INTROITO
POR QUE UM CURSO DE SENTENÇA CÍVEL?
Fabrício Castagna Lunardi
Ao se buscar intitular uma obra, é preciso encontrar signos linguísticos
que possam espelhar o seu conteúdo. Portanto, nominar o livro de Curso de
Sentença Cível, assim como fizemos na obra congênere (“Curso de Sentença
Penal”), se deve a todos os diferenciais que se pretendeu imprimir à obra,
que não se circunscreve apenas à apresentação da técnica, tampouco possui
uma abordagem puramente teórica. Muito além disso, tem o formato de um
Curso, pois pretende desenvolver o conhecimento e as habilidades necessárias
a partir do domínio do direito material e processual, da sua sistematização do
direito dentro da estrutura da sentença, bem como a partir da demonstração
de como o conhecimento jurídico deve ser adequadamente aplicado, dentro
da técnica, propondo-se modelos de redação, apresentando-se estilos de
lin-guagem, sentenças reais, questões de concurso e exercícios simulados para
serem desenvolvidos, com o que se pretende desenvolver a própria habilidade
de sentenciar.
Para tanto, na construção do presente livro, pressupõe-se que a preparação
do candidato para o concurso da magistratura possui um relevantíssimo papel
de formá-lo para o exercício de sua atividade, além, é claro, de
instrumenta-lizá-lo a obter o conhecimento necessário e a desenvolver habilidades para
aquilo que será exigido na prova do certame, suprindo-se eventuais carências
na formação jurídica.
A formação e o aperfeiçoamento técnico-profissional dos magistrados
devem começar antes mesmo do ingresso na magistratura, ainda na fase de
preparação para o concurso. Ao julgador, não é dado o privilégio de experimentar
a profissão. O magistrado personifica o Poder Judiciário
1. Ao desempenhar a
1 “A capacitação técnico-profissional dos membros da magistratura brasileira, mediante a formação, o aperfeiçoamento e uma atualização permanente, consubstancia objetivo
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CURSO DE SENTENÇA CÍVEL • Fabrício Castagna Lunardi | Luiz Otávio Rezende
atividade judicante, está dizendo a vontade concreta do direito e modificando
o mundo real, distribuindo justiça, enfim, impactando diretamente a vida das
pessoas.
Desse modo, para se conseguir efetividade no Judiciário, assim
entendi-do o julgamento de casos de forma qualificada e no menor espaço de tempo
possível, é imprescindível a profissionalização da magistratura.
2Com efeito, o
juiz, chamado a decidir um caso concreto, não pode partir para um pensamento
teorético infindável, enquanto existe uma parte esperando a solução do seu
caso
3. No entanto, também não está autorizado a ser puramente casuísta, ou
seja, decidir o caso somente a partir da sua concepção de justiça, ignorando
os parâmetros normativos. Portanto, para o julgador, não é suficiente nem o
pensamento puramente casuísta, nem o puramente sistemático, pois “deve ser
adotado um juízo prático, mas com vinculações sistemáticas”.
4triz, de significativa relevância, quando se trata de refletir sobre a dinâmica institucional de presteza e atuação adequada do Poder Judiciário. Em verdade, a instituição judiciária são os seus juízes, como órgãos de Poder, firmando-se cada um deles um desempenho qualitativo na função essencial de distribuição de Justiça”. (ALVES, Jones Figueirêdo; LIRA, Jorge Américo Pereira de. Apresentação. In: ALVES, Jones Figueirêdo; LIRA, Jorge Américo Pereira de. Apresentação (Coord.). Manual das decisões judiciais cíveis. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010)
2 Sobre o tema, assim afirma Dalmo de Abreu Dallari: “A consequência é que, por mais que se queira evitar, não há como recursar a profissionalização dos juízes, determinada por circunstâncias de ordem prática. [...] Por outro lado, entretanto, o reconhecimento do caráter profissional nada tem de degradante para a magistratura nem reduz seu prestígio e sua respeitabilidade. A par disso, a profissionalização permite uma seleção mais adequada e amplia a possibilidade de aperfeiçoamento constante dos juízes, além de proporcionar o aproveitamento de sua experiência acumulada.” (DALLARI. Dalmo de Abreu. O poder dos
juízes. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 26)
3 Desse modo, é infundada, errônea e injusta a crítica por vezes feita pela academia aos candidatos a concurso públicos, quando afirmam que, ao invés de uma perspectiva crítica, adotam um método de estudo direcionado visando absorver o máximo de conhecimento jurídico sobre as diversas áreas do direito.
