GRANDE DO SUL
GUSTAVO VIEIRA BREMM
O RACISMO NO BRASIL: UM PASSADO QUE NÃO PASSA
Santa Rosa (RS) 2018
GUSTAVO VIEIRA BREMM
O RACISMO NO BRASIL: UM PASSADO QUE NÃO PASSA
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso - TCC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS- Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: Dr. Doglas Cesar Lucas
Santa Rosa (RS) 2018
Dedico este trabalho a todos aqueles que estiveram ao meu lado durante a caminhada acadêmica.
AGRADECIMENTOS
Aos meus familiares e amigos, que sempre estiveram presentes, me incentivando em todas as decisões, sendo o meu alicerce.
Ao meu orientador Dr. Doglas Cesar Lucas, por não medir esforços e estar sempre pronto a me auxiliar.
Aos demais professores do curso de Direito do campus Santa Rosa, por todo conhecimento transmitido nestes anos de graduação.
“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor da sua pele.” Martin Luther King
O presente trabalho de conclusão de curso busca fazer uma análise sobre o racismo no Brasil desde o período da escravidão até os dias atuais. Para tanto, em seu primeiro capítulo, demonstra com a chegada dos primeiros negros ao Brasil, a forma pela qual eram tratados visto que o que reinava era a escravidão. O segundo capítulo aborda o racismo no Brasil contemporâneo, como o mesmo ocorre e também suas enormes consequências. Por fim, o terceiro capítulo tem como objetivo as ações afirmativas e leis que visam combater ao preconceito e a discriminação.
ABSTRACT
The present work of conclusion of course seeks to make an analysis on racism in Brazil from the period of slavery to the present day. To do so, in its first chapter, it demonstrates with the arrival of the first blacks to Brazil, the way in which they were treated since what reigned was the slavery. The second chapter addresses racism in contemporary Brazil, as does the same, and also its enormous consequences. Finally, the third chapter aims at affirmative actions and laws that aim to combat prejudice and discrimination.
INTRODUÇÃO ... 8
1. O RACISMO NA HISTÓRIA DO BRASIL ... 10
1.1 A vinda do negro para o Brasil e o projeto da escravidão ... 11
1.2 O racismo científico e suas repercussões ... 16
1.3 A democracia racial e suas críticas ... 21
2. UM CENÁRIO RACISTA PERSISTE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO ... 26
2.1 Pobreza e cárcere tem cor ... 26
2.1.1 Pobreza ... 27 2.1.2 Desemprego ... 28 2.1.3 Educação ... 29 2.1.4 Gênero ... 31 2.1.5 Cárcere ... 32 2.1.6 Homicídio ... 34
2.1.7 O preconceito do negro rico ... 34
2.2 A Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989 e a Constituição Federal de 1988... 35
2.2.1 A Lei 7.716 de 5 de janeiro de 1989 ... 36
2.2.2 A Constituição Federal de 1988 ... 39
2.2.3 Pacto de San José da Costa Rica ... 41
3. AÇÕES AFIRMATIVAS VOLTADAS PARA A SUPERAÇÃO DA SEGREGAÇÃO RACIAL ... 43
3.1 O que são ações afirmativas? ... 43
3.2 As cotas raciais fortalecem a democracia? ... 47
3.3 O Brasil precisa enfrentar sua história e seu passado ... 51
CONCLUSÃO ... 54
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um estudo sobre o racismo em nosso país, com a finalidade de entender, primeiramente, como ele surgiu, para depois buscar alternativas à sua superação. É necessário conhecer suas raízes e como o racismo mudou e se desenvolveu através dos anos, para tomar medidas eficazes na luta contra o mesmo. É de extrema importância, no cenário em que o país se encontra atualmente, se buscar, cada vez mais, soluções práticas para a solução de conflitos raciais.
Na confecção deste trabalho, foram efetuadas pesquisas bibliográficas, em artigos científicos, notícias da mídia e ainda na legislação atual, bem como a leitura e fichamento do material à disposição, possibilitando uma reflexão crítica sobre o material selecionado, visando atingir os melhores resultados.
No primeiro capítulo, a abordagem girou em torno da chegada dos primeiros negros ao Brasil vindos da África, com a finalidade de serem escravos. Além disso, foram tratadas de forma clara e objetiva as várias teorias surgidas naquela época, como por exemplo, a do racismo científico e a do branqueamento.
O segundo capítulo trata sobre o racismo no Brasil contemporâneo bem como todas as suas consequências e formas de manifestação. A análise é feita através de vários itens, como a pobreza, o desemprego, a educação, gênero, homicídios e o cárcere. Além disso, demonstra os dispositivos legais a disposição na luta contra o racismo, como a Lei 7.716 de 5 de janeiro de 1989, a Constituição Federal de 1988 e ainda o Pacto de San José da Costa Rica.
O terceiro capítulo busca trazer formas pelas quais é possível superar o preconceito racial. O principal foco são as ações afirmativas, que podem ser de inciativa pública ou privada, e se constituem em programas que visem a combater as desigualdades. Por fim, é feita uma breve análise sobre a necessidade do Brasil de superar a sua história e passar a reescrevê-la de forma a tornar a vida e as oportunidades iguais para todos.
Enfim, pode-se dizer que o racismo é ainda uma das características da sociedade brasileira e que a formatação de políticas públicas afirmativas é fundamental para o seu enfrentamento. Nesse sentido, vale ressaltar, que não deve o cidadão brasileiro esperar sempre pela iniciativa pública, mas sim, todo e qualquer interessado na busca pelo fim do preconceito, empregar os meios disponíveis para pôr fim às discriminações.
1. O RACISMO NA HISTÓRIA DO BRASIL
Em pleno século XXI, em um mundo extremamente desenvolvido, ainda se convive, infelizmente, com algumas lacunas no que se diz respeito ao lado humano e social. Uma sociedade é formada por uma união de raças, cores e credos. E se tratando de Brasil, isso fica ainda mais acentuado, por ser um país que tem como traço marcante a miscigenação de raças. Justamente pelo fraco desenvolvimento do ser humano na questão social, acabaram por se desenvolver uma série de preconceitos devido às diferenças peculiares de cada ser.
O racismo pode ser definido como uma discriminação social baseada na ideia de que existem diferentes raças e levando-se em conta que uma é superior à outra. Não é exagero afirmar que esta prática está enraizada em todas as sociedades. Nesse primeiro momento, o objetivo é entender e esmiuçar a formação de uma ideologia racista em nosso país, pois, com certeza, tal maneira de pensar não surgiu do repentinamente, mas sim, tendo seu conceito sido moldado aos poucos com o passar dos anos. Nesse sentido, para Risério (2012, p. 17):
É claro que existe racismo nos EUA. É claro que existe racismo no Brasil. Mas são espécies distintas de racismo, em decorrência da contextura histórica de cada projeto colonizador, da formação cultural diversa dos colonizadores de cada um desses países e do modo como se desenhou a trajetória social dos povos brasileiro e norte-americano.
A construção de um pensamento racista decorre de vários fatores. O tipo de colonização, a cultura e o modo de pensar do colonizador, dentre outros, são pontos históricos fundamentais para se entender como se forma a discriminação racial em cada ser humano. O racismo não nasce conosco. É algo que se forma dentro de cada ser em decorrência das experiências vividas, do meio social em que vive e foi criado, e também pelas influências sofridas, que deixaram esta marca negativa em nossa formação como sociedade.
Para ser possível entender como se formou esta modalidade de discriminação, é preciso destrinchar como tudo começou. Antes mesmo de imaginarmos que este grande pedaço de terra se tornaria o que é hoje. É de suma importância retroagir alguns séculos para ter noção do quanto o racismo é um problema histórico, que veio se formando e evoluindo juntamente com o nosso país.
