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A Influência da Cultura e do Clima Escolar na construção

e fortalecimento da Cultura de Paz

Suzana Lopes Salgado Ribeiro

Graduou-se em História pela Universidade de São Paulo (bacharelado 1998 e licenciatura 2003), onde também concluiu seu mestrado (2002) e seu doutorado (2007) em História Social. É professora da UNITAU na graduação e nos programas de Mestrado em Desenvolvimento Humano e Mestrado Profissional em Educação, também é coordenadora do curso de História modalidade Ensino a Distância, além de coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID. É Diretora da Fala Escrita, empresa de pesquisa e documentação histórica.

Maria Teresa de Moura Ribeiro

Graduada em Pedagogia pela Universidade de Taubaté (1991), mestre em Educação (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1996) e doutora em Educação (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Atualmente é professor assistente doutor da Universidade de Taubaté. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino-Aprendizagem, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino fundamental, escola pública, formação de professores, educação continuada, desenvolvimento da criança e metodologia do ensino da Matemática.

Lúcio Mauro da Cruz Tunice

Cursa Mestrado Profissional em Educação na Universidade de Taubaté (UNITAU),Graduado em Direito e Pós Graduado em Formação Docente para o Ensino Superior pelo Centro Universitário Salesiano (UNISAL - U. E. de Lorena) é professor nas licenciaturas de Pedagogia, Letras e Biologia e nos Cursos de Pós-Graduação em Educomunicação e Gestão Escolar Centro Universitário Tereza D`Ávila (UNIFATEA/Lorena) e também, advogado.

Resumo

O presente artigo faz uma reflexão sobre a cultura de paz nas escolas, pois vive-se numa sociedade, na qual cada vez mais os valores de convivência como respeito, educação, diálogo, cooperação e ética estão sendo deixados de lado, comprometendo as relações humanas e apresentando reflexos profundos e marcantes nas escolas. Diante disso, este trabalho tem como objetivo principal proporcionar uma reflexão sobre a cultura de paz com os alunos, considerando a necessidade de conceituar cultura e do clima escolar e a integração da cultura de paz, como perspectiva de construção de uma escola eficaz baseada em valores como respeito e outros.

Palavras-chave

Cultura; Clima escolar; Cultura de paz.

Abstract

This article reflects on the culture of peace in schools, since it is lived in a society in which increasingly values of coexistence such as respect, education, dialogue, cooperation and ethics are being ignored, compromising human relations And showing deep and striking reflections in schools. The main objective of this work is to provide a reflection on the culture of peace with the students, considering the need to conceptualize culture and the school climate and the integration of the culture of peace, as a perspective of building an effective school based on values Respect and others.

Keywords

Culture; School climate; Culture of peace.

Introdução

Cada vez os valores de convivência como respeito, educação, diálogo, cooperação e ética são deixados de lado, comprometendo as relações humanas (NASCIMENTO, A.;

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SALLES FILHO, 2013). Vivemos em um meio sócio-cultural, num contexto em que a violência está cada vez mais presente, transformando-nos em uma sociedade do medo.

ÁQUILA; ALVES; GONÇALVES; KOEHLER (2009) afirmam que esse meio, compromete e prejudica todo um conjunto em nossas vidas: o cotidiano, a confiança, o processo de socialização e nossa crença por um mundo melhor. A sociedade atual se configura por incertezas, medos, conflitos, confusão de valores, falta de ética e limite entre o que é certo ou errado, o que nos torna vulneráveis, inseguros, desconfiados e injustos.

Considerando que a escola está inserida nesse contexto social que vivemos, as autoras afirmam que um dos temas que vem despertando grandes interesses e preocupações por parte de educadores, profissionais e organizações sociais e políticas, é a violência escolar, fenômeno que precisa ser permanentemente estudado e combatido principalmente por atingir e interferir na dinâmica da vida, na integridade física e/ou psicológica dos indivíduos.

