Qual a importância de se conhecer a trajetória histórica
das línguas?
O que é Filologia Românica?
Os fenômenos linguísticos que
acreditamos ser atuais já
aconteciam na época da
expansão romana (Europa,
África e Ásia) e se repetem em
outras épocas, em outros
lugares, com outros povos;
As línguas evoluem, se
diferenciam, tomam
empréstimos, são substituídas, dominam e são dominadas.
“O termo FILOLOGIA tem um significado amplo e abrange diversas
atividades, pois se trata de uma ciência que se ocupa da linguagem de muitas e diferentes maneiras” (AUERBACH, 1972, p. 11, grifo nosso).
“A Filologia será ‘românica’ se tiver como objeto específico as línguas
e os dialetos que se originaram do latim vulgar e suas respectivas literaturas de qualquer espécie, desde a origem até a sua situação atual” (BASSETTO, 2005, p. 38, grifo nosso).
Para Saussure (2006 [1916], p. 7): “A língua não é o
único objeto da filologia, que quer, antes de tudo, fixar, interpretar e comentar os textos; este primeiro estudo a leva a se ocupar também da história literária, dos costumes, das instituições, etc.; em toda parte ela usa seu método próprio, que é a crítica.”
“Chamam-se
línguas
românicas aquelas que
são diferenciações no
tempo e no espaço de
uma
língua
comum
primitiva,
o
latim
vulgar” (ELIA,1979,p.3).
A grande diferença não é cronológica (o latim vulgar não sucede ao
latim clássico), nem ligada à escrita, é social.
Refletem duas culturas que conviveram em Roma:
• Sociedade fechada, conservadora, aristocrática
PATRÍCIOS
• Aberta a todas as influênciasPLEBEUS/
ESCRAVOS
Estável Inova constantementeO latim ocupava uma
área limitada do Lácio, rodeado de dialetos itálicos e etruscos. Somente depois se
fixa como língua
literária (III a.C.), com o aspecto que deram os grandes escritores da época republicana.
Fenômenos de conservação: áreas marginais conservavam
características mais arcaicas
Sistema de declinação (1ª a 5ª), que se divide em 7 casos:
Nominativo, Genitivo, Dativo, Acusativo, Ablativo,Vocativo e Locativo
A língua falada se diferenciava da língua escrita em
maior ou menor grau, de acordo com a finalidade, a época
e as classes sociais.
Mais SIMPLES em todos os níveis
- Fonética: Perda da quantidade vocálica (duração/pronúncia timbre)
10 vogais (longas e breves) > 7 > 6 > 5 vogais
- Morfologia: redução das declinações - 2ª absorve a 4ª / 3ª absorve a 5ª - Numerais: apenas os cardinais
- Gênero neutro: raros vestígios > gênero masculino
Mais ANALÍTICO
Uso de preposições, advérbios, pronomes e verbos auxiliares
Mais CONCRETO
Termos abstratos praticamente desconhecidos
Mais EXPRESSIVO
Eminentemente falado: caract. ênfase, espontaneidade e afetividade Mais PERMEÁVEL A ELEMENTOS ESTRANGEIROS
Empréstimos lexicais
Origem em 753 a.C. (fundação de Roma)
A história de Roma divide-se em três fases: Realeza (das origens a 509 a.C.);
República (de 509 a.C. a 27 a.C.); e Império (de 27 a.C. a 476 d.C.)
Conquista da Itália peninsular
Conquista da Europa mediterrânea
Três guerras púnicas - (et. punus > cartagineses) conflitos entre Roma e
Cartago, a grande cidade africana fundada pelos Fenícios, por causa do domínio comercial no Mediterrâneo
Gália e Europa Central, Ásia Menor e África
O IR atingiu
sua extensão
máxima com
um total de
301 províncias.
Capacidade de absorver
outros povos e sua
espantosa expansão
territorial (séculos V a.C. a II d.C.) • Governava a Urbe (classe fechada e conservadora)
PATRÍCIOS
• Instituições representativasCLASSES
ADVENTÍCAS/
PLEBEUS
É a assimilação cultural e linguística da civilização latina
por parte dos povos
conquistados.
É considerado um
fenômeno único na história da humanidade.
As conquistas romanas tinham caráter político e
econômico e
o uso da língua era uma questão de honra.