1.1 A vinda do negro para o Brasil e o projeto da escravidão
Com a chegada dos portugueses ao território brasileiro, tornou-se necessária mão-de-obra para o trabalho bruto e pesado, e a solução foram os negros. Foi nesse momento que os primeiros negros vieram a pisar em nosso país, pois somente eles poderiam oferecer a combinação de porte físico e energia suficientes para o trabalho a ser realizado. Começava aí a história do negro no Brasil, que não tinha muito para oferecer além do trabalho braçal e que passaria a ser muito importante na formação social e cultural brasileira.
De fato, entre 1560 e 1850, o governo colonial brasileiro importou entre quatro milhões e meio e seis milhões de africanos para trabalhar como escravos nas plantações de cana, café, algodão, tabaco, nas minas de ouro e diamante, nas fazendas de gado e no trabalho doméstico e artesão (GUIMARÃES, 2012, p. 118).
Em menos de trezentos anos esse foi o número de negros trazidos ao nosso país para trabalhar como escravos. Suas funções variavam dentre plantações, minas, fazendas e até mesmo no trabalho doméstico. Percebe-se que não se limitavam ao trabalho braçal e pesado, mas também eram utilizados nas mais variadas tarefas levando-se em consideração suas habilidades e características físicas. Nesse sentido
Os escravos trabalhavam na agricultura, nos ofícios e nos serviços domésticos e urbanos. Os negros do campo cultivavam para a exportação – atividade que dava sentido à colonização – a cana-de-açúcar, o algodão, o fumo, o café, além de se encarregarem da extração dos metais preciosos. Os negros de ofício especializaram-se na moagem da cana e no preparo do açúcar, em trabalhos de construção, carpintaria, olaria, sapataria, ferraria, etc. No século XIX, não foram poucos os escravos que trabalharam como operários em nossas primeiras fábricas. Quanto aos negros domésticos, escolhidos em geral entre os mais “sociáveis”, cuidavam de praticamente todo o serviço das casas-grandes e habitações urbanas: carregar água, retirar o lixo, além de transportar fardos e os seus senhores em redes, cadeiras e palanquins (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 09).
Nota-se uma grande variedade de atividades distribuídas dentre os escravos, os quais faziam desde o serviço bruto até o serviço caseiro. Porém, além de oferecer ao seu senhor os seus serviços, o escravo representava também a riqueza. Tratava-se de uma mercadoria, que poderia ser vendida, trocada e até mesmo alugada.
No século XIX generalizou-se ainda a atividade dos negros de ganho e dos negros de aluguel. Os primeiros buscavam serviços na rua, trabalhando como ambulantes, por exemplo, com a condição de dividir com os seus senhores a renda obtida. Os segundos eram alugados a terceiros também para variados serviços. Era comum vê-los nas ruas falando alto, oferecendo-se para trabalhos, chamando a atenção dos
pedestres ao se aproximarem com fardos pesados, entoando cantos de trabalho (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 10).
Por vezes o escravo era destinado a este tipo de serviço, sem esquecer, é claro, que sempre grande parte do ganho ia para o seu senhor. Embora trabalhassem para terceiros, nunca deixavam de obedecer às ordens do senhor. Como forma de oferecer o seu escravo, seja para aluguel ou seja para venda, os senhores costumavam usar os jornais da época como meio de divulgação e propaganda do seu negro. Como dito anteriormente, o mesmo era tratado como uma mercadoria.
Nesse sentido, Gilberto Freyre (2010, p. 85) trouxe, em uma de suas mais aclamadas obras, “O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX”, os mais variados exemplos de modelos de anúncios e propagandas oferecendo negros como mercadoria, conforme o exemplo a seguir transcrito:
- Vende-se um mulato de 22 annos de idade, bom alfaiate, e bom boleeiro, e um negro também do mesma idade, e um negra de meia idade, que cozinha muito bem, e coze, de muito boa conducta, e outra negra de 22 annos, que cozinha muito bem: na rua Livramento n.4.
Além dos anúncios oferecendo escravos, encontravam-se também os anúncios de fuga dos mesmos. Como forma de encontrar seu fugitivo, os senhores acabavam por utilizar o mesmo meio. Nada obstante, os senhores ofereciam gratificações com o escopo de auxiliar nas buscas.
50$000 DE GRATIFICAÇÃO
FUGIO de Francisco Antonio Ribeiro, de sua chácara do rio Cumprido na villa de Serra huma sua escrava de nome Benedita altura baixa, cor de formiga com dois dentes tirados na frente, com nica cicatriz debaixo do queixo, muito civilisada, e com um dedo da mão direita aleijado por ter sofrido de um panarisço, desconfia-se andar pelos certões da mesma villa ou por esta cidade procurando essas pessoas que costumão dar asilo a escravos fogidos para os comprar por força e a troca do barato: quem dela der noticia pegalla, metella na cadeia, ou entregala nesta cidade ao Sr. Antonio Francisco Ribeiro, ou na villa da Serra a seu Sr. sera gratificado com a quantia acima, e protesta-se com todo rigor das leis contra a quem tiver acoitado (FREYRE, 2010, p. 85).
Apesar do destaque dado a estes dois anúncios, a lista não se limita a tais situações. Além de vendas e fugas, encontravam-se anúncios alertando sobre o perigo de dar asilo a um escravo, anúncios de leilões, desparecimentos, procura por algum tipo de escravo para um
trabalho em específico, dentre outros. Os moldes do anúncio variavam, mas nunca se alterava a mercadoria principal, que era o escravo.
A vida sofrida que levavam os escravos ia muito além de serem tratados como mercadoria. Em sua maioria, eram submetidos a condições cruéis de trabalho, de exploração e de violência. Vejamos:
Nas minas e lavouras de exportação, nestas últimas na época de safra, era comum o escravo trabalhar até 14 ou 16 horas, alimentando-se e vestindo-se mal e se expondo ao clima. Em geral amontoavam-se em senzalas impróprias para a habitação e careciam de cuidados médicos, sendo frequentemente vítimas de doenças que se tornavam endêmicas, como a tuberculose, disenteria, tifo, sífilis, verminose, malária. A média de vida útil, por isso, variava de sete a dez anos (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 10).
Como se não bastasse a exploração sofrida no trabalho e a brutalidade das condições gerais de vida, existiam ainda os castigos, utilizados como forma de sanção no caso de descumprimento de alguma norma imposta pelo senhor.
No entanto, não se constituíam os castigos como uma prática diária, e nem tinham a mesma intensidade. Os castigos mais conhecidos, como por exemplo, a imobilização no tronco, açoites, marcas a ferro quente, esmagamento de dedos e corte de orelhas, aconteciam com mais frequência e violência nas lavouras, principalmente nos períodos em que eram indispensáveis os trabalhos contínuos e também diante de faltas graves (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988).
O escravo devia obediência e respeito às leis e aos dispositivos disciplinares, além de serem fiéis e humildes, tinham que aceitar os valores impostos pelos brancos. Eram obrigados a aprenderem a língua portuguesa e a religião católica, sendo um dos poucos bens morais dados pelos brancos. Quando chegavam ao Brasil, eram batizados e recebiam nomes cristãos, não podendo praticar qualquer espécie de culto africano (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988).
Mesmo após serem submetidos a tantas objeções, os escravos ainda deviam tratar seus senhores com respeito e obediência, sendo fiéis aos mesmos e aceitando e concordando com a maneira de pensar e agir dos brancos.
Mas engana-se quem pensa que o papel do negro naquela época se limitou à exploração, subordinação e força de trabalho. Se eram submetidos a condições impostas por uma sociedade dominante e violenta, coube a eles também, lutar por algo melhor, criando estratégias de sobrevivência para, aos poucos, tentar mudar a situação que já era caótica.
Restava a eles, a resistência contínua à violência que sofriam ou a adaptação às regras do jogo. Tal resistência acontecia das mais variadas formas, como por exemplo, a sabotagem do trabalho, provocação de abortos, assassinato de senhores e feitoras, fugas, feitiçarias, suicídios, organizações de quilombos, dentre outros. Mostrava-se assim a contradição e a insatisfação ao regime de vida a que eram submetidos (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988).
