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A alienação parental e seus efeitos no núcleo familiar

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Academic year: 2021

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UNIJUI - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

MATEUS WINTER DE QUEVEDO

A ALIENAÇÃO PARENTAL E SEUS EFEITOS NO NÚCLEO FAMILIAR

Ijuí (RS) 2017

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MATEUS WINTER DE QUEVEDO

A ALIENAÇÃO PARENTAL E SEUS EFEITOS NO NÚCLEO FAMILIAR

Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: MSc. Marcelo Loeblein dos Santos

Ijuí (RS) 2017

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“Você deve ser a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi

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AGRADECIMENTOS

Acredito que toda caminhada em busca de um objetivo Só é de fato valiosa, Se estivermos acompanhados daqueles que amamos...

Assim, agradeço primeiramente a Deus, Minha força e minha sustentação, Para me fazer superar os desafios da jornada...

A meus pais, irmãos e amigos, Pelo apoio, incentivo e amor incondicional, Em todas as horas...

A meu orientador, por me auxiliar, Estimular e me acompanhar, Ao longo da elaboração deste trabalho...

A Universidade e ao Curso de Graduação em Direito, Por me fazerem evoluir como ser humano e como estudante, Proporcionando-me muitos aprendizados...

E a todos os demais que de alguma forma contribuíram Na construção dessa trajetória e deste trabalho,

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RESUMO

O presente trabalho de pesquisa monográfico, que discorre sobre o tema da alienação parental, desenvolve uma pesquisa acerca do surgimento da família no Brasil, sua evolução histórica ao longo dos séculos XVI à XIX, com grandes influências do Direito Romano, Direito Canônico e do Direito Germânico, a evolução do Direito Constitucional e do Direito de Família frente às mudanças culturais brasileiras, o estabelecimento dopoder familiar baseado no princípio da igualdade entre os cônjuges, e a proteção aos direitos fundamentais da criança e do adolescente, fundados no princípio do melhor interesse e no princípio do afeto. Apresenta-se o fenômeno da Alienação Parental, diferenciando-o da Síndrome da Alienação Parental. Ilustra-se os critérios de identificação, as características do genitor alienante e as consequências e danos psicológicos para as crianças e adolescentes alienados. Explana brevemente a Lei 12.318/2010, Lei da Alienação Parental, compondo comentários acerca de seus dispositivos legais. Por fim, examina o instituto da Guarda Compartilhada como forma de redução na incidência da Alienação Parental e a responsabilidade civil decorrente dos atos alienatórios.

Palavras-Chave: Alienação Parental. Criança e Adolescente. Família. Lei 12.318/2010. Poder Familiar.

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ABSTRACT

The present monographic research work, which deals with the subject of parental alienation, develops a research about the appearence of the family in Brazil, its historical evolution throughout the sixteenth to nineteenth centuries, with great influences from Roman, Canonical and Germanic Law, the evolution of Constitutional and Family Law in front of the brazilian cultural changes, the stablishment of family power based on the principle of equality between spouses, and protection of the fundamental rights of children and adolescents, based on the principles of the best interest and affection. The phenomenon of Parental Alienation is presented, differentiating it from the Parental Alienation Syndrome. The identification criteria, the characteristics of the alienating parent and the consequences and psychological damages for the alienated children and adolescents are illustrated. It briefly explains the Law 12.318 / 2010, Law of Parental Alienation, composing comments about its legal provisions. Finally, it examines the institute of the Shared Custody as a way of reducing the incidence of Parental Alienation and the civil responsibility resulting from the alienating acts.

Keywords: Parental Alienation. Child and adolescent. Family. Law 12.318/2010. Family Power.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 08

1. A ORIGEM JURÍDICO-SOCIAL DA FAMÍLIA NO BRASIL ... 11

1.1. O contexto das famílias brasileiras do passado à contemporaneidade ... 12

1.2. A família do Código Civil de 1916 até a promulgação da CF/88 ... 13

1.3. A família após a Constituição Federal de 1988 ... 15

1.4. Os princípios constitucionais basilares do Direito de Família e de proteção à criança e ao adolescente ... 19

1.5. Do poder familiar ... 26

2. ALIENAÇÃO PARENTAL ... 29

2.1. Diferença entre alienação parental e síndrome da alienação parental ... 29

2.2. Como se caracteriza a alienação parental e quais as características do indivíduo alienador. ... 31

2.3. Danos e consequências psicológicas do menor alienado ... 34

2.4. Análise da Lei da Alienação Parental – Lei nº 12.318/2010 ... 35

2.5. A guarda compartilhada como medida de redução da alienação parental ... 43

2.6. Responsabilidade civil decorrente da alienação parental ... 45

CONCLUSÃO ... 48

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INTRODUÇÃO

A Alienação Parental é um tema de infindáveis discussões entre a grande maioria dos doutrinadores da área do direito de família, e que apresenta inúmeras dificuldades à estruturação de uma sociedade por meio da unidade familiar. Apesar de esse fenômeno ter sido integrado ao ordenamento jurídico brasileiro somente no dia 26 de agosto de 2010, através da promulgação da Lei 12.318/2010, o problema já se perpetuava a muitas décadas no meio social.

Tem-se como objetivo principal da pesquisa o estudo acerca dos efeitos da Alienação Parental no núcleo familiar, e de que forma esses efeitos podem vir a interferir na formação psicológica e emocional da criança e do adolescente, vítima dos atos alienatórios. O estudo monográfico será desenvolvido por meio de leituras doutrinárias de profissionais que atuam no ramo do direito de família e da psicologia integrada ao direito, artigos e jurisprudências de todas as esferas do Poder Judiciário.

Posteriormente, far-se-á uma abordagem sobre as medidas e mecanismos legais desenvolvidos ao longo dos últimos anos, para o combate da Alienação Parental. Para se adentrar no estudo desse fenômeno social, abordar-se-á, no primeiro capítulo, acerca do surgimento da família no Brasil e do seu contexto predominante do passado à contemporaneidade.

Será desenvolvida uma análise acerca das mudanças mais relevantes da unidade familiar diante do cenário de conflitos armados que se intensificaram a partir da segunda metade do século XIX. O Estado e a sociedade passam a perceber a necessidade de intervir na família, como forma de garantir o desenvolvimento regular dos filhos, quando os pais não estivessem presentes. Nesse período se fortaleceu a ideia de que a sociedade nasce no seio familiar, e de que as crianças como indivíduos em formação merecem proteção especial, para que no futuro cumpram suas funções sociais tanto em poderio militar como em poderio econômico.

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Para tratar acerca da intervenção do Estado na família, é importante ressaltar que as primeiras Leis que versam sobre assuntos como a unidade familiar, o casamento e o regime de bens são promulgadas ainda no século XIX. Tais legislações deram início ao que, posteriormente, viria a compor o Código Civil de 1916. A família desse período era estabelecida com a finalidade de cumprir funções sociais de riqueza e de perpetuação da espécie humana.

Abordar-se-á a concepção de família após a promulgação da Constituição Federal de 1988, e os princípios constitucionais norteadores das relações de família, e de proteção aos direitos da criança e do adolescente. Nesse contexto, destaca-se que as modificações no direito de família equipararam os direitos e deveres entre pais e mães, no exercício do poder familiar, abrindo o conceito de família para as mais variadas formas, não importando mais a existência do vínculo matrimonial para o reconhecimento da família. A formação da família passa a ser entendida através da expressão da vontade dos indivíduos, que buscam basear suas relações no afeto e na solidariedade.

