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Dificuldades e desafios dos surdos com tecnologias atuais Difficulties and Challenges of the deaf with current technologies

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Academic year: 2021

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Dificuldades e desafios dos surdos com tecnologias atuais

Difficulties and Challenges of the deaf with current technologies

Rafael de Farias Lannes1

Patrick Silva Ribeiro2

Resumo

Este trabalho apresenta um estudo sobre as dificuldades e desafios da comunidade surda com tecnologias atuais. Desenvolvemos uma pesquisa baseada em relatos recebidos e convivência com surdos que visou entender, de forma concisa a vida de surdos em meio a um mundo tecnológico. A metodologia aplicada foi com base em questionários e entrevistas, resultando em uma abordagem quantitativa e qualitativa. Buscamos descobrir se as tecnologias atuais são acessíveis para surdos e o que pode ser feito para melhorá-las. Nossa pesquisa mostrou que o surdo já utiliza as tecnologias atuais e as considera acessíveis, apesar de algumas dificuldades que destacamos neste texto.

Palavras-chave: Acessibilidade. Surdez. Tecnologias atuais. Abstract

This work presents a study on the difficulties and challenges of the deaf community with current technologies. We developed a research based on reports received and living with deaf people that aimed to understand, concisely, the life of deaf people in the midst of a technological world. The applied methodology was based on questionnaires and interviews, resulting in a quantitative and qualitative approach. We seek to find out whether current technologies are accessible to the deaf and what can be done to improve them. Our research showed that the deaf already uses current technologies and considers them accessible, despite some difficulties that we highlight in this text.

Keywords: Accessibility. Deafness. Current Technologies. Aprovado em: 02/12/20 Versão Final em: 09/12/20

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Bacharelado em Sistemas de Informação da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para conclusão do curso.

1Graduando do Curso de Sistemas de Informação-UFF; <[email protected]> 2Graduando do Curso de Sistemas de Informação-UFF; <[email protected]>

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1 INTRODUÇÃO

No Brasil, temos a Lei Brasileira de Inclusão da pessoa com deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Em seu artigo segundo, esta lei considera pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (BRASIL, 1988).

O Art. 3° inciso I a Lei Brasileira de Inclusão define acessibilidade como possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida;

Vivemos num mundo conectado. Com as redes sociais a comunicação ficou cada vez mais rápida, instantânea. Na perspectiva de um ouvinte, as pessoas parecem estar cada vez mais concentradas em seus smartphones e computadores, e mais afastadas umas das outras, porém na perspectiva do surdo, observa-se uma oportunidade de aproximá-los. Toda tecnologia desenvolvida ao longo dos anos passou por diversas iterações e temos hoje diversas soluções para todos tipos de dificuldades que deficientes possuem.

Este artigo irá investigar as dificuldades encontradas pelos surdos ao utilizar tecnologias atuais e o que pode ser feito para melhorar a acessibilidade para comunidade surda.

1.1 Motivação

Esta pesquisa foi desenvolvida por dois alunos do curso de Bacharelado em Sistemas de Informação que, por razões diferentes, se preocuparam com o tema. Nesta seção os autores apresentarão seus motivos pessoais para o desenvolvimento deste trabalho.

O primeiro autor é filho de pai e mãe surdos e por toda vida, precisou ajudá-los a compreender diversas situações do dia a dia. Com a internet e as tecnologias, definitivamente diversas barreiras foram vencidas, contudo, seus pais ainda precisam recorrer a um ouvinte para ajudá-los a resolver problemas diários e utilizar algumas tecnologias. Ele observou que ao longo dos anos, a comunidade de surdos que seus pais participam têm buscado as redes sociais e

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3 diversas tecnologias para se aproximarem cada vez mais. Mesmo assim, ainda existem diversas barreiras que dificultam a vida do surdo.

Muitos surdos não dominam o português (como seus pais) e eles também possuem diversas dificuldades ao utilizarem os meios de comunicação por texto. O objetivo do primeiro autor é estudar quais são essas dificuldades e os desafios para melhorar a acessibilidade dos surdos com uso da tecnologia.

O segundo autor desde pequeno esteve ligado a área da saúde por ter um pai bombeiro que sempre teve como inspiração e uma mãe que sempre o ensinou a ajudar ao próximo. Teve as primeiras experiências com Libras ainda quando criança. Seu pai o matriculou em um curso e o levava junto com ele, onde aprendeu apenas o alfabeto e alguns cumprimentos, mas logo deixaram de frequentar as aulas. Como era ainda uma criança, não podia ir sozinho e com a falta de prática e estudo acabou esquecendo o que havia aprendido.

Recentemente fez uma viagem ao Rio Grande do Sul para visitar alguns familiares, e lá se deparou com um primo de consideração, de 10 anos de idade e que possui certas deficiências que o impedem de conseguir falar. Logo lhe veio à mente a Língua Brasileira de Sinais, e então comentou com seus parentes que deveriam ensiná-lo, entretanto ninguém sabia Libras e as condições em uma cidade do interior não são favoráveis para fornecer à uma criança esse tipo de ensino. Teve que se contentar em entendê-lo por meio das mímicas.

Posteriormente quando retornou ao Rio de Janeiro, e encontrou com Rafael, conversaram sobre iniciar algo focado em tecnologias voltadas para ajudar os surdos, debateram sobre o tema e concordaram. Desde então iniciou o aprendizado de Libras por conta própria e obteve alguns sucessos após retornar ao estudo desse idioma.

Os primeiros contatos com surdos usando a linguagem de sinais, foram na empresa onde trabalha. Alguns surdos sentam bem próximo ao autor, e, portanto, foi fácil de encontrar alguém para conversar e praticar a linguagem. A primeira frase que disse em sinais para um desses colegas foi “Oi, estou aprendendo Libras”, e o colega surpreso, reagiu com uma expressão de alegria por ter alguém a mais para se comunicar e atualmente ele mesmo tenta ensinar ao autor algumas coisas.

