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Tratado da gravura a agua forte, e a buril, e em madeira negra com o modo de construir as prensas modernas, e de imprimir em talho doce

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(1)

J r J ^ H

gf/r-âf'

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(5)
(6)
(7)

TRATADO DA GRAVURA

A

âGUA FORTE , E A BTJRIL , E EM MANEIRA NEGRA COM O MODO DE CONSTRUIR AS PRENSAS MODERNAS,

E DE IMPRIMIR BM TALHO DOCE.

P O R

A B R A H A M B O S S E

G R A V A D O R R E G I O .

M O V A E D I Ç Ã O

T R A D U Z I D A DO F R A N C E Z DEBAIXO DOS AUSPÍCIOS E ORDEM

D E

SUA A L T E Z A R E A L ,

o PRÍNCIPE REGENTE,

N O S S O S E N H O R , P O R J O S É J O A Q U I M V I E G A S M E N E Z E S F R E S B I T E R O J M Á R r A N K f i N S E . L I S B O A . K A T Y P O G R A P H I A C H A L C O G H A P T I I C A , T Y P O r ^ A S T I C A , E E 1 T T E R A R I A D O .ARCO D O CF.GQ. M . D C C C I .

(8)
(9)
(10)
(11)

SENHOR

J N ^ constante alternativa de mútuos e

proporcionados\soccorros ,á que propendem

todos os membros, que ajustadamente

con-sentem com a su^a cabeça, se observa a

har-moniosa conducta da Natureza , e se

fun-da o intimo respeito , com que chego á

Au-gusta Presença de? V A. R. para

dedicar-lhe o pequeno trabalho , de que me

encarre-guei a favor da Gravura Portugueza ,

tra-duzindo do Francez o Methodo de gravar á

água forte

r

à buril

r

e em maneira negra ;

pois além da necessidade , que lia , de numa

instrucçaõ methodica para a boa execução

desta Arte , ( ao que satisfaz o presente 2

ra-tado ; ) parece que se conforma a minha

of-ferta com o zello , e feliz acerto , com que

y A. R* se tem dignado promover , e

(12)

fei-feicoar a Gravura pela brilhante Direccao

da Officina Calcographica na Cnza

Pitie-raria desta Corte ; onde influindo os

favo-ráveis Auspícios da Real Beneficência ,

pros-peramente se tem aberto esta Flor, que,

ainda a pouco, envolvida TIO ressiecado

ger-me d'i indolência , existiu entre nós tuõ

pou-ço conhecida, ou pelo menos taõ pouco

cul-tivada.

Ah ! Quanto he feliz , Senhor , quanto

he feliz qualquer e/n preza , que a ffou

la-mente conta cm seu favor o interessante

amparo de liuin Soberano] 7auto mais

se-gura deste abrigo rompe auimosa as

difi-culdades do seu principio , com valor

arros-Ira os obstáculos do seu pr^^resso , e cada

passo , que avança , lie hum certo penhor

do seu triunfo.

(13)

ps-Esperava pois esta mimosa Flor das

Pei-tas Artes pela Quadra risonha , e

aVabun-dância , em que o espirito provideule que

à par da escolha reluz sempre nas

respeitá-veis intenções de V A. R. tomando em

vis-ta a creaçaõ de humas, o augmento de

ou-tras , e a perfeição de todas , applicasse

lam-bem para. ella huma parte das suas Sol era-..

nas Contemplações ; (delicioso poleti , que

a todas fertiliza! )

Chegou finalmente a época productiva ,

renasce a arte da Gravura , entra logo a

ser cultivada pelo louvável capricho dos

seus Amadores , e proseguindo

vantajosa-mente as indispensáveis leis da formalidade,.

já 7ios segura que , daqui a pouco flore cen->

do

}

se revestirá daquelle porte airoso ,

(14)

quelle tom de belleza , ddquelle ar

expres-sivo , que tudo parece animar , quanto

apre-senta nos seus traços.

Entaô gostaremos de a contemplar na

sua perfeição , e reconhecendo neste auge o

prazer da, sua existência ella se fará mil

vezes digna de beijar a Augusta Alaõ , qu&

a suscitou ; e reproduzindo-se de mais a mais

na fecundidude dos seus diffei entes ramos ,

fará accrcscer outros tantos monumentos ,

nue eternizem na futura idade as heróicas

virtudes do seu Excel so Bem feitor.

Assim será sempre piau si rei a feliz

Me-mória de } A /?. assim teraõ sempre os

vindouros mais affastados hum permanente

objecto de admiração , de respeito , e de

sau-dade ; assim serei também contente, se ,

(15)

ie-recendo o meu trabalho a Benevola

Aprova-ção de E A. R. , for taõ venturoso , que

me considere de algum modo cooperar para

o fiel desempenho dos seus mesmos cuidados.

Deos guarde a E A. R. e o conserve

por dilatados annos na pacifica Moderação

dos seus Estados , para a consolação de

to-dos os que , tem a gloria de ser , como eu ,

De V A. R.

SENHOR

O mais obediente e humilde vassalo

José Joaquim J

r

iegas Menezes.

(16)
(17)

PREFACIO DO EDITOR.

y Arece , que Mr. Posse fazia consistir a

maior difíiculdade , e o principal mérito da

Gravura a a a i a forte nlmnia exacta

imita-i. j

çaô da do buril : elle acertou perfeitamente

110 objecto que se propoz , e suas obras ,

ain-da que muito*-avançaain-das a água forte , tem

com tudo a mesma limpeza daquellas , que

saô puramente a buril. Também lie

verda-de , que a firmeza do verniz duro , verda-de que

elle usava , contributo muito para isso. Com

tudo , tem-se abandonado naô só o verniz

duro , de que se serviaô quasi todos os

Gra-vadores do seu tempo , como ainda mesmo

esta limpeza , de que elle fazia tanto

apre-ço e que de algum modo se evita

presente-mente , porque elía conduz a liuma certa

dureza de talhos ; e a huma fria ordem de

-trabalho, que naô he do gosto moderno.

Esta mudança de gosto ( se com effeito

se deve julgar do sentimento dos Gravadores

do tempo de Mr. Posse pelo seu ) he

funda-da, sobre a experiência , e admiração , que

(18)

se i 'in concebido por bollas c o m a s , que t e m

aj ücciu:) d j p a i s cie M r . Posse , e que elle

n u c h e c o u a v e r , por se terem feito m u i t o

t e m p o , depois ([ue elle publicou er.ta -oora ( ).

T o d a via nau se v e , q u e Gerai do Audra a,

que por justo liliilo , pôde passar pelo mais

excedente Gravador de Historia que tem

aparecido , procurasse esta extrema

limpe-z a , n e m este servil arranjamento de falhos,

que he essencial á Gravura a buril. Bem

lon-ge disso , por h u m a mistura de traços livres ,

e de pontos .sem o r d e m na apparencia , m a s

c o m h u m gosto inimitável , elle deixou á

posteridade exemplos admiráveis do

verda-deiro caracter , e m que a G r a v u r a de

Histo-ria st

1

deve tratar. As suas obras , a pezar

da grossa ria do trabalho , que em algumas

se ve , e que n a o parecera bem aos

ignoran-tes , fazem a a d m i r a ç ã o dos conhecedores ,

e das pessoas de bom gosto.

Eslevctõ TjdBelle , que se pôde respeitar

como modcllo de perfeição para a G r a v u r a

e m pequeno , muito preferível á Cullot pela

gentileza do seu trabalho , em hunia

pala-vra , que he no seu gênero , o que Gerardo

Au-(*) A Jliuieiríl F.(li<.iõ ifesle T i .i l .u l o tia G r a v u r a ,'t íiglU f e i t e le.i lmjite.ssa em Pari/ < m ]''.'(?. A s e c u n d a Ldicaô se !'•/. «I* pois <l.i m u i t o «Io Anim- em i -ui , t e m n-c.danra

(19)

I I I

A u d r a n he em grande , naô se obrigou

tnn-to a esta excessiva firmeza , e arranjamentnn-to

de belios talhos , que M r Posse com tanto

cuidado r e c o m m e n é a . Pelo contrario o seu

m e t h o d o he , h u m composto de pequenos

talhos curtos e misturados com h u m gosto ,

e h u m espirito inexplicável ; e he de

admi-r a admi-r , que seadmi-rvindo-sc de veadmi-rniz duadmi-ro , elle

pudesse gravar de h u m m o d o taô dócil , e

evitar a inílexibilidade , qne se percebe nas

obras de seus predecessores.

N a ô h e porque a l i m p e z a , e a bella

or-d e m or-dos traços naô faca h u m maravilhoso

effeito, q u a n d o he empregada a propósito ,

e misturada com outros trabalhos mais

li-vres , segundo o gosto da obra , e o caracter

das cousas , que se quer representar : isto h e

a m e s m a perfeição da Gravura , e esta

opno-sioaó de diíferentes trabalhos naô serve mais,

que de a u g m e n t a r o seu valor. N a ô ha

exem-plos mais belíos dos felizes successos da

lim-peza do buril em obras começadas á a-vua

f o r t e , do que os pedaços admiráveis

oravados por Cornellio Eischer , onde ao m e s

-m o t e -m p o se vè o que o -mais delicado buril

t e m de lisonçeiro , u n i d o á a^ita forte a mais

exj)ressiva.

