A LITERATURA INFANTIL E A TEMÁTICA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA
Margarida Cristina Vasques1
RESUMO: O estudo sobre a cultura africana e afro-brasileira é tema obrigatório para as instituições
educacionais fazendo parte dos planejamentos para todos os níveis escolares. Esta disposição é reconhecida pela Lei 10.639/2003 e também pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN´s) quando estabelecem que a diversidade cultural deve ser trabalhada no âmbito educacional. É nesta esfera otimista de mobilização para novos saberes que este trabalho propõe dar visibilidade aos livros literários que tratam da temática negra e da diversidade cultural, a partir da análise dos textos para o campo metodológico. O estudo problematiza os discursos literários de diferentes autores, nacionais e estrangeiros, e elabora formas de subsidiar o trabalho docente ao propor reflexão e discussões étnico-sociais através da literatura infanto-juvenil.
PALAVRAS CHAVE: Pedagogia; Literatura; Diversidade Cultural
1. Introdução
Com a iniciativa do governo federal brasileiro é sancionada a Lei 10.639/2003 que vem oportunizar a revisão do processo brasileiro educacional. Os ditos da lei repensam as matrizes históricas, culturais e sociais e, como instrumento legal, obriga esta abertura de saberes que antes não participavam do sistema escolar. A escola, enquanto instituição burguesa servia como reprodutora da ideologia estatal. Naquele contexto, disseminou o pensamento colonial e serviu como recipiente cristalizador do discurso discriminatório sobre a população negra. Adverso ao que registra a história, o sistema escolar contemporâneo prenuncia a necessidade de comprometer-se com a qualidade das relações sociais neste espaço de diversidades. É na escola que a criança divisa com vivências de desconforto e tensões sociais racistas. Os novos momentos e exigências da sociedade prescrevem que a educação elabore novas teorias para a prática pedagógica de forma a capacitar os atores deste sistema com saberes necessários ao enfretamento dos conflitos que são de base racial. Logo, a Lei 10.639/2003 delibera o trato nos currículos escolares do conhecimento acerca da cultura e da história africana e afro-brasileira no Ensino Fundamental e Médio.
§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo de História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação Artística e de Literatura e História Brasileiras (LEI 10.639, 2003).
Esta ordenação é acompanhada também pela Lei 11.645/2008. Reforça o mesmo preceito, além de incluir a obrigatoriedade sobre o estudo da história e a cultura dos indígenas brasileiros. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN´s) estabelecem que a diversidade cultural deve ser trabalhada no âmbito educacional expressando a necessidade de renovação e reelaboração da proposta curricular por estes patamares legais.
Sendo assim, a formatação idealizada pela forma da Lei, promove a discussão sobre a história da África, dos africanos escravizados e das expressões culturais afro-brasileiras, de
modo a repensar as problemáticas étnico-sociais no âmbito pedagógico. A pedagogia enquanto um espaço de transformação social transita nesta esfera otimista ao redirecionar o trabalho do educador. Como ciência contemporânea, sistematiza e orienta através de teoria pedagógica crítica do processo educativo e reflete sobre o mundo social, articulando o pensamento teórico com a subjetividade humana. A dinâmica do processo exige conhecimentos e ações pedagógicas que mobilizem os saberes necessários para o trabalho do educador.
2. A escola multicultural: estratégias de ensino
Como instrumento do planejamento escolar os livros didáticos trazem informações sobre o continente africano, porém, muitas vezes, de forma generalizada, objetiva e com ausência do aprofundamento teórico histórico-social. Ao ilustrar este contexto, podemos observar em demasia apenas a denotação africana, que não representa a realidade ao abreviar e exclui o conhecimento acerca dos nomes e costumes dos diversos países que formam o continente com diferentes hábitos e tradições.
O tráfico de escravos marcou o povoamento do Brasil, por povos que viviam em diversas regiões africanas. [...] Os africanos e seus descendentes influenciaram sobremaneira a formação cultural brasileira (trecho extraído do livro didático para o 3º. ano do Ensino Fundamental, História com reflexão, 2003, grifo nosso).