Nessas primeiras experiências com Libras algo que o chamou muita atenção foram as dificuldades dos surdos em entenderem as frases que mapeava diretamente do português para Libras. Ele tentou fazer uma pergunta ao surdo, e o mesmo não entendeu. Tentou também escrever para explicá-lo, mas ele preferiu que o autor falasse, para que fosse possível ler os

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4 lábios. Este fato indicou para o segundo autor a importância de dedicar uma atenção especial no desenvolvimento de software que pretende se comunicar com um surdo.

1.2 Objetivo do estudo

O nosso objetivo com esse estudo é tentar encontrar respostas para as seguintes perguntas:

- Quais são as dificuldades e os desafios que os surdos costumam enfrentar ao usar as tecnologias atuais?

Vamos listar algumas dificuldades que os surdos encontram ao utilizar tecnologias que são comuns entre eles. Essas tecnologias e dificuldades foram selecionadas a partir da observação durante a convivência com surdos. Os obstáculos encontrados também foram levantados através de relatos gravados em libras e recebidos por nós.

- As tecnologias atuais são acessíveis para surdos?

Buscamos abordar no questionário um desfecho referente a esta pergunta, visando entender os problemas de acessibilidade encontrados pelos surdos ao utilizar novas tecnologias. Precisamos descobrir quais são os aplicativos e tecnologias que utilizam e qual o grau de dificuldade que possuem.

- O que pode ser feito para melhorar a acessibilidade para os surdos?

Com a análise dos relatos e das estatísticas adquiridas através das respostas do formulário, vamos apontar possíveis falhas de acessibilidade nas tecnologias e no contexto do dia a dia do surdo a fim de melhorar a acessibilidade, como por exemplo ao buscar atendimento em estabelecimentos.

1.3 Metodologia

Nos inspiramos na metodologia de pesquisa apresentada em (MORESI, 2003) e optamos por iniciar este trabalho analisando relatos gravados em vídeo e em Libras enviados

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5 pelos próprios surdos através das redes sociais e e-mail. Através desses relatos e junto com um surdo desenvolvemos a primeira etapa, onde elaboramos uma pesquisa em formato de formulário, com questões múltipla escolha e algumas questões abertas. Na segunda etapa, realizamos a aplicação deste formulário. A terceira etapa consistiu na análise dos dados onde damos início a elaboração da conclusão.

Quadro 1 - Passos da elaboração do formulário de pesquisa

Etapa 1) Elaboração do formulário de pesquisa

Passo 1 Elaboração da proposta do formulário através das informações coletadas nos relatos recebidos e experiência pessoal

Passo 2 Teste da proposta junto com o surdo

Observação e anotação das dificuldades apontadas pelo surdo Passo 3 Construção dos vídeos descritivos em Libras para facilitar o entendimento

dos pesquisados

Passo 4 Ajustes e adaptações

Nossa pesquisa foi desenvolvida baseada nos princípios do manifesto ágil que prioriza a colaboração direta e interação com o usuário: “Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas; Software em funcionamento mais que documentação abrangente; Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos; Responder a mudanças mais que seguir um plano.” (MANIFESTO, 2001) Além disso, também foi considerado o Método PesquisarCOM que indica “a necessidade de acompanhar este processo em ação, se fazendo, na prática cotidiana daquelas pessoas que o vivenciam.” (MORAES, 2010). O formulário foi testado e ajustado com o surdo presente, assim agilizando sua construção. Tentamos deixar o formulário mais acessível e claro possível, e com esse objetivo optamos por gravar vídeos em libras para cada pergunta e seção do formulário.

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Quadro 2 - Passos da aplicação do formulário

Etapa 2) Aplicação do formulário

Passo 1 Escolha do público alvo da pesquisa

Passo 2 Envio do formulário para o público alvo

Passo 3 Acompanhar as respostas e o feedback sobre o formulário

Passo 4 Aguardar respostas e terminar coleta

Quadro 3 - Passos da análise dos dados levantados

Etapa 3) Análise dos dados levantados

Passo 1 Gerar gráficos e estatísticas dos dados

Passo 2 Análise dos gráficos levantados

2 DESENVOLVIMENTO

O desenvolvimento será constituído de três partes, sendo elas os conceitos fundamentais onde abordaremos os termos utilizados no decorrer do trabalho, construção do formulário onde iremos detalhar o modelo e as perguntas agregadas ao questionário e resultados do formulário que trabalharemos nos pontos observados e respectivas conclusões.

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2.1 Conceitos Fundamentais

Para este trabalho iremos fazer uso de alguns termos para desenvolver toda a metodologia e chegar a nossa conclusão. Esses termos serão explicados nos tópicos abaixo para melhor compreensão.

2.1.1 Acessibilidade

Acessibilidade nada mais é do que tornar o acesso possível para qualquer tipo de usuário. Ela se aplica não só em assuntos tecnológicos, como iremos tratar nesse artigo, mas também se encontra presente no nosso dia-a-dia, seja na ida a um supermercado ou na leitura de um livro.

A acessibilidade consta na lei como prioridade para os deficientes desde 2004, quando entrou em vigor o decreto de número 5.296, onde visa priorizar o acesso fácil a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (BRASIL, 2004).

E de que forma a acessibilidade se faz presente? De várias maneiras, no caso de um software seria provendo funcionalidades ao sistema que facilitariam o acesso de diversos grupos, independentemente de suas dificuldades. Por exemplo, inserir ícones compreensíveis para pessoas com dificuldade de leitura ou comandos de voz que auxiliam pessoas com problemas de visão.

