• Nenhum resultado encontrado

Entrever e intervir na noite: encontro com o impoderável

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Entrever e intervir na noite: encontro com o impoderável"

Copied!
23
0
0

Texto

(1)

UFSC - DAU - TCC - 14.01

ORIENTADOR - AMÉRICO ISHIDA

POR VICTOR MOREIRA DELAQUA

ENTREVER E INTER

VIR NA NOITE: ENC

ONTRO C

OM O IMPONDERÁ

(2)

INTRODUÇÃO

A dimensão noturna e

seu fascínio

Territórios da noite se

apresentam como uma outra dimensão da cidade, da vida, das relações e dos encontros. Como seria a cidade vivenciada sob o luar?

A NOITE NA CIDADE

Qual o papel da

noite na cidade

contemporânea?

A dimensão noturna que por muito tempo foi negligenciada pelos urbanistas passa a desenvolver um importante papel nas cidades.

Uma cidade que apresenta uma vida noturna dinâmica torna-se um atrativo para meios culturais, turísticos e econômicos.

ECONOMIA CRIATIVA

O lado criativo como

alternativa

O campo das ideias pode ser responsável por um novo olhar para a cidade e a vida.

RECORTE

O Direito à Noite

Um panorama para ocupar a noite urbana.

DIRETRIZES

A noite num trecho de

Florianópolis

A memória e as potencialidades da Pedreira. Um recorte no centro de Florianópolis para imaginar e trabalhar este lugar como um espaço onde a noite pulsa na cidade.

Proposições para a

cidade notívaga

Ações que buscam ocupar e aprimorar a dimensão noturna no bairro. Novos usos que intensificam a vida noturna.

PROPOSIÇÕES

SOBRE O TRABALHO

1

2

3

4

5

6

7

Um epílogo com reflexões sobre

o trabalho e as referências.

(3)

INTRODUÇÃO

No transcurso da noite a cidade se transforma, o espaço, as relações, os lugares, são

percebidos de modos distintos ao habitual. Ocorre como se os territórios noturnos fossem outra dimensão da cidade, da vida, das relações e dos encontros possíveis.

No mundo noturno podemos nos deparar com grupos de amigos, pessoas solitárias ou perdidas que povoam esses cenários, cotidianos entretanto inquietantes. A noite é um espaço de liberdade pessoal no qual é possível fugir do intenso controle familiar, da permanente vigilância social.

Notívagos mergulham em busca do hedonismo através da boemia e das festividades noturnas, ou da introversão frente ao silêncio, ao mistério. Espaço de solidão e de encontro, descobertas e transgressões. Durante a noite, os limites impostos pelo dia se dissolvem e nos apresenta um indivíduo noturno, diferente em cada um de nós.

Ambígua em sua essência e plausível de diversas interpretações, a noite é geradora de um novo imaginário urbano com seus códigos, suas experiências e suas fronteiras não tão específicas. A percepção e as experiências da cidade se modificam, sua geografia é redesenhada e suas diferentes metáforas são reconstruídas.

Este trabalho busca compreender qual o papel da dimensão noturna na urbe e, através disto, jogar com as artimanhas desta, a fim de imaginar como um trecho da cidade poderia ser mais explorada sob o luar.

(4)

A lua faz silêncio para os pássaros, - eu escuto esse escândalo!

Um perfume vermelho me pensou. (Eu contamino a luz do anoitecer?) Esses vazios me restritam mais.

Alguns pedaços de mim já são desterro. ...

(É a sensatez que aumenta os absurdos?) De noite bebo água de merenda.

Me mantimento de ventos. Descomo sem opulências. Desculpe a delicadeza.

Manoel de Barros

A LUA FAZ SILÊNCIO PARA OS PÁSSAROS

Também em Roma, os escravos foram o sol de cada dia e o pesadelo de cada noite. Os escravos davam vida e pânico ao império.

Até as festas de Baco ameaçavam a ordem, porque nos rituais da noite não havia barreiras entre os escravos e os livres, e o vinho autorizava o que a ordem proibia.

Subversão das hierarquias desde a luxúria: estas devassidões tinham muito a ver, suspeitava-se, sabia-se, com as rebeliões de escravos que eclodiram no sul.

Roma não cruzou os braços. Alguns séculos antes de Cristo, o Senado acusou de conspiração aos seguidores de Baco e encomendou aos dois cônsules, Marcius e Postumius, a missão de liquidar até a raiz os bacanais em todo o império.

Correu o sangue.

Os bacanais seguiram. As rebeliões, também.

Eduardo Galeano

(5)

As luzes de Nova York deslumbraram Vladimir Mayakovski, quando a visitou em 1925. O poeta revolucionário do modernismo sentiu “uma brisa constante elétrica” na grande cidade que inflamava os elementos metropolitanos, “os edifícios estão brilhando com a eletricidade”, escreveu ele. Fascinado, olhava fixamente para as vistas vertiginosas, sua visão corria pelas ruas, seus fios e luzes. Para Mayakovski, Nova York no início do século 20 foi o coração frenético da modernidade, a nova metrópole mundial era onde a experiência estética autoconsciente avant-garde do velho mundo foi ofuscada pelo olhar fixo das lâmpadas ardentes, como se o coração em brasa da própria consciência humana estivesse em exposição.

A invenção das infraestruturas da luz artificial, foi tão fundamental para a modernização como qualquer sistema de transporte, comunicação e energia, e tão importante quanto a própria urbanização. Mas para Mayakovski luz elétrica era mais do que uma tecnologia de modernização; ele apontou para um certo tipo de modernismo, uma forma emergente de compreender e expressar o mundo. Mayakovski, juntamente com artistas contemporâneos como Marcel Duchamp e Sergei Eisenstein, viu na iluminação elétrica o fim de um modo de vida e o advento de um outro. Para ver além do horizonte, o poeta, escreveu ele, estava em débito com os precursores de uma nova vida e, como resultado, “pagando multas exorbitantes e juros”. “Estou em dívida com os deslumbrantes postes da Broadway”, ele declarou, enquanto viajava em sua busca ávida por insolvência emocional. Iluminação pública urbana foi, para Mayakovski, nada menos do que um locus da modernidade. Modernidade, é claro, é notoriamente difícil de definir. Todavia, é neste instante que a dimensão noturna passa a ganhar vida e a pertencer às civilizações. Antes a noite se ofuscava em sua própria escuridão e com os aparatos vindos da energia elétrica, a noite recebe um novo encantamento, gerando novas poéticas, sentimentos, sensações e formas de ser vivida. Desde o início do século XX a noite já seduzia olhares e novos amantes, no entanto, sua dimensão, até pouco tempo, parece ser descartada pelos criadores da cidade. É

necessário explorar este reino noturno, imaginar novas narrativas desta forma particular de urbanidade.

RECORTE TEMPORAL

Parte da vida social e econômica agora tende a estar sempre acordada, criam-se novas centralidades e sociabilidades. Ao longo das últimas décadas a vida noturna deixa de ser deserta, torna-se cada vez mais pulsante e vemos uma “diurnização” gradual da noite, com a chegada de atividades diurnas mundanas. A fronteira entre o dia e a noite está se dissolvendo pela atividade humana.

Os mercados financeiros, as empresas e a internet nunca param. Gradualmente, a luz assumiu a posse do espaço urbano noturno, o que permitiu o prolongamento de atividades regulares e a transformação do espaço público. Embora a noite não seja tão perigosa, como somos levados a acreditar, tampouco é o espaço de liberdade e encontros sonhado pelos poetas. Conforme a noite avança, as opções diminuem, a cidade encolhe e parece se condensar em alguns conjuntos de ruas onde encontramos concentrações de iluminação e animação. É durante a noite que as pessoas são capazes de se libertar das amarras que a racionalidade diurna as impõe, que se desdobram e reutilizam objetos e códigos, recuperam espaços e usos, a fim de criar uma cidade funcional e metafórica que resiste à cidade dominante.

Ao abordar o desenvolvimento noturno é necessário alterar as perspectivas. Um território perigoso que deve ser controlado pode passar a ser um projeto a ser desenvolvido; de uma gestão apressada, não planejada, para um planejamento de longo prazo; a consideração da vida urbana harmoniosa de acordo com diferentes períodos de tempo; a partir de uma abordagem setorial para uma abordagem integrada e transversal que leva em conta as dimensões econômicas, sociais e culturais do sistema urbano.

A cidade e a noite possuem diversos paradoxos que devemos aprender a gerir, acomodando a necessidade de todos: iluminar a noite sem que ela desapareça, preservar sua identidade e seu mistério, desenvolver e regular a atividade noturna, permitindo espaço para que ela seja viva.