4 “O pensamento sistemático parte de uma totalidade; o pensamento casuístico procede de modo diverso, podendo contar com conhecimentos fragmentários. O primeiro tem sido criticado pelo racionalismo e pela desvinculação entre o caso e o mundo real, e por isso há um retorno à análise do direito como uma técnica de solução de problemas. A análise de casos é enriquecedora e realista, mas pode levar ao caos social esse a única perspectiva considerada forem os interesses de dois indivíduos. É necessário considerar quais benefícios e prejuízos sofrerá o terceiro ausente de um conflito bilateral, que é justamente a socie-dade, sendo imprescindível para tato ter em conta uma perspectiva global. Esse enfoque nos leva a indicar que ambas as perspectivas são complementares, razão pela qual deve ser adotado um juízo prático, mas com vinculações sistemáticas.” (LORENZETTI, Ricardo Luis.
Teoria da decisão judicial: fundamentos de direito. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,
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O acúmulo de conhecimento sobre as diversas áreas do direito é uma
necessidade, tanto para o ingresso no concurso público (em que será exigida
essa habilidade), quanto na prática judicante, pois o magistrado precisa decidir
com rapidez e segurança,
5além de equilíbrio, sensatez e consequencialismo.
6Para isso, o domínio do conhecimento e o desenvolvimento de certas
habili-dades inerentes à magistratura são essenciais.
Nesse sentido, o critério de seleção por concursos públicos cada vez mais
concorridos tem a importante função de proporcionar a escolha de melhores
magistrados,
7por um processo seletivo que compreende diversas fases e que
exige o conhecimento das mais variadas matérias, além, é claro, de legitimar
o processo de ingresso na carreira, pelo critério meritório
8, assegurando-se a
participação de todos.
95 “O magistrado é requisitado a decidir com rapidez e com segurança. Precisa aliara produ-tividade e a coerência.” (NALINI, José Renato. Ética na magistratura. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. p. 190)
6 NALINI, José Renato. Ética na magistratura. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.
pp. 189-192.
7 Também nesse sentido Dalmo de Abreu Dallari: “Por todos esses motivos, bem como pelos resultados colhidos da experiência, não há dúvida de que, na sociedade moderna, o melhor modo de seleção dos juízes é o concurso público, aberto, em igualdade de condições, a todos os candidatos que preencham certos requisitos fixados em lei, excluída qualquer espécie de privilégio ou discriminação. Desde que a Constituição preveja esse modo de escolha e uma vez que os juízes, regularmente selecionados, atuem nos limites de sua competência legal, não há como pôr em dúvida sua legitimidade. Esta decorre da Constituição e não é menor do que a resultante do processo eleitoral”. (DALLARI. Dalmo de Abreu. O poder dos
juízes. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. pp. 26/27)
8 “Dessa forma, a ordem constitucional permaneceu fiel à tradição do sistema concursal para a investidura no cargo de Juiz de Direito, o que acentua o critério competitivo meri-tório por via da escolha dos candidatos com maior capacidade e conhecimento técnico e idoneidade moral, a caracterizar, pois, ‘uma das expressões mais vigorosas da democracia, pois permite que todos concorram, valendo-se de seus méritos, ao acesso aos cargos públicos’, observada a ordem de classificação no concurso que livre os melhores candi-datos de eventuais constrangimentos para a obtenção de sua nomeação. O concurso de provas e títulos, observados os princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, envolve exames escritos e orais sobre as disciplinas jurídicas e não jurídicas, sob os aspectos teóricos e práticos, a comprovação de titulação (v.g. pós-graduação, aprovação em outros concursos públicos, exercícios de outros cargos públicos, publicações de livros e artigos técnico-científicos etc.) e a idoneidade moral dos candidatos.” (PELUSO, Vinicius de Toledo Piza; GONÇALVES, José Wilson. Comentários à lei
orgânica da magistratura nacional: Lei Complementar 35/1979 – LOMAN. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2010. p. 146)
9 Assim, assegurando-se a possibilidade de participação a todos, desde que atinjam os re-quisitos para a investidura no cargo, e o critério meritório, trata-se de um processo talvez ainda mais legítimo que o de escolha dos membros dos outros poderes, onde a eleição tem
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CURSO DE SENTENÇA CÍVEL • Fabrício Castagna Lunardi | Luiz Otávio Rezende
A par do conhecimento jurídico exigido, os concursos públicos atualmente
demandam que o candidato tenha treinado habilidades, inclusive a de proferir
uma sentença com qualidade dentro de um curto espaço de tempo.