Entretanto como previsto por lei, estabelecimentos também precisam prover prioridade no atendimento presencial como comentado no parágrafo anterior, com filas para atendimento especial, rampas de acesso para cadeirantes entre diversas outras maneiras que podem ser implementadas para não deixar nenhum cidadão de fora de exercer seus direitos e necessidades.

2.1.2 Pesquisa quali-quanti

Existem os tipos de abordagem qualitativa e quantitativa ao se realizar uma pesquisa com foco em dados estatísticos. Cada abordagem se adequa de acordo com o seu objetivo ao iniciar uma pesquisa, podendo ser objetiva e/ou descritiva, essas variáveis são encontradas em (MORETTIN; BUSSAB, 2004).

A qualitativa visa adquirir argumentos e pode ser dividida em nominal e ordinal, onde as ordinais, de acordo com as respostas adquiridas é possível ordenar, como por exemplo, nível

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8 de escolaridade, que são resultados que podemos ordenar de acordo com a série/ano em que pessoas se encontram. Já as nominais não podem estabelecer uma relação de ordem, como por exemplo ao tratarmos de cor dos olhos de pessoas.

A quantitativa já possui resultados que podem ser medidos quantitativamente, como a quantidade de filhos de uma família, o número de alunos em salas de aula, e com esses números podemos gerar gráficos e efetuar cálculos com os números alcançados. É possível gerar a média de alunos por família em determinado bairro, a porcentagem de alunos presentes em determinada sala, entre outros.

Nesse projeto temos como foco principalmente os resultados quantitativos, para obter resultados mais concretos em relação a alguns tópicos. Entretanto percebemos que seria necessário acrescentar algumas perguntas descritivas, para obter um resultado qualitativo em relação a algumas perguntas, como por exemplo “O que gostaria de mudar para deixar o uso dessas tecnologias mais fácil para você?”, essa pergunta não temos como definir respostas objetivas, sendo necessário deixar o entrevistado dialogar sobre a sua opinião.

Essa junção entre pesquisa qualitativa e quantitativa, tem o nome de quali-quanti e esperamos prover resultados que esclareçam da melhor forma possível as dificuldades e desafios apresentados pelos deficientes auditivos, e dessa forma apresentar argumentos que possam prover melhorias.

2.1.3 Surdo e Deficiente auditivo

Inicialmente quando começamos a estudar sobre o tema do nosso trabalho, estávamos apenas usando o termo deficiente auditivo para o desenvolvimento do artigo, entretanto, com a leitura de alguns textos e conversa com professores nos atentamos ao fato de “surdo” e “deficiente auditivo” serem termos distintos. Segundo o decreto nº 5.626, de 22 de janeiro de 2005, regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, é considerada surda a pessoa que faz uso de libras e demais manifestações visuais para se comunicar e deficiente auditivo aquela que possui uma perda na audição bilateral, parcial ou total, de 41 decibéis (dB) ou mais, que pode ser identificada por audiograma (BRASIL, 2005).

Todo surdo é deficiente auditivo, porém nem todo deficiente auditivo está inserido na comunidade surda, por não usar Libras como idioma principal, fazendo uso de aparelhos ou até mesmo por não ter uma perda de audição elevada. A surdez pode ser congênita, quando o indivíduo nasce surdo, e adquirida, quando o indivíduo acaba por perder a audição. É de nosso

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9 conhecimento também, o fato da área médica ter um outro tipo de visão, onde foca apenas nos níveis de surdez para estudo, desconsiderando a realidade de uma comunidade surda.

2.2 Construção do Formulário

As perguntas da pesquisa foram desenvolvidas baseadas em relatos recebidos por surdos e na experiência familiar com deficientes auditivos. Para melhorar a acessibilidade da pesquisa, optamos por utilizar não apenas o formulário em texto e sim ícones e imagens que representam os aplicativos mais utilizados e vídeos com tradução em libras de cada pergunta.

Os relatos foram enviados através das redes sociais em um “formato livre”, porém apenas para facilitar a organização de ideias foram propostas três perguntas que poderiam ser respondidas ou não como desejassem:

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais? - O que falta para você para torná-las mais acessível?

2.2.1 Seções do Formulário

A pesquisa foi dividida em 6 seções:

Quadro 4 - Quadro da divisão em seções da pesquisa em formulário

Termo de consentimento livre e esclarecido

Seção onde o participante concorda em realizar a pesquisa. O termo de consentimento foi traduzido para libras e gravado em vídeo. Também colocamos ícones que representam as opções de resposta.

Faixa etária e utilização de tecnologias

Seção onde o participante fornece as informações sobre faixa etária e se utiliza as tecnologias que serão exploradas posteriormente na pesquisa.

Pesquisa sobre uso de tecnologias para atendimento ao surdo

Seção onde o participante responde perguntas sobre o uso de uma tecnologia chamada TDD (Telephone Device for Deaf) ou aparelho telefônico para surdos.

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10 Pesquisa sobre o uso de aplicativos e

softwares

Seção onde o participante fornece informações sobre os aplicativos e softwares que utiliza. Nesta seção colocamos os aplicativos mais utilizados mas também deixamos opção para inserir outros aplicativos.

Pesquisa sobre as dificuldades enfrentadas

Seção que descreve as dificuldades observadas através de relatos e na experiência familiar com deficientes auditivos. O participante irá fornecer informações sobre as suas próprias dificuldades. Existe um campo para descrever em texto livremente sobre qualquer dificuldade que ele enfrenta.

Comentários sobre a pesquisa (feedback)

Seção final opcional para o participante que tem como objetivo saber se a pesquisa respondida foi acessível.

Durante a elaboração da pesquisa em formulário, testamos junto ao surdo se as perguntas foram compreendidas corretamente e ajustamos a linguagem e os símbolos. Desta forma a elaboração da pesquisa foi colaborativa.

