XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
CONSIDERAÇÕES ACERCA DA (IN)CONSTITUCIONALIDADE DA PRISÃO IMEDIATA APÓS SENTENÇA CONDENATÓRIA PROFERIDA PELO TRIBUNAL
DO JÚRI
CONSIDERATIONS ABOUT THE (AN) CONSTITUTIONALITY OF THE IMMEDIATE PRISON AFTER A CONDEMNATORY SENTENCE GIVEN BY THE
JURY COURT
SOSSAI, Felipe Balan1 JUNIOR, Wanderlei Lukachewski2
RESUMO: A execução antecipada da pena após sentença condenatória proferida pelo Tribunal do Júri é insituto do Direito Penal brasileiro do qual decorreram demasiadas discussões junto aos tribunais superiores no decorrer dos anos. A discussão se aflorara junto à vigência, na data de 23 de janeiro de 2020, da nova Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019, oriunda do projeto de Governo denominado de Pacote Anticrime. Com este artigo, portanto, buscar-se-á explanar acerca de tal inovação legal, bem como ponderar acerca dos princípios constitucionais envolvidos. Com buscas em doutrinas e nas legislações nacionais e estrangeiras, acredita-se que o presente artigo sopesará a soberaria dos veredictos e presunção de inocência, visando evitar penas arbitrárias e desguarnecidas de fundamentos.
Palavras-chave: Tribunal do Júri. Execução da pena. Antecipação.
ABSTRACT: The early execution of the sentence after a condemnatory sentence given by the jury court is an institute of Brazilian Criminal Law, which, for certain stagnated for a determined time, emerged when the effects starts, on January 23, 2020, of the new Law No. 13.964 of December 24, 2019, arising from the Government project called the Anti-Crime Package. Therefore, this article will seek to explain about this legal innovation, as well as to consider the constitutional principles involved. With searches in doctrines and in national and foreign legislation, it is believed that this article will ponder the sovereignty of verdicts in front of the presumption of innocence, aiming to avoid arbitrary and unguarded of authorizers elements.
Keywords: Jury court. Execution of the sentence. Anticipation.
1 Graduando do Curso de Direito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari, turma 2016. Auxiliar de Cartório na Escrivania do Cível e Anexos da Comarca de Mandaguari/PR.
2 Graduado em Direito pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. Pós-graduado lato sensu em direito, em nível de especialização em direito aplicado. Mestre em Ciências Jurídicas pelo Centro Universitário de Maringá – CESUMAR. Advogado militante nas áreas Cível, Penal e Trabalhista.
Introdução
A Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019, proveniente do projeto de Governo denominado de Pacote Anticrime trouxe, consigo, a obrigatoriedade da antecipação dos efeitos da sentença penal condenatória proferida pelo Tribunal do Júri. De tal forma, alterou-se o artigo 492 do Código de Processo Penal, adcionando, junto a este, o §4º, que impõe ao magistrado presidente da sessão que mantenha ou, em sendo inexistente prisão preventiva, decrete a prisão do réu condenado a pena não inferior a 15 (quinze) anos de reclusão.
Sob tal perspectiva, objetiva-se vislumbrar um equilíbrio entre os princípios constitucionais envonvidos, quais sejam, o princípio da presunção de inocência e a soberania dos veredictos, assegurada à instituição do júri. Com destaque, as normas jurídicas que regem a nação são dela causa e efeito. Assim, com o escopo de demonstrar a importância da aplicação das senções penais quando essas se mostrarem estritamente necessárias, demonstrar-se-á que, de fato, não saída hermenêutica à presunção constitucional de inocência.
Deste modo, embora notória a consistência da presunção de inocência, há julgados e pareceres ministerias, conforme há de se demonstrar, que se arqueam em sentido diverso, não conhecendo a afronta ao direito subjetivo do acusado frente ao jus puniendi estatal.
Analisando-se normativas nacionais e estrangeiras, bem como doutrinas, buscou-se, além da ponderação principiológica, demonstrar a ausência de legislação vacante ou ofensa à segurança social que justifiquem a antecipação dos efeitos da condenação nos crimes levados a Júri. Demonstrar-se-á, pois, que os institutos penais, tais quais a prisão preventiva e a prisão temporária suprem o ímpeto estatal sem que, para tanto, sejam encarceradas pessoas de forma autoritária e infundada.
1. AS INOVAÇÕES DOS DISPOSITIVOS DA LEI N° 13.964 (PACOTE ANTICRIME) QUANTO À SENTENÇA CONDENATÓRIA PROFERIDA PELO TRIBUNAL DO JÚRI
Com os fins de adentrar no tema, falar-se-á, prontamente, das inovações trazidas pela Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019, oriunda do projeto de Governo denominado de Pacote Anticrime, que entrou em vigor na data de 23 de
janeiro de 2020. A inovação legal implicou em alterações significativas no Código Penal, no Código de Processo Penal e na Lei de Execuções Penais.
Dentre as modificações advindas do novo texto normativo, há de se ressaltar uma que, em especial, merece minucioso desdobramento, com o fim de evitar equívocos jurídicos de difícil reparação. Ocorre que, junto à vigência da Lei n° 13.964/19, admitiu-se a execução provisória da pena proveniente da condenação proferida pelo Tribunal do Júri, sem que o recurso de apelação, nas penas iguais ou superiores a 15 (quinze) anos, tenha, em regra, efeito suspensivo.
Nesse sentido, bem expôs Guilherme de Souza Nucci, ao enunciar que “[...] a Lei 13.964/2019 incluiu um dispositivo, impondo ao juiz presidente que mantenha ou decrete a prisão de quem for condenado a uma pena igual ou superior a 15 anos de reclusão.” (NUCCI, 2020, p. 1294).
Assim, alterou-se a estrutura do artigo 492 do Código de Processo Penal, adicionando, junto a este, o §4º, que autoriza a expedição de mandado de prisão como decorrência imediata da condenação.
Eugênio Pacelli, em menção à modificação, dispõe que:
[...] autorizou-se que, no caso de condenação pelo tribunal do júri a uma pena (fixada pelo juiz) superior a 15 (quinze) anos de reclusão, seja determinada a execução provisória das penas, independentemente dos recursos que venham ser interpostos (art. 492, I, “e” do CPP). Há exceções, nos §§ 3º a 6º foram estabelecidas algumas regras excepcionando a execução (provisória) das penas. (PACELLI, 2020, p. 1354).
Nesta oportunidade, faz-se apropriado salientar que a reforma jurídico-processual trazida pela Lei n° 13.964/19 ao artigo 492 do Código de Processo Penal, em seu §5°, trata como excepcional o direito de interpor o recurso de apelação em liberdade. Logo, não preenchidos os preceitos, enunciados pelos incisos do supramencionado dispositivo legal, tais quais: a ausência de propósito meramente protelatório e o levantamento de questão substancial capaz de absolver o acusado, anular a sentença, justificar novo julgamento ou reduzir da pena para patamar inferior a 15 (quinze) anos de reclusão, o trâmite do processo se dará junto ao encarceramento do réu.
No mesmo rumo, acrescenta Eugênio Pacelli que “pode-se suspender a execução provisória da pena se houver questão substancial cuja resolução pelo tribunal ao qual competir o julgamento possa plausivelmente levar à revisão da condenação”. (PACELLI, 2020, p. 1354). Quanto ao efeito suspensivo, proveitoso é
o ressalte feito pelo autor ao mencionar que “[...] excepcionando-se ainda a aplicação mediante presença de hipóteses com conceitos bastante indeterminados e subjetivos, a legislação efetivamente trouxe um complicador maior ainda”. (PACELLI, 2020, p. 1354).