O fato de estarem expostos às piores situações possíveis de violência e exploração, fez com que os escravos criassem a coragem para rebelar-se. Várias foram as formas utilizadas por eles como sabotagem aos seus senhores. Dentre as acima citadas, a mais conhecida por todos foram as organizações de quilombos, onde o destaque vai para o quilombo dos Palmares.
Os quilombos, por exemplo, formaram-se em praticamente todas as regiões do Brasil. O quilombo dos Palmares, organizado na serra da Barriga, Alagoas, em 1630, foi o mais importante de todos. Seus milhares de habitantes, os quilombolas, sustentaram a liberdade até 20 de novembro de 1695, quando as forças chefiadas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho mataram Zumbi, o último grande líder de Palmares (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 11).
Os quilombos foram de suma importância nessa luta contra a escravidão, sendo uma das maneiras capaz de reunir e fortificar os laços dos negros em nosso país. Existiram em todo território nacional e abrigaram milhares de pessoas, consistindo em uma das únicas formas de aproximar os negros de seus semelhantes e dar a eles a sensação de estar em casa.
A pressão para acabar com o tráfico negreiro no Brasil era enorme, vindo principalmente da Inglaterra, justamente uma das nações que mais atuou neste tipo de comércio. O motivo para uma mudança tão drástica foi a revolução industrial, que causou grande impacto no cenário escravagista inglês.
A partir de 1822, a Inglaterra passou a pressionar diretamente o Brasil. Aproveitando-se da necessidade do governo brasileiro de reconhecimento da
independência, a habilidosa diplomacia inglesa patrocinou a assinatura, em 1825, do Tratado de Paz e Amizade, entre os reinos de Portugal e do Brasil. No ano seguinte, a Inglaterra firmaria, com o Brasil uma Convenção reconhecendo a independência, mas estipulando o prazo de três anos após a sua ratificação (que ocorreu em 1827), para o encerramento do tráfico. Um artigo adicional à Convenção ampliava por quinze anos, a começar de 1830, o direito de visita aos navios brasileiros. Estes podiam ser apreendidos, caso tivessem equipamentos ou quaisquer vestígios de tráfico de escravos (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 30).
Porém, apesar da grande pressão e insistência dos ingleses, foi apenas em 1850 que teve fim o tráfico de negros para o Brasil. A necessidade do governo brasileiro de ver reconhecida a independência do país, somados com outros fatores importantes, fez com que tal decisão fosse tomada.
O governo brasileiro não tinha mais como adiar uma decisão efetiva sobre o problema. No dia 4 de setembro de 1850 transformava-se em lei o projeto do Ministro da Justiça, Eusébio de Queirós, extinguindo o tráfico de escravos para o Brasil. Nada, porém, era mencionado em relação à escravidão (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 32).
O tráfico negreiro foi extinto, mas estava longe de ser um processo rápido. Foram necessários vários anos e acordos para que seu término se verificasse. Porém, apesar desta enorme evolução, nada se falava neste momento, em relação à escravidão.
Com o fim do tráfico, a luta pelo fim da escravidão passou a ser o próximo passo, o que gerava divergências entre as diversas camadas sociais, como por exemplo, a elite dominante, que abominava tais pensamentos, tratando a abolição como uma exceção. O primeiro progresso atingido nessa luta foi a Lei do Ventre Livre.
No dia 28 de setembro de 1871, depois de intensa campanha junto à opinião pública, era aprovada, durante o gabinete presidido pelo conservador José Maria da Silva Paranhos, a Lei Rio Branco. Conhecida como Lei do Ventre Livre, ela libertava as crianças nascidas de mulher escrava a partir daquela data, obrigando os seus senhores a cuidar dos ingênuos – os filhos de mulher escrava – até os oito anos de idade. Após esse tempo, os senhores poderiam libertá-las, recebendo uma indenização de 600 mil-réis, ou utilizar os seus serviços até que completassem 21 anos de idade. A lei criava um fundo de emancipação para ser usado na manumissão dos escravos, e permitia também a estes últimos formar um pecúlio para a compra da alforria (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 36).
Como já era esperado, a criação de referida lei causou um descontentamento entre os grandes proprietários, que acreditavam que a lei estivesse violando os direitos de propriedade. Os resultados da lei não saíram como o esperado, levando anos para que realmente
começassem a surtir os primeiros efeitos. Contudo, a lei acabou por exaltar os ânimos e estimular o debate abolicionista, fazendo com que surgissem as primeiras associações que lutariam por este objetivo.
Em março de 1888, a Princesa Isabel substituiu o gabinete presidido por Cotegipe, que ainda defendia a escravidão, por outro, a ser organizado pelo também conservador João Alfredo Correia de Oliveira. O novo ministro tinha a incumbência de providenciar uma lei que extinguisse a escravidão (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 40).
Foi somente em 1888, com a substituição de gabinete que o processo rumou para o seu final. João Alfredo Correia de Oliveira era o responsável por redigir uma lei que fosse abolir a escravidão em sua totalidade.
João Alfredo optou pela abolição incondicional, de acordo com o desejo da princesa. O projeto foi aprovado, com votos contrários apenas na Câmara dos Deputados. No dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel sancionava a Lei Áurea, que em dois artigos dizia: “É declarada extinta a escravidão no Brasil” e “Revogam-se as disposições em contrário”. (BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 1988, p. 40).
O fato de ser abolida a escravidão incomodou vários proprietários de terra que ainda dependiam do trabalho escravo para produzirem em suas propriedades. A abolição foi resultado de uma luta incessante, onde uma minoria trabalhadora lutava por direitos que não tinham em decorrência da cor da pele.
Porém, engana-se quem acredita que com o fim da escravidão acabou também a exploração. Não existia nenhum projeto com a finalidade de inserir o negro na sociedade brasileira. O que acabou por manter uma certa hierarquia entre negros e brancos, bem como a exploração da mão-de-obra por parte dos senhores. O negro havia conquistado a liberdade, mas não havia conquistado a cidadania.
1.2 O racismo científico e suas repercussões
Abolida a escravidão, mas não a exploração, começaram a surgir várias teorias por meio de diversos pensadores e escritores. A maioria deles defendia a superioridade dos brancos em relação aos negros.
As teorias raciais só chegaram aqui a partir de meados do século XIX, no momento em que a abolição da escravidão tornava-se irreversível. Neste país de larga convivência com a escravidão, onde o cativeiro vigorou durante mais de três séculos, estima-se, apesar dos dados imprecisos, a entrada de um total de 3,6 milhões de africanos trazidos compulsoriamente: um terço da população africana que deixou seu continente de origem rumo às Américas (SCHWARCZ, 2017, p. 37).
O negro ainda se encontrava em desamparo total, pois apesar de abolida a escravidão, não foi conferido a ele nenhum direito. A superioridade dos brancos parecia ser algo natural. A inserção do negro, antes escravo, na sociedade, estava longe de acontecer.
A escravidão teve como uma de suas consequências, legitimar a inferioridade do negro, que de fator social passava a ser algo natural, inibindo qualquer espécie de discussão relacionada a cidadania. Como se não bastasse, o trabalho limitou-se exclusivamente aos escravos e a violência se expandiu por uma sociedade marcada por desigualdades e posses de um homem por outro (SCHWARCZ, 2017).
Talvez não como uma teoria, mas sim como uma espécie de pensamento, surgiu o racismo científico. Defendido pela maioria maçante da população branca, sem contar os grandes pensadores e cientistas, que a partir deste pensamento, criavam teorias cada vez mais mirabolantes sobre como separar negros e brancos.
É possível resumir o “racismo científico” em poucas palavras. Trata-se de um pensamento que entrou em campo afirmando a desigualdade essencial entre as raças. Uma desigualdade que não é simples diferença. O “racismo científico” brotava de uma leitura evolucionista da espécie humana. Sustentava a existência de uma hierarquia racial, onde o branco europeu estava no cimo e os extraeuropeus na base, sendo, por isso mesmo, incapazes de alcançar sozinhos os estágios civilizatórios mais elevados. Ainda de acordo com essa cartilha, a miscigenação deveria ser vista em termos negativos, já que misturas raciais produziam híbridos degenerados (RISÉRIO, 2012, p. 44).
