UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Instituto de Estudos da Linguagem
DIRCEU FERNANDES LIRA DE SENA
ASPECTOS SEMÂNTICOS E MORFOSSINTÁTICOS DA INCORPORAÇÃO NOMINAL
CAMPINAS 2017
ASPECTOS SEMÂNTICOS E MORFOSSINTÁTICOS DA INCORPORAÇÃO NOMINAL
Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestre em Linguística.
Orientador: Prof. Dr. Angel Humberto Corbera Mori
Este exemplar corresponde à versão final da Dissertação defendida pelo aluno Dirceu Fernandes Lira de Sena e orientada pelo Prof. Dr. Angel Humberto Corbera Mori.
CAMPINAS 2017
BANCA EXAMINADORA
Angel Humberto Corbera Mori
Aquiles Tescari Neto
Cláudio André Cavalcanti Couto
IEL/UNICAMP
2017
Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA
– Sistema de Gestão Acadêmica.
DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
À CAPES, pela concessão da bolsa de Mestrado, possibilitando o desenvolvimento desta pesquisa.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Angel Humberto Corbera Mori, pela compreensão, paciência, disponibilidade e dicas bibliográficas preciosas.
Ao Prof. Dr. Cláudio André Cavalcanti Couto, pela correção atenta desta dissertação e pelas dicas expostas durante a defesa deste trabalho.
Ao Prof. Dr. Aquiles Tescari Neto, pelas valiosas dicas teóricas tanto na qualificação quanto na defesa final. Agradeço também a leitura atenta do texto e as observações minuciosas que foram feitas.
À Profª Drª Zoraide dos Anjos Vieira, pelas observações feitas durante a qualificação.
À Ticiana, pelo amor e amizade que estamos cultivando há tantos anos.
À Cristina Blink, por ter despertado em mim o interesse pelas línguas estrangeiras e por ter me ajudado financeira e intelectualmente a entrar na Unicamp.
Aos inúmeros tutores e professores que tenho tido desde meus primeiros anos de vida, pela dedicação e entusiasmo em orientar meus estudos nas diversas áreas do conhecimento.
RESUMO
O principal objetivo deste trabalho é trazer para a literatura escrita em português uma revisão bibliográfica dos principais textos que tratam da conceituação e da explicação de um fenômeno conhecido da literatura como “incorporação nominal”. O trabalho é dividido em duas partes. Na primeira parte, abordaremos as questões morfológicas, sintáticas e semânticas desse fenômeno. Nessa parte, explicaremos com detalhes as principais teses explicativas que envolvem esse fenômeno: a hipótese lexicalista e a hipótese sintática. Também traremos com detalhes a argumentação e a classificação propostas por trabalhos como Mithun (1984), Baker (1988) e Farkas & Swart (2003). Na segunda parte, o texto pretende dar atenção a algumas questões semânticas que envolvem a incorporabilidade de certos substantivos em detrimento de outros. Nessa parte, usaremos a tipologia proposta por Mithun (1984) como ponto de partida, embora o foco seja a semântica do nome incorporado, com o objetivo de apontar padrões tipológicos que mostram que há uma assimetria lexical quanto à possibilidade de um nome ser incorporado ou não. Além disso, pretende-se colocar os alinhamentos morfossintáticos como possíveis variáveis que determinem uma maior ou menor frequência dos raros casos de incorporação nominal de sujeito.
ABSTRACT
The main objective of this work is to bring to linguistic literature in Portuguese a bibliographical review of the main texts that deal with the conceptualization and explanation of a phenomenon known in linguistic literature as "noun incorporation". This dissertation falls into two parts. In the first section, we will address the morphological, syntactic and semantic issues regarding this phenomenon. In this first section, we will explain in detail the main explanatory theses involving this phenomenon: the lexicalist hypothesis and the syntactic hypothesis. We will also present the argumentation and classification proposed by works such as Mithun (1984), Baker (1988) and Farkas & Swart (2003). In the second section, we will focus on some semantic questions involving incorporability of certain nouns and not of others. In this second section, we will use the typology proposed by Mithun (1984) as a starting point, although the focus is on the semantics of the incorporated noun, thereby aiming to point out typological patterns that show that there is a lexical asymmetry as to the possibility of a name being incorporated or not. In addition, we intend to place the morphosyntactic alignments as possible variables that might determine a greater or less frequency of the rare cases of noun incorporation of subject.
1 primeira pessoa singular 2 segunda pessoa singular 3 terceira pessoa singular
1S/2O primeira pessoa sujeito/segunda pessoa objeto
3SS concordância de terceira pessoa sujeito ABS absolutivo
AC activo
APPL aplicativo
ASP marcador geral de aspecto
DUR duração
FUT futuro
IN inactivo
IND modo indicativo IPRF aspecto imperfectivo
M gênero masculino N gênero neutro NEG negação NOM nominalizador NP sintama nominal PASS passiva PAST passado
R2 indicador de determinante não-contíguo
REDPL reduplicação indicando plural RFL reflexivo
S marcador clítico de sujeito SUF sufixo nominal inflexional
SP prefixo de concordância de sujeito
Obs.: Não foram citadas pelos autores as abreviaturas dos seguintes exemplos citados nesta dissertação: (1) e (3)-(15) (Mithun, 1984); (36)-(38) (Axelrod, 1990); (39)-(41) e (43-44) (Haugen, 2004).
Metodologia ... 14
1. A Hipótese Lexicalista e a Classificação de Mithun (1984) ... 17
1.1. Tipos de IN por Mithun (1984) ... 17
1.2. Evidências de IN como um processo de lexicalização ... 20
1.3. Tipo IV de IN: um processo sintático ou morfológico? ... 23
1.4. IN ao longo do tempo... 25
1.5. Conclusões ... 31
2. As Hipóteses Sintáticas ... 34
2.1. A hipótese sintática de Baker (1988) ... 34
2.2. Incorporação e os processos de mudança na função gramatical ... 35
2.3. O Princípio do Espelho ... 38
2.4. Composições de processos de mudança na função gramatical ... 40
2.5. A estrutura profunda ... 41
2.6. A estrutura superficial ... 43
2.7. Movimento de um núcleo ... 44
2.8. A incorporação nominal ... 45
2.9. Poder explicativo do modelo proposto por Baker (1988) ... 47
2.10. A hipótese de pseudo-incorporação de Massam (2001) ... 48
3. O conceito de “palavra” e suas implicações para o conceito de “incorporação nominal” ... 50
4. Incorporação semântica e incorporação nominal de partes do corpo ... 55
4.1. Incorporação semântica... 55
4.2. Partes do corpo humano e ascensão do possuidor ... 58
4.3. Incorporação nominal como um processo de desfocalização de zonas ativas ... 62
4.4. Quais termos de partes do corpo podem ser incorporados? ... 63
5. O alinhamento morfossintático e a incorporação nominal de sujeito ... 66
6. Conclusões ... 73
Introdução
Dentro da literatura linguística, a discussão que envolve o fenômeno conhecido como “incorporação nominal” remonta aos trabalhos de Kroeber (1909) e de Sapir (1911). Se formos mais a fundo dentro da história dos conceitos, pode-se afirmar que autores anteriores já tratavam do tema. Wilhelm von Humboldt (1767-1835), linguista alemão famoso por suas obras de linguística e de educação, irmão do famoso geógrafo e naturalista Alexander von Humboldt, já havia empregado o termo “Einverleibung”, que pode ser encontrado em Humboldt (1936), obra editada um ano após sua morte.
Nessa obra, Humboldt (1836) apresenta uma tipologia em que ele divide as línguas entre seus processos predominantes no que diz respeito à unidade da palavra (Worteinheit) e no que diz respeito à unidade da oração (Satzeinheit). Quanto à unidade da palavra, o autor coloca a flexão (Flexion) e o
isolamento (Isolierung) como os dois extremos quanto à unidade da palavra. Em uma flexão, temos
uma única palavra, tipicamente formada por uma raiz e por morfemas que se juntam à raiz com a qual formam uma única unidade de palavra. No processo de isolamento, não há nenhuma junção de raízes e morfemas, de modo que a distinção entre palavra e morfema é fraca e teríamos apenas palavras, teoricamente. O processo de aglutinação (Agglutination) seria um processo intermediário quanto à unidade da palavra.