Fundamental pontuar que, conforme enuncia Aury Lopes Junior, “A ‘execução antecipada da pena’, seja após a decisão de segundo grau, como já admitiu o STF por algum tempo, ou após a decisão de primeiro grau do tribunal do júri (art. 492, I, ‘e’), não tem natureza cautelar”. (LOPES JUNIOR, 2020, p. 1134). Deste modo, não se confunde a modalidade de prisão aqui explanada com as outras modalidades previstas pelo Código de Processo Penal, em seu artigo 283, distinção tal que será objeto de análise posteriormente.
A Constituição Federal de 1988, com especial cautela à dignidade da pessoa humana, enuncia, em seu artigo 5°, inciso LVII, a presunção de inocência como direito fundamental. Neste sentido, assinalou como momento processual oportuno para a execução da pena o do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, o qual, por si, extingue a presunção constitucional de inocência.
Com efeito, nota-se que a inovação legal relativizou a disposição constitucional ao considerar razoável a execução da pena ainda que em primeira instância de julgamento. Assim, não obstante as divergências provenientes do cumprimento da pena a partir do segundo grau de jurisdição, admitiu-se a possibilidade da execução logo após o trâmite do primeiro grau nos casos de crimes dolosos contra a vida.
Guilherme de Souza Nucci enuncia que “[...] O estado natural do ser humano, seguindo-se fielmente o princípio da dignidade da pessoa humana, base do Estado Democrático de Direito, é a inocência [...]” (NUCCI, 2016, p.453). Desta maneira, a intervenção do Estado no estado natural de liberdade do ser humano através do jus puniendi deve ser revestida das precauções devidas, evitando penas discricionárias e infundadas.
Cabe destacar que, conforme enuncia Eugênio Pacelli, “Não se pode perder de vista que o tribunal popular é composto de pessoas leigas e, nessa linha, existe a possibilidade (quiçá mais real) de erros na apreciação dos fatos e provas.” (PACELLI, 2020, p. 1356). Em continuação, ressalta que “Para reduzir essa possibilidade (do erro) é que se garante o duplo grau de jurisdição”. (PACELLI,
2020, p. 1356).
Aury Lopes Junior, ao assentir com o posicionamento desfavorável a execução provisória da pena, explica que “tanto a instituição do júri como a soberania dos jurados estão inseridos no rol de direitos e garantias individuais, não podendo servir de argumento para o sacrifício da liberdade do próprio réu”. (LOPES JUNIOR, 2020, p. 1333).
Salienta-se que, embora a execução provisória da sentença proferida pelo Plenário tenha sido acolhida pela Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019, os tribunais superiores, em ocasiões passadas, já flertaram com tal entendimento. Assim, por necessidade, oportuno é o amparo a determinados julgados que, dentre outros certamente relevantes, são essenciais à discussão sistemática do tema.
Em primeiro lugar, faz-se necessário o ressalte ao posicionamento assentado pelo Ministro Luís Roberto Barroso que, reputa que a execução antecipada da condenação pelo Tribunal do Júri não ofende o princípio da presunção de inocência.
No Habeas Corpus n° 118.770/SP, entendeu Luís Roberto Barroso que “[...] a execução da condenação pelo Tribunal do Júri não afronta o princípio da presunção de inocência, ainda que pendente o julgamento do recurso de apelação”. (STF HC nº 118.770/SP - SP 9990450-62.2013.1.00.0000, Relator: Ministro MARCO AURÉLIO, Data de Julgamento: 03/07/2019, Primeira Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 24/04/2017. p. 1), conforme demonstrado na ementa:
PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM HABEAS CORPUS. DUPLO HOMICÍDIO, AMBOS QUALIFICADOS. CONDENAÇÃO PELO TRIBUNAL DO JÚRI. INÍCIO DO CUMPRIMENTO DA PENA. POSSIBILIDADE. PREJUDICIALIDADE. 1. Os embargos declaratórios não devem ser acolhidos, tendo em vista que o acórdão embargado não incorreu nos vícios a que alude o art. 619 do CPP. 2. Não viola o princípio da presunção de inocência ou da não culpabilidade a execução da condenação pelo Tribunal do Júri, independentemente do julgamento da apelação ou de qualquer outro recurso. Decisão alinhada com a orientação firmada no julgamento do ARE 964.246-RG, Rel. Min. Teori Zavascki. 3. Ademais, “encontrando-se o embargante cumprindo pena de maneira definitiva em virtude do trânsito em julgado da sua condenação, conclui-se que o pedido do presente writ (“(...), a ratificação da ordem, para que o paciente aguarde em liberdade o trânsito em julgado da sentença penal condenatória – art. 5º, LVII, CF – por ser medida de Igualdade, Direito e Justiça!” - fls. 11) está prejudicado”. Precedente. 4. Embargos rejeitados. (STF HC nº 118.770/SP - SP 9990450-62.2013.1.00.0000,Relator: Ministro MARCO AURÉLIO, Data de Julgamento: 03/07/2019, Primeira Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 24/04/2017. n.p).
No mesmo sentido, quando do julgamento do Agravo em Recurso Extraordinário n° 964246/SP, o Ministro pontuou que:
[...] a Constituição brasileira não condiciona a prisão - mas, sim, a certeza jurídica acerca da culpabilidade - ao trânsito em julgado da sentença penal condenatória. O pressuposto para a privação de liberdade é a ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, e não sua irrecorribilidade. (STF RG ARE nº 964246 - SP 0009715-92.2010.8.26.0268, Relator: Ministro TEORI ZAVASCKI, Data de Julgamento: 10/11/2016, Plenário, Data de Publicação: Publicado no DJe: 25/11/2016. p. 46).
Salienta, sobretudo, que “[...] em julgamentos pelo Tribunal do Júri, em princípio, prevalece a soberania do Júri.”, bem como que “[...] não há arbitrariedade na manutenção no regime de prisão, ainda quando pendente a apelação.” (STF HC nº 118.770/SP - SP 9990450-62.2013.1.00.0000, Relator: Ministro MARCO AURÉLIO, Data de Julgamento: 03/07/2019, Primeira Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 24/04/2017. p. 8).
Com efeito, o Ministro Luís Roberto Barroso, no sentido do não comprometimento da presunção de inocência frente à execução provisória da pena proveniente de sentença proferida pelo Plenário do Júri, consolidou, posteriormente, seu entendimento no julgamento do Habeas Corpus n° 144712/SP, conforme se vê na ementa do julgado:
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS ORIGINÁRIO. HOMICÍDIO. CONDENAÇÃO PELO TRIBUNAL DO JÚRI. EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE OU ABUSO DE PODER. 1. A orientação firmada pelo Plenário do STF, no julgamento do HC 126.292 e do ARE 964.246-RG, ambos da relatoria do Min. Teori Zavascki, é no sentido de que a execução provisória da pena não compromete o princípio da presunção de inocência. Ademais, o julgamento condenatório em segundo grau de jurisdição impõe a prisão preventiva como medida de garantia da ordem pública. 2. Por outro lado, a Primeira Turma do STF já decidiu que não viola o princípio da presunção de inocência ou da não culpabilidade a execução da condenação pelo Tribunal do Júri, independentemente do julgamento da apelação ou de qualquer outro recurso (HC 118.770, Redator para o acórdão o Min. Luís Roberto Barroso). 3. Habeas corpus denegado, revogada a liminar. (STF HC 144712 – SP 0005821-03.2017.1.00.0000, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, Rel. p/ Acórdão Min. ROBERTO BARROSO, Data de Julgamento: 11/03/2019, Primeira Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 26/02/2019. p. 1).