Ao ser defendido por grandes pensadores, adquiria cada vez mais seguidores. O racismo científico defendia a separação do negro e do branco, ou até mesmo a extinção do negro, como sendo a maneira mais eficaz de fazer a sociedade e a população evoluírem. Segundo essa maneira de pensar, a mistura de raças era vista como algo negativo, que não traria resultados satisfatórios.
Além do racismo científico, surgiram várias teorias de branqueamento, que buscavam tornar a população, como o próprio nome já diz, totalmente branca. Segundo os defensores desta teoria, somente com ela seria possível construir um futuro próspero.
Pragmaticamente, Romero achava que, em nossas mesclas raciais, o branco predominaria, graças à sua superioridade física e mental. Logo, o povo brasileiro estava no caminho do clareamento. Recuperava-se, por essa via, a esperança em um futuro nacional. A ciência apontava para a presença de raças inferiores na formação de nosso povo e ensinava que a mestiçagem era responsável pela geração de seres degenerados? Tudo bem, a sociedade brasileira estava em processo de branqueamento (RISÉRIO, 2012, p. 48).
Essa era a ideologia defendida pela elite brasileira. Não restavam dúvidas a eles de que esse seria o caminho. Exterminar o negro, a raça fraca, inferior, infértil e ainda de pouca ou nenhuma inteligência. A mestiçagem era algo ruim que se converteria em algo bom, quando toda população fosse branca.
Enfim, a elite brasileira não tinha dúvida de que estava alvejando nosso povo. Tudo era uma questão de tempo. Baptista Lacerda, inclusive, fazia as contas. Segundo os seus cálculos, o branqueamento da população brasileira estaria concluído já na segunda década do século XXI (RISÉRIO, 2012, p. 49).
Um dos mais fortes argumentos em que se assentavam tais teorias, defendia que, por ser muito inferior ao branco, um dos problemas do negro, seria também a baixa fertilidade. Não sendo capazes de reproduzir em grande escala e quando reproduziam o fariam em “qualidade” inferior aos filhos dos brancos. Residia aí um dos motivos pelos quais as teorias foram aos poucos extinguindo-se. Segundo Risério (2012, p. 49), “é óbvio que nenhum racialista cai nessa conversa fiada de “baixa fertilidade” do negro – os pretos brasileiros fazem filhos à vontade (e esta foi uma das razões do fracasso da ilusão branqueadora)”.
A tese do branqueamento falhou, assim como as outras teorias que na maioria das vezes não faziam sentido algum. O objetivo delas era acabar com as diferenças raciais, tornando toda população branca, tendo seu fracasso estampado num país que hoje é multicolorido. A miscigenação de raças tomou conta do Brasil, que fez da mestiçagem seu principal traço característico.
O maior defensor da teoria da mestiçagem foi Gilberto Freyre (2001), que, além de defender tal tese, fez desencadear uma série de questionamentos e discussões em relação ao tema da democracia racial, principalmente após a publicação de suas obras, a mais famosa
delas é denominada “Casa Grande & Senzala” (1933). Antes disso, predominavam as teorias de que o atraso brasileiro derivava justamente da mistura de raças.
Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. [...] Na ternura, na mímica expressiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar do menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negar (FREYRE, 2001, p. 343).
Segundo o que era defendido por Gilberto Freyre (2001), todos trazem consigo as influências negras ou indígenas. Seja na pele, no cabelo ou até mesmo na alma. Em nosso jeito de andar, de falar, de cantar, de se relacionar, ou seja, em todas as formas de expressão existe, mesmo que mínima, a influência do negro.
Em decorrência desta linha de pensamento defendida por Freyre (2001), não é surpresa o fato de ele defender que a escravidão possa ter sido algo supostamente positivo. A maneira de negros e brancos se relacionarem naquele período, criou uma nova forma de socialização no Brasil. Seu conceito de democracia racial, colocava a escravidão para fora da simples visão de dominação. Freyre trouxe em sua obra, relatos e dados das mais variadas formas de trabalho vividas pelos escravos. De fato, muitos escravos acabaram por ter alguns poucos benefícios em seus trabalhos, tendo um certo conforto material ou até mesmo ocupando determinada posição de confiança.
Inevitavelmente a junção de raças passou a moldar o país, tornando o Brasil um país mestiço. O que também acabou por gerar questionamentos. O que foi amplamente defendido por Freyre, deixou lacunas e gerou controvérsias. Nesse sentido:
Por outro lado, o fato de a mestiçagem ser socialmente reconhecida, no Brasil, acaba gerando um complemento racialista, que é, no mínimo, estranho. O Movimento Negro insiste sempre nesse ponto: o mestiço, ao se ver e se expor e ser aceito como mestiço, em nada ajuda no sentido da construção de uma identidade negra no país. Pelo contrário, concorre para afrouxar os laços de solidariedade que suspostamente deveriam existir entre eles e os “negros indisfarçáveis” (RISÉRIO, 2012, p. 55).
As teorias de branqueamento atacaram por muito tempo a união de raças entre negros e brancos, defendendo que a mestiçagem traria um retrocesso ao país. E por mais incrível que pareça, a mestiçagem foi também questionada pelo Movimento Negro, pois segundo eles, o mestiço, ao se ver e se expor, sendo aceito na sociedade do modo que ele era, em nada
contribuiria para a construção de uma identidade negra. Ou seja, não estariam ao lado do negro, mas sim formando uma nova “raça”. Nesse sentido, tem-se também que:
Uma outra consequência, nada irrelevante – a aceitação do mestiço faz com que os casamentos inter-raciais, no Brasil, reduzam o contingente populacional negro; nos EUA, ao contrário, aumentam, já que lá todo filho de preto, pretinho é. Ou seja: a
onedroprulee a segregação estão no alicerce e na argamassa da identidade negra
norte-americana. Como não temos isto no Brasil, os “negros” aqui não se unem – argumentam os racialistas (RISÉRIO, 2012, p. 55).
Outro ponto a ser questionado no que diz respeito ao lado negativo da mestiçagem é em relação aos casamentos inter-raciais em nosso país que, indiretamente, acabam por contribuir, também, para o enfraquecimento da população negra, fazendo com que os mesmos sejam cada vez menos unidos em busca da causa maior.
Independentemente dos benefícios ou malefícios da mestiçagem, foi o que predominou. A mistura de raças aconteceu inevitavelmente, devido à grande diversidade de povos que adentraram em nosso país. Sejam os negros à trabalho, ou melhor, destinados à escravidão. Ou sejam os brancos europeus, que mais tarde migraram em busca de novos horizontes e a promessa de um futuro próspero.
Não há como mudar o passado ou a história. O Brasil atingiu tal patamar sendo bombardeado por várias cores vindas de todas as partes do mundo. A mestiçagem virou a cor do povo brasileiro. Nesse sentido:
Quando completou quinhentos anos de existência histórica, o Brasil completou meio milênio de misturas genéticas. Cinco séculos de mestiçagem. E esta é uma péssima notícia para os ideólogos do racialismo: salvo raríssimas exceções, nossos negros são todos mestiços. Fenotipicamente negros, mas genotipicamente mestiços. Além de afro, eurodescendentes. De modo que, mesmo que estancassem hoje, em todo território nacional, os cruzamentos de brancos e pretos, não haveria como rebobinar o filme (RISÉRIO, 2012, p. 66).
Levaram anos e diversas influências para chegar onde chegou-se, a população brasileira se formou desse jeito e hoje é um fator irreversível. O Brasil é um país mestiço e multicolorido, de brancos, negros, pardos, mestiços. Todas teorias possíveis de branqueamento, de formação de uma sociedade de uma cor só, branca, que seria superior, evoluída, mais inteligente e perfeita, sucumbiram. A mistura de raças nos levou até onde estamos hoje, um país colorido.