Portando, dirigimos nosso olhar a um horizonte de necessidades estratégias para a implantação da lei 10.639 nas escolas da rede pública e privada, de forma que promova a construção do conhecimento isentando-o de conceitos ideológicos coloniais ou neoliberais.
Para a elaboração de estratégias que impulsionem o cotidiano escolar para um universo de inclusão dos sujeitos-sociais que dela participam, retomemos o conceito de escola como uma unidade social, ou seja, designa uma instituição em que seus agentes são autores de papéis sociais em um ambiente que é comum e permite o intercâmbio de experiências, conferindo ao mundo que está à disposição de seus participantes, um caráter intersubjetivo e social.
Neste meio contemporâneo o educando conhece, apreende e compreende numa experiência direta com o mundo social que diz respeito a tudo que está à sua volta, e pelo caráter biográfico de sua história, ou seja, conhecimentos adquiridos ao longo da sua vida, servindo-lhe de referência para interpretar o mundo. Mas, deste saber popular pode decorrer o distanciamento social, instalando ao espaço grupos excluídos e oprimidos. São as chamadas diferenças culturais intrínsecas na vida social. Sobre cultura Arantes esclarece ao dissertar que
[...] (significação) está em toda parte. Todas as nossas ações, seja na esfera do trabalho, das relações conjugais, da produção econômica ou artística, do sexo, da religião, das formas de dominação e de solidariedade, tudo nas sociedades humanas é constituído segundo os códigos e as convenções simbólicas a que denominamos “cultura” (ARANTES, 1998, p. 34).
A escola constitui o aparelho primordial de interações culturais e a ação pedagógica neste espaço pode excluir fatores dissociativos, assimilando o multiculturalismo presente na associação humana.
A questão central consiste em saber como a escola pode conciliar a multiplicidade de perspectivas, saberes e culturas para um mesmo centro comum? Em resposta a esta problemática a escola deve tornar-se multicultural, abranger todos os grupos e culturas
favorecendo o desenvolvimento de atitudes que impliquem num espaço privilegiado e cooperativo do vivido comum.
Segundo Flavio Moreira (1999), os princípios e estratégias para a formação do currículo escolar e do professor multicultural, perpassam pelo enfrentamento das questões de: raça, poder, identidade, significado, ética e trabalho. Com relação ao processo de formação do docente multicultural, o autor destaca a necessidade de se lidar com o preconceito e os estereótipos através do ensino da história de um grupo oprimido, analisar as etnografias que explicitem processos de discriminação em atividades didáticas e a produção de ensaios sobre a discriminação. Acrescenta a este discurso que para combater o preconceito faz-se necessário o envolvimento emocional, através de diferentes experiências e discussões de variados textos. Enfim, desenvolver o respeito pelo outro exige a construção de um novo olhar social.
O professor deve seguir um modelo de professor reflexivo e do professor culturalmente comprometido. O profissional dever ser crítico na sua prática, problematizar conteúdos curriculares e práticas pedagógicas, ressaltando seus aspectos culturais e os elementos discriminatórios presentes (MOREIRA, 1999, p.87-90).
A Educação recentemente têm elaborado propostas curriculares que através do instrumental teórico pedagógico analisam o fenômeno da escola multicultural. Neste espaço o “saber docente” é fundamental ao contribuir com a possibilidade de articular o conhecimento de forma plural, heterogenia e construído a partir de pedagogias transitáveis configuradas pelo pragmatismo de diversas teorias e conceitos que se tornam ações pelo educador através de projetos e elaborações a que se propõe. Neste discurso social, o educador precisa estar preparado para mobilizar ações que desencadeiem questões étnica-sociais. Para tanto, as ações pedagógicas devem seguir de forma pragmática, consciente e, sobretudo, reflexiva. O modelo pedagógico multifacetado moldura-se em objeto de cooperação, base de formação da vida social.
