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BRAND (UCDB) INÍCIO: 2006 TÉRMINO: 2009

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Academic year: 2021

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INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS –UFSCAR DEPARTAMENTO: EDUCAÇÃO

NOME DO CURSO: PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO/UFSCAR

ORIENTADORES: PROF. DR. AMARÍLIO FERREIRA JÚNIOR (UFSCAR) E PROF. DR. ANTÔNIO JACÓ

BRAND (UCDB) INÍCIO:2006

TÉRMINO:2009

I. INTRODUÇÃO

Esta proposta de estudo pretende investigar as linhas gerais da educação jesuítica entre os índios guarani coloniais do atual Mato Grosso do Sul (antigo Itatim) relacionando a catequese como conversão e a ocupação espanhola do território indígena que implicou no estabelecimento de processos de negociação cultural estabelecidos a partir do contato indígena com os missionários jesuítas, colonizadores, encomendeiros espanhóis e bandeirantes paulistas durante a primeira metade do séculoXVII (1631-1659).

Na região do Itatim, há que se identificar uma pedagogia relacionada aos exercícios espirituais de Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, inspirado numa cosmologia medieval, idéia que se melhor desenvolvida durante a pesquisa, o Ratio Studioroum, um programa educacional dos jesuítas aplicado, com algumas adaptações nas missões jesuíticas, entre elas a do Itatim. O caráter marcial da Companhia de Jesus reflete também aspectos da cultura ibérica relacionados à Guerra da Reconquista empreendida contra os mouros.

Através da História da Educação no período colonial em uma região de fronteira como o Itatim (atual Mato Grosso do Sul), é possível tangenciar a história ambígua e cheia de meandros das relações entre os povos indígenas e o Estado enquanto se construía, na América espanhola e portuguesa, um novo mundo. A história da educação jesuítica nesta região precisa ser caracterizada a partir do modelo construído em diálogo com os relatos sobre os aldeamentos da América portuguesa, tendo em vista que as diretrizes pedagógicas da Companhia eram bastante semelhantes. Esta característica ganha crédito quando levamos em conta a pretensa universalidade dos exercícios espirituais de Santo Inácio, o caráter reformador e ao mesmo tempo conservador desta ordem, além da tentativa de traduzir as doutrinas cristãs numa linguagem simbolicamente compreensível dentro do universo semântico Tupi-Guarani relativamente conhecido pelos religiosos, além do lugar ocupado pelos indígenas no imaginário jesuíta

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do século XVII: a maioria dos missionários que atuaram na América eram europeus, os próprios jesuítas têm um princípio marcial, pois, de início, o propósito era colocar-se a serviço da Igreja na terra santa e pregar aos infiéis que agora são os índios.

A ação jesuítica na América tinha como ponto forte a escola. Escola do bê-a-bá e catequética para os índios, para os colonos e também para aqueles que ingressavam na Companhia. Isto se deve às próprias características internas da Igreja no período posterior à Contra-Reforma, pois ao mesmo tempo em que se procurava formar adequadamente o clero, os fiéis também necessitavam ser instruídos na doutrina oficial, inclusive os novos súditos indígenas. Evidentemente, o projeto de conversão religiosa e cultural desta nova humanidade selvagem era apresentada aos monarcas ibéricos como metas que iam de encontro aos seus interesses nas novas terras, ou seja, o estabelecimento de núcleos coloniais com colonos amparados pela mão-de-obra indígena e o recrutamento de soldados para defender as terras e o comércio frente às demais cortes européias. Frente a estes objetivos há que se considerar outros elementos relevantes para a escrita da História da América de modo a incluir os agentes nativos num papel mais amplo que o de vítimas de genocídio.