1.3 A democracia racial e suas críticas
O termo democracia racial gerou e ainda gera algumas controvérsias no que diz respeito a sua origem e disseminação, principalmente entre os estudiosos das relações raciais no Brasil. O fato desta expressão ter sua autoria atribuída à Gilberto Freyre e não ser encontrada nas suas mais importantes obras, é um dos pilares para este desconforto. Inicialmente, não se encontrava também qualquer menção do tema nos livros de literatura das ciências sociais, o que veio a acontecer apenas nos anos 1950 (GUIMARÃES, 2012).
A utilização da expressão a ser tratada neste tópico começou alguns anos antes à Segunda Guerra Mundial. Período em que a democracia liberal era alvo de várias críticas vinda de diversos grupos, como os fascistas, socialistas e comunistas, alegando que o termo e o seu significado eram um fracasso (GUIMARÃES, 2012).
Para o correto desenvolvimento do tema, é necessário que se aborde a real diferença entre o termo e o seu significado. Conforme Guimarães (2012, p. 141)
Tal como foi primeiro usado, “democracia racial” em Cassiano Ricardo e nos paulistas, carregava, bem como anota Campos (2005-06), ainda uma concepção muito precisa e explícita de hierarquia racial. A via brasileira para a democracia seria trilhada sobre a liderança dos povos e das culturas europeias e do seu sentimento de liberdade individual, tal como a nação fora forjada por seus bandeirantes.
Nesse mesmo contexto, Guimarães (2012, p. 141) procurou abordar outra visão do tema, dessa vez defendida por Gilberto Freyre.
Na narrativa de Gilberto Freyre, ao contrário, desaparece por completo qualquer menção explícita à hierarquias raciais, sendo os africanos postos em nível de igualdade aos portugueses como colonizadores das terras brasileiras, conforme aliás tradição narrativa que remota à Nabuco e aos abolicionistas. Será a miscigenação e à mobilidade social ensejada por ela que constituiria a via brasileira para a democracia.
Freyre procurou abordar o tema de uma maneira diferente, e para tal, colocava o negro africano em tom de igualdade com o colonizador português, pois somente assim poderia ser construído um país mais democrático.
Outra ideia fortemente discutida em nosso país foi a de criar uma espécie de paraíso racial, formando uma sociedade sem “linha de cor”, ou seja, sem existir qualquer barreira impedindo o crescimento social de negros, para que os mesmos pudessem ocupar cargos oficiais ou posições de prestígio. Tal ideia foi fortemente difundida no mundo, principalmente por norte-americanos e europeus (GUIMARÃES, 2012).
O paraíso racial, porém, não passou de uma expressão utópica, sendo chamado mais tarde inclusive de “mito do paraíso racial”, visto a grande dificuldade de ser atingido o objetivo principal, que era diminuir as diferenças raciais em nosso país, bem como garantir acesso aos mais variados cargos e a posições privilegiadas de riqueza pelas pessoas de cor.
Gilberto Freyre, anteriormente citado, ao qual eram atribuídos os créditos pelo termo “democracia racial”, pouco utilizou a expressão. Foi apenas em 1962 que Freyre fez menção ao termo. Usou para defender o colonialismo português na África e também na construção teórica do chamado luso-tropicalismo, pois, julgou conveniente atacar o que era chamado por ele de influência estrangeira sobre os negros brasileiros (GUIMARÃES, 2012).
Para se referir a tal tema, Freyre usava diversas outras nomenclaturas, mas nunca “democracia racial”. Vejamos o que diz Guimarães (2012, p. 161)
Antes disso, nas diversas oportunidades em que tratara, nos anos 1940 e 1950, da presença negra e da democracia brasileira, Freyre adjetivou de diversos modos a democracia, mas nunca como “racial”. Nos textos desses anos, ele fala em democracia política, econômica, sociopsicológica, social e étnica, quer trate de assuntos políticos, quer trate de temas culturais e nacionais.
Mesmo sem ter usado a expressão, sendo por vezes contrário a ela, pois acreditava ser contraditória em alguns casos, Freyre foi o grande responsável pela legitimação da afirmação de que não existiam no Brasil preconceitos ou discriminações raciais. Procurou manter-se longe da discussão do tema “democracia racial” enquanto a mesma permanecia consensual, seja como tendência da sociedade brasileira ou como padrão ideal do relacionamento entre raças no Brasil. Ou seja, durante o tempo em que a luta antifascista e antirracista o aproximou da esquerda, bem como dos políticos e escritores progressistas. Porém, quanto a situação se polarizou na África, com as chamadas guerras de libertação, e também no Brasil, com o avanço da ideologia chamada “negritude” e dos movimentos pelas reformas sociais, Freyre
cedeu e passou a utilizar os termos “democracia racial” ou “étnica”, para provar a excelência da cultura não só luso-brasileira, mas também luso-tropical (GUIMARÃES, 2012).
Segundo Guimarães (2012, p. 162), vários acontecimentos da época colaboraram para que Freyre chegasse a conclusões como esta a seguir.
Os acontecimentos políticos posteriores, principalmente a vitória das forças conservadoras em 1964, farão prevalecer a ideia de Freyre de que a “democracia racial” já estava plenamente realizada no plano da cultura e da mestiçagem, enfim, da formação nacional.
Com o termo democracia vivendo seu auge e existindo diversos tipos de democracia, seja política, econômica, social, racial e étnica, tornou-se necessário filtrar estes conceitos, considerando-os falsos ou verdadeiros. Em 1964, no conjunto de ideias que rompiam a democracia brasileira em nome da preservação de valores e ideais democráticos, estava madura a ideia de que a democracia racial deixava de ser um ideal para ser um mito, ou um mito racial, como nomeava Freyre (GUIMARÃES, 2012).
Estando rompido o pacto democrático vigente entre os anos de 1945 e 1964, incluindo os negros, tanto como movimento organizado quanto como elemento fundador da nação, parecia ter decretado também o fim da chamada “democracia racial” naqueles anos (GUIMARÃES, 2012).
Eis que no ano de 1978, um novo movimento social surge no cenário político brasileiro, chamado de Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, trouxe inovações no que diz respeito ao sistema político brasileiro da época (GUIMARÃES, 2012).
O objetivo principal desse movimento era derrubar barreiras e desmascarar inverdades, que impediam a evolução da luta do negro em nosso país. Conforme Guimarães (2012, p. 166)
No Brasil, desmascarar a “democracia racial”, em sua versão conservadora, de discurso estatal que impedia a organização das lutas antirracistas, passou a ser o principal alvo da democracia negra. No entanto, tal resistência vai se dar primeiro e mais desimpedidamente no terreno cultural que no campo mais propriamente político.
Antes mesmo de ser completada a redemocratização do país, por volta do ano de 1982, durante as eleições estaduais, os militantes negros tiveram oportunidade de, em alguns estados, partilharem o poder, como por exemplo em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo incorporados aos órgãos governamentais. A partir daí que começaram a se formar os primeiros núcleos negros nos principais partidos políticos existentes na época, bem como passaram a ser criados organismos estatais que tinham como objetivo ouvir as ideias da militância nas áreas da cultura, da legislação e da ação executiva (GUIMARÃES, 2012).
Neste período surgiram várias palavras de ordem como “por uma autêntica democracia racial”, que foi título de um documento veiculado no III Congresso do MNU, ocorrido em Belo Horizonte nos anos 1982. Porém, apesar disso, toda mobilização negra que ocorreu de 1978 a 1985, teve como uma espécie de pano de fundo, a chamada denúncia do “mito da democracia racial” (GUIMARÃES, 2012).
Conforme Guimarães (2012, p. 169)
Os anos seguintes, que se estendem de 1985 a 1995, foram de construção de uma nova institucionalidade política; de formação da Nova República, como se chamou na época. Os ativistas negros foram chamados a ocupar cargos nos recém-criados Conselhos e Secretarias da Comunidade Negra, no âmbito dos governos estaduais, e na Fundação Palmares, implantada em 1988 no âmbito do Ministério da Cultura. [...] O governo federal começava, assim, ao menos no plano simbólico, a incorporar as demandas do Movimento Negro.