2.1 A cultura e história africana e afro-brasileira na literatura: contributo ao trabalho do educador
Devido à falta de formação adequada os educadores participam com desafio do processo de ensino para programar as demandas curriculares. Os trabalhos de pesquisa têm sinalizado algumas possibilidades ao referenciar publicações que subsidiam o trabalho pedagógico.
Destacamos neste estudo os livros literários voltados especificamente ao publico infantil e juvenil. São textos que incorporam a história de diferentes países do continente africano, especificidades, contextos sociais e concedem visibilidade aos personagens negros por diferentes tempos e espaços.
Ao reportarmos à citação anterior de Antonio Flávio (1999), sobre a necessidade de combater o preconceito com o envolvimento emocional, nos aproximamos do texto literário na asserção estratégica, pois além dos ares subjetivos da literatura, reúne também diferentes experiências e discussões de variados textos.
O trabalho com a literatura justifica-se por sua principal característica de simbolizar as coisas do mundo através da palavra. É a linguagem carregada de significados, ou ainda, designa o que é humano, um olhar pelo mundo social sobre diferentes vieses. Através da leitura, jovens e crianças aproximam-se, de modos multifacetados, da diversidade cultural, histórica e social sobre variados ramos e contextos facilitadores no processo de aprofundamento de suas identidades étnico-sociais.
Segundo Eliane Debus (2007), a linguagem literária, pelo seu caráter simbólico, pode contribuir sobremaneira para reflexões que rompam com uma visão construída sobre o pilar da desigualdade étnica e se solidifiquem sobre uma base de valorização da diversidade.
A partir de um olhar crítico sobre textos literários podem ser apontadas ações transversais ao currículo, levantando problemáticas sociais, questões sobre o racismo e resgate cultural. Ao engajar o diálogo entre linguagem literária e mundo social, oportuniza-se a reflexão sobre diferentes realidades e a ideia de mobilidade social.
O educador pode contribuir com este processo ao promover a visibilidade dos livros literários que apontem a temática negra e a diversidade cultural. Mas, o mundo literário, como fenômeno concreto, implica variabilidade de perspectivas, contextos e a aquisição de diferentes saberes. Por conseguinte, o educador precisa atentar aos textos literários como provedores de atitudes e valores comprometidos com a diversidade cultural como fator positivo e enriquecedor. Sendo assim, a presente pesquisa pretende aquém de apenas informar ao educador acervos literários étnicos, procurará problematizar os textos a partir do seu conteúdo social, ou seja, como a recepção projetada por sua leitura contribui para instrumentalizar discussões étnico-sociais. Desta forma, torna-se necessário dar incremento ao estudo, elaborando subsídios teóricos e metodológicos ao educador para trabalhar as leituras literárias destinadas ao público infantil e juvenil que enfatizam o tema étnico-social, ou ainda, títulos que incluam a real participação de personagens negras, costumes afro-brasileiros e informações culturais.
3. Acervos literários: discussões étnico-sociais
Ao voltarmos nosso olhar a livros específicos sobre a cultura africana e afro-brasileira descortinamos uma possibilidade ímpar de unir estratégias e formação social. Para conhecer o mercado literário e os materiais disponíveis nos debruçamos sobre a recente pesquisa realizada entre 2008-2009 sobre o assunto. Através do tema: “A cultura africana e afro-brasileira na literatura de recepção infantil e juvenil: um diálogo singular em pluralidades”2, apoiada pela bolsa PIBIC/CNPq, foram mapeadas dez casas editorias (Ática, Companhia das Letrinhas, DCL, FTD, Paulinas, Salamandra e Scipione, Mazza, Pallas e SM), tendo como referência os catálogos comerciais do ano de 2008/2009. O estudo desenvolvido delimitou e identificou o material bibliográfico-alvo, e, inclusive, somaram-se análises de alguns dos textos elencados. Outro momento interessante da pesquisa foi a construção da divisão dos títulos de acordo com a área temática dos contextos de suas histórias. Como resultado classificou-se os principais temas abordados por seus autores, sendo: temas folclóricos, contos africanos, obras que tratam do período escravocrata ou de contextos contemporâneos, temas de religião e cultura, ou ainda, livros que apesar de constarem em catálogos literários são de caráter informativo, não-literário. Este material direciona nossos estudos ao apontar os horizontes literários que podem ser percorridos e conhecidos.