A ação dos jesuítas, embora conflitante com os colonos no que diz respeito ao controle da mão-de-obra indígena, refletia a mentalidade européia no tratamento dispensado à alteridade indígena nos séculos XVI e XVII. De outra parte, o papel atribuído aos indígenas na historiografia mais recente tem reforçado a imagem que estes foram vítimas do processo colonizador quando é possível encontrar na documentação colonial a frequente adoção de estratégias não-indígenas na relação com os colonos e com o mundo colonial. Assim o próprio papel das ordens religiosas, entre estas, Companhia de Jesus deve ser analisado cuidadosamente quando acusado de genocídio étnico promovido principalmente pela instituição da escola. Evidentemente, a escola jesuítica nas missões privilegiava a pregação-tradução e a tentativa de transformação dos elementos da cultura indígena em termos cristãos, os índios por sua vez, canibalizaram alguns elementos simbólicos e discursivos europeus e jesuítas e utilizaram –se da escola como veículo de reforço das próprias posições políticas em períodos de disputas internas, além da possibilidade de aprender a ler e escrever em espanhol, a língua dos conquistadores ou daqueles que assim se viam, e enviar petições às autoriades coloniais já que agora eram súditos do rei. Nos povoados missionários havia o cabildo que era sempre indígena. Este índio fazia as vezes de tradutor entre os missionários e os demais indígenas. Seu papel fronteiriço também era ambíguo, pois era necessário para controlar distúrbios internos, mas nem sempre conduzia as coisas do modo desejado pelos jesuítas, além de estar sob permanente risco da influência (aliança ou negociação cultural sob outras perspectivas) dos

tekoharuvichá, os rezadores inimigos dos jesuítas.

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A análise da documentação colonial é hoje um instrumento de análise privilegiado das mentalidades coloniais, e ao mesmo tempo do pensamento subjacente ao projeto educativo vidando a inclusão do “indígena” na sociedade “civilizada moderna”. Neste sentido, quando falamos em índio guarani colonial, usamos este termo em dois sentidos diferentes, ou seja, colonial como período histórico e como mentalidade reproduzida socialmente para além daquele período. Assim o horizonte deste trabalho é a história da educação tomada como veículo de busca de novas aternativas de desenvolvimento.

O direito indígena à educação escolar diferenciada consolidado na Constituição de 1988 leva em conta todo o passado de imposições dos agentes coloniais. De acordo com o historiador Leopoldo Zea, na América, foram-se os colonizadores, mas ficou o colonizado e a mentalidade colonial.

A resistência à temática indígena soa, na academia, como um imperativo de romper com o senso comum no que diz respeito ao direito destes povos à sua própria educação apesar disto se esbarrar em preconceitos –ou falta de informação mesmo- tendo em vista a resistência que a sociedade não-indígena tem com relação aos próprios não-indígenas. Assim, uma tese sobre educação jesuítica no período colonial mantém o tema na pauta das discussões acadêmicas e permite historiar o processo que levou a este acirramento de posições no presente, porque afinal, a história é escrita a partir de nossa própria época, seja ela, educacional ou social.

III. OBJETIVOS 3.1 Geral

Investigar as linhas gerais da educação jesuítica entre os índios guarani coloniais do atual Mato Grosso do Sul relacionando a catequese como conversão e a ocupação espanhola do território indígena que implicou no estabelecimento de processos de negociação cultural estabelecidos a partir do contato indígena com os missionários jesuítas, colonizadores, encomendeiros espanhóis e bandeirantes paulistas durante a primeira metade do séculoXVII.

3.2 Específicos

Contextualizar as missões do Itatim dentro da dinâmica política e econômica da época: a) a União Ibérica e a situação das fronteiras na região do Prata; b) as políticas para a América e para os índios, por parte dos monarcas espanhóis e portugueses, e a sua adaptação à situação colonial; c) a relação entre as cortes européias e os missionários na região do Prata; d) elencar e caracterizar as bandeiras, os bandeirantes, as autorizações da câmara de São Vicente que se lançaram sobre o Itatim;

Esclarecer a associação entre os objetivos educacionais da Companhia de Jesus, civilizatórios da empresa colonial espanhola e o processo de conquista luso-espanhola da região do Itatim;