Nota-se, portanto, uma certa evolução do negro no cenário nacional que, aos poucos, passou a ocupar certo cargos e ter uma maior representação política. Um processo lento e com muitas barreiras, tanto que até nos dias atuais notamos pouca participação negra no campo político.
Com as várias mudanças no cenário nacional, diversos conceitos e teorias passaram a ser analisados também sob outro olhar, como por exemplo, na academia brasileira, onde o mito passou a ser pensado como elemento essencial para o entendimento da formação nacional, enquanto as divergências entre práticas do preconceito racial eram analisadas sob a nomenclatura de racismo, ou seja, não se falava mais em democracia para explicar as especificidades brasileiras, mas sim o racismo (GUIMARÃES, 2012).
A democracia racial, antes defendida por muitos como a solução para as desigualdades, foi aos poucos se desmantelando, até chegar à nomenclatura final de mito. Segundo Guimarães (2012, p. 176)
Morta a democracia racial, ela continua viva enquanto mito, seja no sentido de falsa ideologia, seja no sentido de ideal que orienta a ação concreta dos atores sociais, seja como chave interpretativa da cultura. E enquanto mito continuará viva ainda por muito tempo como representação do que, no Brasil, são as relações entre negros e brancos, ou melhor, entre as raças sociais (Wagley, 1952) – as cores – que compõem a nação.
O que antes era chamado de “democracia racial”, hoje deve ser chamado por todos nós apenas de “democracia”, sem esquecer, é claro, da busca incessante por um país mais igual em todos os sentidos, independentemente de raça, cor, religião ou sexualidade. A forma de nomear pode até ser diferente, mas o objetivo final é o mesmo: que todos tenham as mesmas condições na luta por um futuro melhor.
2. UM CENÁRIO RACISTA PERSISTE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Entender e aceitar o próximo como semelhante, apesar das diferenças, parece continuar sendo difícil na cultura brasileira. Com o passar dos anos, o que deveria realmente evoluir, parece estar estagnado no tempo. O Brasil, como exposto no primeiro capítulo, é um país multicor, de várias raças, culturas e credos que, quando não respeitados, resultam em preconceito.
Infelizmente, o mais conhecido e mais presente, ainda, é o racismo. O julgamento do ser humano, levando em conta a cor da sua pele, acontece diariamente em todo o território nacional, pois para o brasileiro a cor do seu semelhante parece ser critério de avaliação, capaz de elevar o padrão de um sobre o outro.
A gravidade do problema é potencializada quando transcende a dimensão do simbólico, da moral, e atinge o outro materializando-se em atos brutais de violência, deixando traumas, lesões e, não raro, levando à verdadeira eliminação do outro por meio de sua morte.
Essas feridas marcam não só a pele da vítima, mas também a alma, que carregará consigo durante toda sua vida, o sofrimento de ter sido vítima do preconceito racial. Enquanto não evoluirmos como sociedade, restará ao negro suportar todo esse peso do preconceito, tendo como alento, não estar sozinho na luta contra esta execração chamada racismo.
Nesse cenário, este capítulo pretende demonstrar a situação atual do racismo no Brasil e as mais variadas formas através das quais ele se manifesta. Além disso, almeja abordar a existência da lei antirracismo, cujo objetivo principal é não deixar margem a qualquer tipo de preconceito.
2.1 Pobreza e cárcere tem cor
As marcas da escravidão são tão fortes na formação da sociedade brasileira, que até hoje existe um abismo entre negros e brancos. A dominação por parte dos negros nas estatísticas negativas é alarmante, seja no desemprego, na baixa renda, na baixa escolaridade, na população carcerária, no acesso aos serviços públicos essenciais, etc. Todos esses dados chamam atenção por serem dominados pela população negra.
Em tese, quando abolida a escravidão, os negros foram considerados livres, porém a abolição não lhes garantiu a cidadania. O acesso a condições básicas como habitação, educação, oportunidades de trabalho e saúde não lhes era facultado. Sobraram a eles as atividades formais e informais de menor expressão e quanto à moradia, em sua maioria, favelas, cortiços e casebres.
2.1.1 Pobreza
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros representam 54% da população, porém, sua participação no grupo dos 10% mais pobres do país é muito maior, chegando a 75%, ou seja, a cada quatro pessoas pobres no Brasil, três são negras (VIEIRA, 2016; CALEIRO, 2016).
Dados como esses evidenciam que a situação de pobreza no Brasil tem cor, mostrando que os negros representam a maior fatia no grupo de hipossuficientes econômicos. Isso não se trata de um problema apenas atual, mas histórico, sendo que uma das explicações mais usadas para a situação socioeconômica do negro está na forma pela qual adentrou em nosso país.
Estatisticamente, está bem estabelecido e demonstrado o fato de que a pobreza atinge mais os negros do que os brancos, no Brasil. Mais que isto: está também demonstrado na literatura sociológica, desde os anos 1950, que, no imaginário, na ideologia e no discurso brasileiros, há uma equivalência entre preto e pobre, por um lado, e branco e rico, por outro (GUIMARÃES, 2012, p. 70).
Seguindo esta mesma linha de pensamento, Guimarães (2012, p.71) adverte que há:
No Brasil, seja na mentalidade popular, seja no pensamento crítico, seja na demografia ou na sociologia, seja na economia ou na antropologia, seja entre governantes e governados, um consenso de que os pobres são pretos e que os ricos são brancos.
Está mais do que provado que a maioria pobre no Brasil é negra, mas qual seria a causa da pobreza negra? Normalmente a explicação aceita pelo povo e seus governantes é a de que a discrepância existente entre brancos e negros se deve ao passado escravista. Sendo, portanto, uma herança do passado que deveria desaparecer com o tempo. Porém, tal explicação, apesar de ser um tanto quanto verdadeira, acaba por mascarar alguns outros problemas graves (GUIMARÃES, 2012).
O primeiro deles é o fato de isentar as atuais gerações de qualquer responsabilidade pela desigualdade atual, o segundo é de que garante uma espécie de desculpa fácil para a permanência da desigualdade e por último, faz parecer que os governos têm buscado formas de corrigir, gradativamente, tais diferenças (GUIMARÃES, 2012).
Em contrapartida a essa explicação conservadora, têm surgido ao longo dos anos lideranças negras que defendem que as causas da pobreza negra têm nascedouro também na falta de oportunidades, no preconceito e na discriminação racial (GUIMARÃES, 2012).
Nota-se, atualmente, uma mudança que, embora seja pequena, é importante, na medida em que tanto o governo quanto a opinião pública reconhecem a discriminação racial. Porém, ainda se considera (ainda que de modo velado) legítima a discriminação de classe, o que, ao fim e ao cabo, significa para população negra continuar na condição de hipossuficiência e subalternidade (GUIMARÃES, 2012).
2.1.2 Desemprego
Toda essa situação de pobreza do negro no Brasil está intimamente ligada à falta de oportunidades no mercado de trabalho. A dificuldade de inserção do negro neste meio, reflete em seu nível de vida. Vejamos o que diz Guimarães (2012, p. 73):
De fato, o que torna legítimo o reconhecimento da falta de oportunidades dos pobres e o preconceito e discriminação de que são vítimas? Em grande parte, dizem os militantes negros, tal legitimidade decorre justamente do fato de que os pobres são negros.
Há ainda, outra abordagem feita por Guimarães (2012, p. 74) que define bem tal dificuldade:
Primeiro, há aquilo que Hasenbalg e Silva (1992) chamam de “ciclo cumulativo de desvantagens” dos negros. As estatísticas demonstram que não apenas o ponto de partida dos negros é desvantajoso (a herança do passado), mas que, em cada estágio da competição social, na educação e no mercado de trabalho, somam-se novas discriminações que aumentam tal desvantagem.
