ECLI:PT:TRL:2011:8871.03.2TVLSB.L1.8.C8
http://jurisprudencia.csm.org.pt/ecli/ECLI:PT:TRL:2011:8871.03.2TVLSB.L1.8.C8
Relator Nº do Documento
Ilídio Sacarrão Martins rl
Apenso Data do Acordão
20/01/2011
Data de decisão sumária Votação
unanimidade
Tribunal de recurso Processo de recurso
Data Recurso
Referência de processo de recurso Nivel de acesso
Público
Meio Processual Decisão
Apelação improcedente
Indicações eventuais Área Temática
Referencias Internacionais Jurisprudência Nacional Legislação Comunitária Legislação Estrangeira Descritores
Sumário:
I - A perda do interesse susceptível de legitimar a resolução do contrato afere-se em função da utilidade que a prestação teria para o credor, atendendo a elementos susceptíveis de serem valorados pelo comum das pessoas, havendo de justificar-se segundo o critério da razoabilidade, pois o devedor não pode ficar sujeito aos caprichos do credor.
II - O que significa que, no comum das obrigações pecuniárias, a prestação devida, não obstante a mora do devedor, continua a revestir o interesse que tinha para o credor.
III- Quando assim seja, a mora só se converte em não cumprimento definitivo da obrigação a partir do momento em que a prestação se não realiza dentro do prazo que, sob a cominação referida na lei, razoavelmente for fixado pelo credor.
IV- A objectividade do critério não significa de forma alguma que se não atenda ao interesse subjectivo do credor, e designadamente aos fins visados pelo credor que, não tendo sido
integrados no conteúdo do contrato, representam simples motivos em princípio irrelevantes. V -O que essa objectividade quer significar é, antes, que a importância do interesse afectado pelo incumprimento, aferida embora em função do sujeito, há-de ser apreciada objectivamente, com base em elementos susceptíveis de serem valorados por qualquer outra pessoa (designadamente pelo próprio devedor ou pelo juiz), e não segundo o juízo valorativo arbitrário do próprio credor. VI - Só nos casos - limite em que o exercício do direito de resolução de um contrato-promessa de compra e venda por parte do promitente comprador decepcionado se revelar excessivo ou exorbitar das regras da boa fé, ou os limites jurídico-normativos inerentes ao direito invocado, haverá a possibilidade de lançar mão da "válvula de escape do sistema" contemplada no artigo 334º do CC (abuso do direito) e considerar assim ilegítimo tal exercício.
(ISM)
Decisão Integral:
Acordam no Tribunal da Relação de Lisboa RELATÓRIO
B--- intentou acção com processo ordinário contra NP---., e Caixa---, S.A., pedindo que se declare resolvido o contrato-promessa celebrado entre a autora e a ré NP---; que seja a ré NP--- condenada a pagar à autora a quantia de € 96.003,63, acrescida de juros à taxa legal desde a citação e que se declare que a autora goza do direito de retenção sobre a fracção prometida vender.
Alegou, em síntese, que, no dia 10 de Outubro de 1981, a R. NP--- prometeu vender à A., e esta prometeu comprar, pelo preço de 1.878.000$00, livre de ónus e encargos, a fracção ---,
correspondente ao ---, do prédio sito na Rua ---.A escritura pública deveria ser outorgada no prazo de 9 meses e a promitente vendedora deveria, por meio de carta registada, notificar os demais outorgantes do notário, data e hora da escritura. A A. pagou à R. NP--- a quantia de € 1.870,49 e a C--- pagou à R. NP--- duas prestações no valor de € 1.870,49, cada uma. A 9 de Janeiro de 1982, a R. NP--- entregou à A. a fracção, e não notificou a A. para celebrar a escritura. A 27 de Março de 2003, a A. enviou à R. NP---, para a sede desta, carta registada com A/R pela qual lhe solicitava que procedesse à marcação da escritura no prazo de 30 dias, sob pena de considerar o contrato definitivamente incumprido. A carta foi devolvida com fundamento em não ter sido reclamada e em
2003 a fracção tinha o valor de € 99.759,58.