Ademais, verificar-se-á a evolução do instituto do poder familiar, anteriormente denominado por “pátrio-poder”, que concentrava todo o poder de decisão e proteção dos direitos de seus indivíduos com o pai de família. Atualmente, o poder familiar diz respeito à atribuição de direitos e deveres, desempenhados em igualdade de condições, por ambos os genitores, na defesa dos interesses e dos direitos dos filhos. Conhecer o funcionamento do poder familiar é imprescindível para que se estabeleça um equilíbrio em situações de guarda dos filhos de pais separados ou divorciados.

No segundo capítulo, será explanado sobre a Alienação Parental, fazendo-se uma distinção da Síndrome da Alienação Parental. Importante ressaltar que, em razão da nomenclatura da Lei 12.318/2010, o presente trabalho optou por utilizar com maior contundência o termo de “alienação parental”. Averiguar-se-á também as características dos atos alienatórios e do perfil do genitor alienante, bem como as consequências psicológicas no menor alienado. Saber identificar as características dos atos de alienação é de grande relevância no âmbito jurídico, ainda mais para os profissionais que atuam na área do direito de família, que poderão contribuir com maior precisão no combate desse problema.

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Não obstante, será analisada a Lei 12.318/2010 (Lei da Alienação Parental), fazendo-se comentários breves a respeito de todos os fazendo-seus dispositivos legais, e, posteriormente, analisada a Lei 11.698/2008 (Lei da Guarda Compartilhada), a qual é defendida por grande parte da doutrina como um método para se reduzir a incidência da Alienação Parental. Por fim, abordar-se-á sobre a possibilidade de ocorrer a responsabilidade civil, em decorrência dos atos alienatórios.

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1.A ORIGEM JURÍDICO-SOCIAL DA FAMÍLIA NO BRASIL

Ao longo dos tempos, o ser humano sempre viveu aglomerado, em pequenas comunidades, haja vista sua absoluta dependência no período inicial da vida, não sendo possível viver de forma isolada. Nesse contexto, a origem do discurso de entidade familiar no Brasil surgiu muito antes da consolidação da cultura, da religião ou do direito, sofrendo uma enorme influência da cultura portuguesa, grande colonizadora entre os séculos XV e XIX.

Por sua vez, a cultura portuguesa era completamente moldada pela influência das culturas romana, germânica e canônica. No decorrer desse período, o conceito de família que se difundia na cultura portuguesa trazia muitas características do modelo da família romana, que de um modo geral, estabelecia que a família se estendesse para além da consanguinidade e que o poder patriarcal fosse desempenhado de forma soberana sobre todos seus descendentes, estendendo-se até mesmo, aos seus escravos.

Dentro dessa perspectiva, é possível afirmar que o homem, chefe da família e detentor do poder patriarcal, exercia poder absoluto sobre a mulher, sobre sua prole e sobre algum número de escravos, tendo assim, o poder de dispor livremente deles, tanto no que diz respeito à vida quanto à morte.

Após um longo período de concentração do poder familiar nas mãos do patriarca, os moldes da cultura romana foram sendo alterados por uma nova forma de pensar nas relações humanas. Com o egresso do Imperador Constantino frente ao Império Romano, o Cristianismo passou a exercer uma forte influência, tanto na cultura romana, como na cultura portuguesa, e consequentemente no núcleo familiar.

A partir desse momento, surge um novo perfil de sociedade, uma concepção que passa a compreender autonomia e plena individualidade aos cônjuges, humanizando as relações entre todos os membros da unidade familiar, estabelecendo obrigações e deveres de parâmetros igualitários, e tratando o casamento como mera formalidade contratual, em que os cônjuges têm o direito de escolher o tipo de relacionamento que irão consolidar. Assim, aos poucos, o modelo de família patriarcal vai cedendo espaço para um novo modelo de família baseado na igualdade e na liberdade de seus indivíduos.

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1.1. O contexto das famílias brasileiras do passado à contemporaneidade

Consoante elucida Caroline de Cássia Francisco Buosi (2012) a partir da introdução do Cristianismo na sociedade romana, a evolução da entidade familiar assumiu mudanças tão progressivas que, o homem foi perdendo a autoridade absoluta, tendo que ceder gradativamente à mulher e aos filhos, que passaram a adquirir um maior poder de decisão e uma maior autonomia, e que diante dessa autonomia da mulher, passou a admitir-se o divórcio por consenso mútuo, que veio depois a ser corroborado em um momento futuro do direito eclesiástico, que trouxe algumas outras formas de dissolução do matrimônio.

O poder exercido pela Igreja e pelo Cristianismo na sociedade Romana era tão relevante, que passou a determinar as obrigações da família perante a função social e também no que diz respeito à criação dos filhos, como acrescentam Ana Carolina Carpes Madaleno e Rolf Madaleno (2013, p.16):

A influência exercida pela igreja – que “tenta humanizar as relações familiares, reprovando os interesses individuais, valorando a noção de conjunto” -, juntamente com os imperadores cristãos, culmina na maior intervenção do Estado na família, e surge a noção de indissolubilidade do matrimônio, do sexo somente para a procriação e perpetuação da espécie, dos ideais ascéticos e do próprio casamento como uma formalidade.

Durante o período da Revolução Francesa na segunda metade do século XVII, o poder da igreja enfraqueceu significativamente. O Estado, por sua vez, passou a entender a importância de intervir na família, principalmente, assumindo o papel de “patriarca” nas situações em que o pai de família se fazia ausente.

De acordo com o entendimento de Madaleno e Madaleno (2013) o momento de conflito armado na França fez com que Napoleão Bonaparte entendesse que a sociedade civil nascia no núcleo familiar, e que o ser humano era uma garantia para o Estado, tanto em poderio militar, quanto pela riqueza que poderia produzir, sendo assim, o Estado, o maior responsável por empregar esforços para o resguardo da sua formação, a começar pelos filhos.

Com o decorrer do tempo, e os avanços culturais emergentes na sociedade civil brasileira, muitas foram as legislações que adentraram no ordenamento jurídico com o propósito de tentar dar mais amparo a família. Foi sancionado o Decreto de 03/11/1827 que

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tornou vigente a Constituição do Arcebispo da Bahia e o Concílio de Tridentino, que em conjunto com a Consolidação das Leis Civis de Teixeira de Freitas, regulamentavam diversos assuntos sobre a unidade familiar e o casamento, bem como sobre o regime de bens, as provas do casamento, outorga uxória entre outras.

Conforme manifesta Buosi (2012, p.26):

Durante o período do Brasil - Império, o mais relevante trabalho acerca da consolidação das leis civis, que até aquele momento eram esparsas, foi elaborado por Augusto Teixeira de Freitas. Em 1855, ele foi contratado por Dom Pedro II para que num prazo de cinco anos concluísse o material, que foi entregue anteriormente e aprovado em 1858 para publicação. Com o êxito deste trabalho, continuou realizando outros projetos que seria m posteriormente publicados em 1861.

De acordo com Jussara Schmidt Sandri (2013) o período do Brasil colônia, entre os séculos XV e XIX, contribuiu para a construção de uma ideia de entidade familiar com base nos costumes portugueses, na religião e no respeito ao poder patriarcal, porém, tal conceito de família perdeu força diante de novas concepções baseadas na revolução feminista e na busca pela igualdade entre homens e mulheres.