[...] a escola é uma organização dotada de uma cultura e valores específicos. Reflexo dessa cultura o clima será relativo a mesma, porém vários fatores influenciam negativamente o clima escolar, e é nessa perspectiva que esse artigo procura propor, inquietar e conscientizar a sociedade à respeito da relevância do fenômeno da violência escolar, os conflitos, e os atos das incivilidades nas escolas. (ÁQUILA; ALVES; GONÇALVES; KOEHLER, 2009, p. 1705)

NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013) afirmam que na escola constantemente vivenciam-se situações onde é preciso a intervenção de professores, equipe pedagógica e direção, para auxiliar os educandos na mediação de atos de desrespeito e violência. Situações de violência ao outro são vivenciadas diariamente no cotidiano escolar. Seja ela agressão física, verbal, simbólica (por exemplo, o bullying) e a violência silenciada (por exemplo, indiferença ao outro) e a violência estrutural.

Essas atitudes presentes nas escolas levam muitos alunos a se sentirem retraídos, sem vontade de estudar e até muitas vezes de frequentar a escola.

Portanto, a violência na escola é um problema educacional, que deve ser enfrentado, de modo que o trabalho com os alunos possa apresentar alternativas de relacionamento e propostas de superação desses desafios. Uma das propostas que podem ser significativas e contribuir de forma eficaz é conhecer e praticar a cultura de paz.

A Cultura de paz:

[...] está intrinsecamente relacionada à prevenção e à resolução não violenta dos conflitos. É uma cultura baseada em tolerância e solidariedade, uma cultura que respeita todos os direitos individuais que assegura e sustenta a liberdade de opinião e que se empenha em prevenir conflitos, resolvendo-os em suas fontes, que englobam novas ameaças não militares a paz e para a segurança, como a exclusão, a pobreza extrema e a degradação ambiental. A cultura de paz procura resolver os problemas por meio do diálogo, da negociação e da mediação, de forma a tornar a guerra e a violência inviáveis (UNESCO, 2010, p.11).

Desta feita, procuraremos discutir a influencia da cultura e do clima escolar na construção e fortalecimento da cultura de paz, posto que ela reconhece a diversidade, as desigualdades e injustiças, e não significa ausência e/ou camuflagem dos conflitos, mas a

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311 resolução deles por meio do diálogo e participação de toda a sociedade (UNESCO, 2003).

A Influência da Cultura e do Clima Escolar na construção e

fortalecimento da cultura de paz

Uma das possibilidades para compreensão e busca de soluções sobre os problemas que afligem a escola é o perfeito entendimento da cultura e do clima organizacional. A cultura é um dos pontos chave na compreensão das ações humanas, funcionando como um padrão coletivo que identifica os grupos, suas maneiras de perceber, pensar, sentir e agir (PIRES e MACÊDO, 2006). Ao ingressar em um sistema organizacional produtivo, o indivíduo busca, de modo geral, satisfazer tanto suas necessidades de pertencer a um grupo social quanto de se autorrealizar.

A cultura é uma dimensão organizacional complexa cujo simples entendimento por parte de um consultor demanda tempo, paciência, reflexão e está sempre sujeito a revisões, até que o grupo aprenda a lidar com os problemas da adaptação externa e integração interna. Servindo, destarte, tanto à sobrevivência da organização, como à sobrevivência de uma comunidade (FLEURY, 2007).

Nóvoa (1995) desenvolveu estudos importantes em torno da cultura organizacional, abordando a questão da descentralização e da construção de uma pedagogia centrada na escola, ou seja, no nível meso de intervenção, no qual a escola assume um papel ativo na geração de sua própria cultura.