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Submeter as fontes coloniais à questionamentos sobre o protagonismo indígena frente à proposta de redução dos indígenas à vida cristã e civilizada;

Apontar o impacto da ação dos bandeirantes, das encomiendas e dos colonos sobre a dinâmica populacional dos índios da região do Itatim;

IV. REVISÃO DE LITERATURA

A produção literária sobre as missões jesuíticas começaram ainda durante as experiências na, durante o século XVII, América e se dividiram em apologias e críticas apaixonadas com a redação de relatos e cartas ânuas dos jesuítas que viveram nos povoados indígenas como Diego Ferrer, missionário no Itatim, Felix de Zurbano, superior do Colégio de Assunção, Antonio Ruyz de Montoya, superior das Missões do Paraguai, e grande quantidade de panfletos “anônimos” de tendência laicizante e divulgando a tese de que os jesuítas eram os únicos administradores de fato e de direito das missões. Estes escritos foram atribuídos ao primeiro ministro do monarca português D.José I, Sebastião José de Carvalho.

A temática das missões indígenas na América sobreviveu na literatura européia mesmo após a expulsão dos jesuítas da América principalmente em obras iluministas que enfatizavam o papel do bom selvagem, tema muito presente na literatura do século XVII de Rousseau e também no Cândido, de Voltaire, que faz referências às missões do Paraguai.

No século XX, temos algumas reviravoltas da historiografia que também se fazem sentir nesta temática. Basicamente, temos dois grandes paradigmas, um mais próximo da História Nova que enfatizará aspectos culturais e novas possibilidades de leituras das fontes já conhecidas, além da ênfase no protagonismo e singularidade cultural dos ameríndios. Neste rol podemos incluir textos como o Pensamento Mestiço de Serge Gruzinski, publicado em 2001, Negros da Terra, de John Manuel Monteiro, e Metamorfoses Indígenas de Maria Regina Celestino de Almeida. Seguindo uma outra linha que se fortaleceu devido ao contexto político das nações latino-americanas após os anos 60, temos leituras que poderiam ser caracterizadas como latino-americanas e na linha da história econômica que tende a identificar a história das populações indígenas como semelhante, em nível processual, à das demais camadas sociais marginalizadas. Nesta linha temos obras clássicas como As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, SocialismoMissioneiro, de Décio Freitas, além da sistemática Formação Econômica do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior, e mesmo os trabalhos do historiador Sérgio Buarque de Holanda que esmiuçam arquivos utilizados pelo Afonso de Taunay em sua História Geral das Bandeiras Paulistas. Há uma outra corrente de produções jesuíticas sobre as missões como os trabalhos do grande conhecedor da cultura guarani, radicado no Paraguai, Bartomeu Meliá, Arno Kern, da PUC do Rio Grande do Sul, trabalhos que que fazem a associação entre fontes escritas com pesquisas arqueológicas, além do trabalho de Clóvis Lugon, A República Comunista Cristã dos Guarani que aproxima as leituras apologéticas das leituras latino-americanistas.

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V. METODOLOGIA

A pesquisa em fontes coloniais é muito difícil encontrar um olhar indígena em textos produzidos em sua maior parte por não-indígenas, porém é preciso considerar que este olhar refere-se a uma situação de contato que não haveria sem a presença dos indígenas. Outro ponto interessante é ser sempre possível fazer a crítica dos documentos para alargar as possibilidades de sua leitura constituindo uma leitura da leitura. É justamente este tipo de análise que caracteriza um trabalho de fundamentos históricos da educação, ou seja, o texto revela algo de quem o produziu, de onde foi produzido, do porquê foi produzido e para quem foi produzido. Neste sentido, é possível dizer que um documento colonial sobre os índios, motivo principal de sua produção, pode dizer mais ou menos sobre a vida deste personagem que gerou o texto. Por mais condicionado que seja, o texto ou seu autor, ele sempre intentará informar algo sobre o assunto do qual trata. As fontes escritas sobre a história da educação jesuítica colonial entre os índios do Itatim devem ser relativizadas, ou seja, lidas a partir de outras perguntas que lhes são certamente estranhas, porém não são de modo algum falsas ou ilegítimas num procedimento rigoroso de crítica interna e externa. O que fica claro é que uma história que se pretenda indígena não pode ser colonizada. (MELIÁ, 1991)