Pode-se logo dizer , que , se o buril

aca-ba , e aperfeiçoa a água forte , elle recebe

(20)

-I V

M M 1

V r i delia m u i m m é r i t o , m u i t o g o s t o ,

1 j "

m I

, alma , que elle naô Unha , ou ao

.

lJ)S

, ,ti!c c o m uiiiicnkhide a teria sem

Jjj,, • ,'.'.:.,' >;„: desenha os seus contornos

r

, ,

m v

..e;:;uiea e e s p u h o : cila esboça as

sua . s-a.ii). is de lunn iv!"\

r

o -loparente , e

v a r u e i " , s e c u n d o ".-> d i v c ^ o s caracteres dos

ole.-eios, i'ii:i'i ; t»

,

rra.s>f).-

J

, p( dras ,

paysa-(M',ÍS

, ou panos de d i f e r e n t e s grossuras ; o

qin o luiiii naô pôde lazer MUI liuma certa

itpiald ele ou de íom , ou de oòr , que

nun-ca satisfaz taô be:n

:

(Ha em íim lhe

prepa-ra u i M T . n n ^ b e n s pontos (hfferentes dos do

burii , que MIO compridos , e dos fia ponta

M i c.i (1

N

exac.ianu-ule redondos ; os que

pro-duz uuivui a a r . u a forte saô de hum

ivdon-<jo mais irregular e de h u m negro

dilleren-Te , de cuja combinação resulta hum

empas-Je c h e i o d e g o s t o ; o C e r t o l i e C[UC fllgilllia

cousa faltava á Gravura antes da invenção

d.i aipia furte, principalmente para bem

re-presentar os quadres de l l h t e r a i , le.-ro que

se ([íii/.essein fazer com facilidade e atíouieza.

()s rei ralos pedem .ser rVit >s a bani , e

pouco.s exemplos 1M de que tcnlnô

acerta-do bem os une íein a\ atiraacerta-do a /azeííos a nguíl

f u i c . A experiência m o s t r a , q u e ainda

(ia-

ven-(i /'n ula MM a. l>ir-\f «ia d i . i n i i , . feii.i eer.i .1 t.sjiíU , p a i a

(21)

V

v e n d o alguns,que se possao estimar,como saô

os de Moriuo , Swiderhoof, e outros , c o m

tudo os de ifanleuil , Edelhik. , e PJreveb

saô os chefes d'obra os mais estima veis neste

gênero ; a razaô desta differenra v e m do

dif-ferente m o d o porque se pinta a Historia e o

r e t r a t o .

N a Historia se s u p p r i m e m todas as p e

quenas partes , para tratar somente das g r a n

-des ; e se pintaô , sem se embaraçar com

detalhes pouco importantes , como seriaó os

cristalinos e palpebras , ou pequenas dobras

7

que cercaô ordinariamente os olhos ;

despre-za-se mostrar sensivelmente nella as

differen-tes e pequenas meias tintas , que se a c h a ô

e n t r e as sombras e os claros , e quando se

m o s t r e m , he de h u m modo , que naô p a r e

-ce completo , e que he sempre

subordina-do ao effeito geral subordina-do q u a d r o . O Pintor ,

inteiramente senhor da sua idéa , e naô

ten-do e m vista objecto algum particular , a q u e

servilmente se possa unir , somente cuida e m

formar traços g r a n d e s , e affoutos , que p o s

-sao concorrer para a intelligencia geral da

m e s m a idéa.

H e verdade que o retrato se pinta , s e

-guindo os mesmos p r i n c í p i o s , m a s com esta

differença , que a exactidaô com que o P i n

-tor segue o modello , que t e m - a d i a n t e dos

(22)

V I

olhos o obriga a mostrar com maior

cuicla-4

i.) nfh> , anula as m e n o r e s cousas que elle

ricM-olüv na Natureza , porque disto he que

niaiLie vezes d e p e n d e a fiel semelhança. T e n

-do liuali/.a-do a cabeça com liuma tal

exacti-daô , elle he obrigado a t e r m i n a r

proporcio-n a r a m proporcio-nte o re.sto ; do coproporcio-ntrario , proporcio-naô

pare-ceria mais , que h u m esbosso em comparação

tia cabeça. EU-aqui a ultima , e precisa

exe-cução , (pie perfeilamante se pôde dar pela

limpeza do buril ; em lugar de que a

liber-d a liber-d e liber-do pincel liber-de Hi.storia se manifesta

me-lhor pela allouteza , e facilidade da ponta a

ave t forte. Pode-se d<i r por exemplo os

pe-tluços de Historia gravados por P Drevet,

o !ilho , qu saô admiráveis pelo mimo e

de-licadeza do trabalho , mas t a m b é m muito

perfeitos para o caracter da Historia , o que

fez dizei- a muita genle de g< sto , que certas

m e n t e o trabalho era mui bello , porém,

miri-ío mal empj-egado , o que so servia para

fui-j;if (pie as figuras erao de bronze. Pode-se

\. r também a famih.: de Da rio gravada por

J- :rli./K , cu;a Gravura ainda que perfeita

p< o b iril , he muito menos conveniente em

^•'J >* H.nnte p e d a ç o , do (pie a de Gerardo

sluttr-•:•}}. Por esta causa se observa que

mui-Jo.s (/lavadores a buril alias bem hábeis

en-tre outros Uolsvvert, tendo de c r a v a r

peda-ços

(23)

V I I

ços de Historia , fazem por imitar , quanto

p o d e o b u r i l , esta desordem pintoresca , e

esta mistura de trabalho , que a água forte

p r o d u z cora tanto acerto.

Deixemos pois brilhar a Gravura á b u r i l ,

n a execução dos retratos , onde a a mia forte

n a ô h e taõ feliz, e reservemo-la para a

His-toria o n d e ella espalha mais gosto e

facilida-d e ; e para o trabalho e m pequeno , a que

ella dá h u m espirito e h u m caracter de d e

-s e n h o , que o buril teria bem difficuldade a

i m i t a r . E m lugar de tomai mos por m o d e l

-lo , gravando á água forte , estampas a buril

d e h u m a g r a n d e limpeza , ( c o m o aconcelha

Mr. Bosse) o que só nos poderia causar

me-d o ; t o m e m o s antes em vista os Q u a me-d r o s me-dos

excellentes Mestres , de que temos falado ,

o u ainda m e s m o das águas fortes puras dos

Pintores , que tem gravado , como Benedicto

de Castilhona , Bimbrant

t

Perghem , etc.

o u ainda dos nossos Pintores m o d e r n o s , dos

quaes muitos tem gravado com h u m tal

espirito , que cs mais hábeis Gravadores a p e

-n a s poderiaô igualar. P o r q u e ai-nda que o

G r a v a d o r deve guardar muito mais o r d e m

d o que naó ha nesta qualidade de obras ,

p o r causa da necessidade em que está oe

t e r m i n a r as suas águas fortes cem o buru ,

c o m tudo a affouteza , com que ahi trabalha ,

(24)

-V I I I

pôde ala umas vezes arrebatalo , e fazelo p r o

-duzir o.s ja.sgos felizes , que os bons

conhece-dores preferem infinitamente á luima

lim-peza sem gosto. G a r r a n j o , e a igualdade dos

talhos he o que se a p r e n d e mais depressa ,

sendo o que he mais i m p o r t a n t e na

Gravu-ra : p o r é m o mais d/fncil, e o que já mais se

naô sabe , he o bom gosto de liuraa

Gravu-ra macia , e a correocao das formas.

T e r m i n a r e m o s este Prefacio por h u m a

c o m p a r a r ã o bem capaz de lazer sentir a

di£-iereiiça , (pie caracterisa os dons modos

de-gravar , de que temos falado. A Gravura a

buril pode-se c o m p a r a r a h u m a D a m a de h u m

talhe e de h u m a belleza regular , cujos

ves-tidos sao de h u m pano rico e precioso , e d e

que o a m a n h o e arte fazem valer até os me*

n< re-. encantos que ella possue , e m h u m a

palavra os ali ractivos mais hsongeiros : p o

-r e m seu semblante magestoso está s e m p -r e

a i m a d o de huma seriedade a mais severa.

A h ! (.manto he cara a felicidade de possuir

os seus la\ oies ú (lista das vigílias , e dos

cui-dados mais terríveis ! O caminho , que vai

ter a sua presença , he semeado de espinhos

e oilhenldades ; naô se pôde lá chegar , se

nao depois de ler feito h u m a longa e p e n o s a

carreira.

A Gravura á água forte pelo contrario

%

(25)

IX

he huma Donzella galante e encantadora ,

natural , e sem affectaçaó nos seus gestcs ,

mas que naô sabe tirar menos partido de

to-dos os seus encantos. A simplicidade to-dos seus

vestidos he hum certo dezalinho cheio de

ar-te , que naô descobre sem muito propósito

o que ella tem de attractivo. Sempre

affa-v e l , e de fácil accesso, seus amáaffa-veis

capri-chos animaô áquelles que a procuraõ , e lhes

daó h u m anticipado gosto do prazer de

par-ticipar dos seus favores.