A NOITE NA CIDADE

DIFERENTE

A LUZ NA CIDADE

(6)

EXPERIÊNCIAS NO MUNDO

Algumas cidades já experimentam a noite de diferentes formas. Em todo o mundo a tendência é aumentar a frequência e o período de serviço do transporte público, facilitando a mobilidade urbana para os que vivem na noite.

De Paris à Montreal, o sucesso da Nuit Blanche é inegável e aumenta a cada ano. Em Helsinque, creches noturnas já existem há alguns anos. Na Espanha, equipamentos sociais, culturais, desportivos e de lazer não fecham. No Reino Unido, a vida noturna faz parte das cidades, estratégias de marketing e programas urbanos. Oslo e Roterdã experimentam atualmente uma iluminação flexível e interativa. Em Hong Kong há serviços on-line disponíveis 24 horas por dia. Londres em 2015 promete o transporte público

SOCIEDADE B

Além das ações que envolvem a vida noturna na cidade, na Dinamarca, e com membros em outros cinquenta países, surgiu a Sociedade B. Tal grupo se apropria da Cronobiologia - um estudo sobre os ritmos circadianos, o relógio interno dos seres humanos, com base principalmente nas pesquisas de Till Roennberg, da Ludwig-Maximilians-Universität de Munique - para uma sociedade que pode reconhecer e apoiar o ritmo biológico de cada indivíduo. Esses ritmos diários são determinados

geneticamente e se referem aos horários do dia ou da noite, quando cada ser humano prefere estar acordado ou dormindo. Eles também se relacionam com os tempos ideais durante o qual podemos alcançar o nosso desempenho máximo. A divisão dos ritmos circadianos compreende uma variedade de cronótipos que incluem pessoas com tendências a serem muito diurnas (pessoas A / desempenho máximo pela manhã),

round-the-clock. De Las Vegas à Ibiza, territórios inteiros são especializados em festas e vida noturna. São Paulo, no primeiro semestre de 2014 teve o seu primeiro Seminário da Noite Paulistana discutindo a noite na cidade e está em discussão a criação de zonas 24 horas no centro.

Grandes eventos noturnos são uma oportunidade para experimentar novas políticas relativas à cultura, transporte, iluminação e ordem pública, em conjunto com novas parcerias entre os setores público e privado. Em Paris, Genebra e Lausanne, “Assembleias Gerais da Noite” (États généraux de la nuit) ajudaram a iniciar o debate e a delinear um futuro do espaço público noturno que corresponde a um lugar simbólico onde a opinião pública é formada, como o resultado do

debate político e do uso público da razão. Em Amsterdã já existe o cargo de “prefeito da noite”, que é o representante e porta-voz de trabalhadores noturnos com as autoridades. Segundo o atual prefeito, Mirik Milan, sua função é recolher reclamações e pedidos e fazer a conexão com a prefeitura e outros órgãos para, assim, desenvolver o setor em Amsterdã. O cargo existe desde 2003 e a eleição, feita por empresários, produtores, DJs e público, acontece a cada dois anos.

Enfim, pode-se concluir que em todo o mundo, as cidades que desejam atrair empresas, turistas, estudantes e as classes criativas têm incorporado a noite em suas estratégias de marketing territorial.

e se estende para incluir as pessoas que são mais vespertinas (pessoas B / com desempenho máximo em horários vespertinos ou noturnos). A Sociedade B coloca que nas atuais estruturas da sociedade as pessoas-B não são apoiadas para atingir todo o seu potencial para o bem coletivo da sociedade como um todo e, além disso, podem ter seu bem-estar pessoal afetado e questiona alguns aspectos atuais.

Por que escolas começam às oito da manhã? 80% dos jovens entre 10 e 20 anos são pessoas B. No entanto, eles são obrigados a estudar durante o período matutino, mesmo que isto afete

negativamente o seu desempenho e qualidade de vida. É necessário buscar escolas que ofereçam horários diferenciados, que podem apoiar os vários ritmos circadianos dos estudantes. A mudança no horário escolar resultaria em mais alunos proporcionando um desempenho superior e uma melhor qualidade de vida para estes.

Por que estamos limitados a começar a trabalhar no início da manhã e sair no final da tarde? O resultado é o congestionamento nas estradas, um começo estressante para o dia e uma produtividade menor do que a ideal, além de afetar a qualidade de vida e saúde das pessoas B. A criação de ambientes de trabalho mais flexíveis, em que as horas de trabalho combinem melhor com os vários ritmos circadianos dos funcionários, com os horários de trabalho, lazer e atividades não concentrados em apenas um período, geraria uma cidade com um tráfego menos denso e mais fluída.

Além dos questionamentos e visíveis benefícios para a cidade e a qualidade da vida de pessoas, tal movimento nos leva a questionar o motivo pelo qual ainda não nos apropriamos da noite como espaço de vida?

(7)

pintura, escultura, fotografia

livros, imprensa, publicações moda, interiores, produto, gráfico, jóias

conteúdo digital, aplicativos, softwares, jogos, animação

arquitetura, publicidade e propaganda, serviços culturais

cinema, difusão, televisão, rádio música, teatro, dança, circo

artesanato, expressão cultural tradicional, festivais, celebrações

A economia noturna está se desenvolvendo e cada vez mais organizada. Na Europa, o trabalho noturno agora diz respeito a quase 18% dos trabalhadores, sendo a maioria homens. Uma pesquisa realizada pelo Deutsche Bank aponta que em 2009, a indústria criativa alemã contribuiu com 2,6% em sua economia nacional, aproximadamente 60 bilhões de euros. A previsão é que até 2020 isso se aproxime à 175 bilhões.

A economia criativa é um dos setores mais dinâmicos e com maior potencial para geração de emprego e renda no século XXI. Dados de 2008 já mostravam que, no Brasil, o setor era responsável por 8% do PIB e em 2009 por 4,5% da mão de obra formalizada no país.

ARTES VISUAIS

DESIGN

SERVIÇOS CRIATIVOS

ARTES DRAMÁTICAS

EDIÇÃO E MÍDIA

NOVAS MÍDIAS

AUDIOVISUAL

PATRIMÔNIO CULTURA

L

O livro The Creative Economy (A Economia Criativa), de John Howkins, retrata novas fontes de criação de valor e como as pessoas conseguem ganhar dinheiro com ideias.

Já The Rise of the Creative Class (A Ascensão da Classe Criativa), de Richard Florida,

descreve uma nova classe de trabalhadores do conhecimento, que estão liderando a criação de riqueza nas cidades, e afirma que, para serem bem-sucedidas, as cidades precisam atrair esse grupo. Ele enfatiza ainda o ambiente desses lugares, onde artes, bom design, cafés, cultura e acesso a parques possui um papel fundamental. Lembra aos tomadores de decisão que as

cidades precisam criar um clima para as pessoas, assim como um clima para as empresas.

A noite representa um grande desafio para as autoridades públicas, que devem se envolver em debates e discussões, a fim de promover o desenvolvimento sustentável noturno, que busca equilibrar o desenvolvimento econômico, as preocupações ambientais, a coesão social e cultural.

Ao mascarar este debate, ou descartá-lo como pertencendo exclusivamente à esfera privada de nossas vidas, a economia vai ditar a sua lei aos mais fracos entre nós, que não têm a opção de escolher entre um trabalho noturno desgastante e o desemprego.

A noite é um laboratório vivo, que nos permite reinventar o dia e imaginar cidades que

geralmente são mais acessíveis e hospitaleiras. Os conceitos de centralidade, a diversidade, a urbanidade, a identidade, a acessibilidade, hospitalidade e habitabilidade devem ser repensados em termos do noturno e do efêmero. A noite pode transcender os limites institucionais, e nos obriga a pensar lateralmente. Apela dimensões sensoriais essenciais, e nos permite incorporar usuários e um know-how artístico para a produção urbana, e imaginar uma política pública para a noite que estabelece um equilíbrio entre o “direito à cidade” e o “direito à noite.“

Argan, em seu texto “Cidade ideal e cidade real”, afirma que a arquitetura não projeta mais, e se esta não cria hipóteses para desdobramentos ambientais, os artistas na cidade estariam interferindo diretamente na conformação da noção da cidade. Em outras palavras, o historiador italiano abre um espaço para uma arte que teria o papel central nas transformações da cidade.

Por isto é fundamental atrair pessoas inventivas para a cidade, o conceito de “cidade criativa” foi considerado o de um lugar onde os artistas desempenhavam um papel central e onde a imaginação definia os traços e o espírito da cidade. Ao longo do tempo, as indústrias criativas, do design à música, das artes em geral, ocuparam o centro da cena dos debates, por seu papel como eixo econômico, criador de identidade urbana ou fator de geração de turismo e imagem.