Sarmento (1994, p. 87-88) define que as culturas organizacionais não são, por conseqüência, “naturais”, no sentido em que este qualificativo se aplica à cultura de um povo, de uma nação ou de uma época. O autor ainda, expõe:

Diferentemente destas últimas, as culturas organizacionais são, em primeiro lugar, variáveis dependentes, dado que resultam de formas especificas de interacção, de processos de liderança, ou de formas apreendidas de comportamento dos actores organizacionais; só secundariamente elas são variáveis independentes, condicionadoras dos processos organizacionais. (SARMENTO,1994, p. 88)

Schein (1990 apud SARMENTO, 1994, p. 89) afirma que há pouca concordância sobre o que o conceito de cultura significa ou deva significar, posto que a cultura é ubíqua, mas mesmo assim, define-a:

Cultura pode ser definida como: a) um conjunto de assunções básicas; b) inventadas, descobertas ou desenvolvidas por um dado grupo; c) que ele apreendeu para lidar com os problemas de adaptação externa e integração interna; d) as quais se revelaram suficientemente eficazes para poder ser consideradas válidas, e que, além disso, e) são comunicadas aos novos membros; f) como a via correcta para perceber, pensar e sentir em relação àqueles problemas.

Sarmento (1994) ressalta ainda que a ideia de cultura está ligada a funcionalidade, podendo ser concebida como uma realidade estável, dado que decorre de um processo apreendido de adaptação, assim sintetiza o conceito:

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Cultura é o domínio do simbólico, integrado por crenças, assunções, valores, ritos e artefactos, construído historicamente através de um processo conflitual, e em estado permanente de uma dinâmica de reconstrução, através do qual os seres humanos estabelecem os protocolos para a sua

comunicação, ao nível grupal, organizacional ou societal.

(SARMENTO,1994, p. 90)

Sarmento (1994, p. 92) ainda define cultura organizacional como um espaço intersubjetivo onde se cruzam as múltiplas racionalidades existentes na organização. Afirma que é a natureza interativa que é sublinhada nas definições mais tradicionais de cultura organizacional, designadamente aquelas que acentuam a importância do simbólico na criação da coesão organizacional.

Chiavenato (1986, p. 316 apud SARMENTO, 1994, p. 92-93), define:

Cultura organizacional significa um modo de vida, um sistema de crenças, expectativas e valores, uma forma de interacção e de relacionamento típicos de uma determinada organização. Cada organização é um sistema complexo e humano, com características próprias, com a sua própria cultura e com um sistema de valores. Todo esse conjunto de variáveis deve ser continuamente observado, analisado e interpretado. A cultura organizacional influencia poderosamente o clima existente na organização.

Schein (1985 apud SARMENTO, 1994, p. 93) define a cultura organizacional como:

[...] um padrão de assunções básicas – inventadas, descobertas ou desenvolvidas por um dado grupo de acordo com a forma como ele aprendeu a lidar com problemas de adaptação ao exterior ou de integração no interior da organização -, que foram trabalhadas até serem consideradas válidas e, além disso, comunicadas aos novos membros como o processo correcto de perceber, pensar e sentir relativamente àqueles problemas.

Desta feita, podemos entender que a escola desenvolve sua própria cultura, por influência direta de todos aqueles que estão inseridos no contexto escolar. Desta forma, no caso de um ambiente violento, esta cultura escolar poderá ser também violenta. Para mediar tais círculos viciosos é que se propõe, neste artigo a possibilidade de trabalhos pedagógicos com a cultura de paz.

Assim, como define SARMENTO (1994, p.95) o conceito de cultura organizacional escolar é decisivo para sua compreensão, não apenas porque as escolas são, por sua natureza, organizações culturais, mas porque, como afirma Tyler (1991, p.85) em comentário a perspectivas institucionalistas:

As escolas existem enquanto organizações, não porque estejam integradas em sentido estrutural, mas porque encarnam determinados mitos legitimadores que se expressam em forma cerimonial e ritualizada.