Ella parece facilitar o caminho da sua

mo-rada , e se nelle se encontraõ alguns

espi-nhos , suas pontas estaõ embotadas pelas

flo-res , que ella tem o cuidado de semear na

sua passagem : em fim ella sabe

accommo-dar-se ao humor , e aos differentes gostos de

cada hum dos seus Cortesões ; e ainda que

a sua verdadeira posseçaõ seja taó rara , e

taõ difficil como a de sua Iimãa , ella tem

com tudo o talento de entreter a todos

áquel-les , que a seguem , na idéa lisongeira de

se-rem do numero dos seus favoritos.

(26)
(27)

-M O D O D E G R A V A Pc

A Á G U A F O R T E , E A B U R I L.

PRIMEIRA P A R T E

D A G R A V U R A A V E « N I Z DL' K O. I N T R O D U C C A Ô .

c

O N H E Ç O duas sortes de v e r n i z , e também duas de agrra forte , que em seu lugar descreverei.

(J verniz d-i primeira s o r t e , estando f r i o , tem 0 consistência de óleo graxo , ou de xarope trans-p a r e n t e , e a v e r m e l h a d o , e , sendo atrans-ptrans-plicado á cha-pa de cobre , nella se s e c c a , como adiante se dirá , de modo que fica duro , e por isso se chama ver* niz duro.

O verniz da segunda sorte , estando frio, fica em massa de huma consistência quasi de resina , ou cera negra , e sendo applicódo á chapa , só se trata de enegrecello , ou embranquecello , sem o s e c car , como depois direi , de modo que conserva t o -da a sua moleza , e por isso se chama verniz mole.

A primeira aorte d'agua forte se faz de vinagre, r e r d e t e , sal ammoniaco , e sal c o m m u m fervidos j u n t a m e n t e , e como naõ se v e n d e , eu darei o mor

do de a fazer.

A secunda sorte he feira de vitriolo , e de sa-litre , e algumas yezes também de pedra nume do

(28)

ro-a M O D O D E G R A V A R

r o c h a , dislilados j u n t n m e n t e s e g u n d o a a r t e ; e d e a a l i e q u e se sei vem os l i e í i u a d o r e s , p ry s e p a r a r o o u i o d., prata , e do c o b r e "a q u e clles c h a m a ô «1'outio m o d o , agua de partir; y v t s e o u t r o s a v e n -d e m , e por i-.su ii.iõ -d e s c r e v o a sua l e c e i i a .

E s t a a c u a foi te . ou de partir a s s i m d i s t i l a d a ,

í i

s ó s e i v e paia o v e r n i z m o l e , e n a ô p a i a o ü u i o , poi q u e o d i s o h e.

A o u u a , q u e h e s o m e n t e f e r v i d a , s e r v e igual-m e n t e p a i a a igual-m b a s as soiteS de v e r n i z , por isso m e s m o , q u e o*, n ó dissolve.

N e s t e 1'r.itado . v u l mais e x t e n s o s o b r e o m o -d o -de g r a v u r a verniz -d u r o q u e a vei niz m o l e , por-q u e o p r i m e i r o m e p a r e c e d i g n o de p r e f e r e n c i a ; c«*m t u d o

n i z m o l e

, dai ei t. rnbem o m o d o de gravar a ver-q u e prova b e m e m n i u i a . s o c c a s i ó e s , c o m o d e p o i s se v e i a ; p o r qur.nto a m i n h a tençaõ n e s t a o b i a he e x p o r ã o Publi» o os m e i o s , de que m e sirvo para g r a v a r , c o m o e m talho d o c e , por meio

da. á g u a i b i i e .

Obser ruiaõ.

J á se n a ô usa d o v e r n i z d u r o ; pois t e m sido i n t e i r a m e n t e a b a n d o n a d o para se serva- do verniz m o l e , d e q u e Mr. ÍSo^se taõ p o u c o pei t e n d e falir , p o r n a õ ser aind.i m u i t o io*:do n • seu t e m p o ; cora t u d o d e s t e v e r n i z h e q u e mais d i f u s a m e n t e se Ira de t i a t a r n e s t a nova e d i ç ã o ; a q u i se a c h a r á o m e i o de se s e r v i r deite , para gravar á á g u a forte , e descii-p t o c o m t a n t o c u i d a d o , c o m o fez Mr. iíosse do ver-niz d u r o ; a l é m d i s t o , se a c h a r ã o t a m b é m os princí-pios da g r a v u r a , q u e facilitarão nos P r i n c i p i . ufes

os m e i o s d e se a p e r f e i ç o a r e m na p r a t i c a d e s t a bel-la A r t e .

(29)

Mo-A Mo-AGUMo-A F O R T E , E Mo-A BURIL.

Modo de Jazer o verniz duro para gravar a agua forte sobre o cobre vermelho.

X Omaô-se 5 onças de pez Grego , ou , na sua fal-t a , pez graxo , ou de Borgonha : 5 onças de resina de T y r o , ou colofonia, ou lambem na sua falta r e -sina commum. D e r r e t e - s e tudo junto a fogo bran-do em hum vaso de barro novo bem vidrabran-do e lim-p o ; delim-pois de d e r r e t i d o , e bem m i s t u r a d o , se lhe ajunlaõ 4 onças de bom óleo de nozes , ou de li-n h aça ; mistura-se tudo muito bem sobre o fogo por meia hora ; depois se deixa cozer esta mistura até que pondoa a esfriar , e tocandoa com o d e -do , faça fio , como hurn xarope bem espesso , e viscoso. Tira-se entaõ o vaso do fogo , e , estantfo o verniz hum pouco frio , se passa por hum pano d e linho novo para huma vasilha vidrada, e se guar-da depois em huma garrafa de vidro grosso, ou em qualquer outro vaso , que naô embeba , e se possa tapar bem. O verniz feito deste modo se pôde c o n -servar por vinte annos , e cada vez será melhor.

O f decido Mr. Callot me certificou , que todo o seu verniz lhe vinha de Itália , onde os Marcinei-ros o fazem , para envernizar as suas obras de ma-deira , e o chamaô vernice grosso de lignaioli, elle m e deu huma porçaô deste verniz , de que eu m e t e n h o servido a muito tempo , e agora me sirvo da-quelle , que acima descrevi. O melhor nos vem d e Veneza , e de Florença.

Observação.

O verniz duro , de que Mr. Bosse deu â ãis-Cripçaõ, he sugeito a muitos inconvenientes ; o de

(30)

4' M o n o v E G R A v 4 R

Callot , que se segue he muito m e l h o r , e mais Fá-cil a empregar. Eis-aqui o modo , porque elle se laz e m Florença , e em Veneza.

Verniz duro , de que usava Callot, chamado com* mummente verniz de Florença.

Toma-se huma quarta de óleo graxo bem cla-ro , o feito de bom óleo de linhaça , semelhante ao de que usaõ os Pintores , faz-se a q u e n t a r em huma paneila nova vidrr.di , e ajuma-se-lhe depois huma quarta de abneeeg em lagi ir.ias pulverizada ; me-xe-se tudo muito bem a'<• que iu.ciramenie se te-nha derretido. Passa-;<e entaó toda a massa por hum prumo de linlio fino e limpo p ra huma garrafa de boca larga , que se tapa bem , p i r a a conservar me-lhor , e servir-se delia , como depois se dirá.

Modo de fazer a mistura de sebo e azeite para co» brir as chapas nos lugares , que se na<~> querem

muito projnndaihis pela agua Jorte.

Lança-se h u m a porçaô de azeite em humapa-nella vidrada g r a n d e , ou pequena , segundo a quan-t i d a d e , que se quer fizer da misquan-tura , põem-se ao fogo , e depois de bem q u e n t e o azeite , ajunta-se-lhe o sebo ; estando este derretido , toma-se hum pouco com hum pincel , e deixa Se cair algumas -gouas delle sobre q m l q u e r couza dura e f i i a , por e x e m p l o , huma, chapa no c o b r e ; PO as got,ta$ se tor-.naõ m e d i a u n a m e u t e drrras , he urova de que adoze

d e sebo e azeite foi bem proporcionada ; porque bem se vè , que , estando a mistura muito liquida ; he porque tem muito azeite. Tendo-a pois feito de boa sorte , deixa-se ferver por espaço de huma hora , para que se m i s t u r e m , e liguem bem ambas as ma-térias , até que a mistura se faça vermelha , a u qua-fj vermelha, , porque d e outra sorte saõ sujeitas ç

(31)

A AGUA F O R T E ; E A B U R I L . 5

•separar-se, quando se emprega a mistura. A r.i/aô de se ajuntar azeite ao sebo , he só para que e.ríe

fique mais liquido , e naô se endureça tf.ó d r p - e s s a j pois q u e , se se fizer derreter somente s e b o , ainda bem se naô terá applicado ao lugar c o m p e t e n t e , quando já elle estaiá duro. No Inverno he p i t c i j o ajuntar sempre mais azeite.

Modo de jazer a agua forte para o verniz duro.

Já dice . que esta agua forte se faz de v i n a g r e , sal ammoniaco , ssl commum , e verdete. O vina-gre deve ser do m e l h o r , o mais fonte, e mais pa-ibete ; o branco he ordinariamente o melhor. O sal ammoniaco deve ser bem claro transparente , e lim-po O sal commum deve lambem ser bem limlim-po. O v e r d e t e , (pie seja também puro , secco , sem ras-pas de cobre e sem os páoszinhos de eaixos de u v a s , que costuma trazer.