Por fim, vale ressaltar que quando se fala em inovação, não se exalta apenas os investimentos em alta tecnologia, mas também em inovação de métodos e processos, o que não exige necessariamente altos investimentos e pode ser facilmente implantado.

A INDÚSTRIA CRIATIVA

DADOS

REFERÊNCIAS

ESPAÇO DE INOVAÇÃO

gastronomia, tours, guias

TURISMO

ECONOMIA CRIATIVA

No ponto de vista econômico, atualmente, a noite está intrinsicamente ligada à Economia Criativa. Portanto, ativar tal setor é umas das oportunidades de viabilizar uma vida noturna mais próspera.

(8)

O recorte realizado para o projeto está localizado dentro do perímetro do Centro Histórico de Florianópolis, conhecido como bairro da Pedreira, ao leste da Praça XV de Novembro. Limitado por esta, pelo Terminal Urbano Cidade de Florianópolis e a Avenida Hercílio Luz.

LOCALIZAÇÃO

A antiga Desterro, fundada por Dias Velho no século XVII (1615), como fluxo da expansão vicentista povoadora do litoral catarinense, mais vitalizada com a colonização açoriana promovida pelo Marques de Pombal no século seguinte (1748 – 1756) – para efetivar a posse lusitana nas vizinhanças do Rio da Prata dos espanhóis – viria a ser instituída capital da Província em 1739 e assim continuara pelo Império e início da República, embora num espaço econômico fragmentado, não se configurasse como “metrópole” ou polo central.

Durante a ocupação da ilha, algumas áreas tiveram maior relevância, principalmente por sua configuração geográfica, assim a península central mostrou-se o melhor local para formar o “centro da cidade”, devido a sua posição de proximidade entre ilha e continente, bem como a sua proteção contra ataques, já que é contornado pelo maciço do Morro da Cruz, a Leste, e seu distanciamento entre as extremidades (Norte e Sul).

A urbanização dentro da península se desenvolveu nas áreas próximas do mar, de baixa altitude e pequena declividade, para que houvesse uma facilidade dos usos das atividades portuárias. Segundo Eliane Veras da Veiga, a cidade se desenvolveu ao redor do Largo da Matriz (região da Praça XV de Novembro), onde foram construídas as primeiras edificações de cunho oficial, como a Casa de Câmara e Cadeia (1771) e o Palácio do Governo (1765). As edificações de uso residencial dirigiam-se do Largo da Matriz em direção as fontes d’água existentes na proximidade, sendo seu maior limite espacial o Rio da Bulha (onde hoje há a Avenida Hercílio Luz). Outro fator de relevância para o adensamento da região foi a presença do Forte de Santa Bárbara na Baía Sul, construído no século XVIII, que tinha como principal função a defesa contra invasões, porém passou por diversos usos, entre eles, a enfermaria militar e a Capitania dos Portos.

Esses principais caminhos de ocupação aconteceram a partir de veredas que

contornavam a orla marítima e ligavam as bicas d’água à igreja. Com relação àqueles que se desenvolviam mais próximos ao mar,

HISTÓRICO

RECORTE

“A Pedreira, (...) foi, (sem

desconsiderar a Figueira, nem

a Toca) o bairro mais sujo que

jamais existiu em Nossa Senhora

do Desterro. Do outro lado, o Beco

da Pedro Soares, as casinhas do

Campo de Manejo, os casebres

do Beco-Sujo, vizinhança com

o Quartel, contemplavam a

paisagem. Cortiços baratos e sem

conforto. Lavadeiras. Marinheiros.

Soldados. Mendigos. Mulheres de

má vida. Gente de má fé. Toda

uma favela a marginar um rio

imundo.”

(CABRAL, 1979)

PRAÇA XV DE NOVEMBRO

PRAÇA FERNANDO MACHADO MERCADO PÚBLICO

AV HERCÍLIO LUZ

PERÍMETRO DA PEDREIRA TERMINAL URBANO CIDADE DE FLORIANÓPOLIS

CATEDRAL

preservavam seu traçado de origem portuguesa com o desenho de malha ortogonal, enquanto os que se aproximavam do Rio da Bulha possuíam um traçado orgânico sem planejamento prévio. As maiorias dessas vias possuíam características de zonas comerciais e residenciais com típicos sobrados com comércio no térreo e residencial no andar superior. A tipologia desses sobrados era de soluções simples como cobertura de duas águas com caimentos para frente e para os fundos, aberturas singelas e modesta decoração colonial, formando um conjunto arquitetônico padronizado pela repetição volumétrica e decorativa das fachadas, num ambiente urbano sem a presença de vegetações e espaços verdes entre as unidades, já que as casas não possuíam nenhum afastamento, o que acentuava a

impressão de concentração das quadras. Percebe-se que a degradação da imagem do Bairro da Pedreira foi criada na evolução histórica da cidade. Sendo descriminada e até mesmo renegada nos relatos do escritor Virgílio Várzea por ser até o início do século XX, um dos bairros mais sujos e pobres de Desterro. Apesar da dificuldade de encontrar a memória da Pedreira, destaca-se a descrição de Cabral, que transparece a visão da sociedade de

Florianópolis na época sobre o bairro e as áreas seguintes também cortadas pelo leito do rio da Bulha:

(9)

Nota-se que as características de “bairro sujo e pobre” estão relacionadas ao rio da Fonte Grande conhecido também por rio da Bulha, que era local de qualquer tipo de despejo da população existente, causando o mau cheiro e as péssimas condições de higiene do local que só foi solucionado com a intervenção urbanística sanitarista de canalização do mesmo.

Além das condicionantes naturais, os usos que existiam na área também a denegriam, segundo Eliane Veras de Veiga a localização da Casa de Câmara e Cadeia proporcionava insegurança fazendo com que as pessoas evitassem passar pela Rua Tiradentes, já que as janelas que davam para a rua eram tomadas pelos braços dos presos e loucos. Além disso, o uso militar tanto do Forte Santa Bárbara e do Quartel do Campo de Manejo eram relacionados a aparição de prostíbulos na região.

Há ainda o direcionamento do crescimento urbano para a outra região do centro, o lado oeste. Que começa a ser impulsionado pela construção do novo Mercado Público (1898) e da Alfândega (1876) e, mais tarde, reforçado pela implantação da Ponte Hercílio Luz,

No final do século, começa ser aplicado o urbanismo sanitarista com medidas para que esta região possua melhores condições de vida, necessitando quase quatro décadas de investimento para ter um resultado efetivo. As obras de maiores impactos foram os cais e o aterro da Praia do Menino Deus (1880-1889) e do Forte de Santa Bárbara (1887-1889), o saneamento do canal do Rio da Bulha (1887-1921) e a urbanização da Avenida Hercílio Luz (1887-1922). Outro fator importante para a o bairro da Pedreira foi a construção da Escola Normal e da Academia de Comércio, cuja função militar da

terminal metropolitano), criaram um bloqueio tanto espacial, pelo aumento do fluxo e de sua intensidade ao redor do bairro, quanto visual rompendo a relação com o mar e a visibilidade de seus limites físicos.

O Terminal Urbano de ônibus é deslocado, em 2004, para a nova construção feita sobre esse aterro, em frente ao Mercado Público e

mais próximo ao Terminal de Rodoviário Rita Maria. Isso causa nos comerciantes da área insegurança, pois se pressupõe que essa obra diminuiria o fluxo de pessoas, prejudicando as vendas e a até mesmo a segurança do local, por isso a Associação de Comerciantes exige a permanência pelo menos das linhas de ônibus metropolitanas no antigo terminal.

O bairro passa a materializar o abandono e o descaso dos órgãos governamentais com o patrimônio histórico. A medida que se afasta do Terminal Metropolitano e da Praça XV de Novembro, multiplicam-se as edificações vagas para aluguel, deterioradas ou totalmente abandonadas.

Através da evolução histórica, percebe-se a transitoriedade dos usos da área, que foram inicialmente ligados à construção do centro da cidade de Florianópolis, caracterizando-se como atividades comerciais e residenciais, que apesar das modificações se mantiveram até os dias de hoje, porém sua degradação de qualidade é visível. Além disso, ela adquire novas ocupações como uso institucional, no início militar com o Campo de Manejo, mudando posteriormente para educacional com a presença da Faculdade de Educação da UDESC, Colégio Dias Velho e Instituto de Educação e hoje abriga vários órgãos governamentais como o Ministério da Fazenda e do Trabalho e o IBGE.

região mudou para uma função educacional e administrativa.