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313 Segundo Lima e Albano (2002), o clima organizacional reflete a história dos tipos de pessoas que a organização atrai, dos seus processos de trabalho, das modalidades de comunicação e também reflete a história de quem exerce a autoridade dentro do sistema. O clima organizacional é componente e também resultado da própria cultura, tradições e métodos de ação de cada organização. Para os autores, cada novo funcionário espera ter o apoio da direção e atender seus desejos econômicos, sociais e emocionais. Por meio da percepção que tiver da organização, este funcionário produzirá uma ou outra imagem do clima da organização em sua mente. As Instituições atraem ou mantém pessoas que se ajustam ou não aos seus padrões de comportamento, que por muitas vezes são perpetuados através da história da organização.

Por conseguinte, o clima organizacional é um dos importantes componentes da cultura organizacional e pode também ser melhorado a partir de um trabalho com a cultura de paz, na medida em que reflete a percepção dos funcionários sobre o ambiente de trabalho, bem como de todos aqueles que estiverem inseridos no contexto. O clima, então, irá mapear o ambiente interno e as condições de trabalho que irão variar de acordo com a motivação e equilíbrio dos sujeitos.

Segundo Coda (1998), clima organizacional diz respeito à percepção das pessoas em relação ao ambiente da organização em determinado momento. Nos dizeres do autor:

Talvez seja esse o maior desafio em relação ao conceito de Clima Organizacional: só pode ser compreendido em termos das percepções das pessoas que fazem parte da organização. Em resumo, Clima Organizacional é uma medida da percepção que os empregados têm sobre o grau de satisfação em relação a determinadas características do ambiente de trabalho da organização onde atuam. (CODA, 1998, p. 6)

Neste mesmo sentido, Brunet (1995, p.125) afirma que são os atores no interior de um sistema que fazem da organização aquilo que ela é. O autor contribui com o entendimento de que o clima organizacional influência nos resultados da escola uma vez que:

[...] tem um efeito direto e determinante sobre a satisfação e o rendimento dos membros de uma organização. É óbvio que um clima que permite uma pessoa expandir-se e desenvolver-se é mais susceptível de produzir uma visão positiva da instituição (BRUNET, 1995, p.133).

Brunet (1995, apud VICENTE, 2013, p. 56) afirma que a eficácia da escola e o sucesso dos alunos são afetados pelo clima organizacional. Dessa forma, pode-se reconhecer que cada escola tem sua própria personalidade que formaliza e caracteriza o comportamento de seus atores, os quais percebem o clima organizacional de forma consciente ou inconsciente.

De acordo com o autor, num clima escolar participativo, o processo de tomada de decisão está disseminado e integrado nos diferentes níveis hierárquicos da organização. Quando há possibilidade dos professores participarem desde a definição dos objetivos até a melhoria dos métodos de trabalho e de avaliação do rendimento, isso pode contribuir para a confiança mútua e a elevação do sentimento coletivo de responsabilidade. No clima participativo, a direção da escola não só divide responsabilidades como tem total confiança nos professores, fazendo com que todos os membros se unam em prol do sucesso da organização.

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Para Souza (1978), o clima organizacional resulta da interação dos elementos da cultura, das variáveis culturais. Quando estas são alteradas, ocasionam mudanças no clima. Neste sentido, percebemos a cultura organizacional como algo mais enraizado na instituição, e o clima como estado mais momentâneo desta cultura.

Favorecer o processo de reinventar a cultura escolar de maneira que venha a provocar mudanças positivas no clima da instituição exige persistência e, sobretudo, a consciência acerca da necessidade de se construir uma sociedade e uma educação verdadeiramente democráticas. Segundo Candau (2002, p.133), o que precisa ser mudado não é a cultura do aluno, mas a cultura da escola, que é construída com base em um único modelo cultural, o hegemônico, apresentando um caráter monocultural.