O presente artigo colabora ao ampliar as discussões sobre alguns títulos publicados, na intenção de promover subsídios ao educador para trabalhar as leituras literárias de forma reflexiva e crítica, e que sejam instigados a analisarem livros que tematizem o tema étnico-social, ou ainda, títulos que incluam a real participação de personagens negras, costumes afro-brasileiros e informações culturais.
2
O trabalho de pesquisa citado neste texto foi realizado por Margarida Cristina Vasques sobre a orientação da Professora Doutora Eliane Santana Dias Debus.
3.1 O período escravocrata assistido pela lenda de Taita Osongo
O professor, jornalista e escritor Joel Franz Rosell (Cuba), é autor da obra “A lenda de
Taita Osongo”. Editado no Brasil em 2007 pela Editora SM, foi traduzido por Heitor Ferraz
Rosell e ilustrado por Fernando Vilela.
O gênero do texto é um romance fictício que pode ser apreciado por jovens e crianças do Ensino Fundamental. O personagem Severo Blanco participa de toda trama e é parte principal da narrativa.
Severo Blanco descobre o rico comércio da venda de negros para as colônias da América e parte com seu navio negreiro para Sóngoro Cosongo, na África. Com astúcia se apodera dos homens negros e entre eles está o rei africano Taita Osongo. Na segunda parte da história Severo Blanco já é o grande proprietário do engenho Fortuna, e entre seus escravos está Osongo. Dom Severo acredita que este negro faça mandinga contra ele, pois de sua esposa só nascem filhas mortas. Após passar treze anos amarrado ao tronco Osongo é solto para que vá embora e leve aquela maldição dali. Osongo parte e não é mais visto. Logo a senhora do engenho engravida e dá à luz a Alma, uma bondosa menina.
Alma cresce na companhia de Leonel, filho da ama-de-leite, então a menina branca e o escravo negro se enlaçam numa grande amizade que conforme crescem transforma-se em amor. Agora a sinhazinha e Leonel estão apaixonados e querem fugir. Dom Severo fará de tudo para impedi-los, afinal jamais poderia haver maior castigo do que este para ele. Ressurge a figura do rei e feiticeiro Taita Osongo que para ajudá-los transformará o destino deste amor na mais bela lenda (trecho extraído da pesquisa “A cultura africana e afro-brasileira na literatura de recepção infantil e juvenil: um diálogo singular em pluralidades”, 2009).
A lenda de Taita Osongo reflete as raízes afro cubanas ao colocar-se no tempo e espaços da Cuba colonial e suas fazendas de engenho de açúcar. Através do texto podemos explorar as relações sociais daquele momento histórico por caminhos da dramatização ideológica que o autor promove ao romantizar as tensões sociais entre o senhor e o escravo. Podemos explorar o modo de produção escravista através da abordagem que o texto traça aos apelos de Severo Blanco que mercantiliza o negro e o escraviza, ilustrando o contexto social onde pessoas eram transformadas em mercadoria e elemento de comercialização. Inclusive a própria relação familiar é tomada por esses ares, onde à esposa são exigidos herdeiros e à filha (Alma) que se case de acordo com os interesses do pai ambicioso. O autor encontra a identidade própria de seus personagens através do sentimento e da magia. Somente a subjetividade e o fantástico conseguem descaracterizar a realidade empírica do sistema escravista, salvando de alguma forma seus heróis.
A história também instiga à pesquisa ao descrever Taita Osongo como um rei africano. Os negros antes de reduzidos a instrumentos e meio de produção participavam de alguma formação social, mesmo assim foram subjugados a escravos, deixando de existir socialmente, isolados da herança social de seus antepassados. Quando na história da escravidão do negro, este passa a ser visto como um ator social, um agente de seu tempo e espaço quebra-se paradigmas da história que o cristalizam com passividade e submissão, e irradia o seu papel influente nas relações de ordem social, econômica, política e cultural.
