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A prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa na escola de Educação Básica: o que orientam os documentos parametrizadores?

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUÍSTICA - PPGL

Joaquim Verginio Torquato

A prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa na escola de

Educação Básica: o que orientam os documentos parametrizadores?

Florianópolis 2019

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Joaquim Verginio Torquato

A prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa na escola de

Educação Básica: o que orientam os documentos parametrizadores?

Dissertação submetida ao Programa ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC para a obtenção do título de mestre em Linguística.

Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Acosta Pereira.

Florianópolis 2019

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Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,

através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.

Torquato, Joaquim Verginio

A prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa na escola de Educação Básica: o que orientam os documentos parametrizadores? / Joaquim Verginio Torquato orientador, Rodrigo Acosta-Pereira, 2019. 133 p.

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa

Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós Graduação em Linguística, Florianópolis, 2019.

Inclui referências.

1. Linguística. 2. Língua Portuguesa. 3. Círculo de Bakhtin. 4. Prática de análise linguística. 5. Lingua(gem).

I. Acosta-Pereira, Rodrigo. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa dePós-Graduação em Linguística. III. Título.

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Joaquim Verginio Torquato

A prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa na escola de

Educação Básica: o que orientam os documentos parametrizadores?

O presente trabalho em nível de mestrado foi avaliado e aprovado por banca examinadora composta pelos seguintes membros:

Profa. Dra. Rosângela Hammes Rodrigues Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Profa. Dra. Edair Maria Görki

Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Prof. Dr. Neil Armstrong Franco de Oliveira (Videoconferência) Universidade Estadual de Maringá

Certificamos que esta é a versão original e final do trabalho de conclusão que foi julgado adequado para obtenção do título de mestre em Linguística.

____________________________ Prof. Dr. Atilio Butturi Junior

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Linguística

____________________________ Prof. Dr. Rodrigo Acosta Pereira

Orientador

Florianópolis, 2019. Rodrigo Acosta

Pereira:00213808056

Assinado de forma digital por Rodrigo Acosta

Pereira:00213808056

Dados: 2019.10.01 19:06:04 -03'00'

Assinado de forma digital por Atilio Butturi Junior:03089639971

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AGRADECIMENTOS

Muitas pessoas foram importantes ao longo dessa jornada. Elas estiveram presentes incentivando, motivando e principalmente acreditando em mim.

Destas, agradeço inicialmente a minha família: Elton, Clarita, Silvana, Elian, Juliano, Simone (in memoriam) meu pai Joaquim Torquato e minha mãe, Virgínia Paim Torquato (in memoriam), pelo grande incentivo, paciência, pelas minhas ausências e por essa longa jornada compartilhada, sem vocês, meus irmãos e meus pais, teria desistido no meio do caminho.

Agradeço a Denise Nunes, muito importante no compartilhamento das ideias, metas e angústias encontradas nesta jornada, além de ser aquela amiga que sempre esteve junto nesse percurso.

Agradeço imensamente aos alunos da E. E. B. Altino Flôres que foram motivação para o objeto de pesquisa (a prática de análise linguística) e também pela convivência e compreensão nesse caminhado.

Minhas amigas Rose Clair da Silva e Olinda Vielmes de Almeida por estarem sempre ao meu lado, as quais durante esse percurso tornaram-se uma grande força de sustentação em todos os momentos.

Agradeço ao orientador deste estudo Dr Rodrigo Acosta Pereira que com paciência e sabedoria acreditou em mim, mesmo diante de tantas adversidades. Sem ele e suas sábias orientações não chegaria a lugar nenhum. Muito obrigado por ter acreditado.

Por fim, agradeço a Deus e ao universo por essa segunda oportunidade que foi de muito aprendizado e persistência.

A todos os aqui citados e também aqueles que direta ou indiretamente contribuíram nessa jornada, muito obrigado!

(7)

A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal (BAKHTIN, 1979).

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RESUMO

O presente estudo teve como objetivo compreender o que orientam os documentos parametrizadores da educação de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental sobre a prática de análise linguística. A pesquisa buscou analisar as orientações presentes nos documentos parametrizadores a partir das proposições do Círculo de Bakhtin, analisando o entre-espaço no decorrer do tempo histórico e suas transformações, comparando os documentos quanto aos encaminhamentos de base dialógica para o trabalho com a prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa em contexto de Ensino Fundamental de Santa Catarina. Com vistas ao direcionamento de um estudo em linguística aplicada buscou-se um delineamento que se configurou na perspectiva qualitativa de natureza bibliográfica com características exploratórias, por meio da análise documental. A partir do embasamento teórico situado nas proposições do círculo e das reflexões sobre o ensino de Língua no contexto educacional discutiu-se o conceito de gramática, de sujeito, de língua(gem) e os fundamentos do ensino de Língua Portuguesa, assim como a prática de análise linguística propriamente dita. Ao observar as proposições encontradas nos documentos analisados percebemos que estes não trazem fundamentos teórico-metodológicos que explicitem a prática de análise linguística quanto a sua operacionalização, mas os documentos denotam a procedimentos e ações e até conteúdos direcionados à prática de análise linguística. Nesse sentido, destacamos que a prática de análise linguística emerge da língua(gem) em uso, a partir do gênero discursivo por meio da reflexão. A reflexão nasce a partir da materialidade linguística presente no gênero discursivo que demanda de explicitações, análise de recorrências, sistematizações, conceituações que sirvam de embasamento para a potencialização das interações discursivas dos educandos.

Palavras-chave: Prática de Análise Linguística. Documentos Parametrizadores. Círculo de

(9)

ABSTRACT

The present study had the objective to understand the orientations of the parameters documents of Portuguese language education in the elementary School about the practice of linguistic analysis. It searched to analyze the orientations presented in the parameters documents from the propositions of Bakhtin’s Circle, analyzing the between-space in the elapse of historical time and its transformations measuring this documents in the directions of dialogical basis for the work with the practice of linguistic analysis in classes of Portuguese Language in contexts of Elementary School in the Santa Catarina state. With a view to direction of a study in applied linguistics searched a delineation that was configured in the qualitative research of bibliographic nature with exploratory characteristics, through documentary analysis. From the theoretical basis situated in the propositions of the Bakhtin’s circle and the reflections on the teaching of Language in the educational context discussed in teaching, the concept of grammar, subject, language and the fundamentals of teaching of Portuguese language, as well as the practice of linguistic analysis proper. Observing the propositions found in the documents analyzed we realize that these do not bring theoretical-methodological foundations that explain the practice of linguistic analysis to their operationalization, but the documents denote procedures and actions and even contents directed to the practice of linguistic analysis. In this sense, we emphasize that the practice of linguistic analysis emerges from the language in use, through the reflection of the discursive genres, in which the reflection of the linguistic materiality present in the text demands of explications, analysis of recurrences, systematizations, conceptualizations that serve as support for the potentialiation of the students' discursive interactions.

Keywords: Practice of Linguistic Analysis. Parameters Documents. Bakhtin’s Circle.