Dentro dessa tipologia proposta por Humboldt (1836), teríamos as línguas flexionais, isolantes e aglutinantes. Um exemplo de língua flexional é o Português, em que o morfema -o em “canto” tem uma unidade com a raiz verbal cant-, formando uma única palavra. O morfema carrega várias informações gramaticais, tais como primeira pessoa, singular, presente, modo indicativo, primeira conjução. Um exemplo de língua isolante é o Vietnamita, em que o morfema aparece como palavra independente, sem formar nenhuma unidade com a raiz. Por exemplo, em tôi chúng ‘nós’ [lit. ‘eu plural’], o morfema de plural chúng aparece como palavra independente. Um exemplo de língua aglutinante é o Turco, em que um radical carrega vários morfemas com cada morfema carregando tipicamente uma única informação gramatical. Por exemplo, em da-kar-tza-t ‘eu os trago’, o morfema
da- indica tempo presente, kar- é a raiz do verbo ekarri ‘trazer’, o morfema -tza indica plural e o
morfema -t indica sujeito de primeira pessoa.
No que diz respeito à unidade da oração, o autor encontra três processos comuns entre as línguas naturais. Analogamente, em um extremo, temos o “método sintático” (syntaktische
Verfahren), que seria ligado ao processo de flexão e com o qual a oração é construída a partir dos
pedaços já preparados segundo sua função na oração. No outro extremo, temos palavras completamente isoladas, de modo que a unidade da oração é dada por “meios silenciosos” (lautlose
autor literalmente de incorporação (Einverleibung), processo este em que a língua trata a oração como uma única palavra. Esse processo foi chamado pelo autor de Einverleibungsmethode, segundo o qual o verbo da oração e seu complemento seriam tratados como uma única palavra (TRABANT, 1986).
Em termos mais recentes, o que usualmente se chama de incorporação nominal seria um subtipo do que Humboldt chamou de Einveileibung, já que este autor do século XIX não distinguia se a formação do “verbo complexo”, palavra que conteria as informações de uma oração, seria realizada por meio de morfemas ou por meio de raízes. Na literatura mais recente, quando este verbo complexo, que também contém seu complemento, é formado por apenas uma raiz e diversos morfemas, diz-se que se trata de um processo de polissíntese. Quando o verbo complexo contém, além da raiz verbal, uma ou mais raízes nominais que usualmente são realizadas como complementos verbais e que são palavras independentes em línguas indo-europeias, diz-se que se trata de um processo de incorporação nominal (COMRIE, 1989:46).
Comrie (1989:45-46) traz alguns exemplos para ilustrar a diferença entre línguas incorporantes e línguas polissintéticas. Um exemplo de língua incorporante é Chukchi. Nessa língua, dizemos tɘ-meyŋɘ-levtɘ-pɘɣt-ɘrkɘn ‘Eu tenho uma dor de cabeça feroz’. Esta palavra-sentença contém três morfemas lexicais (meyŋɘ- ‘grande’, levt- ‘cabeça’ e pɘɣt- ‘dor’), além dos morfemas gramaticais t- (primeira pessoa do singular sujeito) e -rkɘn (aspecto imperfectivo). Um exemplo de língua polissintética é o Esquimó. Nessa língua, dizemos angya-ghlla-ng-yug-tuq ‘ele quer adquirir um barco grande’, literalmente ‘barco-aumentativo-adquirir-desiderativo-3singular. Segundo o autor, no Esquimó, ao contrário do Chukchi, uma palavra contém apenas um morfema lexical, todos os outros são gramaticais, de modo que Esquimó é uma língua polissintética, mas não incorporante. Assim, incorporação é um caso particular de polissíntese, em que morfemas lexicais podem ser combinados em um único complexo polissintético.
Na literatura mais recente, o tema continua sendo debatido em trabalhos de linguistas das mais diversas formações e linhas teóricas, entre os quais podemos citar os trabalhos de Mithun (1984), Baker (1988), Velázquez-Castillo (1995), Mithun e Corbett (1999), Muro (2009), etc. Por exemplo, desde os trabalhos de Mithun (1984) e de Baker (1988), há um intenso debate sobre a natureza deste fenômeno encontrado em diversas línguas naturais. Desde então, diversos autores trouxeram suas visões e suas explicações formalizadas do que seria este fenômeno.
O foco desta dissertação é trazer uma revisão do estudo deste processo linguístico, com o detalhamento das principais hipóteses explicativas. Após a apresentação da hipótese lexicalista e da hipótese sintática, o texto se voltará para uma discussão paralela que afeta diretamente o debate que envolve o fenômeno da incorporação nominal: trata-se da problemática em torno do conceito de palavra e suas implicações para a hipótese lexicalista e a hipótese sintática. Após essa discussão em torno do conceito de palavra, trataremos o conceito de “incorporação semântica” e faremos uma
discussão sobre os casos de incorporação nominal que vem acompanhada de outro processo conhecido como ascensão do possuidor. Após essa apresentação conceitual, com as diversas escolas e alguns problemas conceituais, o trabalho se voltará para os casos de incorporação nominal de sujeito e uma possível relação entre o alinhamento morfossintático da língua e a produtividade desses casos.
Desde os trabalhos do início do século XX, é sabido que, mesmo nas línguas em que este fenômeno é extremamente produtivo, nem todas as construções estruturalmente idênticas às com incorporação nominal são gramaticais nas línguas em que se encontra este processo. A agramaticalidade de algumas sentenças com incorporação nominal pode ser explicada se considerarmos os aspectos semânticos que envolvem o processo de incorporação nominal.
Em algumas línguas, quando envolve a incorporação de uma palavra que designa uma parte do corpo humano, observa-se que ela não pode se referir a qualquer parte do corpo humano. Além disso, observa-se que o “verbo complexo”, ao se unir com o nome incorporado, geralmente expressa uma unidade semântica e o referente do nome incorporado é genérico. Assim, no estudo do processo de incorporação nominal, há de se levar em consideração não apenas seus aspectos sintáticos e morfológicos, mas também os semânticos.
O debate teórico sobre a possibilidade de se separar o campo da Morfologia do campo da Sintaxe traz sérias implicações para as definições sintáticas e para as definições morfológicas da incorporação nominal. Talvez uma solução seja justamente perscrutar o campo semântico e analisar o comportamento da incorporação nominal no que diz respeito a algumas variáveis semânticas, para quem sabe chegarmos a uma definição de incorporação nominal que seja válida em todas as línguas naturais, independentemente desta discussão sobre o que é uma “palavra”.
Na seção sobre os casos de incorporação nominal de sujeito, fizemos uma pesquisa preliminar na literatura para verificar se há alguma influência do alinhamento morfossintático sobre a possibilidade de encontrarmos esses casos específicos de incorporação nominal de sujeito. Mais uma vez, além dos aspectos morfológicos e dos aspectos sintáticos, tentaremos trazer algumas questões semânticas que possam se relacionar com o tema em questão.
A partir deste momento, IN designa “incorporação nominal”, sem nenhuma pressuposição teórica, exceto se expresso o contrário, e NI designa “nome incorporado”, também sem nenhuma predefinição teórica do que significa ser um nome incorporado, a não ser que esteja expresso o contrário.
Metodologia
Toda a pesquisa foi feita com base na literatura publicada que estuda o processo linguístico conhecido como incorporação nominal. Como o foco desta pesquisa foi trazer uma revisão bibliográfica do estudo deste fenômeno, a pesquisa foi sempre feita em cima dos artigos, dissertações e teses publicadas nas últimas décadas. Os exemplos foram retirados dessas publicações. Quanto aos exemplos citados nesta dissertação, é importante notar que nem sempre os autores mostram como seria a versão da sentença dada sem IN. Este detalhe é importante, pois tem implicações para a discussão em torno da natureza do processo de IN, se morfológica ou sintática. Se a língua não tem a versão sem IN, esse fato poderia contar a favor da hipótese sintática, pois seria mais uma evidência de que se trata de um movimento sintático, e não um processo de formação de palavra.