2.2.2 Relatos Recebidos

A seguir iremos fazer uma transcrição dos vídeos de relatos recebidos pelos surdos. Todos concordaram com o termo de consentimento e enviaram os vídeos através das redes sociais e e-mail. Essa transcrição é uma interpretação do que foi dito nos relatos em Libras. Os vídeos encontram-se disponíveis em:

https://drive.google.com/drive/folders/1_MMk07wPCuMODXrYfc0v2iXj-VSa7ztm?usp=sharing

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1- Michael

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Com vídeo chamadas, comunidades de surdo, palestras, Youtube com legendas e em libras. Ele usa essas tecnologias para estudar e aprender. Disse que no passado era muito mais difícil ter acesso a informação e estudar por conta própria, e também gosta do fato que pode estudar com flexibilidade de horário pois trabalha maior parte do dia.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Tem dificuldade para entender certas palavras do português e utiliza o aplicativo “Hand Talk” para traduzir as palavras que não conhece para Libras.

Outra dificuldade é quando precisa fazer uma ligação, principalmente marcar consultas médicas, onde os consultórios não possuem preparo para atendê-lo. Para superar essa dificuldade, Michael apresentou o aplicativo “Central de Libras” que faz a intermediação entre o surdo e o número que deseja ligar. Ele disse que o aplicativo funciona bem, porém nem todos os lugares aceitam a ligação.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Ele disse que seria melhor se os atendimentos fossem mais preparados para surdos e menos burocráticos.

2- Luiz Geraldo

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Todos os surdos possuem smartphone e ele diz que se comunica imediatamente com todos surdos através de vídeo chamadas.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Disse que sua principal dificuldade é a comunicação ao ligar para marcar uma consulta médica. Ele disse que já marcou consultas por texto mas disse que é muito raro. E gostaria de um aplicativo que fizesse marcações de consulta.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Aplicativo que fizesse marcação de consultas médicas e comunicação com o médico.

3- Cristiane

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: A tecnologia ajuda muito o surdo, principalmente com os smartphones e aplicativos. Ela diz que utiliza alguns aplicativos de tradução de palavras. Também disse que utiliza aplicativo de legendas automáticas em vídeos.

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12 Disse que usa vários aplicativos para lembrar de tomar remédios, pedir comida com iFood, que não precisam da comunicação verbal.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Comunicação em atendimentos.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Disse que gostaria que tivesse mais aplicativos para melhorar a comunicação e acessibilidade.

4- Lidia

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: A tecnologia ajuda na comunicação para o surdo, por exemplo com legendas na televisão (closed caption) e intérpretes e ajudam na acessibilidade.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Ao se comunicar com ouvintes precisa de ajuda e não gosta de utilizar celular e prefere tentar falar.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Disse que gostaria de algum aplicativo ou tecnologia que fizesse a interpretação para Libras do que as pessoas falam.

5- Ricardo

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Ajuda com a leitura do português e com a comunicação com ouvintes. Ele informa que busca todos os aplicativos que possam ajudar e procura apps tradutores para Libras. Usa outras tecnologias como alarme para surdos, notificações com sinais luminosos e outras adaptações para surdos.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Dificuldade com palavras do português, usa aplicativos para traduzir essas palavras para libras, e mostrar para ouvintes quando precisa.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

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6- Tânia

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Não utilizava celular antigamente e a modernização dos aparelhos melhorou muito a comunicação entre ouvintes e surdos. Lembra da época que se comunicava apenas por fax, e hoje não é mais necessário. Usa aplicativos como WhatsApp e Facebook, para fazer uso de vídeo chamadas e também legendas em vídeos para facilitar seu entendimento. Porém, quando recebe áudio via WhatsApp não consegue compreender e precisa informar ao remetente que é surda. Faz uso do iFood para pedir comida e acha fácil usá-lo.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: A comunicação com ouvintes e a língua portuguesa são as maiores dificuldades. Sente que precisa de ajuda para tradução.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Tradução de áudios de WhatsApp e vídeos com intérpretes em Libras.

7- Fátima

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Estudar, traduzir português para libras e comunicação.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Português. Quando o vídeo que quer assistir não tem intérprete ou quando recebe alguma mensagem em vídeo sem legenda. Disse que o surdo precisa estudar muito português para entender textos melhor em mesmo nível que libras.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: O Material que existe nem sempre é acessível e faltam traduções para Libras ou Legendas.

8- Rodrigo

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: A tecnologia me ajuda com a comunicação e para entender mídias que recebe. Deu exemplo sobre uma palavra que não entende e é traduzida para libras através de um aplicativo e de legendas em vídeos de redes sociais. Usa WhatsApp para pedir remédios em farmácia e comida e acha muito mais fácil com a tecnologia.

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14 R: Comunicação por exemplo quando precisa marcar uma consulta médica e atendimento em bancos que não possuem interfaces fáceis de entender. Dificuldade de compreensão quando não existe tradução para Libras ou legendas.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Bancos e Consultórios médicos precisam melhorar a acessibilidade.

9- Bruno

- Como a tecnologia te ajuda como surdo?

R: Usa muito o WhatsApp para se comunicar, aplicativos para pedir comida, marcar consultas, etc. Usa vídeo chamada para conversar com amigos surdos e ouvintes.

- Quais são suas dificuldades com as tecnologias atuais?

R: Dificuldades em cinemas e mídias que não possuem legendas ou intérpretes. Dificuldades com português.

- O que falta para você para torná-las mais acessível?

R: Mais acessibilidade em todas as mídias como vídeos, filmes e televisão. Não apenas com legenda, mas com intérpretes em Libras. Muitas vezes os intérpretes são muito pequenos na tela e gostaria que fosse mais flexível a opção de interpretação.