Exército romano – a base do Império e de sua expansão, pois era o
1º a entrar em contato com os outros povos, tanto na conquista como na ocupação.
Colônias militares (veteranos) – os soldados eram recompensados
com terras produtivas, após a aposentadoria, e recebiam a cidadania romana.
Colônias civis – instaladas após a retirado do povo vencido para
resolver às demandas de terras por parte dos plebeus, garantir a ordem, impedir rebeliões e produzir alimentos e outros bens.
Administração romana – aristocracia romana (uso do
latim clássico, sermo urbanus)
“[...] o latim usado pela administração das províncias foi um ponderável fator de latinização, já que era veículo de comunicação nos contatos com a população, latina e não-latina, e a língua oficial de todos os documentos” (BASSETTO, 2005, p. 107).
Obras públicas – estradas, abastecimento de água, teatros,
edifícios públicos (fórum, templos, basílicas, monumentos e
bibliotecas).
Comércio – a localização geográfica de Roma
transformou-a em grtransformou-ande centro comercitransformou-al.
A latinização
não foi uniformeem todas as partes do Império
Exploravam economicamente a região, mas respeitavam
a religião e permitiam o uso da língua materna em
contatos entre si.
Direito romano: concedia a cidadania romana, por etapas,
a todos os habitantes do Império.
O Título de “cidadão romano” conferia, juridicamente, vários direitos distintos:
Possuir e transmitir propriedade; Proceder a uma ação judicial;
Contrair matrimônio legítimo; Participar do sacerdócio;
Direito de voto nas assembleias;
Lei das XII Tábuas (cerca de 450 a.C.), a primeira compilação de
leis romanas.
Éditos dos magistrados: decisões dos magistrados encarregados da
jurisdição, que se transformaram em regras do direito.
Édito Perpétuo de Adriano (125-138 d.C.), uma codificação dos
éditos dos antigos magistrados.
A obra dos Jurisconsultos: consultas jurídicas dos jurisconsultos
romanos, consideradas fonte do direito a partir de Adriano (117-138).
Surge o Corpus Iuris Civilis -no contexto do Império Roma-no do Oriente, o Imperador Justiniano ordena a compilação de todas as fontes antigas de direito romano e a sua harmonização com o direito do seu tempo. Este código constituiu a base do direito no Império Bizantino e um dos principais fundamentos do
Direito Comum no Ocidente
Razões para a perda:
Romanização superficial – Caledônia, Germânia, parte dos países
danubianos e regiões montanhosas da Europa continental e mediterrânea.
Superioridade cultural dos vencidos – Grécia e Mediterrâneo
oriental
Superposição maciça de populações não-romanas – África
Razões para ganho:
movimentos colonialistas iniciados com as grandes navegações; movimentos de propagação do catolicismo.
CAUSAS INTERNAS
Despovoamento do Império – guerras civis, invasões
bárbaras e a peste
Empobrecimento e Impostos – população descontente e
corrupção generalizada
CAUSAS EXTERNAS: AS INVASÕES
“Invasões pacíficas” – presença, sobretudo de germanos,
no exército e nas colônias
Final do séc. IV – início das grandes invasões (Vândalos,
Godos, Francos, Lombardos, Alamanos, Eslavos, Árabes
etc.)
A partir do século II d.C., com Trajano.
Descentralização progressiva provocada pela própria
extensão do Império e agravada por uma política
inconsequente.
Habitantes de regiões mais afastadas predominaram no
Século V, a presença de populações bárbaras no Império
era mais maciça.
Durante uma incursão dos visigodos pela Itália, foi deposto
o imperador Rômulo Augústulo (476), fato que os
historiadores utilizam como marco cronológico do fim do
Império Romano.
As Línguas Românicas surgem e se desenvolvem nas províncias em que a latinização lançou raízes mais profundas e resistentes a mudanças políticas e sociais, bem como a intermináveis guerras e invasões (BASSETTO, 2005, p. 152).
Os fenômenos externos mais relevantes que favoreceram a
dialetação do latim vulgar e consequentemente a formação das
SUB
+STRATUM = “camada de baixo”
Denominação atribuída por Graziadio Isaia Ascoli
São marcas linguísticas do povo vencido deixadas na
língua de maior prestígio.
Influência de baixo para cima
A língua de maior prestígio cultural e político tende a
se impor naturalmente sobre a outra, que perde seus
falantes.