Nessa perspectiva, o presente livro tem por objetivo, além de apresentar
um roteiro lógico e didático para a elaboração de uma sentença cível, também
proporcionar que o candidato treine e desenvolva essa habilidade, que lhe será
essencial para o desempenho da judicatura.
Com este Curso de Sentença Cível, serão desenvolvidas as seguintes
com-petências
10genéricas: a) capacidade de identificar, selecionar e organizar as
questões relevantes postas no caso a ser julgado; b) escrever uma sentença
de forma estruturada, técnica e juridicamente fundamentada, dentro dos
limi-tes da questão posta. Além disso, também serão desenvolvidas as seguinlimi-tes
competências específicas: a) capacidade de aplicar o conhecimento jurídico
ao caso concreto; b) capacidade de desenvolver uma forma de escrita para
cada tipo de questão posta (preliminares ao mérito, preliminares de mérito,
questões prejudiciais, alegações das partes, exame de provas etc.), dentro da
técnica; c) capacidade de escrever uma sentença fundamentada e completa
no menor tempo possível; d) capacidade de agir com autonomia frente a
novas questões, em relação às quais não há precedente específico ou prévia
interpretação que possa lhe indicar um norte de decisão.
Para isso, esta obra utiliza basicamente dois métodos, quase que
simul-taneamente. O primeiro é o jurídico-dogmático, analisando-se as questões
normativas, dentro de uma linha metodológica jurisprudencial,
11assumindo-se
a dialética entre o ordenamento e o problema localizado. O segundo método
por trás um forte processo de financiamento de campanha, que fatalmente leva a autoridade eleita a privilegiar determinados interesses daqueles que o apoiaram no processo eleitoral. 10 O conceito de competência aqui adotado é de natureza metodológico, como na abordagem
de André Rodrigues Corrêa: “A noção de competência utilizada nesse trabalho guarda conexão com aquelas expostas por Elisabeth Dugué, para quem as competências, compreendidas como ‘saberes em ação’, são ‘o conjunto de conhecimentos e de maneiras de ser que se combinam harmoniosamente para responder às necessidades de uma dada situação em dado momento’, e Richard Wittorski, que a define como ‘a mobilização na ação de um certo número de saberes combinados de maneira específica, em razão do quadro de percepção que o ator constrói da situação’. No mesmo sentido, Philippe Perrenoud define competência como ‘capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles’, termo que relaciona com outro: ‘habilidades’.” (CORRÊA, André Rodrigues. Por que privilegiar o desenvolvimento de competências? Relato de uma aula de Direito Contratual. In: GHIRARDI, José Garcez; VANZELLA, Rafael Domingos Faiardo (orgs.). Ensino jurídico participativo: construção de programas, experiências didáticas. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 27-72. pp. 32-33)
11 GUSTIN, Miracy B. S.; DIAS, Maria Tereza Fonseca. (Re)pensando a pesquisa jurídica. Belo Horizonte: Del Rey, 2010. p. 21
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utilizado – combinado ao primeiro – é o de estudo de caso
12, em que serão
propostos problemas (exercícios/provas de sentença simulada) que devem
ser solucionados. A partir dessa metodologia, o livro pretende ser não
so-mente uma obra doutrinária, de onde o conhecimento deve ser absorvido,
mas também um guia e um facilitador, proporcionando que possa haver uma
melhor compreensão dos temas abordados, já que se passa a ter não apenas a
perspectiva teórico-dogmática da técnica de sentença, mas também um
con-tato com o modo pelo qual o conhecimento afirmado em tese pode ser bem
aplicado e utilizado concretamente na estrutura da sentença. Nesse sentido,
como o leitor é convidado a participar ativamente do processo de construção
da solução, há uma maior retenção do conhecimento, no desenvolvimento da
habilidade de desenvolver uma sentença fundamentada, tecnicamente correta
e bem estruturada.