Language

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LISTA DE FIGURAS

Figura 01 Organograma dos PCNs de Língua Portuguesa 78

Figura 02 Eixos Básicos sobre os conteúdos de Língua Portuguesa 84 Figura 03 Articulação entre o uso e a reflexão nas aulas de Língua Portuguesa. 85 Figura 04 Organograma das DCNs e relações com diretrizes do Ensino

Fundamental

91

Figura 05 Organograma da Orientação curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a educação Básica

103

Figura 06 Organograma da Proposta Curricular de Santa Catarina 112 Figura 07 Conceitos científicos articuladores da área da Linguagem 115

(11)

LISTA DE QUADROS

Quadro 01 Entre redação e produção de textos nas aulas de Língua Portuguesa 42 Quadro 02 Diferenças entre ensino de gramática e análise linguística 59

1 Quadro 03 Diferença entre a prática de análise gramatical, em especial sob o matiz

da gramática tradicional e a prática de análise linguística.

60 5 Quadro 04 Conceito de análise linguística: aspectos e características em Geraldi

(1984) (O texto na sala de aula)

61 5 Quadro 05 Conceitos e metodologias enunciadas: aspectos e características em

Geraldi (1991)

62

Quadro 06 Detalhamento metodológico 68

Quadro 07 Conceitos e conteúdos de Língua Portuguesa do ensino fundamental/anos finais

108 8

(12)

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BNCC – Base Nacional Curricular Comum CNE – Conselho Nacional de Educação DCNs – Diretrizes Curriculares Nacionais ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio GT – Gramática Tradicional

INAF – Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional LA – Linguística Aplicada

LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação LIBRAS – Língua Brasileira de S

PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais PCSC – Proposta Curricular de santa Catarina PPP – Projeto Político pedagógico

(13)

SUMÁRIO

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 15

2 A PERSPECTIVA DIALÓGICA DA LINGUAGEM 19

2.1 A LINGUAGEM 19

2.2 A ENUNCIAÇÃO 23

2.3 OS GÊNEROS DO DISCURSO 29

3 A PRÁTICA DE ANÁLISE LINGUÍSTICA NAS AULAS DE LÍNGUA

PORTUGUESA

34

3.1 A ABORDAGEM OPERACIONAL E REFLEXIVA DA LÍNGUA(GEM) 34

3.2 AS UNIDADES BÁSICAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM 41

3.3 ENSINAR (OU NÃO ENSINAR) GRAMÁTICA NA ESCOLA 45

3.3.1 Sobre diferentes concepções de gramática 45

3.3.1.1 Sobre a gramática tradicional 46

3.3.1.2 Sobre a gramática normativa 48

3.3.1.3 Sobre a gramática descritiva 49

3.3.1.4 Sobre a gramática internalizada 50

3.3.1.5 Outras acepções de gramática 51

3.4 A PRÁTICA DE ANÁLISE LINGUÍSTICA 53

4 PRESUPOSTOS METODOLÓGICOS 65

4.1 OS FUNDAMENTOS DA PESQUISA QUALITATIVA E DOCUMENTAL 65

4.2 O UNIVERSO DE ANÁLISE 69

4.2.1 Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) 69

4.2.2 Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) 71

4.2.3 Orientação curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a educação básica (2011)

73

4.2.4 Proposta Curricular de Santa Catarina (PCSC) 73

5 ANÁLISE DOS DOCUMENTOS PARAMETRIZADORES 76

5.1 SOBRE OS PCNs 77

5.2 SOBRE AS DCNs 90

5.3 SOBRE A ORIENTAÇÃO CURRICULAR COM FOCO NO QUE ENSINAR: CONCEITOS E CONTEÚDOS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA (2011)

102

(14)

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 121

REFERÊNCIAS 124

ANEXOS 130

Procedimentos e conteúdos da prática de análise linguística (PCNs) 130

Mapa conceitual e quadro de ênfase dos conceitos científicos essenciais no

documento Diretriz nº 3 (2001)

(15)

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O ensino de Língua Portuguesa1 tem-se direcionado desde a segunda metade do século XX, a partir dos anos de 1970, em seus documentos parametrizadores, para muitos posicionamentos centrados nas ideias do Círculo de Bakhtin2. Dialogismo, discurso, enunciação, polifonia, gêneros do discurso, entre tantos outros, são conceitos que se apresentam nos documentos parametrizadores e que têm sido reverberados nas práticas didático-pedagógicas de docentes de Língua Portuguesa na esfera escolar.

Essas perspectivas presentes nas proposições do Círculo, mesmo com o objetivo de atravessar a prática didático-pedagógica e influenciar o contexto educacional do ensino de Língua Portuguesa no Brasil, trazem a reflexão que apesar de estas ideias estarem presentes nos direcionamentos dos documentos parametrizadores, ainda apresentam, para muitos professores, algumas dificuldades de entendimento em sua aplicabilidade no contexto didático-pedagógico da sala de aula.

Isso porque permanece enraizado na prática didático-pedagógica um discurso tradicional que ainda encontra muitos ecos nas práticas docentes de Língua Portuguesa, mas que precisa ser deixado de lado, pois novos direcionamentos, ou seja, encaminhamentos emergem na tentativa de ressignificar as práticas de ensino e de aprendizagem de Língua Portuguesa no Brasil. Nessa direção, os documentos parametrizadores da educação se ressignificam, atualizam e buscam direcionamento dialógico para a reflexão sobre o ensino de língua e desse modo suscitam novas discussões como a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017) do Ensino Fundamental, que também é, dada sua recente publicação, ponto nevrálgico na escola.

Cabe ressaltar que os documentos parametrizadores da educação “neste estudo: os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (BRASIL, 1998), as Diretrizes Curriculares Nacionais (2013) Orientação curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a educação básica (SC, 2011) e a Proposta Curricular de Santa Catarina (SC, 1998; 2014)” foram produzidos com o objetivo de ressignificar práticas didático-pedagógicas

1

Para melhor compreensão quando se tratar de disciplina de Língua Portuguesa utilizar-se-á iniciais maiúsculas. Quando se referir à língua utilizar-se-á as letras iniciais minúsculas.

2 A expressão “Círculo de Bakhtin” é utilizada para designar as reflexões e formulações nas obras de um grupo

de intelectuais que circundavam o pensador Mikhail Bakhtin (1895-1975) (BRAIT; CAMPOS, 2009). Essas reflexões permeiam a interação verbal, o dialogismo, a enunciação e o signo ideológico.

(16)

e também apresentar encaminhamentos teórico-metodológicos ao professor da Educação Básica.

O que orientam os documentos parametrizadores da educação sobre as aulas de Língua Portuguesa, em especial em torno da prática de análise linguística, principalmente sob a ótica teórico-metodológica do Círculo de Bakhtin, torna-se uma maneira de repensar e de refletir sobre a prática pedagógica em Língua Portuguesa à luz das reverberações dos documentos supracitados.

É nessa direção que o objetivo da presente pesquisa se consocia. Em outras palavras, buscamos compreender como os documentos parametrizadores do ensino de Língua Portuguesa da Educação Básica, especificamente do Ensino Fundamental, no contexto nacional e também no contexto do estado de Santa Catarina (SC) orientam sobre a prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa.

As orientações didático-pedagógicas para a prática de análise linguística presentes nos documentos parametrizadores do ensino de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental no estado de Santa Catarina (SC) configuram-se como tema central nesse estudo.