A ação do substrato depende de
causas sociais, políticas,
históricas e até estilísticas
(tendências populares à simplicidade ou ao descuido, ou mesmo cultas em busca de aprimoramento ou de purismo). A grande diversidade de povos da Itália antiga explica a
grande
quantidade de substratos
(oscos, umbros, sabinos, celtas etc.).
Itália central e meridional: substrato osco-umbro
Assimilações:
nd > nn
expandere > spanne (estender; explicar);
infundere > nfonne (infundir; inculcar)
mb > mm
palumba > palomma (pomba)
Maiores registros no léxico e na fonética
EX.: léxico português – topônimos Coimbra, Lima; nomes comuns
cama, lousa.
PB – tupi (designações da fauna, flora e utensílios)
OBS.: A inclusão definitiva
de um fato linguístico
modificado na língua receptora pode levar séculos.
SUPER
+STRATUM = “camada de cima”
Termo criado por Walther von Wartburg
É utilizado para designar os vestígios e as influências de um povo
dominador no idioma do dominado, idioma esse que passa a ser usado por ambos, já que
a língua do dominador político deixa
de ser falada.
Influência de cima para baixo
As
línguas germânicas
no território da România, com as invasõesbárbaras,
constituíram superstratos do latim
. EX.: guerra, trégua, estribo, espora, feudo; adjetivos – branco, morno,
Dominadores e dominados continuam a usar seu próprio
idioma por período de tempo muito variável (BASSETTO, 2005,
p. 152).
Osco / latim – território romano
Celta / latim – Gália
Ibérico / latim – Ibéria
Árabe / dialeto siciliano – Sicília
Não é comum a manutenção do bilinguismo.
É toda língua que vigora ao lado de outra
, num território dado, e que nela interfere como manancial permanente de empréstimos. Para caracterizar uma situação de adstrato, basta que dois povos de
idiomas diferentes sejam vizinhos e mantenham relacionamento de qualquer tipo.
A noção de
adstrato
tem a ver com a coexistência de
línguas em situação de
bilinguismo
.
Para a formação das línguas românicas foi importante a
presença constante do grego e
até mesmo
do latim literário
,
especialmente com relação aos empréstimos lexicais.
A causa pode ser invasão ou conquista.
EX.: Adstrato Árabe na Península Ibérica (a partir de 711
até 1492) – quase 8 séculos de convivência ao lado do
romanço.
Moçárabes
(nativos românicos que assimilaram a cultura árabe e eram bilingues) Línguas ibéricas, anteriores à conquista romana.
Ibérico, Celta, Fenício e púnico
Grego – inúmeras palavras, porém raras são as que se pode atribuir,
sem margem de dúvida, ao período de dominação grega na Península
Ibérica, anterior à conquista romana.
São elas: bolsa, cara, corda, calma, caixa, ermo, governar, golfo e
Palavras de origem germânica, introduzidas pelos visigodos,
suevos e vândalos.
A maioria, são ligadas à vida militar e aos costumes próprios dos
germanos, tais como a guerra e o saque.
e os pontos cardeais: norte, sul, leste, oeste.
1)
Árabe
- grande influência no léxico. As palavras de origem árabe são compostas pelo artigo invariável al, quer inalterado ou reduzido a a, quando antes de x, z, c e d: arroz, azeite, açougue etc.Os nomes árabes mais frequentes, relacionam-se a:
a) Plantas: algodão, alecrim, alface, alfafa, alfazema, açafrão, açucena, alcachofra, benjoim e bolota.
c) Ofícios e oficinas: alcaide, alfaiate, alferes, almoxarife, califa, emir; aduana, alcova, aldeia, armazém, arrabalde e arsenal.
d) Alimentos e bebidas: aletria, acepipe, álcool, almôndega e xarope. e) Medidas: alqueire, arroba e quintal.
f) Palavras de significação vária: alarde, alarido, alcunha, algazarra, álgebra, azulejo, alvará, almofada, alcateia, azar, javali, cifra e zero;
g) Poucos adjetivos e verbos;
h) e a interjeição oxalá (proveniente do árabe “in sha Allah”).