Desse modo, poderá ser encontrado neste livro um verdadeiro Curso de
Sentença Cível, que contém tanto o conhecimento jurídico necessário para
aplicar, de forma correta, técnica e adequada, o direito material e processual, a
fim de julgar o caso concreto, como também um roteiro para o aprimoramento
da técnica, para exercitar a prática de sentença e para visualizar os diversos
tipos de sentenças e de estilos de magistrados. Além disso, para o candidato a
concurso público, também terá um importante aliado na preparação, pois são
colocadas dicas de estudo, normas que regem a prova de sentença, diversos
modelos de redação em cada item abordado, exercícios simulados, questões
mais importantes relativas aos procedimentos especiais e modelos de
dispo-sitivos de sentença.
Ao final da leitura do livro e da prática dos exercícios propostos, espera-se
que o candidato esteja apto a enfrentar as provas de sentença para o concurso
da magistratura, e o magistrado, na prática judicante, a elaborar uma sentença
de forma mais técnica, fundamentada e rápida.
C
APÍTULO
1
ORIENTAÇÕES GERAIS SOBRE
O CONCURSO PARA INGRESSO
NA CARREIRA DA MAGISTRATURA
Luiz Otávio Rezende
1. REGRAS CONSTANTES DA RESOLUÇÃO N. 75/09 DO CONSELHO
NACIONAL DE JUSTIÇA
1Segundo a Resolução n. 75/09 do CNJ, os candidatos às carreiras da
magistratura estadual e federal devem se submeter, obrigatoriamente, a duas
provas de sentença, em dias sucessivos, sendo uma versando sobre matéria
cível, e outra tratando de matéria criminal. A Justiça Militar demandará a
feitura de apenas uma sentença criminal
2.
A convocação dos aprovados para realizarem esta etapa deve ser feita
no mínimo 15 (quinze) dias antes da data prevista para a prova, e o
desaten-dimento a essa regra poderá levar à anulação da fase de sentença, desde que
comprovado o prejuízo aos candidatos
3-4.
1 Para maiores esclarecimentos sobre todas as fases do concurso da magistratura, bem como dicas específicas de preparação para cada uma delas, vide: (REZENDE, Luiz Otávio. Concurso
para a magistratura: guia prático. Salvador: Juspodivm, 2017).
2 Art. 49, II e III, da Resolução n. 75/09. A partir desta previsão, conclui-se que os Tribunais não podem mais exigir dos candidatos mais de duas provas de sentença, situação antes vivenciada, por exemplo, nos certames do TJDFT, que, até o ano de 2008, submetia os candidatos à magistratura distrital a quatro provas de sentença de matérias variadas em dias subsequentes, cada um deles com uma nota mínima a ser alcançada para permitir a aprovação do postulante ao cargo.
