PASSATEMPO “HISTÓRIAS DE VIAGENS”
Era Verão e corria o ano da graça de 1975. Ano quente em temperatura e em Política... Éramos três: O Zé Inácio, o Victor e eu.
O carro era do Zé e estava velhinho a cair de podre. Não me lembro da marca, mas sei que tinha o motor atrás. À frente tinha uma bagageira espaçosa onde cabiam todos os tarecos de cozinha e alimentos para mais de uma semana. Mesmo nas descidas, não ultrapassava os 70 kms/ hora. Os pneus estavam rapados até à medula. A intenção do Zé era mudar os dois pneus da frente em Badajoz.
À hora do almoço estávamos a entrar nesta cidade, mas com as lojas todas fechadas. Para não perder tempo, resolvemos prosseguir caminho. Em cerca de uma hora estaríamos em Mérida com as oficinas todas abertas.
À saída de Badajoz, uma moça com a mochila às costas pediu-nos boleia. O Zé começou por balbuciar uma negativa, mas, por insistência minha, lá parou e a moça entrou no carro e ficou sentada ao meu lado no banco traseiro.
Pedi para esperar um bocadinho. - Como te llamas?- Perguntei eu.
- Maite... Mi família y mis amigos me llaman May - Adonde vas, Maite?
- A Madrid. Yo soy madrileña.
- Bueno, pués nosotros vamos a Francia y paramos también en Madrid. Pero solo mañana. Hoy nos quedamos por Toledo. Tienes interés en quedarte con
nosotros hasta mañana? Ela pensou um pouco e disse:
- Si... Me quedo con vosotros hasta mañana. E o carro começou a andar.
Estaríamos mais ou menos a meia distância de Mérida, e um pneu da frente "pifou". Não resistiu ao calor do piso da estrada.
Encostámos o carro à berma; metemos a roda sobressalente e continuámos a nossa viagem.
Teríamos andado mais três quilómetros e o outro pneu "pifou" também...
O calor era imenso; a estrada tremia com a canícula. O terreno era plano, descampado, seco. Não havia um arbusto que oferecesse um pouquinho de sombra. Só se ouvia o cantar ininterrupto das cigarras.
O Victor ficou dentro do carro de portas escancaradas; enquanto eu, o Zé e a Maite ficámos de braços estendidos a pedir boleia.
Depois de várias tentativas, parou um jeep.
Cerca de 10 kms à frente, o jeep parou numa bomba de gasolina. Ali fomos informados que Mérida estava em festa durante três dias e que o comércio estava fechado. Um carabineiro da patrulha lembrou-se que numa aldeia lateral, a 14 kms, havia uma oficina. Telefonou pra lá e disseram-lhe que tinham pneus ajustados às nossas necessidades. Precisávamos, então de duas jantes para equipar dois pneus novinhos em folha.
Alugámos um táxi e fomos ter com o Victor. Coitado! Estava quase a desmaiar...
Maldito macaco ferrugento e encravado, que não conseguia subir nem descer... O taxista utilizou o seu macaco e conseguiu pôr o nosso em funcionamento.
Perguntei ao Victor se preferia acompanhar o taxista e respondeu-me que não.
Depois de mais de 20 kms percorridos, saímos daquela oficina com duas rodas prontas a seguir caminho.
Quando chegámos ao carro, o Victor parecia um defunto. Transpirava e vomitava por todos os cantos.
Coitada da Maite! Deixara um disco da Amália junto ao vidro traseiro e, com o calor, ficou retorcido e quase feito numa papa...
Seguimos viagem.
Eram 3H30 da tarde e o calor continuava intenso.
Depois destas inesperadas peripécias, serenámos os nossos ânimos. Aos poucos fui ganhando confiança com a Maite.
O Zé levava um casaco pendurado num cabide, protegido por um saco de plástico que, em contacto com o vento, fazia um chinfrim desgraçado. Esse plástico prestou-me uma grande ajuda para eu entabular uma conversa mais intimista com a Maite. Aos poucos e com cautela fui avançando e ela, também aos poucos, foi aceitando os meus avanços bem calculados.
De vezes em quando o Victor olhava discretamente pelo retrovisor, mas depois compreendeu a situação e deixou-nos à vontade.
A certa altura, perguntou-me ela:
- Mira, tus compañeros no van a quedarse enfadados contigo y conmigo? - Porqué?- Perguntei eu.
- Porque estamos asi en este juego, amoroso...
- Nó; nada... Tranquila.. Estamos haciendo buena marmelada... - Pero marmelada, aquí en España és un dulce...