3.2 A Angola e o Brasil para crianças por Rogério Andrade
Rogério Andrade Barbosa trabalha na área de literatura afro-brasileira e africana. Entre mais de 70 livros infantis escritos referenciamos alguns como: ABC do Continente Africano, 2007, Uma idéia Luminosa, 2007, A Tatuagem 1999, Contos Africanos de Adivinhação, 2009 e Em Angola tem? No Brasil também!, 2010.
Publicado pela editora FTD, São Paulo, Em Angola tem? No Brasil também!, e ilustrado por Jô Oliveira, o autor Rogério de Andrade constrói sua narrativa através da correspondência entre dois meninos: um brasileiro que mora em Salvador e outro angolano residente em Luanda.
As crianças trocam cartas e nesta brincadeira irão descobrir semelhanças entre os dois paises. Rogério Andrade tematiza a cultura e os conhecimentos herdados através dos angolanos capturados e trazidos para o Brasil na época da escravidão. “Dois meninos, separados por um imenso mar, mas unidos pelo mesmo idioma, conheceram-se por meio de um projeto de correspondência entre alunos de escolas brasileiras e angolanas” (ANDRADE, 2010, p. 8).
Livre de ser uma narrativa dramatizada, o texto informa ao leitor contribuições angolanas como: a capoeira (N´golo em Angola) e as palavras de origem africana: “Abada, acarajé, afoxé, angu, bagunça, balangandã, [...] neném, quindim, samba, sunga [...]” (ANDRADE, 2010).
As informações colhidas chegam a escola de Naldinho (menino brasileiro) e de Matondo (menino de Luanda), colocadas em murais e o projeto de correspondência se espalha para outros estudantes. Além disso, os pais das crianças também ficaram envolvidos através das perguntas que os meninos faziam. O autor através dos dois personagens vai explicando sobre a tradição de contar histórias, as semelhanças na formação familiar, os penteados e as roupas e os jeitos, explorando a identidade cultural dos sujeitos.
É uma história contemporânea que trabalha com o tema afro brasileiro através de personagens negros em tempos atuais e no cotidiano. As ilustrações retratam a narrativa otimista e de bons humores. A linguagem simples elabora explicações entre diálogos e parágrafos mais extensos.
No primeiro encontro com o texto existe o prazer estético com a leitura, apesar de não exigir demasiada reflexão sobre a historicidade da escravidão e estando ausente do texto os domínios sobre o processo de mestiçagem, fazendo uma relação direta entre os dois personagens semelhantes na cor, na cultura e, inclusive, no meio social. Como o texto muitas vezes, prima pela objetividade e pelo sentido único, ao leitor não é exigido muito o uso da criatividade pela especificidade do uso da linguagem vinculada à informação. Todavia, o texto contribui com a formação do leitor ao elencar produções e elementos ligados à cultura afro brasileira e africana que não possam ser encontrados em livros didáticos e outros textos não literários, além deste aspecto, está associado ao personagem negro o papel de protagonistas da história e mesmo é tratado pelo autor com ares de alteridade, ou seja, a relação com o outro num olhar sensível e respeitoso.
As principais características de textos como Em Angola tem? No Brasil também! É a oportunizar noções de pertencimento e identidade da criança negra que no cotidiano são negligenciados pela sociedade. Trazer ao leitor jovem este momento de conhecimento e de discussão sobre como este se percebe como sujeito é muito importante para o processo de construção e inserção social. São momentos de estudos sobre a dinâmica cultural que precisam ser privilegiados, pois, tem importância como fator de afirmação da identidade local, regional e nacional. O estudo das origens culturais fortalece o diálogo étnico ao materializar linguagens e concepções do mundo de forma múltiplas. Segundo os estudos de Arantes essa diversidade
[...] que se desenvolve em processos históricos múltiplos, é o lugar privilegiado da “cultura” uma vez que, sendo em grande medida arbitrária e convencional, ela constitui os diversos núcleos de identidade dos vários agrupamentos humanos, ao mesmo tempo que os diferencia uns dos outros. Pertencer a um grupo social implica, basicamente, em compartilhar um modo específico de comportar-se em relação aos outros homens e à natureza (ARANTES, 1998, p.26).