De forma diversa, acordaram, por unanimidade, os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, no Habeas Corpus nº 521.628/PA, afirmando que, uma vez que o acusado respondeu a todo o processo em liberdade, sem constar fato que justifique o seu encarceramento deve, assim, ser assegurado o direito de recorrer em liberdade a seu favor. (STF HC nº 521628/PA - PA 0205508-22.2019.3.00.0000, Relator: Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Data de Julgamento: 08/10/2019, Sexta Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 14/08/2019. p. 1), o que se nota na ementa a seguir:
HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRISÃO REVOGADA POR EXCESSO DE PRAZO. SENTENÇA CONDENATÓRIA. PROIBIÇÃO DE RECORRER EM LIBERDADE. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. 1. A negativa do direito de recorrer em liberdade, sem fatos novos que justifiquem a medida, amparada somente no argumento de que a decisão condenatória proferida pelo Tribunal do Júri deve ser executada prontamente, sem qualquer elemento do caso concreto para demonstrar a necessidade da segregação cautelar, não transitada em julgado ou não confirmada a condenação por Colegiado de segundo grau, torna a prisão ilegal. Precedentes. 2. No caso, o ora paciente respondeu ao processo solto e não consta qualquer fato novo a legitimar o indeferimento do seu direito de recorrer em liberdade. 3. Ordem concedida para reconhecer em favor do paciente o direito de recorrer em liberdade. (STF HC nº 521628/PA - PA 0205508-22.2019.3.00.0000, Relator: Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Data de Julgamento: 08/10/2019, Sexta Turma, Data de Publicação: Publicado no DJe: 14/08/2019. p. 1).
O Recurso Extraordinário n° 1.235.340/SC, por sua vez, interposto pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina, visa reformar o acórdão proferido que negou provimento ao Agravo Regimental no Habeas Corpus nº 111.960/SC, mantendo a liberdade do acusado. Em manifestação, o membro do parquet salienta que:
[...] a relevância social decorre da “necessidade de garantir o efetivo e célere cumprimento das decisões proferidas no âmbito do Tribunal do Júri, visando, em especial, a confiança da sociedade numa ordem jurídica justa e satisfativa, sobretudo que tenha preocupação em concretizar, de modo imediato, a soberana decisão do povo nos crimes dolosos contra a vida”. (STF RE n° 1.235.340/SC – SC 4006821-45.2019.8.24.0000, Rel. Ministro ROBERTO BARROSO, em trâmite).
O Ministro Gilmar Mendes, não obstante os votos dos Ministros Roberto Barroso e Dias Toffoli, que conheciam e davam provimento ao recurso
extraordinário, votou no sentido contrário, de modo a manter a vedação à execução imediata da pena imposta pelo Tribunal do Júri, assentando, para tanto, a seguinte tese:
A Constituição Federal, levando em conta a presunção de inocência (art. 5º, inciso LV), e a Convenção Americana de Direitos Humanos, em razão do direito de recurso do condenado (art. 8.2.h), vedam a execução imediata das condenações proferidas por Tribunal do Júri, mas a prisão preventiva do condenado pode ser decretada motivadamente, nos termos do art. 312 do CPP, pelo Juiz Presidente a partir dos fatos e fundamentos assentados pelos Jurados (STF RE n° 1.235.340/SC – SC 4006821-45.2019.8.24.0000, Rel. Ministro ROBERTO BARROSO, em trâmite, Data da Decisão: 04/05/2020, Data de Publicação: Publicado no DJe em 12/05/2020).
Ante o exposto, em observância as demasiadas discussões acerca da possibilidade da execução da pena proveniente de condenação pelo Tribunal do Júri, o plenário, por unanimidade, reputou constitucional a questão, reconhecendo, pois, a existência de repercussão geral da questão suscitada.
Deste modo, evidente que o universo jurídico anseia pela pacificação da temática. Com tal fim, o Recurso extraordinário n° 1.235.340/SC, que discute, à luz do artigo 5°, incisos XXXVIII e LVII da Constituição Federal, da Constitucional Federal, se a soberania dos vereditos do Tribunal do Júri autoriza a imediata execução de pena imposta pelo Conselho de Sentença, frente à presunção constitucional de inocência, encontra-se em trâmite, em sessão virtual de julgamento. Assim, proveitosa é a ponderação entre os mencionados dispositivos constitucionais.
2. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA SOBERANIA DOS VEREDICTOS E DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA
Com a introdução feita pelo capítulo antecedente quanto às inovações trazidas pela Lei n° 13.964/19 (Pacote Anticrime) frente à execução provisória da pena após sentença proferida pelo Tribunal do Júri, há, pois, de se falar acerca da ponderação dos princípios constitucionais de presunção de inocência e soberania dos veredictos, em especial se este autoriza a execução da condenação, ainda que pendente o julgamento do recurso de apelação.
Em exame ao que fora devidamente exposto a respeito do revés anunciado pelo capítulo anterior, nota-se que, apesar de estagnada por certo período, a discussão se aflorara junto à vigência da nova Lei n° 13.964/19. Com efeito, a Constituição Federal de 1988, conforme previamente mencionado, anotou que o trânsito em julgado da sentença penal condenatória extingue de per si a presunção constitucional de inocência.
Neste sentido, nos termos do artigo 5°, inciso LVII da Constituição Federal, ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, presumindo-se, pois, inocente.
Do ponto de vista da filosofia geral, tem-se por presunção o “Raciocínio pelo qual se supõe, sendo a matéria de fato, uma conclusão provável, ainda que incerta.” (DINIZ, 2013, p. 474). Acentua, ainda, que a ação de presumir é a “[...] inferência baseada na probabilidade.” (DINIZ, 2013, p. 474).
Oportuna é a transcrição rigorosamente precisa de Guilherme de Souza Nucci, ao enunciar que “No cenário penal, reputa-se inocente a pessoa não culpada, ou seja, não considerada autora de crime.” (NUCCI, 2015, p. 454). Pontuando, sobretudo, que “Não se trata, por óbvio, de um conceito singelo de candura ou ingenuidade.” (NUCCI, 2015, p. 454), sendo tal definição a essência do termo.
Nesse contexto, faz-se apropriada a alusão a textos internacionais que fomentaram o nascimento da Constituição Federal de 1988, são eles: A Convenção Europeia dos Direitos do Homem de 1950 e da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 que, em seu artigo XI, 1, dispõe:
Artigo XI. 1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
De forma paralela, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, no seu artigo 6º, 2 e 3, b, enuncia-nos que:
Artigo 6°, 2. Qualquer pessoa acusada de uma infracção presume-se inocente enquanto a sua culpabilidade não tiver sido legalmente provada.
3. O acusado tem, como mínimo, os seguintes direitos:
b) Dispor do tempo e dos meios necessários para a preparação da sua defesa;
Fernando Capez, em relação à principiologia penal e processual penal, explica que “Da dignidade da pessoa humana, princípio genérico do Direito Penal, partem outros princípios mais específicos, os quais são transportados dentro daquele [...]” (CAPEZ, 2003, p. 12). Assim, como derivada da dignidade da pessoa humana, a presunção de inocência está solidificada no sistema processual penal brasileiro, de modo a efetivar o Estado Democrático de Direito.
No mesmo sentido, importante é a menção aos dispositivos de direito penal, processual penal e aqueles provenientes da Lei de Execuções Penais que permeiam a temática. Com efeito, o artigo 283, do Código de Processo Penal conclui que:
Artigo 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva. (BRASIL, 1941).