Também quanto aos exemplos trazidos da literatura, é importante notar que nem sempre os autores trouxeram as glosas. Os exemplos trazidos nesta dissertação estão transcritos extamente como o foram pelos autores citados. Mesmo quando os autores trazem glosas de seus exemplos, nem sempre eles trouxeram uma lista das abreviaturas.
No que diz respeito à seção que trata dos casos de incorporação nominal de sujeito e uma possível relação entre o alinhamento morfossintático da língua e a produtividade desses casos, em uma fase inicial da pesquisa, foram analisados os casos de IN em línguas descritas na literatura como ergativo-absolutivas, com especial atenção para os casos de IN de sujeito. O objetivo por trás desta pesquisa foi verificar se haveria alguma correlação estatística entre o alinhamento morfossintático e o fato de a língua apresentar IN de sujeito de uma forma especialmente produtiva. Neste trabalho, não se distinguiu se o sujeito incorporado desempenhava um papel semântico de paciente, de agente, de experienciador, etc. Todos os casos de IN de sujeito foram analisados como se fizessem parte de um mesmo processo.
Como os trabalhos que contêm os exemplos de IN não tratavam necessariamente do alinhamento morfossintático das línguas em questão, as pesquisas sobre o alinhamento morfossintático das línguas foram feitas em outras fontes bibliográficas. Em alguns casos, observa-se que não há um conobserva-senso entre os linguistas sobre qual alinhamento morfossintático a língua apresenta. O tema do alinhamento morfossintático é muito controverso e nem sempre sabemos exatamente em que sentido o autor está usando o termo “alinhamento morfossintático”. Muito da controversa entre os autores pode estar relacionada ao fato de o alinhamento poder surgir em diversos âmbitos da língua, como na marcação de caso, na marcação de pessoa no verbo, na ordem em relação ao verbo, etc.
Neste trabalho, foi entendido como ergatividade o alinhamento morfológico e/ou sintático do argumento S (sujeito de verbo intransitivo) com o argumento O (objeto de verbos transitivos), em
oposição ao argumento A (sujeito de verbo transitivo), como entendido em Dixon (1994:40). Esse alinhamento pode ocorrer em diversas situações. Como os alinhamentos podem surgir em diversos âmbitos da língua, escolhemos alguns dos principais encontrados na literatura, assim foram considerados como padrões que podem distinguir um alinhamento os seguintes casos: 1) marcação de caso; 2) marcação de pessoa no verbo; 3) ordem em relação ao verbo. Esses padrões são semelhantes aos padrões considerados em obras como a de Gildea e Queixalós (2010).
Os critérios utilizados neste trabalho podem levar a certas contradições conceituais, como aponta o trabalho de Siewierska (2003:339-344). Embora essa seja uma situação rara, é o que acontece na língua Chorti (Maia), segundo o relato da linguista. Nessa língua da família Maia, segundo a autora, há concordância de pessoa com S, A e P. No aspecto perfectivo, o alinhamento é ergativo tanto em termos de forma fonológica quanto em relação à posição dos marcadores de pessoa (as marcas tanto para S quanto para P são fonologicamente idênticas e são sufixadas à raiz verbal, enquanto que os marcadores para A são fonologicamente distintos e são prefixos). Contudo, no aspecto imperfectivo, os critérios fonológicos e posicionais para determinar o alinhamento não convergem em direção a um único alinhamento. As formas fonológicas para S, A e P são todas distintas entre si (portanto, pelo critério fonológico, a língua seria classificada como tripartite), mas, enquanto as marcas de S e A são prefixos, as marcas de P são sufixos (originando um sistema acusativo, segundo os critérios de posição em relação à raiz verbal).
Para as regiões do mundo em que há muitas línguas ergativas ou com ergatividade cindida, foi mais fácil encontrar informações sobre o alinhamento morfossintático das línguas. Assim, bibliografias como Derbyshire (1987) e Mithun (2000) ajudaram na identificação dos alinhamentos morfossintáticos das línguas da Amazônia e do Noroeste dos EUA. Para as línguas amazônicas, foram utilizados os trabalhos de Gildea e Queixalós (2010) e Campbell (1997). Durante essa pesquisa, também foram encontradas línguas que eram conhecidas há muito tempo como ergativas, como o Groenlandês (DIXON, 1994:5), mas que os casos de junção “nome-verbo” não são propriamente casos de IN, pois os ditos “verbos” que ocorrem com alguns nomes não são verbos independentes na língua e devem ser tratados como afixos verbais, segundo Gerdts (1998, tópico 4.3).
Dentre as línguas consultadas, as que apresentam alguma ergatividade (o que inclui as línguas ergativas cindidas) são as seguintes: Cavineña (Tacanan), Chukoto (Chukotko-Kamchatkana), Hixkaryana (Karib), Katukina-Kanamari (Katukina), Koryak (Chukotko-Kamchatkana), Maia Yucateco (Maia), Nadëb (Makú), Paumari (Arauana), Samoano (Austonésia), Tapirapé (Tupi-Guarani), Tonga (Austronésia), Waiwai (Karib), Yanomami dos Xamatauteri (Yanomami).
Para os objetivos deste trabalho, foram consideradas línguas ergativo-absolutivas qualquer língua que apresentasse alguma ergatividade. Nesse sentido, os dados preliminares não distinguiram línguas ergativos-absolutivas de línguas activo-stativas, já que por definição uma língua activo-stativa
apresentará sempre alguma ergatividade, já que para alguns verbos intransitivos a língua tratará o argumento (S) como um (P).
Em uma primeira etapa da pesquisa, foram reunidos em um único banco de dados exemplos de todos os tipos de IN, estes tipos divididos segundo a tipologia proposta por Mithun (1984). Na segunda etapa da pesquisa, foram observados apenas os casos de IN de sujeito, especialmente os casos envolvendo línguas ergativo-absolutivas.
Para cada exemplo de IN colhido, foram pesquisadas as seguintes informações: língua, família, localização, alinhamento morfossintático, tipo de IN segundo tipologia de Mithun (1984), função semântica do nome incorporado, o nome incorporado, o nome independente, a sentença com IN e a sentença sem IN. Nem sempre os autores apresentam a sentença sem IN, seja por não ser gramatical a forma sem incorporação, seja simplesmente por não ter sido apresentada pelo autor.
Não podemos deixar de levar em conta que o próprio conceito de “língua ergativo-absolutiva” ou “língua nominativo-acusativa” é relativamente problemático, tendo em vista que a língua pode apresentar ergatividade quanto ao sistema de casos, mas não quanto à ordem dos constituintes. Como afirmado acima, o trabalho de Siewierska (2003) aponta para algumas destas contradições. Langacker (2008:373-378) também afirma que estes conceitos são controversos e que estender os conceitos de ergativo/absolutivo, nominativo/acusativo, que são originalmente conceitos para os sistemas de casos, e afirmar que uma língua é acusativa ou ergativa não é muito informativo, visto que uma língua como um todo não exibe uma organização nominativa/acusativa ou ergativa/absolutiva, no máximo pode haver uma predominância de um ou de outro padrão.
O objetivo dessa primeira pesquisa foi tentar encontrar padrões no funcionamento da IN em línguas do alinhamento ergativo-absolutivo, em particular padrões relacionados aos casos de IN de sujeito. Para isso, foi reunida algumas dezenas de dados disponíveis na literatura, sobretudo dados provenientes de línguas de diferentes famílias e de diferentes localidades, para podermos verificar se o alinhamento morfossintático pode influenciar de alguma maneira na produtividade da IN de sujeito.
1. A Hipótese Lexicalista e a Classificação de Mithun (1984)
1.1. Tipos de IN por Mithun (1984)
Segundo a hipótese conhecida como “hipótese lexicalista”, a IN é apenas um tipo de composição de palavra, em que um verbo e um nome formam um verbo complexo com sua própria unidade semântica e tratado como uma única palavra segundo os padrões morfológicos e fonológicos de palavra de cada língua. Segundo esta hipótese, a oração com IN não é derivada de movimentos sintáticos aplicados à oração que seria sua contraparte analítica, em que o nome não está incorporado. A IN seria apenas um tipo de composição de palavra em que, ao invés dos típicos dois ou mais nomes ou nomes junto a morfemas ou a clíticos, os elementos compostos seriam um nome e um verbo. Ao contrário desta interpretação, há a explicação proposta por Baker (1988), que interpreta o fenômeno da IN como um fenômeno estritamente sintático. Para mais detalhes, ver seção “A Hipótese Sintática
de Baker (1988)”.