3 Artigo 50 da Resolução n. 75/09 do CNJ.
4 A inobservância de regra procedimental de divulgação de notas não acarreta a nulidade de concurso público quando não demonstrado prejuízo aos concorrentes (AO n. 1395 ED / ES. Rel. Min. Dias Toffoli. Julgamento: 24.06.2010. Órgão Julgador: Tribunal Pleno).
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CURSO DE SENTENÇA CÍVEL • Fabrício Castagna Lunardi | Luiz Otávio Rezende
O tempo de duração da prova não pode ser inferior a 4 (quatro) horas, e
há nota mínima a ser alcançada pelo candidato para fins de aprovação, qual
seja, 6 (seis) pontos de 10 (dez) possíveis
5, cabendo realçar que as provas de
sentença devem ser obrigatoriamente discursivas e realizadas em dias distintos,
preferencialmente nos finais de semana
6, sendo afastada a possibilidade de
utilização de computadores ou laptops para a feitura da prova
7.
Ao candidato, poderá ser facultada a consulta à legislação
desacompa-nhada de anotação ou comentário, não lhe sendo permitido, porém, a
utili-zação de obras doutrinárias, súmulas e orientações jurisprudenciais durante
a realização da prova
8.
Noutra via, observa-se que não só o conhecimento jurídico será avaliado,
mas também a utilização correta do idioma oficial e a capacidade de exposição
do candidato
9.
Entregues as provas aos candidatos, são vedados esclarecimentos sobre
o enunciado das questões ou sobre a forma de resolução dessas
10-11.
Na elaboração do questionamento atinente à prova de sentença, há de
se observar que a Banca Examinadora pode optar por determinada linha
inter-pretativa do direito, desde que baseada em lei, jurisprudência e doutrina
12, e
5 Art. 54, parágrafo único, da Resolução n. 75/09. 6 Artigo 52 da Resolução n. 75/09 do CNJ.
7 PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS PARA AUTORIZAR TRIBUNAIS DE JUSTIÇA A PERMITIR O USO DE COMPUTADORES NA SEGUNDA FASE DO CONCURSO DE INGRESSO PARA A CARREIRA DA MAGISTRATURA. IMPROCEDÊNCIA. PEDIDO PARAREALIZAR PROVA ORAL POR ARGUIÇÃO EM COMISSÕES TEMÁTICA. IMPROCEDÊNCIA.1. O objetivo precípuo da Resolução nº 75 é “a imperativa necessidade de editar normas destinadas a regulamentar e a uniformizar o procedimento e os critérios relacionados ao concurso de ingresso na carreira da magis-tratura do poder Judiciário nacional”.2. Autorizar os Tribunais a adaptar seus dispositivos internos em detrimento das regras da Resolução nº 75 equivale a fulminar a própria Reso-lução.3. Improcedência do pedido. (PP n. 0005476-63.2011.2.00.0000. Rel. Conselheiro NEVES AMORIM. Julgado em 06.12.2011).
8 Artigo 46 da Resolução n. 75/09 do CNJ.
9 Artigo 48, parágrafo único, da Resolução n. 75/09 do CNJ. 10 Artigo 53, § 1º, da Resolução n. 75/09 do CNJ.
11 Não há previsão no Edital ou na Resolução 75/CNJ de que a Banca Examinadora forneça aos candidatos material de consulta. O parágrafo único do art. 46 da Res. 75 apenas es-tabelece que a Comissão Examinadora poderá dirimir dúvidas durante a prova, mas não a autoriza a distribuir qualquer tipo de subsídio para a sua realização. ETAPA ANULADA. (PCA n. 0005003-09.2013.2.00.0000. Rel. Conselheira Maria Cristina Irigoyen Peduzzi. Julgado em 05.11.2013).
