• Nenhum resultado encontrado

As cotas raciais fortalecem a democracia?

3. AÇÕES AFIRMATIVAS VOLTADAS PARA A SUPERAÇÃO DA SEGREGAÇÃO

3.2 As cotas raciais fortalecem a democracia?

A mais conhecida das ações afirmativas talvez seja a de cotas raciais, porém, antes de entrar em suas especificidades, é necessário prefaciar este subitem esclarecendo algumas questões atinentes às cotas em geral.

As cotas raciais funcionam como uma medida de ação contra a desigualdade, a fim de diminuir as disparidades econômicas, sociais e educacionais, entre pessoas de diferentes etnias raciais. Ao contrário do que se pensa, as cotas não se destinam apenas a pessoas negras (MERELES, 2016).

O estabelecimento das cotas veio somente com a criação da lei 12.711 de 29 de agosto de 2012, também conhecida como Lei de Cotas. Seu artigo 1º e parágrafo único são claros em suas redações:

Art. 1o As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas.

Parágrafo único. No preenchimento das vagas de que trata o caput deste artigo, 50% (cinquenta por cento) deverão ser reservados aos estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo (um salário-mínimo e meio) per capita.

Complementando o direito estabelecido em referido artigo, deve-se dar devida atenção ao artigo 3º desta Lei:

Art. 3o Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata o art. 1o desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde

está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.

O artigo 3º assegura o direito a pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência a usarem as cotas em benefício próprio. Ressalta-se que referida lei se aplica não somente as instituições federais de ensino superior, mas também as instituições federais de ensino técnico de nível médio.

Porém, muito antes de ser consolidada a Lei de Cotas, já existia uma grande discussão em torno dela. Como exemplo, temos a ADPF 186 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), ajuizada pelo Partido Democratas (DEM) no ano de 2009, visando impugnar a política de cotas étnico-raciais estabelecidas pela Universidade de Brasília (UnB) (BRASIL, 2009).

A petição defendia que os atos da Universidade de Brasília ofenderam os artigos 1º, inciso III; artigo 3º, inciso IV; artigo 4º, inciso VIII; artigo 5º, incisos I, II, XXXIII, XLII e LIV; artigo 37; artigo 205; artigo 207 e artigo 208, inciso V, todos da Constituição Federal de 1988. (BRASIL, 2009).

O Partido Democratas procurou esclarecer na petição que a presente arguição não visou questionar a constitucionalidade das ações afirmativas como políticas necessárias para a inclusão de minorias, acentuando, dessa forma, que a ação impugnou apenas a adoção de políticas afirmativas racialistas. Por fim, alegou que o sistema de cotas de referida Universidade poderia vir a agravar o quadro de preconceito racial, pois promoveria a ofensa arbitrária ao princípio da igualdade, gerando discriminação reversa em relação aos brancos pobres (BRASIL, 2009).

O STF julgou improcedente os pedidos contidos na ADPF 186 por unanimidade dos votos. Resumidamente, vale destaque ao voto do Ministro Gilmar Mendes, que buscou enfatizar que as ações afirmativas são totalmente compatíveis com o princípio da igualdade. Frisou que a baixa quantidade de negros nas universidades decorre de um processo histórico, decorrente do modelo escravocrata de desenvolvimento, resultando em um nível baixo da escola pública e de uma dificuldade “quase lotérica” de acesso à universidade por meio de vestibular (BRASIL, 2009).

A discussão em torno deste assunto é de extrema importância e foi tratado como tal pelo STF. O princípio da igualdade, que serviu de base para o julgamento da ADPF 186, é garantido constitucionalmente, e visa a garantir que todos sejam tratados de forma igualitária em termos de direitos e deveres, e justamente nesse sentido que se explicam as cotas, para garantir que todos tenham o acesso à universidade independente de sua cor ou raça.

Para melhor entender a questão das cotas, imperioso ilustrar a situação por meio dos números. Em 1997, apenas 1,8% da população negra ingressou no ensino superior. Já em 2011, este número saltou para 11,9%, um aumento de quase 1000%. Em 2014, o avanço ficou por conta da parcela destinada a pretos, pardos e indígenas, que totalizavam 30,9% das vagas em institutos federais e 22,4% nas universidades. Este grande salto se deve às cotas raciais e também à capacidade dos estudantes (MERELES, 2016).

Com a simples análise dos dados objetivos que demonstram o grande aumento do número de negros nas redes de ensino, é possível verificar a eficiência nas cotas ao conseguir equiparar (ainda que minimamente) as condições do negro e do branco, visto que de maneira geral o ponto de partida de cada um é completamente diferente.