Sob mesma perspectiva dispõe o artigo 105, da Lei nº 7.210/84 (Lei de Execução Penal):
Artigo 105. Transitando em julgado a sentença que aplicar pena privativa de liberdade, se o réu estiver ou vier a ser preso, o Juiz ordenará a expedição de guia de recolhimento para a execução. Artigo 106. A guia de recolhimento, extraída pelo escrivão, que a rubricará em todas as folhas e a assinará com o Juiz, será remetida à autoridade administrativa incumbida da execução e conterá:
III - o inteiro teor da denúncia e da sentença condenatória, bem como certidão do trânsito em julgado; (BRASIL, 1984).
Assim, sobressaltados os principais pontos quanto à presunção constitucional de inocência bem como os dispositivos legais dela derivados, resta, por conseguinte, tratar das questões inerentes ao Tribunal do Júri em si e, de forma mais precisa, quanto à soberania dos veredictos por este proferidos.
Nos dizeres de Maria Helena Diniz, o Tribunal do Júri, consiste no:
“[...] Tribunal presidido por um juiz de direito, composto por vinte e cinco cidadãos moralmente idôneos, convocados para julgar crimes dolosos contra a vida, consumados ou tentados, entre os quais sete serão sorteados para compor o Conselho de Sentença em cada sessão de julgamento.” (DINIZ, 2013, p. 357).
Nos termos do artigo 5º, XXXVIII da Constituição Federal, à instituição do júri são assegurados: a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania
dos veredictos; d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
Para Guilherme de Souza Nucci, “A soberania dos veredictos é a alma do Tribunal Popular, assegurando-lhe efetivo poder jurisdicional e não somente a prolação de um parecer, passível de rejeição por qualquer magistrado togado.” (NUCCI, 2015, p. 673).
Indubitável que o ponto a ser explorado no presente momento é o conceito, bem como as variantes provenientes, do que vem a ser soberania. Conforme bem expos Nucci, “[...] Ser soberano significa atingir a supremacia, o mais alto grau de uma escala, o poder absoluto, acima do qual inexiste outro.” No contexto do veredicto popular, explica, “[...] quer-se assegurar seja esta a última voz a decidir o caso, quando apresentado a julgamento no Tribunal do Júri.” (NUCCI, 2015, p. 673).
Não obstante, o próprio jurista ressalta que:
Nada impede a harmonização de princípios, como, por exemplo, a válida utilização do duplo grau de jurisdição, afinal, jurados podem equivocar-se, como qualquer outro juiz, merecendo reavaliar o caso, em determinadas situações. Por isso, corretamente, estabelece-se a possibilidade de apelação, quanto ao mérito da decisão do Conselho de Sentença, desde que manifestamente contrária à prova dos autos (art. 593, III, d, CPP). (NUCCI, 2015, p. 674).
Sob perspicácia semelhante, destaca Eugênio Pacelli, a “[...] garantia da soberania dos veredictos deve ser entendida em termos, tendo em vista ser possível a revisão de suas conclusões por outro órgão jurisdicional (os tribunais de segunda instância e tribunais superiores) [...]” (PACELLI, 2020, p. 885), pontuado, inclusive, a revisão “[...] por meio da denominada ação de revisão criminal (art. 621, CPP).” (PACELLI, 2020, p. 885).
Anote-se, de tal modo, que não há de se confundir o princípio da soberania dos vereditos, atribuído constitucionalmente ao Tribunal do Júri, com a imutabilidade de suas decisões. Destaca-se que não há saída hermenêutica na interpretação do texto constitucional de que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.
Com efeito, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, em seu artigo 8°, enfatizou que a lei apenas deve estabelecer penas estritamente necessárias. Deste modo, decorre do direito de presunção de inocência que a prisão
após condenação em primeira instância deve ser a exceção e não a regra, conforme preconiza o §°5 do artigo 492, do Código de Processo Penal.
Assim, não obstante, a decretação de prisão de forma automática de forma quase que irrestrita pode ensejar o encarceramento injusto de pessoas, vislumbra-se que sobrepor o princípio constitucional da presunção de inocência à segurança jurídica da soberania dos veredictos não implica vedação de proteção à sociedade ou legislação vacante que tornem insuficientes os meios para garantir a segurança social, sendo que esta permite a decretação de prisão preventiva nos casos que a justifiquem, ponto este a ser tratado no capítulo subsequente.
3. AS MODALIDADES DE PRISÃO PREVENTIVA PREVISTAS PELO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL.
Em consonância com o explanado nos capítulos antecedentes, a modalidade de prisão criada junto ao advento da nova Lei n° 13.964/19 se distingue das demais espécies já previstas pelo artigo 283 do Código de Processo Penal, com efeito, das modalidades de prisão preventiva.
O artigo 283 do Código de Processo Penal expõe que:
Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva.
Quanto à prisão preventiva, em especial, são dois os aspectos que a diferem da execução provisória da sentença condenatória proferida pelo Tribunal do Júri. O primeiro, diz respeito à ausência de caráter cautelar desta, visto que desprovida de motivações preventivas para com o processo ou para com a sociedade. O segundo, entretanto, diz respeito à natureza jurídica de ambas as modalidades de prisão.
Sob tal lógica, a prisão preventiva, conforme nos explica Galdino Siqueira, não se trata de uma pena, em si, embora assuma esse caráter, sobretudo tendo em vista que “[...] a pena só pode ser imposta com a certeza do crime e de seu agente, e mediante julgamento.” (SIQUEIRA, 1930, p.129).
Nesse sentido, pondera Nucci, que a prisão preventiva “Trata-se de uma medida cautelar de constrição à liberdade do indiciado ou réu, por razões de
necessidade, respeitados os requisitos estabelecidos em lei.” (NUCCI, 2020, p. 988). Oportuna é a alusão aos registros de Hélio Tornaghi, que ressalta que “Qualquer que seja a finalidade da prisão preventiva, ela sempre é provisória e instrumental”. (TORNAGHI, 1995, p. 89)
O Código de Processo Penal, em seu artigo 312, elenca as justificativas ensejadoras da decretação da prisão preventiva, conforme se vê:
Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado.
Não obstante, os requisitos que devem ser respeitados se encontram estabelecidos no artigo 313, do mesmo diploma legal:
Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação da prisão preventiva: (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
I - nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos; (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
II - se tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
III - se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas de urgência; (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
Conclui-se, portanto, superadas as diferenças entre tais espécies de prisão, que o único estímulo à antecipação dos efeitos da sentença condenatória proferida pelo Tribunal do Júri, ao menos o único estímulo aparente, é a ânsia do Estado em punir o agente que supostamente cometeu o delito. Ânsia tal que, na modalidade de prisão esquadrinhada no presente, sequer apresenta fundamentos ensejadores, senão a mora do Poder Judiciário, que, por sua vez, não pode ser fundamento ao encarceramento de pessoas às quais fora suprimido o direito constitucional do devido processo legal.
Penal, incluídos pela Lei n° 13.964/19, nota-se que o único requisito que dá causa à antecipação dos efeitos da sentença condenatória proferida pelo Tribunal do Júri se trata, em verdade, de um requisito objetivo. Enquanto que, em contrapartida, os quesitos que, excepcionalmente, concernem à apelação o efeito suspensivo são, por certo, indeterminados e subjetivos, conforme outrora exposto.
Em harmonia com os preceitos de Nucci, sendo o estado natural do homem o da inocência, é imperiosa, pois, a existência de circunstância capaz de fazer jus ao seu encarceramento. Efetivamente, a mora do judiciário, de per si, não justifica a antecipação dos efeitos da sentença não transitada em julgado.