Sarmento (1994) destaca que, inicialmente, o conceito de clima organizacional estaria ligado ao sentimento de bem-estar que os sujeitos envolvidos tinham em contato com a organização, no entanto, com o aprofundamento dos estudos e pesquisas acerca do tema, houve uma diminuição dos fatores subjetivos que envolve a situação.

Desta forma, considerando o exposto pelo autor, surgiram duas vertentes teóricas sobre o assunto, sendo certo que a primeira considera a cultura como uma das dimensões do clima e a segunda, que considera o clima como uma das variáveis da cultura organizacional.

Como elemento constituinte da cultura e fator de impacto no que concerne ao desempenho profissional destaca-se o clima organizacional. O clima é um grande influenciador para que haja sucesso da escola. Refere-se ao grau de satisfação material e emocional das pessoas no ambiente de trabalho. Por isso, torna-se extremamente relevante a busca por mantê-lo favorável, tendo em vista a influência na motivação e interesse dos funcionários para o funcionamento da organização.

É possível considerar, portanto, que um clima favorável dentro da escola será um fator positivo a fim de compatibilizá-lo com o bom desempenho, o que produzirá uma escola ágil, criativa, reflexiva e geradora de bons resultados e satisfação a todos os envolvidos, alunos, professores, funcionários, direção e comunidade.

Nessa perspectiva, conhecer a respeito do clima e da cultura organizacional de uma escola, são fatores fundamentais para que possamos superar os desafios a respeito da violência na escola, em especial, fortalecendo a cultura de paz que se propõe para a escola.

Lück (2009 apud VICENTE, 2013, p. 54) traz importantes reflexões sobre a cultura e o clima organizacional ao afirmar que escolas possuem personalidades diferentes, embora possam basear-se nos mesmos fundamentos da educação e serem norteadas por legislação comum. As diferentes personalidades às quais Lück se refere se constituem na cultura da instituição e refletem no clima organizacional capaz de afetar o desempenho e os resultados na formação e aprendizagem dos alunos.

Destacando a importância de se investir no aprimoramento da cultura e do clima organizacional – neste artigo relacionado à implementação de iniciativas de trabalho com a cultura de paz - da escola como condição para a melhoria de desempenho de seus profissionais e, consequentemente, da qualidade do ensino, argumenta Lück:

Tem sido destacado que o desempenho de professores é determinado muito mais pelos elementos e características da cultura organizacional da escola, do que por oportunidades formais de aprendizagem de novas formas de desempenho em recursos e oficinas de capacitação. Isto é, a vivência cotidiana tem demonstrado ser mais efetiva na determinação de como agem os profissionais do que por cursos de capacitação de que participam. (2009, p. 119.)

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315 Vicente (2013, p. 54) afirma que o investimento no aprimoramento da cultura e do clima organizacional leva à reflexão sobre as práticas vigentes na escola, marcadas, muitas vezes, pelo enfrentamento de desafios. Fazer uma reflexão coletiva sobre os obstáculos postos e sobre a forma de superá-los são circunstâncias naturais de aprendizagem, de construção do conhecimento e de desenvolvimento profissional. Ao reconhecerem sua importância no sucesso do trabalho da equipe, os professores se sentem estimulados, o que reforça o entendimento de que a cultura praticada na escola deve ser continuamente monitorada e avaliada. De acordo com Lück,

A essência da cultura de uma escola é expressa pela maneira como ela promove o processo ensino-aprendizagem, a maneira como ela trata seus alunos, o grau de autonomia ou liberdade que existe em suas unidades e o grau de lealdade expresso por todos em relação à escola e à educação. A cultura organizacional representa as percepções dos gestores, professores e funcionários da escola e reflete a mentalidade que predomina na organização. (2009, p.120)

Desta feita, entender os conceitos de cultura e do clima escolar, permitiram que os educadores e todos que estão inseridos no contexto escolar, sejam capazes de trabalhar favoravelmente para a diminuição dos conflitos existentes na escola, em especial, na construção e fortalecimento da cultura de paz a ser instituída no ambiente escolar.

NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013) afirmam que a demanda pela ampliação na discussão sobre cultura de paz na educação é crescente. Segundo os autores, o esgotamento de modelos voltados ao enfrentamento da violência (cultura repressiva) faz com que haja a intenção de buscar aspectos preventivos e educativos, nas escolas para que a violência seja contida. Quanto mais se fala da violência, mais ela se reforça, por isso a importância de se mudar o foco, dar ênfase na questão da cultura de paz, só assim com o passar dos anos pode-se conpode-seguir uma escola com clima escolar positivo em que as pessoas pode-se respeitem.

Para isso não se pode deixar de lado as famílias dos alunos, pois elas são segundo Fernández (2005, p. 36), “o primeiro modelo de socialização de nossas crianças”. Com isso se percebe que a família é responsável pelos primeiros afetos ou desafetos, amores ou desamores, não se pode mudar somente os alunos e deixar de lado os pais, é preciso o envolvimento dos mesmos para que haja uma mudança significativa de cultura nas escolas e sociedade.

Assis e Ribeiro (p. 3) entendem, considerando o disposto acima que a cultura de paz deve ser cultivada em todos os contextos sociais, pois investir numa convivência pacífica é vislumbrar um mundo mais igualitário, inclusivo, que trata a violência como inviável e que acredita no diálogo como o caminho para a resolução dos conflitos, fato que vem de encontro com a perspectiva da escola que desejamos.

Para as autoras a construção de uma cultura de paz não denota ausência e/ou camuflagem dos conflitos, mas solicita o reconhecimento da diversidade, das desigualdades e das injustiças, posto que é a partir desse reconhecimento que há igualdade e possibilidade de pacificação do ambiente.

Frisam ainda que cultivar a cultura de paz é acreditar que a convivência entre os diferentes pode ser pacífica, mesmo que não seja livre de conflitos. Ao falar sobre convivência, Jares (UNESCO, 2010, p.50) afirma: “Conflito e convivência são duas realidades sociais inerentes a toda forma de vida em sociedade”. Para ele, os conflitos fazem parte das relações sociais e não significam uma ameaça à convivência.

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NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013) citam o Plano Nacional de Educação, como meio importante de se discutir e trabalhar a cultura de paz nas escolas, pois através da Lei Nº 13.005, especificamente a meta 7 (sete), pois envolve a questão da melhoria da qualidade da educação, ao “fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidade, com a melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem...” (Plano Nacional de Educação, 2014).

Segundo os autores, a melhoria da qualidade de ensino também passa pelas relações pessoais, o ambiente escolar tem uma influência fundamental para que ocorra o processo ensino e aprendizagem, não se consegue ter qualidade de ensino em um ambiente violento, sobre isso o item 7.23, traz a seguinte redação:

Garantir políticas de combate à violência na escola, inclusive pelo desenvolvimento de ações destinadas à capacitação de educadores para detecção dos sinais de suas causas, como a violência doméstica e sexual, favorecendo a adoção das providências adequadas para promover a construção da cultura de paz e um ambiente escolar dotado de segurança para a comunidade (Plano Nacional de Educação, Lei nº 13.005, 2014).

Esse item, para os autores é um avanço, pois permitirá um trabalho efetivo sobre a cultura de paz em todas as escolas. Pela primeira vez, essa questão foi contemplada num Plano Nacional de Educação, precisa-se agora uma conscientização dos educadores em efetivar esse trabalho no cotidiano escolar.

A discussão acerca da cultura de paz, segundo os autores, é muito abrangente, pois vai além dos muros escolares, ele faz parte da sociedade, das famílias e elas em grande parte não estão preparadas para trabalhar com tal problema. Por isso a escola não pode fechar os olhos em relação a essa realidade, quantos são os alunos que nos últimos anos vêm com medo, ou acabam até desistindo de estudar por causa da violência dentro das quais se destacam a violência psicológica, o bullying, o preconceito e a discriminação.