Composição da agua Jbrte,

Tomaõ-se 3 canadas de vinagre , 6 onç-s de sal c o m m u m , 4 onças de verdete , ou de tudo a pro-porção , que se qui/.er fazer mais ou menos agua foi t e , pizaõ-se miudamente estas m a t é r i a s , e met-tem-se todas n'hum vaso de barro bem vidrado , e suflicieníe para conter maior q u a n t i d a d e , de modo que em fervendo , naô tiesborde por fora, o que está dentro ; cobre-se este vaso , e leva-se a fura fogo forte, para lhe dar p r o m p i a m e n t e duas ou três fervuras e naô mais e descobnndo-o sempre ao ponto em que elías vem a s u b i r , e naô a n -t e s , mexe-se com hum pequeno p á o , -tendo sem-pre cuidado em que naô deite por fora , p o r q u e , cTordinario , quando esta agua começa a ferver , se empola , e sobe muito ; por isso he que eu r e -c o m m e n d o que o vaso seja grande.

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-C M o n o D E G R A V A R

T e m i 9 pois dado duas ou três fervuras , tira-se

o va*-o dj fo/wj , e d e i x a - s e esfi iar c o b e r t o : depois <_],. |Vi'i . í .->|>"j0-so em huma g u r a í a , que .->e deixa

í o n o u v i r p >r h u m ou dons dias p.ira eutaõ se

ser-\ a da i •_; u i b u t e , que ella c o m e m . St; ; •pplican-»!</-. a t h p i srj observa que ella he laõ forte,

q u e t;tnma>-a os tallio- f z e n d o estalar o v e r n i z ,

nao tem m.iis q u e , m o d e i a l l a d e i t a n d o - l b e huiu c o p o ou fimis d o v n c g i e , de que ella se fez.

O viu qre di-aifolo lie o m e l h o r para fazer es-ta fgiM lorte , e n to he es-taõ sugeito a íazer eses-talar

o verniz.

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A AGUA F O R T E E A BURIL.

Meio de conhecer o bom cobre , de o reduzir a chapas , de ojolir, e desengra.xar antes de lhe

applicar o verniz.

\J Cobre vermelho foi sempre tido pelo melhor

para a gtavma assim a b u r i l , como a agua ferie ; ha o a m a i e i l o , que também se chama E t a õ , o qual b e ordiuai iamente mui agto cheio de p rfes estra-nhas , e m 1 limpo : também o ha vermelho com esias más qu. lidados, que per conseqüência se d e -ve legcitai , e tanto mais , poioue a obra , q u e nelle se fizesse, pareceiia á s p e r a , e má. T a m b é m a p a r e c e algum que he qua.si taõ brando , como o ciiumbo ; e este naô he ainda da soite , que se

deve p i o c u r a r ; poique cb irando-se-lhe a agua for-t e depois de gravado , ella o profunda pouco , e em muito t e m p o , e ( o que he peior ) estala o ver-niz , e faz os traços mal Jimpos ; para me explicar m e l h o r , he c o m o , em c o m p a r a ç ã o , se se fizessem com pena e tinta alguns riscos em p?pel p a s:e n t o ;

assim ficaô os tiaços pouco limpos , e confusos huns com os o u t r o s ; o que naô admira , visto que a agua forte estala o v e r n i z , e achando o cobre taõ bian-d o , e taõ poroso- ella o corroe , e facilmente se in-troduz para baixo do verniz , fazendo-o deixar o l u g a r , em que estava applicado.

Ha também cobre com humas certas veias mo-les e agras ; o u t r o , que he cheio de pequenos bu-r a c o s , chamado cinzento ; outbu-ro cheio de mabu-ré hns-zinhas , que he preciso brunir chamado tinho^o.

Mas o bom cobie vermelho he c h e i o , e tapa-d o ; o que se pôtapa-de c o n h e c e r , gravantapa-do nelle com

o buril,- porque se for agro seutir-se-ha difficuIda-de e rangido em abrhlo ; e se for b r a n d o , parecerá

que se corta c h u m b o ; peio c o m r a i i o , sendo b o m , o

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8 M o n o D E G R A V A R

o buril o corta sem sentimento de rangido , n e m de moleza mas com huma pequena força , e huma icbistencia cheia e d o c e , como quando se corta o ouro e a prata em comparação dos outros metaes.

Modo de eslaqucar e polir o cobre.

Naô he absolutamente necessário ao que quer saber g r a v a r , o saber também estaquear (1) e polir elie ineb.no a sua chapa mas como se pôde achar em pai t e , onde naô haja cobre se naô no estado, em que os (àildeireiros o c o m p r a ò ; julguei conve-n i e conve-n t e econve-nsiconve-nado , e isto mesmo poderá servir para se conliei er se está bem polido , e capaz de nelle se fazer huma gravura limpa.

Estando seguro da boi qualidade do cobre , da-ae ao-Cildeireiro a m e d i d a , da grandeza e grosau». r a , de que se quizer a chapa.

Huma chapa do tamanho que os officiaes cha-maô de meia folha e que he , pouco mais ou me-nos , de doze polegadas de hum lado , e nove de o u t r o , deve ter quasi a gro«sura de huma linha, e á p r o p o r ç i ô para os outros t a m a n h o s .

Jlecommend j-se , que seja bem estaque^da , ou applanada a frio, porque sendo assim , o cobre se faz muito menos poroso, e isto he de muito gran-d e conseqüência. Toma-se gran-depois a chapa as-sim estaqueada escolhe-se o seu lado mais igual, e meiLos escamoso , e assenta-se sobre huma taboa inclinada , pondo-Ihe de encosto pela parte debaixo dous pequenos pregos , paia que elli naô escorre-gue , o se conserve firme sobre a taboa.

Entaô para começar a cmpomesalla (a) toma-se hum

( i j Est iquear , iprmo conhecido e adopiado pelos Artistas paia explicar o mesmo que aplainar ou iater a í i i o .

(2) Assim se di/. geralmente da acraõ de esfregar rs chapas

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A AGUA F O R T E E A B U R I L . 9

n u m g r a n d e pedaço de tijollo , e pgua limpa , e com isto se esfrega bem firme , e igualmente a chapa h u íTia vez por todo o seu c o m p r i m e n t o , e depois p e -la sua -largura , molhando-a de vez em quando , a t é que nao apareça mais cavidade , n e m sinal algum ou mossa de martello , nem alguns buracos , ou esca-nias , ou outra sorte de dezigualdades ; depois do que se lava muito bem. Toma-se agora a pedra po-m e s bepo-m escolhida , esfrega-se copo-m ella a dita cha-pa, deitando-lhe também agua, assim como se fez c o m o tijollo pelo comprimento e largura , tantas v e -zes , e com tanta força , e igualdade , até que naô apareçaõ mais traços , nem raio algum do tijollo, sendo outra vez bem lavada.

Torna-se a fazer ainda a mesma operação com h u m a pedra macia de afiar , e agua , para desva-n e c e r os traços da pedra pomes : esta pedra de nffiar he ordinariamente azulada , e se acha t a m b é m da côr de a z e i t o n a ; e vermelha. Feito i s t o , lava-se outra vez a chapa com agua clara , de sorte que fi-que bem limpa.

Entaõ se tomará hum carvaô dos que se tem já escolhido , e queimado do modo seguinte : a sa-ber três ou quatro carvões de snlgueho bem ma-c i o s , grossos, e ma-c h e i o s , sem fendas , e de que os ourives c o m m u m m e n t e se servem para soldar.* ras-pa-se bem a sua casca , mettem-se juntos no fogo : e cobrem-se depois com outros carvões acesos e com hiima quantidade de c n z a por cirna de modo que a hi possaõ ficar , sem receber muito ar , por hora e meia pouco mais eu menos , segundo a Í lossma dos carvões enrre tanto he p i e c i s o , que o fogo os tenha penetrado até ao c e n t i o , e que li.es naô reste vapor ou luimulaue alguma; poris->o

B he

ctiuerfirie d ^ w a ^ e l ^ o com mn-Ieraeuõ dS <Í9^

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I O M O D O D E G R A V A R

h e melhor telios no fogo m a i s;, do que menos tema

yy ; e quando t>e julgar, que elles estaó em estado

cie se tiiai do logo , iança-se agua em huma vasi-il.a suíliciente p. ia os conter todos ; e tin ndo-os <o.rau lançaô-se a^sim mesmo em brasa na dita i'gua paia os ap gar , e deixar esfriar ; alguns h a , que se servem de ourina em lugar de agua , mas eu acho que a agua he d>\ mesma sorte boa.