Os consecutivos aterros na área central sul, iniciados com o aterro da Praia do Menino Deus, e o aterro da Capitania dos Portos, ambos em 1889, já mostram a intenção, depois reforçada pelo aterro da Baía Sul, de aumentar a área central e formar um anel viário de transito rápido que circundaria a ilha de Florianópolis, facilitando a comunicação da cidade.

Com isso a área em estudo, perdeu

características históricas, como a relação com o mar, bastante reforçada pelo uso portuário da região, deslocando atividades comerciais ligadas a esse. Adicionado a esse fator o novo aterro para construção da ponte Colombo Sales e a instalação do Terminal Urbano Cidade Florianópolis, feito em 1985, (hoje funciona como

Com quase todos os principais pontos turísticos e zonas comerciais dispostas ao oeste da

praça XV de Novembro, a Pedreira, sempre foi um espaço ímpar no centro. Enquanto nas zonas das ruas Conselheiro Mafra, Felipe Schimdt, predomina um movimento intenso no “horário comercial”, a Pedreira, se comparada a quantidade de pessoas, apresenta um movimento muito mais calmo. No entanto, o cenário se inverte quando a noite chega. Quando o comércio fecha as portas, o único espaço no centro que parece vibrar é a Pedreira. Seus botecos ganham mais vida e outros bares abrem para receber o público durante a noite.

A PEDREIRA HOJE

Além disto há escolas, academias e cursinhos que também funcionam neste período. Portanto, o trecho já demonstra esta vocação noturna, sendo o único espaço público que possui uma dinâmica noturna em todo o centro.

O bairro é um dos únicos na cidade que ainda preserva parte de sua história, os materiais como a pedra sabão ao invés dos asfaltos, algumas de suas arquiteturas possuem estilos que nos remetem às memórias da cidade, a escala de suas ruas perante o pedestre e o seu próprio ar de descuido, de “inacabado”, nos traz uma sensação de acolhimento. Diferente de espaços limpos e totalmente planejados, o bairro nos

permite experimentá-lo, sem a sensação de que estamos interferindo em seu protagonismo, pelo contrário, o lugar nos propícia a liberdade de interação e junto dela alcança sua plenitude. Vale destacar que a atual gestão do governo já assinou um decreto que irá enterrar os fios do bairro e alterar os postes e iluminação pública, o que irá despoluir o contato visual com o céu e detalhes das arquiteturas que existem no local. Além disso, nesta região ocorre a Feira Semanal Permanente Viva a Cidade durante os fins de semana, uma feira de antiguidades e manifestações culturais, que leva vida ao centro.

PATRIMÔNIO TOMBADO

OBRA

[1]Casa do Vitor Meirelles [2]Forte Santa Barbára [3]Antiga Escola Normal [4]Antigo Instituto Politécnico [5]Antiga Casa de Câmara e Cadeia [6] Estação Elevatória de Esgoto

Século XVII 1786 1922 1921 1771 Século XVII Vernacular Luso-Brasileira Eclético Eclético Eclético Luso-Brasileira Federal Federal Estadual Estadual Municipal Estadual

DATA DE

CONSTRUÇÃO

ARQUITETÔNICO

TIPO

TOMBAGEM

NÍVEL DE

ATUAL USO

Museu Victor Meirelles Área MIlitar

MESC

Ministério da Fazenda Sem Uso Museu (Sem Uso)

Fonte: Acervo do Ipuf

Como pode-se observar, no recorte existe uma série de obras emblemáticas presentes na história da cidade. Abaixo, a lista de edificações tombadas na área para preservação do

patrimônio histórico e arquitetônico:

[1] [2] [3] [4] [5] [6]

(10)

USOS

Ao analisar o mapa de uso e ocupação do solo, pode-se tirar algumas conclusões:

- O trecho possui usos bastante diversificados, no entanto quase não há habitações no bairro; - Edifícios importantes, como a Antiga Casa de Câmera e Cadeia e a Antiga Escola Professora Antonieta de Barros, estão em desuso;

- Outros edifícios de grande porte na Rua Tiradentes, também, estão desocupados; - Há alguns vazios no bairro que hoje são estacionamentos e poderiam ser melhor aproveitados para a cidade.

residencial edifícios públicos edifícios sem uso comércios serviços LEGENDA

uso matinal 08:00 - 14:00 uso vespertino 14:00 - 20:00 uso noturno 20:00 - 03:00 LEGENDA

MAPAS DE ANÁLISE

MAPA DE OCUPAÇÃO REAL/VIRTUAL

Através do aplicativo “One Million Tweet Map”, pude criar um mapa de fluxos no centro da cidade baseado em dados virtuais.

A ferramenta, conectada com o “Twitter”, fornece um mapa que é atualizado sempre que alguma pessoa escreve uma mensagem nesta rede social e coloca a sua localização. Assim, é possível acompanhar o que as pessoas estão escrevendo em tempo real na cidade, possibilitando a coleta de dados como a quantidade de postagens feitas durante o dia, onde elas foram escritas e inclusive o material delas.

Assim, passei a monitorar as postagens feitas em três períodos do dia, recolhendo os dados três vezes por dia.

O primeiro período sera

o matutino, do qual fiz o recorte temporal das 8:00 às 14:00hs. O segundo, o vespertino, abordava o tempo entre as 14:00 e 20:00hs. Por fim, o terceiro, recolhia os dados noturnos, das 20:00 até as 03:00hs.

Recolhi os dados pelo período de dez dias. No final, reuni todos os dados num mapa, de modo que quanto maior o número de postagens em algum lugar neste período, maior o raio da mancha no mapa.

Numa primeira análise ao juntar todos os dados num mapa, nos leva à uma prova do que já foi dito anteriormente, durante a noite a pedreira possui mais vida do que em outros lugares do centro. É interessante ressaltar que as

mensagens durante este período seguem quase sempre uma

mesma regra. Aqueles que

estão fora do recorte da Pedreira, reclamam por estar trabalhando em horários fora do

expediente comercial, já as mensagens no bairro, retrata momentos de boemia e encontros entre amigos.

A mancha cinza (ocupação vespertina) também é grande na área, principalmente na Kibelândia, uma vez que este é um bar muito frequentado durante o happy-hour.

(11)

Durante a noite as ruas na Pedreira deixam de ser trânsito, tornam-se lugares dos quais as pessoas se apropriam, dançam, se encontram. O ambiente noturno é sujeito e age, recicla a impotência espacial e cria o cenário para as experiências. Surge o lado mais humano da cidade.

A vida noturna no centro de Florianópolis já foi mais agitada, hoje ela se reduz praticamente

A NOITE BOÊMIA

ao trecho da Pedreira, que conseguiu preservar dois históricos bares da cidade, a Kibelândia, na Rua Victor Meirelles e o atual Canto do Noel, na Travessa Osmar Cunha, famoso por suas rodas de samba.

Além disso, existem outros botecos, como o Gaúcho, Pink e Milton’s, que funcionam na zona que cada vez apresenta mais movimento. Apenas neste ano foram abertos mais dois bares na zona:

O Taliesyn, um bar voltado ao público roqueiro, ao lado da Kibelândia, e o The Mad Kelt - um pub irlândes na Travessa Osmar Cunha, frente ao Canto do Noel, além da ampliação da Pizzaria d’Itália que também funciona como um bar no local.

No próprio recorte, percebe-se que as opções atraem diversos públicos para ocupar o bairro durante a noite.

(12)

CANTO DO NOEL

têm muito carinho por ele” e que “apesar de já ter passado pelas mãos de muitos proprietários, o bar nunca perdeu seu caráter”.

Ao entrevistar os clientes do bar, Gilberto Gaudino dos Santos se diz frequentador do Canto do Noel há 15 anos e segundo ele todos os dias está presente no bar. “Isso aqui representa muito para mim e para todos, como ponto turístico, afetivo e amoroso”. Foi entrevistada também, como ela mesma se intitula a “Neguinha da Travessa”. Ela conheceu o Canto do Noel há 16 anos e desde então é uma frequentadora assídua. “Além de estar toda a noite aqui, eu também trabalho como auxiliar de limpeza do Canto do Noel e das outras lojas aqui perto.” Ela, que é moradora do continente vêm todos os dias para a Travessa se diz um personagem do local, e ainda completa dizendo que “eu sou a alma da Travessa e a Travessa é a minha alma”.