Alguns dados sobre os relatos:

As maiores utilizações de tecnologia são:

- Comunicação entre surdos e ouvintes através de aplicativos de chat e vídeo chamada - Tradução de palavras para libras

- Aplicativos de entrega que não precisam de comunicação verbal

As maiores dificuldades que foram mencionadas nos relatos são:

- Comunicação com centrais de atendimento (Consultórios médicos e Bancos) - Português (Utilizam muito aplicativos de tradução para Libras)

- Falta de legendas ou intérpretes para Libras em materiais de estudo ou mídias em geral

O que falta para melhorar?

- Melhorar e preparar centrais de atendimento para atender surdos em Libras ou de forma não verbal. Principalmente de consultórios médicos e bancos.

- Melhorar legendas automáticas (closed captions). - Mais material traduzido e interpretado em Libras.

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15 2.2.3 Descrição do formulário

O formulário foi desenvolvido com base em relatos recebidos anteriormente. Com base nesses relatos providenciamos o formulário com perguntas específicas para que possamos analisar de forma objetiva e expor de forma conclusiva fatores que são de grande importante no desenvolvimento de um software ou serviço para atendimento da comunidade surda.

Pelos questionamentos queremos entender melhor as dificuldades pelas quais essa comunidade enfrenta ao acessar um ambiente tecnológico. As questões englobam frequência de uso computadores, ferramentas utilizadas nos aplicativos, software mais usados, principais dificuldades, entre outros.

2.3 Resultados do formulário

Seção 1: Termo de consentimento livre e esclarecido

Os dados a seguir foram respondidos por 30 surdos de municípios do Estado do Rio de Janeiro. Todas as pessoas que responderam à pesquisa concordaram com o termo de consentimento livre e esclarecido.

Seção 2: Faixa etária e utilização de tecnologias

Gráfico 1 - Faixa etária dos participantes

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16 Não obtivemos respostas de surdos com 20 anos ou menos. A maioria das respostas são de pessoas da faixa etária entre 31 a 40 anos. A segunda faixa etária que mais teve participação se enquadra nas pessoas entre 51 e 60 anos.

Gráfico 2 - Você utiliza celular ou computador no dia-a-dia?

Fonte: O Autor (2020)

Todos os pesquisados utilizam celular ou computador no dia-a-dia. Demonstrando o interesse dos surdos por tecnologia independente da faixa etária apresentada no Gráfico 1.

Seção 3: Pesquisa sobre uso de tecnologias para atendimento ao surdo

Gráfico 3 - Você já usou o telefone para surdos (TDD)?

Fonte: O Autor (2020)

De todas as 30 respostas, 21 pessoas nunca utilizaram e apenas 9 que correspondem a 30% da amostra, responderam que já utilizaram o aparelho telefônico para surdos (TDD).

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Gráfico 4 - Quando você usou o telefone para surdos (TDD), ele ajudou a cumprir seu objetivo?

Fonte: O Autor (2020)

Como observamos no gráfico 3, 30% dos pesquisados já utilizaram o TDD, e desses 30%, que totaliza 9 pessoas, 7 responderam que conseguiram alcançar seu objetivo usando o TDD, e apenas 2 pessoas responderam que não obtiveram um resultado satisfatório como analisamos no gráfico acima.

Seção 4: Pesquisa sobre o uso de aplicativos e softwares

Gráfico 5 - Você usa algum aplicativo de tradução para Libras?

Fonte: O Autor (2020)

Das respostas que obtivemos nesta pergunta, 64,3% responderam que utilizam o aplicativo Central de Libras que está disponível para Android e iOS desenvolvido pela Associação Brasileira de Recursos em Telecomunicações. Esse aplicativo consiste em uma Plataforma para acesso à Central de Intermediação de Comunicação para vide chamadas em LIBRAS para usuários com deficiência auditiva.

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18 O segundo mais utilizado, de acordo com a pesquisa foi o aplicativo Hand Talk com 14 respostas. O aplicativo é um dicionário que inicialmente foi criado para tradução do português para Libras, mas recentemente também foi adicionada a opção de tradução do Inglês para American Sign Language (ASL). Esse aplicativo conta com personagens que apresentam os gestos de libras em 3D, facilitando a comunicação e o aprendizado de quem tem interesse em linguagens de sinais.

Gráfico 6 - Quais aplicativos você utiliza para se comunicar?

Fonte: O Autor (2020)

Nesta pergunta colocamos os aplicativos mais utilizados de comunicação e 100% dos surdos que responderam utilizam o WhatsApp. Acreditamos que isto aconteceu devido a propagação da pesquisa ter sido feita principalmente pelo aplicativo. O segundo mais utilizado de acordo com a pesquisa é o Instagram com 70% dos pesquisados, seguido do Messenger e Facebook com 63,3% e do Youtube com 60%.

Gráfico 7 - Como você utiliza esses aplicativos?

Fonte: O Autor (2020)

Questionamos como o surdo utiliza esses aplicativos, pois como foi observado nos relatos e na nossa convivência com surdos, eles costumam utilizar bastante vídeo chamadas e

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19 gravações em vídeo (análogo as conversas por áudio do WhatsApp, o surdo também envia vídeos gravados com recados para outros surdos).

Nesta pergunta também deixamos uma opção “outros” para os participantes responderem livremente, mas não obtivemos respostas.

Como o gráfico demonstra, das 30 pessoas que responderam, 90% dos apurados fazem uso de vídeo chamadas para se comunicar e 67% faz uso de gravações de vídeos em suas conversas via aplicativo, comprovando o que observamos previamente.

Gráfico 8 - Quais outros aplicativos você utiliza?

Fonte: O Autor (2020)

Nosso objetivo foi saber quais outros aplicativos, com outros fins que não sejam a comunicação, fazem parte do dia a dia da comunidade surda.

Os mais utilizados foram Uber e Aplicativos de GPS. Mercado Livre e iFood em particular apesar de menos pessoas responderem que utilizam, trouxeram uma grande mudança para muitos surdos pois facilitaram a comunicação para pedir delivery de comida e compras pela internet. Apenas 10% dos pesquisados informaram que não fazem uso de outros aplicativos.