Imperioso o ressalte de que não poucos excessos históricos, analisados sob a ótica de seus períodos não foram vislumbrados como tais, que nos provam, inclusive, que a violência mais malévola à humanidade é a travestida de bons atos e revelada em leis federais.
Deste modo, é dever do homem refletir, a todo tempo, as normas que regem o sistema jurídico da sociedade e os procedimentos pelos quais estas se revelam, a fim de evitar penas discricionárias, desprovidas de fundamentação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ante todas as considerações feitas ao longo dos capítulos, inicialmente pôde-se destacar que a inovação legal dos dispositivos da Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019 trouxe, junto a si, a obrigatoriedade da antecipação dos efeitos da sentença penal condenatória proferida pelo Tribunal do Júri. Assim, impôs-se ao magistrado presidente da sessão que decrete a prisão do réu condenado a pena não inferior a 15 (quinze) anos de reclusão ou a mantenha, quando da existência de decretação de prisão preventiva.
Seguidamente, acentuou-se a importância da cautela quanto à aplicação das penas no âmbito penal, de forma a garantir a aplicação tão somente das penas estritamente necessárias ao processo e à proteção da sociedade. Com base na ponderação dos princípios constitucionais, verificou-se ser fundamental, e plenamente possível, a harmonização principiológica entre a presunção de inocência e a soberania dos veredictos.
encarceiramento do acusado, dever-se-há respeitar o devido processo legal, assegurado-lhe constitucionalmente. Deste modo, ao deslocar o indivíduo de seu estado natural que, conforme exposto, é o da inocência, deve ser devidamente comprovada sua culpabilidade.
Por fim, com a demonstração da possibilidade da decretação de prisão preventiva, demonstrou-se não haver vacância legal que implique em vedação de proteção à sociedade ou dos meios para garantir a segurança social e, finalmente, que justifique a inovação legal.
Deste modo, visto que inexistem fundamentos legítimos que amparam a antecipação da execução da pena proveniente de sentença proferida após sessão do Tribunal do Júri, conclui-se que esta serve tão somente como contrapeso à mora do Poder Judiciário. Assim, o instituto instituído junto à vigência da Lei n° 13.964/19 não comporta justificativas ensejadoras, sendo que sua manutenção pode acarretar na execução de penas desnecessárias perante o processo.
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XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
A NOVA LEI DE ABUSO DE AUTORIADE NO ÍNQUERITO POLICIAL
THE NEW LAW OF ABUSE OF AUTHORSHIP IN THE POLICE INVESTIGATION
Autor: Joao Pedro Rodrigues Garcia3 Orientador: Prof. Wanderley Lukashewski Junior4
RESUMO: O Nova Lei de Abuso de Autoridade é um tema bastante recente, tendo em vista que a mesma foi aprovada no ano de 2019, mas sua tramitação estava no congresso nacional desde de 2017, passou pelo senado federal e faltava apenas a câmera dos deputados aprovar. Houve um atraso de 2(dois) anos e após esse período veio sua aprovação na integra. A Nova Lei trouxe muitas polemicas envolvendo alguns artigos, o que atrelado a dificuldade de interpretação do elemento subjetivo dos tipos penais, há campo fértil para debate sobre o tema.
Palavras-chave: Lei. Inquerito. Abuso.
ABSTRACT: The new law on abuse of abuse of authority is a very recent issue, considering that it was approved in 2019, but its process was in the national congress since 2017, passed through the federal senate and only the camera of the deputies was missing. to approve. there was a delay of 2 (two) years and after that period came its full approval. the new law brought many controversies involving some articles, which linked to the difficulty of interpreting the subjective element of criminal types, there is a fertile field for debate on the topic.
KEYWORDS: Law. Inquiry. Abuse.
INTRODUÇÃO
A nova Lei de Abuso de Autoridade, aprovada pelo Congresso Nacional e que entrou em vigor em janeiro de 2020, busca endurecer as punições e os fatores que levam a ser considerados o que são crimes de abuso de autoridade. Está lei, vem em substituição de uma Lei mais antiga, e com punições menos severas.
O objetivo deste trabalho, é apresentar as definições, principais características e mudanças que essa Lei trouxe para os agentes públicos brasileiro, e para os cidadãos que por ela recorrerem. Este trabalho possui relevância, pois como uma se trata de uma nova Lei, se faz necessário o conhecimento e o
3 Graduando do Curso de Direito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari, turma 2018
enquadramento sobre o assunto. Porém esse trabalho levanta o seguinte problema, por que se fez necessário a criação de uma nova Lei?
Pois a lei antiga de 1965, já não conseguia representar abuso de autoridade com tanto vigor nos tempos modernos. Para resolver esse problema apresentado, será realizado uma pesquisa bibliográfica, apresentando em um primeiro momento, a importância dessa nova lei, e como ela surgiu, e em um segundo momento, vem a apresentar as mudanças que ocorrem de uma lei para outra.
ABUSO DE AUTORIDADE
A Lei Federal 13.869, nomeada Lei de Abuso de Autoridade, a qual apresenta novas características penais e processuais penais do abuso de poder praticado por Agente Público, foi publicada e sancionada, em edição extra, pelo Presidente da Republica Jair Messias Bolsonaro, em 05 de setembro de 2019. Onde o Sr. Presidente, realizou o veto de 33 (trinta e três) ações da referida lei, porem o Congresso Nação não seguiu a linha de pensamento do chefe do Poder Executivo e derrubou dezoito de seus vetos parciais, e outros quinze foram restaurados, concluindo em quarenta e cinco condutas criminosas. (COIMBRA, et al, 2020)
A nova Lei de Abuso de Autoridade nº13.869/2019, que entrou em vigor no dia 03 de janeiro de 2020, após os 120 dias de vacância da lei, veio substituir a Lei nº8.898/65 que possuía regras mais brandas quanto ao tipo de abordagens utilizadas pelos policiais, essa nova configuração de lei, veio impondo alguns tipos de conduta abusivas contra os agentes públicos de todo o país. O texto normativo originário da Lei, é o projeto de Lei 7.596 de 10 de maio de 2017 do Senador Randolfe Rodrigues – REDE/AMAPÁ.
Porém antes de adentrar mais sobre a nova Lei, é preciso conhecer um pouco mais sobre as definições de abuso de autoridade, e como ele pode afertar nos agentes públicos que trabalham e possam vir a ser condenados com essa nova Lei.
Bobbio, Matteucci e Pasquino, (2003, p.91), apresentam a seguinte definição para autoridade,
A autoridade comporta de um lado, a aceitação do dever da obediência incondicional e, de outro, a pretensão a tal dever, ou – o que é a mesma coisa – ao direito de ser incondicionalmente obedecido. Neste sentido, pode constituir-se um tipo puro de Autoridade: uma relação de poder fundada exclusivamente na crença da legitimidade. (...) O detentor do poder
pretende obediência não só por força da legitimidade, de seu poder, mas ainda com base na possibilidade de obrigar ou punir, aliciar ou premiar.