A autora considera que o contrato foi incumprido pela ré, por sua culpa exclusiva e, por isso, perdeu interesse na celebração do contrato definitivo.
A ré C.--- contestou, alegando que a A. não contactou a R. NP --- na morada por esta indicada. Conforme estipulado, o incumprimento seria sancionado com a execução específica. Em Novembro de 2002, a A. solicitou à R. C--- informação sobre qual o montante que esta pretendia receber para renunciar à hipoteca sobre a fracção.
Pugna pela improcedência da acção.
Contestou a ré NP--- e em, reconvenção, pediu que se condene a autora a reconhecer-lhe o direito de propriedade sobre a fracção e ainda a pagar-lhe, a título de indemnização pela ocupação da fracção, a quantia de € 73.500,00, desde 09 de Janeiro de 1982 até 1 de Março de 2005 e, a partir desta data, até desocupação efectiva, a quantia mensal de € 500,00.
Em síntese, alegou que era do conhecimento da A. que a R. NP--- podia ser contactada na ---, lote 1, r/c, ---. A fracção encontra-se registada a favor da R. NP-- e renderia, no mercado de
arrendamento, a quantia média mensal ao longo dos últimos 25 anos de € 245,00 e, em 2005, a quantia mensal de € 500,00.
A autora replicou, invocando a excepção da prescrição das rendas vencidas há mais de 5 anos. Foi admitida a intervenção principal provocada de C----, com sede na Avenida,---, tendo esta oferecido o seu articulado, alegando ter pago à R. NP--- três prestações.
Foi proferida sentença que julgou parcialmente procedente a acção e parcialmente procedente a reconvenção e:
- decretou a resolução do contrato a que alude o ponto 1º da matéria de facto provada;
- condenou a R. NP--- a pagar à A. a quantia de € 61.244,06,,acrescida de juros à taxa legal desde o dia 28 de Janeiro de 2005;
- reconheceu o direito de retenção da A. sobre a fracção identificada no ponto 1º da matéria de facto provada;
- reconheceu o direito de propriedade da R. NP--- sobre a fracção identificada no ponto 1º da matéria de facto provada e condenou a A. a reconhecer tal direito;
- absolveu a A. dos demais pedidos reconvencionais.
Não se conformando com a douta sentença, dela recorreu a ré C---, tendo formulado as seguintes CONCLUSÕES:
1ª - O presente recurso é interposto da sentença proferida pelo tribunal da Comarca de Lisboa em 16.04.2009, que julgou parcialmente procedente a acção declarativa de condenação proposta pela A. contra a --- e C---, S.A, no qual foram formulados os seguintes pedidos, os quais foram julgados procedentes:
- Resolução do contrato-promessa celebrado entre a A. e a 1ª R.;
-Condenação da lª R. no pagamento à A. de uma indemnização no montante de € 61.244,06; e - Reconhecimento do direito de retenção sobre a fracção "N" do prédio sito na Rua ---, lote ---,
descrito na Conservatória do Registo Predial de --- sob o n° ---, freguesia e concelho de ---, e inscrita na matriz predial urbana com o artigo ---, onde actualmente reside a A., ora recorrida. 2ª - Para tanto, o tribunal a quo considerou que se verifica o incumprimento definitivo daquele contrato por parte da 1ª R., em consequência da alegada perda de interesse na prestação pela A. 3ª - Ora, salvo o devido respeito, a sentença recorrida enferma de evidente erro de julgamento, uma vez que se bastou com a existência da mera interpelação admonitória e fixação de prazo, sem que tenha sido feito prova (nem inclusive tenham sido invocados) de factos onde se possa
fundamentar, de modo objectivo, a perda do interesse do credor, a A. e aqui recorrida, na prestação contratual, em manifesto desrespeito do previsto no art° 808° do CC.
4ª - Ao invés, o que resulta dos autos é que a A. não perdeu o interesse na prestação, tanto mais que continua a residir no prédio objecto do contrato-promessa, o que vem fazendo há mais de 20 anos.