Oueielido agora servir-se destes carvões para íicab. r de polir com elies a chapa , escolhe-se hum deilcs, ou laini pedaço , que seja grosso e firme, e q,ue se tc:iilia s u ^ t n t a d o no fogo , sem st* rncüai ; seguia-^e bem com a maó , e «apoiando hum do* seus cantos ou ângulos sobre a chapa esfiega-se íir-i n e m e n t e com elle para tíir-irar os ríir-iscos da pedra; naô imporia que .seja para esta ou para aquella par-te , com tanto que todos os riscos se apaguem. Se acontecer que o carvão naô faça mais que escorre-gar sobre o cobre , sem fnzer-lfe alguma mordica-r a õ , he signal de que elle naô he bom , pelo que devo-se escolher outio , que tenha esta qualidade, e que , logo oo esfregado na chapa com a g u a , se sinta á s p e r o , e que elle a desgasta , fazendo hum brando rugido ; sendo assim , pascase sempre na mesma direcçaõ sobre a chapa h u m a e muitas ve-zes , até que naô apare^sa mais em toda ella risco algum , p a l h a , ou b u r a c o , por pequeno que seja.

Se por acaso, como muitas vezes se e n c o n t r a , o carvão he algum tanto mais á s p e r o , e rijo , e dest gasta o cobre com muita aspereza , escolhe-se ou-tro , que seja hum pouco mais brando , e tome-se a passar com agua sobre o polimento doprimeiro.

T e n d o feito todo o possivel com o carvaô , e aparecendo a chapa bem lisa , isto he , sem risco» profundos nem b u r a c o s , he preciso tomar hum ins-tiuim 11:0 do aço bem polido , o redondo ou chato em ponta pelas duas extremidades em forma &6 c o ü i ^ a ô , chamado bruuidor j e tendo esfregado a

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cha-A cha-AGUcha-A F O R T E E cha-A BURIL. XI

chapa com hum pouco de a z e i t e , faz-se passar por cima o b r u n i d o r , apoiandoo com força sobre o c o -b r e . O melhor modo de -brunir huma chapa he d e naô passar o brunidor sobre o serr comprimento , n e m sobre a largura , mas sim de esguelba , isto h e , d i a g o n a l m e n t e , de hum angulo a o u t r o , o que tira muito melhor os riscos ou m a n c h a s , que o car-vão fez. Assim se brunirá toda a chapa de modo q u e fique por toda a parte inzente como hum espe-lho. Se por acaso lhe ficaõ ainda depois disto al-guns r i s c o s , he preciso repassar o bi uuidcr somen-t e por esse lugar em rhombo sobre os riscos asomen-té q u e elles totalmente se apaguem.

Os caldeireiros ordinariamente naõ brunem as chapas , menos que expressamente se lhes naô e n

-c o m m e n d e , e que por este trabalho se lhes naô pague mais alguma cousa : eis-aqni porque o Gra-vador he muitas vezes obiigado a f z e l l o em seu lu-gar , o que elle naõ deve desprezar ; do contrario as provas , ou estampas que se tirassem depois d' agua forte ter comido , ficariaõ todas manchadas , e cheias de riscos.

Estando assim pois bem polida , lava-se com agua limpa , e chega-se ao fogo pela parte de traz para lhe consumir toda a agua , que tiver ficado em cima ; e estando secca , esiiega-se com hum pano de linho bem limpo. Para est r seguro de que> ella naõ contém cou-a alguma de gordura esfrega-se com miolo de paõ ; também , tendo raspado so-b i e a dita chapa gred . íina , esfrega-se muitas vezes com hum pano b r o n c o , e depois limpase m u i -to bem de m o d o , que lhe naõ fique paõ , nem gre-: d a , nem outia qualquer cousa.

A chapa neste estado está prompta para se lhe implicar o verniz.

Ainda se pôde fazor outra cousn para e«tnr c e r -t o de que a chapa es-tá bem polida e he n andalli

ao impieasoi de talho d> ce . paia que ihe de

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X3 M O D O D E G R A V A R

ta ; como se estivesse gravada , e tire huma prova deli.4 em papel limpo •• t>e a chapa estiver bem po-lida o papei nada perderá da sua limpeza e biau-e m a : m s dbiau-epois nbiau-e prbiau-eciso tbiau-er muito ctiidadado n u limpada bem , que lhe naõ fique alguma parte da tinta do oi*o uu i u i p i c i j u i , u\jui uui.ru alguma p ^ iv.ui ia.

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3/o-A 3/o-ACU3/o-A. F O R T E E 3/o-A BURIL. I 3

Modo de applicar á chapa o verniz duro , e de o eiugrecer.

( Estamp. 1. )

j L i S t a n d o a chapa perfeitamente dezengordurnda e e n x u t a , corno tenho d i t o , aSsentà-se em hum

res-caldo , eme tenha al^cm pequeno fogo , e quando ei.a estiver medianamente quente , tua-se , e torna-se do di(o verniz com hum pequeno páo , ou ou-t i a qualquer cousa limpa , e ou-tua-se deile com a ponta do dedo huma pequena qu nridade , e tocan-do ligeiiamente a e h p a por mui as vezes corn esta jontfi do dedo , se appbcaiá o dito verniz ioni a maior igualdade possível por pequenos toques m e -diados cie distancias quasi iguaes , como mostra a figura supeiior da Estara.pa assignalada O. Haja o o cuidado de naõ deixar mais em huma parte , q u e na o u t r a , e se a chapa se tem esfriado, seiá p i e -ciso tornalla a aquentar , como r.nfes , tendo sem-pre o cuidado de que lhe naõ r s s e n e Í b uni p ó , ou sisco. Depois disto tendo enxugado Lem a pal-m a , ou parte carnuda da pal-m a õ , qi e corre-pende ,-o d e d o m í n i m o , bate-se com cila por oú.. a cl••mr a t é que todos os pequenos toques de v a .az cuhrad bem igual eunidameiite toda a exlençao u,i tua £ ce polida.

Torna-se entaô a passar ainda a r?efma palma

da maõ sobre a chapa , como enxugando ou cor-r e n d o sobie o vecor-rniz já estendido t\ fim de o la-zer mai^ u n i d o , e mais l u z e n t e ; e sc-bi e tudo se de-ve cuidar etn dr.ns comas ; h u m a , que haj; muito pouco verniz sobre a c h a p a ; outra , que naô es era

a maõ suadít j 'porque a humiuaútí do suor oc cpt «-ga

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14 M o n o n r G R A V A R

ga ao verniz , e em sentindo fogo , ferve e deixa j) quenos buraquinbos , quHsi i m p e r c e p t í v e i s ; naõ h,.vendo este cui 1 do , a agua forte fiuia nelles o n o - m o ei feito , que fará na obra , q u e assi.n se tiver giavado.

Observação.

O modo fie appücar , e estender o verniz sobre a chapa com a pai na da maõ , he sugeho á muiros inconvenientes , corno bem observa Mr. Bosse;

porque a!ém da incommidade de se queimar

ne^te trab ílio , o que se naõ pôde evitar , também a c o n t e c e muitas vezes suar a maõ e este suor o e c a s i o m r pequenos buracos imperceptíveis no ver-niz , de modo q u e , quando se vai a profundar a obra por meio da agua f o r t e - esta se introduz pelos ditos buracos , e vai fazer manchas na chapa e m muitos lugares. Por tanto , para evitar estes acci-d e n t e s , he preciso estenacci-der o verniz com huma p e q u e n a p o n c e t a de tafetá novo cheio de a l g o d ã o , como se costuma fazer ao verniz mole.

Quanto ao modo de enegrecer o verniz , lie o mesmo que Mr. Bosse ensina , excepto , que em lugar de huma candeia , he melhor servir-se de h u m pedaço de archote , ou de hum rolo de cera dobrado em três ou quatro dobras para dar hum fu-mo mais espesso. Em lugar de sustentar a chapa com a m a õ , o que he muito c u s t o s o , quando ella lie grande e f z , que muitas vezes se cjunirne a jnao , quando he pequena, serve-se de huin ou mais í l i c i t e s , ou toi ninhos pequenos paia a sustentar m is comniiulamente. Pode-se ver o que diceimos nobie esta matéria no artigo do verniz mole , .sen-do esta opeiaçaó a mesma paia ambas a s s o i t e s d e veiniz.

Estando pois o verniz assim bem igualmente estendido sobre a c h a p a , o meiu^do o t o m a r n e

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A A G U A F O R T E , E A B U R I L » I 5 gro h e , t o m a r h u m p e d a ç o d e a r c h o t e , ou r o l o d o b i a d o , c o m o a c i m a d i c e , e t e n d o o f.ceso , a p -p b c a r s o b r e a sua c h a m a a face e n v e i n i z a d a d a c h a • pa , e n c o s t a n d o á p a r e d e h u m dos s e u s c a n t o s , c o -r -r o m o s t i a a figu-ra infe-rio-r da E s t a m p a 1. t e n d o c u i d a d o em q u e os d e d o s , q u e a s e g u r a õ , n a ô t o q u e m o v e r n i z , o q u e a p p l i c a n d o a luz á c h a p a , seja s e m p r e de m o d o , q u e o m c r r a õ a n a õ t o q u e ; e assim se hirá a p p l i c a n d o p o r toda a e x t e n ç a õ d o v e r n i z , a t é q u e ciie fique bem n e g r o , a t i ç a n d o - a d e t e m p o s e m t e m p o s , p a r a q u e pussa e x p e d i i m e -l h o r o f u m o . F e i t o isto , h e p r e c i s o c o z e r , o u s e e c n r o di>o v e r n i z , c o m o vou a d i z e r ; e e n t r e t a n t o h e p r e c i s o t e r a c h a p a assim e n v e n i i s a d a d e m o d o , q u e l h e n a õ Cuia p o e i r a .