O objetivo geral busca “compreender o que orientam os documentos parametrizadores da educação de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental PCNs (BRASIL, 1998), DCNs (BRASIL, 2013), Orientação curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a educação básica (SC, 2011) e a PCSC (SC, 1998; 2014) especificamente, para a prática de análise linguística”.

Como objetivos específicos destacam-se:

 Analisar as orientações presentes nos documentos parametrizadores em torno do trabalho com a prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa, a partir da perspectiva das proposições do Círculo de Bakhtin;

 Analisar como se textualiza, nos documentos, o entre-espaço das orientações entre o trabalho com a gramática tradicional e a prática de análise linguística para aulas de Língua Portuguesa;

 Comparar os quatro documentos e suas recomendações quanto aos encaminhamentos de base dialógica para o trabalho com a prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa em contexto de Ensino Fundamental. A presente pesquisa justifica-se, pois em relação ao cenário educacional catarinense e também como professor atuante na Educação Básica observa-se que há uma parte significativa de professores de Língua Portuguesa que não conhecem os documentos

(17)

parametrizadores da educação e, muitas vezes, nem mesmo a proposta pedagógica a ser seguida em suas práticas. Essa constatação tem reflexos importantes na escola, seja na aprendizagem dos educandos ou no fazer didático-pedagógico do professor, gerando diversas indagações e complexidades quanto ao trabalho com as aulas de Língua Portuguesa.

As aulas de Língua Portuguesa demandam um fazer pedagógico que circunda o texto, e, a partir dele, a leitura, a escrita e a análise linguística. Entretanto, direcionar-se ao texto, essencialmente à noção de gêneros discursivos parece, ao nosso olhar, trazer algumas dificuldades ao ensino de Língua Portuguesa, no qual ainda se observam atividades de cunho metalinguístico, como classificação e identificação de classes gramaticais e prescrição de regras predominando, embora estas sejam necessárias em algum momento, dependendo do contexto.

Essas peculiaridades no ensino de Língua Portuguesa trazem muitas inquietações a este professor e pesquisador, pois a análise linguística precisa se desvencilhar dessa abordagem tradicional para uma perspectiva reflexiva do papel da língua(gem) nas interações humanas, haja vista que ela é “[...] constitutiva dos sujeitos, marca de identidade, condição de pensamento, forma fundamental de relacionamento e de intervenção no mundo” (BRITTO, 1997, p. 24).

Com base nesses expostos, advoga-se sobre a importância do conhecimento dos documentos parametrizadores da educação pelos professores, para um melhor direcionamento teórico-metodológico e didático-pedagógico da disciplina de Língua Portuguesa, pois acreditamos, seja essa forma de transcender a abordagem tradicional já mencionada.

Diante dessas reflexões sobre as aulas de Língua Portuguesa, destacamos a relevância do estudo, pois entendemos que o ensino de Língua Portuguesa no Brasil foi e é constituído em sua singularidade por meio de práticas sociais, históricas e culturais que trilharam por um tempo histórico diverso e que construíram sentidos e relevância, de acordo com as políticas educacionais de seu tempo.

Assim, nossa pesquisa revela-se como importante no contexto da Linguística Aplicada porque busca a compreensão e a reflexão sobre as práticas sociais de língua(gem) na educação e nas aulas de Língua Portuguesa, essencialmente aquelas que situam a análise linguística.

Justificamos o presente estudo na tentativa de compreender como orientam os documentos parametrizadores a disciplina de Língua Portuguesa quanto à prática de análise linguística, situando-os no paradigma da abordagem operacional e reflexiva, e na busca de

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ressignificações, principalmente com as recentes discussões que suscitam num espaço social tão diverso como é a escola brasileira.

Para o alcance da proposta de pesquisa aqui delineada organizou-se textualmente as seguintes sessões.

No capítulo inicial, destacamos uma breve introdução, situando a contextualização do trabalho. Neste apresentamos o contexto da pesquisa, a relevância e justificativa.

No segundo capítulo, tratamos das proposições do Círculo de Bakhtin sobre a perspectiva dialógica da língua(gem). Nele apresentamos a base epistemológica da pesquisa, na qual se destaca as proposições do Círculo de Bakhtin. Discutimos os conceitos do dialogismo, da língua(gem), enunciação e dos gêneros do discurso.

O capítulo terceiro busca discutir sobre a prática de análise linguística nas aulas de LP, mostrando reminiscências da cultura da abordagem tradicional e destacando-se a abordagem operacional e reflexiva presente nos documentos parametrizadores. Em, “as unidades básicas de ensino e de aprendizagem”, discutimos a prática de produção textual e a leitura articulada à prática de análise linguística. Em “ensinar (ou não ensinar) gramática na escola”, discutimos a gramática na escola, algumas acepções do termo gramática, defendendo a prática de análise linguística nas aulas de Língua Portuguesa sempre a partir do texto e da língua(gem) em uso, articulada com as práticas de língua(gem) orais e escritas.

No quarto capítulo, destacam-se as ancoragens metodológicas da pesquisa, em que se caracterizam os delineamentos metodológicos da pesquisa como sendo uma pesquisa qualitativa de natureza bibliográfica com características exploratórias, por meio da análise documental. Nesta seção, os fundamentos da pesquisa qualitativa e da análise documental ecoam juntamente com o universo de análise que são os seguintes documentos: PCNs (BRASIL, 1998), DCNs (BRASIL, 2013), Orientação curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a educação básica (SC, 2011) e a PCSC (SC, 1998; 2014).

O quinto capítulo apresenta as proposições e reflexões que emergiram a partir da análise dos documentos parametrizadores sobre a orientação à prática de análise linguística e às aulas de Língua Portuguesa a partir das reflexões das inteligibilidades do Círculo de Bakhtin seguida das considerações finais.

(19)

2 A PERSPECTIVA DIALÓGICA DA LINGUAGEM

Neste capítulo, discutimos a perspectiva dialógica da língua(gem) a partir dos fundamentos dos escritos do Círculo de Bakhtin, pois o dialogismo é o constructo teórico-filosófico que permeia epistemologicamente os escritos do Círculo e, por consequência, a presente pesquisa. Nesse contexto, buscar-se-á o diálogo entre as várias posições axiológicas presentes nos documentos e suas reverberações.

Para essa apresentação teórico-metodológica, destacamos a concepção de língua(gem) 3 como objeto social na interação, o enunciado como unidade comunicativa e os gêneros discursivos como a materialização da língua(gem) nas mais diferentes esferas da atividade humana.

2.1 A LÍNGUA(GEM)

Denominam-se proposições do Círculo de Bakhtin os estudos elaborados pelos russos (M. Bakhtin, P. Medviédev e V. Volochínov) que se reuniam para discutir assuntos relacionados à filosofia, artes e língua(gem) a partir de 1919. A divulgação dos estudos do Círculo no Brasil emerge a partir da década de 1960, mas é a partir de 1980 que ela passa a ser estudada de modo mais relevante, culminando com suas reverberações nos documentos parametrizadores que emergem, trazendo um novo viés para a educação linguística, em especial, para o ensino de Língua Portuguesa na esfera escolar.

Para o Círculo, a função central da língua(gem) ocorre na interação entre sujeitos historicamente situados, abandonando-se a concepção de língua(gem) como expressão do pensamento (subjetivismo idealista), embora não negue a relação entre pensamento e língua(gem) ou de instrumento de comunicação (objetivismo abstrato) na qual a língua é entendida como um sistema de signos, o que afasta a língua(gem) do intercurso das relações sociais.