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Gráfico 9 - E no computador? Quais sites da internet ou programas mais utiliza?

Fonte: O Autor (2020)

A maioria respondeu que utiliza o Facebook e o Youtube no computador. Apenas 2 responderam que já utilizaram LibrasOffice e 3 responderam utilizar o VLibras. O LibrasOffice tem por objetivo adaptar a suite LibreOffice para Libras, e que conhecemos por meio do artigo (MONTEIRO, 2018). O VLibras é um programa de tradução de sites para libras no navegador.

Seção 5: Pesquisa sobre as dificuldades enfrentadas

Gráfico 10 - Você tem dificuldade ao utilizar smartphone ou computador?

Fonte: O Autor (2020)

Nesta pergunta, se o pesquisado respondesse que não tem dificuldade, ele passava para a última seção do formulário. Segundo nossa pesquisa 14 disseram que não possuem dificuldades em utilizar smartphone ou computador. 11 responderam que possuem pouca dificuldade e precisam de ajuda às vezes e 5 que tem muita dificuldade e precisam sempre de ajuda.

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Gráfico 11 - Quais são as suas dificuldades ao utilizar aplicativos em seu computador/celular?

Fonte: O Autor (2020)

A partir da pergunta anterior, 16 pessoas responderam que possuem algum grau de dificuldade ao utilizar essas tecnologias. Dessa parcela, 12 Responderam que possuem dificuldade com o português e com falta de acessibilidade com legendas ou tradução com intérprete.

Das respostas que obtivemos 2 surdos responderam na opção “outros” que possui dificuldades para marcar consultas médicas e outro respondeu que gostaria que tivesse mais vídeos com intérpretes disponíveis no Youtube.

No final desta seção colocamos uma pergunta opcional com resposta livre e obtivemos 4 comentários. Duas pessoas responderam que a ajuda de intérpretes é muito necessária em canais de televisão e vídeos na internet. Outras duas responderam que utilizam o celular como principal fonte de comunicação e que os apps facilitam bastante suas vidas.

Seção 6: Comentários sobre a pesquisa

Esta seção foi um feedback opcional sobre o formulário, 29 das 30 pessoas responderam.

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Gráfico 12 - Essa pesquisa foi fácil de entender?

Fonte: O Autor (2020)

Neste questionamento sobre o próprio formulário tivemos aproximadamente 90% de aprovação, levando a entender que conseguimos o nosso objetivo de realizar um questionário de fácil compreensão para comunidade surda.

Gráfico 13 - Os vídeos em Libras ajudaram a responder as perguntas?

Fonte: O Autor (2020)

Dos representantes que responderam a seção de feedback, 96,6% responderam que os vídeos em Libras ajudaram a responder as perguntas. No final da pesquisa deixamos um campo livre para comentários e relatos. Recebemos diversos comentários positivos sobre a pesquisa, assim fomos auxiliados em alguns pontos que deveríamos prestar atenção, como por exemplo o fato da diferença entre os termos Surdo e Deficiente Auditivo.

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23 2.3.1 Dificuldades observadas (queixas)

A fim de responder a primeira pergunta levantada no início deste trabalho, neste tópico apresentaremos as dificuldades que foram observadas, baseadas nos dados quantitativos, qualitativos e em “queixas” que foram recebidas dos surdos através dos relatos.

Dificuldade com o Português

O aprendizado da Língua Portuguesa é uma realidade diferente para alunos surdos e ouvintes. Apesar do surdo conseguir decodificar a Língua Portuguesa, ainda possuem dificuldades de compreensão de textos lidos. O ensino de Libras não tem como foco principal a leitura e sim o oralismo. O objetivo disto é integrar o surdo aos ouvintes por meio de desenvolvimento da expressão oral.

Segundo Zampiere (2007) a dificuldade existente na escolarização do deficiente auditivo está relacionada com as questões da língua, pois a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), é visuo-gestual e sua gramática é diferente da língua portuguesa. Para o surdo aprender a Língua Portuguesa na modalidade escrita, ocorre do mesmo modo que o ouvinte ao aprender uma segunda língua.

Antes que ocorra o aprendizado desta segunda língua, deve ser garantido ao surdo primeiro o aprendizado da língua de sinais, que ainda segundo a autora, possibilitará ao surdo constituir-se como sujeito da linguagem e fornecerá um suporte linguístico para que ele aprenda uma segunda língua.

Dificuldade com a falta de legendas e janela de libras

De acordo com a pesquisa, além do português, a falta de legendas e janelas de Libras também é um obstáculo. A janela de Libras é definida pela NBR 15.290 como um “espaço delimitado no vídeo onde as informações veiculadas na língua portuguesa são interpretadas para LIBRAS.” (ABNT, 2005)

Por conta da dificuldade com o português nem sempre o surdo se sente confortável a ler legendas e por conta disso se sente excluído de diversas mídias. Portanto, em muitos relatos recebidos mencionam que existe a falta de janelas de Libras em diversas mídias da internet e TV. Duas das respostas abertas que recebemos mencionam que na TV muitos conteúdos não possuem intérpretes e na internet não existe a opção de janelas de Libras, como por exemplo no Youtube que é uma plataforma conhecida mundialmente por seus conteúdos em vídeo. Um

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24 deficiente auditivo também se torna incapaz de assistir streams, visto que os criadores de conteúdo não possuem alguma ferramenta nas plataformas que possibilitem essa acessibilidade.

Dificuldade com atendimento para surdos

Um ponto muito abordado pelos surdos nos relatos e na pesquisa é a falta de preparo de estabelecimentos para atendê-los. Quem possui contato com surdos, sabe como é difícil ajudá-los a resolver algum problema. A tecnologia já está disponível e acessível para os surdos mas nem sempre é utilizada. Diversos problemas são detectados como a falta de opções de atendimento para surdos, limitações de atendimento por chat ou e-mail, que impossibilitam o atendimento adequado.

