). Foram ainda apresentados Relatórios das Atividades do en-tão CPPN (BROWN, 1970), do Laboratório de Pro-dutos Naturais mantidos pela FAPESP no Conjunto das Químicas da USP (BRAZ FILHO, 1970a), do Ins-tituto de Tecnologia Agrícola e Alimentar do Ministé-rio da Agricultura (MORS, 1970a), do Departamento de Química da UFMG (ALVES, 1970) e da Escola de Pós-Graduação em Química da UFRRJ (BRAZ FILHO, 1970b). No seu relatório, Herbert Magalhães Alves, da UFMG observou que ‘não poderia tratar de plantas medicinais’, pois esta ‘não era a sua área principal de trabalho’. Ao mesmo tempo, segundo ele,

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