Entre os principais trabalhos que interpretam o fenômeno da IN como um fenômeno lexical, podemos citar o de Mithun (1984), o de Di Sciullo e Williams (1987) e o de Rosen (1989). Segundo Mithun (1984), embora o fenômeno seja aparentemente sintático e esse processo de composição de palavras seja talvez o mais sintático de todos os processos morfológicos, a IN é um mecanismo morfológico que produz itens lexicais, e não sentenças (MITHUN, 1984: 847).
Entre os três trabalhos citados acima, o de Mithun (1984) destaca-se por ter proposto uma classificação tipológica do fenômeno entre diversas línguas do mundo, segundo uma hierarquia implicacional encontrada pela autora em que a existência de um tipo de IN pressupõe a existência de outros. Segundo a autora, podemos observar 4 principais tipos de IN entre as línguas naturais. Nesta seção, traremos a classificação proposta por esta autora.
Já no início de seu artigo, Mithun (1984:847) afirma que a IN é um processo morfológico muito próximo dos processos sintáticos. Contudo, um exame deste processo em línguas de diversas regiões e geneticamente divergentes indica que, onde a sintaxe e a morfologia divergem, a IN é um sólido mecanismo morfológico que produz itens lexicais, e não sentenças.
Após uma análise de casos de IN em mais de 100 línguas de diferentes famílias, a autora observou quatro funções distintas, porém relacionadas, que a IN pode exercer em uma língua. Além disso, a autora mostrou que essas funções são implicacionais, ou seja, se uma língua apresenta uma determinada função (a do Tipo IV, por exemplo), ela necessariamente apresentaria as demais funções anteriores (as dos Tipos I, II e III).
Esta hierarquia implicacional sugere um caminho ao longo do qual a IN se desenvolve historicamente. As diferenças em sua produtividade entre as línguas mostram, para a autora, que este
desenvolvimento pode ser detido em qualquer ponto. Uma vez que o processo de IN começa a decair em uma língua, ele não necessariamente está destinado a desaparecer completamente em uma língua. Em algumas línguas, relíquias de antigos processos de IN se transformaram em um sistema produtivo de afixação, em que os afixos podem ser antigos nomes incorporados, antigos verbos incorporantes ou ambos. Ao final desta seção, veremos que o trabalho de Fleck (2006) em línguas da família Pano aborda exatamente a possibilidade de parte do atual sistema de afixação em Matsés ter sido derivada de antigos processos de IN que não são mais produtivos atualmente.
No Tipo I, denominado pela autora como lexical compounding (composição lexical), a composição nome-verbo é geralmente utilizada para nomear atividades habituais e o verbo complexo derivado perde uma valência. Abaixo temos um exemplo de IN de Tipo I em Tupinambá, retirado de Mithun (1984: 856). Em (1), o nome pɨsá ‘rede de pesca’ é incorporado ao verbo eytɨk ‘lançar/jogar’, formando uma única palavra a-pɨsá-eytɨk ‘eu lanço a rede de pesca’. A autora não apresenta a versão da sentença abaixo sem incorporação.
(1)1 a-pɨsá-eytɨk
‘I-fishnet-throw’ ‘I net-throw’
No Tipo II, chamado de the manipulation of case (manipulação de caso), a IN não diminui a valência verbal, pois um argumento oblíquo ocupa o espaço deixado pelo NI. Geralmente, o nome possuído é inalienável e geralmente se refere a uma parte do corpo humano (MITHUN, 1984:858). Nesse tipo de IN, o verbo não diminui de valência, pois o adjunto passa a ocupar a posição de objeto deixada pelo nome incorporado. Essa ascensão do adjunto à posição de objeto é conhecida na literatura como “ascensão do possuidor”.
Abaixo, temos um exemplo de IN em Guarani Paraguaio que seria classificado como de Tipo II na tipologia proposta por Mithun (1984). O exemplo foi retirado da obra de Velázquez-Castillo (1995:687). Em (2), o nome hova ‘rosto/face’ é incorporado ao verbo hei ‘lavar’, enquanto o possuidor do rosto, pe-mitã ‘aquela criança’, passa a ser o objeto direto do verbo. A segunda sentença de (2) é a versão sem IN.
1 Tradução: a-pɨsá-eytɨk
‘Eu-rede.de.pesca-lançar ‘Eu rede-lanço’
(2)2 a. a-hova-hei-ta pe-mitã
‘1AC-face-wash-FUT that-child’
‘I’ll wash that child’s face’ lit. ‘I’ll face-wash the child’
b. a-johei-ta pe-mitã rova
1AC-wash-FUT that-child face
‘I’ll wash that child’s face’
No Tipo III, denominado the manipulation of discourse structure (manipulação da estrutura discursiva), a IN é utilizada para fazer referência a um termo já conhecido, funcionando de modo análogo ao sistema de pronomes das línguas indo-europeias. Geralmente, as línguas em que ocorre esse tipo de IN são polissintéticas (MITHUN, 1984:859). Segundo Muro (2009:178), esse tipo de IN remediaria a carência de um sistema de pronomes desenvolvido em línguas polissintéticas. Apesar de esse tipo de IN ser altamente produtivo, Mithun (1984:862-863) observa que sua produtividade é governada tanto por acidentes lexicais – há nomes que são incorporáveis, há outros que jamais o são, há verbos mais incorporantes que outros – como por questões pragmáticas – por exemplo, a animacidade geralmente afeta a incorporabilidade3 dos nomes. Além disso os falantes estão
conscientes de quando se está criando uma nova palavra (MITHUN, 1984:863-864).
Mithun (1984:864) afirma que, em qualquer língua em que se encontre este Tipo III de IN, algumas combinações foram criadas porque os falantes precisaram dessas combinações, enquanto outras combinações ainda não foram criadas, mas podem ser a qualquer momento, e outras combinações nunca serão criadas. Algumas raízes nominais podem ser facilmente incorporadas, enquanto outras nunca o são. Algumas raízes verbais são altamente incorporantes, enquanto outras não.
Abaixo temos um exemplo de diálogo em Huahtla Nahuatl em que ocorre o Tipo III de IN, retirado de Mithun (1984:860-861). Em (3), quando o falante A se refere ao nome nakatl ‘carne’ pela primeira vez no diálogo, o nome aparece como palavra independente. Quando o falante B retoma o mesmo nome já citado anteriormente no diálogo, nakatl ‘carne’ aparece incorporado ao verbo kwa ‘comer’. Com este exemplo, observa-se claramente que o Tipo III de IN desempenha um papel semelhante ao dos pronomes anafóricos em línguas indo-europeias.
2 Tradução: a. a-hova-hei-ta pe-mitã
‘1AC-rosto-lavar- FUT aquela-criança’ ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’
lit. ‘Eu rosto-lavarei a criança’
b. a-johei-ta pe-mitã rova
1AC-lavar-FUT aquela-criança rosto ‘Eu lavarei o rosto daquela criança’
3O termo incorporabilidade se refere à condição de um nome poder ser incorporado, mas que não necessariamente aparece
(3)4 A: askeman ti-'-kwa nakatl
‘never you-it-eat meat’ ‘you never eat meat’
B: na' ipanima ni-naka-kwa
‘I always I-meat-eat’
‘I eat it (meat) all the time’
No Tipo IV, chamado de classificatory noun incorporation (incorporação nominal classificatória), a IN permite a incorporação de um substantivo genérico, mas o verbo complexo não reduz sua valência e esse substantivo genérico é “duplicado” na oração por um substantivo mais específico que não se encontra incorporado. Visto que os substantivos incorporados são genéricos, frequentemente surge na língua um “sistema classificatório” (MITHUN, 1984:863).