A pesquisa bibliográfica conduzida sobre as fontes coloniais trata muito mais do estudo sobre as condições históricas onde foi produzido o discurso evangelizador mediante o qual foi produzida intelectualmente uma outra humanidade indígena do que dos índios tal como eles eram. A revisão bibliográfica tem a finalidade de levantar os modelos produzidos no litoral para entender a construção das missões, dos povoados e dos índios na região chamada de Itatim, durante uma parte do século XVII. Além disso, será preciso entender que esta região era um lugar onde estavam sendo construídas e destruídas duas ou mais fronteiras, ou seja, será preciso analisar o processo de construção da colonização espanhola no rio da Prata a partir de Assunção porque o Itatim não era nem espanhol, nem português e muito menos Guarani no período estudado.

À pesquisa bibliográfica é preciso associar a pesquisa documental para evitar a omissão sobre temas referentes à participação indígena nos empreendimentos nacionais e regionais, tais como as

encomiendas espanholas na região do Itatim, as reduções jesuíticas, os trabalhos nos ervais da Colônia

de Maracaju, entre outros. Pretende-se no, decorrer da pesquisa, dialogar com historiadores, indigenistas, colaboradores indígenas que auxiliarão na tradução de topônimos indígenas e nomes de personagens importantes na resistência indígena ao processo colonial, arqueólogos, cartógrafos (para analisar corretamente e atualizar a cartografia histórica sobre a região) e o levantamento e análise de outras fontes ainda não consultadas.

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Para acessar fontes não consultadas usualmente será necessário, aprofundar a pesquisa nos arquivos de documentação regional, alguns deles localizados fora do país (Biblioteca do Museu Mitre, Argentina, Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires onde se encontra a coleção completa dos manuscritos da Coleção De Angelis, Arquivo Histórico do Paraguai, em Assunção e a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro). Cabe destacar, também, que no Paraguai e Argentina localizam-se arquivos de pesquisadores e indigenistas internacionalmente conhecidos, tais como Leon Cadogan e Pedro de Angelis. O material documental levantado será disponibilizado em CD-ROM, além da própria tese.

VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALDUS, H. Bibliografia Crítica da Etnologia Brasileira. São Paulo: São Nicolau, 1954.

BOROA, D. La Provincia del Itatín. In: Cartas Anuas de la Provincia del Paraguay, Chile y Tucumán de la Compañia de Jesús (1615-1637). Buenos Aires: Casa Jacobo Peuser Ltda, 1929. p. 529-546. CORRÊA FILHO, V. C. História de Mato Grosso. Rio de Janeiro: MEC , 1969.

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CUNHA, M. C. (Org.) História dos Índios no Brasil. São Paulo: FAPESP/Companhia das Letras/SMC, 1992.

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FERREIRA JÚNIOR, Amarilio. BITTAR, Marisa. Pluralidade lingüística, escola de Bê-a-bá e teatro

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1-296 jan./abr. 2004.

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GADELHA, R. M. A. F. As Missões Jesuíticas do Itatim: um modelo das estruturas sócio-econômicas coloniais do Paraguai (séculos XVI e XVII). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

GANDIA, E. Las Misiones Jesuiticas y los Bandeirantes Paulistas. Buenos Aires: Editorial "La Facultad", 1936.

GUZMÁN, R. D. Anales del Descubrimiento, Población y Conquista del Rio de la Plata. Asunción: Comuneros, 1980.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa: Livraria Portugália, 1945.

MONTOYA, A. R. Conquista Espiritual feita pelos Religiosos da Companhia de Jesus nas

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TAUNAY, A. E. História Geral das Bandeiras Paulistas. São Paulo: Typ. Ideal, 1925.

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