Isso quer dizer que, além da desvantagem do negro pelo seu passado, suas dificuldades são aumentadas pelas discriminações sofridas através do tempo. Ou seja, durante toda sua trajetória, a desvantagem tende a aumentar (GUIMARÃES, 2012).
O resultado do desemprego do negro pode ser analisado por números e estatísticas, o que mais uma vez surpreende por sua superioridade. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no terceiro trimestre de 2017 o desemprego no Brasil atingiu a marca de 13 milhões de trabalhadores, sendo que 63,7% deste total eram negros, ou seja, cerca de 8,3 milhões de negros desempregados (SILVEIRA, 2017).
As diferenças raciais, mais especificamente no mercado de trabalho, se estendem ainda ao salário. Não é novidade que a média salarial do branco é maior do que a do negro, mas o que assusta são os dados. Segundo o IBGE, a média de renda familiar do negro per capita é de R$ 753,69, do pardo é de R$ 729,50, ao passo que o branco recebe em média R$ 1.334,30, ou seja, quase o dobro que recebe o negro (TOKARNIA, 2016).
Para se ter ideia da dimensão do abismo, se os negros recebessem salários equivalentes aos dos brancos, seriam injetados na economia brasileira um valor de cerca de 808 bilhões de reais. Estando evidente, portanto, o preço da desigualdade atual (BIGARELLI, 2017).
Por fim, se tratando do trabalho informal, vale ressaltar a situação dos ambulantes. Segundo dados do IBGE, no terceiro trimestre de 2017, existiam no Brasil cerca de 1,8 milhões ambulantes, sendo que destes 1,2 milhões eram negros, representando cerca de 66,7%, mostrando qual é a parcela maior da população que se sujeita a este tipo de trabalho (SILVEIRA, 2017).
2.1.3 Educação
Um dos pilares que mantém a enorme desigualdade entre negros e brancos é a educação, sendo que nos dias atuais, a formação é peça chave do currículo na busca por emprego. A baixa escolaridade do negro, bem como a dificuldade da inserção do mesmo no meio acadêmico é um problema histórico que persiste até hoje.
Nesse sentido, Joana Célia dos Passos (2012, p. 138) é cirúrgica ao nortear a educação do negro brasileiro:
As desigualdades acumuladas na experiência social da população negra, nos processos de escolarização, têm sido denunciadas há muitos anos pelo movimento social negro, por estudiosos das relações raciais e, mais recentemente, também pelas análises no âmbito de órgãos governamentais no Brasil. São desigualdades graves e múltiplas, afetando a capacidade de inserção da população negra na sociedade brasileira, em diferentes áreas, comprometendo o projeto de construção de um país democrático e com oportunidades para todos.
É de extrema importância entender referida desigualdade citada pela autora para conseguir ultrapassar e superar a mesma. O caminho a ser percorrido pelo negro é mais tortuoso no que diz respeito à escolaridade e consequente inserção no mercado de trabalho do que o caminho do branco. Conforme Joana Célia dos Passos (2012, p. 138):
Indicadores como anos de estudo, reprovação, evasão, distorção idade-série, currículo escolar desenvolvido, desempenho dos estudantes, relação professor-aluno, qualidade do equipamento escolar e sua localização, entre outros, têm sido divulgados nos últimos anos mostrando as disparidades entre brancos e negros no acesso, permanência e conclusão dos percursos escolares.
Teoricamente, a Constituição Federal de 1824 buscou mudar esse cenário e evitar as mazelas da educação que enfrentamos hoje. Nesse sentido,
A partir da Constituição de 1824, que declarava a todos os cidadãos o direito à instrução primária gratuita, foi crescente a necessidade de “instruir e civilizar” o povo. Isso colocou a aprendizagem da leitura, da escrita e das contas, bem como, a frequência à escola, como um aspecto de suma importância para a edificação de uma nova sociedade (DOS PASSOS, 2012, p. 139).
Porém, como é possível vermos até hoje, os benefícios garantidos na Constituição de 1824 foram restritos apenas a determinada classe de pessoas:
Mas a quem se destinava essa escola? A titularidade da cidadania, definida constitucionalmente, era restrita aos livres e aos libertos e valia tanto para a educação das crianças quanto para os jovens e adultos. Para escravos e indígenas, além do trabalho pesado, bastava a doutrina aprendida na oralidade e a obediência pela violência física ou simbólica. Desse modo, o acesso à cultura da leitura e da escrita era considerado inútil para esses segmentos (DOS PASSOS, 2012, p. 139).
Comprova-se com esse trecho a disparidade da educação oferecida a negros e brancos. Enquanto o direito já era usufruído pelo branco, o negro ainda era tratado como um ser menos relevante.
Essa curta abordagem histórica sobre educação procura demonstrar que o problema é antigo, sendo que sofremos até hoje as consequências de não ter resolvido o mesmo na raiz. A partir dessa análise, é possível entender um pouco sobre a disparidade no nível educacional quando se comparam negros e brancos, e também o porquê de até hoje existir essa superioridade do branco nos meios escolares, tanto fundamentais quanto superiores.
2.1.4 Gênero
A precariedade no que diz respeito à educação e ao desemprego fica ainda mais evidente ainda quando se agrega a categoria gênero. A dificuldade em preencher essas lacunas quando se trata de uma mulher negra aumenta consideravelmente. Vejamos o que diz Guimarães (2012, p. 75):
Mas, há ainda um fator mais perverso, o fator “gênero”, que não pode ser desconsiderado. A pobreza, a falta de oportunidades, a desigualdade de rendimentos e a discriminação atingem muito mais fortemente as mulheres que os homens. Nos últimos anos, a luta pela emancipação das mulheres e pela efetiva igualdade entre os sexos melhorou em muito a posição das mulheres na sociedade brasileira. No entanto, olhando algumas estatísticas desagregadas por cor, fica-se com a ideia de que esse benefício restringiu-se, até agora, quase que totalmente às mulheres brancas. Ou seja, a emancipação da mulheres parece ter ficado restrita às classes médias e altas, não atingindo as mulheres pobres, geralmente negras.
Nesse sentido, uma das mais célebres defensoras dos movimentos feministas negros, Djamila Ribeiro (2016, p. 101), defende que o silêncio das mulheres é um dos principais vilões na luta contra a discriminação:
A invisibilidade da mulher negra dentro da pauta feminista faz com que essa mulher não tenha seus problemas sequer nomeados. E não se pensa saídas emancipatórias para problemas que sequer foram ditos. A ausência também é ideologia. Muitas feministas negras pautam a questão da quebra do silêncio como primordial para a sobrevivência das mulheres negras. Angela Davis, Audre Lorde, Alice Walker, em suas obras, abordam a importância do falar. “O silêncio não vai te proteger”, diz Lorde. “Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio”, diz Walker. “A unidade negra foi construída em cima do silêncio da mulher negra”, diz Davis. As autoras estão falando sobre a necessidade de não se calar sobre opressões como forma de manter uma suposta unidade entre grupos oprimidos, ou seja, alertam para a importância de que ser oprimido não pode ser utilizado como desculpa para legitimar a opressão.
Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Djamila (2016, p. 102) complementa o argumento do silêncio fazendo um breve comparativo em números:
A questão do silêncio também pode ser estendida para um silêncio epistemológico e de prática política dentro do movimento feminista. O silêncio em relação à realidade das mulheres negras não a coloca como sujeitos políticos. Um silêncio que, por exemplo, faz com que nos últimos 10 anos tenha diminuído o assassinato de mulheres brancas em quase 10% e aumentado em quase 55% o de mulheres negras, segundo o Mapa da Violência de 2015. A falta de um olhar étnico-racial para políticas de enfrentamento a violência contra a mulher. A combinação de opressões coloca a mulher negra num lugar no qual somente a interseccionalidade permite uma verdadeira prática que não negue identidades em detrimentos de outras.
Djamila é certeira ao situar a mulher negra na sociedade brasileira, que tem o silêncio como um obstáculo na conquista por lugares mais altos e pelo devido reconhecimento que devem ter, independentemente da cor da pele ou do gênero.