Já Plácido e Silva (2013, p.103), definem autoridade como,
Um termo derivado do latim actoritas (poder, comando, direito, jurisdição), é largamente aplicado na terminologia Jurídica, como o poder de comando de uma pessoa, o poder de jurisdição ou o direito que assegura a outrem para praticar determinados atos relativos a pessoas, coisas ou atos. Desse modo, por vezes, a palavra designa a própria pessoa que tem em suas mãos a soma desses poderes ou exerce uma função publica, enquanto, noutros casos, assinala o que poder é conferido a uma pessoa que possa praticar certos atos, sejam de ordem pública, sejam de ordem privada. Em sentido geral, assim, autoridade indica sempre a concessão legítima outorgada à pessoa, em virtude de lei ou de convenção, para que pratique atos que devam ser obedecidos ou acatados, porque eles têm o apoio do próprio direito, seja público ou privado. Assinala competência funcional ou o poder de jurisdição. Autoridade. Por vezes, sem fugir ao rigor de seu sentido etiológico, significa a força obrigatória de um ato emanado da autoridade. E assim se diz a autoridade da lei ou autoridade de um mandado judicial.
Dessa forma, equiparando as duas definições de autoridade, ambas levam ao mesmo sentido, definem autoridade como uma forma de poder, que determinada pessoa possui, seja definida por outra, ou imposta por determinada lei ou função pertinente, vale ressaltar ainda que autoridade pode ser exercida tanto por funcionalismo público, quanto privado, sendo o público o funcionalismo abordado pela nova lei. (ARENDT, 2004)
O artigo 70º do Código Penal Brasileiro, o crime de abuso de autoridade, inclui as condutas realizadas de forma excessiva de poder e desvio de finalidade, essa conduta delituosa excessiva de poder ou abuso no uso do poder pode ser entendida quando o agente publico excede o poder a que ele foi investido, podendo dizer dessa forma, que o abuso no uso do poder é apontado como poder em abundância. (NETO, 2017)
Portocarrero (2010, p.21) enfatiza que,
O abuso de autoridade é um delito de tendência, na medida que exige tacitamente, que o agente pratique a conduta tipificada como abuso de autoridade com dolo de abusar de seu poder, de forma negativa, desejando subjugar a vítima, não se caracterizando quando outra for a inclinação que o agente tenha emprestado ao seu dolo.
O autor busca apresentar, que o abuso de autoridade é uma tendência onde exige que o agente pratique tal conduta a ser considerado abuso, enquadrando-se
no abuso do poder ou cargo que lhe fora atribuído, tomando medidas que são consideradas de acordo com a nova lei, abuso de autoridade cabíveis de penas.
A referida lei (nº 13.869/2019), busca exigir que o servidor publico, atue em conformidade com as exigências de um país democrático de direito, respeito os princípios e direitos estabelecidos pela Constituição Federal. Sanches e Greco (2020, p.12) se posicionam sobre o assunto dizendo que,
É o interesse geral (inclusive – e mais ainda – do Estado) o normal funcionamento e o prestígio da Administração Pública, naquilo que diz respeito à probidade, ao desinteresse, à capacidade, à competência, à disciplina, à fidelidade, à segurança, à liberdade e ao decoro funcional. O agente, representante de um poder estatal, tem por obrigação principal e constante cumprir regularmente seus deveres, confiados pelo povo. A traição funcional, por meio do abuso, faz com que todos tenhamos interesse na sua punição, até porque, de certa forma somos afetados por ela, ainda que indiretamente.
É nesse contexto que nasce a Lei de Abuso de Autoridade (Lei 13.829/19), tendo como finalidade anunciada modernizar a prevenção e repressão aos comportamentos abusivos de poder no trato dos direitos fundamentais do cidadão, colocando em mira a conduta de autoridades e agentes públicos. Em suma, edifica-se proteção para as garantias constitucionais básica do cidadão em relação aos agravos realizados por agentes do Estado. Para tanto, são criados novos tipos penais reformados outros e incrementadas penas.
Seguindo o pensamento dos autores, o novo texto normativo, trouxe grandes mudanças e novas tipificações penais de impacto, especificando condutas que devem ser consideradas abuso de autoridade e prevendo suas respectivas punições.
Em seu Art 1º, em seu § 1º garante que, as condutas descritas nesta Lei, constituem crime de abuso de autoridade quando praticadas pelo agente com a finalidade especifica de prejudicar outrem ou beneficiar a si mesmo ou a terceiro, ou, ainda, por mero capricho ou satisfação pessoal. Ou seja, está garantido no escopo da lei, que qualquer tipo de conduta que seja realizada a fim de se beneficiar ou prejudicar outra pessoa é considerado crime de autoridade, com punição previamente estabelecida. (TEIXEIRA, 2019)
A nova lei amplia tanto as condutas descritas como abusivas na legislação anterior, como a quem essas se aplicam, englobando servidores públicos e autoridades tantos civis quanto militares, presentes nos três Poderes – Executivo,
Legislativo e Judiciário, como também membros do Ministério Público, sejam federais quanto estaduais. (PARANÁ, 2018)
Em seu Art. 2º, a Lei 13.829/19, esclarece o que fora citado acima,
É sujeito ativo do crime de abuso de autoridade qualquer agente público, servidor ou não, da administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de Território, compreendendo, mas não se limitando a: I – servidores públicos e militares ou pessoas a eles equiparadas; II - membros do Poder Legislativo; III – membros do Poder Executivo; IV – Membros do Poder Judiciário; V – membros do Ministério Publico; VI – membros dos tribunais ou conselhos de contas.
Em seu parafagro único o Art. 2º, ainda salienta que,
Reputa-se agente público, para efeitos desta Lei, todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designinação, contratação, ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função em órgão ou entidade abrangidos pelo caput deste artigo.
Ou seja, qualquer que pessoa que direta ou indiretamente esteja envolvida em algum cargo ou função pública, é considerado agente público como tal. Devendo responder em caso de abuso de autoridade igual aos demais funcionários públicos, independente se receba ou não, desde que exerça uma função já é considerada igual, sendo considerados sujeito ativo.
Oliveira (2017, p.32) afirma o texto acima divindo Agentes Públicos em duas,
Agentes Públicos de direito: são aqueles que possuem vínculos formais e foram investidos, regularmente, nos cargos empregos e funções públicas, como os agentes políticos, servidores públicos e particulares em colaboração.
Agentes Públicos de fato: são os particulares que não possuem vínculos jurídicos válidos com o Estado, mas desempenham funções públicas com a intenção de satisfazer o interesse público. São os particulares que exercem a função publica sem a investidura prévia e válida.
O autor ainda apresenta duas subdivisões dos Agentes Públicos de fato,
Agentes de fato putativos: exercem a função pública em situação de normalidade e possuem a aparência de servidor publico (ex.: Agentes Públicos que desempenham a função pública sem a aprovação em concurso público valido); e
Agente de fato necessários: exercem a função pública em situações de calamidade ou de emergência (ex.: particulares que, espontaneamente, auxiliam vítimas em desastres naturais). (OLIVEIRA 2017, p.32)
Além dos sujeitos ativos representandos, ao analisar a lei 13.869/2019 é possível verificar também crimes da referida norma são delitos que engloba dois sujeitos passivos, que segundo Mezacasa (2020, p.272),
Sujeito passivo principal ou imediato: representado pela pessoa física ou jurídica sendo atingida ou prejudicada de modo direto pela ação abusiva. Sujeito passivo secundário ou mediato: é o Estado, o Poder Público, que por meio de um agente que pratica um ato abusivo macula sua imagem, sua credibilidade ou até mesmo seu patrimônio.
Com as definições apresentadas pelos autores dos sujeitos passivos e ativos, é possível compreender a quem se enquadra a lei de Abuso de Autoridades, abrangendo mais agentes do que a antiga lei, facilitando a punição e julgamento dos atos por eles cometidos.