Para a melhor compreensão do exposto sobre a língua(gem), observamos inicialmente os dois pensamentos filosófico-linguísticos do século XX reconhecidos pelo Círculo que centravam-se no “subjetivismo idealista” e no “objetivismo abstrato”,

3

Buscaremos utilizar o termo língua(gem), utilizado inicialmente nas proposições de Geraldi, denotando dentro do aporte teórico do Círculo de Bakhtin não haver uma diferenciação entre Língua e Linguagem.

(20)

se o entendimento da língua(gem) difundida pelos estudos do Círculo, a qual envolve a perspectiva social e suas reverberações.

Nesse sentido, compreende-se o “subjetivismo idealista”, como uma abordagem influenciada por Wilhelm Humboldt, que compreende a língua(gem) como representação da mente humana manifestada no ato da fala. No subjetivismo idealista, observa-se a relação entre a criação linguística e a criação artística,considerando-se a língua como fenômeno que se materializa do interior para o exterior do indivíduo.

O subjetivismo idealista entende a língua como um fenômeno que tem sua origem no interior do indivíduo, logo a enunciação, de acordo com essa visão, partiria do interior para o exterior do sujeito. Ainda nessa linha de pensamento, a língua é estabelecida como uma criação ininterrupta cuja evolução se dá de modo autônomo e ilimitado. Essa postura idealista defende a ideia de que o indivíduo tem pleno poder de criar e recriar expressões linguísticas e, por isso, possui esse caráter autônomo e ilimitado no que se refere à linguagem situada no ato da fala (SILVA e LEITE, 2013, p. 40).

Por meio da citação acima podemos observar que a interação dentro da vertente do subjetivismo idealista não contempla o processo de interação verbal, fato que é criticado por Volochínov (2014), pois essa perspectiva abandona os fatores interacionais e sociais que se apresentam de modo dialógico na enunciação, no qual os constituintes do discurso: o eu e outro e o meio e suas inter-relações são negligenciados. Além disso, merece ressalva que as proposições do Círculo destacam o sujeito como dialógico, diferente deste sujeito psicológico presente no subjetivismo idealista.

Essa crítica pode ser evidenciada a partir dos pressupostos dessa abordagem que preconizam:

1 A língua é uma atividade, um processo criativo ininterrupto de construção (“energia”), que se materializa sob a forma de atos individuais da fala;

2 As leis da criação linguística são essencialmente as leis da psicologia individual; 3 A criação linguística é uma criação significativa, análoga à criação artística; 4 A língua, enquanto produto acabado (“ergon”), enquanto sistema estável (léxico, gramática, fonética) apresenta-se como um depósito inerte, tal como a lava fria da criação linguística, abstratamente construída pelos linguistas com vistas à sua aquisição prática como instrumento pronto para ser usado (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 74 e 75).

Assim evidenciamos o objetivismo abstrato, o qual percebe a língua como um sistema de sinais e como instrumento para a comunicação entre os sujeitos. Podemos perceber que com relação ao objetivismo abstrato Bakhtin [Volochínov] (2014 [1929]) mostra que, no processo de entendimento da língua(gem), a interação verbal, que é facilitadora do fator social capaz de influenciar o discurso entre os falantes, é negligenciada.

(21)

Nesse contexto, o objetivismo abstrato possui características que negam as relações de ordem intersubjetiva e de relação de situação de interação, podendo-se elencar de acordo com Silva e Leite (2013):

- a língua(gem) é realizada por enunciações individuais;

- as leis que explicam a língua(gem) são as mesmas leis da psicologia individualista; - existe uma atividade de criar língua(gem), que é consciente e de escolhas, ou seja, há um produto pronto e a consciência reproduz esse produto;

- a língua é um produto acabado, assim apenas representa esse produto, configurando-se num viés representacionalista da língua(gem) (SILVA e LEITE 2013).

Com relação ao “objetivismo abstrato”, que se configurou na segunda tendência filosófica linguística no século XX, destaca-se Ferdinand de Saussure, apontando à compreensão da língua como fator social, entretanto, essa concepção social está atrelada a sistema psíquico que expõe o indivíduo de uma comunidade de fala a um sistema linguístico pronto, imóvel e limitado, ditado por signos e regras que impedem o sujeito de agir sobre sua própria língua, a fim de modificá-la.

Assim, observamos como características centrais dessa tendência que:

1. A língua é um sistema estável, imutável, de formas linguísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual a consciência individual e peremptória para esta.

2. As leis da língua são essencialmente leis linguísticas específicas, que estabelecem ligações entre os signos linguísticos no interior de um sistema fechado. Estas leis são objetivas relativamente a toda consciência subjetiva.

3. As ligações linguísticas específicas não têm nada a ver com valores ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na base dos fatos linguísticos, nenhum motor ideológico. Entre a palavra e seu sentido não existe vínculo natural e compreensível para a consciência, nem vínculo artístico.

4. Os atos individuais da fala constituem, do ponto de vista da língua; simples refrações ou variações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas. Mas são justamente esses atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua; enquanto tal, a mudança é do ponto de vista do sistema, irracional e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua história não existe nem vínculo nem afinidade de motivos. Eles são estranhos entre si (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 85, destaques do autor).

Nessa perspectiva percebemos que a organização dos fenômenos linguísticos está centrada na ideia da língua como sistema que é voltado a si mesmo. Isto posto, as noções das relações e do próprio conceito de signo linguístico (significado, significante) são compreendidas dentro do próprio sistema. Observamos, então sob essa perspectiva que a língua é imutável, o que implica negar os fatores sociais e interacionais da enunciação. Isso

(22)

demanda nos aspectos interacionais a perda da relação entre o eu e o outro (interlocutores no processo interacional da comunicação).

Desta maneira, o Círculo compreende a língua(gem) como resultado da interação verbal, pois a língua só produz sentidos no contexto das relações entre sujeitos da interação verbal.

A verdadeira substância da Língua é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas [a língua como sistema de formas, tal como concebida pelo estruturalismo] nem pela enunciação monológica isolada [a língua como expressão de uma consciência constituída individualmente], nem pelo ato psicofisiológico de sua produção [atividade mental interiorizada], mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p.127).

Diante disso, compreendemos que dentro da perspectiva do Círculo tanto o subjetivismo idealista quanto o objetivismo abstrato negligenciam aspectos essenciais da língua(gem), isso porque, para o Círculo, a essência da língua(gem) está na interação verbal entre os indivíduos no contexto das relações sociais. Por conseguinte, na visão dialógica da língua(gem), a língua é concebida como objeto social e dessa forma, mutável. Ela é determinada pelas condições reais da enunciação, pela situação social imediata e pela ideia de um horizonte social das diferentes esferas (marcado pela condição de produção, condição de circulação e condição de recepção, no sentido de compreensão, do enunciado).

[...] toda palavra comporta duas faces. Ela é terminada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929] p. 117, grifos do autor).

Nesse contexto, para o Círculo, os sujeitos ao proferirem uma enunciação, não tomam as formas da língua de um sistema de signos negligenciando as relações sociais e interativas, mas sim as considerando a partir de uma postura ativa dos sujeitos da interlocução que é construída a partir dos horizontes axiológicos (valorativos) dos sujeitos da enunciação.