O livro proposto do autor Rogério Andrade tem esta especificidade de dar visibilidade aos diferentes agrupamentos humanos, colocando-os como iguais em valores e ricos em diversidade, através da exposição de múltiplas atividades e simbolismos africanos sempre se ocupando em destacar a nação de origem daquele continente.
3.3 A sabedoria dos contos africanos
O livro Caroço de Dendê: a sabedoria dos terreiros: como Ialorixás e Babalorixás
passam seus conhecimentos a seus filhos, 2002, publicado pelo editora Pallas, organiza
histórias que fazem parte do cotidiano narrativo da autora Mãe Beata de Yemonjá. A temática deste livro se aproxima de contos religiosos africanos, onde
[..] a tradição oral que conta mitos e histórias sagradas tornar-se texto publicado, marcando a cultura afro-brasileira, tradições, religiosidade e memórias como saberes de inspiração, ação e mudança. O universo da religião afro-brasileira é complexo devido aos diferentes grupos étnicos que a influenciaram. O Candomblé e a Umbanda são suas maiores expressões. Marcada pelo sincretismo religioso, em conseqüência da miscigenação racial de um povo variado e diversificado, os contos escritos desta obra respondem à necessidade da religiosidade afro-brasileira em integrar e harmonizar as diferentes nações dando-lhes identidade, valores familiares e ritos que atualizam a mitologia africana ancestral.
É o caso de um dos contos, Mais uma história com Xangô e o quiabo. A narrativa deste conto é sobre Xangô e sua gula de comer quiabo. Xangô é valente e destemido guerreiro, mas adorava quiabo e quando o comia ficava com preguiça, dormia e perdia a disputa com o adversário que já tinha ido embora. Foi consultar o oluô que lhe aconselhou a deixar de comer quiabo. Substituir a gula pelo quiabo que lhe fazia mal por mocó, outro alimento em forma de folha. Xangô apesar de gostar tanto de quiabo prepara este outro alimento. Passa a se sentir bem mais forte e jovem. Xangô Baru não foi vencido pela gula. (trecho extraído da pesquisa “A cultura africana e afro-brasileira na literatura de recepção infantil e juvenil: um diálogo singular em pluralidades”, 2009).
A principal característica desse livro é a possibilidade de vivenciar experiências narrativas. O texto dá voz à Mãe Beata de Yemonjá que aproxima a escrita das histórias orais contadas pelos contadores de história africanos, ou “Griots” como são chamados. São bibliotecas vivas que carregam consigo, segundo estudos de Benjamin (1994), a sabedoria como o lado épico da verdade. Na tradição oral a verdade é transformada em sabedoria e a sabedoria é a verdade transmissível, é a força da palavra empenhada desvinculada do livro.
Caroço de Dendê é formado por são 44 (quarenta e quatro) títulos que expressam os saberes que vem de longe. Estas passagens que fazem parte da tradição oral são saberes que para Benjamin
[...] do longe espacial das terras estranhas, ou do longe temporal contido na tradição, dispunha de uma autoridade que era válida mesmo que não fosse controlável pele experiência[...] O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação (BENJAMIN, 1994, p. 202).
A informação como observado no estudo anterior com o texto de Rogério Andrade é previsível e acabada. O sujeito não dialoga com a informação, apenas a recebe. Nela tudo está explicado, resumido e definido. Já em textos como o encontrado em Caroço de Dendê da narrativa se faz cultura, sendo esta a forma artesanal de comunicação. A narração das oralidades é memória, ou seja, ao contar histórias processa-se a rememoração através da palavra o passado é resgatado no tempo. A memória passada colabora com um conjunto de ideias e imagens que valorizam o tempo passado e estão perceptíveis no tempo presente, muitas vezes ainda, fazem parte do meio e das relações construídas nestes espaços.