Abaixo temos um exemplo de Tipo IV de IN na língua Gunwinygu. O exemplo foi retirado de Mihtun (1984:867). Em (4), o nome dulg ‘árvore’ é incorporado ao verbo naŋ ‘ver’, enquanto o nome mangaralaljmayn ‘castanha de caju’ aparece como nome independente. Observa-se claramente que o verbo não reduz sua valência e que há uma espécie de duplicação do objeto direto. A duplicação segue o padrão geral encontrado nestes tipos de exemplo: o nome genérico é incorporado (no exemplo,
dulg ‘árvore’) e o nome específico (no exemplo, mangaralaljmayn ‘castanha de caju’) aparece como
nome independente.
(4)5 bene-dulg-naŋ mangaralaljmayn
‘they.two-tree-saw cashew.nut’ ‘They saw a cashew tree’
1.2. Evidências de IN como um processo de lexicalização
Mithun (1984) defende em seu artigo que o processo de IN é essencialmente um processo lexical, ou seja, um processo de formação de palavra. A IN seria apenas mais um tipo de formação verbal, em que há uma raiz nominal incorporada ao verbo, formando-se um verbo complexo que teria status de palavra em diversas línguas, sofrendo inclusive todos os processos fonológicos tipicamente internos à palavra, segundo os próprios padrões da língua em questão quanto ao que é considerado
4 Tradução: A: askeman ti-'-kwa nakatl
‘nunca você-isto-comer carne’ ‘você nunca come carne’
B: na' ipanima ni-naka-kwa
‘Eu sempre eu-carne-comer
‘Eu a (carne) como o tempo todo.’
5 Tradução: bene-dulg-naŋ mangaralaljmayn
‘eles.dois-árvore-viram castanha.de.caju’ ‘Eles viram um pé de caju’
palavra.
Ao introduzir o Tipo I de IN dentro de sua proposta tipológica, Mithun (1984:848) explica como se comporta uma composição típica de palavras. No caso das formações de nomes, uma língua costuma atribuir uma palavra apenas para atividades, entidades ou qualidades que sejam dignas de receberem um léxico só para si. Dessa maneira, exemplifica a autora, “bus money” (dinheiro de ônibus) ou “lunch money” (dinheiro de almoço) seriam considerados mais “name-worthy” (digno de ser nomeado/lexicalizado) do que “sock money” (dinheiro de meia).
Analogamente, na formação de um verbo, a língua lexicaliza apenas determinadas ações e atividades, naturalmente, as mais proeminentes dentro de uma determinada cultura. Segundo a autora, a composição de palavras tem um status lexical que suas contrapartes sintáticas não têm. Mithun (1984:848) exemplifica esse status lexical de algumas composições com algumas sentenças em inglês. Por exemplo, se perguntam onde está determinada pessoa, pode-se responder em inglês: “He is out
berry-picking” (lit. “Ele está lá fora morango-colhendo”) ou “He is off mountain-climbing” (lit. “Ele
está montanha-subindo”). Contudo, não se pode responder “He is out ladder-climbing” (lit. “Ele está escada-subindo”), teríamos que usar a contraparte sintática “He is out climbing a ladder” (“Ele está lá foram subindo uma escada”). A razão é que “ladder-climbing” não é uma atividade institucionalizada em inglês, como o são “berry-picking” e “mountain-climbing”, de modo que as duas últimas são lexicalizadas em inglês, enquanto a primeira não tem um status lexical em inglês.
Se entendemos a IN como de fato um processo de formação de palavras, resta fácil entender por que há uma assimetria na escolha dos NIs. Como toda composição de palavra, a IN só ocorreria na formação de alguns verbos com alguns nomes, já que nem todas as combinações teóricas possíveis de N-V produziriam verbos complexos que designassem uma atividade institucionalizada ou reconhecida como proeminente na língua. Nesse sentido, a hipótese lexicalista é mais explicativa quanto à assimetria lexical encontrada nos processos de IN em diversas línguas ao redor do mundo.
Mithun (1984:847-849) chama atenção para o fato de que toda língua natural que apresenta essa estrutura de IN também preserva sua paráfrase sintática sem IN. A autora argumenta que seria ineficiente que as línguas preservassem expressões equivalentes de maneira tão sistemática. Para ela o fato de construções morfológicas produtivas desse tipo nunca existirem em uma língua sem a existência de sentenças sintaticamente análogas indica que a morfologização deve ser funcional, ou seja, deve ter um propósito/função na língua em questão. Segundo Mithun (1984:848), uma comparação do processo em diversas líguas revela que os falantes sempre incorporam por um propósito, embora este propósito não seja sempre o mesmo.
Os verbos complexos produzidos pelo processo de IN apresentam uma série de características. Segundo Mithun (1984:856), embora haja uma diferença no grau de coesão entre as raízes N e V em diferentes línguas (como apontam os dados da autora das línguas Mokilese, Mam, Lahu, Nisgha,
Gurindji, Comanche), em todos os casos, a raiz verbal V se junta à raiz nominal N para formar um verbo complexo N-V que denota um conceito unitário, de modo que o verbo complexo N-V seria inclusive tratado como um predicado intransitivo pelas línguas. O nome incorporado (NI) perde sua saliência tanto semântica quanto sintática. O NI não se refere a nenhuma entidade específica. Ele funciona apenas como um especificador do verbo, que restringe ou especifica o escopo do verbo sem incorporação nominal.
A autora também afirma que o nome incorporado não é acompanhado por marcadores de definitude, número ou demonstrativos. Embora o nome possa funcionar semanticamente como um paciente, locativo ou instrumento, ele não tem um papel sintático independente na sentença como um todo e, portanto, não é marcado por caso. Como consequência dessa falta de definitude, essas construções não são usadas em quaisquer contextos. Os contextos mais naturais para se usar as sentenças em que o N está incorporado ao V seriam aqueles em que o paciente da ação verbal não se refere a um paciente específico, individualizado. O paciente da ação verbal deve ser genérico, e o verbo complexo N-V geralmente designa uma ação habitual.
Segundo Mithun (1984:856), de uma forma geral, essas construções com IN podem designar ou ser: 1) afirmações genéricas; 2) descrições de atividades em processo nas quais o paciente não está sendo afetado de forma completa; 3) atividades habituais nas quais o paciente específico pode mudar; 4) atividades projetadas nas quais o paciente específico ainda não é identificável; 5) atividades coletivas, onde um agente individual não afeta de forma completa o paciente; ou 6) atividades direcionadas para uma porção não específica de uma massa.
A argumentação de Mithun (1984) de que a IN é um processo essencialmente lexical é convincente para os Tipos I e II de IN, dentro de sua terminologia. Contudo, o Tipo III de IN mostra-se, aparentemente, como um contra-exemplo. Potencialmente, essa funcionalidade da IN é muito mais produtiva que as demais e poderia ser interpretada como essencialmente sintática por causa de sua aparente liberdade de uso e produtividade. Contudo, a autora rejeita essa hipótese. Em sua visão, essa alta produtividade não significa total liberdade de uso, pelo menos não como no sentido sintático. Ainda assim, diz ela, esse processo poderia ser visto como lexical, já que os falantes normalmente têm consciência de que estão criando uma nova palavra ao usar a sentença com o NI. Além disso, a produtividade do processo seria governada tanto por acidente lexical quanto por considerações pragmáticas (MITHUN, 1984:862-863).
Para Mithun (1984:863), mesmo o Tipo III de IN é um processo essencialmente lexical. Ela argumenta que há uma clara assimetria lexical entre os NIs quanto à possibilidade de se incorporarem ao verbo, algo que não seria comum em um processo puramente sintático. Segundo Mithun, certos nomes são mais prováveis de ser incorporados que outros e nomes com um escopo estreito não tendem a ser incorporados. Além disso, a animacidade também afetaria a incorporabilidade dos nomes: nomes
animados tendem a não ser incorporados e, quando o são, tipicamente aparecem nas composições do Tipo I de IN e são genéricos como em “ser uma boa pessoa”. Nomes que refletem pacientes individuais de verbos como em “estar doente” ou “morrer” são raramente incorporados.