[...] a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor [...] (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 116, grifos do autor).

Para Volochínov (2013 [1930]), a língua(gem) deve ser incluída a um complexo universo denominado de atmosfera social. Por isso, o entendimento do que é língua(gem) demanda percebermos nela o atravessamento da atmosfera social e as suas ressonâncias. Disso, observamos que a língua(gem) humana demanda no processo de interação um falante e um ouvinte, permeado pela situação social de comunicação e suas nuances.

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À vista disso sob o nuance social, questões essenciais no processo constitutivo emergem como o intercâmbio social e interação verbal, discurso monológico e discurso dialógico, a dialogicidade da língua(gem) interior, a orientação social da enunciação, a parte - subentendida - da enunciação, a situação e a forma da enunciação: a entonação, a seleção e a disposição das palavras e a estilística da enunciação da vida cotidiana (VOLOCHÍNOV, 2013 [1930]).

A palavra da língua é uma palavra semialheia. Ela só se torna própria, quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento, quando a domina através do discurso, torna-a familiar com sua orientação semântica e expressiva. Até o momento em que foi apropriado, o discurso não se encontra em uma língua neutra e impessoal (pois não é do dicionário que ele é tomado pelo falante!), ele está nos lábios de outrem: e é lá que é preciso que ele seja isolado e feito próprio (BAKHTIN, [VOLOCHÍNOV], 1988 [1975], p. 100).

Sob essa perspectiva, torna-se necessário destacarmos a língua(gem) como objeto social, pois a concepção de língua(gem) do Círculo destaca a interação entre sujeitos historicamente situados como função central da língua(gem), e não como instrumento de comunicação ou como expressão do pensamento. Nesse contexto, ressalta-se que a concepção de língua(gem) como interação social, abarcando “[...] dinâmica de múltiplas inter-relações responsivas entre posições socioavaliativas. Na interação vista pelo olhar Bakhtiniano, não se trocam mensagens, mas se dialogizam axiologias [valores, pontos de vista]” (FARACO, 2005, p. 219).

Dessa forma, observamos que, nos constructos do Círculo, a concepção de língua(gem) postulada como interação humana em que sujeitos situados historicamente se constituem e dialogam com o outro se centra na relação constitutiva com a situação social (na qual os enunciados são produzidos em situações sociais de interação); e também na relação constitutiva com a ideologia (na qual há uma relação constitutiva dialética entre a língua(gem) e a ideologia, pois a ideologia não tem existência fora de uma língua(gem), mas a língua(gem) sim é marcada pelos valores ideológicos).

2.2 ENUNCIAÇÃO

A enunciação na perspectiva dos Estudos Dialógicos demanda um direcionamento sobre as reflexões acerca da língua(gem) nas obras do Círculo de Bakhtin, na qual “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos,

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proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2011 [1979], p. 261).

Nos escritos do Círculo, não há uma distinção entre enunciado e enunciação, isso porque o Círculo compreende a língua(gem) como fenômeno social de interação verbal que materializa sentidos em um contexto social.

De acordo com Volochínov (2014 [1929]):

A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é a função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for superior ou inferior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.) (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 116). Assim, no processo interacional da enunciação a palavra é o resultado dessa interação, sendo o contexto social o elemento determinante na enunciação, pois é a circunstancia social que molda e dá substância à enunciação. Diz-se que o enunciado condiz a língua(gem) em uso, de modo concreto e real, configurando-se na materialização do discurso, que emerge dos sujeitos discursivos de uma ou outra esfera da atividade humana. Então, observam-se os enunciados como as unidades concretas e reais da comunicação discursiva interacional (BAKHTIN [VOLOSHINOV] 2011 [1979]).

Nesse contexto, o uso da língua materializa-se na forma de enunciados concretos e singulares, pois nas palavras de Bakhtin “aprender a falar é aprender a construir enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e, evidentemente, não por palavras isoladas)” (BAKHTIN [VOLOSHINOV], 2011 [1979], p. 283).

Por conseguinte, observamos a enunciação como o produto da interação social tanto quando for um ato de fala determinado pelo contexto imediato, tanto quando for um ato de fala determinado pelo contexto mais amplo. (Conjunto das condições de vida de uma determinada comunidade linguística) (VOLOSHÍNOV, 2014 [1929]).

Considerando-se o enunciado como o elemento da construção do discurso, este se revela como um evento único e que se repete apenas como um novo acontecimento, pois cada interação é única. Assim, o enunciado é uma nova unidade de comunicação discursiva de forma contínua. O enunciado, portanto, sob o ponto de vista histórico, é apenas um elo da comunicação discursiva que não pode ser separado de outros elos, pois gera atitudes responsivas dos interlocutores e ressoa dialogicamente no discurso desses.

Observamos que todo enunciado está direcionado aos participantes de uma interlocução, contando com sua compreensão concreta e ativa por meio de sua compreensão e

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resposta na interação, configurando-se na dialogia. Isso porque o dialogismo é um princípio da constituição de enunciados.

Para o Círculo, o enunciado se integra a situação de interação, na relação da palavra com a vida real sob três aspectos:

1.horizonte espacial compartilhado, 2.compreensão da situação

3.valoração compartilhada.

Compreendemos que na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem destaca-se a língua(gem) como fenômeno social, e nesta obra encontramos um mapeamento da língua como objeto social. E, nesse aspecto, Volochínov (2014) aponta que a relação entre enunciado e situação verbal define-se pelo fato de toda enunciação se integrar à situação extralinguística, portanto saturada de ideologia.

A enunciação enquanto tal é um puro produto da interação social, quer se trate de um ato de fala determinado pela situação imediata ou pelo contexto mais amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma determinada comunidade linguística (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 126).

Os escritos do Círculo de Bakhtin têm como objeto de análise a materialização da palavra na situação comunicacional, envolvendo o contexto social, desse modo não é mais a palavra isolada, ou seja, a língua por si mesma. Isso porque se entende que na situação extraverbal encontram-se índices sociais de valoração subtendidos pelos falantes para a realização do ato social da língua(gem).

A chamada situação extraverbal pode ampliar-se tanto no horizonte imediato, compreendido como tempo/espaço reduzido, tanto no horizonte amplo, ao estabelecer relação de tempo/espaço mais amplos no contexto social, mas ambos atravessados pelas ideologias dos falantes.

Portanto, o enunciado se configura em várias reverberações de intercâmbio social. Ele é um elo na cadeia discursiva. Para compreendermos essa questão, Volochínov (2013 [1930]) aponta encaminhamentos para a investigação da língua(gem) sob a ótica sociológica a partir da análise das enunciações, apresentando como pressupostos metodológicos:

 Organização da sociedade;

 Intercâmbio comunicativo social, denominado por Bakhtin como esferas;  Interação verbal, constituída no interior das esferas;

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 Formas gramaticais da língua, não há como pensar formas léxico-gramaticais sem pensar que elas são respostas da amplitude social (VOLOCHÍNOV, 2013 [1930]). Salientamos assim a relação dinâmica existente com os outros enunciados pertencentes aos outros interlocutores na situação de comunicação discursiva, na qual o enunciado não pode ser separado da situação social de interação. Para o Círculo, a enunciação compreende uma parte verbal e outra extraverbal, na qual o enunciado é a referência para a relação de interação, não é estrutura de texto, mas uma forma relativamente estável de situação de comunicação e atua como um referencial para a situação de comunicação.