(42)

Mo-i 6 M O D O D E G R A V A R

&

Aludo de Jazer secar , e endurecer o verniz sobre a chapa. ( Estampa 2 . ) 1 1 F, p r e c i s o a c e n d e r h u m a g r a n d e q u a n t i d a d e d e n u v o e i , q u e n a ô e s t a l e m a o q u e i m a r , se for pos-sível e p r e p a r a r h u m f o g a r e i r o c h a t o , e d a forma d i m e s m a c h a p a , p o r é a i d e m a i o r e x t e n ç a õ , para a p o r e m c i m a .

Esta íigurn m o s t r a , c o m o se p ô d e fazer isto era h u m fogaó c o m h u m a t r e m p e para s u p p o r t a r a c h a -p a ; e a n t e s d e a -pôr a b i s e i á bom a t a r a o a l t o , c í t m o B C D , h u m l e n ç o l i m p o , ou c o u s a s e m e l h a n -t e es e n d i d a s o b r e o fogo , p a r a i m p e d i r , q u e l h e c a i a da c h n n i n é algum si^-co. E u d i r e i a m a n e i r a d e p r e p a r a r o f o g a r e i r o , p o r q u e ella h e d e c o n s e q ü ê n c i a , n a õ o b s t a n t e q u e ,

bem e x p l i c a ç ã o , a sua figura possa d a r a intelli-g e n c i a .

Pri n e i r a m e n t e e s t a n d o a c c e s o o c a r v a ô d e sor-t e . q u e n iô laça c h a m a , n e m essor-t.de m a i s , he pre-c i s o a r r n j d h ) d e huin.i fur.ua s e m e l h a n t e á da pre- clia-p.» , p o i é m c o m t u d o m a i o r q u a t i o d e d o s , pouco

m a i s ou m e n o s e m toda .1 e x t e n ç a õ , ou de cadi l a d o , p o n l o m a i s Liazas n a s e x t r e m i d a d e . » , c mui-t o p o u c a s 110 m e i o .

l'.sr; u d o pois a-sim di pos*o o fogo , .ncenta-se a

í h a o t ( ) t om as c o :.:•% s o i n e a U e m p e bem nomeio th» Io u e i . o c o m o t 111 P , e l e n d o - a conservado n h i por e |> « o d e d o u s m i n u t o s , p o u c o mais ou j n e i i " s |ti 111 ;> b n e n e nu i n v e r n o , se verá que eu* l i a .1 I m .-i t r i a o ; e IIIIÍTIIM se vir que esie bi-l u o oe Ciuiiiiuc , bi-lira-sc .1 c-i ».[ a d e ci.ua do io^o,

(43)

A ÁGUA. F O R T E E A B U R I L . 17 e com h u m p e q u e n o p e d a ç o d e páo d u r o e p o n t u

-<lo t o c a - s e h u m a b o r d a s o b r e o v e r n i z , e se e l l e Ja< . ' i b u e n t e o í e v . o i t a r , a c h o r l o - o a i n d a m ol e , h e p r e c i s o [>ôr o u t r a vez a c h a p a s o b i e o f o g o , c o m o estava ; u derx n d o a ainda abi p>r íium p o u c o , t o -c a - s e d e n o v o -c o m o p á o s i n h o , e &e elle n a õ t i r a r o v e r n i z sem se fazer força , d e v e - s e tirar logo a c h a p a d é c i m a d o fogo e deixalla e.-diiar. Se o ver-n i z p o s e m l e s i s t e m u i t o ao páo , h e p r e c i s o l a ver-n ç a r a g u a poi d e t r a z da c h a p a , p ra a fazer e fiiar p r o u t p t a i n e n t e , t e m e n d o , q u e o s e u calor e n d u r e ç a m u i -to o v e r n i z e o o u e i m e . 1 L e m b r e - s e s o b r e t u d o , e m q u a n t o e s t i v e r a c h a p a s o b r e o f o g o , d e i m p e d i r q u e v e n h a a l g u m a c i n z a , ou q u a l q u e r c i s c o s o b r e o v e r n i z ; p o r q u e ella se a p p e g u i a , e d e p o i s se n >.ô p o d e r i a t i r a r ; m a s q u a n d o elle se t e m t o t a l m e n t e e n d u r e c i d o , n a ó h a m a i s q u e t e m e r ; e se l h e c a h i r a l g u m a c o u s a , s e p o d e r á liralla, s o p r a n d o , ou e s p a n a n d o l i g e i r a m e n -t e c o m h u m p i n c e l p r ó p r i o , e macio , ou c o u s a e q u i v a l e n t e .

Cosido assim o verniz , e a p p a r e c e n d o c o m m a n c h a s p a r d a s , ou quasi c i n z e n t a s , e sem l u s t r o , f a z e m s e n e g r a s e l u s i r o s a s , c o m o o mais e f r e g n d o l h e s a p o n t a do d e d o c o m h u m p o u c o de s e -b o , ou c o m a m i s t u i a que diiei , t; c a n d o ligei-r a m e n t e c o m isto s o b i e as ditas n u d o a s ; d e p o i s c o m a pí-.ima da m a u e s f r e g a n d o e m t o d o o s e n a d o esses l u g a r e s .

(44)

Mo-; 8 M O D O "Mo-; B G R A V A R.

"••A

Modo de desenhar , ou est.ir.dr o desenho sobre a cluipa.

J 1 A dons meios de m o s t r a r , o que se quer fazer, sobre n c b a p i envernizada a v e i n i z d u r o .

O p n m e i r o he , ter muito bom Epis verme-lho be n macio , e em pó s u b t i l ; mas he muito diffh ul oso aehallo taõ b o m . que naô fassa raios ou liseos no v e r n i z ; por isso h e , que eu me naõ in-clinarei para este m e i o , e acho conveniente o servirse delle só por necessidade , como quando , d e -pois de ter estarsido o desenho , como vou a di-z e r , se quer mudar , ou se tem esquecido estarsir ahi alguma cousa : naõ Paliarei pois senaô do segundo m e i o , que he f a z e r , e aperfeiçoar bem c o r i e -c t a m e n t e n lápis , a pena ou a pin-cel o desenho em bom p a p e l , e esfregallo depois por detraz coia-o ditcoia-o pó de lápis , de m coia-o d coia-o . que fique bem , e igual-m e n t e verigual-melho por todo esse lado : entaò sopran-d o fora o supérfluo, se passará por sima sopran-desta par--te pulverizada a palma da maõ por separ--te ou oito ve-zes , a fim de que o tal pó se apeqne bem ao pa» p e l , e assim naõ possa sujar o verniz ; e se por aca-so for necessário olear, ou envernizar o-d<*ieniio co«

mo muitas vezes suecede , que elle está p r.i a-<ü-reita , e por conseqüência , tendo-o grav do , fica-ria a impressão p i r a a esquerda; ou também , n 5 o querendo sujir com o pó do lápis por d e t r a z , toma-se hum papel muito fino do tamanho do mes-mo desenho , esfrega-se de hum Lido com o dito pó . como acima dice , e applica-se este mesmo la-do sobre a face envernizada da chapa ; acenta-se depois sobre este papel o desenho que fique bein uuido sobre a chapa o papei avermelhado de m o d o , ,

(45)

A AGUA F O R T E E A. BURIL. JO,

q u e naõ possa fazer variação , ou mudança de modo algum ; e para maior segurança , se ajuntaô com cera , ou cousa semelhante.

Modo de conhecer as boas agulhas , e encaballas para serem próprias a gravar.

l l A v e n d o agulhas de todas as grossuras , destas se escolhem as que se quebram direitamente , sem se curvar , e que sejaõ de huma grà fina .* e tendo entaò pequenos páos redondos do comprimento de meio p é , e da grossuia de huma pena de escrever, ou mais grossos flguma cousa , de huma madeira rija , e naô sujeita a rachar-se , se introduz na ex-tremidade de cada hum delies huma agulha , das que se tem escolhido , de sorte que lhes fique de fora do cabo , qu si o mesmo c o m p i i m e n t o , que se mos-tra em huma figura da estampa que se vai expli-c a r ; e quando se tem enexpli-cabado três , ou quatro de diversas grossuias segue-se o a g u ç a d a s , como vou a dizer.

(46)

For-2 0 M O D • » B G » A V A R

•s.r - . <.*;

Forma , que se drve dar às pontas das agulhas, «•

o mudo de as a Limar.

o * (Estampa 3. )

A l E preciso ter duas qualidades de instrumentos-p i r a gravai sobie o vciniz . hum a que eu e b u i o ponta e outro rhopa ; na figura supelior da estam-pr se vé a r e p r e s e m çaõ das p o n t a s , e na inferior a das chop.is.

Tendo encabado as agulh is de differentes gros-suras , c o m o estas figuras r e p r e s e n u ó , reseivaõ-se-as grossreseivaõ-se-as , para f.zer dellreseivaõ-se-as reseivaõ-se-as c h o p a s , e reseivaõ-se-as finreseivaõ-se-as,. e ineaus para as pontas.