5ª - Acresce que a presente demanda e a pretensão através dela deduzida configuram uma clara situação de abuso de direito da parte da A., ora recorrida, porquanto, tendo ficado provado que pagou na totalidade apenas € 3.740,98, em 1982 a título de sinal, e que à data da celebração do contrato-promessa o imóvel tinha um preço de € 9.367,42, pretende agora receber a título de indemnização € 96.003,63, ou seja, dez vezes mais que o preço e vinte e cinco vezes mais o sinal pago.
6ª - Considerando tudo o acima exposto, a douta sentença recorrida viola a norma citada, pelo que se impõe a sua revogação e a prolação de acórdão que negue provimento ao pedido da A., ora recorrida.
Termina pedindo que seja revogada a sentença recorrida. Não houve contra-alegações.
Colhidos os vistos legais, cumpre decidir. II – FUNDAMENTAÇÃO
A) Fundamentação de facto
A matéria de facto provada é a seguinte:
1º - No dia 10 de Outubro de 1981, por documento escrito subscrito pela A., chamada e R. NP---, esta última prometeu vender à A., e esta prometeu comprar, pelo preço de 1.878.000$00, livre de ónus e encargos, a fracção , correspondente ao 2º , do lote , sito na Urbanização NP -(A).
2º - Conforme estipulado, o preço seria pago da seguinte forma:
- a quantia de 375.000$00 como sinal e princípio de pagamento, a pagar pela chamada com a assinatura do acordo;
- 3 prestações de 375.000$00, cada, a pagar pela chamada, uma no dia 10 de Janeiro de 1982, outra no dia 10 de Abril de 1982 e a última na data da celebração da escritura;
- a quantia de 378.000$00, a pagar pela A. na data da celebração da escritura - (B).
3º - Conforme estipulado, "a escritura pública será outorgada no prazo de 9 meses, devendo a promitente vendedora, por meio de carta registada, notificar" os demais outorgantes "do notário, data e hora da escritura", sendo que "a data prevista para a celebração da escritura só poderá ser protelada ocorrendo justo impedimento devidamente comprovado", não podendo "a prorrogação... ser superior a três meses" - (C).
4º - Do documento referido no ponto 1º consta a seguinte cláusula: "a partir da assinatura do presente contrato", a A. entra "na posse da fracção, podendo utilizá-la" - (D).
5º - Conforme estipulado, "no caso de incumprimento do presente contrato ou de mora superior" aos 3 meses referidos no ponto 3º, "é reconhecido o direito de execução específica do presente contrato" - (E).
6º - A R. NP---encontra-se registada na Conservatória do Registo Comercial como tendo sede na Avenida ---, n° 33, --- - (F).
7º - A A. requereu a notificação judicial avulsa da R. NP---, na morada indicada no ponto 6º, para que esta procedesse à marcação da escritura no prazo de 30 dias, sob pena de considerar o contrato definitivamente incumprido, tendo sido lavrada certidão negativa pelo oficial de justiça, a 1 de Julho de 2003, da qual consta o seguinte: "na morada indicada foi informado de que nunca ali existiu a empresa a notificar. Existe desde 1976 a empresa Congque continua ali a funcionar" -(G).
8º - A fracção ---, correspondente ao ---, do prédio sito na Rua ---, lote n° --- , descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n° ---, encontra-se registada a favor da R. NP----, com hipoteca a favor da R. C.---. - (H).
9º - A 11 de Novembro de 2002, a A. solicitou à R. C---. informação sobre qual o montante que esta pretendia receber para renunciar à hipoteca sobre a fracção - (1º).
10º - A chamada pagou à R. NP- duas prestações no valor de 375.000$00, cada - (2º).
11º - A 9 de Janeiro de 1982, a R. NP---- entregou à A. a fracção identificada no ponto 1º - (3º). 12º - A R. NP---não notificou a A. para celebrar a escritura - (4º).