1.2. A família do Código Civil de 1916 até a promulgação da Constituição Federal de 1988

A legislação civil de 1916 trouxe em seu texto legal algumas matérias que são de extrema importância ao direito de família contemporâneo. O ordenamento jurídico passou a tutelar os institutos da habilitação, dos impedimentos, nulidades e anulabilidades do casamento, como forma de possibilitar uma maior autonomia aos cônjuges frente ao vínculo conjugal, e de demonstrar a função social que o casamento deveria cumprir perante a sociedade.

No entendimento de Pontes de Miranda (1981, p.09):

O Código Civil brasileiro, um tanto individualista, tímido, e menos político, mais sentimental do que os outros, porém mais sociável e menos social do que devia ser, serve para que se lhe descubra a intimidade daquele pensar por si, que Teixeira de Freitas ensinou a Sul-América, e os traços de generosidade orgânica, de aferro leigo às instituições religiosas-morais, de povo mais caracteristicamente jurídico do que todos os outros da América.

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Em um panorama geral, o sistema do Código Civil de 1916 era rígido e articulado para resguardar os interesses da “classe dominante”, contendo somente as disposições voltadas para quem “atribuiu a si próprio o poder de dizer o direito”, sendo que dessa forma, deixou de disciplinar alguns institutos de igual importância os quais não continham semelhante relevância econômica.

Nessa linha, complementa Luiz Edson Fachin (2003, p. 298):

Para o Código de Bevilaqua, ser sujeito de direito significava ser um “sujeito de patrimônio”, que para tanto precisa comprá-lo, sendo em igual medida “sujeito do contrato”, bem como sujeito de família, recebendo o Código a designação de o “Estatuto Privado do Patrimônio”, exatamente porque se coloca como a constituição do homem privado titular de um patrimônio, ideia projetada, em parte, para o CCB de 2002.

De outra maneira, Juliana Rodrigues de Souza (2014) diz que o modelo de família brasileira do Código de 1916 era um grupo de pessoas consanguíneas ligadas aos mesmos objetivos, e desempenhando diversas funções em busca de um bem comum e cumprindo uma ou mais funções sociais, seja nos meios de produção de riqueza, seja nos meios de perpetuação da espécie ou em termos de organização dos grupos multigerencionais.

Em uma abordagem mais abrangente, Judith Martins Costa (2000, p. 266) caracteriza o Código Civil de 1916:

O Código traduz, no seu conteúdo liberal no que diz respeito às manifestações de autonomia individuais, conservador no que concerne à questão social e às relações de família -, a antinomia verificada no tecido social entre a burguesia mercantil em ascensão e o estamento burocrático urbano, de um lado, e, por outro, o atraso mais absolutamente rudimentar do campo, onde as relações de produção beiravam o modelo feudal.

Madaleno e Madaleno (2013) asseveram que as mudanças na estrutura familiar continuaram acontecendo de uma forma muito constante no século XX, e que diante dos muitos conflitos armados (guerras mundiais e revoluções), o Estado e a Igreja demonstraram uma enorme impotência, estimulando novas reflexões acerca das normas que regulavam os comportamentos sociais, e fazendo com que a sociedade civil buscasse novos meios de estabelecer relações. A figura do professor e da escola também passa a integrar uma função

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essencial na sociedade, tendo em vista ser um participante ativo da formação das crianças e adolescentes, quando os genitores não pudessem estar presentes.

Com o predomínio das relações baseadas no afeto, o matrimônio perdeu sua força como instituição, e a ideia de “casamento eterno na Igreja” não têm mais a importância dos séculos passados, pois a igualdade entre homem e mulher adapta uma nova concepção de livre escolha, em que cada um sabe o que é melhor para si.

1.3. A família após a Constituição Federal de 1988

A promulgação da Constituição Federal de 1988, realizada no dia 05 de Outubro do mesmo ano, foi o marco histórico para a ruptura das desigualdades jurídicas das famílias brasileiras. Foi a Carta Magna a principal responsável pela expansão à proteção do Estado com a família, pela consumação da igualdade de gêneros, deveres e obrigações dos cônjuges perante a entidade familiar, e principalmente pela consolidação de todos os direitos fundamentais e sociais da criança e do adolescente, com amparo no princípio constitucional da dignidade humana.

Nesse sentido, Buosi (2012, p.30) ensina:

É a pessoa humana, o desenvolvimento de sua personalidade, o elemento finalístico da proteção estatal, para cuja realização devem convergir todas as normas de direito positivo, em particular aquelas que disciplinam o direito de família, regulando as relações mais íntimas e intensas do indivíduo no social.

Com as profundas mudanças ocorridas na sociedade civil, e no modo de ser e de pensar do ser humano, a Carta Magna veio com o objetivo principal de alterar o objeto central da tutela familiar, que até o período que a antecedeu, era o matrimonialismo do casamento, e com sua entrada em vigor, passou a ser a proteção ao cidadão e aos seus direitos individuais e sociais. A felicidade do cidadão e o afeto nas relações de família assumiram os papéis mais importantes no direito de família.

No que registra Eduardo Silva (2000) a família brasileira destitui-se da sua conjuntura de unidade econômica e passa a ser uma unidade afetiva, uma comunhão de relações de afeto

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com ideais de solidariedade, e nesse sentido, a família torna-se o meio apropriado para a proteção da dignidade da pessoa humana.

O amparo constitucional especificamente voltado para a família tem previsão legal em seu artigo 226 da CF/88. O referido preceitua em seu texto: “Art.226 A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”. (BRASIL, 1988).

De acordo com Buosi (2012), na referida lei fica evidente a preocupação do Estado em respeitar o novo perfil de família contemporânea, visando à busca pelo direito positivado e igualitário, sem distinção preconceituosa, e resguardando todos os direitos fundamentais de seus membros. Tal amparo da lei constitucional também se estendeu ao reconhecimento de união estável e da união homoafetiva.

No entendimento de Madaleno e Madaleno (2013) a inovação constitucional de reconhecimento da união estável se efetivou com certa demora no meio social, por se tratar de uma das formas de união consensual mais antiga na história das famílias, e que passou a ser regulada somente em meados da década de 90, através das Leis 8.972/1994 e 9.278/96. Seu reconhecimento como um modo distinto de construção de família abriu caminho para que a união homoafetiva fosse reconhecida na data de 04 de Maio de 2011, pelo Supremo Tribunal Federal.

Souza (2014) assinala que é de extrema importância ressaltar que a Constituição Federal de 1988 foi o ponto que originou também outras leis fundamentais para a concepção da família na atualidade, que são a Lei nº 8.069/1990 (Estatuto da Criança e Adolescente), que veio com objetivos claros de expandir os direitos dos menores, a Lei n° 7.841/1989 (Reconhecimento dos filhos), a Lei n° 8.560/1992 (Investigação de Paternidade), a Lei n° 8.971/1994 (Aspectos pertinentes aos companheiros, alimentos e à sucessão), e a Lei n° 9.278/1996 (Direitos e deveres dos conviventes de união estável e da conversão em casamento).

Complementa Souza (2014, p.36):

Ou seja, a família passou a ser estabelecida pelo casamento, união estável ou pela comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes,

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denominada família monoparental, nuclear, pós-nuclear, unilinear ou sociológica, buscando o ideal da felicidade, do desvelo, do carinho e da comunhão plena de vida e de afeto.