TRAVESSA CULTURAL

KIBELÂNDIA

questionada sobre a importância do bar para a cidade de Florianópolis, a gerente não hesita em dizer que a Kibelândia é um marco muito importante, pois há 48 anos faz parte da dinâmica da sociedade florianopolitana e ainda completa dizendo que o bar sempre foi frequentado por personalidades da política, artes e literatura fazendo assim com que ele fosse palco de muitas discussões importantes, “a Novembrada saiu daqui” diz Cristina.

Apesar de tantos anos de funcionamento, ela comenta que o movimento sempre foi estável e que nunca se sentiu ameaçada por nenhuma concorrência e reforça a ideia que a clientela da Kibelândia é formada na sua maioria pelos moradores da cidade, não é um bar voltado ao turismo. Sobre isso ela ainda diz que já viu mais de 50 bares, principalmente no norte da ilha, abrirem e fecharem em menos de 4 meses, que apesar de receberem grandes investimentos na infraestrutura pública nem sempre assinam a carteira dos funcionários e pagam seus impostos, criando dívidas milionárias com o governo, ao contrário da Kibelândia onde a proprietária afirma: “Nós pagamos tudo certinho, temos funcionários que trabalham aqui há 40 anos”. Cristina, quando questionada se apoiaria a criação de novos bares no centro de Florianópolis, para assim criar um circuito, ela não reluta em dizer que “sim, tudo o que é junto é melhor”.

Ao entrevistar um cliente, o senhor Luis Cesar Miranda da Silva, de 65 anos, afirma que frequenta o estabelecimento há mais de 30 anos e vem religiosamente de duas à três vezes por semana. Ele comenta que a Kibelândia se impõe como um marco na cidade principalmente pela comida mineira e árabe. Além disso, afirma que “o centro morreu” e completa dizendo que “antigamente existia uma vida noturna no centro, a Jerônimo Coelho, por exemplo, tinha muitos bares e todos fecharam, o bar Roma, aqui perto, também era muito importante para as concentrações dos blocos do carnaval, e hoje não tem função nenhuma”, completa.

Tradicional reduto cultural de Florianópolis, ponto de encontro de intelectuais, músicos, poetas, jornalistas, artistas, boêmios, sambistas e moradores das comunidades do Maciço do Morro da Cruz, por décadas abrigando o Museu da Arte Metálica, a outrora Travessa da João Pinto, mais conhecida nos anos 80 como que recentemente deixou de ser Ratclif para tornar-se ‘Travessa Osmar Regueira’, homenagem da Câmara Municipal de Florianópolis ao finado dono do Hotel Royal, hoje Edifício Royal, nela instalada. A Travessa assumiu por muito tempo as fantasias carnavalescas com o Desfile das Escolas de Samba desde sua transferência para suas imediações na Avenida Paulo Fontes até a criação do Sambódromo em 1989.

Nela está um dos bares mais tradicionais e frequentados do centro de Florianópolis, o Canto do Noel, idealizado por Edison Galindro, exatamente da maneira como é hoje. Natural de Criciúma, ele morou no Rio de Janeiro por 15 anos, e ainda não curou a paixão pela cidade maravilhosa. O bar existe desde 1957, é possivelmente um dos mais antigos da cidade. Galindro assumiu o boteco em 2008 e transformou seu gosto por música e história em decoração. Nas paredes internas do apertado casarão, fotos antigas, recortes de jornais, tudo lembra música, tudo lembra samba, tudo lembra a boemia. Na fachada externa, homenagem para seus músicos favoritos: As Pastorinhas, Cartola, Noel, Nega Tide, homenagem até ao poeta Zininho. Em 2010 Galindro vendeu o bar para um casal paulista, o começo de história tragicômica policial que alardeou o público meio intelectual, meio de esquerda, que adora um boteco pé-sujo. O bar passou pelas mãos de vários donos há tempos. O Canto do Noel abre de segunda à sábado, sendo que é neste último dia que há a famosa feijoada e roda de samba. A proprietária do bar diz que o público é bem variado, mas que sábado é dia da velha guarda. Segundo a proprietária, “o Canto do Noel é o único bar de samba no centro de Florianópolis e todo mundo

O bar abriu suas portas em 1966 num casario, que data de 1914 em sua fachada, e divide sua área em dois andares. Famoso pela sua cozinha “árabe-mineira”, seu chopp geladíssimo tirado de forma única e atendimento cordial, antigamente era frequentado por formadores de opinião e foi o palco de movimentos políticos, da qual podemos destacar a “Novembrada”. Hoje já atende a terceira geração de famílias florianopolitanas.

Cristina Coutinho gerencia a Kibelândia há mais de duas décadas. Dos 48 anos de existência do bar, 40 ficaram sobre o comando de seu pai, tornando o estabelecimento uma tradição familiar. Ela relata que a edificação foi construída em 1914 por um casal de alemães e até 1968 era utilizada como moradia. A Kibelândia está aberta diariamente de segunda a sexta das 12h às 24h e sábado das 16h às 24h. Segundo Cristina, o público que frequenta o estabelecimento passa de geração em geração, “hoje se pode encontrar aqui pais, filhos e netos e a casa está sempre lotada”. Quando

(13)

Expostos a compreensão da dimensão noturna e sua importância nas cidades atualmente e o trecho da cidade escolhido para trabalhar estes aspectos, agora apresento o terceiro passo do meu Trabalho de Conclusão de Curso.

Após diversas reflexões, constatei que o papel de uma possível intervenção não é criar uma solução ou inventar uma noite na área, afinal, esta é uma zona na qual a dimensão noturna já possui sua própria vida. Intervir através de grandes projetos arquitetônicos, alterar os aspectos que configuram o bairro seria pretencioso, um desrespeito com a noite que já pulsa no local.

Desta forma, proponho aqui um cenário possível, diretrizes que buscam apenas melhorar as condições e aprimorar a experiência noturna no trecho em evidência, sem querer obstruir sua identidade e deixando brechas para que a noite, e seus notívagos, intervenham neste espaço através das ações informais que criam novos espaços de imaginação e narrativas na cidade.

O projeto a ser desenvolvido pode facilitar a apropriação da noite e junto disto beneficiar trabalhadores noturnos, passando sobre seus trabalhos invisíveis na sombra da governança corporativa diurna ao reconhecimento que merecem; manter a calma e tranquilidade através do controle social natural ligado à presença humana; expansão e diversificação de equipamentos urbanos abertos durante a noite; introdução de serviços públicos noturnos e definir uma “ecologia do tempo” na qual temos a opção de poder fazer a maior parte do nosso dia a dia à noite.

UM NOVO PANORAMA

DIRETRIZES

Para tal cenário, primeiro proponho uma série de medidas que poderiam ser tomadas para que a dimensão noturna ganhe mais vida.

SUA DIVERSIDADE

INCENTIVAR O USO NOTURNO E

Jane Jacobs, em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, traz à tona que para garantir a segurança em espaços públicos, mais importante que a presença da polícia, deve haver o trânsito ininterrupto de usuários. Para isto, o primeiro passo seria incentivar o uso residencial e 24 horas das esferas privadas, seja através do comércio ou serviços.

Assim surgiria o que a autora chama de “proprietários naturais da rua”, os donos de padarias, lojas, bares e pequenos serviços que estão no térreo, que junto dos moradores e trabalhadores seriam os “olhos atentos”. Mais eficazes do que a iluminação pública, seriam vigilantes da noite, trazendo confiabilidade às ruas. Deste modo a vida pública formal e associativa é impulsionada pela vida pública informal.

TÉRREO ATIVO

Jacobs também nos coloca que as ruas e calçadas são espaços fundamentais onde

ocorrem a diversidade e intensidade de usos. É a partir dos contatos nas ruas que pode “florescer a vida pública exuberante na cidade”. Trabalhar o solo comum como o suporte de interação e a rua como sua parte mais pública, mas em função direta com o privado é um passo fundamental para intensificar o espaço público noturno como um ambiente vivo.

1) Espaços de uso comercial e de serviços que funcionarem 24 horas podem receber benefícios fiscais;

2) Diferentes escritórios podem dividir um mesmo espaço, sendo que um pode trabalhar num horário mais diurno e outro no período noturno. O “aluguel” e custos do espaço são divididos pela metade e assim há mais empregos e um maior giro econômico na cidade;

3) Permitir o uso misto na região, assim edifícios que hoje abrigam apenas escritórios poderiam receber moradias, quartos para aluguel, hotéis, etc.

1) É importante que o térreo seja amigável e permeável ao pedestre. Que a esfera privada tenha plena conexão visual com a pública. As fachadas devem ser, de certo modo, abertas e permitir isto.

2) Para uma zona que enxerga na noite um espaço possível de vida, é necessário que na área existam diferentes usos comerciais como: mercado, padaria, farmácia abertos durante todo o período noturno.