13º - A 27 de Março de 2003, a A. enviou à R. NP---, para a morada indicada no ponto 6, carta registada com A/R pela qual lhe solicitava que procedesse à marcação da escritura no prazo de 30 dias, sob pena de considerar o contrato definitivamente incumprido - (5°).
14º - A carta referida no ponto 13º foi devolvida com fundamento em não ter sido reclamada - (6º). 15º - Em 2003, a fracção identificada no ponto 1º tinha o valor de € 65.000,00 - (7º).
16º - Em 1982, a fracção identificada no ponto 1º tinha um valor na ordem de 1.900.000$00 - (9º). 17º- A fracção identificada no ponto 1º renderia, no mercado de arrendamento, a quantia média mensal ao longo dos últimos 25 anos de € 245,00 (109) e, em 2005, a quantia mensal de € 400,00 -(11º).
18º - A chamada pagou à R. NP--- a quantia de Esc. 375.000$00 com a assinatura do acordo referido no ponto 1º - (12º).
B) Fundamentação de direito
Nos termos preceituados nos artigos 660º nº 2, 684º nº 3 e 690º nº 1 do Código de Processo Civil, e sem prejuízo das questões cujo conhecimento oficioso se imponha, as conclusões da alegação de recurso delimitam os poderes de cognição deste tribunal. Nesta conformidade e considerando também a natureza jurídica da matéria versada, cumpre focar os seguintes pontos:
- A perda do interesse da autora na prestação contratual. - O abuso de direito.
A PERDA DO INTERESSE DA AUTORA NA PRESTAÇÃO CONTRATUAL
Na douta sentença entendeu-se que a mora da ré NP--- se converteu em incumprimento definitivo e que a autora resolveu validamente o contrato promessa.
Alega a apelante que há falta de factos onde se possa fundamentar, de modo objectivo, a perda do interesse da autora na prestação contratual.
Cumpre decidir.
O Código Civil define no art. 410º contrato-promessa nos seguintes termos:
“1. À convenção pela qual alguém se obriga a celebrar certo contrato são aplicáveis as disposições legais relativas ao contrato prometido, exceptuadas as relativas à forma e as que, por sua razão de ser, não se devam considerar extensivas ao contrato-promessa.
2. Porém, a promessa respeitante à celebração de contrato para o qual a lei exija documento, quer autêntico, quer particular, só vale se constar de documento assinado pela parte que se vincula ou por ambas, consoante o contrato-promessa seja unilateral ou bilateral.
3. (...)”
“Contrato-promessa – é um acordo preliminar que tem por objecto uma convenção futura, o contrato prometido. Mas em si é uma convenção completa, que se distingue do contrato
subsequente. Reveste, em princípio, a natureza de puro contrato obrigacional, ainda que diversa seja a índole do contrato definitivo. Gera uma obrigação de prestação de facto, que tem apenas de particular consistir na emissão de uma declaração negocial. Trata-se de um “pactum de
contrahendo” Galvão Telles, Direito Das Obrigações, 6ª ed. pág. 83..
“Contrato-promessa é a convenção pela qual, ambas as partes ou apenas uma delas, se obrigam, dentro de certo prazo, ou verificados certos pressupostos, a celebrar determinado contrato” A. Varela, “Das Obrigações em Geral”, 6ª ed., 1. °-301.
A regra geral nesta matéria é, por um lado, a de que os contratos devem ser pontualmente cumpridos e de que o devedor cumpre a obrigação quando realiza a prestação a que está vinculado - artigos 406º nº 1 e 762º nº 1 do Código Civil.
E, por outro, a de que nesse cumprimento e no exercício do direito correspondente devem as partes proceder de boa fé - artigo 762º nº 2 do Código Civil.
E considera-se constituído em mora quando, por causa que lhe seja imputável, o devedor não realize no tempo devido a prestação ainda possível a que está vinculado - artigo 804º nº 2 do Código Civil.
O incumprimento definitivo da obrigação pressupõe sempre uma situação de mora de cumprimento de uma das partes e consuma-se por via da perda do interesse do credor na prestação, verificada em termos objectivos, ou pela omissão de cumprimento pelo devedor em prazo razoável que lhe tenha sido fixado e comunicado pelo credor - artigos 801º e 808º do Código Civil.