Dentre as medidas da nova lei, estão as punições de agentes por decretar condução coercitiva de testemunha ou investigação antes de intimação judicial; promover escuta ou quebra de segredo de justiça sem autorização judicial; divulgar gravação sem relação com a prova que se pretenda produzir; continuar interrogando suspeito que tenha decidido se manter calado ou que tenha solicitado a assistência de um advogado; interrogar à noite quando não é flagrante; e procrastinar investigação sem justificativa. (SAVI, 2019)
Em caso prático que não sejam comprovados os elementos subjetivos citados, que consistem no dolo especifico, os fatos serão considerados atípicos por ausência de conduta penalmente relevante, quando não sendo configurados crimes da referida Lei.
Apesar de esta lei punir de forma ampla os agentes públicos que atuem com essas finalidades além do dolo direto das condutas selecionadas pelo legislador a analise subjetiva da presença desses dolos está vinculada aos princípios do contraditório, da ampla defesa, da livre investigação e valoração das prova, da livre convicção, da necessidade da motivação das decisões judiciais e de comprovação por parte da acusação. (SILVA, 2016)
A persecução penal dependerá de análise jurisdicional para receber a denúncia ministerial, pois todos os delitos são de ação publica incondicionada, e para sentenciar nos termos da imputação inicial. Além do posicionamento do magistrado de primeira instancia, ainda há possibilidade do duplo grau de jurisdição. (ANJOS, 2017)
Dessa forma, a nova lei de abuso de autoridade é importante pois igualiza os agentes públicos dos cidadões, porém antes de maiores conclusões se faz necessário o entendimento da primeira lei de abuso de autoridade e o porquê foi necessário uma nova lei em substituição a antiga.
BREVE Comparação entre as Leis nº8.898/65 e nº13.869/19
Como apresentado no começo desse trabalho, a nova lei de abuso de autoridade Lei nº 13.869/19 veio para substituir a Lei já existente Lei nº8.898/65. A primeira lei de abuso de autoridade foi sancionada durante o período militar no dia 09 de dezembro de 1965 pelo presidente Castelo Branco.
Sabino (2017, p.12), diz que a Lei 4.898/65,
Desde o seu projeto inicial, tem como escopo coibir condutas que violam preceitos constitucionais. Todavia, em termos práticos, a repercussão da função coercitiva do diploma legal sob análise foi de pequena monta, pois como já mencionado, sua promulgação ocorreu durante a Ditadura Militar, período marcado pela ausência de democracia, supressão de direitos e garantias constitucionais, censura e desrespeito generalizado ao cidadão brasileiro por parte das autoridades.
Dessa forma, essa nova lei, vem para suprir uma necessidade de evolução na lei enxergada pela evolução da sociedade e pelos direitos humanos, onde abordagens que eram consideradas comuns nos anos 60 não são mais aceitas nos dias de hoje, onde o acesso à informação está muito mais fácil, fazendo com que todos saibam de seus direitos e deveres.
A referida lei (nº4.898/65) traz a seguinte definição para abuso de autoridade,
Art. 3º Constitui abuso de autoridade qualquer atentado: a) à liberdade de locomoção;
b) à inviolabilidade do domicílio; c) ao sigilo de correspondência;
d) à liberdade de consciência e e crença; e) ao livre exercício de culto religioso;
f) à liberdade de associação; à liberdade de associação;
g) aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício do voto; h) ao direito de reunião; à incolumidade física do indivíduo;
O Art. 4º também constitui abuso de autoridade como sendo:
a) ordenar ou executar medida privativa da liberdade individual, sem as formalidades legais ou com abuso de poder;
b) submeter pessoas sob sua guarda ou custódia a vexame ou a constrangimento não autorizado em lei;
c) deixar de comunicar, imediatamente, ao juiz competente a prisão ou detenção de qualquer pessoa;
d) deixar o juiz ordenar o relaxamento de prisão ou detenção ilegal que lhe seja comunicada;
e) levar à prisão e nela deter quem quer que se proponha a presta fiança, permitida em lei;
f) cobrar o carcereiro ou agente de autoridade policial carceragem, custas, emolumentos ou qualquer outra despesa, desde que a cobrança não tenha apoio em lei, quer quanto à espécie, quer quanto ao seu valor; g) recusar o carcereiro ou agente de autoridade policial recibo de importância recebida a titulo de carceragem, custas, emolumentos ou de qualquer outra despesa; h) o ato lesivo da honra ou do patrimônio de pessoa natural ou jurídica, quando praticado com abuso ou desvio de poder sem competência legal; i) prolongar a execução de prisão temporária, de pena ou de medida de segurança, deixando de expedirem tempo oportuno ou de cumprir imediatamente ordem de liberdade.
Contrapondo as definições de abuso de autoridade no entendimento legal e doutrinado, pode-se observar, de fato, que o crime triplicado pela referida Lei (nº4.898/65) apresenta o dolo como elemento subjetivo, haja visto que a referida lei não prevê a forma como culposa. (SABINO, 2017)
Já a nova lei de abuso de autoridade Lei Nº13.869/19 define abuso de autoridade, Art. 9 - Decretar medida de privação da liberdade em manifesta desconformidade com as hipóteses legais;
Art. 13 – Constranger o preso ou o detento, mediante violência, grave ou ameaça ou redução de sua capacidade de resistência, a:
I – Exibir-se ou ter seu corpo ou parte dele exibido à curiosidade publica; II – Submeter-se a situação vexatória o a constrangimento não autorizado em lei;
III – Produzir prova contra si mesmo ou contra terceiros;
Art. 16 – Deixar de identificar-se ou identificar-se falsamente ao preso por ocasião de sua captura ou quando deva fazê-lo durante sua detenção ou prisão;
Art. 21 – Manter presos de ambos os sexos na mesma cela ou espaços de confinamentos;
Art. 22 – Invadir ou adentrar, clandestina ou astuciosamente, ou à medida revelia da vontade do ocupante, imóvel alheio ou suas dependências, ou nele permanecer nas mesmas condições, sem determinação judicial ou fora das condições estabelecidas em lei;
Art. 23 – Inovar artificiosamente, no curso de diligência, de inovação ou de processo, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de eximir-se de responsabilidade ou de responsabilizar criminalmente alguém ou agravar-lhe a responsabilidade;
Art. 25 – Proceder à obtenção de prova, em procedimento de investigação ou fiscalização, por meio manifestante ilícito;
Art. 33 – Exigir informação ou cumprimento de obrigação, inclusive o dever de fazer ou de não fazer, sem expresso amparo legal;
Art. 38 – Antecipar o responsável pelas investigações, por meio de comunicação, inclusive rede social, atribuição de culpa, antes de concluídas as apurações e formalizada a acusação.
Com a apresentação das definições da nova lei de abuso de autoridade, pode-se perceber, que a lei está mais severa, buscando manter e garantir os direitos de todos os cidadoes que forem detidos, dessa forma, não expondo-os há algum tipo de constrangimento, seja no momento da detenção, como no momento de tomar seu depoimento.
Além das definições e conclusões apresentadas de abuso de autoridade pela nova Lei Nº13.869/19, consideram também atos ilícitos,
Art. 10 – Decretar a condução coercitiva de testemunha ou investigado manifestadamente descabida ou sem prévia intimação de comparecimento ao juízo.