12 Em entendimento aplicável pelo Conselho Nacional de Justiça, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e a do Superior Tribunal de Justiça são pacíficas em não caber ao Poder Judiciário, no controle jurisdicional de legalidade, substituir-se à banca examinadora nos
Capítulo 1 • ORIENTAÇÕES GERAIS SOBRE O CONCURSO PARA INGRESSO NA CARREIRA DA MAGISTRATURA
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respeitados os ditames estabelecidos nos artigos 489, § 1º, e 927, ambos do
novo CPC, que trazem as balizas referentes aos precedentes jurisprudenciais
de observância obrigatória.
O conteúdo programático a ser utilizado para a elaboração das provas tem
previsão geral na Resolução n. 75/09 do CNJ
13, regramento que não impõe,
todavia, a forma como as disciplinas lá constantes devem ser abordadas pelas
Bancas Examinadoras, ou ainda a maneira como devem ser interpretadas e,
claro, corrigidas a partir dos questionamentos formulados
14-15.
critérios de correção e atribuição de notas de provas, salvo em caso de erro grosseiro ou de ilegalidade. É possível que a banca de qualquer concurso cometa erros de caráter metodológico ou científico, mas isso, dentro de certos limites, é inerente à falibilidade e à subjetividade próprias de seleções na área das ditas Ciências Humanas, como o Direito. De toda forma, não se verificou a ocorrência de erros na correção, neste caso. A adoção do princípio do livre convencimento motivado do juiz aos candidatos em concurso público é equivocada. Esse princípio diz respeito aos juízes, no exercício da função jurisdicional. A tese autorizaria a conclusão de que qualquer resposta, em prova de natureza dissertativa, aberta, desde que não teratológica, poderia ser tida por correta pela banca examinadora. Isso inviabilizaria a correção das provas e a competitividade inerente ao concurso público. A banca pode eleger determinada linha interpretativa do Direito, desde que amparada pela legislação, pela jurisprudência ou pela doutrina. (PCA n. 0001270-35.2013.2.00.0000. Rel. Conselheiro Wellington Saraiva. Julgado em 06.08.2013)
13 A necessidade de previsão exaustiva no conteúdo programático de todas normas e casos julgados que poderiam ser usados pela Banca Examinadora nos certames foi devidamente afastada pelo Supremo Tribunal Federal. Para a Corte Suprema, “havendo previsão de um
determinado tema, cumpre ao candidato estudar e procurar conhecer, de forma global, todos os elementos que possam eventualmente ser exigidos nas provas, o que decerto envolverá o conhecimento dos atos normativos e casos julgados paradigmáticos que sejam pertinentes, mas a isto não se resumirá”, razão pela qual “não é necessária a previsão exaustiva, no edital, das normas e dos casos julgados que poderão ser referidos nas questões do certame, sob pena de se malferir o princípio da razoabilidade”. Assim, seguindo o raciocínio exarado
no citado aresto do STF, o candidato deve entender que “estudar cada um dos pontos do
programa do concurso deverá englobar, necessariamente, o estudo dos atos normativos e casos julgados pertinentes, e não o contrário.” (STF. MS 30860/DF. Rel. Min. Luiz Fux.
Julgamento: 28.08.2012. Órgão Julgador: Primeira Turma).
14 PP n. 0000416-07.2014.2.00.0000. Rel. Conselheira Maria Cristina Irigoyen Peduzzi. Julgado em 25.02.2014.
15 “RECURSO ADMINISTRATIVO EM PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO PARA INGRESSO NA CARREIRA DA MAGISTRATURA DO ESTADO DO PARÁ. PROVA DE SENTENÇA CRIMINAL. ELABORAÇÃO E CORREÇÃO. AUTONOMIA DAS BANCAS EXAMINADORAS PARA A ATIVIDADE. 1. É do entendimento deste Conselho Nacional de Justiça, com base em inúmeros precedentes, que no tocante a elaboração de provas de concursos públicos para o preenchimento de cargos do Poder Judiciário, bem assim a sua correção, deve-se zelar pela autonomia dos Tribunais e das respectivas bancas examinadoras, ainda que terceirizadas, cabendo a esta Casa apenas o exame de legalidade das normas previstas no edital do certa-me, bem como dos atos emanados da comissão responsável pela organização do concurso. 2. Excepcionalmente, somente em casos de flagrante ilegalidade ou divergência inequívoca
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CURSO DE SENTENÇA CÍVEL • Fabrício Castagna Lunardi | Luiz Otávio Rezende
No tocante à correção da prova pela Banca Examinadora, insta inferir que
restou expressamente vedada a possibilidade de arredondamento de nota, nos
termos do art. 7º, parágrafo único, da Resolução n. 75/09 do CNJ, regra essa
que seguiu a orientação exarada pelas Cortes Superiores
16, cujo entendimento
é firme no sentido de não ser admitida tal prática com o fito de beneficiar
candidato de concurso.