Para NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013), muitos alunos são aterrorizados principalmente os mais fracos, ou aqueles que são ditos “diferentes” dos padrões impostos pela sociedade. Por isso deve-se a qualquer modo combater qualquer tipo de violência, pois muitos alunos são discriminados pela sua situação social, em casa não encontram afeto e proteção dos pais, encontrando muitas vezes na escola o último refúgio. Não se pode admitir que alunos desistam de estudar por causa disso, sabe-se que é por meio da educação que esses alunos podem futuramente melhorar de vida, seja na questão cultural, política e até financeira.

Infelizmente, nas escolas, por exemplo, as crianças e adolescentes são as vítimas do bullying são justamente aquelas que dado um processo de constantes discriminações já se sentem “inferiores” aos outros. Tais discriminações acontecem, devido à imposição da sociedade de um modelo, um padrão de beleza e de pessoa. Com isso qualquer um que apresente uma característica diferente dos “padrões” sociais costumam ser alvos de preconceitos e ações discriminatórias. Neste grupo estão, negros, homossexuais, ou mesmo as pessoas gordas, os muito magras, tímidas, medrosas, ou mesmo de classe social mais baixa. (NASCIMENTO e SALLES FILHO, 2013).

Há vários anos ele se instalou nas escolas e na sociedade passando a ser um grande problema social e educacional. A escola não pode ficar alheia a esses acontecimentos, é

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317 preciso ação, um trabalho bastante sólido para combater essa situação para que essas pessoas não sofram duplamente, por sua condição a qual uma grande maioria não aceita a discriminação que sofrem na sociedade e escola.

Assim:

O bullying é aquela expressão que se apresenta de forma velada, por meios de um conjunto de comportamento cruéis, intimidadores, prolongadamente contra a mesma vítima, e cujo poder destrutivo é perigoso à comunidade escolar e à sociedade como um todo, pelos danos causados ao psiquismo dos envolvidos (FANTE, 2005, p. 119).

Concordamos com NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013), quando afirmam que toda mudança passa por transformação, e ela pode ser pela força, pela violência ou pelo convencimento, enfim por uma mudança de cultura. Quando se fala em mudança de cultura a instituição mais abrangente da sociedade hoje é a escola, é nela que se devem trabalhar.

O que significa trabalhar a cultura da paz nas escolas? Segundo Bicalho (2013) quando se fala em cultura da paz deve-se lembrar que esse trabalho vai enfocar o respeitar a vida e a diversidade, rejeitar a violência, ouvir o outro para compreendê-lo, preservar o planeta, redescobrir a solidariedade, buscar equilíbrio nas relações de gênero e etnias, fortalecer a democracia e os direitos humanos.

Tudo isso faz parte da cultura de paz e convivência. Quando se fala de cultura da paz isso não quer dizer que não tenha conflitos, é sim buscar solucionar esses conflitos através do diálogo, entendimento e do respeito à diferença. A cultura da paz começou a ser mais intensificada a partir do ano 2000 quando foi proclamado o ano Internacional da Cultura da Paz. Entretanto a essência da ideia é bem mais antiga. A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu cultura de paz na Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz, em 13 de setembro de 1999, com alguns itens da seguinte maneira:

Uma Cultura de Paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados: No respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação; No pleno respeito e na promoção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais; No compromisso com a solução pacífica dos conflitos; Nos esforços para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e proteção do meio-ambiente para as gerações presente e futuras; No respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens; No respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade de expressão, opinião e informação; Na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade, cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálogo e entendimento em todos os níveis da sociedade e entre as nações; e animados por uma atmosfera nacional e internacional que favoreça a paz (ONU, 2004).

Desta feita, a cultura de paz é um meio eficaz e pode e muito colaborar para a construção de uma escola melhor, em especial, considerando que ela passa a contribuir para a construção de uma nova cultura organizacional, bem como, interferir positivamente no clima escolar.