- Ui, que exagerado eres!...
- No soy exagerado, no... És difícil resistir a la tentación de tus labios de miel. Depois dum pequeno silêncio, perguntou-me:
- Yo soy morena... Te gustan las morenas?
- Claro que me gustan las morenas. Tu eres morena, bonita, elegante y muy sensual... - Eres muy simpático. Me gustan tus galanteos...
- Ai Maite, Maite!... Me sona bien tu nombre...
- Mi nombre es basco. Mi padre es de Bilbao. El nombre Maite significa QUERIDA, AMADA.
- Y tu eres muy amada?
- Si, muy amada...por mi família y por mis amigos. - Y por supuesto también por tu novio, no ?... - De momento no tengo novio.
- Y por que se dejaron? Lo puedo saber?
- Porque era demasiado celoso; más celoso que la madre que lo parió. Parámos em Trujillo e fomos dar uns mergulhos à piscina.
Aqui a sorte estava do meu lado.
Nem o Zé, nem o Victor sabiam nadar. Limitaram-se a ficar na parte menos funda da piscina, enquanto eu e a Maite nos afastámos lá para o fundo. Ali continuei a fazer o meu jogo de sedução. Nessa altura já não havia distanciamentos nem reservas entre nós.
E a viagem continuou e fez-se noite.
Alguns quilómetros antes de chegar a Toledo, saímos da estrada e acampámos numas terras. O Victor, já recuperado, acendeu o candeeiro, pôs a mesa e ali jantámos comidinha da boa que tinha sido feita em casa e conservada numa geleira. Os meus companheiros dormiram dentro do carro. Eu e a Maite dormimos na minha tenda. Nesse tempo, dar ou receber boleia, montar uma tenda em qualquer lado, não oferecia grandes perigos.
De manhã arrumámos as coisas e pouco depois estávamos em Toledo.
Passámos quase todo o dia nesta bela e antiga cidade. Tínhamos particular interesse por ela. Visitámos o Alcázar e ouvimos todo o historial franquista desta fortaleza e a "valentia" do comandante Moscardó. Percorremos ruas estreitas e sinuosas, comprámos alguns postais, visitámos a catedral.
À noitinha já entrávamos na Praça de Espanha em Madrid.
O Zé dizia-se cansado e queria encontrar um parque de campismo. Eu não queria largar a Maite. Ela, de mochila às costas, pediu-me para a acompanhar até ao cimo da Gran Via. Depois apanharia transportes para a sua casa e eu regressaria à Praça ao encontro dos meus companheiros. O Zé, enquanto dono do carro, e talvez por inveja, disse-me que ia embora e que não esperava por mim. Contrariado e indignado com o Zé, limitei-me apenas a acompanhá-la até ao princípio da avenida. Entregou-limitei-me um papel com a sua morada e nº. de telefone. A despedida foi doce e cheia de promessas. Vi-a afastar-se de mim subindo a Gran Via; de vezes em quando olhava para trás e acenava-me com os braços. Fiquei ali espectado olhando para ela até ser engolida pela curvatura da avenida.
Não procurámos nenhum parque de campismo. Estacionámos numa rua estreita e entrámos num hostal rasca e por lá ficámos num quarto quente como uma fornalha, com uma janela que dava para um saguão imundo.
De manhã bem cedinho, antes da força do calor, calcorreámos o centro de Madrid. Em todas as moças que passavam por nós, eu via a imagem da Maite.
Mais umas voltinhas de carro e seguimos a direção de Zaragoza.
O carro começou a fazer um barulho estranho. Ameaçava estoirar a cada momento. Cada vez me convencia mais que nos iria deixar pelo caminho. Durante uns bons quilómetros mantivemos uma brincadeira com uns garotos que viajavam com a mãe num DOIS - CAVALOS. Quando nos passavam à frente batiam palmas e gritavam vitória; mas quando ficavam para trás acicatavam a mãe para nos ultrapassar. Ela olhava para nós e ria com muita satisfação.
Durante muito tempo atravessámos uma paisagem árida com pouquíssima vegetação, cujos pontos mais altos nem tremoços seriam capazes de produzir. Por isso tinham sido aproveitados para gigantescos anúncios publicitários que poderiam ser vistos a dezenas de quilómetros. O touro, o famoso touro, negro de raça, via-se aqui e ali e sempre numa postura altiva e pujante. Ele mais parecia o símbolo da grandeza e valor dum povo do que a marca dum mero licor vendido em qualquer loja de bairro.