É desnecessária a explicação detalhada da nota atribuída pela Banca
Examinadora (espelho pormenorizado)
17, além do que não é obrigatória a
divulgação do espelho de correção da prova
18-19.
com o que dispõe o edital, no que concerne aos atos praticados por bancas examinadoras de concursos, compete a este CNJ atuar, mormente porque dentro da competência que lhe cabe (CF, art. 103-B), não se trata este Conselho de instância superior administrativa revisora de todo e qualquer ato praticado pela banca em questão. 3. Verificado, no caso concreto, que a insurgência dos requerentes no tocante à prova de sentença criminal corresponde à elaboração, interpretação e critérios de correção, não havendo nos atos praticados pelas bancas examinadoras competentes ilegalidade ou contrariedade ao que dispõe edital, não há providência a ser tomada. Recurso Administrativo que se conhece, e a que se nega provimento.” (PCA n. 0006413-39.2012.2.00.0000 Rel. Conselheiro Ney José de Freitas. Julgado em 02.04.2013).
16 STJ. RMS 15836 / ES. Rel. Ministra Laurita Vaz. 5ª Turma. DJ 12.04.2004. STF. MS 21408 / BA. Relator(a): Min. Moreira Alves. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Julgamento: 20.03.1992. STF. MS 26302 AgR/DF. Rel. Min. Carmem Lúcia. Julgamento: 17.11.2011. Órgão Julgador: Tribunal Pleno.
17 PP n. 0006218-25.2010.2.00.0000. Rel. Conselheiro Jefferson Luis Kravchychyn. Julgado em 19.10.2010.
18 O Conselho Nacional de Justiça já se manifestou pela desnecessidade de divulgação dos critérios de correção da prova subjetiva, ou mesmo do espelho de correção da prova, como pretende o recorrente, por via transversa. Precedentes do STF e STJ. (PCA n. 0007693-45.2012.2.00.0000. Rel. Conselheiro Ney José de Freitas. Julgado em 06.08.2013). 19 Em sentido diverso, reputando haver nulidade na hipótese de ausência de motivação do
ato avaliativo do candidato, confira-se trecho de recente aresto do STJ: (...) na seara de concursos públicos, há etapas em que as metodologias de avaliação, pela sua própria natureza, abrem margem para que o avaliador se valha de suas impressões, em completo distanciamento da objetividade que se espera nesses eventos. Nesse rol de etapas, citam--se as provas dissertativas e orais. Por essa razão, elas devem se submeter a critérios de avaliação e correção os mais objetivos possíveis, tudo com vistas a evitar contrariedade ao princípio da impessoalidade, materializado na Constituição Federal (art. 37, caput). E mais. Para que não pairem dúvidas quanto à obediência a referido princípio e quanto aos princípios da motivação dos atos administrativos, do devido processo administrativo recursal, da razoabilidade e proporcionalidade, a banca examinadora do certame, por ocasião da divulgação dos resultados desse tipo de avaliação, deve demonstrar, de forma clara e transparente, que os critérios de avaliação previstos no edital foram devidamente considerados, sob pena de nulidade da avaliação. A clareza e transparência na utilização dos critérios previstos no edital estão presentes quando a banca examinadora adota conduta consistente na divulgação, a tempo e modo, para fins de publicidade e eventual