Como se pode ver, o casamento formal e legalizado não ocupa mais o lugar de destaque quando o assunto é a construção da unidade familiar. Os paradigmas que antes estavam relacionados com a distinção de sexo, e de que a família se estabelecia somente a partir da união entre homem e mulher também não existem mais.

Como acrescenta Maria Berenice Dias (2009, p.31):

Só depois de abrir o conceito de família é possível enxergá-la fora do rótulo do casamento. Não podemos mais falar em família no singular. A própria Constituição já esgarçou esse conceito de família. Existe uma nova realidade, que nem é nova, mas ao menos é uma realidade visível que a gente tem de enxergar.

Diante de todas as mudanças sociais e jurídicas trazidas pela Constituição Federal de 1988 à sociedade brasileira e ao respectivo direito de família, é necessário dar destaque às inovações de maior importância, e talvez de maior impacto à manutenção adequada do núcleo familiar, que são as que tutelam os direitos da criança e do adolescente.

O artigo 227 da Constituição Federal de 1988 estabelece o seguinte:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

De acordo com esse dispositivo, Isabella Henriques (2013) ensina:

Ao determinar com exatidão o dever “da família, da sociedade e do Estado”, realiza com veemência um chamamento normativo a todos os atores sociais para uma ação constante na defesa e promoção dos direitos das crianças; e não somente da criança diretamente ligada às nossas vidas, da criança filha, da criança sobrinha, da criança neta ou da criança conhecida.

A respectiva lei constitucional estabelece com clareza. É dever de todos os cidadãos em conjunto com o Estado Democrático de Direito resguardar e proteger os direitos

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fundamentais e sociais inerentes às crianças e adolescentes, seja qual for o seu grau de parentesco, desconhecidas ou não.

Em conformidade a essa linha de compreensão, Sandri (2013) orienta que esse dispositivo legal combinado a outros do Estatuto da Criança e Adolescente confere um “status” de cidadão às crianças e aos adolescentes, que por sua natureza, são pessoas em condições de fragilidade e desenvolvimento, e que necessitam uma proteção específica para não ficarem sujeitos a qualquer forma de violência que possa ameaçar a formação de seu discernimento.

No entendimento de Souza (2014, p.61):

Sob essa perspectiva, é indispensável acrescentar que a Constituição Federal de 1988 “acerta o passo com a história, possibilitando, em nosso país, o desenvolvimento de políticas e programas voltados à prevenção primária”, ao atribuir a responsabilidade de todos em garantir à criança a gama de direitos fundamentais que arrola o artigo 227.

E ainda complementa Souza (2014) dizendo que, apesar do texto constitucional atribuir essa responsabilidade de proteção aos direitos de crianças e adolescentes a família, ao Estado e a sociedade, era necessário a manutenção de algum dispositivo para colocar em prática tudo que já estava previsto e documentado. E foi neste cenário que foi promulgada a Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA).

É necessário ressaltar outra mudança no contexto jurídico brasileiro de fundamental importância após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que foi o novo Código Civil (Lei n° 10.406, de 10 de Janeiro de 2002). Com o decorrer das transformações sociais e da grande modificação de valores provenientes da Carta Magna, o Código Civil precisava se adequar à nova realidade do direito de família brasileiro, e precisava elaborar novas disposições legais que estivessem de acordo com a essência do ordenamento constitucional.

De acordo com Ana Cristina Teixeira Barreto (2010) o Código Civil atual incorporou ao texto legal, os princípios constitucionais de 1988, bem como as normas esparsas de legislação infraconstitucional, passando a prever e dispor sobre as regras de direito de família de forma compilada.

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Como se pode observar, o direito de família contemporâneo não é mais um instituto estático e rígido, está em constante adequação com os desejos do ser humano e com a legislação constitucional, que deve atuar de forma a atender as necessidades básicas da sociedade em prol da construção de uma nação mais humana, igualitária e solidária.

1.4. Os princípios constitucionais basilares das relações de família e de proteção à criança e ao adolescente

Os princípios constitucionais são a essência da matéria que determinará todo o modelo de atuação do ordenamento jurídico. Nessa perspectiva, o direito de família foi um dos ramos que mais sofreu mudanças em seu modelo contemporâneo, apósa promulgação da Constituição Federal de 1988, adquirindo status constitucional tanto em princípios que norteiam a sistemática da entidade familiar, como em princípios que visam resguardar somente os direitos fundamentais da criança e do adolescente frente às relações familiares.

A maioria dos doutrinadores desse ramo do Direito de Família costuma fazer uma distinção quanto à importância que cada princípio ocupa dentro do ordenamento jurídico, e, fazem até mesmo uma diferenciação entre princípios fundamentais e princípios gerais. Os princípios que serão abordados aqui estão presentes em praticamente todas as doutrinas, e são aqueles considerados como alicerce do direito de família atual.

Para Carlos Roberto Gonçalves (2005) o princípio constitucional mais relevante e com maior influência sobre essa nova ótica do Direito de Família é o princípio da dignidade da pessoa humana, pois a partir dele o Estado passa a tutelar de forma individualizada todos os membros da entidade familiar, ou seja, destaca o ser humano como centro da tutela estatal, enaltecendo o indivíduo e não apenas a família.

Maria Helena Diniz (2005) dispõe que o referido princípio da dignidade da pessoa humana institui a base da família, assegurando a igualdade e pleno desenvolvimento de todos os seus membros, especialmente, da criança e do adolescente.

O princípio da dignidade da pessoa humana está disposto no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal de 1988, com o seguinte texto:

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Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania; II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana;

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (BRASIL, 1988).

Como fica demonstrado no supracitado artigo, o princípio da dignidade da pessoa humana ocupa um dos lugares de maior destaque dentro do ordenamento jurídico constitucional, pois está estabelecido como um dos fundamentos de atuação do Estado Democrático de Direito.

Para sintetizar, Sandri (2013, p. 78) destaca, citando Nelson Rosenvald:

A dignidade da pessoa humana é o núcleo essencial dos direitos da personalidade. No constitucionalismo moderno, a tutela ao ser humano é positivada mediante direitos fundamentais, cuja fonte é a dignidade da pessoa humana. A dignidade da pessoa humana como elemento fecundante inspira proteção integral, esmaecendo as fronteiras entre as situações jurídicas inicialmente vinculadas ora aos direitos humanos, ora aos direitos de personalidade.

Outro princípio que ocupa lugar de destaque nas relações familiares é o princípio da igualdade jurídica dos cônjuges e companheiros, que está previsto no artigo 226, § 5º, da Constituição Federal de 1988. O referido princípio ratifica a igualdade substancial de direitos e deveres entre homem e mulher na sociedade conjugal.

De acordo com o ensinamento de Diniz (2005) o mencionado dispositivo veio para reforçar a ideologia de igualdade entre homem e mulher, o que não existia no passado, mas, sobretudo, foi criado para dar fim ao poder marital e as inúmeras restrições e discriminações que a mulher sofreu ao longo da história, referentes à sua autonomia e poder de decisão na sociedade conjugal.

Na mesma linha Gonçalves (2005) comenta que com o emergir desse princípio no núcleo familiar, a autocracia do chefe de família foi substituída por uma estrutura em que as decisões devem ser tomadas de comum acordo, entre marido e mulher ou companheiros, já

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que os tempos atuais exigem que homem e mulher tenham os mesmos direitos e deveres frente ao vínculo conjugal.