A autora também chama atenção para o fato de certos tipos de verbos serem mais incorporantes que outros. Verbos como “assassinar” raramente incorporaria seu paciente porque a vítima provavelmente é importante e individualizada. Além da animacidade, a agentividade também é um fator importante, de forma que o verbo “correr” é improvável de incorporar porque seu único argumento é um agente. Além da animacidade, agentividade e individualidade dos pacientes dos verbos, um segundo fator importante é o escopo de verbo. Verbos de semântica mais geral, em que seu sentido é muitas vezes determinado pelo seu argumento, são mais prováveis de incorporar seu argumento do que verbos de escopo mais estreito.
O grau em que uma ação afeta um paciente também é um fator na incorporabilidade. Por exemplo, verbos em que provavelmente o evento afetará significantemente seus pacientes, tais como “fazer” ou “comer”, são mais incorporantes que verbos com menos efeito em seus pacientes, tais como “olhar para” ou “ouvir”.
Esses padrões de assimetria de nomes mais incorporados que outros e de verbos mais incorporantes que outros são indícios de que o mecanismo de incorporação nominal é um tipo específico de formação de palavra, um processo lexical, e não sintático.
1.3. Tipo IV de IN: um processo sintático ou morfológico?
O Tipo IV de IN também apresenta uma característica que aparentemente contradiz a natureza lexical e endossa a natureza sintática desse processo. Como vimos no início dessa seção, no Tipo IV de IN, uma raiz N semanticamente genérica se incorpora ao verbo, enquanto um NP (sintagma nominal) semanticamente específico identifica o verdadeiro paciente da ação. Em algumas situações, o NI é um verdadeiro hiperônimo do NP independente e frequentemente esses NIs funcionam como classificadores.
Contudo, nem sempre o “nome independente” é mesmo um sintagma nominal. Muitas vezes, o que resta não incorporado aparenta ser, de fato, o adjunto do núcleo de um sintagma nominal, de modo que aparentemente estaríamos diante de um caso explícito em que o núcleo do sintagma nominal se incorporou ao verbo por meio de um movimento sintático e que o que temos como “nome independente” seria apenas os adjuntos desse sintagma nominal, como podemos observar no exemplo (5) abaixo. Esses exemplos de IN parecem ser claramente de natureza sintática. Contudo, essa natureza aparentemente sintática do Tipo IV de IN é rejeitada pela autora.
pode estar sozinho e o núcleo estaria incorporado ao verbo. Abaixo temos um exemplo do Tipo IV de IN. Em (5), vemos que há um processo que aparentemente é sintático: o núcleo de um sintagma nominal, akya'tawi'tsher ‘vestido’, aparece incorporado ao verbo, enquanto o adjunto deste núcleo,
kanekwarunyu ‘pontilhado/de bolinhas’, aparece como elemento independente.
(5)6 Kanekwarunyu wa'-k-akya'tawi'tsher-ui:ni.
it.dotted.DIST PAST-I-dress-make
'I dress-made a polka-dotted one.' ('I made a polka-dotted dress.')
Segundo a autora, tais construções sugerem que a incorporação nominal é um mecanismo sintático, e não lexical. Ela afirma que poderia ser argumentado que um sintagma nominal equivalente a “polka-dotted dress” (vestido de bolinhas) deve ter sido gerado inicialmente e que o núcleo se moveu para o verbo por meio de uma regra sintática. Contudo, a autora descarta esta hipótese, afirmando que línguas que exibem estruturas como as do exemplo acima também exibem estruturas como em (6):
(6)7 Kanekwarunyu wa'katkdhtho.
it.dotted.DIST PAST.I.see
'I saw a polka-dotted (one).'
Como vemos neste último exemplo, kanekwarunyu ‘pontilhado/de bolinhas’ funciona como um sintagma independente sem a presença de IN. O último exemplo seria apropriado sempre que o objeto está claro pelo contexo, linguístico ou pragmático. O nome não precisa ter sido explicitamente mencionado em um discurso precedente, segundo a autora.
Apesar da alta produtividade do processo de IN atestada em algumas línguas, o mecanismo ainda seria lexical para Mithun. Em Mohawk, a alta produtividade deste processo traz uma aparência sintática para o processo, mas os falantes teriam consciência do status lexical desses verbos complexos, segundo o relato da autora. Mithun (1984:872) afirma que, embora o número de combinações N-V seja aparentemente ilimitado, os falantes têm consciência da natureza lexical das combinações. Segundo a autora, eles não só sabem quando essas construções seriam possíveis, mas também quais dessas combinações realmente existem, ou seja, quais dessas combinações seriam de fato lexicalizadas. Processos puramente sintáticos não apresentam estas características, o que reforça
6 Tradução: Kanekwarunyu wa'-k-akya'tawi'tsher-ui:ni.
isto.de.bolinhas.DIST PAST-eu-vestido-fazer
'Eu vestido-fiz um de bolinhas.' ('Eu fiz um vestido de bolinhas')
7 Tradução: Kanekwarunyu wa'katkdhtho.
isto.de.bolinhas.DIST PAST.I.ver 'Eu vi um de bolinhas.'
a hipótese lexicalista. Mithun (1984:872) relata que os falantes da língua Mohawk se lembram de quem usa uma palavra não usada por outros, mesmo quando se trata de combinações que são feitas a partir de raízes altamente incorporáveis (N) ou incorporantes (V). Embora o léxico de um falante de Mohawk possa ser muito grande por causa da alta produtividade do Tipo IV de IN, ele ainda assim é bem definido e limitado.
1.4. IN ao longo do tempo
Outro ponto relevante para a tese de Mithun (1984) é a questão diacrônica. Para a autora, a hierarquia implicacional encontrada por ela entre as funções que a IN pode desempenhar mostra como a IN pode ter se desenvolvido historicamente nas línguas naturais. Segundo a autora, uma comparação de processos de IN em línguas aparentadas mostra que o processo não dura para sempre em uma língua. Muitas famílias contêm línguas que apresentam a IN como processo produtivo, mas também contêm línguas em que não há nenhum processo de IN. Esse fato é uma evidência de que esse processo morfológico pode, a priori, surgir ou desaparecer (MITHUN, 1984:872).
Embora em nenhuma língua se tenha documentado o surgimento espontâneo desse processo, em algumas línguas há processos que potencialmente poderiam vir a ser de fato uma IN. A autora cita o trabalho de Hopper & Thompson (1980), em que os autores afirmam haver uma forte pressão tipológica entre as línguas ao redor do mundo para que os Vs fusionem com objetos diretos indefinidos. A autora traz algumas sentenças do Húngaro retiradas do trabalho de Hooper & Thompson (1980), que por sua vez retiraram de Bese et al. (1970).
Entre os exemplos abaixo, retirados de Mithun (1984:872), o exemplo (7) mostra que, em Húngaro, os objetos diretos que são referenciais e definidos seguem o verbo e são indexados no verbo por meio de um marcador de definite transitivity “transitividade definida”. Em (8), observamos que, quando o objeto é referencial, mas é indefinido, o marcador verbal -sa não aparece mais como sufixo do verbo olvas ‘ler’, mas o objeto direto újságot ‘jornal’ continua sendo posto após o verbo, como ocorre quando o objeto é definido. Em (9), observamos que, quando o objeto gramatical não é nem definido nem referencial, o objeto újságot ‘jornal’ precede o verbo olvas ‘ler’, que por sua vez não apresenta o marcador -sa. O último dos três exemplos apresenta características típicas de IN, como a falta de definitude e referencialidade do objeto direto e a coesão entre esse objeto e o verbo.
(7)8 Peter olvas-sa az újságot.
Peter reads-OBJ the newspaper
'Peter is reading the newspaper.'
(8)9 Peter olvas egy újságot
Peter reads a newspaper. 'Peter is reading a [specific] newspaper.' (9)10 Peter újságot olvas.
Peter newspaper reads 'Peter is reading a newspaper.'