Art. 12 – Deixar injustificadamente de comunicar prisão em flagrante à autoridade judiciária no prazo legal;
Art. 15 – Constranger a depor, sob ameaça de prisão, pessoa que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, deva guardar segredo ou resguardar sigilo;
Art. 18 – Submeter o preso a interrogatório policial durante período de repouso noturno, salvo se capturado em flagrante delito ou se ele, devidamente assistido, consentir em prestar declarações;
Art. 19 – Impedir ou retardar, injustificadamente, o envio de pleito preso à autoridade judiciária competente para a apreciação da legalidade de sua prisão ou das circunstancias de sua custódia;
Art. 20 – Impedir, sem justa causa, a entrevista pessoal e reservada do preso com seu advogado;
Art. 27 – Requisitar instauração ou instaurar procedimento investigatório de infração penal ou administrativa, em desfavorecer, à falta de qualquer indício da prática de crime, de ilícito funcional ou de infração administrativa; Art. 28 – Divulgar gravação ou trecho de gravação sem relação com a prova que pretenda produzir, expondo a intimidade ou a vida provada ou ferindo a honra ou a imagem do investigado ou acusado;
Art. 29 – Prestar informação falsa sobre procedimento judicial, policial, fiscal ou administrativo com o fim de prejudicar interesse de investigado;
Art. 30 – Dar início ou proceder à precursão penal, civil ou administrativa sem justa causa fundamentada ou contra quem sabe inocente;
Art. 31 – Estender injustificadamente a investigação, procrastinando-a em prejuízo do investigado ou fiscalizado;
Art. 37 – Demorar demasiada e injustificadamente no exame de processo de que tenha requerido vista em órgão colegiado, com o intuito de procrastinar seu andamento ou retardar o julgamento;
Art. 42 – Negar ao interessado, seu defensor ou advogado acesso aos autos de investigação preliminar, ao termo circunstanciado, ao inquérito ou a qualquer outro procedimento investigatório de infração penal, civil ou administrativa, assim como impedir a obtenção de cópias, ressalvado o acesso e a peças relativas a diligenciais em curso, ou que indiquem a realização de diligencias futuras, cujo sigilo seja imprescindível.
Através dessas definições é possível compreender que essa nova lei, veio além de ser mais severa, apresentar com maior clareza de ideias e ordens os deveres e direitos dos cidadões e dos agentes públicos, que por muitas vezes abusavam de sua autoridade ao abordar outras pessoas.
Ainda em comparação com a lei de 1968, a lei de 2019 traz novas definições para abuso de autoridade e para atos ilícitos que era um tanto quanto indefinida e até confusa ao entendimento dos cidadãos e das pessoas em si. Essa nova lei abrange além novas defições ela traz também outras condenações para os agentes que desobedecem essas definições.
CONCEITUAÇÃO DAS CONDENAÇÕES E AS PENAS RESTRITIVAS
A lei 13.869/19 em seu artigo 4º quais são os efeitos de condenação recebidos pelos Agentes Públicos que cometerem crime de Abuso de Autoridade,
Art. 4º são efeitos de condenação:
I – Tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime, devendo o juiz, a requerimento do ofendido, fixar na sentença o valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos por ele confrigos;
II – A inabilitação para exercício de cargo, mandato ou função publica, pelo período de 1 a 5 anos;
III – A perda do cargo, do mandato ou da função publica.
Parágrafo único. Os efeitos previstos nos incisos II e II do caput deste artigo são condicionados à ocorrência de reincidência em crime de Abuso de Autoridade e não são automáticos, devendo ser declarados motivadamente na sentença.
As punições para os agentes públicos que cometerem abuso de autoridade, com execessão dos inciso I do artigo 4º são definidos apenas após reincidência de crime, ou seja, quando o agente comete mais de uma vez a mesma ação contra o mesmo ou outro cidadão, desde que esse cidadão exerça seu papel e faça a denuncia contra o agente.
O art. 5º da lei, apresenta as penas restritivas, que são consideradas mais brandas,
Art. 5º As penas restritivas de direitos substantivas das privativas de liberdades previstas nesta Lei são:
I – Prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas;
II – Suspensão do exercício do cargo, da função ou do mandato, pelo prazo de 1 (um) a 6 (seis) meses, com a perda dos vencimentos e das vantagens; III – (VETADO).
Parágrafo único. As penas restritivas de direitos podem ser aplicadas autônoma o cumulativamente.
A referida lei, afirma que as penas ou sansões criminais devem ser empregadas independentemente das sanções de natureza civil ou administrativa, onde caso o juiz venha a decidir sobre a existência ou autoria do fato, tal assunto não poderá mais ser objeto de contestação nas áreas civis e administrativas. (UDELSMANN, 2002)
Sem reconhecido a praticidade do ato em estado de necessidade, seja em legitima defesa, em estrito cumprimento de seu dever legal ou ainda em exercício regular de direito se fará coisa julgada nas esferas civil e administrativo-disciplinar. Esses fatores são apresentados de forma integral nos Artigos,
Art. 6º As penas previstas nesta Lei serão aplicadas independentemente dos sansões de natureza civil ou administrativa cabíveis.
Parágrafo único. As notícias de crimes previstos nesta Lei que descrevem falta funcional serão informadas à autoridade competente com vistas à apuração.
Art. 7º As responsabilidades civil e administrativa são independentes da criminal, não se podendo mais questionar sobre a existência ou a autoria do fato quando essas questões tenham sido decididas no juízo criminal.
Art. 8º Faz coisa julgada em âmbito civil, assim como no administrativo-disciplinar, a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legitima defesa, em escrito cumprimeiro de dever legal ou no exercício regular de direito.
Ou seja, após análise e julgamento ser considerado o ato realizado em legitima defesa, ou em cumprimento de dever legal ou ainda no exercício regular de direito a pena sera considerada em âmbito civil, podendo ser mais branda, ou nula dependendo da gravidade do ato cometido
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A LEGISLAÇÃO PENAL ESPECIAL E SUAS ALTERAÇÕES
Além das grandes mudanças que a nova Lei de Abuso de Autoridade apresentou, a referida Lei 13.869/2019, alterou também alguns pontos em cinco legislações especiais com que fez correlação as condutas tipificadas como Abuso de Autoridade, as alteração abrange a Lei de Prisão Temporária, Lei das Interceptações Telefônicas, Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil e o Decreto nº 2.848 de 7 de dezembro de 1940.
Na lei 7.960/89 – conhecida por Lei de Prisão Temporária, nesta situação, passou a vigorar que no mandado de prisão deverá estar contido o período da prisão temporária (período), apresentando a data de inicio e de termino da mesma, e assim que decorrer o prazo da prisão, o cidadão deverá ser posto em liberdade, salvo em situação que a prorrogação da prisão temporária ou da decretação da prisão preventiva já for definido. Foram alterados na referida lei, o artigo 2º, parágrafos 4-A, 7º e 8º. Conforme representado,
Art. 2º A prisão temporária será decretada pelo Juiz, em face da representação da autoridade policial ou de requerimento no Ministério Público, e terá o prazo de 5 (cinco) dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e provada necessidade.
§ 4º-A O mandado de prisão conterá necessariamente o período de duração da prisão temporária estabelecendo no caput deste artigo, bem como o dia em que o preso deverá ser liberado.
§ 7º Decorrido o prazo contido o prazo contido no mandado de prisão, a autoridade responsável pela custódia deverá, independentemente de nova ordem da autoridade judicial, pôr imediatamente o preso em liberdade, salvo se já tiver sido comunicada da prorrogação da prisão temporária ou da decretação da prisão preventiva.
§ 8º Inclui-se o dia do cumprimento do mandado de prisão no cômputo do prazo de prisão temporária. (BRASIL, 2019)
Já na referida Lei nº 9.296/96 – intitulada como Lei das Interceptações telefônicas, ficou estabelecido na questão que constitui-se como crime fazer uso das tecnologias disponíveis, sejam elas, telefônicas, informáticas e/ou telemáticas, de