GRUPO 7.1
MÓDULO 17
Índice
Grupo 7.1 - Módulo 17
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1. NIETZSCHE E A GENEALOGIA DA MORAL
Quando consultamos um dicionário qualquer de vernáculos em busca do significado de bom e de mau, encontramos as seguintes definições:
Bom. (do lat. bonu) adj. 1. Que tem todas as qualidades adequadas à sua natureza e função. 2. Benévolo, bondoso, benigno. 3 Misericordioso, caritativo. 4. Rigoroso no cumprimento de suas obrigações (Aurélio).
Mau. (do lat. malu.) adj. 1. Que causa mal, prejuízo ou moléstia. 2. Malfeito; imperfeito, irregular. 3. De má qualidade; inferior. 4. Nefasto, funesto. 5. malvado (1): pessoa má. 6. Fam. Traquina(s), travesso (Aurélio).
Na verdade, antes mesmo de consultarmos um dicionário, “já sabemos” de antemão o significado de bom e de mau. Quando nascemos, ingressamos num mundo já constituído e somos educados, desde a mais tenra idade, na forma como devemos nos comportar, falar, agir e pensar, sobre o que é certo e o que é errado. Se agirmos em conformidade com a moral vigente seremos considerados bons, bondosos, benignos, e, se agirmos ao contrário, seremos considerados maus, malvados, causadores de temores etc.
O pensamento de Nietzsche vem para abalar as nossas certezas em relação aos significados desses valores. Para esse filósofo, é necessário rever como tais valores foram estabelecidos, para descobrir qual o seu verdadeiro valor.
A investigação nietzschiana sobre a moral segue um caminho diferente de Kant. Em sua obra Para genealogia da Moral, Friedrich Wilhelm Nietzsche se propôs a investigar qual é a genealogia dos valores bom e mau, isto é, qual é a origem desses valores e qual é o valor que eles têm. Conforme interroga no prefácio da referida obra, “(...) sob que condições inventou-se o homem aqueles juízos de valor, bom e mau? E que valor têm eles mesmos?” (1983, p.298).
Para Nietzsche, é necessário examinar como os valores foram fundamentados, para descobrir qual é o seu verdadeiro valor, qual é o seu valor de origem.
Segundo o filósofo, os historiadores da moral explicam em sua genealogia que a origem do conceito “bom” está relacionada às ações não egoístas, consideradas boas para aqueles a quem eram úteis. Depois, pelo costume do uso, de tanto serem consideradas boas, passaram por esquecer a origem dessa atribuição, e as ações altruísticas foram tomadas como boas em si mesmas. Para Nietzsche, a esses historiadores da moral falta o espírito histórico, pois eles tiram esse conceito de onde não existe.
Nietzsche expõe que o juízo “bom” foi cunhado pelos próprios “bons” que se intitularam como tal. Não tem origem no bondoso, no benigno, mas sim nos nobres e poderosos que são capazes de criar valores e selar cada coisa com um nome.
[...] o juízo “bom” não provém daqueles a quem foi demonstrada “bondade”! Foram antes “os bons”, eles próprios, isto é, os nobres, poderosos, mais altamente situados e de altos sentimentos, que
sentiram e puseram a si mesmos e ao seu próprio fazer como bons, ou seja, de primeira ordem, por oposição a tudo o que é inferior, de sentimentos inferiores, comum e plebeu (1983, p.299).
Os “superiores” ou os “bons”, devido ao distanciamento que encontravam dos “inferiores”, tomaram para si o direito de criar valores, sem se preocupar com a utilidade dos mesmos.
Nietzsche, então, busca pelo sentido etimológico da palavra “bom” nas diversas línguas. Encontra a ideia de “distinção”, sendo que “nobreza” é a ideia-mãe da qual se origina a ideia a respeito de “bom”. E a noção de “vulgar”, “plebeu”, “baixo”, transforma-se na ideia de “mau”. Destaca que nas raízes da palavra “bom” está a matriz de homens superiores e que, em contraposição, “mau” designa o que é simples, comum, ruim, baixo.
A moral de senhores é a moral dos nobres, dos fortes e dos poderosos; já a moral de escravos é a moral dos fracos, a moral de rebanho, dos ressentidos. “Dessa perspectiva, bom é quem extravasa a própria força e ruim quem é rancoroso; bom é quem não hesita de pôr-se à prova, de enfrentar o perigo, querer a luta, e ruim quem não é digno de participar dela” (Marton, 1993, p.52). Mas acontece que “‘Os senhores’ foram abolidos; a moral do homem comum venceu” (Nietzsche, 1983, p.300). Para Nietzsche, este fato tem como base o judaísmo e o cristianismo, que inverteram os verdadeiros valores e criaram uma rebelião dos “escravos da moral”.