Essa enunciação, enquanto unidade de comunicação verbal, enquanto unidade significante, elabora e assume uma forma fixa precisamente no processo constituído por uma interação verbal partícula, gerada num tipo particular de intercâmbio comunicativo social. Cada tipo de intercâmbio comunicativo referido anteriormente organiza, constrói e completa, a sua maneira, a forma a forma gramatical e estilística da enunciação [...] (VOLOCHÍNOV, 2013 [1930], p. 159).

Nessa perspectiva, os estudos dialógicos do Círculo demonstram que há diferentes situações de interação mediadas por diferentes enunciações de sujeitos que se engajam em diferentes relações intersubjetivas, assim a enunciação terá sempre diferentes sentidos. Dessa forma, observando-se a língua(gem) como objeto social salienta-se que ela é mediada pelas situações reais de comunicação. Isso porque, numa situação real de comunicação, o ouvinte, ao ouvir e compreender um enunciado qualquer, assume uma posição de responsividade diante do enunciado dito pelo falante, pois concorda, discorda ou complementa aquilo que foi dito. Assim, o discurso que é representado na fala, na perspectiva dialógica, pressupõe uma resposta para que o ouvinte também se torne um falante no processo comunicativo.

Dessa forma, na comunicação humana todo uso da língua(gem) pressupõe uma resposta, pois o processo comunicativo é um ato responsivo, pois parte do processo de compreensão da fala. Na abordagem dialógica, o discurso é a materialização da enunciação de um falante específico, que é atravessada por sua compreensão da realidade e valoração.

O Círculo considera os enunciados como parte concreta do discurso marcado por três instâncias constitutivo-funcionais caracterizadoras

1ª- Alternância dos sujeitos da fala4,

Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico - tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados dos outros, depois do seu término, os

4

É a alternância dos falantes, numa situação específica, dentro de seus propósitos discursivos, constitui-se pelo fato de que o falante conclui o que objetiva dizer (dixi conclusivo), termina o seu enunciado, e assim cede a palavra ao outro, o interlocutor (imediato ou não), para dar lugar a sua compreensão ativa, a sua postura resposta. A troca de sujeitos discursivos emoldura o enunciado, estabelece suas fronteiras e cria sua corporeidade específica em relação aos outros enunciados vinculados a ele (RODRIGUES, 2001, p. 30).

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enunciados responsivos de outros (ou ao menos uma compreensão ativamente responsiva baseada nessa compreensão). O falante termina o seu enunciado para passar a palavra ao outro ou dar lugar à sua compreensão ativamente responsiva. O enunciado não é uma unidade convencional, mas é uma unidade real, precisamente delimitada da alternância dos sujeitos do discurso, a qual termina com a transmissão da palavra ao outro, por mais silencioso que seja o seu “dixi” percebido pelos ouvintes [como sinal] de que o falante terminou (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2011 [1979], p. 275).

2ª- Conclusibilidade

[...] a conclusibilidade do enunciado é uma espécie de aspecto interno da alternância dos sujeitos do discurso; essa alternância pode ocorrer precisamente porque o falante disse (ou escreveu) tudo que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2011 [1979], p. 280-281).

3ª- Expressividade.

[...] nos diferentes campos da comunicação discursiva, o elemento expressivo tem significado vário e grau vário de força, mas ele existe em toda parte: um enunciado absolutamente neutro é impossível (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2011 [1979], p. 289).

Em relação à alternância dos sujeitos da fala, podemos compreender que, na enunciação, os interlocutores, locutor e locutário assumem papéis sociais na situação de comunicação. Dessa forma, essa relação dialógica entre eles pressupõe sempre a resposta do outro no processo de interação verbal, ocorrendo então alternância.

Dessa forma, quando em determinada situação comunicativa o locutor diz o que queria dizer naquele momento e em condições distintas, ocorrendo o relativo fim do enunciado, espera-se que haja então, uma atitude responsiva do interlocutor a respeito do que foi dito.

Assim, a conclusibilidade na construção de significados emerge como uma reação-resposta do interlocutor que está ligada a exauribilidade do objeto e do sentido. Ela também está associada às formas típicas composicionais, marcada pela vontade discursiva do falante, que materializará sua intenção comunicativa por meio de uma esfera de comunicação humana pela qual o discurso transitará, observando-se o conteúdo temático, a situação de mediação e a composição de seus participantes (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV], 2011 [1979]).

Salienta-se que no momento da interação verbal, valores sociais determinam a escolha de recursos léxico-gramaticais do enunciado. Assim, todo enunciado é expressivo, pois ele demanda a construção de significações que perpassam pelo tempo histórico da enunciação, pela ideologia, e pelas referências sociais e culturais que o momento de interação comunicacional exigir.

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Deve-se considerar ainda que todo enunciado é composto de duas dimensões a verbal e a social. Na dimensão social, encontram-se o horizonte espacial e temporal do enunciado (quando e onde), o horizonte temático (temas, objetos) e o horizonte axiológico (valores e esferas), os quais correspondem a situação social de interação do enunciado que deve ser observada como parte integrante deste. Na dimensão verbal destaca-se que o texto enunciado (verbal / oral ou escrito) é a unidade. É a partir dessa unidade que se evidencia o texto como um enunciado, pois se encontra neste, o projeto discursivo (o querer dizer do locutor) e a realização desse dizer, no qual a inter-relação destes dois elementos constitui o texto como enunciado (BAKHTIN, [VOLOCHÍNOV] 2011 [1979]).

Nesse contexto, olhar o texto como enunciado emerge de duas perspectivas das quais o texto se constitui. A primeira configura-se na perspectiva da língua como sistema e do texto na sua imanência, o qual abstraído de sua situação social relaciona-se com tudo aquilo que pode ser reproduzido e repetido no texto, no qual se observa o texto como um sistema de signos e estrutura textual.

A segunda perspectiva denota o texto como acontecimento irrepetível do enunciado, que se manifesta na interação com outros textos (enunciados). Assim, quando se observa que a constituição da língua(gem) humana é mediada pelo texto situa-se o texto em sua situação de enunciado. Desse modo a condição de existência do texto como enunciado ou unidade de interação demanda da situação social de interação e das relações dialógicas que o constituíram e dos valores ideológicos que o permeiam (RODRIGUES, 2001).

Diante desses expostos, entendemos que a compreensão e a construção de enunciados ocorrem dentro do âmbito social, pois são produzidos em consonância com certas condições sociais, como modos sociais de dizer e agir, que se configuram em formas típicas chamadas de gêneros do discurso.

Destacamos que Volochínov (2014 [1929]) faz considerações importantes sobre tema (sentido) e significação dos enunciados, observe-se:

Conclui-se que o tema da enunciação é determinado não só pelas formas linguísticas que entram na composição (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entonações), mas igualmente pelos elementos não verbais da situação. Se perdermos de vista os elementos da situação, estaremos tão pouco aptos a compreender a enunciação como se perdêssemos suas palavras mais importantes. O tema da enunciação é concreto como o instante histórico ao qual ela pertence. Somente a enunciação tomada em toda sua amplitude concreta, como fenômeno histórico, possui um tema. Isto é o que se entende por tema da enunciação (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 133-134).