Muitas das vezes o surdo precisa recorrer a algum ouvinte para ajudá-lo a resolver o problema e ocorre do ouvinte não poder representá-lo por telefone. Essa limitação, muitas vezes justificada por questões de segurança impõe um constrangimento ao surdo e ao ouvinte.

Quando é possível o atendimento, o surdo é forçado a falar ao telefone frases como “Eu autorizo” e quando não é possível o atendimento muitas vezes o surdo pede para que o ouvinte que está o ajudando se passe por ele no telefone para poupá-lo de tais constrangimentos.

Outra questão, é a falta de acessibilidade em relação ao Telefone para Surdos (TDD), que é uma tecnologia que foi promissora no passado e hoje se encontra praticamente indisponível e obsoleta, visto que existem tecnologias muito mais acessíveis e ideais que os próprios surdos já utilizam mas que são subutilizadas pelos estabelecimentos.

O surdo ainda precisa estar fisicamente nos locais para conseguir algum tipo de atendimento. Quando é atendido, ainda encontra dificuldade pois não possuem atendimento em libras e precisam recorrer a papel e caneta ou levar um acompanhante intérprete.

2.3.2 Pontos positivos observados

A nossa amostra obteve apenas resultados de pessoas a partir de 21 anos, e, portanto, não recebemos a opinião dos jovens. Dito isso, esperávamos encontrar um resultado onde os participantes teriam muitas dificuldades com a tecnologia em decorrer da idade. Entretanto, o que foi observado é que independentemente da idade, o surdo está sempre disposto a buscar ferramentas que possam facilitar sua vida e não encontram grandes barreiras tecnológicas. Em comparação aos ouvintes, estão bem mais propensos a tentar algo novo que agregue a sua acessibilidade.

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25 Nesta busca pela novidade, a comunidade surda se une cada vez mais através da tecnologia com a internet fazendo uso das redes sociais. O surdo se aproxima não só da própria comunidade surda, mas também da comunidade ouvinte utilizando a tecnologia para superar a barreira da comunicação.

Os aplicativos que os surdos responderam utilizar na pesquisa em sua grande parte já são acessíveis para o surdo. Aplicações como WhatsApp, Facebook Messenger e Telegram possuem ferramentas como vídeo chamadas e opções para anexar vídeos onde os surdos podem se comunicar. Diversas ferramentas que já estão presentes nos aplicativos são interessantes para o surdo e as tornam acessíveis. Nossa pesquisa mostra que quase metade dos participantes não possuem dificuldades ao utilizar as tecnologias mencionadas.

3 CONCLUSÃO

A primeira pergunta que foi destacada como objetivo deste trabalho (“Quais são as dificuldades e os desafios que os surdos costumam enfrentar ao usar as tecnologias atuais?”) foi respondida na seção anterior. Concluiremos este trabalho respondendo as duas últimas questões colocadas como objetivo.

3.1 As tecnologias atuais são acessíveis para surdos?

Para responder a segunda pergunta do nosso objetivo de estudo, nos baseamos nos dados recolhidos através dos relatos e da pesquisa, e podemos dizer que os surdos participantes já utilizam as aplicações e tecnologias disponíveis atualmente para melhorar sua qualidade de vida. Por isso, eles consideram as tecnologias bem acessíveis.

O grande desafio é a falta de acessibilidade que está presente em torno do surdo. Nos problemas do dia-a-dia como marcação de consultas em médicos ou atendimento em estabelecimentos, onde a tecnologia existe, mas não é aproveitada.

A modernização dos atendimentos são evoluções feitas para facilitar a todos, mas quando uma pessoa não pode representar a si mesmo utilizando essa tecnologia, não deve ser considerada acessível. Os casos mais graves estão entre Bancos e Redes de Lojas onde criam barreiras e burocracias mesmo disponibilizando aplicativos que se dizem fáceis de utilizar.

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3.2 O que pode ser feito para melhorar a acessibilidade para os surdos?

Como encontramos diferentes campos onde a acessibilidade pode ser melhorada, chegamos à conclusão de que seria melhor responder essa questão dividindo em sub tópicos, englobando os problemas com estabelecimentos e atendimentos prestados, mídias sociais e telecomunicações e os serviços prestados por aplicativos.

3.2.1 Estabelecimentos e atendimento ao público

Portanto, respondendo a última pergunta sobre o que pode ser feito para melhorar a acessibilidade para os surdos, o mais importante para ser trabalhado atualmente é a diminuição da burocracia de instituições bancárias, que tornam difícil o atendimento por não ter uma acessibilidade adequada. Nessas instituições, embora exista no Decreto Nº 9.656, de 27 de dezembro de 2018 que regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras (BRASIL, 2018), permite o uso de central de intermediação de comunicação que garanta a oferta de atendimento presencial ou remoto, com intermediação por meio de recursos de videoconferência on-line e webchat, à pessoa surda ou com deficiência auditiva. Esse decreto é aplicado ao poder público e deveria ser obrigatório e expandido para instituições privadas.

Os estabelecimentos não implementaram o serviço devidamente, tornando a vida de seus clientes mais complicada, forçando os a passar por certos constrangimentos já citados no tópico referente a dificuldade observadas. Consequentemente, embora as interfaces de aplicativos atuais já sejam bem aceitáveis para todo tipo de público, alguns surdos ainda encontram obstáculos e é um ponto que sempre precisa de atenção e adaptações buscando melhorias a cada dia. Por conta da dificuldade no português, o surdo costuma ter dificuldade na leitura, logo, se precisar avisar o usuário de algum erro ou algum aviso do sistema, utilize um português simples e claro, com opções de fácil entendimento. Se não for um erro crítico, coloque o aviso com opções que evitem dúvidas.