AS RUAS

As ruas são apropriadas pelos pedestres durante a noite no bairro, no entanto, quando elas não são fechadas por órgãos públicos, alguns carros insistem a passar por ali e desestimulam a ocupação de pessoas na área. Portanto, algumas ruas devem estar fechadas para qualquer veículo automotor durante o período das 20h às 06h, exceto para moradores da área.

A Rua Antônio (Nico) Luz por fazer frente ao Terminal Urbano Cidade de Florianópolis, deverá portar um uso 24 horas em seu térreo, assim, há a certeza de que ao menos neste espaço é possível encontrar produtos e vida durante qualquer período.

(Ver esquema na próxima página)

ruas fechadas das 20h às 06h

ruas fechadas permanentemente (atual)

travessa osmar cunha parte da rua victor meirelles

fluxo possível dos carros rua 24 horas

(14)

USO A TU AL PROPO S TA O QUE A CID ADE GANHA

LEGEND

A

lojas e lanchonet es

priorizar o uso de lanchonet

es, caf és, bar es, res taur ant es. Sua f aix a de ac es so poder á ocupar a té o limit e de 1/ 3 da dimensão

total da via, sendo des

tinada

a locação de mobiliários não permanent

es e que não impeçam o ac es so aos imó veis

o uso prioriza a conf

ormação de um Lar go , junt o do mer cado abert o à fr ent e, um espaç o de vida e enc ontr os na cidade . A f aix a de ac es so qualifica o uso públic o e pr omo ve o es tar e atividades sociais

LARGO D

A PEDREIRA

fachada t érr ea do IBGE como se tr ata de pr aticament e uma fachada c ega, o espaç o fr ent e a fachada é des tinado à artis tas de rua uma f achada que se fecha par a a cidade ,

torna-se plano de fundo par

a espetáculos, além de v alorizar a esquina

“P

AL

C

O”

bar , mer cado e uma galeria mant er o mesmo uso , no entant o de ve funcionar por 2 4 hor as ou c om hor ários mais fle xív

eis pela noit

e tr az er opç ões par a pes soas que pr ef er em ou nec es sitam f az er suas c ompr as dur ant e a noit e ou madrugada, no centr o

TÉRREO A

TIV

O

lojas em ger al mant er o mesmo uso , no entant o de ve funcionar por 2 4 hor as ou c om hor ários mais fle xív

eis pela noit

e tr az er opç ões par a pes soas que pr ef er em ou nec es sitam f az er suas c ompr as dur ant e a noit e ou madrugada, no centr o

TÉRREO A

TIV

O

serviç os inc entiv ar o uso mis to: usos

residenciais e não residenciais. P

ar a os “serviç os” inc entiv ar o uso

diurno e noturno do espaç

o

.

pot

encializa a vida urbana

nos espaç os públic os, equilibr a a of erta de habitação e empr ego , diminui deslocament os

USO MIS

TO

serviç os inc entiv ar o uso mis to: usos

residenciais e não residenciais. P

ar a os “serviç os” inc entiv ar o uso

diurno e noturno do espaç

o

.

pot

encializa a vida urbana

nos espaç os públic os, equilibr a a of erta de habitação e empr ego , diminui deslocament os

USO MIS

TO

academia mant er o mesmo uso , no entant o , abert o 2 4 hor as tr az er opç ões par a pes soas que pr ef er em malhar em hor ários dis tint os do habitual

A

CADEMIA

térr eo da Secr etaria da E ducação , f echado por gr ades retir ar as gr ades e permitir a pos sibilidade do espaç o rec eber dif er ent es apr opriaç ões, c omo a de ambulant es, por e xemplo . o edifício f az uma

genorisadade urbana ao abrir o seu t

érr

eo

pr

ot

egido das int

empéries

e serv

e c

omo apoio à

ambulant

es - que são uma

gar antia de serviç os mais bar at os e ac es sív eis par a a população Secr etaria da E ducação Dir ecionar o uso de um ou mais pa viment os par a uma bibliot eca 2 4 hor as c om livr os, periódic os, r evis tas e computador es. As pes soas podem t er ac es so a dif er ent es lit er atur as, cultur a e notícias

em qualquer período do dia.

BIBLIO

TECA 2

4 HORA

S

loja milium mant

er o mesmo uso , no entant o de ve funcionar por 2 4 hor as ou c om hor ários mais fle xív

eis pela noit

e opção par a pes soas que pr ef er em ou nec es sitam f az er suas c ompr as dur ant e a noit e ou madrugada, no centr o

TÉRREO A

TIV

O

TÉRREO PRO

TEGIDO

ESQUEMA

RUA ANTÔNIO

(NICO) LUZ

(15)

RECURSOS CULTURAIS

Os recursos culturais urbanos incluem o patrimônio histórico e artístico, bem como paisagens e marcos urbanos.

Levar a cultura em consideração ajuda a compreender de onde um lugar vem, por que ele está como está e como podemos criar seu futuro, por meio de seu potencial. Por isso, é importante o incentivo a setores da indústria criativa, valorização do patrimônio material e imaterial local, novos usos para locais tombados, proteger a memória noturna da área, reabilitar edifícios abandonados ou em desuso em espaços criativos e principalmente que estes espaços tenham horários mais flexíveis que possam atender diferentes demandas de público. Afinal, atualmente, com os horários usuais

da sociedade, bibliotecas, museus, e outros equipamentos culturais, se fecham quando as pessoas poderiam utilizá-los..

É através destes recursos culturais que é possível incentivar tradições locais de vida pública,

festivais, rituais, gastronomia, atividades de lazer, subculturas ou tradições intelectuais.

1) Valorizar os espaços tombados como patrimônio público;

2) Museus com horários mais flexíveis para visitações;

3) Reabilitar edifícios abandonados com o fim criativo e cultural;

4) Incentivos fiscais para serviços da indústria criativa.

NOTÍVAGOS

Uma cidade criativa é mais um processo do que um plano; é dinâmica, não estática.

Se nos apropriamos da Noite – um território de baixa densidade efêmera e cíclica – vemos que soluções são inventadas e desenvolvidas através de uma atitude mais independente dos órgãos públicos. Nela, surgem inovações que também podem ser de interesse para a cidade durante o dia.

Portanto, é necessário aproveitar do potencial noturno da área e se apropriar desta dimensão como um diferencial. A noite é mais permissiva e nos permite buscar recursos embutidos na inventividade, nas habilidades e nos talentos,

MOBILIDADE URBANA

Limitações de transportes públicos reduzem o uso noturno da cidade e o movimento entre centro e periferia. É fundamental que haja um maior empenho dos órgãos públicos para que o transporte funcione com mais horários durante a noite e madrugada.

Com o comércio, escritórios e mais pessoas habitando o centro durante a noite, há um maior fluxo viário que possibilitaria viabilizar linhas de ônibus para uma melhor mobilidade urbana noturna.

Além disso, proponho a criação de um bicicletário no Terminal Urbano da Cidade de Florianópolis, visto a carência de lugares para estacionar bicicletas em todo o centro da cidade.

MANUTENÇÃO DA VIDA URBANA

Alex Proud em seu texto “‘Cool’ London is dead, and the rich kids are to blame”, para o The Telegraph, retrata brevemente a história do centro londrino: que passou por anos de declínio e despovoamento, o que tornou várias áreas centrais mais acessíveis e assim atraentes para o que o autor chama de “cool kids”, que passaram a ocupar a zona. E, de repente, uma vez cinza, o centro passa a se recuperar e torna-se atraente, uma capital para indústrias criativas e serviços financeiros.

O problema nisto, é que o mercado especulativo volta novamente seus interesses para a área que agora possui uma nova identidade e pulsa vida. E assim, inicia-se o processo de gentrificação, os imóveis deixam de ser acessíveis e se valorizam. As pessoas e as atividades do bairro começam a se alterar e perde-se toda a dinâmica criada que valorizou este espaço urbano. Logo, o espaço é ocupado apenas por quem possui maior poder aquisitivo e torna-se insonso para a grande maioria dos usuários da cidade.

Este caso serve para compreender que a cidade é um organismo vivo e dinâmico, e mudanças sempre são necessárias para acompanhar o seu tempo. No entanto, para respeitar a memória e identidade local é importante que haja algum incentivo público para manter alguns lugares e usos fundamentais na zona.

1) A Travessa Cultural como um todo e a Kibelândia, são lugares tradicionais e já presentes na memória boemia da cidade, é importante que estes sejam preservados; 2) A Pedreira também é famosa pelos seus sebos, tal uso poderia receber incentivos fiscais para que permaneçam na região.

das pessoas, que não são apenas “coisas”, como edifícios, mas também são motivações, símbolos atividades e o repertório do conhecimento local, inserido em espetáculos, artesanato, produtos, serviços e pesquisa.