(29)

Assim, o autor supra-citado mostra-nos que no processo de interação verbal entram em jogo não apenas os elementos verbais presentes numa enunciação, mas também, todos os elementos que participam da situação extraverbal de interação.

Deste modo o tema adquire relevante importância na enunciação, pois as significações das palavras podem concretizar-se num dado contexto de enunciação. Isso porque a significação é construída em conjunto com o todo, pois sem esse não há significação, de modo que não se pode traçar uma fronteira clara entre ambos.

Por significação, diferentemente de tema, entendemos os elementos da enunciação que são reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos. Naturalmente, esses elementos são abstratos: fundados sob uma convenção, eles não têm existência concreta independente, o que não os impede de formar uma parte inalienável, indispensável da enunciação (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 134).

Nessa perspectiva, destacamos que a compreensão dos enunciados, observando-se a situação de interação comunicativa, demanda um olhar atento das particularidades do tema e da significação. Compreender o enunciado de outrem depende também de como se constitui o interlocutor, pois na interação verbal, cada palavra enunciada corresponde também palavras que também são nossas, constituindo a interlocução em um ato responsivo entre os falantes.

Dessa forma, na perspectiva do Círculo salientamos que:

[...] Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão (VOLOCHÍNOV, 2014 [1929], p. 136-137).

A partir do exposto, compreende-se que em uma enunciação não somos interlocutores passivos, mas sim sujeitos ativos na interlocução que constroem significações a partir do tema interlocutivo. Adotando uma resposta ativa e interagindo na interlocução passamos a ter uma atitude responsiva diante de nossas enunciações discursivas que se manifestam por meio dos gêneros discursivos, sendo sobre eles a próxima seção.

2.3 OS GÊNEROS DO DISCURSO

Conforme já mencionado no segmento anterior, as proposições dialógicas do Círculo denotam o uso da língua(gem) como um elo que liga os mais variados campos da comunicação humana, estes elos configuram-se em enunciados e juntando-se a outros

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resultam na enunciação (textual: oral ou escrita) que se apresenta discursivamente na comunicação humana.

Desse modo, a língua(gem) se materializa em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos que são usados pelos falantes no processo de interação verbal. Cada enunciado escolhido pelo falante é único e revela uma condição específica a uma ou mais finalidades, pois está ancorado na seleção de recursos verbais e não verbais que lhes garantem as especificidades de um determinado campo da comunicação de atividade humana, as denominadas esferas sócio discursivas.

O gênero do discurso não é uma forma da língua, mas uma forma típica do enunciado; como tal forma, o gênero inclui certa expressão típica a ele inerente. No gênero a palavra ganha certa expressão típica. Os gêneros correspondem a situações típicas da comunicação discursiva, a temas típicos, por conseguinte, a alguns contatos típicos dos significados das palavras com a realidade concreta em circunstâncias típicas (BAKHTIN, [VOLOCHÍNOV] 2011[1979], p. 293, grifos do autor).

Assim, o círculo estabelece uma relação constitutiva entre os usos da língua(gem) e as atividades humanas, na qual as esferas sociodiscursivas estão diretamente relacionadas com a língua(gem). Essas esferas constituem o ambiente em que ocorre a valoração dos enunciados, as construções de significados e nas quais circulam os mais variados gêneros.

Nesse sentido, dentro de uma esfera de comunicação da atividade humana compreendemos que mesmo que o enunciado seja individual, quando o analisamos em um campo específico de comunicação, como o monólogo, por exemplo, percebe-se a presença de tipos relativamente estáveis de enunciados, pois ainda assim há um outro interlocutor, haja vista que o gênero se constitui a partir de sua ligação com uma situação social de interação.

Dessa forma, para melhor compreensão dos gêneros é preciso constatar que os enunciados situam-se em campos da atividade humana que são denominados de esferas da comunicação humana ou esferas sóciodiscursivas. Bakhtin ([Volochínov] 2011 [1979]) pontua que estas esferas constituem o princípio organizador dos gêneros e estabilizam relativamente os enunciados que nelas circulam, originando gêneros do discurso particulares dessas esferas. Desse modo, “cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso” (BAKHTIN, BAKHTIN, [VOLOCHÍNOV] 2011[1979], p. 262, grifos do autor).

Observa-se uma grande variedade de gêneros do discurso nas mais variadas esferas de comunicação humana. Além disso, para as proposições dialógicas do círculo os gêneros discursivos se tipificam em primários e secundários. Os primários (simples) correspondem à

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comunicação mais imediata, dessa forma menos monitorada; enquanto os secundários (mais complexos) estão organizados e institucionalizados, e dessa forma são marcados por ideologias presentes nas situações de comunicação.

Não se deve, de modo algum, minimizar a extrema homogeneidade dos gêneros discursivos e a dificuldade daí advinda de definir a natureza geral do enunciado. Aqui é de especial importância atentar para a diferença essencial entre os gêneros discursivos primários (simples) e os secundários (complexos) – não se trata de uma diferença funcional. Os gêneros discursivos secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científicas de toda a espécie, os grandes gêneros publicitários, etc.) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) - artístico, científico, sociopolítico, etc (BAKTHIN, [VOLOCHÍNOV] 2011 [1979], p. 263). Assim, percebemos que os gêneros discursivos não são apenas marcados por questões histórico-culturais e sociais, mas também por ideologias pelas quais são atravessados. Dessa forma, não há como definir ou limitar a natureza dos gêneros pelo fato de que no processo de formação os gêneros secundários incorporam os gêneros primários, estabelecendo novas condições de comunicação discursiva.

Entretanto, é possível perceber por meio das esferas sociodiscursivas que cada esfera do campo da atividade humana demanda uma língua(gem) na qual encontra-se “[...] determinados tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis” (BAKHTIN, [VOLOCHÍNOV] 2011 [1979], p. 266). Isso porque todo enunciado escolhido pelo falante é único e revela condição de produção e finalidade específicas, além de ser estruturado pelo tema, estilo e composição (BAKHTIN [VOLOCHÍNOV] 2011 [1979]).

Bakhtin [Volochínov] (2011 [1979], p. 262), aponta que esses três elementos “[...] estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação”. Como já mencionado, o tema constituído do sentido e da significação dos enunciados é parte relevante para a percepção sobre os gêneros do discurso proposta pelo círculo, na qual tema, estilo e composição são indissolúveis e determinados pelas esferas de comunicação sociodiscursiva da qual o enunciado pertence.

Por conseguinte, os enunciados produzidos, sejam eles orais ou escritos, são constituídos de características relativamente estáveis, mesmo que os interlocutores não tenham consciência destas. Todas essas características determinam os gêneros discursivos caracterizados, então, pelo seu conteúdo temático, seu modo composicional e seu estilo.

Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursivas, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados tipos de enunciados estilísticos,

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temáticos e composicionais relativamente estáveis (BAKHTIN, [VOLOSHINOV], 2011 [1979], p. 266).