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Considerações finais

A escola hoje é um dos lugares mais importantes para discutir a educação para paz, nela formam-se cidadãos, opiniões, atitudes e valores. Por isso deve-se discutir e refletir sobre temas que tanto afligem a sociedade na atualidade. Por isso, precisamos propor uma discussão e reflexão sobre os valores existentes no entorno, sejam eles morais, culturais ou éticos tão esquecidos nesse mundo moderno, segundo NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013).

Devemos procurar romper barreiras referentes a hábitos, valores e atitudes, em busca de outros valores mais significativos, o da solidariedade, respeito, humildade, responsabilidades e outros essenciais para promover uma cultura de paz.

Com um trabalho pedagógico embasado em princípios da educação para uma vivência positiva de educação para paz, pode-se construir uma sociedade diferente, mas, para isso, exige-se bastante esforço e determinação. Educadores precisam se perguntar que tipo de homem, sociedade, mundo quer se formar.

Para Freire (2001, p.391) “Precisamos desde a mais tenra idade formar as crianças para a “cultura da Paz”, que necessita desvelar e não esconder, com criticidade ética, a tolerância com o diferente, o espírito de justiça e de solidariedade”.

A construção da sociedade deve ser coletiva, partindo do conhecimento e vivências, pois assim, cada um agirá de forma consciente e se responsabilizará pelas suas ações e implicações, inclusive poderá contribuir para o processo de mudança.

Concordamos com NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013) que a mudança de atitude dos alunos e de todos que estão inseridos no meio escolar, são graduais, muitas vezes pequenas, mas tem de ter clareza que elas demoram um determinado tempo para acontecerem. A cultura da violência está presente no mundo desde os primórdios, enquanto a cultura da paz vem sendo trabalhada e discutida recentemente.

Para os autores não se pode de forma alguma deixar-se abater por um mundo de violência, os alunos precisam aprender que:

Respeitar alguém significa respeitar sua individualidade, suas formas de expressão e imagem, suas origens, suas escolhas, suas opiniões, seus limites e seus sentimentos. Repeitar não implica em concordar com outro ou elogiar qualquer tipo de conduta. Significa não ter o direito de desqualificar, menosprezar, ridicularizar, oprimir e/ou impor. (SERRÃO; BALLEIRO, 1999, p. 32).

Construir-se-á uma cultura de paz quando a família, escola e sociedade caminharem juntas no mesmo envolvimento e responsabilidade no processo de educação, buscando a essência do ser, o respeito mútuo, somente quando esse tripé se unirem ter-se-á a transformação necessária para uma sociedade mais justa, humana e fraterna.

Por isso desde cedo, conforme narram NASCIMENTO e SALLES FILHO (2013), é muito importante trabalhar nas escolas a cultura da paz, pois Vygotsky (2005) sustenta que a cultura é um aspecto primordial nas transformações sociais:

Nesse processo, o indivíduo ao mesmo tempo em que internaliza as formas culturais, as transforma e intervém em seu meio. Desse ponto de vista, o homem é visto como alguém que transforma e é transformado nas relações produzidas em uma determinada cultura. É, portanto na relação dialética

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319 com o mundo que o sujeito se constitui e se desenvolve (VYGOTSKY apud REGO, 2005, p. 5)

Essa proposta de reflexão sobre a cultura de paz, se discutida e trabalhada no meio escolar, seja com os alunos ou com todos aqueles lá inseridos, proporciona a discussão e a reflexão de temas como tolerância e solidariedade, valorizando a liberdade de opinião e o respeito aos direitos individuais e às diferenças. É uma cultura que acredita na convivência pacífica entre os diferentes, a qual embora conflituosa e permeada de divergências, se mediada pelo diálogo, é o meio mais eficaz em melhorar a sociedade.

Referencias

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