Afinal, a dimensão noturna se altera conforme a sua ocupação. A presença dos boêmios, artistas de rua, músicos, ambulantes, tornam o espaço da noite menos segregativo.

Espaços sem nome, livres, devem existir para que as pessoas se apropriem deles e da noite que os envolve.

travessa cultural e kibelândia sebos

museus

(16)

A noite, nos sugere formas de apropriações que são distintas do modo como nos apropriamos do dia. Como trata-se de um recorte no tempo, essas ações podem decorrer através de eventos específicos que venham a surgir durante a noite. Hélio Oiticica coloca que a visão de estruturas conduz à antiarte e à vida e que a visão de eventos (obras) conduz à arte e ao

distanciamento da vida. Se entendermos a vida como uma repetição do cotidiano e uma ânsia por novos prazeres e descobertas, os eventos surgem para suprir estes desejos e romper com a repetição do dia-a-dia a qual estamos acostumados.

Os eventos ao contrário das estratégias - que são capazes de produzir, tabular e impor espaços - devem ser vistos como táticas que podem apenas usar, manipular e subverter os espaços.

EVENTOS

PROPOSIÇÕES

Para que haja uma maior ocupação da cidade durante a noite, é necessário pensar em

intervenções que estejam ligadas ao modo social de existir. Por este motivo, recorro a recintos sociais urbanos que a história nos demonstra como essenciais para a vida nas cidades.

DIMENSÃO NOTURNA

APROPRIAÇÃO DA

Aliados às diretrizes, crio quatro propostas para a noite no trecho da Pedreira.

As táticas operam por ações isoladas, tirando partido de oportunidades. O espaço da tática é o espaço da alteridade, implica em mobilidade conforme as condições do momento e atenção a injunções particulares.

Dentro das táticas, por tanto, podem-se adotar os usos marginais, que são táticas para desviar, que reinventam as maneiras esperadas ou coletivamente aceitas de utilização dos espaços. Dentro deste conceito, faço duas propostas de espaços que podem estruturar a criação de eventos, como uma construção paralela da noite. Uma é a ocupação artística no Edifício Coronel Marinho, 167. E a outra uma intervenção no Estacionamento da Avenida Hercílio Luz. Primeiro, a criação do Largo da Pedreira, um mercado aberto e espaço de trocas e encontros na cidade.

Segundo, a Plataforma Aberta, que seria a Ágora Noturna, um espaço para discutir as políticas que envolvem as experiências da noite na cidade.

LARGO DA PEDREIRA

OCUPA

PLATAFORMA ABERTA

ESTACIONAMENTO

(17)

LARGO DA PEDREIRA

A obra de restauro do Mercado Público de Florianópolis levou toda a ala de peixarias para o Terminal Urbano Cidade Florianópolis, que com a construção do Terminal Integrado Central, tornou-se superdimensionado. As peixarias agora conformam um mercado aberto na rua Antônio (Nico) Luz, e com isso, o próprio espaço descortina o seu potencial como possível lugar de encontros, trocas e vida pública.

O ato de ir às feiras urbanas e comer na rua são ações que valorizam o espaço público e o torna mais habitável e amigável. Assim, surge a ideia de criar o “Largo da Pedreira”. O primeiro passo é o incentivo ao uso de bares, lanchonetes, restaurantes e cafés no térreo dos edifícios, num trecho da rua Antônio (Nico) Luz, como já foi descrito no “Novo Panorama” neste trabalho. O segundo passo seria criar um mercado aberto fixo frente à esta rua, sob a proteção da cobertura do terminal. Para a implantação da feira, primeiramente busquei não criar uma linearidade que criassem corredores de fluxo de trânsito por ela.

Foram projetadas pequenas arquibancadas que além de conformarem um mobiliário permanente para a o mercado, fazem contato visual com os restaurantes no térreo dos edifícios. Como em mercados deste porte a quantidade de lixo é grande e de fácil controle para reciclagem, embaixo destas arquibancadas, frente à rua que passa no terminal, há lixeiras que visam separar o lixo orgânico do reciclável. Além disso, as barracas do mercado funcionam como luminárias urbanas.

Assim, a então rua, espaço de passagem, de fluxo apressado de pedestres, ganha outra dimensão e o espaço público se valoriza. Surge um largo urbano que propicia um espaço democrático em si, onde as diversas opções agregam pessoas distintas. Assim, o projeto potencializa a possibilidade de

compartilhamento entre pessoas desconhecidas, de encontros com o diverso e descobertas que se dão ao acaso na cidade.

(18)

PLATAFORMA ABERTA

A noite está intimamente ligada à vida cotidiana, por isso, é um meio alternativo de criação da cidade. A partir dela surge a oportunidade de quebrar as barreiras entre a investigação e experimentação, isto pode ocorrer através de uma plataforma aberta de inovação urbana que pode reunir pesquisadores, autoridades públicas, profissionais, artistas e cidadãos, e que tornam possível prever uma abordagem abrangente em termos de economia, questões sociais, meio ambiente e cultura.

Há um edifício na rua Tiradentes, também próximo à Travessa, onde os pavimentos superiores estão todos em desuso. Estes poderiam servir como sede desta plataforma aberta de discussão, onde estaria uma espécie de órgão que aborda a noite na cidade,

podendo se aprofundar ainda mais no tema e na experimentação deste recorte temporal na urbe. Além disso, o lote deste edifício pode fornecer uma costura urbana interessante. Frente à rua Tiradentes o térreo já possui uso comercial com lojas que funcionam durante o dia, sendo apenas os pavimentos superiores em desuso. Na parte posterior, frente à rua Victor Meirelles, atualmente há um estacionamento.

Tal estacionamento poderia se transformar numa pequena praça urbana, com uma escala mais reduzida, que configuraria um espaço livre de estar na cidade. E no térreo do edifício, a circulação poderia ser aberta ao público e assim as ruas Tiradentes e Victor Meirelles estariam interligadas, tornando o trecho mais fluido. Seu térreo teria um uso comercial, também aberto durante a noite e os dois pavimentos superiores funcionariam como a sede da Plataforma Aberta.

(19)

OCUPA

Como descrito nas diretrizes do projeto, reabilitar edifícios abandonados com o fim criativo e cultural seria um dos objetivos deste trabalho. Desta forma, o Edifício Coronel Marinho, que está próximo à Travessa Osmar Cunha, seria um dos espaços a serem ocupados. A ocupação não seria aleatória. Um órgão cultural seria responsável pela curadoria dos artistas que poderão ocupar cada pavimento. Tornando-se uma residência artística, o artista ou coletivo que ocupa este espaço deve fazer uma troca com a cidade, oferecendo oficinas, debates e expondo sua produção no próprio prédio enquanto o habitam.

Assim como a arte urbana, que é efêmera, os artistas possuem um tempo limitado de ocupação no prédio, porto a criação realizada neste espaço é dinâmica e em constante mudança, trazendo sempre novas experiências culturais para a cidade. Assim, o edifício, hoje um resíduo urbano, passa a ser encarado como um lugar para a produção/reflexão/exibição de arte na ilha.

Junto desta ideia, proponho duas modificações na Arquitetura do edifício. A ideia não é reformá-lo e modificar toda sua arquitetura, mas sim se apropriar de algumas constantes e criar possíveis cenários para que distintos eventos ocorram. A primeira modificação seria no subsolo e térreo, que poderiam se transformar num espaço para apresentações aberto à rua;

A segunda seria abrir algumas paredes dos pavimentos superiores para que de ali possam ser projetadas as sombras, ou filmes, ações que ocorram no prédio, na empena do edifício vizinho.

Ressaltando que estas seriam ações que apenas durante a noite seriam plausíveis de serem operadas.

(20)

ESTACIONAMENTO

Com base neste conceito de eventos, surge o questionamento de como subverter alguns usos do dia para a noite. No bairro não há espaços livres para acomodar aglomerações urbanas em festas, celebrações, manifestações culturais ou debates. E ali, há um estacionamento que durante a noite fica fechado e vazio, assim surge a questão: por que não ocupar este estacionamento durante a noite trazendo novos usos noturnos para a cidade de modo que não interfira no seu funcionamento durante o dia? Se apropriar da área do estacionamento e criar uma estrutura que não influencia em seu funcionamento, mas que durante a noite possa servir de suporte para diferentes intervenções e junto destas criar um marco urbano noturno na cidade.