Ao fim da tarde chegámos a Zaragoza, debaixo duma trovoada assustadora. Tínhamos um problema muito grave:
Portugal estava no Verão Quente de 75 e em Espanha nenhum banco aceitava o nosso dinheiro.
As nossas bolsas estavam quase vazias. Eu comecei a viagem com 2.000 francos e fui trocando por pesetas. Até paguei mais de metade dos pneus, quando o combinado tinha sido que as despesas do carro seriam pagas por mim e pelo Victor, tais como a gasolina, as portagens e a mudança de óleo, e o carro seria da responsabilidade do seu dono. Em Zaragoza, mais uma visita à sua belíssima catedral, um belo passeio pela cidade e almoço num bairro típico chamado El Cubo.
Em Andorra as coisas não eram tão baratas como por cá se dizia.
Comprei um relógio num estabelecimento, cujo funcionário era português, e os meus colegas também fizeram compras na condição de tudo ser pago em escudos.
O Parque de Campismo ficava junto à ribeira. Águas geladas provindas do alto das montanhas. À noite a temperatura arrefece mesmo nos meses de Verão.
Os meus colegas tinham preguiça de montar a sua tenda. Preferiam dormir no carro. Eu entretinha-me a montar a minha canadiana, espetando pregos aqui e ali no chão duro. De repente, uma moça, com a mochila às costas, aproximou-se de mim e cumprimentou-me:
- Hallo!
- ho! - Resmunguei eu, continuando com uma pedra a bater no prego. - How are you?
- Fine, and you? - I lost my friends.
- My friends sleeps in the car. And I sleep here. If you want... - Respondi eu à maneira de convite.
- Yes, but only sleep. - Ok. - Concordei
A moça perdera os seus amigos e agora não tinha onde dormir.
Dormiu na minha tenda dentro dum saco-cama para melhor se proteger do frio e talvez dos hipotéticos avanços do "macho latino" de meia-tigela, que era eu...
Era professora de crianças e conversámos muito antes de adormecermos. De manhã pegou na sua mochila, agradeceu e foi embora.
Horas depois já tinha encontrado os seus amigos. Despediu-se de mim com um sorriso e um simpático good-bye !...
Finalmente passados quatro dias chegámos a Paris!...
Depois de montarmos as tendas no Parque de Boulogne fomos dar uma voltinha de carro.
O Zé queria mostrar que, apesar de nunca ter estado em Paris, ele conhecia aquilo melhor que nós. Então pôs-se às voltas na rotunda do Arco do Triunfo. De repente saiu-se com esta:
- Amanhã vamos embora para Lisboa.
- Nem penses nisso. Então nós demorámos uma semana para chegar a Paris e agora íamos embora sem mais nem menos?!...
- Se vocês não quiserem ir, vou eu sozinho; eu tenho lá coisas para fazer.
Falei com o Victor a sós e convenci-o a ficar. Aliás, eu nunca pensei que o Zé, acanhado como era, seria capaz de fazer tão grande viagem sozinho, ainda por cima numa carroça daquelas.
O Victor concordou comigo.
Na manhã seguinte, o Zé perguntou: - Querem vir ou não?
- Não queremos, não... Respondemos os dois ao mesmo tempo.
O Zé abriu a mala do carro e pôs no chão todos os tarecos de cozinha, os nossos sacos e tudo o mais.
- Eh, pá... Leva pelo menos as nossas coisas que não nos fazem falta... - Não levo nada.
Meteu-se no carro e foi embora.
Nós metemos tudo dentro das tendas e fomos para a cidade.
Já conhecíamos os sítios mais emblemáticos de Paris porque tínhamos estado lá no Verão de 74.
Mas Paris tem o sortilégio de se mostrar sempre novo aos nossos olhos. Paris não cansa. Paris é um mundo de maravilhas!...
Mas eu levava uma espécie de carta de recomendação...
À noite fomos a casa duma família "de bem", indicada a mim por uma amiga que esteve lá como empregada doméstica interna.
Batemos à porta e a Madame abriu. Ao primeiro impacto, ficou seriamente arrepiada ao ver-nos barbudos, sujos e transpirados... Gente pouco recomendável; deve ter pensado ela.
- Madame Orizet ?... - Oui, c`est moi...
- Pardon Madame; nous sommes portugais; des amis de Mariana. - Ah!... Très bien, très bien...
- Entrez, s`il vous plaît. Mariana m`a parler de vous. - Vous aimez Paris?
- Oui... on adore!... Paris c`est une ville monumentale. C`est la capitale du monde. - C`est vrai... Je vais vos chercer une boisson.
- Merci, Madame, mais on ne boit pas...