Então, o tema do enunciado constitui-se pelo objeto discursivo atravessado axiologicamente, de sentido. Enquanto que no horizonte temático múltiplos temas se formam e circulam no enunciado. Assim, o conteúdo temático relaciona-se ao objeto a ser discursivizado, ao objeto de sentido, que é sempre axiológico (ACOSTA-PEREIRA, 2012).

O estilo compreende o traço que corresponde à identidade do locutor, às condições específicas de cada campo da atividade humana de dado grupo social. Enquanto a composição refere-se à organização linguística que o falante se apropria para a execução do enunciado. Esses recursos linguísticos são agenciados pelo locutor e esse é um processo atravessado por sua habilidade diante das diversas situações discursivas.

Constata-se então que os gêneros discursivos não são apenas marcados por questões histórico-culturais, mas também por ideologias pelas quais são atravessados, assim como pelas suas próprias características intrínsecas de acordo com a esfera de comunicação da atividade humana a qual pertence.

Desse modo, conclui-se a partir de Bakhtin (2011 [1979], p. 285) que:

Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (nos contextos em que isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação [em que situação social estamos nos enunciando]; em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso (BAKHTIN, [VOLOSHINOV] 2011 [1979], p. 285).

Compreendemos, assim, que os gêneros discursivos em forma de enunciados materializam e efetivam o projeto de dizer de um sujeito que se constitui e é constituído pela língua(gem) mediado pela interação social nas mais variadas esferas sociodiscursivas. Assim ao executarmos nosso projeto de dizer escolhemos palavras com valores axiológicos e significações que são pertinentes naquele gênero e naquela esfera de comunicação da atividade humana é, portanto, a materialização da língua(gem) por meio do projeto discursivo. Diante estes expostos buscamos evidenciar neste capítulo algumas proposições teóricas sobre a epistemologia dialógica do círculo de Bakhtin, das quais evidenciamos a concepção de língua(gem) como objeto social na interação, o enunciado como unidade comunicativa e os gêneros discursivos como a materialização da língua(gem) nas mais diferentes esferas da atividade humana.

Essas proposições do Círculo se configuram como elemento norteador das análises dos documentos parametrizadores neste estudo e também sobre a prática de análise linguística

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nas aulas de Língua Portuguesa, sendo estas as proposições temáticas a serem discutidas no próximo capítulo.

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3 A PRÁTICA DE ANÁLISE LINGUÍSTICA NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Neste capítulo discorre-se sobre a prática de análise linguística e seus aportes teóricos, delineando-se desde o surgimento do termo até o entendimento atual desta expressão. Assim, discute-se as práticas de língua(gem)(s) nas aulas de Língua Portuguesa, evidenciando-se a escrita, a leitura e prática de análise linguística, pois ambas se integram no fazer didático-pedagógico.

Para esse propósito, discute-se um breve histórico sobre a gramática e as aulas de Língua Portuguesa no Brasil, no qual se evidencia, no trabalho pedagógico, a abordagem operacional e reflexiva de ensino da língua(gem), destacando-se o texto como unidade de reflexão sobre a língua.

Ecoam, nesse percurso distinções quanto ao fazer didático com a gramática e suas várias acepções que direcionam a perspectivas diferentes no trabalho com a gramática. Nesse sentido, evidenciam-se as unidades básicas de ensino e de aprendizagem, discutindo-se o ensino de gramática e da prática de análise linguística na escola, destacando-se a língua(gem) em uso.

3.1 A ABORDAGEM OPERACIONAL E REFLEXIVA DE ENSINO DA LÍNGUA(GEM)

Para melhor entendimento e reflexão crítica sobre a prática de análise linguística, discorremos inicialmente sobre as abordagens pedagógicas no ensino de Língua Portuguesa no Brasil, destacando-se a perspectiva operacional e reflexiva como um caminho metodológico para situar-se a prática de análise linguística.

Observa-se que a expressão prática de análise linguística tem suas raízes preconizadas em Geraldi ([1984] 2012), “O texto na sala de aula”, Franchi ([1987] 2006), “Criatividade e gramática” e novamente Geraldi ([1991] 1997) com “Portos de Passagem”. Essa expressão surge como uma alternativa pedagógica de reflexão sobre a língua em uso, influenciada por esses autores devido à necessidade de reconfiguração do ensino de língua que era protagonizado por uma abordagem tradicional de ensino de língua que possuía um caráter gramatical normativo ou também prescritivo e descritivo (POLATO, 2017).

Dessa forma, para melhor entendimento sobre a prática análise linguística discute-se inicialmente sobre a abordagem tradicional do ensino de Língua Portuguesa para, após,

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demonstrarmos a abordagem operacional e reflexiva que se mostra como a perspectiva contemporânea para o ensino de Língua no contexto educacional brasileiro.

Tradicionalmente, o ensino de Língua Portuguesa no Brasil se volta para a exploração da gramática normativa, em sua perspectiva prescritiva (quando se impõe um conjunto de regras a ser seguido, do tipo concordância verbal e nominal) e também analítica (quando se identifica as partes que compõem um todo, com suas respectivas funções, do tipo funções sintáticas dos termos da oração, elementos mórficos das palavras) (BEZERRA, 2002, p. 37).

A abordagem tradicional do ensino de língua a partir dos expostos dos autores acima citados reverberara para uma nova perspectiva que se denominou operacional e reflexiva no ensino de Língua Portuguesa. Essa perspectiva preconiza a centralidade na reflexão sobre o uso da língua em situações interativas na qual o operacional está ligado à tomada de decisões ao operar sobre e com a língua(gem) nos processos interativos de comunicação.

Assim, a perspectiva operacional e reflexiva se materializa nas práticas pedagógicas por meio dos gêneros discursivos, direcionando-as para o domínio das práticas de língua(gem) e seu uso, o que transcende a perspectiva tradicional do ensino de língua. Desse modo, o trabalho circunscrito à perspectiva de ensino tradicional é uma discussão que há tempos se estende no campo educacional, principalmente quanto a sua validade como recurso que possa potencializar a competência discursiva5 dos estudantes. Isso porque se percebe nos discursos pedagógicos sobre o ensino da língua e até mesmo nos documentos parametrizadores da educação, que a análise gramatical é um recurso muito utilizado nas aulas de Língua Portuguesa, entretanto, é um recurso que precisa ser utilizado, superando-se o paradigma de um ensino tradicional para um ensino reflexivo nas aulas de Língua Portuguesa, no qual a prática de análise Linguística deve ocorrer a partir do texto.

Nesse contexto, a orientação nos documentos oficiais da educação é de que os conteúdos gramaticais, quando trabalhados, precisam partir de uma unidade textual, e não mais considerar a frase isolada, rompendo com uma longa tradição que consagrou a frase como unidade de referência para a análise de língua. Portanto, torna-se necessário transcender a esse paradigma tradicional para uma prática pedagógica que potencialize o ensino de língua Portuguesa e, por consequência, a prática de análise linguística.

Os documentos oficiais parametrizadores da educação direcionam para uma perspectiva reflexiva no ensino de Língua Portuguesa, mas essa perspectiva encontra-se

5 Nos PCN’s (BRASIL, 1998) de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental, a competência discursiva é

compreendida como a capacidade de se produzir discursos — orais ou escritos — adequados às situações enunciativas, considerando todos os aspectos e decisões envolvidos nesse processo.

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