Mithun (1984:872-873) faz referência também ao Turco, em que os objetos diretos geralmente recebem um sufixo marcador do caso acusativo, com exceção dos objetos diretos indefinidos, que não recebem nenhuma marca. Em (11), quando o objeto direto pipo ‘cachimbo’ é utilizado como um objeto indefinido, ele não recebe nenhuma marca de acusativo, enquanto em (10), em que pipo se refere a um elemento específico, o nome recebe o sufixo -u, marca de acusativo, além do sufixo -sun, marca de possessivo, que indica a definitude do objeto direto.
(10)11 Ahmet pipo-sun-u ič -iyor.
Ahmet pipe-his-ACC drink-AOR
'Ahmet is smoking his pipe.' (11)12 Ahmet (bir) pipo ič-iyor.
Ahmet (a/one) pipe drink-AOR
'Ahmet is smoking a pipe; Ahmet pipe-smokes.'
Outra evidência que indica que o exemplo (11) é de fato algo muito próximo de IN é que, em Turco, exemplos como esses não permitem que algum elemento se interponha entre o nome supostamente incorporado e o verbo. Assim, como mostram os exemplos abaixo, retirados de Mithun
8 Tradução: Peter olvas-as az újságot.
Peter lê-OBJ o jornal
'Peter está lendo o jornal.'
9 Tradução: Peter olvas egy újságot
Peter lê o jornal.
'Peter está lendo um jornal [específico].'
10 Tradução: Peter újságot olvas.
Peter jornal lê.
Peter está lendo um jornal.'
11 Tradução: Ahmet pipo-sun-u ič -iyor.
Ahmet cachimbo-seu- ACC beber-AOR
'Ahmet está fumando seu cachimbo.'
12 Tradução: Ahmet (bir) pipo ič-iyor.
Ahmet (um) cachimbo beber -AOR
(1984:873), o adjunto adverbial hergün ‘todo dia’, cuja posição natural seria logo antes do verbo e após o objeto, como em (12), será realizado antes do objeto direto em (13), quando este é indefinido. Além disso, quando o objeto direto pipo ‘cachinbo’ é indefinido, como em (13), ele não recebe nenhuma marca de acusativo, enquanto em (12), em que pipo é definido, o nome recebe o sufixo -u, marca de acusativo, bem como o sufixo -sun, marca de possessivo. A autora conclui que o Turco segue a tendência geral de os verbos se fundirem com seus objetos diretos indefinidos e que isso poderia ser um prenúncio de um mecanismo de IN, mais especificamente o Tipo I de IN.
(12)13 Ahmet pipo-sun-u hergün ič-iyor. Ahmet pipe-his-ACC every.day drink-AOR
'Ahmet smokes his pipe every day.' (13)14 Ahmet hergün pipo ič-iyor.
Ahmet every.day pipe drink-AOR
'Ahmet pipe-smokes every day.'
A autora afirma que esses exemplos de fusão entre o verbo e um objeto direto indefinido, como os encontrados em Húngaro e em Turco, dão uma pista preciosa de como o processo de IN pode surgir em uma língua. Para Mithun, o grau de coesão entre o V e o NI é primariamente uma característica morfológica geral da língua em questão, de modo que, em línguas analíticas, como o Lahu, o constituinte das composições usualmente retêm sua identidade como palavras independentes. Em línguas mais sintéticas, como Nisgha, os constituintes são geralmente fundidos em uma única palavra (MITHUN, 1984:873-874).
O mais interessante dos dados das línguas geneticamente aparentadas é a hierarquia implicacional encontrada pela pesquisadora. Para Mithun (1984:891), essa hierarquia implicacional aponta para uma trilha específica de desenvolvimento a ser trilhada pela IN, quando esta surge em uma língua. Na opinião da linguista, o ponto de partida é o Tipo I de IN, na qual uma raiz nominal e uma raiz verbal se combinam para formar um verbo complexo N-V intransitivo que denota uma atividade unitária e digna de ser lexicalizada.
Quando a língua apresenta o Tipo I de IN, ela pode começar a apresentar o Tipo II, pois o sistema pode ser estendido para permitir que um argumento oblíquo significante assuma a posição deixada pelo NI. Nesse segundo estágio, a IN afeta as relações de caso dentro da oração, mas o verbo mantém sua valência, já que um argumento interno é incorporado ao verbo e outro argumento oblíquo,
13 Tradução: Ahmet pipo-sun-u hergün ič-iyor.
Ahmet cachimbo-seu-ACC todo.dia beber-AOR 'Ahmet fuma seu cachimbo todo dia.'
14 Tradução: Ahmet hergün pipo ič-iyor.
Ahmet todo.dia cachimbo beber-AOR 'Ahmet cachimbo-fuma todo dia.'
geralmente proeminente, assume o lugar como novo argumento interno.
A autora prossegue em sua explicação quanto ao caminho trilhado pela IN nas línguas naturais e afirma que, em línguas polissintéticas, o sistema pode evoluir e se estender para o nível do discurso, em que Ns que se referem a uma informação já sabida ou pouco significante podem ser incorporados à raiz verbal para estreitar o escopo do verbo sem a necessidade de um sintagma nominal adicional (a língua estaria aqui já no terceiro estágio de desenvolvimento).
Por fim, afirma a autora, um sistema classificatório pode surgir na língua, de modo que Ns genéricos são sistematicamente incorporados para estreitar o escopo semântico dos Vs incorporantes que não reduz sua valência, enquanto sintagmas mais específicos identificam o verdadeiro referente. É interessante notar que o nome incorporado só pode exercer alguns papeis semânticos, como o de paciente, locativo, instrumento. Embora na IN prototípica o NI é o paciente de verbos transitivos ou intransitivos, há registro de línguas que incorporam o locativo ou o instrumento, ou seja, um adjunto adverbial. Mithun (1984:875) cita algumas dessas línguas junto com suas referências: Nahuatl (ANDREWS, 1975); Takelma (SAPIR, 1922); Sora (RAMAMURTI, 1931). Abaixo temos exemplos com incorporação de instrumento e de locativo.
Os dois exemplos abaixo são, respectivamente, das línguas Takelma e Sora e foram retirados de Mithun (1984:875). Em (14), da língua Takelma, observa-se que tanto o paciente gwen ‘pescoço’ quanto o instrumento waya ‘faca’ são incorporados ao verbo sgo ̄́ut ‘cortar’. Em (15), da língua Sora,
observa-se que o locativo 'ɟeŋ ‘perna’ (no contexto, “até a sua perna”) está incorporado ao verbo.
(14)15 gwen-waya-sgo ̄́ut-hi.
neck-knife-cut-he/them
'He cut their necks off with his knife.' (15)16 ɟi-lo:-'ɟeŋ-t-am.
Stick-mud-leg-will-you 'Mud will stick to your leg.'
Segundo Mithun (1984:875-876), essas incorporações de elementos que funcionam como adjuntos adverbiais aparentemente não são nem mais nem menos prováveis de ocorrerem em função do nível em que a língua se encontra dentro de sua tipologia. As línguas também diferem quanto à similaridade das formas entre as raízes do NI e sua contraparte independente. Assim, em Tupinambá, o N poro ‘carne humana’ é incorporado como -por-, e kawi ‘cauim’ é incorporado como -ka-. Em
15 Tradução: gwen-waya-sgo ̄́ut-hi. pescoço-faca-cortar-ele/eles
'Ele corta fora o pescoço deles com sua faca.'
16 Tradução: ɟi-lo:-'ɟeŋ-t-am.
grudar-lama-perna-vai-você
algumas línguas, a discrepância entre o nome incorporado e o nome independente é muito maior, como o caso de Mohawk.
Segundo Mithun (1984:876), em Mohawk, em alguns casos de IN, os falantes precisam aprender uma raiz que será usada apenas incorporadas a um V e outra raiz semanticamente equivalente que será usada como palavra independente. Assim, -nahskw- ‘animal doméstico’ só aparece incorporado a um V, enquanto o equivalente semântico -tshenv aparece apenas como um N independente. Analogamente, em algumas línguas, há raízes verbais V que são usadas apenas com um N incorporado, enquanto há outra raiz verbal semanticamente equivalente que é usada apenas como palavra independente e que não necessariamente é cognata à raiz V incorporante.