Dias (2009, p. 64) também assevera:

É imprescindível que a lei em si considere todos igualmente, ressalvadas as desigualdades que devem ser sopesadas para prevalecer a igualdade material em detrimento da obtusa igualdade formal. É necessária a igualdade na própria lei, ou seja, não basta que a lei seja aplicada igualmente para todos.

O princípio da igualdade e do respeito às diferenças também faz parte desse rol de princípios em destaque no Direito de Família, e em uma acepção geral, quer simbolizar a igualdade entre marido e mulher, igualdade entre os filhos e igualdade entre as entidades familiares.

Com base nessa definição, Sandri (2013) assevera que o reconhecimento de outras espécies de família derivou dos princípios da igualdade e da dignidade humana, adaptando assim uma nova estrutura da família voltada para o elo de afeto, sustentada e protegida por novas diretrizes de proteção constitucional.

Dias (2009) lembra que falar em igualdade nos remete a uma famosa frase de Rui Barbosa: “tratar os iguais com desigualdade, ou a desiguais com igualdade não é igualdade real, mas flagrante desigualdade”, e que a estrutura jurídica garante proteção igualitária e tratamento isonômico a todos os cidadãos no ambiente social.

E conclui da seguinte forma:

A relação de igualdade nas relações familiares deve ser pautada não pela pura e simples igualdade entre iguais, mas pela solidariedade entre seus membros, caracterizada da mesma forma pelo afeto e amor.A organização e a própria direção da família repousam no princípio da igualdade de direitos e deveres dos cônjuges, tanto que compete a ambos a direção da sociedade conjugal em mutua colaboração. (DIAS, 2009, p. 62)

Outro princípio basilar é o da solidariedade, que diante do ambiente familiar, diz respeito ao auxílio mútuo, tanto moral quanto material entre cônjuges ou companheiros, e de ambos em relação aos filhos, que devem receber o zelo e os cuidados necessários até a vida

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adulta, sem qualquer distinção entre filhos biológicos ou adotados, homens ou mulheres, fator esse que deriva de outro princípio, o da isonomia. (MADALENO E MADALENO, 2013)

A solidariedade familiar está assentada na Constituição Federal, disposta em seus artigos 3º, 226, 227 e 230, e sob essa perspectiva da Carta Magna, o princípio da solidariedade fundamenta-se na consideração e respeito mútuos em relação aos membros da família.

Nessa linha, leciona Gonçalves (2005, p. 441):

O dever de prestar alimentos funda-se na solidariedade humana e econômica que deve existir entre os membros da família ou parentes. Há um dever legal de mútuo auxílio familiar, transformado em norma, ou mandamento jurídico. Originariamente, não passava de um dever moral, ou uma obrigação ética, que no direito romano se expressava na equidade, ou no officiumpietatis, ou na caritas. No entanto, as razões que obrigam a sustentar os parentes e a dar assistência ao cônjuge transcendem as simples justificativas morais ou sentimentais, encontrando sua origem no próprio direito natural.

Em um conceito geral, o princípio da solidariedade familiar trata do amparo revestido de fraternidade e reciprocidade entre os indivíduos de uma mesma família, ou seja, a solidariedade entre os indivíduos que compreende o dever de prestar assistência moral, emocional e espiritual como forma de fundir as relações familiares no afeto, na compreensão e cooperação.

O princípio do pluralismo das entidades familiares provém da Constituição Federal de 1988, que com sua promulgação, fez surgir diversas modificações ao extinguir o tipo familiar baseado exclusivamente no casamento, e ao dispor sobre outras modalidades de família, como a união estável e a família monoparental.

Na visão de Sandri (2013, p. 81), “o rol de entidades familiares protegidas na Constituição é meramente exemplificativo, uma vez que o princípio da dignidade da pessoa humana demanda o reconhecimento destas novas entidades familiares.”

Madaleno e Madaleno (2013) ressalvam que para se diferenciar um mero relacionamento afetivo de uma entidade familiar livre de características formais, existem algumas peculiaridades, tais como a estabilidade, e a convivência pública e ostensiva.

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Para Silvio de Salvo Venosa (2005) há muito tempo o país sentia a necessidade de reconhecimento do núcleo familiar independentemente da existência do vínculo do matrimônio, e a Constituição Federal de 1988 tratou de legitimar essa necessidade de proteção à família no artigo 226, compreendendo as diversas formas de família, sejam elas fundadas no casamento, na união de fato, ou através de família natural ou adotiva.

Quantoao princípio da proteção integral, consagrado tanto pela Constituição Federal de 1988, quanto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, é compreendido como o amparo de cuidados às pessoas que apresentem situação de vulnerabilidade, fragilidade e de formação em desenvolvimento, perante o convívio familiar.

Nas palavras de Souza (2014, p.73):

Assim, devido à maior vulnerabilidade e fragilidade dos cidadãos até os 18 anos, como pessoas em desenvolvimento, a lei os faz destinatários de tratamento especial, por isso, é consagrado a eles, constitucionalmente, o princípio da prioridade absoluta e da proteção integral.

Souza (2014) afirma que está em evidência que o princípio da proteção integral atua em consonância com o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, uma vez que incorpora o reconhecimento da criança e do adolescente diante de todos os direitos intrínsecos ao ser humano e também aos direitos provenientes da condição especial, por serem pessoas em formação e desenvolvimento.

Antônio Carlos Gomes da Costa (1992, p. 19) arremata:

[...] o valor intrínseco da criança como ser humano; a necessidade de especial respeito à sua condição de pessoa em desenvolvimento; o valor prospectivo da infância e da juventude, como portadora da continuidade de seu povo e da espécie e o reconhecimento da sua vulnerabilidade, o que torna as crianças e adolescentes merecedores de proteção integral por parte da família, da sociedade e do Estado, o qual deverá atuar através de políticas específicas para promoção e defesa de seus direitos.

Em suma, esse princípio veio para consolidar a ideia de que existindo um conflito no seio da entidade familiar, os direitos fundamentais da criança e do adolescente se sobrepõem sobre os direitos dos demais indivíduos ou instituições.

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O princípio da proteção integral também é utilizado para resguardar os direitos fundamentais dos idosos frente às relações de família, uma vez que a doutrina e a Lei (Estatuto do Idoso) entendem que a pessoa idosa também se enquadra como indivíduo em situação de fragilidade e vulnerabilidade.

Nesse sentido, Sandri (2013, p. 81) esclarece, citando Maria Berenice Dias:

A Constituição veda discriminação em razão da idade, bem como assegura especial proteção ao idoso. Atribuí a família, à sociedade e ao Estado o dever de assegurar sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar, bem como garantindo-lhe o direito a vida (CF 230). É determinada a adoção de políticas de amparo aos idosos, devendo ser executados os programas, preferentemente, em seus lares. Também é deferido, em sede constitucional, aos maiores de 65 anos transporte gratuito nos coletivos urbanos.

Desse contexto é que surgiu também o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente, que parte da premissa da condição peculiar da pessoa em desenvolvimento, e estabelece como fundamento primário o melhor interesse para satisfazer suas necessidades básicas, devendo identificar os fatores a serem priorizados para a manutenção de sua subsistência adequada.

Paulo Lobo (2011, p. 45) afirma que o princípio do melhor interesse da criança não é uma recomendação ética, mas diretriz determinante nas relações da criança e do adolescente com seus pais, com sua família, com a sociedade e com o Estado.

Segundo Tânia da Silva Pereira (2008) o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente originou do instituto parens patrie, utilizado na Inglaterra, com a finalidade de proteger aqueles que não podiam fazê-lo por conta própria, devendo, em situações conflituosas, o bem-estar da criança sobrepor-se aos direitos dos pais.