O contador de histórias precisa ter um acervo de experiências vividas e ouvidas, logo são os mais velhos do grupo que desempenham este papel, com “a faculdade de intercambiar experiências”, os sábios e respeitados contadores de história divulgam através deste dom a herança cultural e religiosa de geração em geração. Com base nos estudos de Benjamin, são artesãos que praticam a arte de narrar. (BENJAMIN, Walter, 1994, p. 198).
Aproximamos-nos, a partir desses contos, com a criança que é colecionadora de narrativas. Para ela o conto colabora como mediador de sua cultura com significados diversos que estarão sendo utilizados para influenciar o seu meio. Ao colecionar contos a criança está se relacionando com a própria vida, em seu exercício de busca, perdas e encontros. Nessa perspectiva a leitura é um dos meios para a criança descobrir e conhecer o mundo livre de ideologias e preconceitos, mas através de sensíveis ensinamentos humanos.
4. Considerações Finais
A leitura é produto da atividade humana, e como tal expira significação e experiências do mundo concreto. Reconhecemos no mercado literário a disponibilidade de textos que apresentam e representam em diferentes dimensões o tema étnico-racial. Porém, é necessário atento ao material disponível, sua aplicabilidade, sobre quais condições de espaço e tempo o personagem negro está retratado. O trabalho com os textos literários exige um olhar crítico do educador que precisa capacitar-se e elaborar discussões críticas. O compromisso pedagógico consiste em mediar a narrativa de forma a promover vivências significativas de aprendizagem cooperativa com a humanização dos sujeitos. Atendendo ao processo de construção social, a pedagogia precisa ser entendida como um espaço de transformação social. Logo, o olhar atendo a textos literários deve abandonar a ingenuidade e capacitar-se para colher conceitos racistas e estereotipados, ou o personagem negro posicionado como subalterno. A reflexão sobre as obras literárias perpassa pelo espaço social em que o personagem negro está representado, em como são elaboradas as relações de poder entre os personagens brancos e negros, quais funções exercem, e, ainda, se esses textos denunciam conflitos raciais ou são omissos em suas narrativas de total submissão social, são algumas das problemáticas apontadas no universo literário que participa do tema étnico-racial.
Ao educador através de novos parâmetros é exigido que abandone a ingenuidade sobre os textos dos livros e seja o mediador que conduzirá às vozes, visões e espaço para estas leituras, de forma a analisar a forma de contribuição junto ao leitor, para um caminho que o conduza a se libertar do peso das situações opressoras. Através das histórias crianças e jovens criam seu próprio inventário moral, elaboram questões que os angustiam. Podemos reestruturar as ideias sobre as diferentes realidades sociais e entendê-las na contra-mão de um processo entendido como natural, mas como produto da história e de seus diferentes atores e interesses econômicos. As culturas de diferentes nações africanas fazem parte de nosso cotidiano, somos um país multicultural extrato do continente africano.
Referências
ARANTES, A. A. O que é Cultura Popular. 14. ed. São Paulo. Editora Brasiliense, 1998. BENJAMIN, W.. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura / Walter Benjamin; trad. Sérgio Rouaret. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
CARVALHO, E. B. de; COSTA, G. L. M (orgs.). Educação: questões contemporâneas. Florianópolis: Insular, 2006.
CANCLINI, N. G.. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade; trad. Heloísa Pezza Cintrão; Ana Regina Lessa; trad. de introdução Gênese Andrade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
DEBUS, E. S. D. (org.). A literatura infantil e juvenil de língua portuguesa: leituras do Brasil
e d´além-mar. Blumenau: Nova Letra, 2008.
DAMIANI, A. L. A Geografia e a construção da cidadania: a Geografia em sala de aula. São Paulo: Contexto, 2001.
HALL, St. Da diáspora: Identidades e mediações culturais / Stuart Hall; Organização Liv Sovik; trad. Adelaine La Guardiã Resende... (et al). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. HANNAH, A. Entre o passado e o futuro; trad. Mauro W. Barboda. São Paulo: Perspectiva, 2005.