Para as p o n t i s aguçaõ-se três ou quatro d e differentes grossuras , e pontudas quasi como o or^ dinario das agulhas d-e cozer á excepçaõ d is

gros-s a gros-s , cuja pon.a deve gros-ser aguçada maigros-s obtugros-samen- obtusamen-te ; na figuia superior se l e p r e s e n u õ da sorobtusamen-te ' que,

eu quero dizer.

Amolaõ-sR depois d u a s , ou três também de dif-ferentes grossuias, de sorte que a poma seja chata ou de gume , e mesmo qmsi em forma de huma chopa de omives ou d l face de hum b i u d , como se vé na figura infeiior. Nota-se que p i r a as amo-lar lie pi ei iso ter hum i pedra d e a f i . r c o m azeite,

que nao desg,>;e muito a fim de lhe poder dar hum corte I I M I vivo ; porque quando a pedra he .•spera , e demasia muito , nunca o fiz com igual-dade o deixa ivb.tibts ao redor d e s p o n t a s , que sa<> muito pi ejudiciaes gravamlo sobie o veiniz: h e pie iso sobretudo , que as aguíliaã pontudrs se* j.iô amoladas em ponta bem redonda paiaqu<Mom facilidade se possaõ mancar cm todos os remidos

(47)

A A G CA F O R T E E A. B U R I L . a i s o b r e o c o b r e e o v e r n i z ; p o r q u e m o s e n d o a s

-í.im , b e m se vé , q u e ellns n i õ c o r r e i úô s e m p r e d o m e s m o m o d o s o b r e o v e i n i z e seiá diffieultoso c o n d u z i d a s á v o n t a d e : q u i n t o ás c b o p a s q u e sei d e s t i n a õ para grossos t a l h o s u i ó se lhes d e v e fa-z e r m u i t o c o m p r i d o o oval ou face oblíqua.

Se , d e p o i s d e ter t r a b a l h a d o h u m p o u c o s o -b r e a chapa , se s e n t e , q u e as p o n t a s , ou c -b o p a s n a ô c o r t a ó l i m p a m e n t e , he p o r q u e a t e m p e r a d a s a g u l h a s n a õ p r e s t a p a r a esta obra e n a õ se c o n t i n u e m is a u s a r dellas , p o r q u e seria p r e c i s o a m o -laljas a c a d a t a l h o , q u e se fizesse. B e s t a d i z e r o m o d o d e «aguçar o p o n t e i r o d e e s t a i s i r para c o n t r a t u a l- os d e s e n h o s s o b i e o vei niz..

Torna-se h u m a d a s p o n t a s m e a n s , e a m o l a - s e n a p e d i a d e afiar c o m h u m tal g e i t o , q u e ella pos-sa ao d e p o i s c o i r e r para tod ;s as p a r t e s n o p a p e l , sem o e s f a r p a r ; por q u a n t o , se ficar m u i t o potrtuda , v i n d o a voltar d e h u m a ou d e o u t r a p a r t e s o -b r e o p a p e l , s e g u n d o os c o n t o r n o s , q u e c o m p õ e m o d e s e n h o , ella n a õ d e i x a r i a de o e s f a r p a r ; e he a r a z a õ p o r q u e se d e v e a m o l a r d e s o r t e q u e ella fique h u m p o u c o r o m b a , e polida , para c o r r e r l i v i e e> d o c e m e n t e , sem r o m p e r , n e m e s f u p . t r o p a p e i q u a n d o for m a i s c a r r e g a d a .

E u faço ver t a m b é m na figura inferior d e s t a e s t a m p a a f o r m a d e h u m grosso p i n c e l A feito d e p e l l o de g r i s , q u e se d e v e t e r s e r v i n d o c o m o d e e s c o v a para tirar de c i m a o v e i n i z , q u e dtdlo s-.ir , q u a n d o se g r a v a , e m e s m o o pó q u e l h e tiver c a -b i d o em cima ; isío se p ô d e fazei l a m -b e m c o m a b a r b a ou pluma de h u m a p e n a , p o r é m a c h o m o l h o s h u m semulluuua; p i u c e L

(48)

Mo-2â M ò s o D E G R A T A *

$ % > ;

Modo de contratirar, ou estarsir o desenho sobre a chapa.

d A' se dice acima o modo d e a p p l i c a r , e segurar sobre a chapa o desenho , que alii se quer gra-v a r ; eis-aqui agora o modo de o c o n t r a t i r a r , ou es-tarsir.

Estando o desenho bem fixo sobre a c h a p a , toma-se hum ponteiro d e e s t a r s i r , para o passar so-bre os contornos das figuras , que ahi h o u v e r e m , carregando f o r t e , e i g u a l m e n t e , sobre t u d o , quan-do ha quan-dous papeis ; porque se o desenho he aver-

-melhado p o r d e t r a z , naô he preciso carregar t a n t o , como quando ha dous papeis , ou seja hum deiles oleado , ou naõ ; mas se o desenho naô he aver-melhado pelas costas , e o vermelho vai subposto e m outro p a p e l , já saõ dous papeis , que se tem debaixo do ponteiro ; e por conseqüência he preci-? so carregar m a i s , do que se fosse só hum , querO dizer , o desenho avermelhado. Feito isto deve-se saber , que todos os contornos do desenho , sobre os quaes se tem passado assim o p o n t e i r o , estarão marcados , impressos , ou estarsidos no verniz da chapa.

Entaõ se o desenho he avermelhado por d e -traz , tira-se com geito levantando-o direitamente de cima da chapa , sem que elle a esfregue de mo-do a l g u m ; e se se fiver avermelhamo-do ourro p a p e l , tira-se primeiramente o desenho , e depois l^van-ta-se , como tenho dito , o papel avermelhado ; e tendo descuberto o verniz, bate se com a polpa da maõ nplumo sobre os traços vermelhos , que appa-recerem , limpando de tempos em tempos em hum pano o pó , que se tiver apegado á maô , a fim d e

(49)

A A G U A F O R T E E A B U R I L . Z3

o naõ transportar de huma para outra parte da cha-pa ,• e tendo assim batido por toda a cha-parte , se verá que os c o n t o r n o s , que eraó vermelhos , se tornaô esbranqueçados , e por este meio estarão firmemen-te unidos ao verniz.

'Toma-se depois o grosso p i n c e l , de que fallei acima , ou ainda mesmo a pluina de huma p e n a , e passase por todo o verniz limpando , ou espanan-do de sorte , que naõ fique pó algum , e para se trabalhar, o melhor he pôr a chapa sobre huma es-tante , ou outra cousa de igual commodidade.

(50)

a4: M O D O D E G R A V A »

& — - &

Meio de conservar o verniz sobre a chapa , quan-do se está gravanquan-do.

J l i S t a n d o a chapa sobre huma estante , põem-se sobre o verniz huma folha de papel do mais fino, e í»obre esta fo.ha outra de papel ptnrdo ou b r a n c o : estes papeis *oó para se assentar rieiies a m a õ , q u . n d o s»e trabalha , e i m p e d i r , que ella toque o verniz , e para assentar sobre elles huma parte da regu i , q u a n d o se iem de traçar linhas direitas , a fim de que também ella nao toque o verniz.

He pieciso sobretudo a c a u t e l a r , q u e naõ haja algum cisco entre estes papeis e a c h a p a , porque, se o houvesse , naõ deixaria de r o m p e r o verniz, e fazer-lhe raios , logo que se pozesse a m a õ , e fi-zesse qualquer movimento sobre os papeis ; e se fosse s e b o , ou c u r a cousa de goidur , apegar-se-liia ao verniz , e o que he peior , entraria pelos traços ou pontos , que já .-«e tivessem feito ; por tanto he muito p i e o > o ;.c. u t e l i r todos estes suc-cessos. Tu naõ (juiz dar huma figuia d i s t o , por me parecer desnecessário além de que n o u t r a parte, íippresento huma e s t a m p a , que mo-tra (latamente dous Gravadores (pie trabalhaõ, hum a agua for^ t e , e outro a buril.

(51)

A AGUA F O R T E E A BURIL. a5

- ''•*£

Modo de gravar sobre o verniz.

J L / E v e m - s e considerar na gravura muitas cousas, a saber , linhas , e traços , crusados , de differentes grossuras , direitas e c u r v a s , etc. assim já v e m o s , que para fazer os mais delicados , se deve usar d e huma ponta delgada, para os mais grossos , também huma ponta mais grossa , e assim pioporcionada-mente para os outros ; mas he preciso n o t a r , que com huma agulha grossa aguçada em ponta c u r t a , naõ se podem fazer os traços grossos, se naõ de três. modos. O primeiro he , carregando-ibe com força ; e sendo a ponta curta e grossa , fará sim huma pas-sagem mais larga , mas se se attender bem a esta m o d o , ver-se-ha que naõ pôde sahir hum traço lim-po , entretanto , que o redondo da lim-ponta naõ corta o verniz , mas antes o entranha , esmagando-o. O segundo he , fazendo muitos traços juntos huns aos outros por muitas e repetidas vezes , mas isto h e muito dilatado e drfficil, O terceiro he , fazendo h u m traço medianamente grosso , e expollo por mais tempo a acçaõ da agua forte : porém aqui ha mais que d i z e r , como farei ver em seu lugar.