2.1.5 Cárcere
O preconceito, a discriminação, a falta de oportunidades, o desemprego, a baixa escolaridade, a pobreza, são fatores que tendem a vulnerabilizar os sujeitos e situá-los em zonas mais propicias ao cometimento de delitos de transferência de renda forçada. Estando o negro no topo de todas essas estatísticas negativas, não é à toa que seja também o líder em mais uma: o cárcere no Brasil também tem cor, e ela é negra.
A maior parte da população carcerária no Brasil hoje, é negra, e provavelmente seja resultado de tudo que foi dito anteriormente. Devido ao nível de vida precário e as poucos oportunidades disponibilizadas, muitos acabam por tomar decisões erradas e escolher caminhos adversos aos considerados normais.
O futuro traçado para um jovem branco de classe média/alta no Brasil, geralmente já é definido pelos pais quando ele nem mesmo sabe que caminho trilhar. Vai estudar numa boa escola, fazer algum curso numa faculdade de primeiro nível, se formar sendo um dos alunos destaque e a entrada no mercado de trabalho, para este jovem, será mero detalhe, se analisado seu currículo escolar e suas indicações.
O mesmo não é possível dizer de um negro que vive na extrema pobreza. Se tiver pais presentes, trabalharão e ganharão pouco. Se os pais forem ausentes, o problema é maior ainda. Por vezes, sequer conhece seus pais. A escola em que irá estudar, geralmente, é precária, com poucos recursos e quase nenhum incentivo, sendo que provavelmente abandonará a mesma no meio do percurso. Infelizmente, a faculdade não é um caminho possível para este jovem e a
obsessão pelo dinheiro fácil o levará a escolher outros caminhos, possivelmente o roubo, o tráfico de drogas, o furto, ou seja, o caminho da delinquência.
Sem perspectiva de futuro não há outro rumo a não ser este para a maioria dos jovens negros em nosso país. Por ter uma base familiar abalada ou nem ter base familiar, o crime parece ser o caminho mais curto para o dinheiro e a satisfação momentânea.
O resultado de todo esse caminho acaba sendo a prisão. Milhares de jovens negros, justamente pela falta de oportunidades, estão hoje em celas minúsculas abarrotadas de presos, excedendo até duas vezes o limite máximo permitido. A prisão é o fim de toda e qualquer perspectiva que um jovem negro tenha de adentrar no mercado de trabalho e levar uma vida considerada “normal” pela população branca de classe média/alta.
Basta fazermos uma simples reflexão: este jovem negro, de baixa escolaridade, vivendo em condições precárias, num barraco, em uma favela. Suas chances de entrar no mercado de trabalho já são mínimas de saída, começando pela sua cor, passando pela sua baixa escolaridade, e por fim, levando-se em conta sua condição de vida precária, o que engloba saneamento básico, saúde, alimentação e vestuário. Pensemos neste mesmo jovem, porém, agora, saindo da prisão após cumprir pena por crime de furto. Quais serão as chances deste jovem ter um futuro em um país como o nosso? Onde já é difícil a vida para um negro, qual é a perspectiva dele de crescer e evoluir após ter sido preso? O resultado é uma bola de neve que vai crescendo cada vez mais conforme gira. Os trilhos da vida deste jovem apontam automaticamente para o retorno dele ao crime.
Os dados que se têm em relação à população carcerária brasileira são alarmantes e ainda mais preocupantes no que se refere à quantidade de negros ocupantes das celas em nosso país.
Segundo o DEPEN (Departamento Penitenciário Brasileiro), em dezembro de 2014, a população carcerária brasileira era de 622.000 mil presos, sendo 62% negros, o que dá aproximadamente 373.000 mil pessoas. Porém, segundo o mesmo DEPEN, em junho de 2016, a população carcerária brasileira chegou a 726.000 presos, sendo 64% negros, o que dá aproximadamente 464.000 pessoas. Houve um crescimento de mais de 104 mil presos (VERDÉLIO, 2017).
Após toda essa análise fica uma pergunta: porque o rico não fica preso? Políticos cometem vários crimes, dentre eles corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, porém o que mais se vê são os referidos cidadãos sendo condenados a vários anos de prisão e acabam por cumprir a pena em liberdade. Porque o sistema penal no Brasil não consegue dar o mesmo tratamento a todos, ficando os pobres presos e os que enriquecem às custas do povo em liberdade plena? (MASSON, 2017).
Essas perguntas com certeza não são fáceis de responder, porém, fazendo uma breve reflexão sobre o assunto, podemos chegar à conclusão de que talvez o Código Penal dê uma maior atenção aos crimes praticados com violência, o que não acontece nos crimes financeiros. Outro fator a ser levado em conta é a grande possibilidade de recursos à disposição dos políticos ou empresários que cometem referidos crimes. A eles, geralmente, é garantido que o processo percorra um longo caminho por todas as instâncias. A sensação que fica é a de que o sistema penal brasileiro é falho, garantindo muitas vantagens a alguns e muitas desvantagens a outros (MASSON, 2017).
2.1.6 Homicídio
Outro ponto importante a ser apontado quando se fala em estatísticas negativas lideradas pela população negra é em relação aos homicídios, onde existe, também, uma grande superioridade em relação aos brancos.
Segundo um levantamento feito pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 100 vítimas de homicídios no Brasil, 71 são negros. O levantamento mostra o abismo existente entre brancos e negros. Os negros representam 54% da população brasileira, mas são 71% das vítimas de homicídio (JORNAL NACIONAL, 2017).
2.1.7 O preconceito do negro rico
Se engana quem pensa que o negro rico não sofre preconceito. O negro em sua posição “natural”, a zona considerada de conforto pelo branco, que é na pobreza, não incomoda. Porém, ao sair deste espaço, gera estranhamento e surpresa, por vezes até rejeição. Quanto mais alto o negro subir ou mais longe o negro chegar, maior é o peso do preconceito (COLONNA, 2016).
A elite branca brasileira parece não estar preparada para encarar uma elite negra brasileira. Apesar dos diplomas e carreiras bem-sucedidas, um negro sempre será um negro e terá sua identidade estampada na cor da pele, e quando alcança um patamar mais alto, parece um estranho fora do lugar. Como não cabe a ele o mesmo preconceito aplicado ao negro pobre, novas formas de discriminação se moldam juntamente com o nível de vida que o negro atingiu (COLONNA, 2016).
Apesar da quantidade de negros bem-sucedidos ter crescido consideravelmente, ainda não está próxima da quantidade de brancos neste mesmo patamar financeiro. Segundo o IBGE, o 1% da população brasileira mais rica é formada por 79% de brancos e 17,4% de negros (COLONNA, 2016).
Fica evidente que apesar do nível de vida elevado desta pequena parcela de negros ricos, eles ainda sofrem o preconceito, que justamente parece se moldar conforme o cidadão evolui financeiramente, mostrando que pode ir muito além da pobreza.
Portanto, não basta refletir o quão grave é o problema racial que enfrentamos em nosso país: é preciso agir. O problema é histórico e teve início na vinda dos primeiros negros ao Brasil. Desde aquela época, o branco sempre esteve um patamar acima do negro.
O ponto mais preocupante dessa situação toda é que, apesar da evolução pela qual o ser humano passou, deixou de evoluir em pontos extremamente necessários, como lado social e o lado humano. Evoluir tecnologicamente é importante, mas evoluir como ser humano é fundamental.
2.2 A Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989 e a Constituição Federal de 1988
Uma das particularidades do preconceito brasileiro era seu caráter não oficial, ou seja, outros países utilizaram estratégias jurídicas para garantir a discriminação dentro da legalidade, como por exemplo, políticas do apartheid e até mesmo cotas raciais. Já no Brasil, desde a proclamação da República, a lei foi firmada de maneira taxativa, sem qualquer cláusula ou referência explícita a qualquer tipo de diferenciação em decorrência da raça (SCHWARCZ, 2017).