Em algumas línguas, afirma Mithun (1984:887), há “afixos” que podem corresponder a Vs incorporantes em outras línguas. Segundo a pesquisadora, as línguas Chukotko-Kamchatkan, que apresentam o Tipo III de IN, também têm pequenos conjuntos de afixos que, quando adicionados a Ns, funcionam exatamente como Vs incorporantes.
Mithun (1984:887) afirma que Bogoras (1922) nunca justificou a distinção feita por ele entre “sufixos derivacionais” e raízes de Vs incorporantes. O mais provável, diz Mithun, é que esses sufixos derivacionais encontrados em Koryak e Chukchi nada mais sejam do que antigas raízes de Vs que, no estado atual da língua, nunca ocorrem sem um NI.
Mithun (1984:887-889) também faz referência ao trabalho de Swadesh (1948), em que o autor afirma que há um conjunto de 400 sufixos em Nootka, alguns dos quais cognatos com raízes e sufixos de outras línguas aparentadas ou próximas geograficamente. Segundo a autora, Swadesh sugere que alguns desses sufixos-raízes em Nootka podem ter sido gerados de palavras pospostas que se transformaram em sufixos.
Essa relação discrônica entre um sistema atual de afixos e antigos Ns incorporados e Vs incorporantes é observada por outros autores em línguas de outras famílias e de diferentes regiões geográficas. Fleck (2006:59) fez uma análise da língua Matsés (Pano) com o objetivo de abordar a questão do status de um conjunto de 28 formas monossilábicas que se anexam a raízes verbais, adjetivais e nominais e que representam frequentemente partes do corpo humano. Segundo o autor, conjuntos similares são encontrados em outras línguas da família Pano, e há uma discussão entre os especialistas se o correto seria considerar essas formas como casos de afixação lexical ou como casos de incorporação nominal (IN). O autor defende a tese da afixação lexical.
Em um artigo mais recente, Biondi & Fleck (2012) analisam essas formas monossilábicas na língua Kashibo-Kakataibo (Pano) e defendem a tese de que esses prefixos não são alomorfes de nomes que designam parte do corpo humano, mas sim morfemas sincronicamente independentes desses nomes.
devem ser analisados como alomorfes sincrônicos dos nomes correspondentes, mas sim como um conjunto fechado de prefixos que são sincronicamente independentes de suas raízes correspondentes. Biondi & Fleck (2012:386) rejeitam a hipótese de que se trata de incorporação nominal, embora reconheçam que outros trabalhos trazem esta abordagem. Eles afirmam que se esses afixos fossem processos de IN, haveria uma relação sincrônica entre os prefixos e os nomes independentes, relação que segundo eles não existe.
Segundo Biondi & Fleck (2012:399-400), há duas análises possíveis desses prefixos: a sincrônica e a diacrônica. Na análise sincrônica, esses prefixos seriam alomorfes de raízes que são nomes independentes. Segundo os autores, alguns especialistas em línguas Pano sugerem que estes prefixos seriam derivados, por regra sincrônica, de nomes completos que seriam reduzidos a seus primeiros segmentos quando anexados à frente de um nome, adjetivo ou verbo. Os prefixos que não correspondem exatamente aos primeiros segmentos do nome que designa uma parte do corpo humano seriam irregularidades. Na análise diacrônica, esses prefixos representam um conjunto fechado de prefixos independentes. As semelhanças com as raízes correspondentes que designam partes do corpo humano seriam apenas uma relação passada. A relação exata entre os prefixos e as raízes correpondentes permanece desconhecida, no sentido de que é difícil chegar a uma conclusão final sobre qual seria a forma primitiva. Embora seja tentador afirmar que os prefixos são derivados diacronicamente dos nomes, e não o contrário, os autores sugerem que pelo menos alguns dos prefixos parecem ser mais antigos que as raízes correspondentes (BIONDI & FLECK, 2012:399-400).
Como vimos, Mithun (1984:885-889) cita diversos trabalhos, entre os quais o de Bogoras (1922) e o de Jacobsen (1980), para mostrar que é comum que raízes dentro de composições permaneçam no léxico da língua, ainda que seus cognatos independentes tenham sido substituídos. As línguas Nadëb (Maku) e Tonga (Austronésia) também apresentam um fenômeno que não é exatamente IN, mas que está relacionado a este fenômeno morfossintático sob uma perspectiva diacrônica. O que estas duas línguas apresentam são casos conhecidos na literatura como noun
stripping. Gerdts (1998) afirma que, quando ocorre um noun stripping, os dois elementos (nome e
verbo) permanecem como palavras separadas de acordo com critérios fonológicos, como o deslocamento tônico. De qualquer forma, há uma unidade entre o nome e o verbo. Em Kusaiean (Austronésia), afirma Gerdts, os advérbios podem aparecer após um verbo, mas não entre um verbo e um stripped noun, por exemplo. Ou seja, se por um lado não podemos considerar essa construção N-V como uma única palavra dentro dos padrões fonológicos do que seja palavra em cada língua em questão, por outro lado há uma coesão, uma unidade sintática entre o N e o V, que proíbe, por exemplo, a interposição de nenhum outro elemento oracional.
De forma intuitiva, poderíamos afirmar que o noun stripping seja uma espécie de precursor da IN. Poderíamos falar de um estágio inicial a partir do qual a língua pode, ou não, desenvolver
casos de IN morfológica, como acontece, por exemplo, em línguas como Munduruku (Munduruku), estudada em Gomes (2008). Em seu trabalho clássico sobre IN, Sapir (1911) afirma que a IN deve ser vista sempre do ponto de vista sincrônico. O autor chama atenção para o perigo de se fazer uma análise descritiva sincrônica enviesada por considerações históricas. De fato, deve-se ter em mente que, do ponto de vista diacrônico, é comum que as línguas naturais sofram processos de gramaticalização, conceito introduzido pelo linguista francês Meillet (1912).
Sincronicamente, há diferenças entre o que poderíamos definir como noun stripping, IN morfológica e afixação lexical, muito embora possamos intuir uma relação histórica entre esses processos. Contudo, essa intuição histórica reforça a tese de que a IN seja essencialmente um processo sintático. Como vimos desde o início dessa seção, essa tese é rejeitada por Mithun (1984) por diversas evidências que mostrariam o status de palavra do verbo complexo N-V. A linguista admite que a produtividade da IN possa ser tão grande a ponto de o léxico da língua ser enorme. Contudo, Mithun rejeita a ideia de essa alta produtividade indicar que se trata de um processo tão livre e tão produtivo quanto um processo verdadeiramente sintático. A autora cita as evidências fonológicas, já que a lexicalização resulta em idiossincrasias fonológicas e semânticas não encontradas em construções genuinamente sintáticas.
Mithun (1984:889) também cita a consciência por partes dos falantes de que essas construções são, de fato, novas palavras do léxico, enquanto novas sentenças com construções sintáticas não lexicalizadas não são percebidas. Segundo a autora, em Mohawk, os falantes nativos relatam o prazer em visitar alguém de outra comunidade e ouvir novas INs pela primeira vez. Embora os nativos não tenham nenhum problema em entender o significado da nova palavra, eles reconhecem que essas palavras não fazem parte do seu amplo léxico. Além disso, quando eles estão criando novas combinados, eles estão conscientes de estar criando novas palavras e muita discussão frequentemente envolve esses eventos.
1.5. Conclusões
Mithun (1984:877) conclui seu artigo afirmando que a IN se comporta como outros processos morfológicos, não importa quão produtivos eles sejam na língua. Como outros morfemas, nomes incorporáveis e V incorporantes se submetem a todas as regras fonológicas sincrônicas da língua. Na visão desta autora, a IN não é de maneira alguma um equivalente às estruturas sintáticas básicas comumente encontradas em línguas indo-europeias. Para ela, a IN é essencialmente um processo morfológico, um processo de formação de palavra, não um processo sintático. A IN é sempre funcional e pode ser usada para alcançar, inclusive, efeitos estilísticos. Segundo Mithun (1984:891), os falantes que usam bem o processo de IN podem ser especialmente adimirados, enqanto falantes