(21)

SOBRE O TRABALHO

EPÍLOGO

O luar é para as coisas invisíveis. Quase que sem matéria, a noite é feita das sensações. É nela que ocorrem encontros em becos escuros, segredos se revelam sob a névoa suave da luz acesa do vizinho distante, uivos de prazer chegam até nós sem pedir licença.

É durante a noite que o sofrimento toma nossas vidas e buscamos o amparo na escuridão. Quando nos apaixonamos. Quando nos

encontramos com nossos verdadeiros desejos. Refletimos sobre nossa infelicidade e os anseios que são ofuscados pelo sol.

Todos nos encontramos com nosso lado poeta, filósofo, criminoso.

A noite é para a paixão, para o romance, para problemas. É quando saímos em busca de descobertas sem o julgamento das estrelas. É o momento no qual os sentidos são intensificados. O olhar atento e as amarras racionais que o sol nos impõe, nos limita. Os que vão para a cama mais cedo deixam de experimentar as mudanças psicológicas e emocionais que ocorrem sob o cobertor da escuridão.

Ao anoitecer, o tempo ganha um novo ritmo e a pressa se esvai. A cidade deixa de lado as atividades corriqueiras e se humaniza. Os nossos sentidos percebem o espaço de uma outra forma. O caos urbano sai de cena e passamos a ouvir as vozes na rua, músicas como plano de fundo. Uma pessoa que passa pela calçada deixa de ser despercebida. Os minutos passam com outra intensidade. O comércio fecha seu expediente, os ritmos se acalmam e surgem novas estéticas e usos na cidade.

É neste deslumbre noturno que se revela o meu encontro com o imponderável; e o grande desafio deste trabalho. Como trabalhar espacialmente com a dimensão noturna? Como mediar o intangível e os acasos da noite?

Percebi que a noite não busca soluções, a lua por si já a resolve. Assim, o que poderia ser trabalhado para que possamos desfrutar mais de uma vida notívaga seria as relações do homem com seus sentimentos e com a cidade durante a noite.

Nesta relação com a cidade, principalmente no trecho da Pedreira, busquei por um olhar mais “arquitetônico” para compreender o lugar em si. E a Pedreira, daquele jeito, cheia de memórias e imperfeições, parece ser criada em um

descuido cauteloso, na medida que sua escala e materiais nos traz um aconchego e nos permite experimentar o espaço.

Por um momento isso me remeteu às obras de Lina Bo Bardi, que em sua materialidade e escala, parece nos convidar a ocupá-la e experimentá-la. Diferente das obras de Oscar Niemeyer, que trazem em si toda a pureza geométrica e um branco reluzente, nas quais parecemos um invasor.

Assim como a noite, o espaço da Pedreira

também é permissivo. Criar bruscas intervenções em seu espaço público é correr o risco de

ofuscar a noite, tirar alguns de seus segredos. Consequentemente, após diversas propostas arquitetônicas ou efetivamente urbanas me via como um ditador que queria impor regras ao lugar e assim mudar toda a sua personalidade. Foi então que percebi que este trabalho, em sua grande parte, já está pronto apenas pelo o que a noite significa para cada pessoa. E o que deveria ser feito seria apenas potencializar a experiência noturna neste trecho.

Embora caiba ao arquiteto dar a forma do lugar, não cabe a ele exclusivamente prever quais atividades podem ou não se desenvolver em determinado espaço. Cabe sugerir usos, mas não fixa-los. E assim fiz minhas proposições, sugerindo usos que ocupem o bairro e que sirvam apenas como plano de fundo para o protagonismo das pessoas que o tomam. Afinal, é a atividade humana em si que traz as nossas maiores experiências e memórias.

Acredito que hoje quem ousa ir para a rua busca pelo outro, pela diferença. E que é nesta busca que ampliamos o escopo do que é ser humano. Por isso, trabalhar o espaço público, pensar uma vida diferente do habitual, da qual podemos nos apropriar da ainda negligenciada dimensão noturna, seria um passo para revelar novos modos de existir.

(22)

| Anais do Seminário Internacional Cultura e Transformação Urbana / Serviço Social do Comércio – São Paulo : SESC SP, 2012 | B-Society. URL: http://www.b-society.org/ | Cidades Criativas: Perspectivas / Ana Carla Fonseca Reis, Peter Kageyama, (orgs.). - São Paulo: Garimpo de Soluções, 2011.

| Hélio Oiticica / organização Cesar Oiticica Filho e Ingrid Vieira; Apresentação Cesar Oiticica Filho. - Rio de Janeiro : Beco do Azougue, 2009. | Identidade e Inovação - Construção ao Longo do Tempo / Adenda à candidatura Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012

| “Na contramão da Rua: territórios ambulantes, desvios pelo movimento”. Sessão Temática: ST02 - Tensões, Relações e Liminaridades na Cidade Contemporânea

| ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. 5ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2005.

| BACZKO, Bronislaw. Los imaginários sociales. Memórias y esperanzas colectivas. Trad. Pablo Betesh. Buenos Aires: Nueva Visióm, 1991. | BOURDIEU, Pierre. - A Distinção: crítica social do julgamento; Tradução Daniela Kern; Guilherme J. F. Teixeira -- São Paulo: Edusp, 2008.

| CABRAL, Osvaldo Rodrigues - Nossa Senhora do Desterro. Volume 1: Notícia. Volume 2: Memória. Florianópolis: Lunardelli, 1979.

| CERTEAU, Michel de. The practice of everyday life. Trad. S. Rendall. Berkeley: University of California Press, 1984.

| GALEANO, Eduardo. Espejos – Una historia casi universal. Madrid: Siglo XXI, 2008.

| GUATELLI, Igor. Arquitetura dos Entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual. São Paulo: Senac, 2012.

| GWIAZDZINSKI, Luc. - translated by Oliver Waine, « The sustainable metropolis: when night enlightens day », Metropolitics, 5 March 2014. URL : http://www.metropolitiques.eu/The-sustainable-metropolis-when.html

| ISENSTADT, Sandy. Good Night – A Dazzling New Era of Metropolitan Light. 8 April 2014. URL: http://places.designobserver.com/feature/ a-dazzling-new-era-of-urban-lighting/38404/ | JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. | MOUK, Maria. From club nightmare to night mayor: How the wild night can be won. 25 March 2014 URL: http://www.djbroadcast.net/features/ featureitem_id=258/page=1/From_Club_

Nightmare_to_Night_Mayor_How_the_Wild_ Wild_Night_can_be_Won.html

| PALLAMIN, Vera – ARTE URBANA – Obras de caráter temporário e permanente – Apoio: FAPESP, 2000. Disponível em: http://www.fau. usp.br/fau/ensino/docentes/ deptecnologia/v_ pallamin/arte_urbana_livro.pdf (Consultado em 01/12/2013)

| PIMENTA, Margareth de Castro Afeche. Florianópolis do outro lado do espelho. | PROUD, Alex. ‘Cool’ London is dead, and the rich kids are to blame. 07 april 2014. URL: http://www.telegraph.co.uk/men/thinking- man/10744997/Cool-London-is-dead-and-the-rich-kids-are-to-blame.html

| SILVA, Adolfo Nicolich da. Ruas de

Florianópolis : resenha histórica. Florianópolis: Fundação Franklin Cascaes, 1999.

| VEIGA, Eliane Veras da. Florianópolis: Memória Urbana. Florianópolis: Editora da UFSC e

Fundação Franklin Cascaes, 1993.

(23)

“A noite é luz sonhando.”

Referências

Documentos relacionados

A tem á tica dos jornais mudou com o progresso social e é cada vez maior a variação de assuntos con- sumidos pelo homem, o que conduz também à especialização dos jor- nais,

Formação entendida como um processo dinâmico no qual o docente esteja consciente das singularidades da atividade e possa, a partir do conhecimento acumulado e de suas práticas éticas

Para preparar a pimenta branca, as espigas são colhidas quando os frutos apresentam a coloração amarelada ou vermelha. As espigas são colocadas em sacos de plástico trançado sem

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..

a) Doenças pré-existentes ao período de viagem (vigência do seguro) e quaisquer de suas conseqüências, incluindo convalescenças e afecções em tratamentos ainda

No entanto, maiores lucros com publicidade e um crescimento no uso da plataforma em smartphones e tablets não serão suficientes para o mercado se a maior rede social do mundo

Taking into account the theoretical framework we have presented as relevant for understanding the organization, expression and social impact of these civic movements, grounded on

Neste estudo foram estipulados os seguintes objec- tivos: (a) identifi car as dimensões do desenvolvimento vocacional (convicção vocacional, cooperação vocacio- nal,