Outro método que pode ajudar é a utilização de animações para detalhar alguma funcionalidade. Se precisar explicar um passo ou funcionalidade, opte por colocar uma animação da função, isso deixa mais claro para o surdo sobre o que a função faz ou como ele deve utilizá-la.

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27 3.2.2 Mídias Sociais e Telecomunicações

O nosso público alvo, como dito anteriormente em outras seções, está sempre em busca de novas tecnologias que os apoiem a se integrar no mundo atual. Um aplicativo fundamental que proporcionou uma grande mudança para esse público é o WhatsApp, que possui a função de vídeo chamada e possibilita a gravação de vídeos para favorecer a comunicação do surdo. Entretanto, uma ferramenta muito utilizada hoje em dia é a função de áudio, e uma forma de tornar a comunidade surda incluída nessa função seria o uso de tecnologias de conversão de áudios em texto.

Outro meio bem popular são as plataformas de streaming e conteúdo de vídeo, como por exemplo o Youtube. Essas plataformas são relevantes pois possuem além de entretenimento, conteúdos educativos, entre outros. O Youtube atualmente já possui uma ferramenta de legenda automática em seus vídeos, porém essa opção ainda não está aperfeiçoada e conta com a possibilidade dos próprios usuários adicionarem legendas nos vídeos de modo colaborativo. Uma inovação seria essa mesma ideia de colaboração, ser disponibilizada para que os usuários possam implementar janelas de libras nos vídeos, melhorando ainda mais a acessibilidade e os serviços de streaming poderiam aplicar essa mesma ferramenta do Youtube para acrescentar legendas automáticas mesmo em conteúdos ao vivo.

3.2.3 Serviços via aplicativos

O e-commerce está presente na vida de todos e trouxe inovação facilitando o atendimento de vários serviços. Os mais famosos e que foram incluídos no questionário são os apps de transporte e delivery, como por exemplo, Uber e iFood. Porém, para tornar ainda mais acessível para o surdo, alguns setores ainda podem se modernizar, como o agendamento de consultas médicas, que segundo os relatos recebidos, muitos consultórios ainda não fazem uso de mecanismos que facilitam a marcação de consultas, como chats de texto e formulários online. Outro exemplo de setor que ainda pode se modernizar são as farmácias, onde poderiam utilizar a tecnologia para receber receitas médicas e atender a pedidos via aplicativo.

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3.3 Trabalhos Futuros

Nosso artigo trouxe as dificuldades e os desafios que os surdos enfrentam e descobrimos que os surdos estão sempre buscando a tecnologia para superar suas dificuldades com a comunicação. Podemos dizer que nosso trabalho é um ponto inicial para outros estudos e também para expandir a pesquisa para uma amostra mais abrangente de idade e relatos mais detalhados.

Também seria interessante um estudo que explora as normas de acessibilidade, e se essas normas estão sendo utilizadas corretamente pelos estabelecimentos e no atendimento ao público, assim como entender sua aplicação nas tecnologias atuais. Nosso trabalho também pode ser utilizado como base para o desenvolvimento de heurísticas.

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REFERÊNCIAS

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comunicação na televisão. Rio de Janeiro, 31 out 2005. Disponível em:

http://www.turismo.gov.br/sites/default/turismo/o_ministerio/publicacoes/downloads_publica coes/NBR15290.pdf . Acesso em: 15 nov. 2020

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BRASIL. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios

básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. [S. l.], 19 dez. 2000. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10098.htm. Acesso em: 15 nov. 2020.

BRASIL. Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de

8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. [S. l.], 2 dez. 2004. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm. Acesso em: 15 nov. 2020.

BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24

de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. [S. l.], 22 dez. 2005. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 15 nov. 2020.

BRASIL. Decreto nº 9.656, de 27 de dezembro de 2018. Altera o Decreto nº 5.626, de 22 de

dezembro de 2005, que regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras. [S. l.], 27 dez. 2018. Disponível em:

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2018/decreto-9656-27-dezembro-2018-787563-publicacaooriginal-157139-pe.html. Acesso em: 15 nov. 2020.

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(30)

30 ZAMPIERI, Marinês Amália. LIBRAS E LÍNGUA PORTUGUESA NAS SÉRIES

INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL. 16° Congresso de leitura do brasil, [s. l.], 2007.

Disponível em:

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APÊNDICE A – Lista de ilustrações

GRÁFICO 1 Faixa etária dos participantes 15

GRÁFICO 2 Você utiliza celular ou computador no dia-a-dia? 16

GRÁFICO 3 Você já usou o telefone para surdos (TDD)? 16

GRÁFICO 4 Quando você usou o telefone para surdos (TDD), ele ajudou a cumprir seu objetivo?

17 GRÁFICO 5 Você usa algum aplicativo de tradução para Libras? 17 GRÁFICO 6 Quais aplicativos você utiliza para se comunicar? 18

GRÁFICO 7 Como você utiliza esses aplicativos ? 18

GRÁFICO 8 Quais outros aplicativos você utiliza ? 19

GRÁFICO 9 E no computador? Quais sites da internet ou programas mais utiliza? 20 GRÁFICO 10 Você tem dificuldade ao utilizar smartphone ou computador? 20 GRÁFICO 11 Quais são as suas dificuldades ao utilizar aplicativos em seu

computador/celular?

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GRÁFICO 12 Essa pesquisa foi fácil de entender? 22

GRÁFICO 13 Os vídeos em Libras ajudaram a responder as perguntas? 22 QUADRO 1 Passos da elaboração do formulário de pesquisa 5

QUADRO 2 Passos da aplicação do formulário 6

QUADRO 3 Passos da análise dos dados levantados 6

Referências

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