Esta Madame tinha um porte muito elegante e umas feições muito finas. O seu olhar brilhante era animado por um permanente e discreto sorriso. O seu marido não destoava. Também ele tinha aspecto dum verdadeiro "gentlemen". Estava impecavelmente vestido e ostentava um lencinho branco triangular na lapela.
Um pouco retraídos, entrámos e fomos bem recebidos por ela, pelo marido e pelos filhos adolescentes; e ainda pela empregada doméstica que era portuguesa.
Era Terça-feira. Ficou combinado que no sábado iríamos jantar lá em casa da Madame. Mas os dias foram passando e os francos estavam a desaparecer.
Ambos concluímos que não nos poderíamos aguentar em Paris até domingo. Resolvemos então ir à Gare de Lyon comprar bilhetes para sábado de manhã com destino a Lisboa. Logo depois dirigimo-nos à casa de Madame Orizet com uma desculpa esfarrapada. E como não estava ninguém em casa, deixámos recado na caixa do correio. Posteriormente a Mariana informou-me que a Madame tinha ficado muito aborrecida connosco, porque tinha preparado um belíssimo jantar para essa noite e que, tanto ela como o marido, teriam gostado muito de conversar connosco sobre a Revolução que estava a decorrer em Portugal. Dias depois, falou de novo com a Mariana, dizendo que também ela assumia alguma culpa porque estivera quatro dias sem ir à caixa do correio. Nos dois últimos dias, encontrámos um estudante português que andava a passar fome e comendo nas cantinas universitárias.
Juntámo-nos a ele e ainda comemos duas refeições rasca na Sorbonne. Mas o Victor tinha os seus caprichos!...
Na última noite em Paris, e contra a minha vontade, fez questão de irmos jantar a um restaurante grego no bairro de S. Michel. Um restaurante chique de muita qualidade. No ar pairava suavemente a música do filme Zorba. Eu já não tinha cheta e ele tinha apenas 123 francos. Mandou vir dois nacos de carne servidos num madeiro, e uma garrafa de vinho grego. Um pouco nervoso, e com o cardápio na mão, ia fazendo contas: Cada prato 36 francos; o vinho mais 40. Somava 112.
- Victor, não mandes vir mais nada, senão ainda ficamos metidos em maus lençóis. - Mando, sim. Ainda me sobram 11 francos.
- Sabes lá se os gajos ainda te vão cobrar alguma comissão? - Quero lá saber...
E, para sobremesa pediu um doce que custou 6 francos.
Na manhã de Sábado, antes de começarmos a trabalhar, dei comigo a refletir que, se tivéssemos sabido que o Zé Inácio nos iria pregar esta partida, nunca teríamos levado connosco tanta bagalhoça. A bagagem é um compromisso; obedece a planos previamente estabelecidos. Teria sido preferível a aventura, porque a aventura tem o sabor do imprevisto. O desconhecido é mais perigoso, mas acicata os sentidos e alimenta o imaginário. A vida não programada empresta ao dia-a-dia a cor viva daqueles que ainda sabem sonhar, e é do que está para vir que se alimentam os sonhos e as utopias.
Estava eu absorvido neste tipo de pensamento, e o Victor sacudiu-me com força. - Embora!... Vamos desmontar as tendas e arrumar todos os tarecos. O comboio não espera por nós.
Eram duas sacalhadas enormes muito difíceis de transportar.
Ao descer o primeiro degrau da escada do Metro, deixei cair uma panela que fez uma barulheira desgraçada tombando de degrau em degrau até ao fim. Quando me dobrei para a apanhar, os outros tachos caíram por cima da minha cabeça e ficaram espalhadas pelo chão. Algumas pessoas riram-se de mim. E eu só pensei: "Maldito Zé que nos abandonou... Ainda bem que é sábado; há pouca gente e ninguém me conhece..." Por volta do meio-dia, o Victor disse que tinha fome e que ia ao bar do comboio tentar comprar alguma coisa para comer. Voltou com uma pequena sande de fiambre e uma garrafinha de água. Eu abri o meu saco e retirei um pedacito de carne que tinha guardado no jantar da noite anterior. E nada mais comemos durante o dia.
Mas eu tinha 500 pesetas guardadas. Em Irun enquanto estivemos à espera do outro comboio, entrámos num restaurante junto à Estação e comemos dois Chuletones, regados com cerveja, que nos tiraram a barriga de misérias.
Entrámos no comboio.
Encaixei-me por debaixo dos bancos e, de pernas estendidas, vim a dormir até Santa Apolónia...