Complementa Ana Carolina Brochado Teixeira (2009, p. 75):

O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente obteve tamanha prioridade no âmbito do Direito de Família, quando o debate cingiu-se aos direitos do menor, que – ao lado e funcionalizado ao princípio da dignidade da pessoa humana – passou a ser o vértice interpretativo do ordenamento, nesta seara.

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Outro princípio de constante utilização por grande parte da doutrina é o princípio da proibição ao retrocesso social, que em um conceito mais singular, quer significar que nenhuma nova norma que venha a ser produzida poderá retirar, modificar ou destituir direito já adquirido.

Conforme Madaleno e Madaleno (2013) o princípio da proibição do retrocesso social é compreendido como um impedimento ao Poder de Legislar, no sentido em que, nenhuma nova lei ordinária pode restringir ou reduzir o êxito já obtido na esfera social, como por exemplo, a igualdade entre os cônjuges. Em outras palavras, todo direito já adquirido, não pode sofrer limitação posterior.

No ensinamento de Sandri (2013) a proibição de retrocesso social é uma ferramenta de garantia da concretização dos direitos sociais, protegidos pela Constituição, e que não podem sofrer qualquer limitação por lei posterior.

E ainda complementa Sandri (2013, p.82):

O princípio da vedação ao retrocesso, além de configurar-se numa obrigação positiva de realização dos direitos sociais, configura-se também em obrigação negativa, ou seja, de não sofrer limitações ou restrições da legislação ordinária frente às normativas constitucionais.

Por fim, o princípio da afetividade, que revela a mudança mais significativa no aspecto estrutural familiar após a promulgação da Constituição Federal de 1988. É resguardado o direito de livre escolha de formação de entidade familiar que se manifeste a partir do afeto, com a constância da convivência, estabilidade nos vínculos da vida comum, e também que demonstrem um mínimo de publicidade, quanto ao conhecimento de pessoas estranhas à relação familiar.

No que se refere Buosi (2012, p.36):

Com o primado da afetividade estruturando os tipos familiares, o Direito de Família passa a ter um tratamento interdisciplinar no que se refere às ordens psíquicas estudadas pela ciência psicológica, que auxilia no entendimento de novas uniões, embasando-se nos sentimentos por elas vivenciados.

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Para Madaleno e Madaleno (2013) o princípio da afetividade assenta a entidade familiar com fundamento na estabilidade da comunhão de vida e das relações sócio-afetivas, e demonstra ainda a supremacia das relações de afeto sobre questões patrimoniais e biológicas.

Denota-se que todo o conjunto de princípios que regem o direito de família e os direitos fundamentais da criança e do adolescente frente as relações familiares, em sua grande maioria, encontram respaldo na Constituição Federal de 1988, adquirindo assim força e status de princípio constitucional.

1.5. Do poder familiar

Fábio Vieira Figueiredo e Georgios Alexandridis (2014) conceituam o poder familiar como sendo uma permissão e um dever legal incumbido aos genitores, desempenhado em igualdade de condições, no exercício de tutela e resguardo dos bens e dos direitos do filho incapaz, sem fazer qualquer distinção quanto à origem da filiação.

Note-se que esse conceito de poder familiar sofreu uma enorme transformação em comparação ao entendimento decorrente no período entre os séculos XVII à XX. Anteriormente, o poder familiar, então chamado de “pátrio poder”, detinha o poder de decisão da família inteiramente nas mãos do homem, o pai de família, ou então o ascendente mais velho do sexo masculino.

Com o passar do tempo, e com todas as mudanças sociais e culturais decorrentes da modernidade, o ordenamento jurídico brasileiro teve que adaptar uma nova estrutura de família baseada nos valores da igualdade e da isonomia, valorizando a individualidade de seus membros, e adequando a figura da mulher ao mesmo patamar de importância do homem, ou pai de família, fazendo emergir o atual modelo de poder familiar, baseado na igualdade de deveres e obrigações dos genitores diante da entidade familiar.

Para Douglas Phillips Freitas e Graciela Pellizzaro (2010) tal transformação sócio-jurídica se deve, principalmente, em consequência da adequação da nova ordem constitucional brasileira, sustentada sob os moldes dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, responsáveis pela alteração da importância da figura da mulher no âmbito social e familiar, e também por entender que o dever de manutenção da família deve recair em

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igualdade de condições entre homem e mulher, tanto no que diz respeito à união do casal quanto à criação, educação e cuidado com os filhos.

Quanto à titularidade do exercício do poder familiar, deve-se destacar que é independente em relação à existência da união conjugal dos pais. Ou seja, mesmo em caso de ruptura do vínculo amoroso entre os genitores, as obrigações e deveres provenientes do poder familiar, no que concerne a criação dos filhos, continuam inabaláveis. Nessa linha, o poder familiar apresenta algumas características em particular, como a irrenunciabilidade, imprescritibilidade, inalienabilidade e indisponibilidade.

Freitas e Pellizzaro (2010) acentuam que o instituto do poder familiar está amparado pelo artigo 229 da Constituição Federal de 1988, em consonância aos artigos 1.634 e seguintes do Código Civil de 2002, os quais elencam os direitos e deveres dos genitores no desempenho de suas funções, tanto no que se refere à formação da personalidade e caráter dos filhos, quanto ao amparo cognitivo, emocional e espiritual.

Lobo (2011) explica que, apesar da nomenclatura compreendida por “poder familiar”, grande parte da doutrina prefere traduzir o instituto para “autoridade parental”, em virtude da sua derivação natural de dever legal de proteção, oriundo da parentalidade e da própria atribuição de ser pai e mãe, devendo zelar e preparar o caráter e a personalidade dos filhos para o futuro, diferentemente da acepção de poder, que pode surgir em consequência de um domínio físico sobre o outro indivíduo.

No tocante às situações de abandono dos filhos ou de genitores já falecidos, o dever legal de proteção e amparo ao menor incapaz é do Estado e da sociedade, como agentes subjetivos na relação jurídica. Tal determinação está prevista no artigo 227 da Constituição Federal de 1988, o qual elege a família, a sociedade e o Estado como os sujeitos responsáveis pela proteção da criança e do adolescente, enquanto pessoa em desenvolvimento.

Nas palavras de Madaleno e Madaleno (2013) embora a Lei seja explícita no sentido de que o exercício do poder familiar é intransmissível, ou seja, os genitores não podem simplesmente querer se desvincular da obrigação do poder familiar, pois seus deveres estão intrínsecos à natureza de suas funções, os genitores podem ser punidos com a suspensão e até mesmo com a perda do poder familiar, em casos específicos de identificação de assédio moral

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e abandono afetivo, podendo ser forçados a se distanciarem da convivência dos filhos, no caso de os estudos psicossociais entenderem como uma medida pertinente ao melhor interesse da criança e do adolescente.

É reconhecido que o poder familiar estabelece um encargo permanente aos genitores diante do nascimento de sua prole, pois a entidade familiar é o ponto de partida de formação do indivíduo para que este seja inserido no meio social. É de absoluto interesse do Estado Democrático de Direito zelar e proteger a criança e o adolescente de qualquer agressão a sua integridade física, psicológica e emocional, para que o indivíduo se desenvolva da melhor maneira possível.