Por outras palavras, para que o credor possa resolver o contrato promessa, desonerando-se da sua prestação, torna-se necessário, em princípio, que a prestação da outra parte se tenha tornado impossível, por facto imputável ao devedor - artigo 801º nº1 do Código Civil -, ou seja, quando haja incumprimento definitivo imputável ao devedor.
No caso de o credor perder o interesse na prestação ou de esta não ser realizada dentro do prazo que razoavelmente for fixado pelo credor, considera-se para todos os efeitos não cumprida a
obrigação, com o consequente direito potestativo de resolução, por impossibilidade culposa - artigo 801º nº 1e 808ºnº 1do Código Civil.
o outro faltou definitivamente à promessa, ficando o promitente cumpridor na titularidade de um poder potestativo à resolução do contrato - artigo 808º-, com as consequências estabelecidas no artigo 442º nº 2.
A perda do interesse na prestação é apreciada objectivamente – artº 808º nº 2 .
A perda do interesse susceptível de legitimar a resolução do contrato afere-se em função da utilidade que a prestação teria para o credor, atendendo a elementos susceptíveis de serem valorados pelo comum das pessoas, havendo de justificar-se segundo o critério da razoabilidade, pois o devedor não pode ficar sujeito aos caprichos do credor.
O que significa que, no comum das obrigações pecuniárias, a prestação devida, não obstante a mora do devedor, continua a revestir o interesse que tinha para o credor.
Quando assim seja, a mora só se converte em não cumprimento definitivo da obrigação a partir do momento em que a prestação se não realiza dentro do prazo que, sob a cominação referida na lei, razoavelmente for fixado pelo credor. Ac STJ de 5.3.2009, in CJ STJ I/2009, pág. 130.
A objectividade do critério não significa de forma alguma que se não atenda ao interesse subjectivo do credor, e designadamente aos fins visados pelo credor que, não tendo sido integrados no
conteúdo do contrato, representam simples motivos em princípio irrelevantes. O que essa
objectividade quer significar é, antes, que a importância do interesse afectado pelo incumprimento, aferida embora em função do sujeito, há-de ser apreciada objectivamente, com base em elementos susceptíveis de serem valorados por qualquer outra pessoa (designadamente pelo próprio devedor ou pelo juiz), e não segundo o juízo valorativo arbitrário do próprio credor.
Dito isto, há que reconhecer que a autora têm fundadas razões para ter perdido o interesse na compra, 22 anos depois de ter celebrado o contrato promessa sem que a hipoteca da Caixa Geral de Depósitos tenha sido expurgada e sem ver o seu investimento seguro, legal e financeiramente. E ainda porque a ré Nova Palmela não procedeu à marcação da escritura, após a ter sido solicitada para o efeito pela autora, por comunicação de 27 de Março de 2003.
Face a essa constatação, nos termos dos preceitos acima citados, há que concluir que houve incumprimento definitivo.
Falecem assim os fundamentos da apelação. O ABUSO DE DIREITO
Argumenta a apelante C--- que há de abuso de direito da parte da autora, ora recorrida, porquanto, tendo ficado provado que pagou na totalidade apenas € 3.740,98, em 1982 a título de sinal, e que à data da celebração do contrato-promessa o imóvel tinha um preço de € 9.367,42, pretende agora receber a título de indemnização € 96.003,63, ou seja, dez vezes mais que o preço e vinte e cinco vezes mais o sinal pago.
Cumpre decidir.
O artigo 334º do Código Civil, sob a epígrafe, abuso do direito, preceitua que é ilegítimo o exercício de um direito, quando o titular exceda manifestamente os limites impostos pela boa fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito.