E para entender a necessidade da existência de cotas, façamos uma breve análise dos dias atuais evidenciando que a diferença ainda é abismal. Nesse sentido, Sales Augusto dos Santos (2007, p.106):

Nos últimos anos, os dados e as informações produzidos pelo IBGE e pelo IPEA expressam com clareza a perversidade da chamada questão racial no Brasil. Os negros – aqui considerados como o somatório dos pretos e pardos – mantêm-se em geral em uma condição social significativamente pior que a da população branca, sejam quais forem os indicadores utilizados. Além dos expressivos diferenciais no que diz respeito à renda, os negros são sempre os mais penalizados em termos do acesso aos bens e serviços públicos.

Dados recentes produzidos pelo IBGE e pelo IPEA são suficientes para mostrar a importância da questão racial no Brasil. A consequência disso fica evidente no nível de vida da população negra:

Detentores das piores posições no mercado de trabalho, com rendimentos inferiores à metade daqueles percebidos pelos trabalhadores brancos, maiores taxas de desemprego e, quando ocupados, mais afetos ao trabalho informal, os negros apresentam ainda os mais baixos índices de cobertura do sistema previdenciário e os maiores índices de trabalho infantil. Paralelamente, a população negra é sobre-

representada na população favelada, e sub-representada nos indicadores de cobertura de serviços públicos (SANTOS, 2007, p. 107).

A população negra brasileira é figura presente na maior parte das estatísticas negativas do nosso país. Mais pobres, mais vulneráveis ao desemprego e informalidade, habitando áreas carentes e de baixa infraestrutura. Todos esses indicadores mostram a precariedade das condições sociais do negro no Brasil (SANTOS, 2007, p. 107).

A reversão desse quadro tem na educação o seu principal expoente. Conforme Sales Augusto dos Santos (2007, p. 107):

Para muitos analistas, a reversão desse quadro de desigualdades passaria pela ação educacional na medida em que políticas educacionais de cunho universalista propiciariam uma mobilidade social ascendente para os grupos mais desfavorecidos da população, entre eles os negros. Melhores níveis de educação resultariam em melhores condições de disputa dos postos no mercado de trabalho, permitindo desta forma, acesso à maior remuneração.

Não há que se falar em desenvolvimento sem a principal chave para tal, que é a educação. Como poderiam disputar um lugar nas universidades, os jovens negros e brancos, em pé de igualdade, se a desigualdade é quem faz parte desta disputa. Basta analisar os indicadores citados acima, para se concluir que a disputa sem as cotas é algo desigual. Indicadores estes que nos fazem pensar sobre dois vieses, segundo Sales Augusto dos Santos (2007, p. 112):

De um lado, o fato de que, na maior parte destes indicadores, as desigualdades têm- se mostrado constantes ao longo do tempo e, em alguns casos, vêm inclusive se agravando. Ou seja, quando analisados em séries históricas, os dados levantados não mostram tendências de convergência entre brancos e negros em nenhum aspecto relevante. Vê-se, assim, que os indicadores socioeconômicos não têm apresentado evoluções que permitam antever, a curto ou médio prazos, reduções expressivas das desigualdades entre os grupos raciais. De outro lado, reafirma-se a tese de que as desigualdades raciais no Brasil não são fruto apenas da situação de pobreza à qual historicamente estão submetidos os afrodescendentes, mas sobretudo da existência ativa do racismo e da discriminação racial em todos os espaços da vida social.

Como bem exposto acima, as desigualdades que justificam as cotas são explicadas de diversas maneiras. Por um lado, as desigualdades mostram-se constantes ao longo do tempo, podendo até se agravar. Por outro, as desigualdades não são entendidas somente como frutos da pobreza, questão que está intimamente ligada ao afrodescendente, mas também sobre a existência do racismo.

Sendo assim, refletir sobre as medidas a serem tomadas pelo governo para superar o quadro de injustiças, implica em analisar todo processo de reprodução do racismo e da discriminação racial, fenômenos pelos quais é possível explicar a existência dos enormes níveis de desigualdade entre brancos e negros no Brasil (SANTOS, 2007, p. 113).

Por fim, pode-se concluir que as cotas raciais se constituem como ferramentas eficazes no combate às desigualdades sociais e raciais, tornando possível a inclusão social da grande parcela de negros, vítimas do passado histórico da discriminação. Sendo assim, com a implementação de tais políticas, possibilita-se uma redução de referidas desigualdades, combatendo o racismo e propiciando um ambiente de diversidade.

Documentos relacionados