O r a , pela experiência que faço todos os d i a s , acho . que as chopas saõ mais próprias para os tra-ços grossos , do que as pontas , porque ellas cortaõ pelos lados , o que as pontas naõ fazem ; e depois que eu dicer o modo cie trabalhar com as pontas na-quellas c o u s a s , para que ellas saõ próprias , direi t a m b é m o modo de trabalhar com as chopas nos lugares, em que ellas .se devem preferir ás p o n t a s ; por onde conheceremos , que he este o meio de fazer os traços grossos com toda a limpeza.

(52)

Ob-a6 M O D O D E G R A V A R

Observação.

Haveriaõ muitas cousas , que ajuntar ao q u e diz Mr. Bosse neste artigo , e nos seguintes a res-peito das pontas e chopas , e do seu uso , segun-do a naturesa das differentes obras , que se tem de fazer ; mas como isto obrigaria a interromper mui-, tas vezes o discuròo por notas ou observações e como além disto , o modo de gravar a verniz d u r o , como aqui se t r a t a , já naõ está em uso ; julgou-se conveniente reservar tudo o que se houvesse de di-zer de mais , para o introduzir na segunda p a r t e , que pertence á gravura a verniz mole , e onde se trata a fundo desta matéria : por isso enviamos pa-ra abi o Leitor.

(53)

x AGUA F O R T E E A B U R I L . £ 7

'.'1%; Vi- í «

. rr. _?«*. .•<•..

Modo de governar as pontas sobre a chapa,

( Estampa 4. )

«J A' sabemos pelo que fica dito , que as pontas d e gravar devem ser aguçadas bem r e d o n d a m e n t e , pa-ra que se possaò voltar com liberdade sobre a chapa e que além disto devem ser bem agudas a fim de cortar limpamente o verniz e o cobre em todo o sentido , e achanse , que ellas naõ vaõ com do-cilidade para todas as p a r t e s , que s e q u e r , he por-q u e naõ saõ bem redondas na extremidade.

Hora havendo-se de fazer linhas ou traços com igual grossura de huma á outra ponta , ou sejaõ r e -c t a s , ou -c u r v a s , -como mostraõ as duas linhas AB, C fig sup. ) o senso natural nos d i z , que he preciso e m todo o seu comprimento carregar sempre a pon-ta com a mesma igualdade. Se se quer fazer h u m a de grossura desigual no seu c o m p r i m e n t o , como as duas signaladas a , b , logo vemos , que he preciso carregar mais fortemente , começando em a, e sem-pre menos ao chegar a b , aliviando continuamente a maõ de huma ponta á outra , segundo se q u i z e r , q u e sejaõ de desigual grossura em todo o seu com» p r i m e n t o . Se se quer f i z e r , como as duas a b, nos r e p r e z e n t a õ , e de que a parte mais grossa he para

G ; deve-se começar mui levemente do lado a , e

depois ao contrario das outras , carregando de mais a mais até G, e fazendo de G até b, como se tem. feito , .imitando a figura b, se teraõ os traços grosr 6os e finos , como mostra a dita figura a b.

O que tenho dito sobre estas três sortes de t r a ç o s , que podem ser seis differentes l i n h a s , bas-ta para todas as formas de riscos , que se podem

(54)

* t M o n o D B G R A V A ,R

e n c o n t r a r , assombrando coin elles o d e s e n h o t a l , qual pôde s e r ; porque bem se vó , que a linha re-cta AB , e a sua adjunta , que lie curva , saõ de igual grossura de huma e x t r e m i d a d e á outra , e q u e a curva c o m p r e h e n d e em si todas as sortes de cur-vaturas geralmente , e q u a n t o ás outras duas , a differença naõ consiste m a i s , que nos seus finos e grossos.

Para mostrar , que o n u m e r o dos traços con»; venientes á gravura naõ h e m a i s , que h u m a reite* raçaõ de ambas estas sortes de linhas , eu repito cada huma dellas muitas vezes nas figuras mn, opt

qgr, e para mostrar t a m b é m , que quando se

cru-zaõ os primeiros t r a ç o s , naõ h e m a i s , que reiterar a mesma cousa ; eu fiz estas três sortes de traços c r u z a d o s , a s a b e r , t, e, u, para os l u g a r e s , em, q u e se tem de fazer traços direitos , ou curvos de igual g r o s s u r a , ou que diminuaõ por huma p o n t a , ou por ambas ; e por maior que seja a sombra> ainda m e s m o para representar a noite , já sabe«j mos , que h e sempre a repetição de qualquer das

ditas linhas. , Q u e r e n d o - s e , que esta gravura se assemelhe

á do b u r i l , he preciso carregar com mais força nos lugares , em que os traços devem ser grossos, e pela mesma razaò carregar menos , onde elles d e -vera ser finos , porque deve-se notar , que neste c a s o , a obra he feita e m huma chapa envernizada t e que , quando se lhe applicrr a agua forte , ella penetrará com mais violência e promptidaõ aquelles traços , em que se tiver carregado mais fortemett-i t e , do que os outros , em que a penas se tem le-vantado o v e r n i z ; a d v e r t i n d o , que he preciso ain-i da nisto portar-se como direi depois , tratando da applicaçaõ da agua forte ; para que por este meio venha a ficar a obra , seguudo a i n t e u ç a õ .

Digo m a i s , que depois de se ter gravado com huma ponta d e l g a d a , se se quizer ainda engrossai

(55)

mais-A mais-A t u mais-A F O R T E E mais-A B U R I L » * 9 m a i s o t r a ç o , h e p r e c i s o e n t a õ r e p a s s a l l o c o m o u -t r a p o n -t a c u r -t a e g r o s s a , c o n f o r m e a g i o s s u r a q u e se l h e q u e r d a r , e c o m esta p o n t a c a r r e g a r forte-t n e n l e n o s l u g a r e s mais g r o s s o s dos forte-t r a ç o s , a s s i m d a q u e l l e s , q u e se fizerao c o m a p o n t a , c o m o p r i n -c i p a l m e n t e dos q u e se t i v e r e m feito -c o m a -c h o p a ; e p o r e s t e m e i o as c h a p a s i m p r i m e m m u i t o m a i s . R e s t a a g o r a t r a t a r do m o d o d e t r a b a l h . r c o m as p o n t a s a m o l a d a s e m forma d e c h o p a s , as q u a e s s e r v e m , q u a n d o se q u e r alargar , ou e n g r o s s a r os t r a ç o s , ou fazellos taõ grossos , q u e seja p r e c i s o a b a n d o n a r as p o n t a s , o q u e n a õ se d e v e fazer c o m t u d o , s e n a ô e m g r a n d e e x t r e m o , p o r q u e as p o n t a s e n t r a õ m a i s v i v a m e n t e n o c o b r e , d o q u e as d i t a s c h o p a s ; p o r é m a e x c e s s i v a g r o s s u r a d o s t r a ç o s , q u e c o n v é m fazer , s e g u n d o as o e c a s i õ e s , o b r i g a r á m u i t a s vezes a servirse das c h o p a s , e o q u e se d e -v e f a z e r , c o m o a c i m a d i c e , h e , q u e d e p o i s d e t e r feito esses grossos t r a ç o s c o m a c h o p a h e p r e c i s o t o m a r h u m a d a s p o n t a s c u r t a s e grossas , e com, ella repassar f o r t e m e n t e p e l o m e i o dos ditos t r a ç o s , p r i n c i p a l m e n t e n o s l u g a r e s , q u e d e v e m ser m a i a largos.

(56)

3 e M O D O D E G R A V A R

Modo de fazer os traços grossos com as chopas, 6 o meio de as ter, e mane/ar sobre a chapa

en-vernizada.

( Estampa 5. )

J L / E v e - s e considerar na figura seguinte huma das chopas como hum i pena de escrever , cujo o?al

ABCD seja a a b e r t u r a , e a parte vizinha a C o b i

-ço que escreve : q u a n t o ao modo de pegar na dí« ta c h o p a , he semelhante ao da p e n a , á excepçao d e q u e nesta o talho , ou aparo he voltado para a maõ , e na chopa o oval ou face corresponde aé dedo polegar como mostra a figura 3. naõ he por-q u e se naõ possa voltar, e manejada em outrosea-t i d o , como por exemplo , se o oval fosse voloutrosea-tadopa^ ra o dedo médio , como se vê na figura 4« mas por* q u e me parece mais commodo o primeiro m o d o , e p o r q u e assim ha melhor disposição para carregar

c o m mais forca . e seçuranca*

Agora para c o n h e c e r o modo de fazer os trar ços grossos , e profundos, e quanto a chopa he pró-pria para isto vejaõ-se as duas figuras í. e 2. que eu fiz muito m a i o r e s , que o n a t u r a l , a fim de se p e r c e b e r melhor o que quero dizer sobre isto.

P r i m e i r a m e n t e , se vé que a figura ABCD h e a face , ou oval da chopa : ora se se podes-se carregar na chapa a ponta da chopa até a linha

BD, que he a mais extensa da sua largura , ella

daria hum traço da largura , que BD tem de com-primento , e que no seu meio seria c a v a d o , ou profundo do comprimento de ()(>; e se naõ se carre-gasse a chopa taõ fortemente , faria hum traço lar-: go e profundo, como mostra a figura 2. bode.

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