O nº 2 do artigo 442º (sinal) do Código Civil preceitua o seguinte:
Se, quem constitui o sinal deixar de cumprir a obrigação por causa que lhe seja imputável, tem o outro contraente a faculdade de fazer sua a coisa entregue; se o não cumprimento do contrato for devido a este último, tem aquele a faculdade de exigir o dobro do que prestou, ou, se houve
tradição da coisa a que se refere o contrato prometido, o seu valor, ou o do direito a transmitir ou a constituir sobre ela, determinado objectivamente, à data do não cumprimento da promessa, com dedução do preço convencionado, devendo ainda ser-lhe restituído o sinal e a parte do preço que tenha pago.
Nos casos - limite em que o exercício do direito de resolução de um contrato-promessa de compra e venda por parte do promitente comprador decepcionado se revelar excessivo ou exorbitar das regras da boa fé, ou os limites jurídico-normativos inerentes ao direito invocado, haverá sempre a possibilidade de lançar mão da "válvula de escape do sistema" contemplada no artigo 334º do CC (abuso do direito) e considerar assim ilegítimo tal exercício.
Não é o caso dos autos, em que a autora actuou em conformidade com o que lhe impunham os preceitos legais aplicáveis e acima mencionados.
Assim, ficou provado que a ré NP--- entregou a fracção à autora a 9 de Janeiro de 1982 – (11º) – e, em 2003, a fracção tinha o valor de € 65.000,00 – (15º).
O preço convencionado no contrato promessa foi de 1.878.000$00 – (1º). A ré NP --- não notificou a autora para celebrar a escritura - (12º).
A 27 de Março de 2003, a autora enviou à ré NP---, para a morada indicada no ponto 6º, carta registada com A/R pela qual lhe solicitava que procedesse à marcação da escritura no prazo de 30 dias, sob pena de considerar o contrato definitivamente incumprido - (13°).
Tendo havido tradição da coisa, conforme resulta do nº 2 do artigo 442º do Código Civil, a autora tem a faculdade de exigir o valor da fracção à data do não cumprimento da promessa, com dedução do preço convencionado.
Por aplicação desta regra foi a ré NP--- condenada a pagar à autora a quantia de € 61.244,06, acrescida de juros à taxa legal, desde o dia 28 de Janeiro de 2005.
Improcedem, deste modo, as restantes conclusões das alegações da ré C--- CONCLUSÕES:
- A perda do interesse susceptível de legitimar a resolução do contrato afere-se em função da utilidade que a prestação teria para o credor, atendendo a elementos susceptíveis de serem valorados pelo comum das pessoas, havendo de justificar-se segundo o critério da razoabilidade, pois o devedor não pode ficar sujeito aos caprichos do credor.
- O que significa que, no comum das obrigações pecuniárias, a prestação devida, não obstante a mora do devedor, continua a revestir o interesse que tinha para o credor.
- Quando assim seja, a mora só se converte em não cumprimento definitivo da obrigação a partir do momento em que a prestação se não realiza dentro do prazo que, sob a cominação referida na lei, razoavelmente for fixado pelo credor.
- A objectividade do critério não significa de forma alguma que se não atenda ao interesse subjectivo do credor, e designadamente aos fins visados pelo credor que, não tendo sido
que essa objectividade quer significar é, antes, que a importância do interesse afectado pelo incumprimento, aferida embora em função do sujeito, há-de ser apreciada objectivamente, com base em elementos susceptíveis de serem valorados por qualquer outra pessoa (designadamente pelo próprio devedor ou pelo juiz), e não segundo o juízo valorativo arbitrário do próprio credor. - Só nos casos - limite em que o exercício do direito de resolução de um contrato-promessa de compra e venda por parte do promitente comprador decepcionado se revelar excessivo ou exorbitar das regras da boa fé, ou os limites jurídico-normativos inerentes ao direito invocado, haverá a possibilidade de lançar mão da "válvula de escape do sistema" contemplada no artigo 334º do CC (abuso do direito) e considerar assim ilegítimo tal exercício.
III - DECISÃO
Pelo exposto, julga-se improcedente a apelação, confirmando-se a douta sentença recorrida. Custas pela apelante.
Lisboa, 20 Janeiro de 2011 Ilídio Sacarrão Martins Teresa Prazeres Pais Octávia Viegas