Contudo, diante da possibilidade de rompimento do relacionamento entre os cônjuges, o Estado deve atuar de forma a garantir que os filhos não sejam privados da convivência de nenhum dos pais, levando em consideração a importância da figura paterna e materna no desenvolvimento da personalidade da criança. E partindo dessa premissa, de garantir os direitos fundamentais da criança e do adolescente exposto ao ambiente familiar conflituoso é que emergiu o instituto da Alienação Parental no ordenamento jurídico brasileiro.

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2. ALIENAÇÃO PARENTAL

Um dos maiores obstáculos enfrentados no Direito de Família brasileiro, a Alienação Parental se tornou um problema muito recorrente na sociedade contemporânea. Uma situação a qual já se prolifera há muitas décadas no núcleo da sociedade, e exige cada vez mais atenção dos juristas e profissionais da área da psicologia e assistência social.

Por se tratar de um problema de grande complexidade, que nasce na intimidade do convívio familiar, tem como uma grande dificuldade a sua produção de provas para o processo judicial. Os operadores do direito, e todos os demais profissionais auxiliares da justiça devem trabalhar em comunhão de esforços e com muita cautela diante da investigação de um possível caso de alienação parental.

A finalidade principal do processo judicial de alienação parental deve ser a proteção ao direito fundamental da convivência saudável entre o menor e os genitores, só se admitindo punições mais severas, como por exemplo, afastamento do genitor alienante, em casos extremos, ou que de fato se evidencie que o menor já apresenta os sintomas da síndrome em grau elevado, ou que o genitor alienante continue com sua campanha de dificultar e impossibilitar o convívio e a relação de intimidade saudável com o outro genitor.

2.1. Diferença Entre Alienação Parental e Síndrome da Alienação Parental

Figueiredo e Alexandridis (2014) conceituam a Alienação Parental como sendo a campanha realizada por um dos genitores, ou por familiar que detenha a criança sob seus cuidados, contra a pessoa do outro genitor, como forma de arruinar o vínculo afetivo da criança com o genitor alienado, afastando-os de uma convivência regular.

É possível notar que em uma sociedade com as mais diversas formas de entidades familiares se perpetuando, o fenômeno da Alienação Parental tem se tornado cada vez mais discutido nos projetos de Lei do Legislativo e nas decisões de todas as esferas do Poder Judiciário.

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Conforme Figueiredo e Alexandridis (2014) o problema da Alienação Parental demorou demais para conquistar uma legislação específica dentro do ordenamento jurídico brasileiro, levando em consideração que a figura da criança e do adolescente gozam de prerrogativas especiais a serem respeitadas em casos de conflito no âmbito familiar, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, que instituiu como alguns de seus princípios basilares a dignidade da pessoa humana, a prioridade absoluta e o princípio da proteção integral.

Em um conceito um pouco mais objetivo, Souza (2014) define a Alienação Parental como a ação de um dos genitores na busca por dificultar ou afastar a pessoa do outro genitor do ambiente de convívio e familiaridade com o filho.

De forma a complementar os ensinamentos Madaleno e Madaleno (2013, p. 74) acentuam:

Toda e qualquer violência contra a criança representa uma covarde forma de abuso e, usualmente, de difícil verificação, contrariando a função precípua dos pais de não só prover os recursos ao sustento de seus filhos, como igualmente lhes dirigir a sua educação, pondo-as a salvo desse perverso e imperceptível mundo de adultos patologicamente comprometidos quando usam sua prole para seus atos insanos de alienação parental, na qual os filhos são alvos de graves manipulações psicológicas, programando a prole contra o outro genitor [...].

Segundo a grande maioria dos doutrinadores desse instituto do Direito de Família, o problema da Alienação Parental tem início, quase que de forma absoluta, nos casos de separação e divórcio litigioso, em que um dos ex-cônjuges guarda ressentimento em relação ao outro, em virtude do rompimento do relacionamento amoroso, passando então a realizar uma campanha denegritória em relação ao genitor que se afastou do lar, fazendo com que os filhos comecem a nutrir sentimentos de hostilidade, raiva e abandono pelo genitor alienado.

No tocante à Síndrome da Alienação, os primeiros estudos surgiram no ano de 1985, nos Estados Unidos, através das pesquisas desenvolvidas pelo professor especialista do Departamento de Psiquiatria Infantil da Universidade de Columbia e perito judicial, Richard Gardner, o qual se interessou pelos sintomas que as crianças desenvolviam frente às situações de divórcio litigioso e de guarda. O mesmo autor, posteriormente, desenvolveu alguns artigos

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tratando sobre as tendências comportamentais no âmbito dos conflitos familiares utilizados até os dias atuais.

Freitas e Pellizzaro (2010) ensinam que a Síndrome da Alienação Parental se caracteriza a partir da interferência da formação psicológica da criança, realizada por um dos genitores, ou por quem tenha a criança ou adolescente sob sua autoridade, com o intuito de remodelar a consciência do filho, através de artifícios maliciosos que tenham como finalidade impossibilitar, obstruir ou arruinar os vínculos afetivos com o genitor alienado.

Em complemento a esse conceito, Souza (2014) esclarece que a Síndrome da Alienação Parental se distingue da Alienação Parental uma vez que uma decorre da outra, quer dizer, enquanto a Alienação Parental está conexa com o afastamento entre o filho e o genitor alienado, por meio de ações promovidas pelo genitor titular da guarda, a Síndrome, por sua vez, corresponde aos distúrbios emocionais e psicológicos que a criança vem a sofrer em virtude do abuso por parte do genitor alienador.

Não restam dúvidas de que a Síndrome da Alienação Parental é o resultado de abuso e maus tratos contra a criança ou adolescente exposto a esse tipo de ambiente familiar conflituoso e agressivo, e que nos caso de demora a ser descoberta tal violência, os danos e as sequelas podem ser irreversíveis na vida de todos os indivíduos envolvidos.

Partindo dessa premissa fica evidente a importância de se detectar o mais breve possível qualquer aspecto inerente a um ambiente familiar inadequado a formação da criança, ou que apresente condições desumanas ao desenvolvimento saudável de sua integridade física e psicológica. E para que esse problema seja combatido de uma forma mais efetiva, é necessário que sociedade, Estado e profissionais da educação trabalhem em conjunto, de maneira a saber identificar as características presentes na Alienação Parental, e nos indivíduos alienadores.

2.2. Como se caracteriza a alienação parental e quais as características do indivíduo alienador

Por se tratar de um problema que se desenvolve, inicialmente, no lar de família, a Alienação Parental estabelece uma grande dificuldade à sociedade, ao Estado e aos demais

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agentes responsáveis pela proteção dos direitos da criança, no que concerne a identificação das características do abuso, por parte do alienador.

Em conformidade com o pensamento de Sandri (2013), o problema da Alienação Parental pode ser identificado através das particularidades de comportamento apresentadas pelo menor que está sofrendo com o abuso. Alguns dos sintomas podem demorar a aparecer, a depender do nível de intensidade do processo de destruição da imagem do genitor alienado, porém, depois de instalados tais comportamentos em seu sistema psicológico, se tornam cada vez mais danosos à integridade do menor.

Nas palavras de Dias (2013, p. 23):

As estratégias de Alienação Parental são múltiplas e tão variadas quanto a mente humana pode conceber, mas a síndrome possui um denominador comum que se organiza em torno de avaliações prejudiciais, negativas, desqualificadoras e injuriosas em relação ao outro genitor, interferência na relação com os filhos e, notadamente, obstaculização do direito de visitas do alienado.