1) A língua geral, uma versão simplificada do tupi, que era usada
pelos brancos e mamelucos (filhos de índia com branco) em seus contatos com os aborígenes. Também usada pelos índios da tribo
tupi como meio de comunicação com as demais tribos de famílias
linguísticas diferentes, que falavam as famosas línguas travadas.
2) O semicrioulo português, usado pelos portugueses na comunicação
com os negros escravos e, também, com os índios e mestiços.
Como pode ser conceituado:
Substrato ou Adstrato ?
... Adstrato, por quê ?
Os índios brasileiros, salvo raríssimas exceções, jamais abandonaram
sua língua para adotar a do conquistador; pelo contrário, no começo
da colonização, a língua geral era mais falada do que a portuguesa, devido à grande superioridade numérica dos mamelucos e índios sobre a população branca.
A língua geral só deixou de ter importância pelo fato de os
portugueses terem chacinado seus falantes, “um documento jesuítico nos diz que as 40 mil almas... estavam reduzidas a 400.”
Os negros também não abandonaram seu português crioulo para
aprenderem a língua portuguesa padrão. O principal motivo disto foi que o Brasil, profundamente escravocrata e racista, não fornecia
qualquer tipo de educação aos negros; a estes, bastava que
soubessem o português crioulo, para que pudessem entender as ordens e cumpri-las.
1) Animais - araponga, arara, capivara, curió, cutia, gambá, jiboia, jacaré, jararaca, juriti, lambari, paca, piranha, quati, sabiá, saúva, tamanduá, tatu, urubu etc.
2) Plantas - abacaxi, capim, carnaúba, cipó, ipê, jabuticaba, jacarandá, jequitibá, mandioca, pitanga etc.
3) Utensílios - arapuca e jacá.
4) Alimentos - moqueca e pipoca.
5) Fenômenos naturais - piracema e pororoca. 6) Crendices - saci, caipora e curupira.
7) Doenças - catapora
a) redução de ditongo a vogal:
dotô > doutor; isquêro > isqueiro;
b) transformação do lh:
muié > mulher; oiá > olhar;
c) assimilação dos grupos consonantais em nasal:
tomano > tomando; quano > quando; tamém > também;
d) queda do r final:
Morfofonológico:
a) queda da primeira sílaba do verbo estar, como em: eu tô;
b) aglutinação fonética, como em:
zóio > olhos; zunha > unhas; e zoreia > orelhas.
Morfológico:
a) simplificação da flexão verbal, reduzida a somente duas pessoas, como em:
“eu compro” / “tu/você compra” / “ele/ela compra” “nós compra” / “vocês compra” / “eles/elas compra”
b) queda da flexão de número do determinado, como ocorre em:
“as muié” > “as mulheres”;“esses home” > “esses homens”.
a) Religião: macumba, mandinga, candomblé, babalaô e orixá; b) Comida: tutu, angu, abará, cachaça e vatapá;
c) Instrumentos: agogô, samba, maracatu e ganzá; d) Doenças: caxumba, calombo, calundu e banzo;
e) Objetos de uso: cachimbo, carimbo, miçanga e tanga;
f) Animais e plantas: camundongo, marimbondo, inhame, chuchu, jiló, maxixe e quiabo;
1) A influência do substrato no português resume-se ao léxico.
2) A influência do superstrato, apesar de maior, é resumida também ao léxico e muito especializada, sendo que muitas de suas formas tornaram-se obsoletas ou excessivamente restritas.
3) A influência do adstrato é a mais importante de todas. Com exceção do provençal, todas as línguas que conviveram com o português, quer em Portugal: o árabe, quer no Brasil: a língua geral e o semicrioulo português, penetraram bastante no nosso léxico, sendo que o semicrioulo português serviu, ainda, para intensificar o
processo de evolução já existente, de uma maneira muito mais
intensa, é claro, nas populações de baixa escolaridade.
ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina: curso único e completo. 29. ed.
São Paulo: Saraiva, 2000.
BASSETTO, Bruno F. Elementos de filologia românica: história externa das línguas.
Vol. 1. São Paulo: EDUSP, 2001.
ELIA, Silvio. Preparação a Linguística Românica. Rio de Janeiro: Livro Técnico, 1974.
GARCIA, Afrânio da Silva. O português do Brasil questões de substrato, superstrato
e adstrato. SOLETRAS, Ano II, nº 04. São Gonçalo: UERJ, jul./dez. 2002.