O levante dos escravos da moral começa quando o ressentimento mesmo se torna criador e pare valores: o ressentimento de seres tais, aos quais está vedada a reação propriamente dita, o ato, e que somente por uma vingança imaginária ficam quites (Nietzsche,
1983, p.301).
A moral dos nobres tem na sua origem uma autoafirmação, um dizer sim a si mesmo. Suas forças são ativas, são dominantes e superiores. Segundo Gilles Deleuze, em sua obra Nietzsche e a filosofia, “apropriar-se, apoderar-se, subjugar, dominar são as características da força ativa” (p.66). Já a moral dos fracos e dos ressentidos se origina de uma negação. Como eles não podem se igualar e combater os mais fortes, ou seja, os nobres, designam-nos “maus” e, por contraposição, autodesignam-se “bons”. Veem na força e na potência dos senhores um mau, um perigo a ser combatido. O ressentido caracteriza-se pela não ação, por um estado em que as forças reativas predominam sobre as forças ativas. É aquele que não esquece e também não exterioriza a sua ação. Impossibilitado de vencer os fortes, inverte então os valores.
Incapaz de admirar o forte, o ressentido imputa-lhe justamente o erro de ser forte. Reúne fatos e testemunhas para montar sua peça de acusação, cujo objetivo último é o de introduzir no âmago do forte o vírus corrosivo da culpa (Marton, 1993, p.55).
No entanto, quando surge o ressentimento no homem nobre, este não o “envenena”, visto que o homem nobre age de imediato, exteriorizando sua vontade numa ação, sem dissimular e se esconder como o fraco, e, assim sendo, tem na ação o próprio “antídoto” contra o ressentimento.
A vontade de poder dos senhores, como uma força afirmativa, manifesta-se como uma vontade de dominar que lhes é característica. Já os fracos, incapazes de vencer os senhores, reprimem sua vontade de potência e com
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isso expandem sua interiorização, desenvolvendo assim uma “alma”. Os fortes fazem parte de uma aristocracia natural, daqueles que efetivam sua vontade de potência. Por isso, como se veem num mesmo patamar, fazem um acordo, um contrato para não se destruírem mutuamente. Nessas regras, os aristocratas são “adestrados” em menor grau, já que as mesmas são frutos de seus engenhos. Mas os ressentidos querem um acordo igual para todos, querem as mesmas regras tanto para os fortes quanto para os fracos, querem uma democracia. Daí as críticas de Nietzsche à democracia e ao cristianismo. Segundo Eugen Fink:
[...] es para Nietzsche la Revolución Francesa, el triunfo de todos
los mediocres, el nacimiento de las ideas modernas. Sólo em Napoleón vulve a aparecer, en medio de la rebelión desenfenada de la plebe, el gran hombre, el hombre noble [...]. El cristianismo es para él sólo la aparición más poderosa de algo más general: el cristianismo es moral de esclavos (1966, p.189).
As críticas de Nietzsche à democracia e ao cristianismo estão de acordo com as ideias defendidas pelo filósofo até então. Pois se, segundo ele, não há uma igualdade natural entre os homens, se o livre arbítrio é apenas uma invenção linguística, então a ideia de igualdade, qualquer que seja ela, democrática, cristã ou outra, contraria a ideia da correlação de forças ativas e reativas entre senhores e escravos.
Segundo Nietzsche, é natural que a força se manifeste enquanto tal, isto é, dominando e subjugando. A força, para Nietzsche, não está isolada, mas está sempre relacionada a outra força. Conforme explica Deleuze:
O conceito de força é portanto, em Nietzsche, o de uma força que se relaciona com uma outra força: sob este aspecto, a força é denominada uma vontade. A vontade (vontade de poder) é o elemento diferencial da força (p.13).
E esse elemento diferencial é a vontade que se exerce não sobre um elemento material, mas sobre outra vontade. Força e vontade estão juntas, mas não são a mesma coisa. “A força é quem pode, a vontade é quem quer” (Deleuze, p.78). As forças, de acordo com a sua qualidade, podem ser ativas ou reativas e em ambas existem a vontade de poder. A vontade de poder nos senhores é afirmativa e sua força é ativa. Nos escravos, sua vontade de poder é negativa e sua força é reativa. Assim, para Nietzsche:
Exigir à força que não se manifeste como tal, que não seja uma vontade de dominar uma rede de inimigos, de resistência e de combate, é tão insensato como exigir à fraqueza que se manifeste como força (1992, p.35).
Para Nietzsche, a autonomia do sujeito foi uma criação, apenas uma invenção linguística. Não existe um sujeito neutro que possui livre arbítrio. O sujeito não escolhe ser forte ou fraco. Ele é um ou outro.