Na mesma linha Madaleno e Madaleno (2013) sintetizam que os sintomas da alienação parental começam a ficar evidentes no momento em que o menor assimila o processo do genitor alienante contra o outro genitor e passa, ele mesmo, a encarregar-se na função de censurar o genitor alienado, com insultos, agressões, injúrias, e até mesmo interrompendo a convivência entre ambos, tratando o progenitor alienado como um estranho a quem deve repelir.

Nesse contexto em que o menor apresenta os sintomas da síndrome e, conseqüentemente, desfere ofensas e agressões verbais contra o genitor alienado, se estabelece uma situação a qual o genitor alienado tende a se afastar do menor, em razão do sentimento de impotência e choque em ver seu próprio filho lhe dirigindo palavras de ódio.

Em geral, as ofensas desferidas pelo menor são imotivadas e inverídicas, contudo, quando são verdadeiras, tendem a ser exageradas, muito distantes do contexto real, observando-se, dessa forma, o surgimento de outro sintoma no que diz respeito às explicações que buscam justificar a campanha de desqualificação do genitor alienado, em que o menor

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utiliza alegações sem lógica para justificar o fato de não mais desejar permanecer no convívio do genitor alienado. (MADALENO E MADALENO, 2013)

Para Sandri (2013) outra característica intrínseca ao menor que desenvolve os sintomas da Alienação Parental é a linguagem corporal distante, de modo a evitar um maior contato visual e o diálogo aberto, bem como interromper o genitor de forma frequente com queixas acerca das condições do tempo, seu tom de voz ou sua conversação.

No que se refere às características do genitor alienador, a gama de condutas é repleta de variedades, podendo derivar tanto dos aspectos de comportamento quanto da personalidade. É importante destacar que, para entender as questões comportamentais que o alienador pode vir a assumir, muitas vezes será necessário compreender o ambiente de formação em que se encontravam inseridos na fase inicial da vida, e quais as influências recebidas na construção de sua personalidade.

Como elucida Buosi (2012) o genitor alienador, na maior parcela dos casos, assume o papel de super protetor, e mantém a postura de quem está sempre pensando e agindo no sentido do que é o melhor para o seu filho, representando um papel de vítima diante do filho, transparecendo sinais claros de ressentimento, de forma a induzir o menor a imaginar que o genitor alienado abandonou e desrespeitou o outro genitor.

Na concepção de Dias (2013) apesar de ser difícil determinar com precisão um repertório de características que identifiquem o perfil do genitor alienador, existem alguns comportamentos e traços de personalidade que são típicos da Alienação Parental como, por exemplo, a baixa autoestima, dependência, hábito regular de atacar decisões judiciais, imposição e dominância, histórias de desamparo e desrespeito afetivo e resistência a receber ajuda ou tratamento de terceiros.

Em outra visão, complementam Freitas e Pellizzaro (2010, p. 20):

A conduta do alienador, por vezes, é intencional, mas muitas vezes sequer é por ele percebida (visto que se trata de uma má interpretação e direcionamento equivocado das frustrações decorrentes do rompimento afetivo com o outro genitor – alienado -, entre outras causas associadas).

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Em linhas gerais, o perfil do genitor alienador pode vir a sofrer influência tanto de sua formação psicológica e emocional, no que diz respeito aos exemplos de relacionamentos recebidos no período de formação da sua personalidade, como em virtude de ressentimento, mágoa e desejo de vingança em relação ao ex-cônjuge (genitor alienado) que rompeu com o vínculo amoroso.

Estas condutas, intencionais ou não, desencadeiam uma série de danos e transtornos psicológicos nos menores, que podem trazer graves consequênciasa formação de sua personalidade, a começar por pequenas situações, como baixo desempenho na escola e até mesmo agredir outras pessoas, sem qualquer motivo aparente.

2.3. Danos e consequências psicológicas do menor alienado

Conforme lecionam Madaleno e Madaleno (2013) os transtornos e distúrbios psicológicos ocasionados pela Alienação Parental atuam diretamente na noção de autoconceito e autoestima do menor, fazendo com que o mesmo tenha sérias dificuldades na construção da sua identidade e personalidade, desencadeando uma série de sentimentos prejudiciais como tristeza crônica, podendo levar a depressão, desespero, incapacidade de adaptação as mudanças, tendência ao consumo de álcool e drogas, e em casos mais remotos, até mesmo ao suicídio.

Importante ressaltar que, no período de construção psíquica do menor, as demonstrações de amor e de um ambiente afetuoso ocupamespaços imprescindíveis, e que na ausência disso, dificilmente haverá uma condução apropriada para a formação dessa personalidade.

Souza (2014) elucida que diante da situação de afastamento de um dos genitores do convívio familiar, a criança ou adolescente tende a contrair também uma orfandade psicológica, alimentada por sentimentos destrutivos, como se para o menor o genitor afastado tivesse morrido, gerando uma imagem distorcida da figura paterna e materna.

Buosi (2012) explica que os sintomas dos danos psicológicos no menor, vítima da alienação parental, podem variar de acordo com a personalidade, a resiliência e a idade do

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menor à época do início da campanha de desqualificação do genitor alienado. As crianças de zero a cinco anos apresentam alguns sintomas, em especial, como o choro excessivo e a forte irritabilidade, enquanto as crianças de seis a doze anos têm sintomas mais relacionados com as dificuldades no desempenho escolar, dificuldade nos relacionamentos em geral e no convívio com colegas e amigos, vergonha de falar em público, agressividade e até mesmo distúrbios alimentares.

Diante de tantas consequências devastadoras, é imprescindível que a sociedade, o Estado, e todos os profissionais envolvidos no combate a alienação parental trabalhem em comunhão de esforços, para que esse problema tenha cada vez menos incidência em nosso núcleo social, garantindo o respeito aos direitos fundamentais da criança e do adolescente para o seu pleno desenvolvimento.

Nesse contexto, foram desenvolvidos diversos mecanismos de auxílio no combate da Alienação Parental, como a promulgação da Lei 12.318/2010 (Lei da Alienação Parental), que estabelece um rol de medidas a serem ponderadas pelos magistrados no processamento e julgamento das demandas judiciais, estabelecendo também, inúmeros profissionais como auxiliares da justiça, que poderão contribuir com laudos técnicos e estudos sociais para que se avalie com precisão acerca da existência ou não, de sintomas característicos de alienação parental dentro da entidade familiar.

2.4. Análise da Lei da Alienação Parental – Lei nº 12.318/2010

O texto da Lei nº 12.318/2010, promulgado na data de 26 de agosto de 2010, é composto por onde artigos (sendo dois vetados), e determina o que é alienação parental. O artigo 1º introduz: “Esta Lei dispõe sobre a alienação parental.” (BRASIL, 2010).

Razoável é considera-la como mais um ingrediente no contexto de redefinição de papéis parentais, mais uma ferramenta para assegurar maior expectativa de efetividade na eventual busca de adequada atuação do Poder Judiciário, em casos envolvendo alienação parental. Nessa posição, parece que o melhor efeito que se pode esperar não deve surgir apenas da relevância do pronunciamento da lei, pelos tribunais, mas de seu consequente caráter indutor de dinâmica familiar mais saudável, ao lado, por exemplo, da nova legislação sobre guarda compartilhada, que marca inflexão do ordenamento jurídico no sentido de reconhecer a parentalidade em dimensão mais ampla (DIAS, 2013, p. 43-44).

Referências

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